Sunday, 20 of May of 2012

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Mortificação e Penitência

O SACRIFÍCIO VOLUNTÁRIO

Conta-nos o Evangelho que Jesus, depois de ter repreendido severamente São Pedro, porque – cheio de um carinho mal entendido – queria afastá-Lo da Cruz (Mt 16,23), dirigiu o olhar aos outros discípulos e lhes disse com firmeza: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me (Mt 16, 24).

Lemos também no Evangelho que, certa vez, Jesus estava acompanhado de muito povo. Era o tempo em que as multidões o seguiam com um entusiasmo, e em que a fé de muitos alternava com a emotividade superficial e com o interesse. Cristo, que conhecia bem os homens e os amava, quis gravar-lhes na alma a idéia clara de que, sem tomar a Cruz, era impossível segui-lo pelo seu caminho, pois é caminho de amor. E assim, voltando-se para os que o cercavam, alertou-os: Quem não carrega a sua cruz e me segue não pode ser meu discípulo. E, para deixar essa afirmação bem vincada, ilustrou-a com uma comparação: falou-lhes de um homem que, desejando construir uma torre, errou nos cálculos e não previu os meios necessários para edificar. Aconteceu o inevitável: fracassou, de modo que todos os que o viam ficavam zombando dele e diziam: Este homem principiou a edificar, mas não pôde terminar! O Senhor esclareceu que assim aconteceria com aqueles que quisessem segui-lo sem renúncia e sem Cruz (cfr. Lc 14, 25-30).

Reparemos que, nessas passagens do Evangelho, Jesus fala de algo que depende de nós. Algo que podemos fazer ou não – Se alguém quiser… -, algo que pertence, portanto, à nossa livre iniciativa.

Sempre a Cruz deve ser tomada livremente. Em primeiro lugar, a que Deus nos envia sem nós a procurarmos, ou seja, a Cruz do sofrimento inesperado, que devemos saber abraçar com fé e amor. Mas há outra Cruz santa que – com a ajuda da graça – depende totalmente da nossa decisão, da nossa generosidade, e é justamente a dos sacrifícios voluntários. Se nós queremos, sacrificamos um fim de semana para dar assistência aos pobres; se nós queremos, deixamos de ir ao cinema para visitar um doente; se nós queremos, assumimos os trabalhos mais pesados em casa. Mas ninguém nos impõe nada. Se não queremos, não fazemos nada disso.

HOMEM VELHO E HOMEM NOVO

Sacrifícios voluntários? Mortificação? Penitência? Meter na nossa vida mais “cruzes”, quando a vida já traz tantas sem que as procuremos? Por quê?

Vamos deixar que, mais uma vez, o Espírito Santo nos responda pela boca de São Paulo.

Este Apóstolo serve-se com freqüência de uma comparação: a imagem dos dois homens que estão sempre brigando dentro de nós: o homem velho e o homem novo. Poderíamos traduzir por “homem modelado pelos parâmetros mundanos, pagãos” e “homem modelado – conforme a imagem de Cristo – pela graça do Espírito Santo”.

Assim, escrevendo aos Efésios, o Apóstolo pede-lhes: Não persistais em viver como os pagãos, que andam à mercê das suas idéias frívolas [...]. Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelos desejos enganadores. Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em justiça e santidade verdadeiras (Ef 4, 17.22-24). É claro que está lhes propondo uma luta árdua, mediante a qual deverão arrancar – quase como se arranca a pele – o homem velho, para revestir-se do homem novo.

As mesmas idéias, mais sinteticamente expostas, encontramo-las na Carta aos Colossenses: Vós vos despistes do homem velho com os seus vícios, e vos revestistes do novo, que se vai restaurando constantemente à imagem dAquele que o criou (Col 3, 9-10).

Um terceiro texto, dirigido aos Gálatas, completa os anteriores: Os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências (Gál 5, 24). Para entender o que quer dizer, é preciso ter presente que, na mesma carta, havia explicado o que é a carne e as suas concupiscências (palavra que significa aqui maus desejos), mostrando que por carne entende – como é comum em textos bíblicos – o homem egoísta, afastado da graça de Deus e mergulhado no materialismo, cujo deus é o ventre [...] e só tem prazer no que é terreno (Fil 3, 19).

