Sunday, 20 of May of 2012

Tag » vocação

Vocação para a Santidade

 

A DESCOBERTA DA VOCAÇÃO pessoal é o momento mais importante de toda a vida. Da resposta fiel a essa chamada divina dependem a felicidade própria e a de muitos outros. Deus cria-nos, prepara-nos e chama-nos em função de um desígnio eterno. “Se hoje em dia tantos cristãos vivem à deriva, com pouca profundidade e limitados por horizontes pequenos, isso se deve sobretudo à falta de uma consciência clara da sua própria razão de ser e de existir [...]. O que eleva o homem, o que realmente lhe confere uma personalidade, é a consciência da sua vocação, a consciência da sua tarefa concreta. Isso é o que enche uma vida de conteúdo”1.

A decisão inicial de seguir o Senhor é, porém, a base de muitas outras chamadas ao longo da vida. A fidelidade realiza-se dia após dia, normalmente em coisas que parecem de pouca importância, nos pequenos deveres cotidianos, no cuidado em afastar tudo aquilo que possa ferir o que é a essência da própria vida. Não basta preservar a vocação; é preciso renová-la, reafirmá-la constantemente: quando parece fácil e nos momentos em que tudo custa; quando os ataques do mundo, do demônio e da carne se manifestam em toda a sua violência.

Teremos sempre a ajuda necessária para sermos fiéis. Quanto mais dificuldades, mais graças. E com a luta ascética bem determinada – com um exame particularbem concreto –, o amor cresce e se robustece com o passar do tempo; e a entrega, afastada toda a rotina, torna-se mais consciente, mais madura. “Não se trata de um crescimento de tipo quantitativo, como o de um montão de trigo, mas de um crescimento qualitativo, como o do calor que se torna mais intenso, ou como o da ciência que, sem chegar a novas conclusões, se torna mais penetrante, mais profunda, mais unificada, mais certa. Assim, pela caridade tendemos a amar mais perfeitamente, de modo mais puro, mais intimamente, a Deus acima de tudo, e ao próximo e a nós mesmos para que glorifiquemos a Deus neste tempo e na eternidade”2. É esse o crescimento que o Senhor nos pede.

Esforçar-se por crescer em santidade, em amor a Cristo e a todos os homens por Cristo, é assegurar a fidelidade e conseqüentemente uma vida plena de sentido, de amor e de alegria. São Paulo servia-se de uma comparação tirada das corridas no estádio para explicar que a luta ascética do cristão deve ser alegre, como um autêntico esporte sobrenatural. E ao considerar que não tinha atingido a perfeição, dizia que lutava por alcançar o que fora prometido: Uma só coisa é a que busco: lançar-me em direção ao que tenho pela frente, correr para a meta, para alcançar o prêmio a que Deus nos chama das alturas3.

Desde que Cristo irrompeu na sua vida na estrada de Damasco, Paulo entregou-se com todas as suas forças à tarefa de procurá-lo, amá-lo e servi-lo. Foi o que fizeram os demais Apóstolos a partir do dia em que Jesus passou por eles e os chamou. Os defeitos que tinham não desapareceram naquele instante, mas eles seguiram o Mestre numa amizade crescente e souberam ser-lhe fiéis. Nós devemos fazer o mesmo, correspondendo diariamente às graças que recebemos, sendo fiéis cada dia. Assim chegaremos à meta em que Cristo nos espera.

(1) F. Suárez, A Virgem Nossa Senhora, Aster, Lisboa, pág. 29; (2) R. Garrigou-Lagrange, La Madre del Salvador, Rialp, Madrid, 1976, pág. 106; (3) cfr. Fil 3, 13-14.

Fonte: Falar com Deus


Leave a comment

Oração pelas vocações sacerdotais e religiosas – Dom Luciano José Cabral Duarte


Partilho esta oração rezada em todas as paróquias da Arquidocese de Aracaju, escrita pelo então Arcebispo Metropolitano na época em que a Arquidiocese passou quase uma década para ordenar um sacerdote… por causa da ampla propaganda em favor de um modelo de sacerdote, agente transformador das massas, o seminário esvaziou-se. Dom Luciano conclamou por sacedotes enquanto "dignos ministros do Altar, santos e dedicados pastores do povo cristão!

