Sunday, 20 of May of 2012

Tag » Maciel

Valores morais e cristãos – Os sacramentos e a oração, escola de autênticos valores (VII)

Por Pe. Marcial Maciel L.C.

 

Talvez  pudesse dar a impressão de que em tudo o que temos dito até agora, a tarefa e a responsabilidade principais na conquista dos valores humanos e cristãos recai sobre o esforço do homem. Porém, não é assim. O cristão há de se esforçar para construir sua vida sobre rocha sólida. Mas nunca há de esquecer que «se o Senhor não constrói a casa em vão se cansam os habitantes» (Sal 126, 1). O cristão necessita da graça de Deus para edificar sua vida sobre os autênticos valores. Por isso, há de acodir às fontes de onde emana a graça: os sacramentos e a oração.

Os sacramentos são a fonte ordinária de onde se nutre a vida da graça do cristão. Quem se une ao mistério pascoal de Cristo através dos sacramentos, recebe a graça para assemelhar-se mais perfeitamente a Cristo. Esta identificação com Ele possibilita a vivência mais perfeita daqueles valores, humanos e evangélicos, que Cristo mesmo viveu.

Somente unidos a Cristo, como os ramos da videira à mesma, poderemos dar frutos de vida eterna (Jn 15, 8). De modo especial, o sacramento da Penitência, ao reconciliar o pecador com Cristo e com a Igreja, dá ao homem ferido pelo pecado, a graça para prosseguir com renovadas forças nessa árdua conquista dos valores, acima das debilidades e das faltas pessoais. A Eucaristia, por sua vez, que contém ao mesmo Cristo sob as espécies do pão e do vinho, deixa a alma inundada de sua graça, favorece a doação de si na caridade até nossos irmãos, os homens, e é prova dos bens da glória futura.

O outro grande manancial da vida de graça é a oração. Nela descobrimos a Deus como fonte suprema de todos os valores e nossa dignidade como seus filhos. Nela, se revela a nós a vontade divina, e obtemos forças para viver as exigências do ideal, hierarquizamos de modo adequado todos os valores em função de Deus, valor supremo muito fundamental, ganhamos as graças necessárias para viver generosamente nossos compromissos como homens e como batizados, enchemos a alma de zelo para nos converter em difusores do Evangelho.

A oração é a respiração da alma. Quem não respira, morre por asfixia. Quem não ora, morre espiritualmente. Quem não ora, perde a necessária tensão moral e espiritual, se dispersa em meio de muitas coisas acidentais, faltando-lhe a ancoragem na eternidade de Deus. Por isso, o cristão verdadeiramente maduro acode à oração, porque se reconhece criatura necessitada de Deus, porque se reconhece pecador que busca o perdão, porque quer agradecer-Lhe o dom magnífico e misterioso da vida, porque quer louvá-Lo por sua bondade e sua misericórdia.

Dêem a importância que merece a oração em suas vidas de crentes. A ela temos de dedicar o melhor de nosso tempo porque Deus é o valor supremo que merece o melhor de nós mesmos. Quando acreditarem que lhes faltam as forças, quando perceberem que o vigor de seu ideal vem diminuindo, quando se borra o sentido de sua vida, quando não sentem a urgência da missão, acodam à oração para respirar esse ar novo do espírito que procede do mesmo Deus. Que oportunidade tão grande e maravilhosa a de poder nos colocar em contato direto com Ele, e falar com Ele como um amigo fala com outro, de contar-Lhe nossas penas e alegrias, nossos sofrimentos e fracassos, nossas perplexidades e esperanças, nossos desejos de realizar grandes empresas por Ele!

Por isso, o valor da oração é incalculável. Nela se aprende o segredo de viver e o segredo de morrer; nela se vê tudo sob a perspectiva da eternidade, sob o signo da missão, sob o poder da mão amorosa de Deus.

(Continua…)


Leave a comment

Valores morais e cristãos – A maturidade integral (VI)

Por Pe. Marcial Maciel L.C.