Característica típica do homem velho é a de se deixar dominar pelos desejos da carne, que – como explica detalhadamente o Apóstolo – se chamam fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdia, facções, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes (Gál 5, 19-21).

Esta é a carne que deve ser crucificada, ou seja, mortificada, dominada e vencida com a renúncia, com o sacrifício, com a Cruz.

MEIO DE PURIFICAÇÃO

A mortificação voluntária – que faz parte essencial da luta do cristão – é um meio necessário de purificação. Santo Agostinho tem um pensamento muito profundo a este respeito. Lembra que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, e que o pecado “deformou” essa imagem e apagou a semelhança. A graça de Deus, recebida no Batismo, fez-nos renascer para uma vida nova. É tarefa nossa colaborar com a graça para limpar os males que nos deformam; só assim ela nos devolverá à “forma” primeira, que é a imagem do ser de Deus 1.

Como é sugestiva esta idéia, para nos ajudar a compreender que a formação cristã não se limita ao conhecimento da verdade, da doutrina – ler, estudar, aprender -, mas exige um trabalho de purificação – de limpar, de extirpar, de endireitar, de podar o que procede do egoísmo -, para podermos “arrancar a triste máscara que forjamos com as nossas misérias” 2, e estarmos em condições de ir reproduzindo fielmente em nós os traços do nosso modelo, Jesus Cristo.

Pensemos seriamente qual é o nosso homem velho, quais são as nossas paixões e concupiscências, para assim podermos descobrir as mortificações que precisamos fazer a fim de arrancar de nós as máscaras deformantes. Não é muito difícil adivinhar. Difícil é concretizar… e fazer.

Na realidade, todos notamos em nós mesmos defeitos que nos prejudicam, hábitos, vícios de diversas espécies, que nos dominam; falhas de caráter que atrapalham o nosso trabalho; atitudes desagradáveis ou omissões no nosso relacionamento com os outros… Pois bem, é aí que deve entrar a nossa cruz, ou seja, os sacrifícios necessários para corrigir tais defeitos.

FAZER PENITÊNCIA

A fé nos mostra o imenso valor que podem ter os padecimentos – os sofrimentos que Deus manda ou permite -, como meio de nos unirmos à Cruz de Cristo, a fim de reparar – expiar – pelos nossos pecados e pelos pecados de todo o mundo.

Também o sacrifício voluntário pode ter – e muitas vezes deve ter – uma função reparadora, de penitência pelos pecados.

O Catecismo da Igreja Católica, ao falar dos tempos e dias de penitência, cita as práticas penitenciais que são mais tradicionais na Igreja, porque o próprio Cristo se referiu a elas no Sermão da Montanha (cfr. Mt 6, 1 e segs.), a saber: a oração, o jejum e a esmola. E frisa de modo particular o valor que tem a mortificação – o jejum e outras privações voluntárias -, como meio de reparação dos pecados (cfr. ns. 1434 e 1438).

É muito próprio do espírito de um cristão determinar-se a cumprir algumas dessas práticas penitenciais – além do jejum e da abstinência de carne prescritos pela lei da Igreja – sobretudo em dias ou períodos especialmente relacionados com a Paixão de Jesus, como são as sextas-feiras e o Tempo da Quaresma. Todo bom católico deveria definir bem, até por escrito, o seu “plano” de penitências para a Quaresma (não comer tal ou qual doce ou refrigerante, reduzir a assistência à tv, abster-nos de bebidas alcoólicas, aumentaro tempo diário de oração, dedicar mais tempo a obras sociais, fazer freqüentes visitas à igreja para rezar algumas orações de joelhos, etc.).

Na realidade, porém, não deveríamos limitar-nos às obras de penitência em datas ou tempos determinados. Todos os dias deveriam estar enriquecidos – polvilhados – por algumas pequenas privações, oferecidas por amor e com alegria, como atos de reparação pelos pecados próprios e alheios, e também como exercícios de autodomínio que nos ajudassem a “converter-nos”: a ser mais senhores de nós mesmos e a mudar, a “converter-nos”, com a graça de Deus.

