Sunday, 20 of May of 2012

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Tratar bem a todos

 

Fonte: Falar com Deus

Reflexão da blogueira:

“ninguém tira onda com a minha cara”

“ninguém tira farinha comigo, o buraco é mais embaixo”

“comigo é: bateu, levou”

“não levo desaforo para casa!”

Quantos de nós já não disse uma dessas frases, com orgulho? Sao a nova lei de talião… se sou ofendido, revido !

Precisamos refletir sobre a mansidão e a caridade, virtudes que o cristão deve cultivar, bem como a necessidade de dar o perdão e não guardar mágoas.

– Devemos viver a caridade em qualquer ocasião. Compreensão com os que estão no erro, mas firmeza na verdade e no bem.

– Caridade com os que não nos apreciam. Oração por eles.

– A caridade leva-nos a viver a amizade com um profundo sentido cristão.

I. OUVISTES QUE FOI DITO: Olho por olho e dente por dente. Mas eu vos digo…: àquele que te levar a juízo para tirar-te a túnica, deixa-lhe também o manto; e se alguém te forçar a andar uma milha, vai com ele duas… São palavras de Jesus no Evangelho da Missa1, que nos convidam a viver a caridade para além dos critérios dos homens.

No nosso relacionamento, não podemos ser ingênuos, sem dúvida, e devemos exigir os nossos direitos dentro do que for justo, mas não nos deve parecer excessiva qualquer renúncia ou sacrifício em prol dos outros. Assim nos assemelhamos a Cristo que, com a sua morte na Cruz, nos deu um exemplo de amor acima de toda a medida humana.

O homem não tem nada de tão divino – tão de Cristo – como a mansidão e a paciência na prática do bem2. “Fomentemos aquelas virtudes – aconselha-nos São João Crisóstomo – que, juntamente com a nossa salvação, aproveitam principalmente ao próximo… Nas coisas terrenas, ninguém vive para si próprio: o artesão, o soldado, o lavrador, o comerciante, todos sem exceção contribuem para o bem comum e para o serviço do próximo. Com muito mais razão há de ser assim no terreno espiritual, porque esta é a verdadeira vida. Quem vive só para si e despreza os outros é um ser inútil, não pertence à nossa linhagem”3.

As múltiplas chamadas que o Senhor nos dirige para que vivamos a todo o momento a caridade4, devem estimular-nos a segui-lo de perto com atos concretos, procurando oportunidades de ser úteis, de proporcionar alegrias aos que estão ao nosso lado, sabendo que nunca progrediremos suficientemente nessa virtude. Ao mesmo tempo, consideremos hoje na nossa oração todos esses aspectos em que seria fácil faltarmos à caridade se não estivéssemos vigilantes: juízos precipitados, críticas negativas, faltas de atenção para com os outros por estarmos excessivamente preocupados com os nossos assuntos, esquecimentos que são fruto do desinteresse ou do menosprezo… Não é norma do cristão retribuir olho por olho e dente por dente, mas fazer continuamente o bem, ainda que, por vezes, não obtenha em troca, aqui na terra, nenhum proveito humano. O coração certamente se terá enriquecido.

A caridade leva-nos a compreender, a desculpar, a conviver com todos, de maneira que aqueles que “pensam ou atuam de um modo diferente do nosso em matéria social, política ou mesmo religiosa, devem ser objeto também do nosso respeito e do nosso apreço [...]. Esta caridade e esta benignidade não se devem converter de forma alguma em indiferença no tocante à verdade e ao bem; mais ainda, a própria caridade exige que se anuncie a todos os homens a verdade que salva. Mas é necessário distinguir entre o erro, que sempre deve ser evitado, e o homem que erra, pois este conserva a dignidade da pessoa mesmo quando está dominado por idéias falsas ou insuficientes em matéria religiosa”5.

“Um discípulo de Cristo jamais tratará mal pessoa alguma; ao erro chama erro, mas, a quem está errado, deve corrigi-lo com afeto; senão, não poderá ajudá-lo, não poderá santificá-lo”6, e essa é a maior prova de caridade.

II. O PRECEITO DA CARIDADE não se estende somente àqueles que nos querem e nos tratam bem, mas a todos sem exceção. Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos aborrecem e orai pelos que vos perseguem e caluniam.

Devemos também viver a caridade com aqueles que nos tratam mal, que nos difamam e roubam a honra, que procuram positivamente prejudicar-nos. O Senhor deu-nos exemplo disso na Cruz7, e os discípulos seguiram o mesmo caminho do Mestre8. Ele nos ensinou a não ter inimigos pessoais – como o testemunharam heroicamente os santos de todas as épocas – e a considerar o pecado como o único mal verdadeiro.

A caridade terá diversas manifestações que não se opõem à prudência e à defesa justa, à proclamação da verdade em face da difamação, e à defesa enérgica do bem e dos legítimos interesses pessoais ou do próximo, e dos direitos da Igreja. Mas o cristão deve ter sempre um coração grande para respeitar a todos, mesmo aqueles que se manifestam como inimigos; e deve fazê-lo “não por serem irmãos – diz Santo Agostinho –, mas para que o sejam; para tratar sempre com amor fraterno aquele que já é irmão e aquele que se manifesta como inimigo, a fim de que venha a ser irmão”9.

