Sunday, 20 of May of 2012

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São José Operário

1º DE MAIO

32. SÃO JOSÉ OPERÁRIO

Memória

– O trabalho, um dom de Deus.

– Sentido humano e sobrenatural do trabalho.

– Amar a nossa ocupação profissional.

A memória de São José Operário vem-se celebrando liturgicamente desde 1955. A Igreja recorda assim – seguindo o exemplo de São José e sob o seu patrocínio – o valor humano e sobrenatural do trabalho. Todo o trabalho humano é colaboração com a obra de Deus Criador, e por Jesus Cristo converte-se – na medida do amor a Deus e da caridade com os outros – em verdadeira oração e em apostolado.

I. VIVERÁS DO TRABALHO das tuas mãos…1

A Igreja, ao apresentar-nos hoje São José como modelo, não se limita a louvar uma forma de trabalho, mas a dignidade e o valor de todo o trabalho humano honrado. Na primeira Leitura da Missa2, lemos a narração do Gênesis em que o homem surge como participante da Criação. A Sagrada Escritura também nos diz que Deus colocou o homem no jardim do Éden paraque o cultivasse e guardasse3.

O trabalho foi desde o princípio um preceito para o homem, uma exigência da sua condição de criatura e expressão da sua dignidade. É a forma como colabora com a Providência divina sobre o mundo. Com o pecado original, a forma dessa colaboração, o como, sofreu uma alteração: A terra será maldita por tua causa – lemos também no Gênesis4 –;com fadiga te alimentarás dela todos os dias da tua vida… Comerás o pão com o suor do teu rosto…

O que deveria ser realizado de um modo sereno e aprazível, tornou-se depois da queda original trabalhoso, e muitas vezes esgotador. No entanto, permanece inalterada a realidade de que o trabalho em si está relacionado com o Criador e colabora com o plano de redenção dos homens. As condições que o rodeiam fizeram com que alguns o considerassem um castigo, ou que, pela malícia do coração do homem, se convertesse numa simples mercadoria ou num “instrumento de opressão”, a tal ponto que por vezes se torna impossível compreender a sua grandeza e dignidade. E há ainda os que pensam que é um meio de ganhar dinheiro, a serviço da vaidade, da auto-afirmação, do egoísmo… Em todas essas atitudes, esquece-se que o trabalho é de per si obra divina, porque é colaboração com Deus e oferenda que se lhe faz, meio por excelência de adquirir e desenvolver as virtudes humanas e sobrenaturais.

É freqüente observar que a sociedade materialista dos nossos dias aprecia os homens “pelo que ganham”, pela sua capacidade de obter um maior nível de bem-estar econômico. “É hora de que todos nós, cristãos, anunciemos bem alto que o trabalho é um dom de Deus, e que não faz nenhum sentido dividir os homens em diferentes categorias, conforme os tipos de trabalho, considerando umas ocupações mais nobres do que outras. O trabalho, todo o trabalho, é testemunho da dignidade do homem, do seu domínio sobre a criação; é meio de desenvolvimento da personalidade; é vínculo de união com os outros seres; fonte de recursos para o sustento da família; meio de contribuir para o progresso da sociedade em que se vive e para o progresso de toda a humanidade”5.

Tudo isto no-lo recorda a festa de hoje6, ao propor-nos São José como modelo e padroeiro: um homem que viveu do seu ofício, a quem devemos recorrer com freqüência para que não se degrade nem se distorça o trabalho que temos entre mãos, pois não raras vezes, quando se esquece Deus, “a matéria sai da oficina enobrecida, ao passo que os homens se envilecem”7. O nosso trabalho, com a ajuda de São José, deve sair das nossas mãos como uma oferenda gratíssima ao Senhor, convertido em oração.

II. O EVANGELHO DA MISSA8 mostra-nos, uma vez mais, como Jesus é conhecido em Nazaré pelo seu trabalho. Quando voltou à sua terra, os seus conterrâneos comentavam: Não é este o filho do carpinteiro? A sua mãe não é Maria?… Em outro lugar, a Escritura diz que, como acontece em tantas ocasiões, Jesus continuou o ofício daquele que na terra fez junto dEle as vezes de pai: Não é este o carpinteiro, filho de Maria?…9

Ao ser assumido pelo Filho de Deus, o trabalho ficou santificado e, desde então, pode converter-se numa tarefa redentora se o unirmos a Cristo, Redentor do mundo. A fadiga, o esforço, as dificuldades, que são conseqüências do pecado original, convertem-se com Cristo em algo de imenso valor sobrenatural. Sabemos que o homem foi associado à obra redentora de Jesus Cristo, “o qual conferiu uma dignidade eminente ao trabalho quando trabalhou em Nazaré com as suas próprias mãos”10.

Qualquer trabalho nobre pode chegar a ser uma tarefa que aperfeiçoa aquele que o realiza bem como toda a sociedade, e pode converter-se em meio de ajudar os outros através da comunhão que existe entre todos os membros do Corpo Místico de Cristo que é a Igreja. Mas, para isso, é necessário não esquecer o fim sobrenatural que devem ter todos os atos da vida, mesmo os que se apresentam como muito duros ou difíceis: “O condenado às galés bem sabe que rema a fim de mover um barco, mas, para reconhecer que isso dá sentido à sua existência, terá que aprofundar no significado que a dor e o castigo têm para um cristão; quer dizer, terá que encarar a sua situação como uma possibilidade de identificar-se com Cristo. Pois bem, se por ignorância ou por desprezo não o consegue, chegará a odiar o seu “trabalho”. Um efeito similar pode dar-se quando o fruto ou o resultado do trabalho (não a sua retribuição econômica, mas aquilo que se “trabalhou”, “elaborou” ou “fez”) se perde numa lonjura de que quase não se tem notícia”11. Quantas pessoas, infelizmente, se dirigem todas as manhãs ao seu “trabalho” como se fossem para as galés! Vão remar um barco que não sabem para onde se dirige, e aliás sem se importarem com isso. Só esperam o fim de semana e o ordenado. Esse trabalho, evidentemente, não dignifica, não santifica; dificilmente servirá para desenvolver a personalidade.

