Sunday, 20 of May of 2012

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Como posso rezar com a Sagrada Escritura?

 

Não é raro encontrar-se com uma pessoa que pensa que a fé cristã é uma “religião do Livro”. Possivelmente por isso o Catecismo da Igreja Católica nos recorda que não é assim, e que o cristianismo é, bem dizendo, «a religião da “Palavra” de Deus»[1]. É uma distinção muito importante e sobre a qual vale a pena refletir um pouco. Deus quis dar-se a conhecer ao ser humano, para nos revelar quem Ele é, quem somos nós e o caminho de nossa salvação. Esse processo de revelação alcança seu cume no Senhor Jesus, a Palavra Eterna que se faz homem e nos fala em palavras humanas. A Sagrada Escritura é o testemunho inspirado pelo Espírito deste longo caminho de revelação que culmina com Jesus, o Senhor. Por isso dizemos que a Bíblia «contém a Palavra de Deus e, por ser inspirada, é realmente Palavra de Deus»[2]. A Escritura é, pois, não só fonte de ensinamento e sabedoria, como também nela nos encontramos com a Palavra de Deus. Disto decorre uma realidade que queremos ressaltar nesta reflexão: uma vez que a Sagrada Escritura é um lugar de encontro com Deus que nos fala, devemos aprender a rezar com a Bíblia. Deus se revela em palavras humanas e por isso, por meio destas palavras humanas, podemos nos encontrar com Ele, dialogar com Ele, aprender com Ele. Surge, pois, uma pergunta muito importante: Como posso rezar com a Sagrada Escritura?

Leitura da Escritura em espírito de oração

A Igreja «exorta com veemência e de modo peculiar a todos os fiéis… a que, pela frequente leitura das divinas Escrituras aprendam ‘a eminente ciência de Jesus Cristo’ (Flp 3, 8)»[3]. Esta é uma primeira forma de rezar com a Bíblia. Trata-se de ler a Escritura não como qualquer outro livro, e sim com a consciência de que é Palavra de Deus. É importante esta primeira tomada de consciência, pois nos predispõe de maneira adequada, preparando nosso coração e abrindo nossas mentes. Devemos, também, procurar um lugar tranqüilo e um tempo adequado para fazê-lo. O silêncio interior e exterior sempre são fundamentais para a oração, e o são também para uma leitura meditada da Bíblia.

Junto com isso, é necessário recordar que a Bíblia não é um livro qualquer. Ao ser inspirado pelo Espírito Santo tem que ser lido e interpretado como foi lido pela tradição da Igreja. Daí a necessidade de recorrer a comentários da tradição e do Magistério da Igreja que nos possam iluminar o sentido dos textos bíblicos.

Trata-se, então, de fazer, em espírito de oração, uma leitura que nos permita nutrir-nos continuamente dos ensinamentos e critérios divinos. Santo Agostinho «compara a meditação sobre os mistérios de Deus com a assimilação do alimento, e usa um verbo que se repete em toda a tradição cristã: «ruminar»; isto é, os mistérios de Deus devem ressoar continuamente em nós mesmos, para que se tornem familiares, orientem a nossa vida e nos nutram, como acontece com o alimento necessário para nos sustentarmos. E são Boaventura, referindo-se às palavras da Sagrada Escritura, diz que “devem ser sempre ruminadas para poderem ser fixadas com aplicação ardente do espírito”»[4].

Podemos “ruminar” a Palavra «de vários modos, lendo por exemplo um breve trecho da Sagrada Escritura, sobretudo os Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, as Cartas dos Apóstolos … ler e meditar sobre o que lemos, “ruminando” sobre isto, procurando compreendê-lo, entender o que me comunica, o que me diz hoje, abrir a nossa alma àquilo que o Senhor nos quer dizer e ensinar»[5]. Esta leitura assídua da Escritura é fundamental sobretudo para conhecer e amar cada vez mais a Jesus Cristo, já que como dizia São Jerônimo “desconhecer a Escritura é desconhecer Cristo”.

