Sunday, 20 of May of 2012

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São José Operário

1º DE MAIO

32. SÃO JOSÉ OPERÁRIO

Memória

– O trabalho, um dom de Deus.

– Sentido humano e sobrenatural do trabalho.

– Amar a nossa ocupação profissional.

A memória de São José Operário vem-se celebrando liturgicamente desde 1955. A Igreja recorda assim – seguindo o exemplo de São José e sob o seu patrocínio – o valor humano e sobrenatural do trabalho. Todo o trabalho humano é colaboração com a obra de Deus Criador, e por Jesus Cristo converte-se – na medida do amor a Deus e da caridade com os outros – em verdadeira oração e em apostolado.

I. VIVERÁS DO TRABALHO das tuas mãos…1

A Igreja, ao apresentar-nos hoje São José como modelo, não se limita a louvar uma forma de trabalho, mas a dignidade e o valor de todo o trabalho humano honrado. Na primeira Leitura da Missa2, lemos a narração do Gênesis em que o homem surge como participante da Criação. A Sagrada Escritura também nos diz que Deus colocou o homem no jardim do Éden paraque o cultivasse e guardasse3.

O trabalho foi desde o princípio um preceito para o homem, uma exigência da sua condição de criatura e expressão da sua dignidade. É a forma como colabora com a Providência divina sobre o mundo. Com o pecado original, a forma dessa colaboração, o como, sofreu uma alteração: A terra será maldita por tua causa – lemos também no Gênesis4 –;com fadiga te alimentarás dela todos os dias da tua vida… Comerás o pão com o suor do teu rosto…

O que deveria ser realizado de um modo sereno e aprazível, tornou-se depois da queda original trabalhoso, e muitas vezes esgotador. No entanto, permanece inalterada a realidade de que o trabalho em si está relacionado com o Criador e colabora com o plano de redenção dos homens. As condições que o rodeiam fizeram com que alguns o considerassem um castigo, ou que, pela malícia do coração do homem, se convertesse numa simples mercadoria ou num “instrumento de opressão”, a tal ponto que por vezes se torna impossível compreender a sua grandeza e dignidade. E há ainda os que pensam que é um meio de ganhar dinheiro, a serviço da vaidade, da auto-afirmação, do egoísmo… Em todas essas atitudes, esquece-se que o trabalho é de per si obra divina, porque é colaboração com Deus e oferenda que se lhe faz, meio por excelência de adquirir e desenvolver as virtudes humanas e sobrenaturais.

É freqüente observar que a sociedade materialista dos nossos dias aprecia os homens “pelo que ganham”, pela sua capacidade de obter um maior nível de bem-estar econômico. “É hora de que todos nós, cristãos, anunciemos bem alto que o trabalho é um dom de Deus, e que não faz nenhum sentido dividir os homens em diferentes categorias, conforme os tipos de trabalho, considerando umas ocupações mais nobres do que outras. O trabalho, todo o trabalho, é testemunho da dignidade do homem, do seu domínio sobre a criação; é meio de desenvolvimento da personalidade; é vínculo de união com os outros seres; fonte de recursos para o sustento da família; meio de contribuir para o progresso da sociedade em que se vive e para o progresso de toda a humanidade”5.

Tudo isto no-lo recorda a festa de hoje6, ao propor-nos São José como modelo e padroeiro: um homem que viveu do seu ofício, a quem devemos recorrer com freqüência para que não se degrade nem se distorça o trabalho que temos entre mãos, pois não raras vezes, quando se esquece Deus, “a matéria sai da oficina enobrecida, ao passo que os homens se envilecem”7. O nosso trabalho, com a ajuda de São José, deve sair das nossas mãos como uma oferenda gratíssima ao Senhor, convertido em oração.

II. O EVANGELHO DA MISSA8 mostra-nos, uma vez mais, como Jesus é conhecido em Nazaré pelo seu trabalho. Quando voltou à sua terra, os seus conterrâneos comentavam: Não é este o filho do carpinteiro? A sua mãe não é Maria?… Em outro lugar, a Escritura diz que, como acontece em tantas ocasiões, Jesus continuou o ofício daquele que na terra fez junto dEle as vezes de pai: Não é este o carpinteiro, filho de Maria?…9

Ao ser assumido pelo Filho de Deus, o trabalho ficou santificado e, desde então, pode converter-se numa tarefa redentora se o unirmos a Cristo, Redentor do mundo. A fadiga, o esforço, as dificuldades, que são conseqüências do pecado original, convertem-se com Cristo em algo de imenso valor sobrenatural. Sabemos que o homem foi associado à obra redentora de Jesus Cristo, “o qual conferiu uma dignidade eminente ao trabalho quando trabalhou em Nazaré com as suas próprias mãos”10.

Qualquer trabalho nobre pode chegar a ser uma tarefa que aperfeiçoa aquele que o realiza bem como toda a sociedade, e pode converter-se em meio de ajudar os outros através da comunhão que existe entre todos os membros do Corpo Místico de Cristo que é a Igreja. Mas, para isso, é necessário não esquecer o fim sobrenatural que devem ter todos os atos da vida, mesmo os que se apresentam como muito duros ou difíceis: “O condenado às galés bem sabe que rema a fim de mover um barco, mas, para reconhecer que isso dá sentido à sua existência, terá que aprofundar no significado que a dor e o castigo têm para um cristão; quer dizer, terá que encarar a sua situação como uma possibilidade de identificar-se com Cristo. Pois bem, se por ignorância ou por desprezo não o consegue, chegará a odiar o seu “trabalho”. Um efeito similar pode dar-se quando o fruto ou o resultado do trabalho (não a sua retribuição econômica, mas aquilo que se “trabalhou”, “elaborou” ou “fez”) se perde numa lonjura de que quase não se tem notícia”11. Quantas pessoas, infelizmente, se dirigem todas as manhãs ao seu “trabalho” como se fossem para as galés! Vão remar um barco que não sabem para onde se dirige, e aliás sem se importarem com isso. Só esperam o fim de semana e o ordenado. Esse trabalho, evidentemente, não dignifica, não santifica; dificilmente servirá para desenvolver a personalidade.

Pensemos hoje, junto de São José, no valor que damos às nossas ocupações, no esforço que pomos em acabá-las com perfeição, na pontualidade, na competência profissional, na serenidade – não contraposta à urgência – com que as realizamos… Se o nosso trabalho for sempre humanamente bem feito, poderemos dizer com a liturgia da Missa de hoje: Ó Deus, fonte de todos os benefícios, olhai as oferendas que vos apresentamos na festa de São José, e fazei que estes dons se transformem em fonte de graça para aqueles que vos invocam12.