A. Maturidade humana e cristã

Quem, como Cristo, busca realizar em sua vida os valores segundo a devida hierarquia é uma pessoa madura. O homem maduro guia sua conduta pela razão e pelos critérios de fé; orienta sua vontade até o bem; sabe se relacionar com os demais de modo altruísta e generoso. Possui um claro projeto de vida e se entrega com decisão, a exemplo de Cristo, a sua realização; um homem que sabe o que quer e luta por conseguí-lo; um homem que tem dado a sua vida um sentido trascendente e que a concebe como uma missão; um homem que persegue um ideal verdadeiro e que se esforça por alcançá-lo sem vacilações nem subterfúgios; um homem de princípios claros, seguros e firmes; um homem que é coerente e fiel as suas próprias convicções, que usa sua liberdade de modo responsável; um homem reflexivo, rico em interioridade e sabedoria.

Uma pessoa madura se reconhece pela perfeita harmonia que reina em suas faculdades. A maturidade humana dá como resultado o que chamamos o homem cabal. Aqueles que lograram em harmonizar os diversos aspectos que compõem suas personalidades, nos surpreendem e maravilham por esse senhorio que possuem sobre si mesmos, pela simplicidade com que se dão aos demais e por sua coerência de vida. Têm sabido direcionar todas as forças de seu ser até um ideal superior. São pessoas ardentemente apaixonadas que têm sabido por toda sua riqueza emotiva e afetiva ao serviço do bem e da verdade, e que portanto exercem ao máximo sua capacidade de livre arbítrio.

O homem maduro é, como diz uma popular canção italiana, l’impero dell’armonia («o império da harmonia»), um ser que despreende paz, serenidade, energia, plenitude, gozo e entusiasmo pela vida, pelo bem e pela verdade. Um homem assim construiu sua vida sobre rocha. É claro, sem dúvida, que a maturidade não é sinônimo de total perfeição, a qual é impossível nesta terra. O homem maduro não carece de limites, porém os aceita, procurando sempre superá-los na medida de suas possibilidades.

O cristão maduro é aquele que, sobre a base dos valores humanos, vive os valores evangélicos. São Paulo chama a este tipo de homem, regenerado pela graça de Cristo, o homem novo (Ef 4, 24). Este homem, que nasce de novo no Espírito Santo (Jn 3, 5) é plenamente maduro porque vive segundo Cristo, o homem perfeito, revestindo-se d’Ele em seu ser e em suas obras, de tal modo que pode repetir com São Paulo: «Já não sou eu, é Cristo quem vive em mim» (Ga 2, 20). O homem novo vive da fé (Rm 3, 26) e da esperança; goza da liberdade gloriosa dos filhos de Deus (R 8, 21), se nutre da verdade do Evangelho, e tem por máxima lei a caridade (Rm 13, 8).

O cristão maduro é o santo que segue a Cristo pelo trilha da cruz para chegar, junto com Ele, à glória da resurreição. A maturidade cristã tampouco está totalmente isenta do pecado e da imperfeição, porém o cristão maduro, longe de fazer um pacto com o mal que todavia pode dominá-lo, procura viver em atitude de vigilância e de combate espiritual, aproveitando com humildade suas faltas para confiar mais em Deus e na ação da graça em sua alma.

Em contraposição ao homem maduro se encontra o homem superficial, que carece de princípios, que simplesmente vive o dia, sem um projeto de vida e sem ideal, que não sabe nem por que nem para que vive. A norma do seu atuar não é a convicção, senão a conveniência, o prazer do momento ou a emoção mais forte. Este tipo de homem se guia por um pensamento débil, de onde tudo é verdade e mentira ao mesmo tempo, tudo é relativo. Nada há de absoluto: nem normas morais, nem princípios, nem convicções. Tudo lhe é permitido contanto que satisfaça as suas tendências. É um homem dominado pela busca constante de novas sensações, do prazer e do sexo a todo custo, pela fuga da realidade e do compromisso moral e espiritual; porém vazio por dentro, sem valores sólidos, sem sentido na vida. É um ser amorfo, que vive de flor em flor: construíu sua vida sobre areia movediça.

Igualmente o cristão imaturo é quem vive na inconsciência ou na indiferença o precioso tesouro de sua fé e todas as riquezas que se derivam de seu ser cristão. Muitos são por desgraça os cristãos que o são somente de nome, pelo fato de haverem sido um dia batizados, porém não têm penetrado nas riquezas imensas do que isso implica para sua vida e que assim, vivem na miséria espiritual quando teriam todas as possibilidades para serem imensamente ricos graças à ação santificante do Espírito Santo e a sua inserção na vida de Cristo e de sua Igreja.