A lectio: um Dom e um método

Junto a esta leitura meditada da Sagrada Escritura existe também um método de oração com a Bíblia que os filhos da Igreja utilizaram ao longo de vários séculos. É também uma leitura meditada, mas se caracteriza por ter uma série de “passos” a seguir que nos ajudam a aprofundar em uma determinada passagem bíblica. Como todo método, devemos recordar que é uma ajuda, uma maneira concreta com a qual procuramos cooperar com a graça que o Senhor derrama abundantemente sobre nós, mais ainda quando procuramos nos encontrar com Ele. Na oração é o Senhor que sai ao nosso encontro e nós que respondemos. Toda experiência de oração se inicia sempre a partir de um Dom. Como diz São Paulo, é o Espírito Santo quem nos move a clamar desde nossos corações «Abba, Pai»[6]. Nós procuramos aplicar nossa inteligência e vontade para realizar da melhor maneira possível aquilo a que somos convidados.

Esta segunda maneira de rezar com a Bíblia é a que chamamos lectio. Lectio é uma palavra latina que se traduz por “leitura”. Faz referência à Lectio divina, quer dizer, à leitura meditada da divina Escritura. Desde suas origens este método de oração conheceu diversas formas e aplicações, e é recomendado pela Igreja como uma maneira de aprofundar no sentido autêntico da Sagrada Escritura e extrair os ensinamentos que ela tem para a própria vida. É muito provável que conheçamos este método para rezar, ou conheçamos alguém que nos possa ensinar isso. Às vezes é difícil no início, mas pouco a pouco se vai aprendendo e acaba sendo uma ocasião privilegiada para aprofundar na Sagrada Escritura e nos encontrarmos com Deus.

A lectio, enquanto método de oração, é ocasião para o encontro e diálogo com Deus em apoio à meditação, aprofundamento e aplicação pessoal da Palavra divina contida na Sagrada Escritura. É importante recordar que em sua estrutura se faz distinção claramente entre o “em si” — onde procuramos compreender o que diz o texto da Escritura, para o qual é fundamental o recurso à leitura que a Igreja tem feito dessa passagem bíblica — e o “em si-em mim” — onde aplicamos a nossa própria vida o que diz o texto bíblico —.

Mediante este método procuramos fazer silêncio no coração, escutar com reverência a Palavra divina, acolhê-la na mente mediante o estudo, a reflexão e aprofundamento e acolhê-la no coração como a terra fértil acolhe a semente para fazer com que produza frutos de conversão para a vida cotidiana. Por isso um passo muito importante da lectio é nos propormos resoluções práticas e concretas que nos ajudem a pôr em prática os ensinamentos divinos, a “fazer o que Ele nos diz”[7].

O objetivo da lectio ou deste método de “ruminar” da Palavra não é sentir algo intenso, mas a própria conversão. Trata-se de avançar no processo de configuração com Cristo, nos assemelharmos cada dia mais a Ele no amor e caridade. Portanto, uma boa oração não deve ser medida pela intensidade do sentimento que possamos experimentar, mas sim pelo tanto que nos ajuda a nos aproximarmos mais de Jesus, a mudar uma conduta pecaminosa por uma conduta virtuosa. A oração é um momento privilegiado para nos renovar e dar um novo impulso no processo de “nos despojarmos e revestir-nos” de que fala São Paulo[8], graças ao encontro com o Senhor e a abertura a sua Palavra transformante.

A Escritura e nossa configuração com Jesus

Aprender a rezar com a Bíblia dá um impulso decidido ao nosso crescimento espiritual. O encontro com a Palavra de Deus nos convida a configurar nossa vida com sua Palavra. Frei Luis de Granada chamava as Sagradas Escrituras «espelho e regra de nossa vida»[9]. Nela vemos refletida nossa imagem, quer dizer, quando nos confrontamos com ela, sobretudo se o fazemos em espírito de oração, vemos se nos assemelhamos ou não à Imagem do homem perfeito, Jesus Cristo, nosso Senhor. Ao “nos olharmos” nela podemos ver com clareza tudo aquilo de que temos que nos despojar, e ao mesmo tempo descobrimos as virtudes de que temos que nos revestir para nos assemelharmos cada vez mais ao Modelo de plena humanidade.

