Sunday, 20 of May of 2012

Tag » Páscoa

Reflexão para o Domingo de Páscoa–Ano A

 

Domingo de Páscoa – Ressurreição do Senhor

Ano A

Citações bíblicas:

At. 10,34a.37-43: www.clerus.org/bibliaclerusonline/it/9bus0jj.htm

Col. 3,1-4: www.clerus.org/bibliaclerusonline/it/9abscnc.htm

Jo. 20,1-9: www.clerus.org/bibliaclerusonline/it/9abthdt.htm

Quão grande deve ter sido a admiração que expressaram os olhos de Maria Madalena! Quão grande o tremor ao ver a sepultura, onde estava o corpo Daquele que foi a causa da mudança de rumo fundamental e definitiva de sua vida, e que agora está aberta e vazia: “Tiraram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o colocaram”.

O corpo de Jesus era a última coisa que restava àquele pequeno grupo de pessoas, fascinados por Ele. Parecia que o poder daquela época tivesse vencido. E agora, aquele pequeno tesouro, contido num sepulcro destinado a estar fechado para todo o sempre, tinha sido “retirado”.

A preciosidade daquele corpo e daquele lugar é a única razão que poderia explicar a corrida de Pedro e João, quando apenas receberam a notícia da Madalena: agora, Jesus não estava mais com eles, tinham a necessidade de um sepulcro, junto ao qual poderiam chorar a perda do Mestre, e queriam estar certos que ninguém o tivesse profanado.

A passagem evangélica de hoje nos chama a atenção não pelas as coisas que nos são relatadas, mas por aquelas que não são descritas: não nos é dito como o Senhor ressuscitou e não nos é descrito como os discípulos o viram! O que realmente domina a cena é o “sepulcro vazio”.

Tão logo entraram naquela cova cavada na pedra, deram-se conta de tudo o que havia acontecido: “Viu e creu” (Jo. 20,8). Mas o que viram? “As faixas de linho no chão, e o pano que tinha coberto a cabeça de Jesus: este pano não estava com as faixas, mas enrolado num lugar à parte” (Jo. 20,6-7). Em si, um fato banal, sem significado relevante, mas que foi suficiente para fazer com que os olhos de João se abrissem à verdade. “Ressuscitei e estarei sempre contigo” (Cf. Antifona de entrada), assim deve ter escutado, com o próprio coração, o discípulo amado!

Ademais, se paramos um momento para refletir, o Senhor continua a entrar em nossas vidas através dos encontros, gestos ou situações que, para a maior parte das pessoas, poderiam resultar insignificantes, mas que para nós assumem a mesma importância que tiveram aqueles panos de linho para o discípulo amado.

Depois de dois mil anos, aquele sepulcro está ainda vazio, mas diante de um acontecimento desses, cada um de nós é chamado a tomar uma decisão. Como fazê-lo de forma consciente, sem que sejam outros a decidirem por nós? Não nos servem grandes conhecimentos ou uma inteligência superior. Podemos ser testemunhas do Senhor Ressuscitado, podemos reconhecer no sinal das faixas ali deixadas, a sua ressurreição, somente se estamos dispostos a deixar que Ele entre em nossas vidas e as cumulem com o seu Espírito. Será a amizade com Cristo, a familiaridade com Ele, dia após dia, que nos levará a darmo-nos conta “de tudo o que Jesus fez” (At. 10,39) e nos ajudará a compreender que a esperança – de justiça, de bem, de bondade, de verdade, de beleza – que se ascendeu quando o encontramos, realmente se realizará.

O cristão não é um visionário ou um iludido, mas sim uma pessoa dotada de simplicidade de coração, a tal ponto que o leva a chamar as coisas pelo próprio nome e, dessa forma, o que para o mundo é uma “sepultura vazia”, para nós tornou-se o maior sinal da única Presença que pode satisfazer os anseios do nosso coração.

“Ressuscitei e estarei sempre contigo” é o que o Senhor, neste momento, está dizendo também a você!

Fonte: Clerus.org


Leave a comment

Jesus Cristo vive para sempre

– O Senhor aparece a Maria Madalena. Jesus na nossa vida.

– Presença de Cristo entre nós.