Em maio do ano 2000, o Papa celebrou em Fátima a beatificação dos meninos Jacinta e Francisco. Ao elevar os dois pastorinhos à glória dos altares, o Santo Padre fez questão de realçar a generosidade com que ambos, a pedido de Nossa Senhora, se entregaram à penitência “pelos pobres pecadores”. De Francisco, dizia o Papa que “suportou os grandes sofrimentos da doença que o levou à morte sem nunca se lamentar. Tudo lhe parecia pouco para consolar Jesus; morreu com um sorriso nos lábios. Grande era, no pequeno Francisco, o desejo de reparar as ofensas dos pecadores, esforçando-se por ser bom e oferecendo sacrifícios e oração. E Jacinta, sua irmã, quase dois anos mais nova que ele, vivia animada dos mesmos sentimentos”. Citava depois o Papa as palavras com que Jacinta se despediu de Francisco, pouco antes de este morrer: “Dá muitas saudades minhas a Nosso Senhor e a Nossa Senhora e dize-lhes que sofro tudo quanto Eles quiserem para converter os pecadores” 3.

Como é tocante essa lição dos pequeninos, dos simples, que ouvem e entendem a voz de Deus, por meio de Maria! (cfr. Lc 10, 21). Podemos ter a certeza de que a perda do sentido da penitência, entre os cristãos, anda em paralelo com a perda do sentido do pecado, e que isto significa que enfraqueceu muito ou se perdeu o sentido do amor de Deus.

É interessante recordar que, no mesmo Ano Santo de 2000, o Santo Padre ajudou-nos a revigorar uma verdade da nossa fé que tem uma relação mmuito estreita com a necessidade da penitência: a doutrina das indulgências. Com elas, com efeito -ao realizar, com as devidas condições, as obras indulgenciadas- , entramos em comunhão com o tesouro do “amor, do sofrimento suportado, da pureza” de todos os nossos irmãos na fé, que deixaram atrás de si como que um “saldo” de méritos, unidos às riquezas dos méritos de Cristo, de Maria e dos santos; é um imenso tesouro que a Igreja encaminha a cada um de nós, como uma transfusão de sangue puro 4, por meio da indulgência, para a purificação da “pena temporal” devida pelos nossos pecados, ou seja, da pena que deveríamos pagar no Purgatório, por não termos expiado suficientemente os nossos pecados aqui na terra.

E esse mesmo dom da indulgência, esse tesouro de méritos e graças que “circula” no Corpo místico de Cristo, pode ser aplicado sempre às almas do Purgatório, com as quais estamos estreitamente unidos pela Comunhão dos santos. Mediante esse “intercâmbio maravilhoso de bens espirituais” , podemos auxiliar pais, parentes, amigos, conhecidos…, todos os que se encontram no estado de purificação que chamamos Purgatório, para que possam ir logo ao encontro do abraço eterno de Deus . É uma maravihosa comunhão e ajuda mútua na penitência: na expiação e a purificação 5 (Cfr. Bula pontifícia Incanationis mysterium, nn. 9 e 10).

(Adaptação de um trecho do livro de F.Faus, A sabedoria da Cruz)

1 Sermão 125,4

2 São Josemaria Escrivá, Via Sacra, VI estação

3 João Paulo II, Homilia na Beatificação, Fátima 13.05.2000

4 Cf. São Josemaria Escrivá, Caminho, n. 544

5 Bula Incanationis mysterium, num. 9 e 10


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Quaresma, Tempo de Penitência (III)

UMA PENITÊNCIA muito agradável a Deus é aquela que se manifesta em atos de caridade e que tende a facilitar aos outros o caminho que conduz a Deus, tornando-o mais amável. No Evangelho da Missa de hoje, o Senhor nos diz: Se estás para fazer a tua oferenda diante do altar e te lembras de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferenda diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão: só então vem fazer a tua oferenda.

As nossas oferendas ao Senhor devem caracterizar-se pela caridade: saber pedir perdão àqueles a quem ofendemos; assumir plenamente o sacrifício que supõe cuidar da formação de alguém que está sob a nossa responsabilidade; ser pacientes; saber perdoar com prontidão e generosidade… A este respeito, diz São Leão Magno: “Ainda que sempre seja necessário aplicar-se à santificação do corpo, agora sobretudo, durante os jejuns da Quaresma, deveis aperfeiçoar-vos pela prática de uma piedade mais ativa. Dai esmola, que é muito eficaz para nos corrigirmos das nossas faltas; mas perdoai também as ofensas e abandonai as queixas contra aqueles que vos fizeram algum mal”.