III. OBRA BEM FEITA é aquela que se executa com amor. Ter apreço pelo trabalho profissional, pelo ofício que se exerce, é talvez o primeiro passo para dignificá-lo e para elevá-lo ao plano sobrenatural. Devemos pôr o coração nas tarefas que temos entre mãos, e não fazê-lo “porque não há outro remédio”. “Meu filho, aquele homem que veio ver-me esta manhã – aquele de blusão cor de terra – não é um homem honesto [...]. Exerce a profissão de caricaturista num jornal ilustrado. Isso lhe dá de que viver, ocupa-lhe as horas do dia. E, no entanto, sempre fala com repugnância do seu ofício e diz: «Se eu pudesse ser pintor! Mas é indispensável que desenhe essas bobagens para poder comer. Não olhe para os bonecos, homem, não os veja! Comércio puro…» Quer dizer que trabalha unicamente pelo lucro. E deixou que o seu espírito se ausentasse daquilo em que ocupa as mãos. Porque tem o seu trabalho na conta de coisa muito vil. Mas eu te digo, filho, que se o trabalho do meu amigo é tão vil, se os seus desenhos podem ser chamados bobagens, a razão está justamente em que ele não pôs neles o seu espírito. Não há tarefa que não se torne nobre e santa quando o espírito nela reside. É nobre e santa a tarefa do caricaturista, como a do carpinteiro e a do lixeiro [...]. Há uma maneira de fazer caricaturas, de trabalhar a madeira [...], que revela que se pôs amor nessa atividade, cuidados de perfeição e harmonia, e uma pequena chispa de fogo pessoal: isso que os artistas chamam estilo próprio, e que não há obra nem obrinha humana em que não possa florescer. Essa é a boa maneira de trabalhar. A outra, a de menosprezar o ofício, tendo-o por vil, ao invés de redimi-lo e secretamente transformá-lo, é má e imoral. O visitante de blusão cor de terra é, pois, um homem imoral, porque não ama o seu ofício”13.

São José ensina-nos a realizar bem o ofício que nos ocupa tantas horas: as tarefas domésticas, o laboratório, o arado ou o computador, o trabalho de carregar pacotes ou de cuidar da portaria de um edifício… A categoria de um trabalho reside na sua capacidade de nos aperfeiçoar humana e sobrenaturalmente, nas possibilidades que nos oferece de levar adiante a família e de colaborar nas obras em favor dos homens, na ajuda que através dele prestamos à sociedade…

São José, enquanto trabalhava, tinha Jesus diante de si. Pedia-lhe que segurasse uma madeira enquanto ele a serrava, ensinava-lhe a manejar o formão e a plaina… Quando se sentia cansado, olhava para o seu filho, que era o Filho de Deus, e aquela tarefa adquiria aos seus olhos um novo vigor, porque sabia que com o seu trabalho colaborava com os planos misteriosos, mas reais, da salvação. Peçamos-lhe hoje que nos ensine a ter essa presença de Deus que ele teve enquanto exercia o seu ofício. E não nos esqueçamos de Santa Maria, a quem vamos dedicar com muito amor este mês de Maio que hoje começa. Não nos esqueçamos de oferecer em sua honra todos estes dias, alguma hora de trabalho ou de estudo, mais intensa, mais bem acabada.

(1) Sl 127, 1-2; cfr. Antífona de entrada da Missa de 1º de maio; (2) Gen 1, 26; 2, 3; (3) Gen 2, 15; (4) Gen 3, 17-19; (5) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 47; (6) João Paulo II, Exort. Apost. Redemptoris custos, 15-VIII-1989, 22; (7) Pio XI, Enc.Quadragesimo anno, 15-V-1931; (8) Mt 13, 54-58; (9) Mc 6, 3; (10) Conc. Vat. II, Const. Gaudium et spes, 67; (11) P. Berglar, Opus Dei, Rialp, Madrid, 1987, pág. 309; (12) Oração sobre as oferendas da Missa de 1º de maio; (13) E. D’Ors,Aprendizaje y heroísmo: grandeza y servidumbre de la inteligencia, EUNSA, Pamplona, 1973, págs. 19-20.

 

Fonte: Falar com Deus


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Fazer o Bem e Resistir ao Mal

 

Leiam a meditação abaixo tendo em mente as circunstâncias atuais no Brasil, em especial quanto ao aborto e à família. Lembremos: Importa obedecer antes a Deus do que aos homens !

– Resistência dos Apóstolos em cumprir ordens injustas. Firmeza na fé.

– Todas as realidades, cada uma na sua ordem, devem ser orientadas para Deus. Unidade de vida. Exemplaridade.

– Não se pode prescindir da fé à hora de avaliar as realidades terrenas. Resistência ao mal.

I. APESAR DA SEVERA PROIBIÇÃO do Sumo Sacerdote e do Sinédrio de que não voltassem a pregar e a ensinar em nome de Jesus1, os Apóstolos pregavam cada vez com mais liberdade e firmeza a doutrina da fé. E eram muitos os que se convertiam. Então – narra-nos a primeira leitura da Missa – levaram-nos de novo ao Sinédrio e o Sumo Sacerdote os interrogou dizendo: Não vos ordenamos expressamente que não ensinásseis nesse nome? Mas vós enchestes Jerusalém com a vossa doutrina! [...] Pedro e os Apóstolos replicaram: Importa obedecer antes a Deus do que aos homens2. E continuaram a anunciar a Boa Nova.

A resistência dos Apóstolos em obedecer às ordens do Sinédrio não era orgulho nem desconhecimento dos seus deveres sociais para com a autoridade legítima. Opõem-se porque se pretende impor-lhes uma ordem injusta, que atenta contra a lei de Deus. Lembram aos seus juízes, com valentia e simplicidade, que a obediência a Deus é a primeira das obrigações. Estão convencidos de que “não há perigo para os que temem a Deus, mas para os que não o temem”3, e que é pior cometer uma injustiça do que ser vítima dela.

Também nos nossos dias o Senhor pede aos que são seus a fortaleza e a convicção daqueles primeiros, quando, em alguns ambientes, se respira um clima de indiferença ou de ataques frontais aos verdadeiros valores humanos e cristãos. Uma consciência bem formada incitará o cristão a cumprir as leis como o melhor dos cidadãos, e urgi-lo-á também a tomar posição sempre que se pretenda promulgar normas contrárias à lei natural. O Estado não é juridicamente onipotente; não é a fonte do bem e do mal.

“É obrigação dos católicos presentes nas instituições públicas – ensinam os bispos espanhóis – exercer uma ação crítica dentro das suas próprias instituições para que os seus programas e atuações correspondam cada vez melhor às aspirações e critérios da moral cristã. Em alguns casos, pode até ser obrigatória a objeção de consciência em face de atuações e decisões que contrariem diretamente alguns preceitos da moral cristã”4.