B. A formação da consciência

Parte imprescindível da maturidade integral da perssoa é a formação da consciência, esse sacrário de onde o homem se encontra à sós consigo mesmo e com Deus, e de onde descobre a lei imperiosa de realizar o bem e de evitar o mal. A consciência há de ser formada segundo os princípios da reta razão e da fé. Esta formação assume em nossos dias uma importância especial porque a cultura relativista que penetra por todos os lados, sobretudo através dos meios de comunicação social, faz mais difícil o juízo moral reto e objetivo. Na confusão dos valores morais em que vivemos, é necessário – mais que nunca - iluminá-la com os critérios do Evangelho, do Magistério da Igreja, das pessoas prudentes, para poder emitir juízos morais acertados. A consciência se forma sendo continuamente fiel aos seus ditames, sem permitir pequenas concessões que vão pouco a pouco debilitando a força de sua voz até fazê-la desaparecer. O homem coerente e autêntico é fiel à voz de sua consciência e, quando por debilidade não o é, sabe reconhecer com humildade seu erro e corrigir a rota.

A consciência bem formada assegura o verdadeiro exercício da liberdade. O homem é mais livre quando com maior força se adere ao bem e a verdade, e supera a tentação do egoísmo ou da mentira. A verdade nos faz livres (Jn 8, 32). Uma liberdade governada pela verdade e pelo bem é uma liberdade aberta ao valor moral, aberta a dignidade da pessoa humana, aberta a Dios em última instância. A tarefa da formação da consciência é particularmente importante hoje em dia no campo da ética familiar, social e professional. Nestes âmbitos, às vezes as paixões humanas ou as situações complexas tornam difícil um juízo moral acertado.

O Magistério da Igreja, através de importantes documentos pontifícios, vem iluminando a consciência dos fiéis cristãos e dos homens de boa vontade. Lhes aconselho que leiam e estudem atentamente estes escritos para que possam formar critérios morais seguros em seu atuar matrimonial, familiar, profissional e social. Naturalmente que existem casos concretos nos quais não é fácil emitir um juízo de consciência. Nestas situações, há de se recorrer ao exercício da virtude da prudência, ao conselho de pessoas competentes, plenas de sabedoria humana e cristã e à oração humilde e confiada ao Espírito Santo.

Encontramos um exemplo eloqüente de maturidade integral na pessoa do Papa João Paulo II. Todos aqueles que tiveram a graça de um contato direto com ele, ficaram admirados por sua personalidade tão completa e integrada. É um homem sumamente cordial; de uma grande empatia afetiva; se intui nele um caráter reto e sólido; de uma alta formação intelectual; de um juízo moral seguro, acertado e sereno; amante do exercício físico; de uma extraordinária capacidade de relacionamento; grande comunicador; um homem que se dá ao interlocutor, que se vê dominado por um ideal que o transcende; com um forte sentido da responsabilidade que, distante de agoniá-lo, o liberta e o lança à conquista de novas metas. É um líder humano, intelectual, social. Alguém que atrai, que convida à imitação.

Tudo isto não é fruto do azar nem da improvisação. É o resultado de um extenso esforço; de alguém que se propôs seriamente na vida alcançar uma maturidade humana. Porém, esta maturidade foi a base sobre a qual o Espírito Santo levantou essa outra maturidade cristã. Assim, o Santo Padre nos é apresentado como um homem seguro de sua fé, que sabe confiar em Deus acima de qualquer coisa, um homem de caridade, que vive profundamente o espírito das bem-aventuranças e toda a rica gama dos valores evangélicos. Não cabe dúvida de que é um autêntico líder humano, porém acima de tudo é um líder moral e espiritual que professa sem temores e com íntima convicção sua fé em Cristo, Redentor do homem.

(Continua…)


Leave a comment

Valores morais e cristãos – Os valores cristãos e Jesus Cristo (V)

Por Pe. Marcial Maciel L.C.