“Perdoemos sempre, com o sorriso nos lábios. Falemos com clareza, sem rancor, quando nos parecer em consciência que devemos falar. E deixemos tudo nas mãos do nosso Pai-Deus, com um divino silêncio – Iesus autem tacebat (Mt XXVI, 63), Jesus calava-se -, se se trata de ataques pessoais, por mais brutais e indecorosos que sejam”.

Aproximemo-nos do altar de Deus sem carregar conosco o menor sentimento de inimizade ou de rancor. Pelo contrário, procuremos apresentar ao Senhor muitos atos de compreensão, de cortesia, de generosidade, de misericórdia. Assim o seguiremos pela Via-Sacra que Ele nos traçou e que o levou a deixar-se pregar na Cruz.

“Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem (Lc 23, 34). Foi o Amor que levou Jesus ao Calvário. E já na Cruz, todos os seus gestos e todas as suas palavras são de amor, de amor sereno e forte. E nós, despedaçada de dor a alma, dizemos sinceramente a Jesus: Sou teu, e entrego-me a Ti, e prego-me na Cruz de bom grado, sendo nas encruzilhadas do mundo uma alma que se entregou a Ti, à tua glória, à Redenção, à corredenção da humanidade inteira”.

Santa Maria, nossa Mãe, ensinar-nos-á a descobrir muitas ocasiões de sermos generosos na dedicação aos que estão ao nosso lado nas tarefas de cada dia.

Fonte: Falar com Deus.


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Quaresma, Tempo de Penitência (II)

AINDA QUE O PECADO seja sempre uma ofensa pessoal a Deus, não deixa de produzir efeitos nos demais homens. Para bem ou para mal, estamos sempre influindo naqueles que estão ao nosso lado, na Igreja e no mundo, e não apenas pelo bom ou mau exemplo que lhes damos ou pelos resultados diretos das nossas ações. “Esta é a outra face daquela solidariedade que, em nível religioso, se desenvolve no profundo e magnífico mistério da Comunhão dos Santos, graças à qual se pode dizer que «cada alma que se eleva, eleva o mundo».

“A esta lei da elevação corresponde, infelizmente, a lei da descida, de tal modo que se pode falar de uma comunhão do pecado, em virtude da qual uma alma que se rebaixa pelo pecado rebaixa a Igreja e, de certa maneira, o mundo inteiro. Por outras palavras, não há pecado algum, mesmo o mais íntimo e secreto, o mais estritamente individual, que afete exclusivamente aquele que o comete. Todo o pecado repercute com maior ou menor intensidade, com maior ou menor dano, em toda a estrutura eclesial e em toda a família humana”.

O Senhor pede-nos que sejamos motivo de alegria e luz para toda a Igreja. No meio do nosso trabalho e das nossas tarefas, ser-nos-á de grande ajuda pensar nos outros, saber que somos apoio – também mediante a penitência – para todo o Corpo Místico de Cristo, e em especial para aqueles que, ao longo da vida, o Senhor foi colocando ao nosso lado: “Se sentires a Comunhão dos Santos – se a viveres -, serás de bom grado um homem penitente. – E compreenderás que a penitência égaudium etsi laboriosum – alegria, embora trabalhosa. E te sentirás «aliado» de todas as almas penitentes que foram, são e serão”. “Terás mais facilidade em cumprir o teu dever, se pensares na ajuda que te prestam os teus irmãos e na que deixas de prestar-lhes se não és fiel”.

A penitência que o Senhor nos pede, como cristãos que vivem no meio do mundo, deve ser discreta, alegre…, uma penitência que quer permanecer inadvertida, mas que não deixa de traduzir-se em atos concretos. Além disso, não faz mal que vez por outra se percebam as nossas penitências. “Se foram testemunhas das tuas fraquezas e misérias, que importa que o sejam da tua penitência?”

Fonte: Falar com Deus.


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Quaresma, Tempo de Penitência (I)

A EFICÁCIA da autêntica penitência, que é a conversão do coração a Deus, pode perder-se se se cai na tentação, que não é só de épocas remotas, de tentar esquecer que o pecado é pessoal.