– Procurar e manter um trato íntimo com Cristo. O exemplo de Maria Madalena nos ensina que quem procura com sinceridade o Senhor acaba por encontrá-lo.

I. MARIA MADALENA voltou ao sepulcro. Comovem-nos o carinho e a devoção desta mulher por Jesus, mesmo depois de morto. O amor daquela que estivera possuída por sete demônios1continuava a ser muito grande. A graça havia arraigado e frutificado no seu coração depois de ter sido libertada de tantos males. Vimo-la fiel nos momentos du­rís­si­mos do Calvário.

Agora Maria permanece fora do sepulcro chorando. Uns anjos, que ela não reconhece como tais, perguntam-lhe por que chora. Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram2. Era a única coisa que lhe importava no mundo.

Ditas estas palavras– prossegue o Evangelho da Missa de hoje –, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não o reconheceu. Maria não tinha parado de chorar a ausência do Senhor, e as suas lágrimas não lhe permitem vê-lo quando o tem tão perto. Disse-lhe Jesus: Mulher, por que choras? Quem procuras? Vemos Cristo ressuscitado que se apresenta sorridente, amável e acolhedor. Ela, pensando que era o jardineiro, disse-lhe: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste e eu o levarei.

Bastou uma só palavra de Cristo para que se fizesse luz nos seus olhos e no seu coração. Jesus disse-lhe: Maria! A palavra tem essa inflexão única que Jesus dá a cada nome e que traz consigo uma vocação, uma amizade muito singular. Jesus também nos chama pelo nosso nome, num tom de voz inconfundível. E a sua voz não mudou. Cristo ressuscitado conserva os traços humanos de Jesus passível: a cadência da voz, o modo de partir o pão, as marcas dos pregos nas mãos e nos pés.

Maria voltou-se, reconheceu Jesus, lançou-se aos seus pés e exclamou em arameu: Rabboni!, que quer dizer Mestre. As suas lágrimas, agora irreprimíveis como rio que transborda, são de alegria e felicidade. O Apóstolo São João quis conservar-nos a palavra hebraica original – Rabboni – com que tantas vezes tinham chamado o Senhor. É uma palavra familiar, insubstituível. Jesus não é um “mestre” entre tantos, mas o Mestre, o único capaz de mostrar-nos o sentido da vida, o único que tem palavras de vida eterna.

Maria vai ter com os Apóstolos para cumprir a indicação que Jesus lhe acabava de dar, e diz-lhes: Vi o Senhor!

Ressoa nas suas palavras uma imensa alegria. Agora que sabe que Cristo ressuscitou, como mudou a sua vida em comparação com os momentos anteriores, em que só procurava honrar o corpo morto do Senhor! Como se torna diferente também a nossa existência quando procuramos comportar-nos de acordo com esta consoladora realidade: Jesus continua entre nós!, exatamente como naquela manhã em que Maria Madalena o confundiu com o jardineiro do lugar. “Cristo vive. Não é Cristo uma figura que passou, que existiu num tempo e que se retirou, deixando-nos uma lembrança e um exemplo maravilhosos [...]. A sua Ressurreição revela-nos que Deus não abandona os seus. Pode a mulher esquecer-se do fruto do seu ventre, não se compadecer do filho de suas entranhas? Pois ainda que ela se esqueça, eu não me esquecerei de ti (Is XLIX, 14-15), tinha Ele prometido. E cumpre a sua promessa. Deus continua a achar as suas delícias entre os filhos dos homens (cfr. Prv VIII, 31)”3.

Jesus chama-nos muitas vezes pelo nosso nome, no seu tom de voz inconfundível. Está muito perto de cada um. Que as circunstâncias externas – talvez as lágrimas, como aconteceu com Maria Madalena, provocadas pela dor, pelo fracasso, pela decepção, pelas penas, pelo desconsolo – não nos impeçam de ver Jesus que nos chama. Que saibamos purificar tudo aquilo que possa turvar o nosso olhar.