Quanto frutos ainda colhemos, quantas vocações foram  despertadas por esta tão simples oração, que todo fiel sergipano reza em cada Santa Missa!


ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES E PELOS SACERDOTES

Divino Salvador, Jesus Cristo,/ concedei-nos sacerdotes santos,/ inflamados no fogo de vosso amor,/ totalmente doados à edificação da vossa Igreja./
E vós, ó Maria,/ Mãe dos sacerdotes,/ vós que sois a onipotência suplicante,/ socorrei-os a todos,/ nos trabalhos e dificuldades que se encontrarem./
Virgem Mãe e Rainha dos Apóstolos de Jesus,/ aumentai nas famílias/ o respeito e o amor ao sacerdócio; suscitai novas vocações sacerdotais e religiosas./ Guiai nossos seminaristas/ para que sejam mais tarde,/ dignos Ministros do Altar,/ santos e dedicados pastores do povo Cristão assim seja!

(Dom Luciano José Cabral Duarte- Autualmente Arcebispo Emérito de Aracaju – SE)

Fonte: Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote


Leave a comment

“Deixa que os mortos enterrem os seus mortos”

Por D Estêvão Bettencourt

Aconteceu que, indo eles pelo caminho, veio um homem que lhe disse: Seguir-te-ei para onde quer que vás. Jesus disse-lhe: As raposas têm seus covis e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.
A outro disse: Segue-me. Mas ele disse: Senhor, permite-me que vá primeiro sepultar meu pai. Mas Jesus respondeu: Segue-me, e deixa que os mortos enterrem os seus mortos; tu vai e anuncia o reino de Deus (Lc 9, 57-60; cfr. Mt 8, 19-22).

O significado dos dizeres acima reproduzidos entende-se bem à luz do respectivo contexto, contexto que no Evangelho de São Lucas é um pouco mais explícito do que no de São Mateus. Na verdade, os Evangelistas nos apresentam sucessivamente duas atitudes dos homens perante uma chamada do Divino Mestre – a chamada para seguirem a Cristo na qualidade de discípulos.

A primeira atitude é a da generosidade aparente, mas superficial. Com efeito, alguém se apresentou ao Divino Mestre afirmando: Mestre, seguir-te-ei para onde quer que vás. A esse fervor pouco experimentado, dizem os Evangelistas, Jesus houve por bem responder com reservas, mostrando as dificuldades do propósito: segui-lo seria expor-se a todas as espécies de privações, pois as raposas têm os seus covis, e as aves do céu os seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça, advertiu o Senhor.

A segunda atitude do homem perante a chamada de Cristo é a da vacilação. Certa vez, o próprio Divino Mestre dirigiu a alguém o convite: Segue-me. Ao que o discípulo replicou: Senhor, permiteme que vá primeiro sepultar meu pai. Não se dando por satisfeito com a resposta, Cristo insistiu: Segue-me, e deixa que os mortos enterrem os seus mortos. Alguns comentadores julgam que o pai do jovem se achava ainda em vida, se bem que gravemente enfermo. O mancebo teria então pedido ao Senhor o prazo mais ou menos longo que decorreria até a morte e o sepultamento do doente, talvez pensando em esquivar-se definitivamente ao convite de Jesus. A maioria dos exegetas, porém, admite que o ancião já morrera e que o jovem pedia apenas o exíguo tempo necessário para participar dos funerais. Como quer que seja, num e noutro caso o pedido parecia muito legítimo: prestar assistência aos genitores e sepultar os mortos eram obras altamente estimadas pelos judeus piedosos*. E já que os judeus costumavam sepultar no próprio dia da morte (cfr. At 5, 5-6), o pedido do jovem não implicaria em grande atraso para seguir o Divino Mestre. Contudo, Jesus não quis reconhecer a legitimidade da súplica.