Enquanto “regra de vida” a Escritura é fonte de critérios objetivos, divinos, evangélicos, necessários para o reto discernimento, para o rechaço das tentações[10] e para saber praticar o bem. Mas recordemos que não se trata só de aprender a viver melhor. Rezando com a Bíblia aprendemos a acolher a Palavra de Deus. Quer dizer, aprendemos a acolher Deus em nossa vida, encontrando-nos e dialogando com Ele. Isso ajudará para que todo o nosso ser se vá configurando com a Palavra de Deus, avançando assim de maneira decidida pelo caminho da santidade.

PERGUNTAS PARA O DIÁLOGO

1.   Sou consciente de que na Sagrada Escritura está contida, de modo escrito, a Palavra que Deus quis me fazer chegar para que eu alcance a vida eterna,em Jesus Cristo?

2.   Isto se reflete no espaço que lhe dou em minha vida diária? Como?

3.   Procuro cada dia escutar a Palavra de Deus, meditá-la, “ruminá-la”, guardá-la no coração e pô-la em prática, como fazia Maria?

4.   Conheço bem nosso método de oração ou lectio? Entendo bem a distinção entre o “em-si”, e o “em-si – em-mim”?

CITAÇÕES PARA A ORAÇÃO

  • A Escritura é inspirada Por Deus: 2Tim 3,14;
  • A palavra pregada pelos apóstolos é acolhida comopalavra de Deus: 1Tes 2, 13;
  • A palavra de Deus é viva e eficaz: Heb 4,12; exerce sua ação nos crentes: 1Tes 2, 13;
  • A Escritura é útil para aprender e ensinar; por ela nos preparamos para toda obra boa: 2Tim 3,15-17.
  • Não basta ler ou ouvir a palavra de Deus, é necessário pô-la em prática: Tg 1, 22-25; Mt 7, 24ss; é feliz quem põe em prática a Palavra de Deus: Tg 1, 24-25;Lc 11, 28; a própria Palavra de Deus é causa de felicidade e alegria: Jer 15,16;
  • Jesus usa“critérios divinos” para desmascarar e rechaçar as tentações: Mt 4, 4.7.10;
  • A Palavra divina é alimento para nós: Jer 15,16; Mt 4, 4; Maria guardava e “ruminava” a Palavra divina: Lc 2, 19. 51; o justo sussurra a Lei de Deus “dia e noite”: Sal 1, 1-2;

INTERIORIZANDO

O Catecismo ensina: «a fé cristã não é uma “religião do Livro”. O cristianismo é a religião da “Palavra” de Deus, “não de um verbo escrito e mudo, mas do Verbo encarnado e vivo”. Para que as Escrituras não permaneçam letra morta, é preciso que Cristo, Palavra eterna de Deus vivo, pelo Espírito Santo, “abra-nos o espírito à compreensão das Escrituras»[11].

1.   O que significa a fé cristã não ser uma “religião do Livro”?

2.   Posso interpretar a Escritura “livremente”, sem ter em conta a Tradição e o Magistério da Igreja?

3.   Quais são os princípios fundamentais para uma reta interpretação da Sagrada Escritura? Ver Catecismo da Igreja Católica, 112-114.

Dizia o profeta Jeremias: «quando se apresentavam palavras tuas, eu as devorava; tuas palavras eram para mim contentamento e alegria de meu coração» (Jer15,16).

1.   “Devoro” eu com a mesma avidez as Palavras divinas que se apresentam diante de mim? Como me aproximo da Sagrada Escritura, especialmente, dos ensinamentos do Senhor Jesus no Evangelho? Com interesse? Com fome? Como quem busca saciar sua sede em uma fonte de Água viva?

2.   Tenho a mesma atitude da Virgem, que “ruminava” os ensinamentos divinos para, a seguir, pô-los em prática?

3.   Leio a Escritura com reverência, em espírito de oração?

O beato Papa João Paulo II dizia que «a Igreja na América « deve dar clara prioridade à reflexão piedosa da Sagrada Escritura, por parte de todos os fiéis ». Esta leitura da Bíblia, acompanhada pela oração, é conhecida na tradição da Igreja com o nome de Lectio divina, prática que deve ser estimulada entre todos os cristãos»[12]. Em outro lugar dizia também que «é necessário… que a escuta da Palavra se torne um encontro vital, segundo a antiga e sempre válida tradição da lectio divina: esta permite ler o texto bíblico como palavra viva que interpela, orienta, plasma a existência»[13].