A proteção efetiva dos bens fundamentais da pessoa, o direito à vida desde o momento da concepção, a proteção ao casamento e à família, a igualdade de oportunidades na educação e no trabalho, a liberdade de ensino e de expressão, a liberdade religiosa, a segurança pública, a contribuição para a paz mundial etc., fazem parte do bem comum pelo qual os cristãos devem lutar5.

A passividade em face de assuntos tão importantes seria na realidade uma lamentável claudicação e uma omissão, por vezes grave, do dever de contribuir para o bem comum. Seria um desses pecados de omissão dos quais – além dos que cometemos por pensamentos, palavras e atos – pedimos perdão todos os dias no começo da Santa Missa. “Muitas realidades materiais, técnicas, econômicas, sociais, políticas, culturais…, abandonadas a si mesmas, ou em mãos dos que não possuem a luz da nossa fé, convertem-se em obstáculos formidáveis para a vida sobrenatural: formam como que um campo fechado e hostil à Igreja. – Tu, por seres cristão – pesquisador, literato, cientista, político, trabalhador… –, tens o dever de santificar essas realidades. Lembra-te de que o universo inteiro – assim o escreve o Apóstolo – está gemendo como que com dores de parto, à espera da libertação dos filhos de Deus”6.

II. MOVE-SE À NOSSA VOLTA um contínuo fluxo e refluxo de correntes de opinião, de doutrinas, de ideologias, de teorias muito diferentes sobre o homem e a vida. E isso não somente através de publicações especializadas, mas de romances que estão na moda, de revistas gráficas, de programas de televisão ao alcance de adultos e crianças… E no meio dessa confusão doutrinal, é necessária uma norma de discernimento, um critério claro, firme e profundo, que nos permita encarar tudo com a unidade e coerência de uma visão cristã da vida, que sabe que tudo procede de Deus e se ordena para Deus.

A fé nos dá critérios estáveis, bem como a firmeza dos Apóstolos para levá-los à prática. Dá-nos uma visão clara do mundo, do valor das coisas e das pessoas, dos verdadeiros e falsos bens… Sem Deus e sem o conhecimento do fim último do homem, o mundo torna-se incompreensível ou passa a ser visto sob um prisma parcial e deformado. Precisamente “o aspecto mais sinistramente típico da época moderna consiste na absurda tentação de construir uma ordem temporal sólida e fecunda sem Deus, único fundamento em que pode sustentar-se”7.

O cristão não deve prescindir da sua fé em nenhuma circunstância. “Aconfessionalismo. Neutralidade. Velhos mitos que tentam sempre remoçar. – Tens-te dado ao trabalho de meditar no absurdo que é deixar de ser católico ao entrar na Universidade, ou na Associação profissional, ou na sábia Academia, ou no Parlamento, como quem deixa o chapéu à porta?”8 Esta atitude equivale a dizer, tanto na política como nos negócios, no modo de descansar e distrair-me, quando estou com os amigos ou quando escolho o colégio para os meus filhos: aqui, nesta situação concreta, Deus não é chamado para nada; a minha fé cristã não influi nestes assuntos, nada disto vem de Deus nem se ordena para Deus.

A fé ilumina toda a vida. Tudo se ordena para Deus. É bem verdade que essa ordenação deve respeitar a natureza própria de cada coisa; não se trata de converter o mundo numa imensa sacristia, nem os lares em conventos, nem a economia em beneficência… Mas, sem simplificações ingênuas, a fé deve informar o pensamento e a ação do cristão porque nunca, seja em que circunstância for, em momento algum do dia, se deve deixar de ser cristão e, portanto, de agir e pensar como tal.

Por isso, “os cristãos exercerão as suas respectivas profissões movidos pelo espírito evangélico. Não é bom cristão quem submete a sua forma de atuar profissionalmente ao desejo de ganhar dinheiro ou de alcançar poder como valor supremo e definitivo. Os profissionais cristãos, em qualquer área da vida, devem ser exemplo de laboriosidade, competência, honestidade, responsabilidade e generosidade”9.

III. UM CRISTÃO não pode prescindir da luz da fé à hora de avaliar um programa político ou social, uma obra de arte ou cultural. Não pode restringir-se à consideração de um só aspecto – econômico, político, técnico, artístico… – para julgar da bondade ou malícia de uma realidade. Se nesse acontecimento político ou social ou nessa obra não se respeita a devida ordenação para Deus – manifestada nas exigências da Lei divina –, a sua avaliação definitiva não pode deixar de ser negativa, seja qual for a avaliação parcial de outros aspectos dessa realidade.

Não se pode aplaudir determinada política, determinada ordenação social ou obra cultural, quando se transformam em instrumento do mal. É uma questão de estrita moralidade e, portanto, de bom senso. Quem louvaria um insulto à sua própria mãe, simplesmente por estar vazado num verso de grande perfeição rítmica? Quem difundiria esse verso, louvando as suas perfeições, mesmo fazendo a ressalva de que eram perfeições apenas “formais”? É evidente que a perfeição técnica dos meios só contribui para agravar a maldade de uma coisa desordenada em si, pois de outro modo passaria despercebida ou teria menos virulência.

Diante de crimes abomináveis, que é como o Concílio Vaticano II qualifica os abortos, a consciência cristã retamente formada exige que não se participe na sua prática, que se desaconselhem vivamente, que se impeçam, se for possível, e, além disso, que se trabalhe ativamente por evitar ou subsanar essa aberração moral no ordenamento jurídico. Diante desses fatos gravíssimos e de outros semelhantes que se opõem frontalmente à moral, ninguém deve pensar que não pode fazer nada. O pouco que cada um pode fazer, deve fazê-lo: especialmente mediante uma participação responsável na vida pública. “Mediante o exercício do voto, confiamos a umas instituições determinadas e a pessoas concretas a gestão dos assuntos públicos. Desta decisão coletiva dependem aspectos muito importantes da vida social, familiar e pessoal, não somente na ordem econômica e material, mas também na moral”10.

Está nas mãos de todos, de cada um de nós, se atuarmos com sentido sobrenatural e senso comum, a tarefa de fazer deste mundo, que Deus nos deu para habitar, um lugar mais humano e meio de santificação pessoal. Se nos esforçarmos por cumprir os nossos deveres sociais, quer vivamos numa grande cidade ou num povoado perdido, quer tenhamos um cargo importante ou uma ocupação humilde na sociedade, mesmo que pensemos que o nosso contributo é minúsculo, seremos fiéis ao Senhor, e também o seremos se um dia o Senhor nos pedir uma atuação mais heróica: Aquele que é fiel no pouco também será fiel no muito11.

(1) Cfr. At 4, 18; (2) At 5, 27-29; (3) São João Crisóstomo, Homilias sobre os Atos dos Apóstolos, 13; (4) Conferência Episcopal Espanhola, Testigo de Dios vivo, 28-VI-1985, n. 64; (5) idem, Los católicos en la vida pública, 22-IV-1986, n. 119-121; (6) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 311; (7) João XXIII, Enc. Mater et Magistra, 15-V-1961, 72; (8) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 353; (9) Conferência Episcopal Espanhola, Testigo de Dios vivo, n. 63; (10) idem, Los católicos en la vida pública, n. 118; (11) Lc 16, 10.