Não porque o cuidado dos mortos não seja em si uma obra boa, mas porque, no caso focalizado, a atitude do mancebo significava falta de generosidade para com Deus, significava certa covardia ou também um coração dividido entre o amor a Deus e o amor às criaturas. Ora, o Senhor quer ser amado acima de tudo; é, aliás, a reta hierarquia de valores que o exige: ou Deus ocupa o lugar capital na vida do homem, norteando todas as suas atitudes, ou simplesmente dever-se-á dizer que Deus não existe para esse homem; ninguém se iludirá julgando que cultua a Deus pelo fato de Lhe consagrar algumas de suas atitudes ou algumas de suas horas na vida.

O VALOR ABSOLUTO

Uma pequena digressão servirá para ilustrar quanto acabamos de dizer. Um monge hindu dizia com muito acerto: “Deus é a unidade sem a qual só existem zeros”. Com efeito, Deus é, por definição, o Ser Absoluto – o que significa: o Valor Absoluto. Deus é, sim, o Valor que torna valiosa toda e qualquer criatura, e sem o qual esta é vazia e enganadora. Imaginemos uma série de três zeros, outra de seis, outra de nove zeros:

000

000.000

000.000.000

Os zeros que se acrescentam aos zeros nada alteram; tudo fica sendo zero… Mas coloquemos o número Um, uma só unidade, coisa simplicíssima, na série… Se pusermos o “Um” em último lugar, o conjunto, por mais longo que seja, ficará valendo muito pouco, será uma ninharia… Se o colocarmos em penúltimo lugar, já o conjunto valerá dez, o que ainda é muito pouco… Caso ponhamos a unidade em terceiro, em quarto, em quinto lugar, a série irá aumentando de valor (cem, mil, dez mil…). Finalmente, se se coloca o número Um à frente de cada série, ter-se-á:

1.000 = mil

1.000.000 = um milhão

1.000.000.000 = um bilhão

Coisa estupenda! Os zeros tomam imenso valor desde que o “Um” lhes seja anteposto e os ilumine. Pois bem; Deus é esse “Um” sem o qual as criaturas nada são. Se Deus ficar em último lugar na vida do homem, esta se apresentará sempre como insípida bagatela, ninharia vazia… Uma vez, porém, que se ponha Deus incondicionalmente em lugar capital, cada bagatela, cada zero da vida toma valor imprevistamente grande. O homem pode acumular mil bens criados no seu tesouro; se chegarem a fazer empalidecer ou a remover a face de Deus no horizonte do indivíduo, esses bens, por mais numerosos que sejam, equivalerão a uma longa série de zeros; deixarão o seu possuidor sempre frustrado e insatisfeito… Mas se o cristão puser Deus à frente de cada criatura e procurar ver tudo sob a perspectiva dEle, então e somente então esse homem começará a compreender o valor das criaturas; começará a compreender também que seguir Cristo é o maior de todos os bens e que a vida, vivida em fidelidade absoluta ao Senhor, vale, apesar de tudo, a pena de ser vivida!