1.   Faço habitualmente uma leitura bíblica, em espírito de oração?

2.   Como posso fazer para ser mais fiel e perseverante na leitura bíblica e na lectio?

3.   Procuro incorporar os “critérios divinos” — memorizando-os, por exemplo — para fazer deles um escudo contra as tentações, tal como Cristo me ensina (ver Mt 4,1ss)? Examino-me com freqüência à luz da Palavra divina?

4.   Faço da escuta e meditação da Palavra divina um “encontro vital” com ela, de tal modo que me transforme, e se converta para mim em critério de conduta? Permito que a Palavra divina me interpele, me oriente e modele minha existência?

O Papa João Paulo II ensinava: «Quando é autêntica, a familiaridade com o Senhor leva necessariamente a pensar, escolher e agir como Cristo pensou, escolheu e agiu, colocando-vos à sua disposição para continuar a obra salvífica»[14].

1.   Na oração, procuro acima de tudo “sentir algo”? Deixo de rezar, de meditar a Palavra, “porque não sinto nada”?

2.   Procuro fazer com que minha lectio me ajude a pensar, sentir e atuar cada vez mais como Jesus?

Notas


[1] Catecismo da Igreja Católica n. 108

[2] Catecismo da Igreja Católica n. 135

[3] Catecismo da Igreja Católica n. 133

[4] S.S. Bento XVI, Audiência geral, 17/08/2011.

[5] Ali mesmo

[6] Rom, 8,15

[7] Ver Jo 2,5.

[8] Ver Ef 4, 21-24.

[9] Guia de Pecadores, 1567, II,II,XX.

[10] Ver Mt 4,1ss.

[11] Catecismo da Igreja Católica n. 108

[12] S.S. João Paulo II, Ecclesia in America, 31.

[13] S.S. João Paulo II, Novo millenio ineunte, 39.

[14] Mensagem por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, 1998, n. 8.

 

Fonte: Movimento de Vida Cristã


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Como se deve evitar o juízo temerário

 

1. Relanceia sobre ti o olhar e guarda-te de julgar as ações alheias. Quem julga os demais perde o trabalho, quase sempre se engana e facilmente peca; mas, examinando-se e julgando-se a si mesmo, trabalha sempre com proveito. De ordinário, julgamos as coisas segundo a inclinação do nosso coração, pois o amor-próprio facilmente nos altera a retidão do juízo. Se Deus fora sempre o único objetivo dos nossos desejos, não nos perturbaria tão facilmente qualquer oposição ao nosso parecer.

2. Muitas vezes existe, dentro ou fora de nós, alguma coisa que nos atrai e em nós influi. Muitos buscam secretamente a si mesmos em suas ações, e não o percebem. Parecem até gozar de boa paz, enquanto as coisas correm à medida de seus desejos; mas, se de outra sorte sucede, logo se inquietam e entristecem. Da discrepância de pareceres e opiniões freqüentemente nascem discórdias entre amigos e vizinhos, entre religiosos e pessoas piedosas.

3. É custoso perder um costume inveterado, e ninguém renuncia, de boa mente, a seu modo de ver. Se mais confias em tua razão e talento que na graça de Jesus Cristo, só raras vezes e tarde serás iluminado; pois Deus quer que nos sujeitemos perfeitamente a ele e que nos elevemos acima de toda razão humana, inflamados do seu amor.

Fonte: Imitação de Cristo (Tomás de Kempis)


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Vocação para a Santidade

 

A DESCOBERTA DA VOCAÇÃO pessoal é o momento mais importante de toda a vida. Da resposta fiel a essa chamada divina dependem a felicidade própria e a de muitos outros. Deus cria-nos, prepara-nos e chama-nos em função de um desígnio eterno. “Se hoje em dia tantos cristãos vivem à deriva, com pouca profundidade e limitados por horizontes pequenos, isso se deve sobretudo à falta de uma consciência clara da sua própria razão de ser e de existir [...]. O que eleva o homem, o que realmente lhe confere uma personalidade, é a consciência da sua vocação, a consciência da sua tarefa concreta. Isso é o que enche uma vida de conteúdo”1.