Fonte: Falar com Deus


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Trabalho: Trabalho e contemplação

 

Ser contemplativos é desfrutar do olhar de Deus. Por isso, quem se sabe acompanhado por Ele durante o dia, vê com outros olhos as ocupações nas quais está empenhado.

Gostaria que hoje, na nossa meditação, nos persuadíssemos definitivamente da necessidade de nos dispormos a ser almas contemplativas, no meio da rua, do trabalho, mantendo com o nosso Deus um diálogo contínuo, que não deve decair ao longo do dia. Se pretendermos seguir lealmente os passos do Mestre, esse é o único caminho.[1]

Para aqueles que são chamados por Deus  a santificar-se no meio do mundo,  converter o trabalho em oração e ter alma contemplativa, é o único caminho, porque ou sabemos encontrar o Senhor em nossa vida ordinária, ou nunca O encontraremos[2].

Opus Dei -

Convém que meditemos bem devagar sobre este ensinamento capital de São Josemaria. Neste texto, consideraremos o que é a contemplação; em outras ocasiões deter-nos-emos no aprofundamento da vida contemplativa no trabalho e nas atividades da vida ordinária.

COMO EM NAZARÉ, COMO OS PRIMEIROS CRISTÃOS

A descoberta de Deus na atividade habitual de cada dia dá aos próprios afazeres seu valor último e sua plenitude de sentido. A vida oculta de Jesus em Nazaré, os anos intensos de trabalho e de oração, nos quais Jesus Cristo levou uma vida comum — como a nossa, se o quisermos —,  divina e humana ao mesmo tempo[3], mostram que a atividade profissional, a atenção dedicada à família e as relações sociais não são obstáculo para orar sempre[4], mas ocasião e meio para uma vida intensa de intimidade com Deus, até que chega um momento em que é impossível estabelecer uma diferença entre trabalho e contemplação.

Por esse caminho de contemplação na vida ordinária, seguindo as pegadas do Mestre, decorreu a vida dos primeiros cristãos: «quando passeia, conversa, descansa, trabalha ou lê, o crente ora»[5], escrevia um autor do século II. Anos mais tarde, São Gregório Magno testemunha, como um ideal tornado realidade em numerosos fiéis, que «a graça da contemplação não se dá sim aos grandes e não aos pequenos; mas muitos grandes a recebem, e também muitos pequenos; e tanto entre os que vivem retirados como entre pessoas casadas. Portanto, se não há estado algum entre os fiéis que fique excluído da graça da contemplação, aquele que guarda interiormente o coração pode ser ilustrado com essa graça»[6].

Opus Dei -

O Magistério da Igreja, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, recordou muitas vezes esta doutrina, tão importante para os que têm a missão de levar Cristo a todas as partes e transformar o mundo com o espírito cristão. «As atividades diárias apresentam-se como um precioso meio de união com Cristo, podendo converter-se em matéria de santificação, terreno de exercício das virtudes, diálogo de amor que se realiza nas obras. O espírito de oração transforma o trabalho e assim torna-se possível estar em contemplação de Deus ainda que permanecendo nas ocupações mais variadas»[7].

A CONTEMPLAÇÃO DOS FILHOS DE DEUS

Ensina o Catecismo que «a contemplação de Deus na Sua glória celestial é chamada pela Igreja "visão beatífica"»[8]. Desta contemplação plena de Deus, própria do Céu, podemos ter uma certa antecipação nesta terra, um princípio imperfeito [9] que, embora seja de ordem diversa da visão, é já uma verdadeira contemplação de Deus, assim como a graça, embora sendo de ordem distinta da glória, é, não obstante, uma verdadeira participação na natureza divina. Agora vemos como num espelho, obscuramente; depois veremos cara a cara. Agora conheço de modo imperfeito, depois conhecerei como sou conhecido [10], escreve São Paulo.

Essa contemplação de Deus como num espelho, durante a vida presente, é possível graças às virtudes teologais, à fé e à esperança vivas, informadas pela caridade. A fé unida à esperança e vivificada pela caridade «faz-nos saborear antecipadamente o gozo e a luz da visão beatífica, fim de nosso caminhar aqui em baixo»[11].

A contemplação é um conhecimento amoroso e gozoso de Deus e de seus desígnios manifestados nas criaturas, na Revelação sobrenatural e plenamente na Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, nosso Senhor. «Ciência de amor»[12], chama-a São João da Cruz. A contemplação é um conhecimento total da verdade, alcançado não por um processo de raciocínio, mas por uma intensa caridade[13].

A oração mental é um diálogo com Deus. Escreveste-me: "Orar é falar com Deus. Mas, de quê?" — De quê? D´Ele e de ti: alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias…, fraquezas!: e ações de graças e pedidos: e Amor e desagravo. Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te: "relacionar-se!"[14]. Na vida espiritual, este relacionamento com Deus tende a simplificar-se à medida que aumenta o amor filial, cheio de confiança. Sucede então que, com frequência, já não são necessárias as palavras para orar, nem as exteriores nem as interiores. Sobram as palavras, porque a língua não consegue expressar-se; já o entendimento se aquieta. Não se raciocina, olha-se![15].

Isto é a contemplação, um modo de orar ativo mas sem palavras, intenso e sereno, profundo e simples. Um dom que Deus concede aos que o buscam com sinceridade, aos que põem toda a alma no cumprimento de Sua Vontade, com obras, e procuram mover-se na sua presença. Primeiro uma jaculatória, e depois outra, e outra…, até que parece insuficiente esse fervor, porque as palavras resultam pobres…: e dá-se passagem à intimidade divina, num olhar para Deus sem descanso e sem cansaço[16]. Isto pode suceder, como ensina São Josemaria, não só nos tempos dedicados expressamente à oração, mas também enquanto realizamos com a maior perfeição possível, dentro de nossos erros e limitações, as tarefas próprias de nossa condição e de nosso ofício[17].

SOB A ACÃO DO ESPÍRITO SANTO

O Pai, o Filho e o Espírito Santo habitam na alma em graça[18]: somos templos de Deus[19]. As palavras não chegam para expressar a riqueza do mistério da Vida da Santíssima Trindade em nós: o Pai que gera eternamente o Filho, e que com o Filho expira ao Espírito Santo, vínculo de Amor subsistente. Pela graça de Deus, tomamos parte dessa Vida como filhos. O Paráclito une-nos ao Filho, que assumiu a natureza humana para nos fazer participantes da natureza divina: ao chegar a plenitude dos tempos, enviou Deus a seu Filho, nascido de mulher (…) a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: «¡Abba, Pai!»[20]. E nesta união com o Filho não estamos sós, mas formamos um corpo, o Corpo místico de Cristo, ao qual todos os homens estão chamados a incorporar-se como membros vivos e a ser, como os apóstolos, instrumentos para atrair a outros, participando no sacerdócio de Cristo[21].