II. CRISTO JESUS, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que se fez homem no seio virginal de Maria, está no Céu com o mesmo Corpo que assumiu na Encarnação, que morreu na Cruz e ressuscitou ao terceiro dia. Também nós, como Maria Madalena, contemplaremos um dia a Humanidade Santíssima do Senhor, e, enquanto não chega esse momento, temos que fomentar o desejo de vê-lo: Ouço no meu coração: “Procurai o meu rosto”. Eu procuro, Senhor, o vosso rosto4. No Céu veremos Jesus como é, sem imagens obscuras; será o encontro com Alguém que nos conhece e a quem conhecemos porque já teremos estado com Ele muitas vezes, num trato íntimo de amizade.

Além de estar no Céu, Cristo está realmente presente na Eucaristia. “A única e indivisível existência de Cristo, o Senhor glorioso nos céus, não se multiplica, mas, pelo Sacramento, torna-se presente nos vários lugares do orbe da terra em que se realiza o sacrifício eucarístico. Essa mesma existência, depois de celebrado o sacrifício, permanece presente no Santíssimo Sacramento, o qual, no tabernáculo do altar, é como que o coração vivo dos nossos templos. Por isso estamos obrigados, por uma obrigação certamente sua­vís­sima, a honrar e adorar na Hóstia Santa, que os nossos olhos vêem, o próprio Verbo encarnado, que os nossos olhos não podem ver, e que, não obstante, se tornou presente diante de nós sem ter deixado os céus”5. “A presença de Jesus vivo na Hóstia Santa é a garantia, a raiz e a consumação da sua presença no mundo”6.

Cristo vive e está também presente com a sua virtude nos sacramentos; está presente na sua Palavra, quando se lê na Igreja a Sagrada Escritura; está presente quando a Igreja ora e se reúne em seu nome7. E está também presente no cristão, de uma maneira íntima, profunda e inefável. Cumpriu-se a promessa que fez aos Apóstolos quando se despedia deles na Última Ceia: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos a ele e nele faremos a nossa morada8. Deus habita na nossa alma em graça e aí devemos procurá-lo, aí devemos escutá-lo, pois nos fala; e poderemos entendê-lo se tivermos o ouvido atento e o coração limpo. São Paulo refere-se a esta in-habitação quando afirma que cada um de nós é templo do Espírito Santo9.

Santo Agostinho, ao considerar a presença inefável de Deus na alma, exclamava: “Tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Tu estavas dentro de mim e eu te buscava fora [...]. Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo. Mantinham-me atado, longe de ti, essas coisas que, se não fossem sustentadas por Ti, deixariam de ser. Chamaste-me, gritaste-me, rompeste a minha surdez. Brilhaste e resplandeceste diante de mim, e expulsaste dos meus olhos a cegueira”10.

Na alma em graça, o Senhor está mais perto de nós do que qualquer pessoa que esteja ao nosso lado, mais perto do que o filho ou o irmão que tendes nos vossos braços ou conduzis pela mão; está mais presente que o nosso próprio coração. Não deixemos de manter sempre um trato de intimidade com Ele.

III. CRISTO VIVE e está presente de diversos modos no meio de nós e mesmo dentro de nós. Por isso devemos sair ao seu encontro, esforçar-nos por ter maior consciência da sua proximidade inefável para que, tendo-o mais presente, procuremos conviver mais com Ele e fazer com que o seu amorcresça em nós.

“É preciso procurar Cristo na Palavra e no Pão, na Eucaristia e na Oração. E tratá-lo como se trata um amigo, um ser real e vivo como é Cristo, porque ressuscitou. Cristo, lemos na Epístola aos Hebreus, como permanece sempre, possui eternamente o sacerdócio. Daí que pode perpetuamente salvar aqueles que por seu intermédio se apresentam a Deus, posto que está sempre vivo para interceder por nós (Heb VII, 24-25). Cristo, Cristo ressuscitado, é o companheiro, o Amigo. Um companheiro que se deixa ver apenas entre sombras, mas cuja realidade inunda toda a nossa vida e nos faz desejar a sua companhia definitiva”11. Se contemplarmos Cristo ressuscitado, se nos esforçarmos por olhá-lo com olhar limpo, compreenderemos profundamente que também agora nos é possível segui-lo de perto, viver a nossa vida ao seu lado e assim engrandecê-la e dotá-la de um sentido novo.