A decisão inicial de seguir o Senhor é, porém, a base de muitas outras chamadas ao longo da vida. A fidelidade realiza-se dia após dia, normalmente em coisas que parecem de pouca importância, nos pequenos deveres cotidianos, no cuidado em afastar tudo aquilo que possa ferir o que é a essência da própria vida. Não basta preservar a vocação; é preciso renová-la, reafirmá-la constantemente: quando parece fácil e nos momentos em que tudo custa; quando os ataques do mundo, do demônio e da carne se manifestam em toda a sua violência.

Teremos sempre a ajuda necessária para sermos fiéis. Quanto mais dificuldades, mais graças. E com a luta ascética bem determinada – com um exame particularbem concreto –, o amor cresce e se robustece com o passar do tempo; e a entrega, afastada toda a rotina, torna-se mais consciente, mais madura. “Não se trata de um crescimento de tipo quantitativo, como o de um montão de trigo, mas de um crescimento qualitativo, como o do calor que se torna mais intenso, ou como o da ciência que, sem chegar a novas conclusões, se torna mais penetrante, mais profunda, mais unificada, mais certa. Assim, pela caridade tendemos a amar mais perfeitamente, de modo mais puro, mais intimamente, a Deus acima de tudo, e ao próximo e a nós mesmos para que glorifiquemos a Deus neste tempo e na eternidade”2. É esse o crescimento que o Senhor nos pede.

Esforçar-se por crescer em santidade, em amor a Cristo e a todos os homens por Cristo, é assegurar a fidelidade e conseqüentemente uma vida plena de sentido, de amor e de alegria. São Paulo servia-se de uma comparação tirada das corridas no estádio para explicar que a luta ascética do cristão deve ser alegre, como um autêntico esporte sobrenatural. E ao considerar que não tinha atingido a perfeição, dizia que lutava por alcançar o que fora prometido: Uma só coisa é a que busco: lançar-me em direção ao que tenho pela frente, correr para a meta, para alcançar o prêmio a que Deus nos chama das alturas3.

Desde que Cristo irrompeu na sua vida na estrada de Damasco, Paulo entregou-se com todas as suas forças à tarefa de procurá-lo, amá-lo e servi-lo. Foi o que fizeram os demais Apóstolos a partir do dia em que Jesus passou por eles e os chamou. Os defeitos que tinham não desapareceram naquele instante, mas eles seguiram o Mestre numa amizade crescente e souberam ser-lhe fiéis. Nós devemos fazer o mesmo, correspondendo diariamente às graças que recebemos, sendo fiéis cada dia. Assim chegaremos à meta em que Cristo nos espera.

(1) F. Suárez, A Virgem Nossa Senhora, Aster, Lisboa, pág. 29; (2) R. Garrigou-Lagrange, La Madre del Salvador, Rialp, Madrid, 1976, pág. 106; (3) cfr. Fil 3, 13-14.

Fonte: Falar com Deus


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Meditação sobre a ressurreição de Jesus Cristo e a esperança do cristão.

 

Por Santo Afonso Maria de Ligório
« Levá-lo-ei ao deserto e lhe falarei ao coração »
(Os 2,14)

I- O grande mistério que em todo o tempo pascal, e especialmente no dia de hoje, deve ocupar as almas amantes de Deus, e enchê-las de dulcíssima esperança, é a felicidade de Jesus ressuscitado. Já meditamos que Jesus, no tempo de sua Paixão, perdeu inteiramente as quatro espécies de bens que o homem pode possuir na terra.

Perdeu os vestidos até a extrema nudez; perdeu a reputação pelos desprezos mais abomináveis; perdeu a florescente saúde pelos maus tratos; perdeu finalmente a vida preciosíssima pela morte mais horrível que se pode imaginar. Agora porém, saindo vivo do fundo do sepulcro, recebe com lucro abundantíssimo tudo quanto perdeu.

O que era pobre, ei-lo feito riquíssimo e Senhor de toda a terra. O que a si próprio se chamava verme e opróbrio dos homens, ei-lo coroado de glória, assentado à direita do Pai. O que pouco antes era o Homem das dores e provado nos sofrimentos, ei-lo dotado de nova força e de uma vida imortal e impassível. Finalmente o que tinha sido morto do modo mais horrível, ei-lo ressuscitado pela sua própria virtude, dotado de sutileza, de agilidade, de clareza, feito as primícias de todos os que dormem com a esperança de ressuscitarem também um dia à imitação de Cristo.