Opus Dei -

A vida contemplativa é a vida própria dos filhos de Deus, vida de intimidade com as Pessoas Divinas e transbordante de afã apostólico. O Paráclito infunde em nós a caridade que nos permite alcançar um conhecimento de Deus que sem a caridade é impossível, pois o que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor[22]. Quem mais O ama melhor O conhece, já que esse amor —a caridade sobrenatural— é uma participação na infinita caridade que é o Espírito Santo[23], que tudo perscruta, até as profundezas de Deus. Pois quem sabe o que existe no homem, senão o espírito do homem que está nele? Assim também, as coisas de Deus ninguém as conheceu se não o próprio Espírito de Deus[24].

Esse Amor, com maiúscula, instaura na vida da alma uma estreita familiaridade com as Pessoas Divinas, e um entendimento de Deus mais agudo, mais rápido, certeiro e espontâneo, em profunda sintonia com o Coração de Cristo[25]. Também no plano humano, os que se amam compreendem-se com mais facilidade e por isso São Josemaria recorre a essa experiência para transmitir de algum modo o que é a contemplação de Deus; por exemplo, dizia que em sua terra, às vezes, se dizia: olha como o contempla!; e explicava como esse modo de dizer se referia a uma mãe que tinha seu filho nos braços, a um noivo que contemplava sua noiva, à mulher que velava a cabeceira do marido. Pois bem, assim devemos contemplar ao Senhor.

Mas toda a realidade humana, por mais formosa que seja, transforma-se em uma sombra da contemplação que Deus concede às almas fiéis. Se a caridade sobrenatural supera em altura, em qualidade e em força qualquer amor simplesmente humano, que dizer dos dons do Espírito Santo, que nos permitem deixar-nos conduzir docilmente por Ele? Com o crescimento destes dons – Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade e Temor Filial—, cresce a co-naturalidade ou a familiaridade com Deus e se revela todo o colorido da vida contemplativa.

Em especial, pelo dom da Sabedoria – o primeiro e maior dos dons do Espírito Santo[26]—, é-nos concedido não só conhecer e assentir às verdades reveladas acerca de Deus e das criaturas, como é próprio da fé, mas também saborear essas verdades, conhecê-las com «um certo sabor de Deus»[27]. A Sabedoria – sapientia – é uma sapida scientia: uma ciência que se saboreia. Graças a este dom não só se crê no Amor de Deus, mas também se sabe de um modo novo[28]. É um saber ao qual só se chega com santidade: e há almas obscuras, ignoradas, profundamente humildes, sacrificadas, santas, com um sentido sobrenatural maravilhoso: Eu Te glorifico, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondestes  estas coisas aos sábios e aos prudentes, e as revelastes aos pequeninos[29]. Com o dom da Sabedoria, a vida contemplativa introduz-se nas profundezas de Deus[30]. Neste sentido, São Josemaria nos convida a meditar sobre um texto de São Paulo, no qual nos propõe todo um programa de vida contemplativa —conhecimento e amor, oração e vida— (…): que Cristo habite pela fé nos vossos corações; e que arraigados e cimentados na caridade, possais compreender com todos os santos qual é a largura e a grandeza, a altura e a profundidade do mistério; e conhecer também aquele amor de Cristo, que ultrapassa todo o conhecimento para que vós estejais repletos de toda a plenitude de Deus (Ef 3,17-19)[31].

Temos de implorar ao Espírito Santo o dom de Sabedoria junto com os restantes dons, seu séquito inseparável. São os presentes do Amor divino, as joias que o Paráclito entrega aos que querem amar a Deus com todo o coração, com toda a alma, com todas as forças.

PELO CAMINHO DA CONTEMPLAÇÃO

Quanto maior for a caridade, mais intensa é a familiaridade com Deus, na qual surge a contemplação.Até a caridade mais fraca, como a de quem se limita a não pecar gravemente, mas que não busca cumprir em tudo a Vontade de Deus, estabelece uma certa conformidade com a Vontade divina. No entanto, um amor que não busca amar mais, que não tem o fervor da piedade, parece-se mais com a cortesia formal de um estranho do que com o afeto de um filho. Quem se conformasse com isso em sua relação com Deus não passaria de um conhecimento das verdades reveladas, insípido e passageiro, porque quem se contenta com ouvir a palavra, sem a pôr em prática, é semelhante a um homem que contempla a figura de seu rosto no espelho: olha-se, vai embora  e imediatamente se esquece de como era[32].

Muito diferente é o caso de quem deseja sinceramente identificar em tudo sua vontade com a Vontade de Deus e, com a ajuda da graça, emprega os meios: a oração mental e vocal, a participação nos Sacramentos – a Confissão frequente e a Eucaristia -, o trabalho e o cumprimento fiel dos próprios deveres, a procura da presença de Deus ao longo do dia: o cuidado do plano de vida espiritual junto com uma intensa formação cristã.

O ambiente atual da sociedade conduz muitos a viverem voltados para o exterior, com uma permanente ânsia de possuir isto ou aquilo, de ir daqui para ali, de olhar e ver, de mover-se, de distrair-se com futilidades, talvez com o objetivo de esquecer seu vazio interior, a perda do sentido transcendente da vida humana. Àqueles que, como nós, descobrimos o chamado divino à santidade e ao apostolado, deve suceder o contrário. Quanto mais atividade exterior, mais vida para dentro, mais recolhimento interior, procurando o diálogo com Deus presente na alma em graça e mortificando os afãs da concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida[33]. Para contemplar a Deus é preciso limpar o coração. Bem aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus[34].

Peçamos à Nossa Mãe Santa Maria que nos obtenha do Espírito Santo o dom de sermos contemplativos no meio do mundo, dom que excedeu na sua vida santíssima.