Com o decorrer do tempo, ir-se-á estabelecendo entre Cristo e nós uma relação pessoal – uma fé amorosa – que hoje, depois de vinte séculos, pode ser tão autêntica e certa como a daqueles que o contemplaram ressuscitado e glorioso, com os sinais da Paixão no seu Corpo. Notaremos que, cada vez com mais naturalidade, referiremos ao Senhor todas as coisas da nossa existência, e que já não poderíamos viver sem Ele. Encontrar o Senhor exigirá, por vezes, uma busca paciente e laboriosa, um recomeço diário, talvez sob a impressão de ainda estarmos nos primeiros passos da vida interior. Mas se lutarmos, sem desanimar ante os possíveis retrocessos, muitas vezes aparentes, estaremos sempre mais próximos de Jesus.

O exemplo de Maria Madalena, que persevera na fidelidade ao Senhor nos momentos difíceis, ensina-nos que quem procura o Senhor com sinceridade e constância acaba por encontrá-lo. E em qualquer circunstância da nossa vida, encontrá-lo-emos muito mais facilmente se iniciarmos a nossa busca levados pela mão da Virgem, nossa Mãe, a quem dizemos na Salve-Rainha: Mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre.

(1) Cfr. Lc 8, 2; (2) Jo 20, 13; (3) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 102; (4) Sl 26, 8; (5) Paulo VI, Credo do povo de Deus; (6) Josemaría Escrivá, op. cit.; (7) cfr. Conc. Vat. II, Const. Sacrossanctum Concilium, 7; (8) Jo 14, 23; (9) cfr. 2 Cor 6, 16-17; (10) Santo Agostinho, Confissões, 10, 27-38; (11) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 116.

Fonte: Falar com Deus


Leave a comment

Homilia de Bento XVI na Vigília Pascal

 

Amados irmãos e irmãs,

Uma antiga lenda judaica, tirada do livro apócrifo "A vida de Adão e Eva", conta que Adão, durante a sua última enfermidade, teria mandado o filho Set juntamente com Eva à na região do Paraíso buscar o óleo da misericórdia, para ser ungido com este e assim ficar curado. Aos dois, depois de muito rezar e chorar à procura da árvore da vida, aparece o Arcanjo Miguel para dizer que não conseguiriam obter o óleo da árvore da misericórdia e que Adão deveria morrer. Em seguida, os leitores cristãos adicionaram a esta comunicação do arcanjo, uma palavra de consolação. O Arcanjo teria dito que, depois de 5.500 anos, viria o benévolo Rei Cristo, o Filho de Deus, e ungiria com o óleo da sua misericórdia todos aqueles que acreditassem nele. "O óleo da misericórdia para toda a eternidade será dado a quantos deverão renascer da água e do Espírito Santo. Então, o Filho de Deus rico de amor, Cristo, descerá às profundezas da terra e conduzirá o teu pai ao Paraíso, para junto da árvore da misericórdia". Nesta lenda, faz-se palpável toda a aflição do homem diante do destino de enfermidade, dor e morte que nos foi imposto. Torna-se evidente a resistência que o homem oferece à morte: em algum lugar – repetidamente pensaram os homens – deveria existir a erva medicinal contra a morte. Mais cedo ou mais tarde, deveria ser possível encontrar o remédio não somente contra as diversas doenças, mas contra a verdadeira fatalidade – contra a morte. Deveria, em suma, existir o remédio da imortalidade. Também hoje, os homens andam à procura de tal substância curativa. A ciência médica atual, incapaz de excluir a morte, procura, contudo, eliminar o maior número possível das suas causas, adiando-a sempre mais; procura uma vida sempre melhor e mais longa. Mas, pensemos um pouco: caso se conseguisse quiçá não excluir totalmente a morte mas adiá-la indefinidamente, como seria chegar a uma idade de várias centenas de anos? Isto seria bom? A humanidade envelheceria numa medida extraordinária; não haveria lugar para a juventude. A capacidade de inovação se apagaria e uma vida interminável não seria um paraíso, mas uma condenação. A verdadeira erva medicinal contra a morte deveria ser diversa. Não deveria levar simplesmente a uma prolongação indefinida desta vida atual. Deveria transformar a nossa vida a partir do interior. Deveria criar em nós uma vida nova, verdadeiramente capaz de eternidade: deveria transformar-nos de tal modo que não terminasse com a morte, mas com ela iniciasse em plenitude. A novidade impressionante da mensagem cristã, do Evangelho de Jesus Cristo era, e ainda é, dizer-nos isto: sim, esta erva medicinal contra a morte, este autêntico remédio da imortalidade existe. Foi encontrado. É acessível. No Batismo, este medicamento nos é dado. Uma vida nova começa em nós, uma vida nova que amadurece na fé e não é cancelada pela morte da vida velha, mas só então se tornará plenamente visível.