Todos os valores sobre os quais temos falado têm sido elevados e transformados por Jesus Cristo. Com a chegada de Cristo, os valores humanos são afetados, se elevando e transformando, na ordem da redenção. O cristianismo não suprime nem menospreza os valores humanos, senão que lhes dá uma nova orientação, um novo espírito, uma nova inspiração. Surgem assim, os valores cristãos que Cristo nos deixou consignados em sua mensagem evangélica. Talvez sua melhor síntese sejam as bem-aventuranças que nos apresentam uma radiografia do que deveria ser o coração do homem evangélico: a pobreza de espírito, a mansidão, a misericórdia, a pureza de coração, a busca da paz e da justiça, a paciência defronte à perseguição.

Junto as bem-aventuranças, os Evangelhos sublinham também a importância de algumas atitudes que Cristo exige de seus discípulos: a fé, a confiança absoluta na Providência, a humildade, a simplicidade, a capacidade de levar a própria cruz, a abnegação, o perdão dos inimigos e, sobretudo, o amor mútuo que é o distintivo que caracterizará a qualquer um que deseje seguir-Lhe e que Jesus propõe em forma de um «mandamento novo» que substitui à multiplicidade de mandamentos da antiga lei (Jn 13, 34).

A vinda de Cristo ao mundo, operou neste a maior revolução que jamais se havia imaginado: revolução pacífica do Evangelho que modifica o homem internamente, purificando-o do pecado e abrindo sua alma à ação transformadora do amor e da graça. Cristo não somente sanou o homem da ferida do pecado original, senão elevou todo o humano a um nível superior. Por isso, podemos dizer verdadeiramente, seguindo a grande tradição cristã, que a graça não suprime, senão que aperfeiçoa e leva a sua plenitude à natureza.

Creio que o melhor modo de considerar os valores cristãos é vê-los refletidos na pessoa mesma de Jesus Cristo. A contemplação de sua personalidade é fonte de perenes graças para nossa vida. O Evangelho nos apresenta a Cristo num ato de contínua doação de si mesmo ao Pai e aos homens. Jesus Cristo vive em perene atitude de serviço (Mt 20, 28). O que Lhe preocupa por acima de tudo é realizar sempre o querer supremo do Pai (Jn 4, 34), agradar-Lhe em tudo (Jn 8, 29). E para tal, não Lhe perturba nem inquieta a opinião dos homens (Mt 22, 15).

Porém, o fato de viver sempre pendente das coisas do Pai (Lc 2, 49) não Lhe impede de apreciar as realidades criadas em todo seu valor: a beleza dos passarinhos do céu, as flores dos campos (Mt 6, 26-28), a majestade dos montes solitários aonde se dirige para orar (Mc 1, 35; 9. 2), a solidão do deserto onde foi tentado. É também sumamente sensível, diante das realidades que tocam a vida dos homens. Quer participar do gozo dos esposos, santificando o matrimônio, com sua presença nas bodas de Caná. Aprecia a amizade que Lhe oferecem Lázaro e suas irmãs (Lc 10, 38). Se comove diante a dor da viúva que perdeu seu filho (Lc 7, 13), ou diante do abandono do homem que havia caído nas mãos de ladrões e a quem ninguém ajuda (Lc 10, 25-37).

Observa o desespero do paralítico que não tem ninguém que o leve à água da piscina de Betesda para ser curado (Jn 5, 6). Se admira muitíssimo da fé da mãe cananéia que deseja ardentemente a cura de sua filha (Mt 15, 28). Lhe dói a desorientação das multidões que caminham como ovelhas sem pastor (Mt 9, 36). Se compadece da vergonha da mulher surpreendida em flagrante adultério (Jn 8, 1-11). Lhe enche de gozo a alma o desejo de conversão e de renovação interior de Zaqueu (Lc 19, 1-10).

Jesus Cristo é um apaixonado do homem. Lhe interessa o humano porque veio resgatar o homem do pecado e mostrar-lhe o caminho seguro de sua salvação. Cristo sabe que nem todos os valores são iguais e para tal, não teme exigir a renúncia de alguns deles para alcançar outros superiores. Aprecia o valor das riquezas, porém sabe que a verdadeira riqueza é Deus e por Ele pede a seus discípulos a pobreza de coração.