Texto de: J. López. Fonte: Opus Dei

[1] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 238.
[2] São Josemaria, Conversações, n. 114.
[3] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 56.
[4] Lc 18, 1.
[5] Clemente de Alexandría, Stromata, 7, 7.
[6] São Gregório Magno, In Ezechielem homiliae, 2, 5, 19.
[7] João Paulo II, Discurso ao Congresso «A grandeza da vida ordinária», no centenário do nascimento de São Josemaria, 12-I-2002, n. 2.
[8] Catecismo da Igreja Católica, n. 1028.
[9] Cfr. Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, q. 12, a. 2, c; e II-II, q. 4, a.1; q. 180, a. 5, c.
[10] 1 Cor 12, 12. Cfr. 2 Cor 5, 7; 1 Jn 3, 2.
[11] Catecismo da Igreja Católica, n. 163.
[12] São João da Cruz, Noite escura, liv. 2, cap. 18, n. 5.
[13] Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 180, a. 1, c e a.3, ad 1.
[14] São Josemaria, Caminho, n. 91.
[15] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 307.
[16] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 296.
[17] Idem.
[18] Cfr. Jo 14, 23.
[19] Cfr. 1 Cor 3, 16; 2 Cor 6, 16.
[20] Gal 4, 4-6.
[21] Cfr. 1 Cor 12, 12-13, 27; Ef 2, 19-22; 4, 4.
[22] 1 Jo 4, 9.
[23] Cfr. Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 24, a. 7, c. In Epist. ad Rom., c. 5, lect. 1.
[24] 1 Cor 2, 10-11.
[25] Cfr. Mt 11, 27.
[26] Cfr. João Paulo II, Alocução 9-04-1989.
[27] Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae II-II, q. 45, a. 2, ad 1.
[28] Cfr. Rm 8, 5.
[29] Mt 11, 25.
[30] 1 Cor 1, 10.
[31] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 163.
[32] St 1, 23-24.
[33] 1 Jo 2, 16.
[34] Mt 5, 8.


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Jesus nos chama no Trabalho

– O Senhor chama os discípulos no meio do seu trabalho, como também nos chama a nós nos nossos afazeres.

– A santificação do trabalho. O exemplo de Cristo.

– Trabalho e oração.

I. DEPOIS DO BATISMO, com o qual inaugura o seu ministério público, Jesus procura aqueles que fará participar da sua missão salvífica. E encontra-os no seu trabalho profissional. São homens habituados ao esforço, rijos, de costumes simples. Caminhando ao longo do mar da Galiléia, lê-se no Evangelho da Missa de hoje1,Jesus viu Simão e André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. E disse-lhes: “Vinde após mim e eu vos farei pescadores de homens”. E muda a vida desses homens.

Os Apóstolos foram generosos perante a chamada de Deus. Esses quatro discípulos – Pedro, André, João e Tiago – já conheciam o Senhor2, mas é neste momento exato que, respondendo à chamada divina, decidem segui-lo completamente, sem condições, sem cálculos, sem reservas. A partir de agora, Cristo será o centro das suas vidas e exercerá sobre eles uma atração indescritível.

O Senhor procura-os no meio da sua tarefa quotidiana, tal como fez com os Magos ao chamá-los por meio daquilo que lhes podia ser mais familiar: o brilho de uma estrela; tal como o Anjo chamou os pastores de Belém, enquanto cumpriam o seu dever de guardar o rebanho, para que fossem adorar o Menino-Deus e acompanhassem Maria e José naquela noite…

No meio do nosso trabalho, dos nossos afazeres, Jesus convida-nos a segui-lo, para que o coloquemos no centro da nossa existência, para que o sirvamos na tarefa de evangelizar o mundo. “Deus tira-nos das trevas da nossa ignorância, do nosso caminhar incerto por entre as vicissitudes da história, e, seja qual for o posto que ocupemos no mundo, chama-nos com voz forte, como o fez um dia com Pedro e com André: Venite post me, et faciam vos fieri piscatores hominum (Mt 4, 19), segui-me, e eu vos tornarei pescadores de homens”3. Escolhe-nos e, na maioria dos casos, deixa-nos no lugar em que estamos: na família, no trabalho que realizamos, na associação cultural ou esportiva a que pertencemos…, para que nesse lugar e nesse ambiente o amemos e o demos a conhecer.

Desde o momento em que nos decidimos a ter Cristo por centro da nossa vida, tudo o que fazemos é afetado por essa decisão. Devemos perguntar-nos se somos conscientes do que significa termos sido chamados para crescer na amizade com Jesus Cristo precisamente no lugar em que estamos.

II. O SENHOR PROCURA-NOS e envia-nos ao nosso ambiente e à nossa profissão. Mas quer que agora esse trabalho quotidiano seja diferente. “Escreves-me na cozinha, junto ao fogão. Está começando a tarde. Faz frio. A teu lado, a tua irmãzinha – a última que descobriu a loucura divina de viver a fundo a sua vocação cristã – descasca batatas. Aparentemente – pensas – o seu trabalho é igual ao de antes. Contudo, há tanta diferença! – É verdade: antes “só” descascava batatas; agora, santifica-se descascando batatas”4.

Para nos santificarmos através dos afazeres do lar, das gazes e das pinças do hospital (com esse sorriso habitual para os doentes!), no escritório, na cátedra, dirigindo um trator, limpando a casa ou descascando batatas…, o nosso trabalho deve assemelhar-se ao de Cristo – a quem pudemos contemplar na oficina de José há poucos dias – e ao trabalho dos Apóstolos que hoje, no Evangelho da Missa, vemos ocupados em pescar. Devemos fixar a nossa atenção no Filho de Deus feito Homem enquanto trabalha e perguntar-nos: que faria Jesus no meu lugar? Como realizaria as tarefas que me absorvem?

O Evangelho diz-nos que o Senhor fez tudo bem feito5, com perfeição humana, sem coisas mal acabadas. Entregaria as encomendas no prazo combinado; arremataria o seu trabalho de artesão com amor, pensando na alegria dos seus clientes ao receberem peças simples, mas perfeitas; chegaria cansado ao fim do dia… Além disso, Jesus executou ainda as suas tarefas com plena eficácia sobrenatural, pois ao mesmo tempo, com esse trabalho, realizava a redenção da humanidade, unido a seu Pai por amor e com amor, e unido aos homens por amor deles também6.

Ainda que se ocupe num trabalho aparentemente pouco importante, nenhum cristão pode pensar que basta realizá-lo de qualquer maneira, de uma forma desleixada, descuidada e sem perfeição. Esse trabalho é visto por Deus e tem uma importância que nem podemos imaginar. “Perguntaste o que é que podias oferecer ao Senhor. – Não preciso pensar a minha resposta: as coisas de sempre, mas melhor acabadas, com um arremate de amor que te leve a pensar mais nEle e menos em ti”7.

III. PARA UM CRISTÃO que vive de olhos postos em Deus, o trabalho deve ser oração, pois seria uma pena que descascasse batatas, em vez de santificar-se enquanto as descasca bem; deve ser uma forma de estar com o Senhor ao longo do dia.

Orar é conversar com Deus, elevar a alma e o coração até Ele para louvá-lo, agradecer-lhe, desagravá-lo, pedir-lhe novas ajudas. Pode-se fazê-lo por meio de pensamentos, de palavras, de afetos: é a chamada oração mental, que deve estar presente nas próprias orações vocais. Mas pode-se fazê-lo ainda através de ações capazes de mostrar a Deus quanto o amamos e quanto necessitamos dEle. Neste sentido, também é oração todo o trabalho bem acabado e realizado com senso sobrenatural8, isto é, com a consciência de se estar colaborando com Deus na perfeição das coisas criadas e de se estar impregnando todas elas com o amor de Cristo, completando assim a sua obra de redenção realizada não só no Calvário, mas também na oficina de Nazaré.