Pensemos hoje, junto de São José, no valor que damos às nossas ocupações, no esforço que pomos em acabá-las com perfeição, na pontualidade, na competência profissional, na serenidade – não contraposta à urgência – com que as realizamos… Se o nosso trabalho for sempre humanamente bem feito, poderemos dizer com a liturgia da Missa de hoje: Ó Deus, fonte de todos os benefícios, olhai as oferendas que vos apresentamos na festa de São José, e fazei que estes dons se transformem em fonte de graça para aqueles que vos invocam12.

III. OBRA BEM FEITA é aquela que se executa com amor. Ter apreço pelo trabalho profissional, pelo ofício que se exerce, é talvez o primeiro passo para dignificá-lo e para elevá-lo ao plano sobrenatural. Devemos pôr o coração nas tarefas que temos entre mãos, e não fazê-lo “porque não há outro remédio”. “Meu filho, aquele homem que veio ver-me esta manhã – aquele de blusão cor de terra – não é um homem honesto [...]. Exerce a profissão de caricaturista num jornal ilustrado. Isso lhe dá de que viver, ocupa-lhe as horas do dia. E, no entanto, sempre fala com repugnância do seu ofício e diz: «Se eu pudesse ser pintor! Mas é indispensável que desenhe essas bobagens para poder comer. Não olhe para os bonecos, homem, não os veja! Comércio puro…» Quer dizer que trabalha unicamente pelo lucro. E deixou que o seu espírito se ausentasse daquilo em que ocupa as mãos. Porque tem o seu trabalho na conta de coisa muito vil. Mas eu te digo, filho, que se o trabalho do meu amigo é tão vil, se os seus desenhos podem ser chamados bobagens, a razão está justamente em que ele não pôs neles o seu espírito. Não há tarefa que não se torne nobre e santa quando o espírito nela reside. É nobre e santa a tarefa do caricaturista, como a do carpinteiro e a do lixeiro [...]. Há uma maneira de fazer caricaturas, de trabalhar a madeira [...], que revela que se pôs amor nessa atividade, cuidados de perfeição e harmonia, e uma pequena chispa de fogo pessoal: isso que os artistas chamam estilo próprio, e que não há obra nem obrinha humana em que não possa florescer. Essa é a boa maneira de trabalhar. A outra, a de menosprezar o ofício, tendo-o por vil, ao invés de redimi-lo e secretamente transformá-lo, é má e imoral. O visitante de blusão cor de terra é, pois, um homem imoral, porque não ama o seu ofício”13.

São José ensina-nos a realizar bem o ofício que nos ocupa tantas horas: as tarefas domésticas, o laboratório, o arado ou o computador, o trabalho de carregar pacotes ou de cuidar da portaria de um edifício… A categoria de um trabalho reside na sua capacidade de nos aperfeiçoar humana e sobrenaturalmente, nas possibilidades que nos oferece de levar adiante a família e de colaborar nas obras em favor dos homens, na ajuda que através dele prestamos à sociedade…

São José, enquanto trabalhava, tinha Jesus diante de si. Pedia-lhe que segurasse uma madeira enquanto ele a serrava, ensinava-lhe a manejar o formão e a plaina… Quando se sentia cansado, olhava para o seu filho, que era o Filho de Deus, e aquela tarefa adquiria aos seus olhos um novo vigor, porque sabia que com o seu trabalho colaborava com os planos misteriosos, mas reais, da salvação. Peçamos-lhe hoje que nos ensine a ter essa presença de Deus que ele teve enquanto exercia o seu ofício. E não nos esqueçamos de Santa Maria, a quem vamos dedicar com muito amor este mês de Maio que hoje começa. Não nos esqueçamos de oferecer em sua honra todos estes dias, alguma hora de trabalho ou de estudo, mais intensa, mais bem acabada.

(1) Sl 127, 1-2; cfr. Antífona de entrada da Missa de 1º de maio; (2) Gen 1, 26; 2, 3; (3) Gen 2, 15; (4) Gen 3, 17-19; (5) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 47; (6) João Paulo II, Exort. Apost. Redemptoris custos, 15-VIII-1989, 22; (7) Pio XI, Enc.Quadragesimo anno, 15-V-1931; (8) Mt 13, 54-58; (9) Mc 6, 3; (10) Conc. Vat. II, Const. Gaudium et spes, 67; (11) P. Berglar, Opus Dei, Rialp, Madrid, 1987, pág. 309; (12) Oração sobre as oferendas da Missa de 1º de maio; (13) E. D’Ors,Aprendizaje y heroísmo: grandeza y servidumbre de la inteligencia, EUNSA, Pamplona, 1973, págs. 19-20.

 

Fonte: Falar com Deus


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Trabalho: Trabalho e contemplação

 

Ser contemplativos é desfrutar do olhar de Deus. Por isso, quem se sabe acompanhado por Ele durante o dia, vê com outros olhos as ocupações nas quais está empenhado.

Gostaria que hoje, na nossa meditação, nos persuadíssemos definitivamente da necessidade de nos dispormos a ser almas contemplativas, no meio da rua, do trabalho, mantendo com o nosso Deus um diálogo contínuo, que não deve decair ao longo do dia. Se pretendermos seguir lealmente os passos do Mestre, esse é o único caminho.[1]

Para aqueles que são chamados por Deus  a santificar-se no meio do mundo,  converter o trabalho em oração e ter alma contemplativa, é o único caminho, porque ou sabemos encontrar o Senhor em nossa vida ordinária, ou nunca O encontraremos[2].

Opus Dei -

Convém que meditemos bem devagar sobre este ensinamento capital de São Josemaria. Neste texto, consideraremos o que é a contemplação; em outras ocasiões deter-nos-emos no aprofundamento da vida contemplativa no trabalho e nas atividades da vida ordinária.

COMO EM NAZARÉ, COMO OS PRIMEIROS CRISTÃOS

A descoberta de Deus na atividade habitual de cada dia dá aos próprios afazeres seu valor último e sua plenitude de sentido. A vida oculta de Jesus em Nazaré, os anos intensos de trabalho e de oração, nos quais Jesus Cristo levou uma vida comum — como a nossa, se o quisermos —,  divina e humana ao mesmo tempo[3], mostram que a atividade profissional, a atenção dedicada à família e as relações sociais não são obstáculo para orar sempre[4], mas ocasião e meio para uma vida intensa de intimidade com Deus, até que chega um momento em que é impossível estabelecer uma diferença entre trabalho e contemplação.