Este modo de atuar, que exige uma profunda vida de oração, distingue-nos claramente dos pagãos e daqueles que realmente não querem viver como discípulos de Cristo. Pois, se amardes os que vos amam, que recompensa tereis? Também não fazem isso os publicanos? E se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis a mais? Também não fazem isso os gentios? A fé cristã pede não apenas um comportamento humano correto, mas virtudes heróicas.

Com a ajuda da graça, estenderemos, pois, a nossa caridade aos que não se comportam como filhos de Deus, aos que o ofendem, porque “nenhum pecador, enquanto tal, é digno de amor; mas todo o homem, enquanto tal, é digno de ser amado por Deus”10. Todos continuam a ser filhos de Deus e capazes de converter-se e de alcançar a glória eterna.

A caridade incitar-nos-á à oração, à exemplaridade, ao apostolado, à correção fraterna, confiando em que todo o homem é capaz de retificar os seus erros. Se vez por outra as ofensas, as injúrias, as calúnias forem particularmente dolorosas, pediremos ajuda a Nossa Senhora, que contemplamos freqüentemente ao pé da Cruz, sentindo muito de perto todas as infâmias contra o seu Filho: grande parte daquelas injúrias, não o esqueçamos, saíram dos nossos lábios e das nossas ações. Os agravos que nos fazem hão de doer-nos sobretudo pela ofensa a Deus que representam e pelo mal que podem ocasionar a outras pessoas, e hão de mover-nos a desagravar a Deus e a oferecer-lhe toda a reparação que pudermos.

III. O CORAÇÃO DO CRISTÃO tem de ser grande. A sua caridade, evidentemente, deve ser ordenada e, portanto, deve começar pelos mais próximos, pelas pessoas que, por vontade divina, estão à sua volta. No entanto, o seu afeto nunca pode ser excludente ou limitar-se a âmbitos reduzidos. O Senhor não quer um apostolado de horizontes tão estreitos. A atitude do cristão, a sua convivência com todos, deve ser como uma generosa torrente de carinho sobrenatural e de cordialidade humana, que banha tudo à sua passagem.

Pedimos a Deus na nossa oração pessoal que nos dilate o coração; que nos ajude a oferecer sinceramente a nossa amizade a um círculo cada vez mais vasto de pessoas; que nos anime a ampliar constantemente o campo do nosso apostolado, ainda que num caso ou noutro não sejamos correspondidos, ainda que seja necessário enterrarmos freqüentemente o nosso próprio eu, ceder nalgum ponto de vista ou nalgum gosto pessoal. A amizade leal exige um esforço positivo – que será alimentado pelo trato assíduo com Jesus Cristo – “por compreender as convicções dos nossos amigos, mesmo que não cheguemos a partilhar delas nem a aceitá-las”11 por não poderem conciliar-se com as nossas convicções de cristãos.

O Senhor não deixa de perdoar as nossas ofensas sempre que voltamos para Ele movidos pela sua graça; tem uma paciência infinita com as nossas mesquinhezes e com os nossos erros; por isso nos pede – e assim nos ensinou expressamente no Pai Nosso – que tenhamos paciência em face de certas situações e circunstâncias que dificultam que os nossos amigos ou conhecidos se aproximem de Deus. A falta de formação e a ignorância da doutrina que as pessoas revelam, os seus defeitos patentes, mesmo a sua aparente indiferença, não nos devem afastar delas, antes hão de ser para nós chamadas positivas, prementes, luzes que indicam uma maior necessidade de ajuda espiritual; hão de ser um estímulo para intensificarmos o nosso interesse por cada uma dessas pessoas e nunca um motivo para nos afastarmos delas.

Formulemos um propósito concreto que nos faça aproximar-nos dos nossos parentes, amigos e conhecidos que estejam espiritualmente mais necessitados, e peçamos graças à Santíssima Virgem para levá-lo a cabo.

(1) Mt 5, 38-48; (2) cfr. São Gregório Nazianzeno, Oração, 17, 9; (3) São João Crisóstomo,Homilias sobre São Mateus, 77, 6; (4) cfr. Jo 13, 34-35; 15, 12; (5) Conc. Vat. II, Const. Gaudium et spes, 28; (6) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 9; (7) cfr. Lc 23, 34; (8) cfr. At 7, 60; (9) Santo Agostinho, Comentário à primeira Epístola de São João, 4, 10, 7; (10) idem, Sobre a doutrina cristã, 1, 27; (11) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 746.