Voltando ao texto do Santo Evangelho, diremos conseqüentemente que, no caso da chamada dirigida pessoalmente por Jesus ao jovem, só uma resposta era adequada: a aceitação imediata, não postergada por qualquer outra tarefa; embora esta fosse em si legítima – como o sepultamento dos mortos –, naquelas circunstâncias tornava-se condenável porque, em vez de levar o discípulo a amar mais a Deus, servia para diminuir e entibiar a sua adesão ao Bem Infinito. Eis o motivo da insistência apresentada por Cristo. Contudo, a segunda parte da frase do Senhor costuma também causar estranheza: Deixa que os mortos enterrem os seus mortos. A construção da frase é evidentemente artificiosa, pois, como de antemão se pode conjeturar, faz duplo emprego do termo “mortos”. Em suma. Jesus quer dizer que, para sepultar cadáveres materiais – ou os mortos, no sentido físico –, há sempre gente suficiente; há, sim, todos aqueles que não são chamados à vida da graça e do apostolado, gente talvez indiferente aos interesses do Reino de Deus. Tais pessoas vivem para o mundo e para as tarefas deste mundo; são por Jesus designadas metaforicamente como “mortos”… Esta figura de linguagem, forte como é, justifica-se pelo desejo que Jesus tem de realçar a grandeza e a premência da vocação dirigida ao jovem mancebo; chamado a seguir diretamente a Jesus, ele possui o quinhão por excelência, em comparação com o qual tudo empalidece ou desaparece, morre. A figura também se explica pelo uso dos rabinos, que costumavam considerar como mortos – em espírito – os indivíduos que viviam alheios ao Reino de Deus. Aliás, um eco bem significativo desse uso ressoa no texto de São Paulo: A viúva que vive em prazeres está morta, embora pareça viva (1 Tim 5, 6). Conseqüentemente, os mestres de Israel tinham os homens piedosos na conta de “vivos”, mesmo que estes se vissem atribulados e condenados à morte (cfr. 2 Cor 4, 7-12). Por conseguinte, Jesus quer incutir ao discípulo que Ele chama a preciosa norma: “Deixa o cuidado dos mortos ou, mais amplamente ainda, o cuidado das coisas mortais ou temporais, aos homens que, por desconhecerem valores mais elevados, se dedicam profissionalmente a isso; tu, porém, que recebeste a melhor das vocações, não queiras viver como se não a tivesses, mas volta-se decididamente para os valores eternos”. Durand comenta assim as palavras de Jesus: “Admiramos o soldado que, no caso de extremo perigo da pátria, permanece em seu posto na frente de combate, deixando aos de trás o cuidado de sepultar o seu pai. Como então nos contentaríamos com uma dedicação menor, ao tratar-se do Reino de Deus?” (Com. em Mateus, 133). Por fim, o episódio que acabamos de analisar ainda sugere uma reflexão: em dados momentos da vida, a maior graça que Deus pode conceder a uma alma é a de pedir-lhe um ato de heroísmo. Esse ato, esse impulso forte, ainda que faça sofrer, vem a ser a condição imprescindível para que o cristão se eleve acima de seus interesses temporais ou para que fortaleça a sua verdadeira vida, e não se torne um morto a sepultar mortos no cemitério das coisas temporais.

“Páginas dfíceis do Evangelho”, 2ª ed., Quadrante, São Paulo, 1993, págs. 23-29.


Leave a comment

“Deixa que os mortos enterrem os seus mortos”

Por D. Estêvão Bettencourt, OSB
Aconteceu que, indo eles pelo caminho, veio um homem que lhe disse: Seguir-te-ei para onde quer que vás. Jesus disse-lhe: As raposas têm seus covis e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.

A outro disse: Segue-me. Mas ele disse: Senhor, permite-me que vá primeiro sepultar meu pai. Mas Jesus respondeu: Segue-me, e deixa que os mortos enterrem os seus mortos; tu vai e anuncia o reino de Deus (Lc 9, 57-60; cfr. Mt 8, 19-22).

ATITUDE PERANTE A VOCAÇÃO

O significado dos dizeres acima reproduzidos entende-se bem à luz do respectivo contexto, contexto que no Evangelho de São Lucas é um pouco mais explícito do que no de São Mateus.

Na verdade, os Evangelistas nos apresentam sucessivamente duas atitudes dos homens perante uma chamada do Divino Mestre – a chamada para seguirem a Cristo na qualidade de discípulos.

A primeira atitude é a da generosidade aparente, mas superficial. Com efeito, alguém se apresentou ao Divino Mestre afirmando: Mestre, seguir-te-ei para onde quer que vás. A esse fervor pouco experimentado, dizem os Evangelistas, Jesus houve por bem responder com reservas, mostrando as dificuldades do propósito: segui-lo seria expor-se a todas as espécies de privações, pois as raposas têm os seus covis, e as aves do céu os seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça, advertiu o Senhor.