Na primeira leitura da Missa de hoje, o profeta Ezequiel adverte os judeus do seu tempo de que não esqueçam a grande lição do desterro, pois encaravam-no como algo inevitável, gerado pelos pecados cometidos antigamente por outros. O profeta declara que esse castigo é conseqüência dos pecados atuais de cada indivíduo. Através das suas palavras, o Espírito Santo fala-nos de uma responsabilidade individual e, portanto, de uma penitência e de uma salvação pessoais. Assim diz o Senhor: O pecador deve perecer. O filho não responderá pelas faltas do pai nem o pai pelas faltas do filho. É ao justo que se imputará a sua justiça e ao mau a sua malícia.

Deus quer que o pecador se converta e viva, mas este deve cooperar com o arrependimento e com as obras de penitência. “No seu sentido próprio e verdadeiro, o pecado – diz João Paulo II – é sempre um ato da pessoa, porque é um ato de um homem, individualmente considerado, e não propriamente de um grupo ou de uma comunidade”.

Descarregar o homem dessa responsabilidade “seria obliterar a dignidade e a liberdade da pessoa, que também se revelam – se bem que negativa e desastrosamente – nessa responsabilidade pelo pecado cometido. Por isso, em todos e em cada um dos homens, não há nada tão pessoal e intransferível como o mérito da virtude ou a responsabilidade da culpa”.

Por isso, é uma graça do Senhor não deixarmos de arrepender-nos dos nossos pecados passados nem mascararmos os presentes, mesmo que não passem de imperfeições. Que também nós possamos dizer: Eu reconheço a minha iniqüidade e o meu pecado está sempre diante de mim.

É verdade que um dia confessamos as nossas culpas e o Senhor nos disse: Vai e não tornes a pecar. Mas os pecados deixam um vestígio na alma. “Perdoada a culpa, permanecem as relíquias do pecado, disposições causadas pelos atos anteriores, embora fiquem debilitadas e diminuídas, de maneira que não dominam o homem e permanecem mais em forma de disposição que de hábito”. Além disso, existem pecados e faltas que não chegamos a perceber por falta de espírito de exame, por falta de delicadeza de consciência… São como más raízes que ficaram na alma e que é necessário arrancar mediante a penitência para impedir que produzam frutos amargos.

São, pois, muitos os motivos que temos para fazer penitência neste tempo da Quaresma, e devemos concretizá-la em pequenas coisas: em mortificar os nossos gostos nas refeições – em viver a abstinência que a Igreja manda -, em ser pontuais, em vigiar a imaginação… E também em procurar, com o conselho do diretor espiritual, do confessor, outros sacrifícios de maior importância, que nos ajudem a purificar a alma e a reparar os pecados próprios e alheios.

Fonte: Falar com Deus.


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A Quaresma

Dom Eugenio Sales
Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro

Na quarta-feira de cinzas foi iniciado o tempo da Quaresma. O Concílio Vaticano II nos adverte: “A penitência quaresmal deve ser também externa e social, não só interna e individual” (“Sacrosantum Concilium”, 10). Aliás, este dever não se restringe apenas ao período preparatório à Páscoa, mas é uma decorrência da própria natureza da vida cristã.

O homem moderno busca o prazer a qualquer preço e reage às restrições feitas ao mesmo. O sofrimento, para ele, é algo meramente negativo, que deve ser afastado. Por isso, as crenças religiosas que surgem na atualidade, alcançam mais sucesso, são aquelas que oferecem um produto que é ansiosamente desejado. Mesmo se falso, muitos se deixam enganar na expectativa de obter a saúde, o emprego, o dinheiro, felicidade imediata na terra, por meios fáceis, sem compromissos com a liberdade.

Cristo veio ensinar uma doutrina que se expressa na seguinte comparação: “Entrai pela porta estreita, porque largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição e muitos os que entram por ele. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho que conduz à vida e poucos são os que o encontram” (Mt 7,13-14).

Todo o cristianismo brota de um instrumento de suplício: a Cruz. E somente através do sofrimento do homem, unido ao de Cristo, abrem-se para nós as portas da salvação.