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Amabilidade

DA VIRTUDE DA AMABILIDADE […] fazem parte uma série de virtudes que talvez não sejam muito chamativas, mas que constituem o entrançado da caridade: a benignidade, que leva a tratar e julgar os outros e as suas atuações com delicadeza; a indulgência em face dos defeitos e erros alheios; a educação e a urbanidade nas palavras e nas maneiras; a simpatia, que por vezes será necessário cultivar com especial esmero; a cordialidade e a gratidão; o elogio oportuno às coisas boas que vemos nos outros…

O cristão sabe converter os múltiplos pormenores destas virtudes humanas em outros tantos atos da virtude da caridade, praticando-os também por amor a Deus. Aliás, a caridade transforma essas virtudes em hábitos mais firmes, mais ricos de conteúdo, e dá-lhes um horizonte mais elevado: com a ajuda da graça, o cristão encara e trata os seus irmãos como filhos de Deus que são.

Para estarmos abertos a todos, para convivermos com pessoas tão diferentes de nós (pela idade, religião, formação cultural, temperamento…), São Francisco de Sales ensina-nos que a primeira condição é sermos humildes, pois “a humildade não é somente caritativa, mas também doce. A caridade é a humildade que se projeta externamente e a humildade é a caridade escondida”1; ambas as virtudes estão estreitamente unidas. Se lutarmos por ser humildes, saberemos “venerar a imagem de Deus que há em cada homem”2, saberemos tratá-los com profundo respeito.

Respeitar é olhar para os outros descobrindo o que valem. A palavra vem do latim respectus, que significa olhar com consideração3. Saber conviver exige que se respeitem as pessoas, como aliás as coisas, que são bens de Deus e estão a serviço do homem; já se disse com verdade que as coisas só mostram o seu segredo aos que as respeitam e amam; o respeito à natureza atinge o seu sentido mais profundo quando a encaramos como parte da criação e nos propomos dar glória a Deus através dela. O respeito é, enfim, condição que permite contribuir para a melhoria dos outros. Quando subjugamos os outros, inutilizamos os conselhos que lhes podemos dar e as advertências que lhes devemos fazer.

Ficamos gozosamente surpreendidos quando verificamos com que freqüência o Evangelho se refere aos olhares de Jesus, como se tivessem algo de muito especial. Podemos ler no texto sagrado que Jesus olhou com carinho para aquele rapaz que se aproximou dEle com desejos de ser melhor; que olhou com ternura para a pobre viúva que se mostrou tão generosa com as coisas de Deus, lançando no cofre do Templo o pouco que tinha para o seu sustento; e que olhou com simpatia para Zaqueu, que estava empoleirado no alto de uma árvore tentando vê-lo… Jesus olhava para todos com imenso respeito, fossem sãos ou doentes, crianças ou adultos, mendigos, pecadores… É esse o exemplo que devemos imitar na nossa convivência diária.

É preciso ver as pessoas – todas – com simpatia, com apreço e cordialidade. Se as olhássemos como o Senhor as olha, não nos atreveríamos a julgá-las negativamente. “Naqueles que não nos são naturalmente simpáticos, veríamos almas resgatadas pelo Sangue de Cristo, que fazem parte do seu Corpo Místico, e que talvez estejam mais perto do que nós do seu divino Coração. Não poucas vezes nos acontece passarmos longos anos ao lado de almas belíssimas, e não notarmos a sua formosura”4. Olhemos ao nosso redor e respeitemos aqueles com quem nos damos diariamente na nossa própria casa, no escritório, com quem nos cruzamos no meio do trânsito, que esperam no consultório do dentista ou fazem fila nos correios. Examinemos junto de Jesus se os vemos com olhos amáveis e misericordiosos, como Ele os vê.

(1) idem, Conversações espirituais, 11, 2; (2) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 230; (3) cfr. J. Corominas, Diccionário crítico etimológico, Gredos, Madrid, 1987, verbete Respecto; (4) R. Garrigou-Lagrange, Las tres edades de la vida interior, Palabra, Madrid, 1982, vol. II, pág. 734

Fonte: Falar com Deus


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Exercícios de Paciência

 

Não, não há “truques” ou “técnicas” que sirvam para viver a paciência, se o egoísmo ainda tem o ninho no nosso coração. Com esse hóspede indesejável, é inútil qualquer tentativa. Mas se há amor, então vão-nos ocorrendo mil maneiras de exercitar a paciência, bem práticas, simples, bonitas… e eficazes.

Quem tem experiência da luta por viver com Deus, sabe que o amor cristão se mexe movido por duas asas: a da oração e a da mortificação. Por isso, todo o exercício da virtude cristã da paciência comportará necessariamente o movimento de uma dessas asas ou, o que será mais freqüente, de ambas ao mesmo tempo.

Em primeiro lugar, a oração. O cristão paciente procura falar antes com Deus do que com os homens. Quando se sente à beira de uma crise de impaciência – pois ia retrucar, censurar, queixar-se… –, faz o esforço de se calar. Alguns recomendam contar até vinte, antes de abrir a boca. Melhor será fazer o sacrifício de guardar silêncio, de sair, se for preciso, de perto do foco do atrito (ir para outro cômodo, etc.), e de rezar bem devagar alguma oração, como por exemplo o Pai-Nosso (sublinhando mentalmente as palavras-chave que acordarão a fé e o amor e, portanto, trarão calma e lucidez à alma:Pai, …seja feita a vossa vontade…, perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido…).