Por esse caminho de contemplação na vida ordinária, seguindo as pegadas do Mestre, decorreu a vida dos primeiros cristãos: «quando passeia, conversa, descansa, trabalha ou lê, o crente ora»[5], escrevia um autor do século II. Anos mais tarde, São Gregório Magno testemunha, como um ideal tornado realidade em numerosos fiéis, que «a graça da contemplação não se dá sim aos grandes e não aos pequenos; mas muitos grandes a recebem, e também muitos pequenos; e tanto entre os que vivem retirados como entre pessoas casadas. Portanto, se não há estado algum entre os fiéis que fique excluído da graça da contemplação, aquele que guarda interiormente o coração pode ser ilustrado com essa graça»[6].

Opus Dei -

O Magistério da Igreja, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, recordou muitas vezes esta doutrina, tão importante para os que têm a missão de levar Cristo a todas as partes e transformar o mundo com o espírito cristão. «As atividades diárias apresentam-se como um precioso meio de união com Cristo, podendo converter-se em matéria de santificação, terreno de exercício das virtudes, diálogo de amor que se realiza nas obras. O espírito de oração transforma o trabalho e assim torna-se possível estar em contemplação de Deus ainda que permanecendo nas ocupações mais variadas»[7].

A CONTEMPLAÇÃO DOS FILHOS DE DEUS

Ensina o Catecismo que «a contemplação de Deus na Sua glória celestial é chamada pela Igreja "visão beatífica"»[8]. Desta contemplação plena de Deus, própria do Céu, podemos ter uma certa antecipação nesta terra, um princípio imperfeito [9] que, embora seja de ordem diversa da visão, é já uma verdadeira contemplação de Deus, assim como a graça, embora sendo de ordem distinta da glória, é, não obstante, uma verdadeira participação na natureza divina. Agora vemos como num espelho, obscuramente; depois veremos cara a cara. Agora conheço de modo imperfeito, depois conhecerei como sou conhecido [10], escreve São Paulo.

Essa contemplação de Deus como num espelho, durante a vida presente, é possível graças às virtudes teologais, à fé e à esperança vivas, informadas pela caridade. A fé unida à esperança e vivificada pela caridade «faz-nos saborear antecipadamente o gozo e a luz da visão beatífica, fim de nosso caminhar aqui em baixo»[11].

A contemplação é um conhecimento amoroso e gozoso de Deus e de seus desígnios manifestados nas criaturas, na Revelação sobrenatural e plenamente na Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, nosso Senhor. «Ciência de amor»[12], chama-a São João da Cruz. A contemplação é um conhecimento total da verdade, alcançado não por um processo de raciocínio, mas por uma intensa caridade[13].

A oração mental é um diálogo com Deus. Escreveste-me: "Orar é falar com Deus. Mas, de quê?" — De quê? D´Ele e de ti: alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias…, fraquezas!: e ações de graças e pedidos: e Amor e desagravo. Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te: "relacionar-se!"[14]. Na vida espiritual, este relacionamento com Deus tende a simplificar-se à medida que aumenta o amor filial, cheio de confiança. Sucede então que, com frequência, já não são necessárias as palavras para orar, nem as exteriores nem as interiores. Sobram as palavras, porque a língua não consegue expressar-se; já o entendimento se aquieta. Não se raciocina, olha-se![15].

Isto é a contemplação, um modo de orar ativo mas sem palavras, intenso e sereno, profundo e simples. Um dom que Deus concede aos que o buscam com sinceridade, aos que põem toda a alma no cumprimento de Sua Vontade, com obras, e procuram mover-se na sua presença. Primeiro uma jaculatória, e depois outra, e outra…, até que parece insuficiente esse fervor, porque as palavras resultam pobres…: e dá-se passagem à intimidade divina, num olhar para Deus sem descanso e sem cansaço[16]. Isto pode suceder, como ensina São Josemaria, não só nos tempos dedicados expressamente à oração, mas também enquanto realizamos com a maior perfeição possível, dentro de nossos erros e limitações, as tarefas próprias de nossa condição e de nosso ofício[17].

SOB A ACÃO DO ESPÍRITO SANTO

O Pai, o Filho e o Espírito Santo habitam na alma em graça[18]: somos templos de Deus[19]. As palavras não chegam para expressar a riqueza do mistério da Vida da Santíssima Trindade em nós: o Pai que gera eternamente o Filho, e que com o Filho expira ao Espírito Santo, vínculo de Amor subsistente. Pela graça de Deus, tomamos parte dessa Vida como filhos. O Paráclito une-nos ao Filho, que assumiu a natureza humana para nos fazer participantes da natureza divina: ao chegar a plenitude dos tempos, enviou Deus a seu Filho, nascido de mulher (…) a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: «¡Abba, Pai!»[20]. E nesta união com o Filho não estamos sós, mas formamos um corpo, o Corpo místico de Cristo, ao qual todos os homens estão chamados a incorporar-se como membros vivos e a ser, como os apóstolos, instrumentos para atrair a outros, participando no sacerdócio de Cristo[21].

Opus Dei -

A vida contemplativa é a vida própria dos filhos de Deus, vida de intimidade com as Pessoas Divinas e transbordante de afã apostólico. O Paráclito infunde em nós a caridade que nos permite alcançar um conhecimento de Deus que sem a caridade é impossível, pois o que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor[22]. Quem mais O ama melhor O conhece, já que esse amor —a caridade sobrenatural— é uma participação na infinita caridade que é o Espírito Santo[23], que tudo perscruta, até as profundezas de Deus. Pois quem sabe o que existe no homem, senão o espírito do homem que está nele? Assim também, as coisas de Deus ninguém as conheceu se não o próprio Espírito de Deus[24].

Esse Amor, com maiúscula, instaura na vida da alma uma estreita familiaridade com as Pessoas Divinas, e um entendimento de Deus mais agudo, mais rápido, certeiro e espontâneo, em profunda sintonia com o Coração de Cristo[25]. Também no plano humano, os que se amam compreendem-se com mais facilidade e por isso São Josemaria recorre a essa experiência para transmitir de algum modo o que é a contemplação de Deus; por exemplo, dizia que em sua terra, às vezes, se dizia: olha como o contempla!; e explicava como esse modo de dizer se referia a uma mãe que tinha seu filho nos braços, a um noivo que contemplava sua noiva, à mulher que velava a cabeceira do marido. Pois bem, assim devemos contemplar ao Senhor.