A segunda atitude do homem perante a chamada de Cristo é a da vacilação. Certa vez, o próprio Divino Mestre dirigiu a alguém o convite: Segue-me. Ao que o discípulo replicou: Senhor, permite-me que vá primeiro sepultar meu pai. Não se dando por satisfeito com a resposta, Cristo insistiu: Segue-me, e deixa que os mortos enterrem os seus mortos.

Alguns comentadores julgam que o pai do jovem se achava ainda em vida, se bem que gravemente enfermo. O mancebo teria então pedido ao Senhor o prazo mais ou menos longo que decorreria até a morte e o sepultamento do doente, talvez pensando em esquivar-se definitivamente ao convite de Jesus. A maioria dos exegetas, porém, admite que o ancião já morrera e que o jovem pedia apenas o exíguo tempo necessário para participar dos funerais.

Como quer que seja, num e noutro caso o pedido parecia muito legítimo: prestar assistência aos genitores e sepultar os mortos eram obras altamente estimadas pelos judeus piedosos*. E já que os judeus costumavam sepultar no próprio dia da morte (cfr. At 5, 5-6), o pedido do jovem não implicaria em grande atraso para seguir o Divino Mestre. Contudo, Jesus não quis reconhecer a legitimidade da súplica.

——————————————–

(*) Em particular, o sepultamento dos defuntos era tido como dever tão imperioso que os rabinos dispensavam das orações usuais e do estudo da Lei os filhos que tivessem por sepultar pai ou mãe (cfr. o tratado do Talmud, Berachot 17, 2); além disso, a própria Escritura Sagrada, por suas narrativas, muito parecia recomendar aos filhos o cuidado de sepultarem os seus pais (cfr. Gên 25, 9; 50, 5; Tob 1, 21; 2, 3-7; 4, 3).

———————————————

Não porque o cuidado dos mortos não seja em si uma obra boa, mas porque, no caso focalizado, a atitude do mancebo significava falta de generosidade para com Deus, significava certa covardia ou também um coração dividido entre o amor a Deus e o amor às criaturas. Ora, o Senhor quer ser amado acima de tudo; é, aliás, a reta hierarquia de valores que o exige: ou Deus ocupa o lugar capital na vida do homem, norteando todas as suas atitudes, ou simplesmente dever-se-á dizer que Deus não existe para esse homem; ninguém se iludirá julgando que cultua a Deus pelo fato de Lhe consagrar algumas de suas atitudes ou algumas de suas horas na vida.

O VALOR ABSOLUTO

Uma pequena digressão servirá para ilustrar quanto acabamos de dizer.

Um monge hindu dizia com muito acerto: “Deus é a unidade sem a qual só existem zeros”. Com efeito, Deus é, por definição, o Ser Absoluto – o que significa: o Valor Absoluto. Deus é, sim, o Valor que torna valiosa toda e qualquer criatura, e sem o qual esta é vazia e enganadora. Imaginemos uma série de três zeros, outra de seis, outra de nove zeros:

000 000.000 000.000.000

Os zeros que se acrescentam aos zeros nada alteram; tudo fica sendo zero… Mas coloquemos o número Um, uma só unidade, coisa simplicíssima, na série… Se pusermos o “Um” em último lugar, o conjunto, por mais longo que seja, ficará valendo muito pouco, será uma ninharia… Se o colocarmos em penúltimo lugar, já o conjunto valerá dez, o que ainda é muito pouco… Caso ponhamos a unidade em terceiro, em quarto, em quinto lugar, a série irá aumentando de valor (cem, mil, dez mil…). Finalmente, se se coloca o número Um à frente de cada série, ter-se-á:

1.000 = mil

1.000.000 = um milhão

1.000.000.000 = um bilhão

Coisa estupenda! Os zeros tomam imenso valor desde que o “Um” lhes seja anteposto e os ilumine. Pois bem; Deus é esse “Um” sem o qual as criaturas nada são.

Se Deus ficar em último lugar na vida do homem, esta se apresentará sempre como insípida bagatela, ninharia vazia… Uma vez, porém, que se ponha Deus incondicionalmente em lugar capital, cada bagatela, cada zero da vida toma valor imprevistamente grande.