Após essa oração, que pode ser também uma seqüência de jaculatórias, de invocações breves, pedindo paciência a Deus, e já com a alma mais tranqüila, poderemos discernir o que nos convém fazer: se é deixarmos passar, sem mais, aquele dissabor, aquela contrariedade; ou é praticar o que lemos no n. 10 de Caminho: “Não repreendas quando sentes a indignação pela falta cometida. – Espera pelo dia seguinte, ou mais tempo ainda. – E depois, tranqüilo e com a intenção purificada, não deixes de repreender”[NOTA DE RODAPÉ: Josemaría Escrivá, Caminho, 7ª ed., Quadrante, São Paulo, 1989.]; ou, então, se é tomar a iniciativa de ter um gesto simpático – um afago para a esposa ou a filha; uma palavra amável, que quebre o gelo com aquele que nos causou mal-estar. Não duvidemos de que o esforço de guardar silêncio, unido ao esforço de fazer oração, sempre conduzirá para a paciência, para a paciência real e prática, os que lutam com boa vontade.

Ao lado da oração, mas sem largá-la da mão, o cristão exercita a paciência por meio da prática voluntária, consciente, amorosa, de um sem-fim de pequenos sacrifícios, que são uma gota de paz, de afabilidade, de bondade, sobre as incipientes ebulições da impaciência. Talvez não seja demais lembrar, a título de sugestão para o leitor, algumas dessas mortificações cristãs, que diariamente podemos oferecer a Deus:

* fazer o esforço de escutar pacientemente a todos (ao menos durante um tempo prudencial), sem deixar que se apague o sorriso dos lábios, nem permitir que os olhos adquiram a inexpressiva fixidez, prelúdio de bocejo, de um peixe;

* não andar comentando a toda a hora e com todos, sem razão plausível nem necessidade, as nossas gripes, as nossas dores de cabeça ou de fígado nem, em geral, qualquer outro tipo de mal-estar pessoal: propor-nos firmemente não nos queixarmos da saúde, do calor ou do frio, do abafamento no ônibus lotado, do tempo que levamos sem comer nada…

* renunciar decididamente a utilizar os verbetes típicos do Dicionário da Impaciência: “Você sempre faz isso!”, “De novo, mulher, já é a terceira vez que você passa um cheque sem fundos!”, “Outra vez!”, “Já estou cansado”, etc., etc.;

* evitar cobranças insistentes e antipáticas, e prontificar-nos a ajudar os outros, usando mais vezes do expediente afável de lembrar-lhes as coisas que omitiram ou atrasaram, e de estimulá-los a fazê-las;

* não implicar – não vale a pena! – com pequenos maus hábitos ou cacoetes dos outros, mas deixá-los passar como quem nem repara neles: mania de bater na cadeira ou de tamborilar com os dedos na mesa, tendência para ler por cima do ombro o jornal que nós estamos lendo, de fazer ruído com a boca, de cantarolar horrivelmente enquanto se lê ou se trabalha… Lembro-me bem da “guerra fria” que se travou entre uma filha cinqüentona e um pai quase oitentão, e na qual fui chamado a intervir como mediador. Ela sustentava que o pai vivia gemendo, ele retrucava dizendo que “não, senhora, estou écantarolando”… E, se não tivesse havido a intervenção de uma “potência neutra”, o atrito poderia ter terminado muito mal;

* saber repetir calmamente as nossas explicações a quem não as entende e se mostra porfiadamente obtuso; ter a calma de partir do bê-á-bá para esclarecer assuntos técnicos a pessoas que os desconhecem e não têm vocação para lidar com cálculos e máquinas;

* não buzinar quando alguém reduz a marcha do veículo e estaciona inopinadamente; por sinal, se o leitor deseja um bom conselho para o trânsito, ofereço-lhe o seguinte, que já deu muito bons resultados: nunca olhe para a cara do “agressor”, do motorista “barbeiro”. Continue serenamente o seu percurso sem ficar sabendo se era homem ou mulher, jovem ou velho: vai ver que é difícil ficar com raiva de uma sombra indefinida; se, além disso, passada a primeira reação, reza ao Anjo da Guarda por ele/ela, para que se torne mais prudente, mais hábil ou menos prepotente, melhor ainda;

* por último, permito-me repisar a importância da oração para adquirir a paciência, evocando a simpática surpresa de uma mãe impaciente que se tornou “rezadora”. Aquela mulher de nervos frágeis tinha-se proposto rezar a Nossa Senhora a jaculatória: “Mãe de misericórdia, rogai por nós (por mim e por esse moleque danado)” a cada grito das crianças. Quando começava a ferver uma crise conjugal, tinha igualmente “preparada” uma oração própria que dizia: “Meu Deus, que eu veja aí a cruz e saiba oferecer-Vos essa contrariedade! Rainha da paz, rogai por nós!” E quando ia ficando enervada e ríspida, rezava: “Maria.., vida, doçura e esperança nossa, rogai por mim!” Depois comentava com certo espanto: – “Sabe que dá certo? Fico mais calma!” E ficava mesmo.