Detenhamos-nos aqui para tributar a nosso Chefe divino as devidas homenagens. Façamos um ato de fé viva na sua ressurreição, e cheguemo-nos a ele para beijarmos em espírito os sinais de suas cinco chagas glorificadas. Alegremo-nos com ele, por ter saído do sepulcro, vencedor da morte e do inferno, e digamos com todos os santos: « O Cordeiro que foi imolado por nós, é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a fortaleza, a honra, a glória e a bênção » (Ap 5,12)

II- Regozijemo-nos com Jesus Cristo; mas regozijemo-nos também por nós mesmos, porquanto a sua ressurreição é o penhor e a norma da nossa, se ao menos, como diz São Paulo, morrermos primeiro interiormente ao afeto das coisas terrestres: « Si commortui sumus, et convivemus – Se morrermos com ele, com ele também viveremos » (2 Tm 2,11). Ó doce esperança! « Virá a hora em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus » (Jo 5,28); e então pelo poder divino retomaremos o mesmo corpo que agora temos, mas formoso e resplandecente como o sol. Nós também ressuscitaremos!

A esperança da futura ressurreição é o que consolava o santo Jó no tempo de sua provação. « Eu sei », disse ele, e nós, digamos o mesmo no meio das cruzes e tribulações da vida presente: « eu sei que o meu Redentor vive, e que no derradeiro dia surgirei da terra; e serei novamente revestido de minha pele, e na minha própria carne verei a meu Deus… esta minha esperança está depositada no meu peito » (Jó 19,25)

Meu amabilíssimo Jesus, graças Vos dou que pela vossa morte adquiristes para mim o direito à posse de tão grande bem, e hoje pela vossa ressurreição avivais a minha esperança. Sim, espero ressurgir no último dia, glorioso como Vós, não tanto por meu próprio interesse, como para estar para sempre unido convosco, e louvar-Vos e amar-Vos eternamente. É verdade que pelo passado Vos ofendi com os meus pecados; mas agora arrependo-me de todo o coração e pela vossa ressurreição peço-Vos que me livrais do perigo de recair na vossa desgraça: Per sanctam resurrectionem tuam, libera me, Domine – « Pela vossa santa ressurreição, livrai-me, Senhor »

« E Vós, Eterno Pai, que no dia presente nos abristes a entrada da eternidade bem-aventurada, pelo triunfo que vosso Unigênito alcançou sobre a morte: aumentai com o Vosso auxílio os desejos que a vossa inspiração nos instila ». Fazei-o pelo amor do mesmo Jesus Cristo e de Maria Santíssima. Assim seja.


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Ser Agradecidos

 

– Jesus cura dez leprosos.

– O Senhor espera que saibamos dar-lhe graças, pois os dons que recebemos diariamente são incontáveis.

– Ser agradecidos com todos os homens.

I. A PRIMEIRA LEITURA da Missa1 recorda-nos o episódio de Naamã, o Sírio, curado da sua lepra pelo profeta Eliseu. O Senhor serviu-se desse milagre para atraí-lo à fé, um dom muito maior do que a saúde corporal. Agora reconheço que não há outro Deus em toda a terra a não ser o de Israel, exclamou Naamã ao verificar que estava livre da doença. No Evangelho da Missa2, São Lucas relata-nos um episódio similar: um samaritano – que, como Naamã, também não pertencia ao povo de Israel – encontra a fé depois de curado, como prêmio ao seu agradecimento.

Na sua última viagem a Jerusalém, Jesus passava entre a Samaria e a Galiléia. E, ao entrar numa aldeia, saíram ao seu encontro dez leprosos que se detiveram a certa distância do lugar em que se encontravam o Mestre e o grupo que o acompanhava, pois a lei proibia que esses doentes se aproximassem das pessoas3. Entre os leprosos contava-se um samaritano, apesar de não haver trato entre os judeus e os samaritanos4, dada a inimizade secular que separava os dois povos; mas a desgraça unira-os, como acontece tantas vezes na vida. E levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem compaixão de nós. Recorreram à misericórdia de Jesus, e o Senhor, compadecendo-se deles, mandou-os apresentar-se aos sacerdotes, como estava prescrito na Lei5. Apesar de ainda não estarem curados, esses homens obedeceram a Cristo e foram apresentar-se aos sacerdotes. E pela sua fé e docilidade, viram-se livres da doença.