Tem em grande conta o matrimônio, porém sabe que Deus pode chamar a alguns homens a viver exclusivamente para o Reino dos Céus e a eles lhes propõe o carisma da consagração virginal. Estima muito o valor do corpo, porém ao mesmo tempo designa à alma um maior valor: «Não tenhas medo dos que matam o corpo e não podem matar a alma. Temei mais a quem pode lançar a alma e o corpo na geena» (Mt 10, 28).

Surgem assim os paradoxos evangélicos do morrer para viver (Jn 12, 24), de servir para reinar (Mt 20, 27-28), de humilhar-se para ser o maior no Reino dos Céus (Mt 18, 4). São paradoxos que se esclarecem ao considerá-los à luz dos valores supremos: morrer para si para viver em Deus; servir aos homens para reinar no Céu; humilhar-se na terra para ser grande aos olhos de Deus.

Jesus Cristo sabe que se exige a renúncia a bens transitórios é para poder obter os eternos.

Ele é o homem perfeito e nos revela o ideal da perfeição humana. Quando Pilatos, depois haver mandado açoitá-Lo, pronuncia diante da multidão as palavras: “Ecce homo!”, não sabia que na realidade estava apresentando diante da História o homem perfeito, aquele que, como nenhum outro, encontrou o sentido mais profundo de sua existência na entrega oblativa de sua vida ao Pai por amor à humanidade, e em quem todos os valores encontram sua plenitude e sua consumação.

Ele é o homem maduro que luta para alcançar seu ideal, movido por uma consciência totalmente lúcida do porquê de sua existência. Esta percepção tão profunda e tão clara do sentido de sua vida, fez que vivesse a todo instante atado à missão. Sabia que havia vindo a este mundo para realizar a redenção e não perdeu nunca o sentido do essencial. Par tal, quando deu cumprimento na cruz à obra para a qual o Pai o havia enviado, apesar de ter sido  considerado pelos homens como um fracasso ou um iludido, Cristo se reconhece triunfante porque cumpriu com perfeição a sua missão, viveu com total plenitude o sentido de sua existência.

Esta contínua tensão que se percebe em sua vida, na ordem do cumprimento de sua missão, nos apresenta a Jesus Cristo como alguém que não toma a vida por pouco, senão que se compromete profundamente com ela. Passou sua vida fazendo o bem (Hch 10, 38) e servendo à Verdade (Jn 18, 37), amando ao Pai e aos homens. Ele é o homem por antonomásia em quem todos os valores alcançam seu cume. Basta contemplar a profundidade e clarividência de sua inteligência, a consistência e a força de seu caráter, o equilíbrio perfeito de sua vida passional, emotiva e afetiva.

Ele é o homem de princípios, coerente com os mesmos, fiel à sua palavra, amigo de seus amigos e inimigos, homem de uma só peça. Ele sabe resistir as dificuldades inerentes à vida humana: não se desespera diante do fracasso, nem se abate diante o sofrimento; sabe dar sentido a dor, sobrepôe-se à angústia, não se arreda diante da incompreensão, não se deixa vencer pela fadiga. Nasceu por amor, viveu amando e morreu sem deixar de amar: «havendo amado aos seus, os amou até o fim» (Jn 13, 1). Não temos outro modelo melhor nem mais perfeito que o de Jesus Cristo para dar sentido pleno à vida, para enchê-la de valores, para vivê-la em plenitude.

(Continua…)


Leave a comment

Valores morais e cristãos – Os valores e sua classificação (IV)

Traduzimos esta carta do saudoso Pe. Marcial Maciel destinada aos Legionários de Cristo no encontro realizado na cidade de St. Louis, no período de 23 a 25 de maio de 1997. O texto completo foi dividido em dez partes a serem publicadas a cada semana. Há dez anos atrás, o chamado era o mesmo e os temas abordados remetem aos valores morais e evangélicos.

Por Pe. Marcial Maciel L.C.

Seu texto afirma que ao início do cristianismo houve um punhado de homens e mulheres que creram na força transformadora dos valores do Evangelho e que souberam levá-los à vida penetrando desta maneira no mundo.

Boa leitura!

 ………………………………………………………………………………………………………………………………………………………

 

 

 

(Continuação...)