Ouvindo isto alguns, quiçá muitos, responderão: a mensagem sim, eu escuto, mas falta-me a fé. E, mesmo quem quer acreditar perguntará: mas, é verdadeiramente assim? Como devemos imaginá-la? Como se realiza esta transformação da vida velha, de tal modo que nela se forme a vida nova que não conhece a morte? Mais uma vez, um antigo escrito judaico pode nos ajudar a ter uma idéia daquele processo misterioso que tem início em nós no Batismo. Neste escrito se conta que o patriarca Henoc foi arrebatado até ao trono de Deus. Mas, ele se atemorizou à vista das gloriosas potestades angélicas e, na sua fraqueza humana, não pôde contemplar a Face de Deus. "Então Deus disse a Miguel – assim continua o livro de Henoc – ‘Toma Henoc e tira-lhe as vestes terrenas. Unge-o com o óleo suave e reviste-o com vestes de glória! ‘ E, Miguel tirou as minhas vestes, ungiu-me com óleo suave; este óleo possuía algo mais que uma luz radiosa… O seu esplendor era semelhante aos raios do sol. Quando me vi, eis que eu era como um dos seres gloriosos" (Ph. Rech, Inbild des Kosmos, II 524).

Isto mesmo – ser revestidos com a nova veste de Deus – verivica-se Batismo; assim nos ensina a fé cristã. É verdade que esta mudança das vestes é um percurso que dura toda a vida. Aquilo que acontece no Batismo é o início de um processo que abarca toda a nossa vida –torna-nos capazes de eternidade, de tal modo que, na veste de luz de Jesus Cristo, podemos aparecer diante de Deus e viver com Ele para sempre.

No rito do Batismo, há dois elementos nos quais este evento se expressa e torna visível, também como exigência para o resto da nossa vida. Em primeiro lugar, temos o rito das renúncias e das promessas. Na Igreja Antiga, o batizando virava-se para ocidente, símbolo das trevas, do pôr do sol, da morte e, portanto, do domínio do pecado. O batizando virava-se para aquela direção e pronunciava um tríplice "não": ao diabo, às suas pompas e ao pecado. Com a estranha palavra "pompas", ou seja, o fausto do diabo, indicava-se o esplendor do antigo culto dos deuses e do antigo teatro, onde a diversão era ver pessoas vivas sendo dilaceradas pelas feras. Portanto, isto era o repúdio de um tipo de cultura que acorrentava o homem à adoração do poder, ao mundo da cobiça, à mentira, à crueldade. Era um ato de libertação da imposição de uma forma de vida que se apresentava como prazer e, contudo, levava à destruição daquilo que no homem são as suas qualidades melhores. Esta renúncia – com um comportamento menos dramático – constitui ainda hoje uma parte essencial do Batismo. Assim removemos as "vestes velhas", com as quais não se pode estar diante de Deus. Melhor dito: começamos a depô-las. Com efeito, esta renúncia é uma promessa na qual damos a mão a Cristo, para que Ele nos guie e revista. Quais sejam as "vestes" que depomos e qual seja a promessa que pronunciamos fica claro quando lemos, no quinto capítulo da Carta aos Gálatas, aquilo que Paulo denomina "obras da carne" – termo que significa precisamente as vestes velhas que devem ser depostas. Paulo as designa assim: "fornicação, libertinagem, devassidão, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, ciúmes, iras, intrigas, discórdias, facções, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a essas" (Gal 5, 19ss). São estas as vestes que depomos; são vestes da morte.

Em seguida, o batizando na Igreja Antiga se virava para oriente – símbolo da luz, símbolo do novo sol da história, novo sol que se levanta, símbolo de Cristo. O batizando determina a nova direção da sua vida: a fé em Deus trino, a quem ele se oferece. Assim, o próprio Deus nos veste com o traje de luz, com a veste da vida. Paulo chama a estas novas "vestes" "fruto do Espírito" e as descreve com as seguintes palavras: "caridade, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, lealdade, mansidão, continência" (Gal 5, 22).