Estes leprosos ensinam-nos a pedir: recorrem à misericórdia divina, que é a fonte de todas as graças. E mostram-nos o caminho da cura, seja qual for a lepra que tenhamos na alma: ter fé e sermos dóceis àqueles que, em nome do Mestre, nos indicam o que devemos fazer. A voz do Senhor ressoa com especial força e clareza nos conselhos que recebemos na direção espiritual.

II. E ACONTECEU que, enquanto iam, ficaram limpos. Podemos imaginar facilmente a alegria que os dominou. Mas, no meio de tanto alvoroço, esqueceram-se de Jesus. Na desgraça, acodem a Ele; na ventura, esquecem-no. Somente um, o samaritano, voltou ao lugar onde o Senhor estava com os seus discípulos. Provavelmente voltou correndo, louco de contentamento, glorificando a Deus em voz alta, sublinha o Evangelista. E foi prostrar-se aos pés do Mestre, dando-lhe graças.

Foi uma ação profundamente humana e cheia de beleza. “Que coisa melhor podemos trazer no coração, pronunciar com a boca, escrever com a pena, do que estas palavras: «graças a Deus»? Não há nada que se possa dizer com maior brevidade, nem ouvir com maior alegria, nem sentir com maior elevação, nem realizar com maior utilidade”6. A gratidão é uma grande virtude.

O Senhor deve ter-se alegrado com as mostras de gratidão desse samaritano, mas ao mesmo tempo encheu-se de tristeza ao verificar a ausência dos outros. Jesus esperava o regresso de todos: Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão?, perguntou. E manifestou a sua surpresa: Não houve quem voltasse e desse glória a Deus, a não ser este estrangeiro? Quantas vezes Jesus não terá perguntado por nós, depois de tantas graças! Hoje, na nossa oração, queremos compensá-lo pelas nossas muitas ausências e faltas de gratidão, pois os anos que contamos não são outra coisa que a sucessão de uma série de graças divinas, de curas, de chamadas, de misteriosos encontros. Os benefícios recebidos – bem o sabemos – superam de longe as areias do mar7, como afirma São João Crisóstomo.

Com freqüência, temos melhor memória para as nossas necessidades e carências do que para os nossos bens. Vivemos pendentes daquilo que nos falta, e reparamos pouco naquilo que temos, e talvez seja por isso que ficamos aquém no nosso agradecimento. Pensamos que temos pleno direito ao que possuímos e esquecemo-nos do que diz Santo Agostinho ao comentar esta passagem do Evangelho: “Nada é nosso, a não ser o pecado que possuímos. Pois que tens tu que não tenhas recebido? (1 Cor 4, 7)”8.

Toda a nossa vida deve ser uma contínua ação de graças. Recordemo-nos com freqüência dos dons naturais e das graças que o Senhor nos dá, e não percamos a alegria quando percebemos que nos falta alguma coisa, porque mesmo isso que nos falta é, possivelmente, uma preparação para recebermos um dom mais alto. Lembrai-vos das maravilhas que Ele fez9, exorta o salmista. O samaritano, através do seu mal, pôde conhecer Jesus Cristo, e por ser agradecido conquistou a sua amizade e o incomparável dom da fé: Levanta-te e vai; a tua fé te salvou. Os nove leprosos desagradecidos ficaram sem a melhor parte que o Senhor lhes tinha reservado. Porque – como ensina São Bernardo – “a quem humildemente se reconhece obrigado e agradecido pelos benefícios, com razão lhe são prometidos muitos mais. Pois quem se mostra fiel no pouco, com justo direito será constituído sobre o muito, assim como, pelo contrário, se torna indigno de novos favores quem é ingrato em relação aos que antes recebeu”10.

Agradeçamos tudo ao Senhor. Vivamos com a alegria de estar repletos de dons de Deus; não deixemos de apreciá-los. “Já viste como agradecem as crianças? – Imita-as dizendo, como elas, a Jesus, diante do favorável e diante do adverso: «Que bom que és! Que bom…!»”11 Sabemos agradecer, por exemplo, a facilidade com que podemos purificar-nos dos nossos pecados no Sacramento do perdão? Damos graças freqüentemente pelo imenso dom de termos Jesus Cristo conosco na Sagrada Eucaristia, e isso na mesma cidade, talvez na mesma rua?