Como vemos, nem essa boa mãe, nem as outras pessoas acima evocadas como exemplo, conseguiam viver a paciência à base de truques de “pensamento positivo”, mas de esforços de fé e de amor cristão. De maneira que, sem terem a mínima noção disso, todas elas estavam dando a razão a São Tomás de Aquino que, com o seu habitual laconismo, sintetizou assim a questão:

Manifestum est quod patientia a caritate causatur – “é evidente que a paciência é causada pelo amor”, ou, por outras palavras que traduzem com igual precisão as do santo: “Só o amor é causa da paciência”[NOTA DE RODAPÉ: Suma Teológica, II-II, q. 136, a. 3, c.].

In: Paciência. Padre Francisco Faus, 2ed. Quadrante, São Paulo, 1998. Disponível em: http://www.clerus.org/clerus/dati/2008-11/03-13/Apacincia.html


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Conviver com Todos

 

– Um cristão não pode estar fechado em si mesmo. Jesus Cristo, modelo de convivência.

– A virtude humana da afabilidade.

– Outras virtudes necessárias para o convívio diário: gratidão, cordialidade, amizade, alegria, otimismo, respeito mútuo…

I. DEPOIS DE ACEITAR a chamada do Senhor, Mateus deu um banquete a que assistiram Jesus, os seus discípulos e muitos outros. Entre estes, haviamuitos publicanos e pecadores, todos amigos de Mateus. Os fariseus surpreenderam-se ao verem Jesus sentar-se para comer com esse tipo de pessoas, e por isso disseram aos seus discípulos:Por que come ele com publicanos e gente de má vida?1

Mas Jesus encontra-se à vontade entre pessoas tão diferentes dEle. Sente-se bem com todos porque veio salvar a todos. Não têm necessidade de médico os sãos, mas os enfermos. Jesus dá-se bem com os tipos humanos e caracteres mais variados: com um ladrão convicto, com as crianças cheias de inocência e simplicidade, com homens cultos e sérios como Nicodemos e José de Arimatéia, com mendigos, com leprosos… Esse interesse revela-nos as suas ânsias salvadoras, que se estendem a todas as criaturas de qualquer classe e condição.

O Senhor teve amigos como os de Betânia, onde é convidado ou se faz convidar em diversas ocasiões; Lázaro é o nosso amigo2. Tem amigos em Jerusalém, os quais lhe emprestam uma sala para celebrar a Páscoa com os seus discípulos; e conhece tão bem aquele que lhe emprestará um burrinho para a sua entrada solene em Jerusalém, que os discípulos poderão desatá-lo e trazê-lo sem pedir licença a ninguém3.

Jesus revelou também um grande apreço pela família, que é o lugar por antonomásia onde se devem praticar as virtudes da convivência e onde se dá o primeiro e o principal relacionamento social. É o que nos mostram os seus anos de vida oculta em Nazaré, o que o Evangelista ressalta sublinhando – ao invés de muitos outros pequenos fatos que poderia ter-nos deixado – que Jesus menino estava sujeito aos seus pais4. A fim de ilustrar o amor de Deus Pai para com os homens, o Senhor serve-se da imagem de um pai que não dá uma pedra ao filho se este lhe pede um pão, ou uma serpente se lhe pede um peixe5. Ressuscita o filho da viúva de Naim porque se compadece da sua solidão e da sua pena, pois era o único filho daquela mulher6. E Ele próprio, no meio dos sofrimentos da cruz, cuida da sua Mãe confiando-a a João7.

Jesus é um exemplo vivo para nós porque devemos aprender a conviver com todos, independentemente dos seus defeitos, idéias e modos de ser. Devemos aprender dEle a ser pessoas abertas, com capacidade de cultivar muitas amizades, dispostos a compreender e a desculpar. Um cristão, se segue de verdade os passos de Cristo, não pode estar fechado em si mesmo, despreocupado e indiferente ao que acontece à sua volta.

II. BOA PARTE da nossa vida está composta de pequenos encontros com pessoas que vemos no elevador, na fila do ônibus, na sala de espera do médico, no meio do trânsito da cidade grande ou na única farmácia da cidadezinha onde vivemos… E ainda que sejam momentos esporádicos e fugazes, são muitos por dia e incontáveis ao longo de uma vida. Para um cristão, são importantes, porque são ocasiões que Deus lhe dá para rezar por essas pessoas e mostrar-lhes o seu apreço, tal como deve suceder entre os que são filhos de um mesmo Pai. Fazemos isto normalmente através desses pormenores de educação e de cortesia que temos habitualmente com qualquer pessoa, e que se transformam facilmente em veículos da virtude sobrenatural da caridade. São pessoas muito diferentes, mas todas esperam alguma coisa do cristão: aquilo que Cristo teria feito se estivesse no nosso lugar.