Temos que administrar a vida sabiamente no cumprimento da missão que Deus nos deu e para isso a temos que construir sobre a rocha de sólidos valores. Hoje se fala muito, e com razão, do vazio de valores, porém muitas vezes não se chega a compreender que no fundo esse vazio provém da ausência de Deus. Quando o homem perde a Deus, quando o desconhece como valor supremo, tampouco alcança a compreensão de que os valores nada são senão bens particulares que somente têm consistência em relação a Ele.

O sentido da vida e da missão enquadram assim o tema dos valores enquanto que estes são bens parciais que encontram em Deus, bem supremo, seu ponto de referência e seu fundamento final. Poderíamos definir os valores como os diversos bens objetivos aos quais o homem aspira e que o aperfeiçoam como tal.

Ainda que sem deter-me agora profundamente, posto que isso iria muito mais além do propósito desta conversação epistolar convosco, desejaria fazer uma breve referência ao debate em curso entre os moralistas e pensadores católicos sobre a conveniência do uso do termo valor. Efetivamente, não são poucos os que asseguram que o termo valor  é ajeno à grande tradição cristã e que seu uso implica a aceitação implícita de uma ética relativista. Em seu lugar propunham o retorno ao uso generalizado do termo virtude.

É certo que o abandono de um termo como o da virtude, tão arraigado na grande tradição filosófica e teológica da Igreja, seria lamentável e que devemos promover com força seu renovado uso. Porém, isso não implica deixar de lado o uso, também legítimo, do termo valor, se por ele entendemos, como nós o fazemos, um bem objetivo que a pessoa não cria por si mesma, senão que mais bem reconhece ou descobre na realidade.

O termo valor, assim entendido, evita o perigo do relativismo e ao mesmo tempo se recupera o uso de uma palavra que – se bem que sem dúvida, como tantas outras de tipo ético pode ser manipulada - penetrou já profundamente na cultura contemporânea.

O mesmo Santo Padre, em diversas encíclicas e discursos, tem mostrado como é possível dar a um dito termo um sentido apropriado, reivindicando deste modo o uso do termo valor dentro do âmbito da ética cristã.

Os valores se referem a todas ls dimensões humanas: à esfera sensitiva e biológica, à esfera econômica e social, à esfera propriamente espiritual, e à esfera moral e religiosa. Dado que estas dimensões, ainda sendo todas elas partes integrantes e constitutivas do homem, não o são de um mesmo modo, senão que há nelas uma ordem, é possível classificar os valores, hierarquizando-os segundo sua importância.

No nível inferior, se encontram os valores materiais, dons do Criador que há que serem recebidos com coração agradecido. O Pai sabe que de todos esses bens temos necessidade (cf. Mt 6. 32). Porém existe o risco de se atribular excessivamente para obtê-los, como se de eles dependesse exclusivamente a felicidade. Cristo admoestou com clareza aos seus sobre este perigo e numa sociedade como a nossa que tende ao consumismo, sempre é útil escutar a admoestação evangélica ao homem que se dedicou em acumular bens sem pensar na salvação de sua alma: «Nécio, esta noite te será pedida a alma. E tudo aquilo que hás acumulado, para quem será? Assim será de quem acumula tesouros para si e não se enriquece ante Deus» (Lc 12, 20-21). Apreciando em sua justa medida estes valores, temos sem dúvida de recordar que a felicidade não provém do possuir mais coisas, senão da bondade do coração, de uma consciência em paz consigo mesmo, com os demais e com Deus. Outro valor fundamental é o da vida humana desde sua concepção até sua morte.

A vida tem um caráter sagrado, e somente Deus, que a dado, detém o direito absoluto sobre ela. Há que se defender a vida nos momentos em que mostra mais desprotegida: a vida inocente que se desenvolve no seio materno, e a vida que se apaga por uma enfermidade grave ou de modo natural. A Igreja tem empenhado toda sua força moral e espiritual na defesa do valor da vida humana, combatendo energicamente o aborto e a eutanásia como crimes abomináveis contra a humanidade.

Sei que muitos dos participantes neste encuentro estão comprometidos pessoalmente na luta em favor da vida. Os animo a seguir com espírito firme nesta batalha para que as autoridades civis e a sociedade inteira reconheçam este valor fundamental, que é ao mesmo tempo um direito inalienável da pessoa humana, cuja negação é um sinal de barbárie e de perfídia do sentido da sacralidade e da dignidade do ser humano.