Mas toda a realidade humana, por mais formosa que seja, transforma-se em uma sombra da contemplação que Deus concede às almas fiéis. Se a caridade sobrenatural supera em altura, em qualidade e em força qualquer amor simplesmente humano, que dizer dos dons do Espírito Santo, que nos permitem deixar-nos conduzir docilmente por Ele? Com o crescimento destes dons – Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade e Temor Filial—, cresce a co-naturalidade ou a familiaridade com Deus e se revela todo o colorido da vida contemplativa.

Em especial, pelo dom da Sabedoria – o primeiro e maior dos dons do Espírito Santo[26]—, é-nos concedido não só conhecer e assentir às verdades reveladas acerca de Deus e das criaturas, como é próprio da fé, mas também saborear essas verdades, conhecê-las com «um certo sabor de Deus»[27]. A Sabedoria – sapientia – é uma sapida scientia: uma ciência que se saboreia. Graças a este dom não só se crê no Amor de Deus, mas também se sabe de um modo novo[28]. É um saber ao qual só se chega com santidade: e há almas obscuras, ignoradas, profundamente humildes, sacrificadas, santas, com um sentido sobrenatural maravilhoso: Eu Te glorifico, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondestes  estas coisas aos sábios e aos prudentes, e as revelastes aos pequeninos[29]. Com o dom da Sabedoria, a vida contemplativa introduz-se nas profundezas de Deus[30]. Neste sentido, São Josemaria nos convida a meditar sobre um texto de São Paulo, no qual nos propõe todo um programa de vida contemplativa —conhecimento e amor, oração e vida— (…): que Cristo habite pela fé nos vossos corações; e que arraigados e cimentados na caridade, possais compreender com todos os santos qual é a largura e a grandeza, a altura e a profundidade do mistério; e conhecer também aquele amor de Cristo, que ultrapassa todo o conhecimento para que vós estejais repletos de toda a plenitude de Deus (Ef 3,17-19)[31].

Temos de implorar ao Espírito Santo o dom de Sabedoria junto com os restantes dons, seu séquito inseparável. São os presentes do Amor divino, as joias que o Paráclito entrega aos que querem amar a Deus com todo o coração, com toda a alma, com todas as forças.

PELO CAMINHO DA CONTEMPLAÇÃO

Quanto maior for a caridade, mais intensa é a familiaridade com Deus, na qual surge a contemplação.Até a caridade mais fraca, como a de quem se limita a não pecar gravemente, mas que não busca cumprir em tudo a Vontade de Deus, estabelece uma certa conformidade com a Vontade divina. No entanto, um amor que não busca amar mais, que não tem o fervor da piedade, parece-se mais com a cortesia formal de um estranho do que com o afeto de um filho. Quem se conformasse com isso em sua relação com Deus não passaria de um conhecimento das verdades reveladas, insípido e passageiro, porque quem se contenta com ouvir a palavra, sem a pôr em prática, é semelhante a um homem que contempla a figura de seu rosto no espelho: olha-se, vai embora  e imediatamente se esquece de como era[32].

Muito diferente é o caso de quem deseja sinceramente identificar em tudo sua vontade com a Vontade de Deus e, com a ajuda da graça, emprega os meios: a oração mental e vocal, a participação nos Sacramentos – a Confissão frequente e a Eucaristia -, o trabalho e o cumprimento fiel dos próprios deveres, a procura da presença de Deus ao longo do dia: o cuidado do plano de vida espiritual junto com uma intensa formação cristã.

O ambiente atual da sociedade conduz muitos a viverem voltados para o exterior, com uma permanente ânsia de possuir isto ou aquilo, de ir daqui para ali, de olhar e ver, de mover-se, de distrair-se com futilidades, talvez com o objetivo de esquecer seu vazio interior, a perda do sentido transcendente da vida humana. Àqueles que, como nós, descobrimos o chamado divino à santidade e ao apostolado, deve suceder o contrário. Quanto mais atividade exterior, mais vida para dentro, mais recolhimento interior, procurando o diálogo com Deus presente na alma em graça e mortificando os afãs da concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida[33]. Para contemplar a Deus é preciso limpar o coração. Bem aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus[34].

Peçamos à Nossa Mãe Santa Maria que nos obtenha do Espírito Santo o dom de sermos contemplativos no meio do mundo, dom que excedeu na sua vida santíssima.

Texto de: J. López. Fonte: Opus Dei

[1] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 238.
[2] São Josemaria, Conversações, n. 114.
[3] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 56.
[4] Lc 18, 1.
[5] Clemente de Alexandría, Stromata, 7, 7.
[6] São Gregório Magno, In Ezechielem homiliae, 2, 5, 19.
[7] João Paulo II, Discurso ao Congresso «A grandeza da vida ordinária», no centenário do nascimento de São Josemaria, 12-I-2002, n. 2.
[8] Catecismo da Igreja Católica, n. 1028.
[9] Cfr. Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, q. 12, a. 2, c; e II-II, q. 4, a.1; q. 180, a. 5, c.
[10] 1 Cor 12, 12. Cfr. 2 Cor 5, 7; 1 Jn 3, 2.
[11] Catecismo da Igreja Católica, n. 163.
[12] São João da Cruz, Noite escura, liv. 2, cap. 18, n. 5.
[13] Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 180, a. 1, c e a.3, ad 1.
[14] São Josemaria, Caminho, n. 91.
[15] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 307.
[16] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 296.
[17] Idem.
[18] Cfr. Jo 14, 23.
[19] Cfr. 1 Cor 3, 16; 2 Cor 6, 16.
[20] Gal 4, 4-6.
[21] Cfr. 1 Cor 12, 12-13, 27; Ef 2, 19-22; 4, 4.
[22] 1 Jo 4, 9.
[23] Cfr. Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 24, a. 7, c. In Epist. ad Rom., c. 5, lect. 1.
[24] 1 Cor 2, 10-11.
[25] Cfr. Mt 11, 27.
[26] Cfr. João Paulo II, Alocução 9-04-1989.
[27] Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae II-II, q. 45, a. 2, ad 1.
[28] Cfr. Rm 8, 5.
[29] Mt 11, 25.
[30] 1 Cor 1, 10.
[31] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 163.
[32] St 1, 23-24.
[33] 1 Jo 2, 16.
[34] Mt 5, 8.