Também nos relacionamos com pessoas dos mais diversos modos de ser e de comportar-se na própria família, no trabalho, entre os vizinhos…; são pessoas com temperamentos e caracteres muito diferentes dos nossos. É preciso que saibamos conviver harmonicamente com todos. São Tomás indica a importância de uma virtude particular que regula “as relações dos homens com os seus semelhantes, tanto nas obras como nas palavras”, e que reúne em si muitas outras: é a afabilidade8, que nos inclina a tornar a vida mais grata àqueles que vemos todos os dias.

É uma virtude que deve formar como que a trama da convivência. Talvez não seja uma virtude chamativa, mas, quando não está presente, nota-se muito a sua falta, pois torna tensas e ásperas as relações entre os homens, e leva freqüentemente a faltar à caridade. Opõe-se pela sua própria natureza ao egoísmo, ao gesto ofensivo, ao mau humor, à falta de educação, ao desinteresse pelos gostos e preocupações dos outros. “Destas virtudes – escrevia São Francisco de Sales – deve-se ter uma grande provisão e bem à mão, porque devem ser usadas quase continuamente”9.

O cristão saberá converter os inúmeros detalhes da virtude humana da afabilidade em outros tantos atos da virtude da caridade, vivendo-os também por amor a Deus. A caridade torna a afabilidade mais forte, mais rica em conteúdo e de horizontes muito mais elevados. Uma e outra devem ser praticadas também quando se faz necessário tomar uma atitude firme: “Tens que aprender a dissentir dos outros – quando for preciso – com caridade, sem te tornares antipático”10.

Mediante a fé e a caridade, o cristão sabe ver nos seus irmãos, os homens, filhos de Deus, que sempre merecem o maior respeito e as melhores provas de consideração e de delicadeza11. Como não há de estar atento às mil oportunidades que qualquer dos seus dias lhe oferece?

III. SÃO MUITAS AS VIRTUDES que facilitam e tornam possível a convivência.

A benignidade e a indulgência levam-nos a julgar as pessoas e as suas atuações de forma favorável, sem nos determos excessivamente nos seus defeitos e erros.

A gratidão é essa evocação afetuosa de um benefício recebido, com o desejo de retribuí-lo de alguma forma, quanto mais não seja com um obrigadoou coisa parecida. Custa muito pouco sermos agradecidos, e o bem que fazemos é enorme. Se estivermos atentos aos que estão à nossa volta, notaremos como é grande o número de pessoas que nos prestam constantes favores.

A cordialidade e a amizade facilitam muito a convivência diária. Como seria formidável que pudéssemos chamar amigos àqueles com quem trabalhamos ou estudamos, àqueles com quem convivemos ou com quem nos relacionamos! Amigos, e não apenas colegas ou companheiros. Isso seria sinal de que vamos desenvolvendo muitas virtudes humanas que fomentam e tornam possível a abertura aos outros: o ânimo desinteressado, a compreensão, o espírito de colaboração, o otimismo, a lealdade. Amizade particularmente profunda é a que deve existir no seio da própria família: entre irmãos, com os filhos, com os pais.

No convívio diário, a alegria, manifestada num sorriso oportuno ou num pequeno gesto amável, abre as portas de muitas almas que estavam a ponto de fechar-se ao diálogo ou à compreensão. A alegria anima e ajuda a superar as inúmeras contrariedades que a vida nos traz. Uma pessoa que se deixe dominar habitualmente pela tristeza e pelo pessimismo, que não lute por sair desse estado rapidamente, será sempre um lastro, um pequeno câncer para os que convivem com ela.

É virtude da convivência o respeito mútuo, que nos leva a olhar os outros como imagens irrepetíveis de Deus. No relacionamento pessoal com o Senhor, o cristão apre
nde a “venerar [...] a imagem de Deus que há em cada homem”12, mesmo naqueles que por alguma razão nos parecem pouco amáveis, antipáticos ou insossos. O respeito é condição para contribuir para a melhora dos outros, porque, quando se esmagam os outros, o conselho, a correção ou a advertência tornam-se ineficazes.

O exemplo de Cristo inclina-nos a viver amavelmente abertos aos outros; a compreendê-los, a olhá-los com uma simpatia prévia e sempre crescente, que nos leva a aceitar com otimismo o entrançado de virtudes e defeitos que existe na vida de qualquer homem. É um olhar que chega às profundezas do coração e sabe encontrar a parte de bondade que há em todos.

Muito próxima da compreensão está a capacidade de desculpar prontamente. Viveríamos mal a nossa vida cristã se ao menor choque se esfriasse a nossa caridade e nos sentíssemos distantes das pessoas da família ou daqueles com quem trabalhamos.

Hoje, sábado, podemos concluir a nossa oração formulando o propósito de viver com esmero, em honra de Santa Maria, os detalhes de caridade fina com o próximo.