Na Igreja Antiga, depois o batizando era verdadeiramente despojado das suas vestes. Descia à fonte batismal e era imerso por três vezes – um símbolo da morte que significa toda a radicalidade deste despojamento e desta mudança de veste. Esta vida, que em todo o caso já está voltada à morte, o batizando a entrega à morte, junto com Cristo, e por Ele se deixa arrastar e elevar para a vida nova, que o transforma para a eternidade. Depois subindo das águas batismais, os neófitos eram revestidos com a veste branca, a veste luminosa de Deus, e recebiam a vela acesa como sinal da vida nova na luz que Deus mesmo acendera neles. Eles sabiam que tinham obtido o remédio da imortalidade, que agora, no momento de receber a sagrada Comunhão, tomava a sua forma plena. Na Comunhão, recebemos o Corpo do Senhor ressuscitado e nós mesmos somos atraídos para este Corpo, de tal modo que ficamos já guardados por Aquele que venceu a morte e nos conduz através da morte.

No decorrer dos séculos, os símbolos tornaram-se mais escassos, mas o acontecimento essencial do Batismo continue sendo o mesmo. Este não é apenas um lavacro, e menos ainda uma recepção um pouco complicada numa nova associação. O Batismo é morte e ressurreição, renascimento para a nova vida.

Sim, a erva medicinal contra a morte existe. Cristo é a árvore da vida, que se fez novamente acessível. Se aderimos a ele, então estamos na vida. Por isso, nesta noite da ressurreição, cantaremos com todo o coração o aleluia, o canto da alegria que não tem necessidade de palavras. Por isso Paulo pode dizer aos Filipenses: "alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos!" (Fl 4, 4). Não se pode comandar a alegria. Somente pode ser dada. O Senhor ressuscitado nos dá a alegria: a verdadeira vida. Já estamos protegidos para sempre guardados no amor daquele a quem foi dado todo o poder no céu e na terra (cf. Mt 28,18). Assim, seguros de ser escutados, peçamos como diz a oração sobre as oferendas que a Igreja eleva nesta noite: Acolhei, ó Deus, com estas oferendas as preces do vosso povo, para que a nova vida, que brota do mistério pascal, seja por vossa graça penhor da eternidade. Amém.


2 comments

Páscoa: A alegria da Ressurreição!

 

Se fôssemos resumir em uma palavra a festa da Páscoa, com certeza a palavra seria alegria. Alegria imensa, que explode e contagia. Em todas as passagens da Escritura que falam da ressurreição de Jesus, duas ações acontecem: encher-se de alegria e sair para comunicar aos outros. Ou seja, diante da realidade da ressurreição, alegro-me ao ponto de não conseguir reter esta felicidade, mas tenho como obrigação comunicá-la aos meus irmãos, que são também irmãos do Ressuscitado.

Cristo, nossa Páscoa, foi imolado, façamos festa no Senhor! O domingo de Páscoa é o dia mais alegre do ano, porque o Senhor da vida triunfa sobre a morte, sobre o pecado, sobre o mundo. E é tão intensa essa alegria, que perdura até a festa de Pentecostes. No tempo pascal, com efeito, a cada dia das sete semanas se vive a mesma alegria do domingo da ressurreição.

A ressurreição é a confirmação que o Pai dá de que Jesus é verdadeiramente seu Filho, e Ele ressuscitou como primícia, como conquista e certeza da nossa ressurreição. É também a confirmação de nossa fé. Diz São Paulo: Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa fé, e nós somos os mais dignos de pena (1Cor 15,17). Quem, de fato, pode crer e esperar em um morto? Mas Jesus está vivo! E nós somos os mais felizes, pois Aquele em quem depositamos nossa fé está vivo, ressuscitado e ressuscitante.