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O que é Conversão ?

 

O Evangelho nos convida à conversão. «Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho» (Mc 1,15). Converter-se, a que?; Melhor seria dizer, a quem? A Cristo! Assim o expressou: «Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a mim, não é digno de mim. Quem ama seu filho mais que a mim, não é digno de mim» (Mt 10,37).

Converter-se significa acolher agradecidos o dom da fé e fazê-lo operativo pela caridade. Converter-se quer dizer reconhecer a Cristo como único senhor e rei de nossos corações, dos que pode dispor. Converter-se implica descobrir Cristo em todos os acontecimentos da história humana, também da nossa pessoal, consciente de que Ele é a origem, o centro e o fim de toda história, e que por Ele tudo foi redimido e Nele alcança sua plenitude. Converter-se supõe viver de esperança, porque Ele venceu o pecado, o maligno e a morte, e a Eucaristia é a garantia.

Converter-se comporta amar a Nosso Senhor por acima de tudo aqui na terra, com todo nosso coração, com toda nossa alma e com todas nossas forças. Converter-se pressupõe entregar-lhe nosso entendimento e nossa vontade, de tal maneira que nosso comportamento faça realidade o lema episcopal do Santo Papa, João Paulo II, Totus tuus, quer dizer, Todo teu, Deus meu; e todo é: tempo, qualidades, bens, ilusões, projetos, saúde, família, trabalho, descanso, tudo. Converter-se requer, então, amar a vontade de Deus em Cristo acima de tudo e gozar, agradecidos, de tudo o que acontece de parte de Deus, inclusive contradições, humilhações, doenças, e descobri-las como tesouros que nos permitem manifestar mais plenamente nosso amor a Deus: si Você o quer assim, eu também o quero!

Converter-se pede, assim, como os apóstolos Simão, André, Jaime e João, deixar «imediatamente as redes» e ir-se com Ele (cf. Mc 1,18), uma vez ouvida a sua voz. Converter-se é que Cristo seja tudo em nós.

Fonte: Evangeli.net


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A Dor de Corrigir

Esconde-se um grande comodismo – e, por vezes, uma grande falta de responsabilidade – naqueles que, constituídos em autoridade, fogem da dor de corrigir, com a desculpa de evitar o sofrimento aos outros. Talvez poupem desgostos nesta vida…, mas põem em risco a felicidade eterna – a sua e a dos outros – pelas suas omissões, que são verdadeiros pecados. (Forja, 577)

O santo, para a vida de muitos, é “incômodo”. Mas isso não significa que tenha de ser insuportável.

- O seu zelo nunca deve ser amargo; a sua correção nunca deve ferir; o seu exemplo nunca deve ser uma bofetada moral, arrogante, na cara do próximo. (Forja, 578)

Portanto, quando na nossa vida pessoal ou na dos outros percebermos alguma coisa que não está certa, alguma coisa que precisa do auxílio espiritual e humano que nós, os filhos de Deus, podemos e devemos prestar, uma das manifestações claras de prudência consistirá em aplicar o remédio conveniente, a fundo, com caridade e com fortaleza, com sinceridade. Não têm cabimento as inibições. É errado pensar que os problemas se resolvem com omissões ou com adiamentos.

A prudência exige que, sempre que a situação o requeira, se apliquem os remédios, totalmente e sem paliativos, depois de se deixar a chaga a descoberto. Ao notardes os menores sintomas do mal, sede simples, verazes, quer tenhais de curar alguém, quer se trate de receberdes vós mesmos essa assistência. Nesses casos, deve-se permitir, a quem se encontra em condições de curar em nome de Deus, que aperte de longe e depois mais de perto, e mais ainda, até que saia todo o pus e o foco de infecção fique bem limpo. Temos de proceder assim, antes de mais nada, conosco próprios e com os que temos obrigação de ajudar por justiça ou por caridade. Rezo especialmente pelos pais e pelos que se dedicam a tarefas de formação e ensino. (Amigos de Deus, 157)

Fonte: Opus Dei


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O Porquê do Sofrimento

 

Revista: PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, osb.

Nº 297 – Ano 1987 – Pág. 61.

O PORQUÊ DO SOFRIMENTO

Em síntese: O sofrimento parece a alguns ser um argumento contra o poder ou a bondade de Deus. A mensagem cristã responde que Deus não é – nem pode ser – o autor de algum mal; mas Ele permite que as criaturas, limitadas como são, cometam males físicos e morais; Ele não quer “policiar” o mundo artificialmente, mas se encarrega de tirar dos males produzidos pelas criaturas bens ainda maiores. Isto em vários casos é evidente, pois se verifica que, para muitas pessoas, o sofrimento é uma escola que converte e transfigura. Em outros casos, os frutos positivos do sofrimento não são tão perceptíveis; não obstante, o cristão tem certeza de que a Providência Divina não falha e um dia ele compreenderá plenamente o plano de Deus, do qual atualmente ele só percebe segmentos e facetas.

Mais: a figura do Filho de Deus, que, feito homem, assumiu a dor e a morte a fim de fazê-las passagem para a ressurreição e a glória, é o testemunho mais eloqüente de que o sofrimento não é mera sentença da justiça ou castigo, mas está intimamente associado ao amor que Deus tem para conosco. Aceito em união com Cristo, o sofrimento vem a ser fonte de salvação para o paciente e de expiação dos pecados do mundo.

Um dos temas que mais vêm à tona nos círculos filosóficos e religiosos de nossos dias, é o do sofrimento. Quanto mais se alastra e intensifica a dor dos homens provocada pela fome, o terrorismo, as guerras…, tanto mais indagam a respeito do sentido do sofrimento. Freqüentemente nasce daí a objeção; se Deus existe, como pode permitir tanta desgraça, especialmente quando afeta pessoas inocentes? Se tanto mal acontece, ou Deus não pode ou não quer evitá-lo. No primeiro caso, Ele não é todo-poderoso (então não é Deus); no segundo caso, Ele não ama seus filhos, pois nenhum pai assiste indiferente ao sofrimento dos seus filhos. Em conseqüência de tais raciocínios, parece lógico a muitos negar a existência do próprio Deus.