(1) Mc 2, 13-17; (2) Jo 11, 11; (3) cfr. Mc 11, 3; (4) cfr. Lc 2, 51; (5) cfr. Mt 9, 7; (6) cfr. Lc 7, 11; (7) cfr. Jo 19, 26-27; (8) São Tomás, Suma Teológica, 2-2, q. 114, a. 1; (9) São Francisco de Sales, Introdução à vida devota, III, 1; (10) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 429; (11) cfr. F. Fernández Carvajal,Antología de textos, 9ª ed., Palabra, Madrid, 1987, verbete “Afabilidade”; (12) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 230.

Fonte: Falar com Deus


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Trabalho como Caminho de Santificação

– O Senhor, que trabalhou na oficina de São José, é nosso modelo no trabalho.

– Como foi o trabalho de Jesus. Como deve ser o nosso.

– Devemos ganhar o céu com o trabalho. Mortificações, detalhes de caridade, competência profissional nas nossas tarefas.

I. QUANDO MEDITAMOS a vida de Jesus, vemos que o Senhor passou a maior parte dos seus dias na obscuridade de um pequeno povoado, praticamente desconhecido dentro da sua própria pátria. Compreendemos que alguns dos seus vizinhos lhe dissessem: Sai daqui para que vejam as obras que fazes; ninguém faz estas coisas em segredo se pretende manifestar-se1. Mas o valor das obras do Senhor foi sempre infinito, e Ele dava a seu Pai a mesma glória quer quando serrava toros de madeira, quer quando ressuscitava um morto ou quando as multidões o seguiam louvando a Deus.

Durante esses trinta anos da vida de Jesus em Nazaré, o mundo presenciou muitos acontecimentos. A paz de Augusto chegava ao fim e as legiões romanas preparavam-se para conter os invasores bárbaros… Na Judéia, Arquelau era desterrado por causa das suas inúmeras arbitrariedades… Em Roma, o Senado divinizava Otávio Augusto…

Mas o Filho de Deus encontrava-se então numa pequena aldeia, a 140 quilômetros de Jerusalém. Vivia numa casa modesta, talvez feita de adobe, como as outras, com a sua Mãe, Maria, pois José já devia ter falecido. O que fazia ali o Deus-Homem? Trabalhava, como os demais homens da aldeia. Não se distinguia deles por nada de chamativo, pois também era um deles. Era perfeito Deus e homem perfeito. E nós não podemos esquecer que a existência terrena do Filho de Deus se compôs não só dos três anos de vida apostólica, mas destes trinta anos de vida oculta.

Quando, depois de iniciada a vida pública, volta um dia a Nazaré, os seus conterrâneos admiram-se da sua sabedoria e dos fatos prodigiosos que se contavam a seu respeito. Conheciam-no pelo seu ofício: Que sabedoria é esta que lhe foi dada?… Não é este o artesão, filho de Maria…?2 E São Mateus nos dirá também, em outro lugar, o que pensavam de Cristo na sua terra: Não é este o filho do carpinteiro? A sua mãe não se chama Maria?3 Tinham-no visto trabalhar durante muitos anos, dia após dia. Por isso traziam agora à baila o seu ofício. Na sua pregação, pode-se notar, além disso, que Jesus conhece bem o mundo do trabalho; conhece-o como alguém que esteve bem metido nele, e é por isso que apresenta muitos exemplos de gente que trabalha.

Com estes anos de vida oculta em Nazaré, o Senhor quis mostrar-nos o valor da vida diária como meio de santificação. “Porque a vida comum e normal, aquela que vivemos entre os demais concidadãos, nossos iguais, não é nenhuma coisa sem altura e sem relevo. É precisamente nessas circunstâncias que o Senhor quer que a imensa maioria dos seus filhos se santifique”4.

Os nossos dias podem ser santificados se se assemelharem aos de Jesus nesses seus anos de vida oculta e simples em Nazaré: se trabalharmos conscienciosamente e nos mantivermos na presença de Deus ao longo das nossas ocupações, se vivermos a caridade com os que estão ao nosso lado, se soubermos aceitar os contratempos sem nos queixarmos, se as relações profissionais e sociais forem para nós ocasião de ajudar os outros e aproximá-los de Deus.

II. SE CONTEMPLARMOS a vida de Jesus ao longo destes anos sem relevo externo, vê-lo-emos trabalhar bem, sem dar “jeitos”, preenchendo as horas com um trabalho intenso. Não nos custa imaginar o Senhor recolhendo os instrumentos de trabalho no fim do dia, deixando as coisas ordenadas, recebendo afavelmente o vizinho que lhe vai encomendar alguma peça, mesmo aquele que é menos simpático e aquele outro de conversa pouco grata. Jesus devia ter o prestígio de quem trabalha bem, pois fez tudo bem feito5, incluídas as coisas materiais. E todos os que se relacionaram com Ele sentiram-se sem dúvida impelidos a ser melhores e receberam os benefícios da sua oração silenciosa.

O ofício do Senhor não foi brilhante, como também não foi cômodo nem de grandes perspectivas humanas. Mas Jesus amou o seu trabalho diário e ensinou-nos a amar o nosso, sem o que é impossível santificá-lo, “pois quando não se ama o trabalho, é impossível encontrar nele qualquer tipo de satisfação, por mais que se mude de tarefa”6.