O homem pode acumular mil bens criados no seu tesouro; se chegarem a fazer empalidecer ou a remover a face de Deus no horizonte do indivíduo, esses bens, por mais numerosos que sejam, equivalerão a uma longa série de zeros; deixarão o seu possuidor sempre frustrado e insatisfeito…

Mas se o cristão puser Deus à frente de cada criatura e procurar ver tudo sob a perspectiva dEle, então e somente então esse homem começará a compreender o valor das criaturas; começará a compreender também que seguir Cristo é o maior de todos os bens e que a vida, vivida em fidelidade absoluta ao Senhor, vale, apesar de tudo, a pena de ser vivida!

A ÚNICA RESPOSTA

Voltando ao texto do Santo Evangelho, diremos conseqüentemente que, no caso da chamada dirigida pessoalmente por Jesus ao jovem, só uma resposta era adequada: a aceitação imediata, não postergada por qualquer outra tarefa; embora esta fosse em si legítima – como o sepultamento dos mortos –, naquelas circunstâncias tornava-se condenável porque, em vez de levar o discípulo a amar mais a Deus, servia para diminuir e entibiar a sua adesão ao Bem Infinito.

Eis o motivo da insistência apresentada por Cristo. Contudo, a segunda parte da frase do Senhor costuma também causar estranheza: Deixa que os mortos enterrem os seus mortos.

A construção da frase é evidentemente artificiosa, pois, como de antemão se pode conjeturar, faz duplo emprego do termo “mortos”. Em suma. Jesus quer dizer que, para sepultar cadáveres materiais – ou os mortos, no sentido físico –, há sempre gente suficiente; há, sim, todos aqueles que não são chamados à vida da graça e do apostolado, gente talvez indiferente aos interesses do Reino de Deus. Tais pessoas vivem para o mundo e para as tarefas deste mundo; são por Jesus designadas metaforicamente como “mortos”…

Esta figura de linguagem, forte como é, justifica-se pelo desejo que Jesus tem de realçar a grandeza e a premência da vocação dirigida ao jovem mancebo; chamado a seguir diretamente a Jesus, ele possui o quinhão por excelência, em comparação com o qual tudo empalidece ou desaparece, morre.

A figura também se explica pelo uso dos rabinos, que costumavam considerar como mortos – em espírito – os indivíduos que viviam alheios ao Reino de Deus. Aliás, um eco bem significativo desse uso ressoa no texto de São Paulo: A viúva que vive em prazeres está morta, embora pareça viva (1 Tim 5, 6).

Conseqüentemente, os mestres de Israel tinham os homens piedosos na conta de “vivos”, mesmo que estes se vissem atribulados e condenados à morte (cfr. 2 Cor 4, 7-12).

Por conseguinte, Jesus quer incutir ao discípulo que Ele chama a preciosa norma: “Deixa o cuidado dos mortos ou, mais amplamente ainda, o cuidado das coisas mortais ou temporais, aos homens que, por desconhecerem valores mais elevados, se dedicam profissionalmente a isso; tu, porém, que recebeste a melhor das vocações, não queiras viver como se não a tivesses, mas volta-se decididamente para os valores eternos”.

Durand comenta assim as palavras de Jesus: “Admiramos o soldado que, no caso de extremo perigo da pátria, permanece em seu posto na frente de combate, deixando aos de trás o cuidado de sepultar o seu pai. Como então nos contentaríamos com uma dedicação menor, ao tratar-se do Reino de Deus?” (Com. em Mateus, 133).

Por fim, o episódio que acabamos de analisar ainda sugere uma reflexão: em dados momentos da vida, a maior graça que Deus pode conceder a uma alma é a de pedir-lhe um ato de heroísmo. Esse ato, esse impulso forte, ainda que faça sofrer, vem a ser a condição imprescindível para que o cristão se eleve acima de seus interesses temporais ou para que fortaleça a sua verdadeira vida, e não se torne um morto a sepultar mortos no cemitério das coisas temporais.