III. CANTAI AO SENHOR um cântico novo, porque Ele fez maravilhas12, convida o Salmo responsorial. Quando vivemos de fé, só encontramos motivos para estar agradecidos. “Não há ninguém que, por pouco que reflita, não encontre facilmente motivos que o obrigam a ser agradecido com Deus [...]. Ao conhecermos o que Ele nos deu, encontraremos muitíssimos dons pelos quais devemos dar graças continuamente”13.

Muitos favores do Senhor nos chegam através das pessoas com quem convivemos diariamente, e por isso, nesses casos, o agradecimento a Deus deve passar por essas pessoas que tanto nos ajudam para que a vida nos seja menos dura, a terra mais grata e o Céu mais próximo. Ao agradecer-lhes, agradecemos a Deus, que se torna presente nos nossos irmãos, os homens.

Não podemos ficar aquém neste agradecimento aos homens. “Não pensemos que estamos quites com os homens porque lhes damos, pelos seus trabalhos e serviços, a compensação pecuniária de que necessitam para viver. Eles nos deram algo mais do que um dom material. Os professores instruíram-nos, e aqueles que nos ensinaram o nosso ofício, como também o médico que nos atendeu um filho e o salvou da morte, e tantos outros, abriram-nos os tesouros da sua inteligência, da sua ciência, da sua perícia, da sua bondade. Isso não se paga com um talão de cheques, porque eles nos deram a sua alma. Mas também o carvão que nos aquece representa o trabalho penoso do mineiro; e o pão que comemos, a fadiga do agricultor: entregaram-nos um pouco da sua vida. Vivemos da vida dos nossos irmãos. Isso não se retribui com dinheiro. Todos puseram o coração no cumprimento do seu dever social: têm direito a que o nosso coração o reconheça”14. De modo muito particular, a nossa gratidão deve dirigir-se aos que nos ajudaram a encontrar o caminho que leva a Deus.

O Senhor sente-se feliz quando nos vê agradecidos com todos aqueles que nos favorecem diariamente de mil maneiras. Para isso, é necessário que nos detenhamos um pouco, que digamos simplesmente “obrigado”, com um gesto amável que compensa a brevidade da palavra… É bem possível que aqueles nove leprosos curados bendissessem o Senhor no seu coração…, mas não retornaram, como fez o samaritano, para encontrar-se com Jesus que os esperava.

Também é significativo que fosse um estrangeiro quem voltasse para agradecer. Isso recorda-nos que, por vezes, cuidamos de agradecer um serviço ocasional prestado por uma pessoa desconhecida, e ao mesmo tempo não sabemos dar importância às contínuas delicadezas e atenções que recebemos dos mais próximos.

Não existe um só dia em que Deus não nos conceda alguma graça particular e extraordinária. Não deixemos passar o exame de consciência de cada noite sem dizer ao Senhor: “Obrigado, Senhor, por tudo”. Não deixemos passar um só dia sem pedir abundantes bênçãos do Senhor para aqueles que, conhecidos ou não, procuraram fazer-nos algum bem. A oração é também um meio eficaz de agradecer: Dou-te graças, meu Deus, pelos bons propósitos, afetos e inspirações que me comunicaste…

(1) 2 Re 5, 14-17; (2) Lc 17, 11-19; (3) cfr. Lev 13, 45; (4) cfr. 2 Re 17, 24 e segs.; Jo 4, 9; (5) cfr. Lev 14, 2; (6) Santo Agostinho, Epístola 72; (7) cfr. São João Crisóstomo, Homilias sobre São Mateus, 25, 4; (8) Santo Agostinho, Sermão 176, 6; (9) Sl 104, 5; (10) São Bernardo, Comentário ao Salmo 50, 4, 1; (11) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Caminho, n. 894; (12) Sl 97, 1-4; Salmo responsorial da Missa do vigésimo oitavo domingo do Tempo Comum, ciclo C; (13) São Bernardo, Homilia para o Domingo VI depois de Pentecostes, 25, 4; (14) Georges Chevrot, “Pero Yo os digo…”, Rialp, Madrid, 1981, págs. 117-118.


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