Eis por que as páginas subseqüentes serão dedicadas ao estudo de tal problema. Pode-se-lhe apresentar solução?… ou ao menos alguma luz que o esclareça? – Aliás, também o último Sínodo Mundial dos Bispos, encerrado em dezembro de 1985, chamou a atenção para a recrudescência do mal em nossos dias (tão marcados pela fome e pela ameaça de catástrofes nucleares) e solicitou especial atenção para a Teologia da Cruz:

“Percebemos que os sinais dos tempos são, em parte, diferentes daqueles dos tempos do Concílio, com problemas e angústias ainda mais graves. Com efeito; assistimos em toda parte ao aumento da fome, da opressão, da injustiça; a guerra domina em vários lugares, com os sofrimentos que ela acarreta, enquanto o terrorismo e a violência, sob mil formas, se manifestam um pouco por toda parte. Isto nos obriga a nova e mais profunda reflexão teológica para interpretar esses sinais à luz do Evangelho…

Parece que nas atuais dificuldades Deus nos quer ensinar mais profundamente o valor, a importância e a centralidade da Cruz de Jesus Cristo” (D, nº. 1 e 2).

Examinemos agora as objeções que, em vista do sofrimento da humanidade, são atualmente levantadas contra a existência ou os atributos de Deus.

1. Se o mal existe, Deus existe?

Eis quatro objeções que a opinião pública não raro formula:

1.1. Deus sem poder ou sem amor

“Diante do sofrimento no mundo, Deus não pode ou não quer intervir. No primeiro caso, Ele é fraco ou destituído de poder; no segundo caso, Ele carece de amor para com seus filhos”.

- Esta objeção já foi longamente desenvolvida por Voltaire após o terremoto de Lisboa em 1755 e pelo filósofo Arthur Schopenhauer (+1860). Houve quem lhe respondesse, admitindo que Deus é muito sábio e muito poderoso, mas não todo-poderoso (assim Voltaire, Stuart Mill, M. Schiller). – Todavia quem assim pensa, está praticamente negando a existência de Deus, pois, por definição, ou Deus é a Suma Perfeição, sem limites, ou simplesmente não existe.

A resposta católica a tal objeção já foi formulada por S. Agostinho (+ 430), ao qual S. Tomás de Aquino (+ 1274) fez eco: “A existência do mal não se deve à falta de poder ou de bondade em Deus; ao contrário, Ele só permite o mal porque é suficientemente poderoso e bom para tirar do próprio mal o bem. – Nulo modo sineret aliquid mali esse in operibus suis, nisi esset adeo omnipotens et bonus ut bene faceret etiam de malo” (Enchiridion, c. 11; ver SumaTeológica l qu, 22, art. 2, ad 2). Estas palavras, aliás, sintetizam toda a doutrina católica relativa à origem do mal:

1) O mal não é uma entidade positiva; mas uma carência do ser (ou do bem) devido. Assim a cegueira é a falta de olhos (é um mal nas criaturas às quais a natureza concede olhos); o pecado é a falta de concordância do ato humano com o Fim Supremo da moralidade, que é Deus.

2) Ora o não ser ou a carência como tal não tem causa. Só pode ser indiretamente causado por um agente falível ou uma criatura que, ao agir, seja capaz de produzir um efeito incompleto, carente de sua perfeição.

3) Por conseguinte, Deus, sendo por definição o Ser Perfeitíssimo, não pode ser causa do mal, Esta há de ser a criatura, que pode falhar ao agir no plano físico (um desastre de automóvel, uma enchente, uma seca…) ou no plano moral (o pecado).

4) Deus permite que as criaturas exerçam a sua atividade conforme a natureza de cada uma; permite, pois, as falhas respectivas. Ele não fez um mundo artificialmente policiado ou de marionetes. Todavia em sua sabedoria e bondade. Ele se compromete a aproveitar o próprio mal cometido pelas criaturas para daí tirar bens maiores.

5) Não raro é-nos dado perceber os bens que se seguem aos males decorrentes da ação das criaturas. Com efeito, sabemos que muitas e muitas pessoas se transformaram e nobilitaram em conseqüência de uma moléstia grave, de um baque ou insucesso na vida. Em outros casos não nos é possível indicar os frutos positivos procedentes de algum mal; mas o cristão tem a certeza de que, no final dos tempos, lhe será concedido contemplar o plano de Deus e as ligações existentes entre os fatos que ele abrange.

A resposta teológica aqui esboçada será mais amplamente explanada sob o título 2 deste artigo. Importa aqui mostrar apenas que a existência do mal no mundo não significa falta de poder ou de bondade em Deus. Os caminhos de Deus não são os dos homens, diz o Profeta (Is 55,8); a visão que Deus tem das criaturas e da história, é muito mais extensa do que a que nós temos. Por causa de nossas perspectivas limitadas, corremos o risco de apontar sem mais um mal ou um desastre onde há apenas o preâmbulo de um grande benefício arquitetado sobre a própria falibilidade das criaturas.

1.2. Insistindo…

“Não aceito a explicação, pois freqüentemente me parece que a desgraça é tão-somente desgraça, longe de qualquer plano providencial de Deus”. m>

A propósito formularemos três observações:

1) É preciso que a criatura não faça de si mesma o padrão ou o critério para avaliar felicidade ou desventura. Não diga: “Se eu não vejo o lado positivo de uma desgraça, tal lado positivo não existe”. Somente Aquele cujo olhar abarca toda a história da humanidade pode definir o sentindo real que cada acontecimento tem nesse conjunto.

2) Se determinado mal não tem realmente uma contra-parte positiva ou valiosa, isto se deve muitas vezes ao endurecimento ou à indisposição do ser humano. Deus não constrange ninguém a acolher a sua graça. Com outras palavras: a pessoa que sofre, pode fechar-se numa atitude de revolta, que a torna impermeável à ação do Espírito de Deus.

3) Se alguém insiste em negar a existência de Deus por causa das desgraças existentes no mundo, elimina do seu horizonte um fator de esperança e coragem, e não resolve o problema do sofrimento. Ao contrário, cria para si um novo problema. Com efeito, verifica-se que muitas e muitas pessoas, quando sofrem, apelam espontaneamente para Deus; assim nos cárceres, nos hospitais, nas trincheiras de guerra… é mais freqüente o clamor que pede ajuda, do que a blasfêmia. Quem sofre, experimenta muitas vezes a necessidade de um auxílio mais do que humano para tirá-lo da sua dor e salvar da desgraça os seus semelhantes.