Jesus conheceu também o cansaço e a fadiga da faina diária, e experimentou a monotonia dos dias sem relevo e aparentemente sem história. E aí está outro grande benefício para nós, pois “o suor e a fadiga – que o trabalho necessariamente comporta na condição atual da humanidade – oferecem ao cristão e a cada homem, que foi chamado a seguir a Cristo, a possibilidade de participar no amor à obra que Cristo veio realizar. Esta obra de salvação realizou-se precisamente através do sofrimento e da morte na Cruz. Suportando a fadiga do trabalho em união com Cristo crucificado por nós, o homem colabora de certo modo com o Filho de Deus na redenção da humanidade. Mostra-se verdadeiro discípulo de Jesus, levando por sua vez a cruz de cada dia na atividade que foi chamado a realizar”7.

Jesus, durante os seus trinta anos de vida oculta, é o modelo que devemos imitar na nossa vida de homens comuns que trabalham diariamente. Contemplando a figura do Senhor, compreendemos com maior profundidade a obrigação que temos de trabalhar bem: não podemos pretender santificar um trabalho mal feito. Devemos aprender a encontrar a Deus nas nossas ocupações humanas, a ajudar os nossos concidadãos e a contribuir para elevar o nível de toda a sociedade e da criação8. Um mau profissional, um estudante que não estuda, um mau sapateiro…, se não mudam e melhoram, não podem alcançar a santidade no meio do mundo.

III. COM O TRABALHO HABITUAL, temos que ganhar o céu. Para isso devemos procurar imitar Jesus, “que deu ao trabalho uma dignidade enorme, trabalhando com as suas próprias mãos”9.

Devemos, pois, ter presente que “todo o trabalho humano honesto, intelectual ou manual, deve ser realizado pelo cristão com a maior perfeição possível: com perfeição humana (competência profissional) e com perfeição cristã (por amor à vontade de Deus e a serviço dos homens). Porque, feito assim, esse trabalho humano, por mais humilde e insignificante que pareça, contribui para a ordenação cristã das realidades temporais – para a manifestação da sua dimensão divina – e é assumido e integrado na obra prodigiosa da Criação e da Redenção do mundo: eleva-se assim o trabalho à ordem da graça, santifica-se, converte-se em obra de Deus…”10

No trabalho santificado – tal como o de Jesus – encontramos um campo abundante de pequenos sacrifícios que se traduzem na atenção que pomos naquilo que estamos fazendo, no cuidado e na ordem dos instrumentos que utilizamos, na pontualidade, na maneira como tratamos os outros, no cansaço que ultrapassamos, nas contrariedades que procuramos enfrentar da melhor maneira possível, sem queixas estéreis.

Os deveres profissionais abrir-nos-ão muitas possibilidades de retificar a intenção para que realmente sejam uma obra oferecida a Deus e não uma ocasião de nos procurarmos a nós mesmos. Desta maneira, nem os fracassos nos encherão de pessimismo, nem os êxitos nos afastarão de Deus. A retidão de intenção – que nos leva a executar o trabalho de olhos postos em Deus – dar-nos-á essa estabilidade de ânimo própria das pessoas que estão habitualmente na presença do Senhor.

Podemos perguntar-nos hoje, na nossa oração pessoal, se no nosso trabalho procuramo
s imitar os anos de vida oculta de Jesus. Sou competente e tenho prestígio profissional entre as pessoas da minha profissão? Cumpro acabadamente os meus deveres profissionais? Pratico as virtudes humanas e as sobrenaturais na minha tarefa diária? O meu trabalho serve para que os meus amigos se aproximem mais de Deus? Falo-lhes da doutrina da Igreja a propósito das verdades sobre as quais há mais ignorância ou confusão no momento atual?

Olhamos para o trabalho de Jesus ao mesmo tempo que examinamos o nosso. E pedimos-lhe: “Senhor, concede-nos a tua graça. Abre-nos a porta da oficina de Nazaré, para que aprendamos a contemplar-te, com a tua Mãe Santa Maria e com o Santo Patriarca José [...], dedicados os três a uma vida de trabalho santo. Comover-se-ão os nossos pobres corações, iremos à tua procura e te encontraremos no trabalho cotidiano, que Tu desejas que convertamos em obra de Deus, em obra de Amor”11.

(1) Jo 7, 3-4; (2) cfr. Mc 6, 2-3; (3) Mt 13, 55; (4) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 110; (5) Mc 7, 37; (6) Federico Suárez, José, esposo de Maria, pág. 268; (7) João Paulo II, Encíclica Laborem exercens, 14-IX-1981, 27; (8) cfr. Concílio Vaticano II, Constituição Lumen gentium, 41; (9) Concílio Vaticano II, Constituição Gaudium et spes, 67; (10) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Questões atuais do cristianismo, n. 10; (11) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 72.

Fonte: Falar com Deus


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