Intimamente relacionadas com essa verdade, estão as determinações decorrentes dos Mandamentos. Com a desordem instalada em nossa vida, tornou-se difícil seguir o caminho estabelecido pelo Criador para as suas criaturas. Somente esta constatação nos faz compreender que não é possível sem grande esforço cumprir o que nos é exigido. A corrente segue em direção contrária e é preciso remar contra, para assegurar o rumo.

Por isso, a Sagrada Escritura nos fala repetidamente dessa luta que convive conosco e que deve ser levada a bom termo.

No Antigo Testamento, repetidas vezes e sob variados aspectos, nos é apresentado o sentido religioso da penitência. Ora para aplacar a ira divina, desencadeada por nossos delitos, outras vezes para conseguir a benevolência do Senhor. O jejum, a esmola e a oração tem especial destaque no texto sagrado.

No Novo Testamento assumem dimensões novas e mais amplas. Sua importância se revela no fato de Jesus ter assim inaugurado sua pregação: “Depois que João foi preso, veio Jesus para a Galileia, proclamando o evangelho de Deus: ‘Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho’” (Mc 1,14-15).

A explicação dessa exigência é simples. O homem foi feito à imagem de Deus. A liberdade que lhe dá essa dignidade única em toda a criação é, ao mesmo tempo, uma fonte do mal – quando usada para contrariar a ordem estabelecida pelo Senhor. Para guardar o reto equilíbrio entre as paixões decorrente da estrutura material e a razão, iluminada pela Fé, característica do seu componente espiritual, faz-se mister o emprego de recursos outorgados pelo Salvador. Entre eles, está o autodomínio que se adquire pelas restrições que solidificam a vontade e manifestam ao Senhor nossa adesão às suas orientações. A obediência é um ato de louvor a Deus que nos impõe deveres, no caso: os Mandamentos de Deus e, em seu nome, os da Igreja.

A independência que se adquire, pela ascese cotidiana nos faz crescer na dimensão transcendental e fortalece os valores que asseguram posições em consonância com o Salvador. Em toda nossa existência, o cumprimento do Evangelho nos garante admirável paz e segurança no presente e no futuro.

Toda essa visão é absolutamente incompreensível e inaceitável para quem não acredita no Redentor nem vive seus ensinamentos. Caminham pelas estradas da vida, lado a lado, duas correntes humanas: uma que assume posições decorrentes da Fé e a outra, sem esse rumo, que opta por diversos outros procedimentos. O resultado é o que vemos cada dia e a expressar-se constantemente nos meios de comunicação social, em nosso relacionamento nas ruas, nos lugares de trabalho e, muitas vezes, no próprio lar.

O cristão não se satisfaz em ser fiel à sua crença. Esta o compele (cf 2Cor 5,14) a iluminar o próximo desgarrado. E este tempo da Quaresma nos oferece uma grande oportunidade ao aperfeiçoamento pessoal e eficaz atuação missionária, em nosso ambiente. Um dos principais recursos é a prática da penitência. Sem dúvida, este comportamento nos deve ser familiar durante todo o ano, mas de modo especial, nesse período do ano litúrgico que prepara a celebração da Paixão, Morte e Ressurreição, a Semana Santa, o Tríduo Sagrado.

Convém lembrar que “penitência” não se identifica com a dor física, supressão do alimento ou algo semelhante. Estes aspectos de mortificação do corpo, evidentemente, estão aí incluídos como meios. Contudo, muito mais ampla é sua dimensão. Assim, toda nossa atividade em favor do próximo é um fator de crescimento religioso. Outrossim, o cumprimento do dever ocupa lugar especial na vida cristã. Há, realmente, uma ampla liberdade de escolha. Restrito é o que há de ser obedecido: o jejum e abstinência, na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira da Paixão. No entanto, trata-se de matéria obrigatória e não simplesmente, uma opção voluntária; atingindo que tem idade e saúde cumpri-los. A Constituição Apostólica “Poenitemini” (nº 18) resume estas duas faces – a observância estrita de certos atos e a opção por outras modalidades – quando exorta “a buscar, além da abstinência e do jejum, expressões novas mais aptas a realizar, segundo a índole das diversas épocas, o próprio fim da penitência”.

O tempo da Quaresma é rico de graças. Aproveitemo-lo com a alegria de quem segue os passos de Jesus.


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