Mais: se alguém nega a existência de Deus, vê-se diante de um mundo marcado pela injustiça e retido pelas leis do mais forte que esmaga o mais fraco… sem que possa haver esperança de restauração da ordem ou do reconhecimento dos verdadeiros valores. Já Platão (+ 347 a.C.), diante da injusta morte de Sócrates, afirmava a necessidade de haver uma justiça superior ou divina para que a morte de Sócrates não fosse um mero absurdo ou o triunfo do mal sobre o bem (ver os diálogos República e Fedon).

1.3. Só para os maus…

“Somente os criminosos deveriam sofrer, ao passo que os justos haveriam de gozar de paz e felicidade. Ora às vezes parece que se dá contrário”.

A respeito ponderamos:

1) Todos os seres humanos são portadores de pecado. Não os dividamos em criminosos, de um lado, e inocentes, de outro lado. Os que não cometem graves faltas morais, trazem dentro de si a potencialidade ou a capacidade de as cometer.

2) O sofrimento não deve ser considerado apenas como punição ou sanção devida a um réu. Ao contrário, o sofrimento tem significado muito mais largo e nobre. Com efeito.

a) o sofrimento físico é decorrente da própria natureza do homem. A dor é sinal de alarme que torna o homem consciente de uma moléstia ou um distúrbio do seu organismo; se não fosse a dor, o mal progrediria sem que o paciente pudesse perceber adequadamente. O natural desgaste dos órgãos (coração, pulmões, fígado…) provoca dores que vêm a ser salutar advertência ou ensinamento para o homem.

b) O sofrimento está também muito ligado ao amor e à nobreza de caráter. Longe de ser castigo, o sofrimento decorre muitas vezes do fato de que alguém ama outra pessoa e compartilha as dores desta. Pode-se mesmo dizer: quanto mais alguém é digno e magnânimo, tanto mais sofre; quanto mais mesquinho ou desnaturado, tanto menos sofre. Qual a mãe que não sofre por causa da dor de seu filho?

c) De modo geral, o sofrimento é escola para o ser humano. Contribui para vencer o egoísmo e tornar a pessoa mais voltada para o próximo; torna atuantes muitas energias e potencialidades que nunca desabrochariam se não fosse o sofrimento. Esta verdade é tão óbvia que já os antigos gregos a formularam no trocadilho: pathos mathos (sofrimento é ensinamento ou aprendizagem). Quem não passa pelo cadinho do sofrimento, muitas vezes é egocêntrico, e insensível para com os outros; desfigura-se no plano da personalidade.

1.4. Ao menos, não seja excessivo!

Dirá alguém: “Se o sofrimento tem suas vantagens, é para desejar que não se torne excessivo. Deus deveria saber moderá-lo”.

- Respondemos que as expressões “excessivo” e “pouco demais” são relativas. Quem gosta de trabalhar, se dá por feliz quando desempenha uma tarefa grande e importante, que a pessoa vadia rejeitaria como “excessiva”. Caminhar um quilômetro, para uns, é excessivo, enquanto para outros é insuficiente. – Por conseguinte, é difícil levar em consideração a reivindicação do sofrimento não excessivo, já que este termo é vago ou genérico demais. Como dito, não devo fazer de minhas categorias de pensamento e afeto os critérios de aferição do que acontece aos outros principalmente se não conheço esses outros.

Passemos agora à explanação da resposta cristã ao problema do sofrimento.

2. A resposta cristã

2.1. Observação prévia

A fé ajuda o cristão a esclarecer o problema do sofrimento, mas não dissipa todo enigma a tal propósito. Especialmente quando se consideram casos particulares, como a morte desta mãe ou deste pai, que deixam crianças pequenas, não é possível oferecer explicação cabal e precisa para o ocorrido; nem nos é possível dizer por que tal desgaste de automóvel se deu precisamente em tal dia de festa. O livro de Jó nos recorda a insondabilidade do sofrimento, quando, referindo-se às tentativas de explicar o sofrimento, põe nos lábios de Jó as seguintes palavras:

“Eis que falei levianamente; poderei responder-te? Porei minha mão sobre a boca; Falei uma vez, não replicarei… Falei de coisas que não entendia, de maravilhas que me ultrapassam. Conhecia-te só de ouvido, mas agora viram-te os meus olhos; por isto retrato-me e faço penitência no pó e na cinza” (Jó 40, 4s; 42, 3-6).

Todavia a fé cristã projeta o mistério do sofrimento a perspectiva do amor de Deus; como é difícil dar explicação cabal para o mistério do amor, também é árduo explicar o mistério do sofrimento. A fé católica enquadra o mistério do sofrimento dentro do mistério maior do amor. Com efeito, o amor de Deus, que criou o homem num misterioso ato de benevolência, jamais o abandona; certamente exerce seus planos através dos percalços da caminhada que a criatura percorre na terra. Todas as respectivas ocorrências estão sob o signo desse amor primeiro gratuito e irreversível (cf. 1Jo 4, 10, 19).

Examinemos agora, de mais perto, a explicação teológica.

2.2. A origem do mal no mundo

A S. Escritura refere que o mal no mundo teve origem por violação (por parte dos primeiros pais) da ordem instaurada pelo Criador.

Com efeito. Deus quis dotar os primeiros homens de grande riqueza interior: 1) a graça santificante, que lhes comunicava a filiação divina e 2) os dons preternaturais (a isenção da morte, do sofrimento, da desordem de tendências interiores…). Tal era o estado de justiça original.

Estes dons estavam condicionados à fidelidade do homem ao plano de Deus. Sim; deviam ser livremente aceitos pela criatura. Por isto o Criador propôs a esta um modelo de vida (figurado pela proibição da fruta da árvore da ciência do bem e do mal, Gn 2,16s). Aceitando-o, o homem
significaria sua entrega ao desígnio de Deus; recusando-o, exprimiria o seu Não e sua auto-suficiência. Ora na verdade os primeiros pais rejeitaram o modelo de vida apresentado pelo Senhor Deus; pecaram por soberba, que os levou à desobediência. Em conseqüência, perderam a chamada “justiça original” e caíram num estado em que existem a morte, o sofrimento, as tendências desregradas… Verdade é que tanto a morte como o sofrimento e os apetites instintivos são algo de natural; todavia após o pecado dos primeiros pais trazem a marca da desordem e da desobediência. O mundo que, por dom de Deus, estava harmoniosamente sujeito ao homem, já não é tal; enquanto o homem se mantinha submisso e fiel a Deus, o mundo inferior estava subordinado ao homem; todavia, rompida a sujeição do homem ao Criador, rompe-se a serventia das criaturas irracionais ao homem; estas o maltratam e esmagam, negam-lhe os frutos da terra e, não raro, as condições de sobrevivência.