Um coração e um espírito novos são dons eminentemente pascais, que capacitam o fiel a cantar o Aleluia, a associar-se à alegria da Igreja para o anúncio do Ressuscitado, pois também o cristão ressuscitou para viver em Cristo para a glória de Deus(1). Portanto, essa alegria não é comunicada para nós apenas, mas deve ser proclamada, publicada, comunicada a cada homem e a cada mulher, a fim de que toda língua anuncie com alegria que Jesus ressuscitado é o Senhor (cf. Fl 2,9-11). E como comunicá-la? Através da palavra, sem dúvida, mas sobretudo através de nossa vida, da misericórdia encarnada em nossos gestos, da alegria que compartilhamos, da fidelidade incondicional ao Senhor, de nossos atos solícitos…

Portanto, essa alegria que o Ressuscitado nos comunica é interior e subjetiva, mas é também, e sobretudo, concreta, vivencial, prática, objetiva: Deve o cristão unir-se a este coro universal e cantar as glórias do Ressuscitado, deixando triunfar em si a sua soberania: há de ceder-lhe todo direito e lugar; há de entregar-se-lhe sem reservas, para que seja Jesus o único Senhor de sua vida… A ressurreição do Senhor, a sua passagem da morte para a vida, deve espelhar-se na ressurreição dos fiéis que se vai consumando pela passagem cada vez mais radical das fraquezas do velho homem para a vida nova em Cristo. E esta ressurreição tem por resultado mais profundas aspirações pelas coisas do céu.

Imbuídos deste espírito pascal, que vive de uma forma particular nessas sete semanas, mas que deve perdurar e renovar-se a cada dia, o ano inteiro, façamos nossa a confissão de Charles de Foucauld: "Em vossa ressurreição, em vossa felicidade infinita e eterna, tenho fonte de felicidade inexaurível, base de felicidade que ninguém me pode tirar… possuo eternamente o essencial do que constitui minha felicidade… um bem que supera todo outro bem, o mais desejado dos meus desejos, o que é a substância da felicidade dos anjos e dos santos, o que fará da minha vida um céu… com a só e única condição de que eu vos ame!."

O Aleluia Pascal

Toda a nossa vida presente deve transcorrer no louvor de Deus, porque louvar a Deus será também a alegria eterna de nossa vida futura. Ora, ninguém pode tornar-se apto para a vida futura se, desde já, não se prepara para ela. Agora louvamos a Deus, mas também rogamos a Ele. Nosso louvor está cheio de alegrias, e nossa oração de gemidos. Foi-nos prometido algo que ainda não possuímos; porém, por ser feliz quem o prometeu, alegramo-nos na esperança; mas, como ainda não estamos na posse da promessa, gememos de ansiedade. É bom perseverarmos no desejo, até que a promessa se realize; então acabará o gemido e permanecerá somente o louvor.

Assim podemos considerar duas fases da nossa existência: a primeira, que acontece agora em meio às tentações e dificuldades da vida presente; e a segunda, que virá depois, na segurança e alegria eterna. Por isso, foram instituídas para nós duas celebrações: a do tempo antes da Páscoa e a do tempo depois da Páscoa.

O tempo antes da Páscoa representa as tribulações que passamos nesta vida. O que celebramos agora, depois da Páscoa, significa a felicidade que alcançamos na vida futura. Portanto, antes da Páscoa celebramos o que estamos vivendo; depois da Páscoa celebramos o que ainda não possuímos. Eis por que passamos o primeiro tempo em jejuns e orações; no segundo, porém, que estamos celebrando, deixando os jejuns, nos dedicamos ao louvor de Deus. É este o significado do Aleluia que cantamos.

Em Cristo, nossa cabeça, ambos os tempos foram figurados e manifestados. A paixão do Senhor mostra-nos as dificuldades da vida presente, em que é preciso trabalhar, sofrer e por fim morrer. A ressurreição e glorificação do Senhor nos revelam a vida que um dia nos será dada.

Agora, pois, irmãos, vos exortamos a louvar a Deus. É isto o que todos nós exprimimos mutuamente quando cantamos: Aleluia. Louvai o Senhor!, dizemos nós uns aos outros. E assim todos põem em prática aquilo que se exortam mutuamente. Mas louvai-o com todas as vossas forças, isto é, louvai a Deus não só com a língua e a voz, mas também com a vossa consciência, vossa vida, vossas ações.