D. Estêvão Bettencourt, OSB
Sacerdote e teólogo beneditino. Exerceu o magistério em diversas universiades do Brasil. É o fundador e redator pela revista “Pergunte e responderemos”, que desde 1957 tem esclarecido diversos pontos da doutrina católica.
Fonte: “Páginas dfíceis do Evangelho”, 2ª ed., Quadrante, São Paulo, 1993, págs. 23-29.

http://www.quadrante.com.br/Pages/servicos02.asp?id=339&categoria=Espiritualidade


Leave a comment

Castidade no Matrimônio

Essa autenticidade do amor requer fidelidade e retidão em todas as relações matrimoniais. Comenta São Tomás de Aquino que Deus uniu às diversas funções da vida humana um prazer, uma satisfação; esse prazer e essa satisfação são, portanto, bons. Mas se o homem, invertendo a ordem das coisas, procura essa emoção como valor último, desprezando o bem e o fim a que deve estar ligada e ordenada, perverte-a e desnaturaliza-a, convertendo-a em pecado ou em ocasião de pecado.

A castidade – que não é simples continência, mas afirmação decidida de uma vontade enamorada – é uma virtude que mantém a juventude do amor, em qualquer estado de vida. Existe uma castidade dos que sentem despertar em si o desenvolvimento da puberdade, uma castidade dos que se preparam para o casamento, uma castidade daqueles a quem Deus chama ao celibato, uma castidade dos que foram escolhidos por Deus para viverem no matrimônio.

Como não recordar aqui as palavras fortes e claras com que a Vulgata nos transmite a recomendação do Arcanjo Rafael a Tobias, antes de este desposar Sara? O anjo admoestou-o assim: Escuta-me e eu te mostrarei quem são aqueles contra os quais o demônio pode prevalecer. São os que abraçam o matrimônio de tal modo que excluem Deus de si e de sua mente, e se deixam arrastar pela paixão como o cavalo e o mulo, que estão desprovidos de entendimento. Sobre esses o diabo tem poder.

Não há amor humano puro, franco e alegre no matrimônio se não se vive a virtude da castidade, que respeita o mistério da sexualidade e o faz convergir para a fecundidade e a entrega. Nunca falei de impureza e sempre evitei descer a casuísticas mórbidas e sem sentido, mas, de castidade e de pureza, da afirmação jubilosa do amor, sim, falei muitíssimas vezes e devo falar.

A respeito da castidade conjugal, assevero aos esposos que não devem ter medo de expressar o seu carinho, antes pelo contrário, pois essa inclinação é a base da sua vida familiar. O que o Senhor lhes pede é que se respeitem e que sejam mutuamente leais, que se confortem com delicadeza, com naturalidade, com modéstia. Dir-lhes-ei também que as relações conjugais são dignas quando são prova de verdadeiro amor e, portanto, estão abertas à fecundidade, aos filhos.

Cegar as fontes da vida é um crime contra os dons que Deus concedeu à humanidade e uma manifestação de que a conduta se inspira no egoísmo, não no amor. Então tudo se turva, os cônjuges chegam a olhar-se como cúmplices; e produzem-se dissensões que, a continuar nessa linha, são quase sempre insanáveis.

Quando a castidade conjugal acompanha o amor, a vida matrimonial torna-se expressão de uma conduta autêntica, marido e mulher compreendem-se e sentem-se unidos; quando o bem divino da sexualidade se perverte, a intimidade se destrói, e marido e mulher já não se podem olhar nobremente nos olhos.

Os esposos devem edificar a sua vida em comum sobre um carinho sincero e limpo, e sobre a alegria de terem trazido ao mundo os filhos que Deus lhes tenha conferido a possibilidade de ter, sabendo renunciar a comodidades pessoais e tendo fé na Providência. Formar uma família numerosa, se tal for a vontade de Deus, é penhor de felicidade e eficácia, embora afirmem outra coisa os fautores de um triste hedonismo.

É Cristo que passa > O matrimônio, vocação cristã > Ponto 25 (São Josemaria Escrivá)


Leave a comment