O cristão que estiver unido a Cristo pela graça converte as suas obras retas em oração. Mas o valor dessa oração que é o trabalho dependerá do amor que puser ao realizá-lo, isto é, da intenção com que o executar. Quanto mais atualizar a intenção de convertê-lo em instrumento de redenção, não só o realizará com outra perfeição humana, como será maior a ajuda que prestará a toda a Igreja.

Pela natureza de alguns trabalhos, que exigem uma grande concentração, não nos é fácil ter a mente habitualmente em Deus enquanto trabalhamos; mas, se nos acostumarmos a elevar o coração ao Senhor no começo de uma tarefa ou de um período de trabalho, e depois brevemente ao longo das horas, Ele estará presente como uma “música de fundo” em tudo o que fazemos.

Se desempenharmos assim as nossas tarefas, o trabalho e a vida interior não sofrerão interrupções, “como o bater do coração não interrompe a atenção às nossas atividades, seja de que tipo forem”9. Pelo contrário, acabarão por complementar-se, tal como se enlaçam harmonicamente as vozes e os instrumentos. O trabalho não só não dificultará a vida de oração, como se converterá no seu veículo. E há de tornar-se realidade então o que pedimos ao Senhor numa belíssima prece10:Actiones nostras, quaesumus, Domine, aspirando praeveni et adiuvando prosequere: ut cuncta nostra oratio et operatio a te semper incipiat et per te coepta finiatur – que todo o nosso dia, a nossa oração e o nosso trabalho, ganhem a sua força e comecem sempre em Vós, Senhor, e que tudo o que começamos por Vós chegue ao seu termo11.

Se Jesus Cristo, a quem constituímos como centro da nossa existência, estiver na raiz de tudo o que fazemos, ser-nos-á cada vez mais natural aproveitar todas as pausas que surgem em qualquer trabalho para que essa “música de fundo” se transforme numa autêntica canção. Ao mudarmos de atividade, ao pararmos com o carro diante do
sinal vermelho de um semáforo, ao finalizarmos o estudo de uma matéria, enquanto não conseguimos uma ligação telefônica, ao devolvermos as ferramentas ao seu lugar…, aflorará essa jaculatória, esse olhar a uma imagem de Nossa Senhora ou ao Crucifixo, um pedido sem palavras ao Anjo da Guarda, que nos hão de reconfortar por dentro e nos hão de ajudar a prosseguir os nossos afazeres.

Como o amor é engenhoso, saberemos descobrir alguns “expedientes humanos”, alguns lembretes, que nos ajudem a não esquecer que temos de ir para Deus através das coisas humanas. “Coloca na tua mesa de trabalho, no teu quarto, na tua carteira…, uma imagem de Nossa Senhora, e dirige-lhe o olhar ao começares a tua tarefa, enquanto a realizas e ao terminá-la. Ela te alcançará – garanto! – a força necessária para fazeres, da tua ocupação, um diálogo amoroso com Deus”12.

(1) Mc 1, 14-20; (2) Jo 1, 35-42; (3) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, Quadrante, São Paulo, 1975, n. 45; (4) Josemaría Escrivá, Sulco, Quadrante, São Paulo, 1987, n. 498; (5) Mc 7, 37; (6) cfr. J. L. Illanes, A santificação do trabalho, 2ª ed., Quadrante, São Paulo, 1982, págs. 70 e segs.; (7) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 495; (8) cfr. R. Gómez Pérez, La fe y los días, 3ª ed., Palabra, Madrid, 1973, págs. 107-110; (9) Josemaría Escrivá, Carta, 15-X-1948; (10) Enchiridion indulgentiarum, Tip. Poliglota Vaticana, Roma, 1968, n. 1; (11) cfr. S. Canals, Reflexões espirituais, 2ª ed., Quadrante, São Paulo, 1988, pág. 98; (12) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 531.

Fonte: Falar com Deus


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Trabalho como Caminho de Santificação

– O Senhor, que trabalhou na oficina de São José, é nosso modelo no trabalho.

– Como foi o trabalho de Jesus. Como deve ser o nosso.

– Devemos ganhar o céu com o trabalho. Mortificações, detalhes de caridade, competência profissional nas nossas tarefas.

I. QUANDO MEDITAMOS a vida de Jesus, vemos que o Senhor passou a maior parte dos seus dias na obscuridade de um pequeno povoado, praticamente desconhecido dentro da sua própria pátria. Compreendemos que alguns dos seus vizinhos lhe dissessem: Sai daqui para que vejam as obras que fazes; ninguém faz estas coisas em segredo se pretende manifestar-se1. Mas o valor das obras do Senhor foi sempre infinito, e Ele dava a seu Pai a mesma glória quer quando serrava toros de madeira, quer quando ressuscitava um morto ou quando as multidões o seguiam louvando a Deus.

Durante esses trinta anos da vida de Jesus em Nazaré, o mundo presenciou muitos acontecimentos. A paz de Augusto chegava ao fim e as legiões romanas preparavam-se para conter os invasores bárbaros… Na Judéia, Arquelau era desterrado por causa das suas inúmeras arbitrariedades… Em Roma, o Senado divinizava Otávio Augusto…

Mas o Filho de Deus encontrava-se então numa pequena aldeia, a 140 quilômetros de Jerusalém. Vivia numa casa modesta, talvez feita de adobe, como as outras, com a sua Mãe, Maria, pois José já devia ter falecido. O que fazia ali o Deus-Homem? Trabalhava, como os demais homens da aldeia. Não se distinguia deles por nada de chamativo, pois também era um deles. Era perfeito Deus e homem perfeito. E nós não podemos esquecer que a existência terrena do Filho de Deus se compôs não só dos três anos de vida apostólica, mas destes trinta anos de vida oculta.

Quando, depois de iniciada a vida pública, volta um dia a Nazaré, os seus conterrâneos admiram-se da sua sabedoria e dos fatos prodigiosos que se contavam a seu respeito. Conheciam-no pelo seu ofício: Que sabedoria é esta que lhe foi dada?… Não é este o artesão, filho de Maria…?2 E São Mateus nos dirá também, em outro lugar, o que pensavam de Cristo na sua terra: Não é este o filho do carpinteiro? A sua mãe não se chama Maria?3 Tinham-no visto trabalhar durante muitos anos, dia após dia. Por isso traziam agora à baila o seu ofício. Na sua pregação, pode-se notar, além disso, que Jesus conhece bem o mundo do trabalho; conhece-o como alguém que esteve bem metido nele, e é por isso que apresenta muitos exemplos de gente que trabalha.