Por conseguinte, conforme o texto sagrado e a doutrina da fé, a origem do mal no mundo está no pecado ou no plano moral. Este suscitou o mal físico (doenças, mortes, catástrofes, calamidades…).

A doutrina do pecado original assim concebida tem sido questionada ou posta em dúvida por parte de alguns teólogos e exegetas. Estes afirmam que o pecado começou sua história no mundo sem o quadro ou a moldura que o texto sagrado lhe assinala; não importaria o modo de suas origens. Tal teoria destrói a cosmovisão cristã. Por isto o S. Padre João Paulo II, em suas audiências de Quarta-feira, tem insistido no assunto, incutindo a doutrina de fé na Igreja; tenha-se em vista L’Osservatore Romano, edições semanais de setembro-outubro 1986.

Eis, porém, que, na história das relações do homem com Deus, a última palavra não foi a do pecado nem a da desordem. O Senhor Deus não se quis deixar vencer pelo mal, mas venceu o mal com o bem (cf. Rm 12,21). É o que veremos a seguir.

2.3. O resgate da dor

Diz São Paulo: “Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo” (Ef 2,4s). Ou ainda: “Onde abundou o pecado, aí superabundou a graça” (Rm 5,20). Com outras palavras: Deus não ficou indiferente à desgraça na qual o homem se atirou pelo pecado; não assistiu “friamente” à tragédia; mas houve por bem assumi-la em toda a sua realidade concreta.

O testemunho do amor de Deus foi precisamente a obra de Cristo. Enviando seu Filho ao mundo, o Pai constituiu um segundo Adão ou um novo Cabeça da humanidade. Este assumiu a dor e a morte do homem até as últimas conseqüências, numa atitude de entrega e de amor ao Pai. Desta maneira mudou o significado do sofrimento humano; este já não é mera conseqüência do pecado ou sanção da justiça divina; ele foi redimido vindo a ser a vida de volta do homem a Deus. O homem sofre e, sofrendo, se encaminha para o Pai com Cristo.

Os teólogos costumam deter-se na explanação do valor do sacrifício de Cristo, valendo-se do texto de São Paulo: “Aquele que não conhecera o pecado, Deus o fez pecado por nós a fim de que nos tornássemos justiça de Deus por Ele” (2Cor 5,21). Estes dizeres significam que Cristo foi constituído sacrifício pelo pecado; Ele fez partir da própria natureza humana o amor e a dedicação ao Pai que o primeiro Adão recusou.

O cristão, sofrendo com Cristo, pode até mesmo tornar-se corredentor com Jesus, expiando em sua carne os pecados da humanidade, como lembra o S. Padre Pio XII na encíclica Mystici Corporis Christi. Desta maneira, o sofrimento, além de ser escola benéfica (como foi dito à p. 65 deste artigo), é também ocasião de derramamento de graças sobre o mundo. O sofrimento dos inocentes há de ser visto à luz desta verdade: como Cristo inocente padeceu transfigurando a dor, assim o cristão santamente configurado a Cristo, padece oferecendo ao Pai o repúdio ao pecado e o amor que os pecadores deveriam tributar a Deus. O Pai celeste dispôs salvar os homens mediante Cristo e aqueles que se unem a Cristo pela santidade de sua vida. Assim a própria dor das pessoas retas e justas toma sentido. São Paulo dizia: “Completo em minha carne o que falta à Paixão de Cristo em favor do seu corpo que é a Igreja” (Cl 1,24). Quando o cristão sofre, não é simplesmente um ser biológico que sofre, mas é o próprio Redentor que estende a sua Paixão aos membros do seu Corpo Místico, associando-os à sua obra redentora: na verdade, o sacrifício de Cristo na Cruz foi infinitamente meritório, mas cada cristão pode dar-lhe o suporte ou a moldura da sua vida pessoal…, suporte que a Paixão de Cristo não teria se não fosse a vida de cada discípulo de Cristo.

O valor do sacrifício do cristão unido ao de Cristo foi realçado pelo Cardeal Frantisek Tomasek, de Praga, numa entrevista concedida ao periódico italiano II Sabato. O prelado falou então dos graves problemas que o regime comunista suscita para a Igreja na Tchecoslováquia (cerceamento de atividades pastorais, dificuldades para a nomeação de Bispos, encarceramento de sacerdotes e leigos…). O repórter então lhe perguntou:

“Eminência, não está cansado de combater uma batalha sem êxito?”

Respondeu o Cardeal: “A situação é difícil; não se vê como e quando possa melhorar. Mas tenho sempre esperança. Digo sempre uma coisa: quem trabalha pelo Reino de Deus, faz muito, quem reza, faz mais; quem sofre, faz tudo. Este tudo é exatamente o pouco que fazemos entre nós, na Tchecoslováquia”.

Quem sofre, faz tudo, desde que unido a Cristo, pois toma parte íntima na Paixão Redentora do Senhor, fonte de salvação para o mundo inteiro.

3. Conclusão

Eis a maneira como a mensagem cristã responde ao problema do sofrimento humano. Aos olhos da fé, é plenamente satisfatória; tem suscitado grandes heróis e heroínas através dos séculos. O que esta explicação possui de mais típico, é o fato de conjugar entre si justiça e amor. Sim; o sofrimento, de um lado, é a justa conseqüência do Não dito pelo homem a Deus no início da sua história; por outro lado, é o testemunho do amor de Deus que, assumindo o sofrimento e a morte, demonstra ao homem que lhe quer bem e não desiste de o chamar à Vida; Cristo transfigurou o sofrimento e o fez caminho de conversão ou de retorno ao Pai.

A propósito citamos:

John M. McDermott S.J., ll sensi dela sofferenza, em La Civiltà Catolicanº 3272, 18/10/1986, pp. 112-126.


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