Na verdade, louvamos a Deus quando nos encontramos reunidos na igreja. Mas logo ao voltarmos para casa, parece que deixamos de louvá-lo. Não deixes de viver santamente e louvarás sempre a Deus. Deixas de louvá-lo quando te afastas da justiça e do que lhe agrada. Mas se nunca te desviares do bom caminho, ainda que tua língua se cale, tua vida clamará; e o ouvido de Deus estará perto do teu coração. Porque assim como nossos ouvidos escutam nossas palavras, assim os ouvidos de Deus escutam nossos pensamentos. (Dos Comentários sobre os salmos, de Santo Agostinho, bispo)

Fonte: Comunidade Shalom


Leave a comment

Tempo Pascal (III)

III. ESTAR ALEGRE é uma forma de dar graças a Deus pelos inumeráveis dons que Ele nos concede; a alegria é “o primeiro tributo que devemos a Deus, a maneira mais simples e sincera de demonstrar que temos consciência dos benefícios da natureza e da graça, e que os agradecemos”. O nosso Pai-Deus está contente conosco quando nos vê felizes e alegres, com a felicidade e a alegria verdadeiras.

Com a nossa alegria, fazemos muito bem à nossa volta, pois essa alegria leva os outros a Deus. Comunicar alegria será, com freqüência, a melhor maneira de sermos caridosos com os que estão ao nosso lado. Reparemos nos primeiros cristãos; a sua vida atraía pela paz e alegria que irradiavam. “Famílias que viveram de Cristo e que deram a conhecer Cristo. Pequenas comunidades cristãs que atuaram como centros de irradiação da mensagem evangélica. Lares iguais aos outros lares daqueles tempos, mas animados de um espírito novo, que contagiava os que os conheciam e com eles se relacionavam. Assim foram os primeiros cristãos e assim havemos de ser nós, os cristãos de hoje: semeadores de paz e de alegria, da paz e da alegria que Jesus nos trouxe”.

São muitas as pessoas que podem encontrar a Deus através do nosso otimismo, do nosso sorriso habitual, da nossa atitude cordial. Esta prova de caridade – a de nos esforçarmos por afastar sempre o mau-humor e a tristeza, removendo as suas causas – deve manifestar-se especialmente com os que temos mais perto de nós. Concretamente, Deus quer que o lar em que vivemos seja um lar alegre, nunca um lugar sombrio e triste, cheio de tensões geradas pela incompreensão e pelo egoísmo. Uma casa cristã deve ser alegre porque a vida sobrenatural leva a viver as virtudes da generosidade, da cordialidade, do espírito de serviço…, que estão intimamente unidas à alegria. Um lar cristão dá a conhecer Cristo de modo atraente, entre as demais famílias e na sociedade.

Devemos procurar também levar esta alegria serena e amável ao nosso lugar de trabalho, à rua, às relações sociais. O mundo está triste, inquieto, e tem necessidade, antes de mais nada, do gaudium cum pace, da paz e da alegria que o Senhor nos legou. Quantos não encontraram na conduta sorridente de um bom cristão o caminho que os conduziu a Deus! A alegria é uma enorme ajuda na ação apostólica, porque nos leva a apresentar a mensagem de Cristo de uma forma amável e positiva, como fizeram os Apóstolos depois da Ressurreição.

Necessitamos também de alegria para nós mesmos, para crescer na vida interior. São Tomás diz expressamente que “todo aquele que deseja progredir na vida espiritual necessita de estar alegre”. A tristeza deixa-nos sem forças; é como o barro grudado às botas do caminhante que, além de manchá-las, o impede de caminhar.

Esta alegria interior é também o estado de ânimo necessário para o perfeito cumprimento das nossas obrigações. Quanto maiores forem as nossas responsabilidades (de sacerdotes, pais, superiores, professores…), maior há de ser também a nossa obrigação de ter paz e alegria para dá-la aos outros, maior a urgência de recuperá-la se se nublou.

Pensemos na alegria da Santíssima Virgem. Ela está “aberta sem reservas à alegria da Ressurreição [...]. Ela recapitula todas as alegrias, vive a perfeita alegria prometida à Igreja: Mater plena sanctae laetitiae. E é com toda a razão que os seus filhos na terra, voltando os olhos para a Mãe da esperança e Mãe da graça, a invocam como causa da sua alegria: Causa nostrae laetitiae”.


Leave a comment