Com estes anos de vida oculta em Nazaré, o Senhor quis mostrar-nos o valor da vida diária como meio de santificação. “Porque a vida comum e normal, aquela que vivemos entre os demais concidadãos, nossos iguais, não é nenhuma coisa sem altura e sem relevo. É precisamente nessas circunstâncias que o Senhor quer que a imensa maioria dos seus filhos se santifique”4.

Os nossos dias podem ser santificados se se assemelharem aos de Jesus nesses seus anos de vida oculta e simples em Nazaré: se trabalharmos conscienciosamente e nos mantivermos na presença de Deus ao longo das nossas ocupações, se vivermos a caridade com os que estão ao nosso lado, se soubermos aceitar os contratempos sem nos queixarmos, se as relações profissionais e sociais forem para nós ocasião de ajudar os outros e aproximá-los de Deus.

II. SE CONTEMPLARMOS a vida de Jesus ao longo destes anos sem relevo externo, vê-lo-emos trabalhar bem, sem dar “jeitos”, preenchendo as horas com um trabalho intenso. Não nos custa imaginar o Senhor recolhendo os instrumentos de trabalho no fim do dia, deixando as coisas ordenadas, recebendo afavelmente o vizinho que lhe vai encomendar alguma peça, mesmo aquele que é menos simpático e aquele outro de conversa pouco grata. Jesus devia ter o prestígio de quem trabalha bem, pois fez tudo bem feito5, incluídas as coisas materiais. E todos os que se relacionaram com Ele sentiram-se sem dúvida impelidos a ser melhores e receberam os benefícios da sua oração silenciosa.

O ofício do Senhor não foi brilhante, como também não foi cômodo nem de grandes perspectivas humanas. Mas Jesus amou o seu trabalho diário e ensinou-nos a amar o nosso, sem o que é impossível santificá-lo, “pois quando não se ama o trabalho, é impossível encontrar nele qualquer tipo de satisfação, por mais que se mude de tarefa”6.

Jesus conheceu também o cansaço e a fadiga da faina diária, e experimentou a monotonia dos dias sem relevo e aparentemente sem história. E aí está outro grande benefício para nós, pois “o suor e a fadiga – que o trabalho necessariamente comporta na condição atual da humanidade – oferecem ao cristão e a cada homem, que foi chamado a seguir a Cristo, a possibilidade de participar no amor à obra que Cristo veio realizar. Esta obra de salvação realizou-se precisamente através do sofrimento e da morte na Cruz. Suportando a fadiga do trabalho em união com Cristo crucificado por nós, o homem colabora de certo modo com o Filho de Deus na redenção da humanidade. Mostra-se verdadeiro discípulo de Jesus, levando por sua vez a cruz de cada dia na atividade que foi chamado a realizar”7.

Jesus, durante os seus trinta anos de vida oculta, é o modelo que devemos imitar na nossa vida de homens comuns que trabalham diariamente. Contemplando a figura do Senhor, compreendemos com maior profundidade a obrigação que temos de trabalhar bem: não podemos pretender santificar um trabalho mal feito. Devemos aprender a encontrar a Deus nas nossas ocupações humanas, a ajudar os nossos concidadãos e a contribuir para elevar o nível de toda a sociedade e da criação8. Um mau profissional, um estudante que não estuda, um mau sapateiro…, se não mudam e melhoram, não podem alcançar a santidade no meio do mundo.

III. COM O TRABALHO HABITUAL, temos que ganhar o céu. Para isso devemos procurar imitar Jesus, “que deu ao trabalho uma dignidade enorme, trabalhando com as suas próprias mãos”9.

Devemos, pois, ter presente que “todo o trabalho humano honesto, intelectual ou manual, deve ser realizado pelo cristão com a maior perfeição possível: com perfeição humana (competência profissional) e com perfeição cristã (por amor à vontade de Deus e a serviço dos homens). Porque, feito assim, esse trabalho humano, por mais humilde e insignificante que pareça, contribui para a ordenação cristã das realidades temporais – para a manifestação da sua dimensão divina – e é assumido e integrado na obra prodigiosa da Criação e da Redenção do mundo: eleva-se assim o trabalho à ordem da graça, santifica-se, converte-se em obra de Deus…”10

No trabalho santificado – tal como o de Jesus – encontramos um campo abundante de pequenos sacrifícios que se traduzem na atenção que pomos naquilo que estamos fazendo, no cuidado e na ordem dos instrumentos que utilizamos, na pontualidade, na maneira como tratamos os outros, no cansaço que ultrapassamos, nas contrariedades que procuramos enfrentar da melhor maneira possível, sem queixas estéreis.

Os deveres profissionais abrir-nos-ão muitas possibilidades de retificar a intenção para que realmente sejam uma obra oferecida a Deus e não uma ocasião de nos procurarmos a nós mesmos. Desta maneira, nem os fracassos nos encherão de pessimismo, nem os êxitos nos afastarão de Deus. A retidão de intenção – que nos leva a executar o trabalho de olhos postos em Deus – dar-nos-á essa estabilidade de ânimo própria das pessoas que estão habitualmente na presença do Senhor.

Podemos perguntar-nos hoje, na nossa oração pessoal, se no nosso trabalho procuramo
s imitar os anos de vida oculta de Jesus. Sou competente e tenho prestígio profissional entre as pessoas da minha profissão? Cumpro acabadamente os meus deveres profissionais? Pratico as virtudes humanas e as sobrenaturais na minha tarefa diária? O meu trabalho serve para que os meus amigos se aproximem mais de Deus? Falo-lhes da doutrina da Igreja a propósito das verdades sobre as quais há mais ignorância ou confusão no momento atual?

Olhamos para o trabalho de Jesus ao mesmo tempo que examinamos o nosso. E pedimos-lhe: “Senhor, concede-nos a tua graça. Abre-nos a porta da oficina de Nazaré, para que aprendamos a contemplar-te, com a tua Mãe Santa Maria e com o Santo Patriarca José [...], dedicados os três a uma vida de trabalho santo. Comover-se-ão os nossos pobres corações, iremos à tua procura e te encontraremos no trabalho cotidiano, que Tu desejas que convertamos em obra de Deus, em obra de Amor”11.

(1) Jo 7, 3-4; (2) cfr. Mc 6, 2-3; (3) Mt 13, 55; (4) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 110; (5) Mc 7, 37; (6) Federico Suárez, José, esposo de Maria, pág. 268; (7) João Paulo II, Encíclica Laborem exercens, 14-IX-1981, 27; (8) cfr. Concílio Vaticano II, Constituição Lumen gentium, 41; (9) Concílio Vaticano II, Constituição Gaudium et spes, 67; (10) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Questões atuais do cristianismo, n. 10; (11) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 72.

Fonte: Falar com Deus


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