Porém recordem que a mudança que se possa produzir na legislação, sempre há de vir precedida e será conseqüência da mudança do coração e da consciência dos homens. Os valores biológicos e psicológicos se referem à perfeição do corpo e da mente. Um valor humano induvidável é o cuidado prudente da própria saúde corporal.

O corpo é um grande dom que Deus nos deu e não o podemos menosprezar. Tamiém é importante para o homem a higiene mental, buscando uma vida equilibrada, aonde não falte o exercício corporal, e se favoreça a sã psicologia, seguindo aquele ideal clássico de mens sana in corpore sano.

Os valores da inteligência (a claridade e profundidade de pensamento, a penetração intelectual, a força rigorosa na argumentação lógica, a busca sincera da verdade, etc.) aperfeiçoam o homem enquanto ser dotado de razão. Os valores da vontade (a força e solidez de caráter, o domínio das paixões e instintos, a constância nas determinações e propósitos, a energia na decisão, etc.) desempenham um papel determinante na construção do homem maduro e responsável. Os valores estéticos
ou artísticos nos ajudam a captar a beleza ou a produzi-la por meio de obras de arte.

Seguindo a ascensão nesta escala se encontram os valores morais. O valor moral aperfeiçoa o homem não  somente numa de suas faculdades, senão à pessoa como um todo. É aquele que tem que ver diretamente com a bondade ou a maldade dos atos humanos. O valor moral está estreitamente relacionado com a virtude, termo, como havemos dito, usado pela grande tradição cristã e que conserva na atualidade toda sua validade. Sem dúvida, há uma pequena diferença de matizes entre virtudes e valores.

A virtude é um hábito pelo qual o homem orienta seu comportamento de modo constante e fiel até a realização do bem. Além do que, os valores são os bens objetivos até os que tende ao homem virtuoso. Por isso, se pode dizer que quem pratica a virtude busca e realiza em sua vida os valores morais.

Os valores morais englobam uma ampla gama de atitudes que regulam o comportamento da pessoa em relação a si mesma: a responsabilidade, a laboriosidade, a autenticidade e a coêrencia de vida, a sinceridade, etc. ou em relação as demais: a amizade, a amabilidade, a compreensão, a paciência, a capacidade de trato e de relações humanas, o cavalherismo, a gratidão, os bons modos, a nobreza e fidelidade à palavra dada, a compaixão, a gratidão, o perdão, a magnanimidade, a hospitalidade e a acolhida, a nobreza de caráter, a busca do bem comum, a responsabilidade social, a justiça, a solidariedade, etc.

Uma importância especial assumem em nosso tempo os valores familiares, porque a família é antes de tudo escola dos valores mais genuínos e autênticos. Falamos da família fundada sobre a aliança matrimonial, una e indissolúvel, do varão e da mulher, que se abre com gratidão ao dom dos filhos, como o fruto mais precioso do dom sincero de si que fazem os esposos. A família assim entendida constitui uma verdadeira comunhão de pessoas, cujo princípio interior, sua força permanente e sua última meta é o amor. Este é o único modelo de família cristã. Os outros modelos, que por desgraça querem tratar em impor com crescente força numa sociedade permissivista como a atual, não são conformes à lei natural nem à evangélica. Para eles, a Igreja os há reprovado sempre com o máximo vigor.

Dentro da família, o ser humano recebe a vida como um dom que lhe é dado de modo gratuito, aprende a amar e a ser amado, a compreender e ser compreendido, a ajudar e ser ajudado. A relação de amor e de amizade que se instala entre os esposos, e entre estes com os filhos, vai criando todo um clima propício para o desenvolvimento da personalidade, para o amadurecimento humano e cristão. Por isso, João Paulo II afirma na encíclica Familiaris Consortio que a família é «um bem precioso» para a humanidade e para a Igreja (n. 3), cuja grande tarefa é a de custodiar, revelar e comunicar o amor. A família está essencialmente orientada até o amor recíproco das pessoas, até o dom sincero de si mesmos, superando os egoísmos e os pontos de vista pessoais.

Por esse valor, se define a família como «comunhão de pessoas»; uma comunhão que é indissolúvel no amor esponsal, que se sustém na mútua fidelidade conjugal e que está posta ao serviço da vida segundo os desígnios de Deus. Por desgraça, os numerosos ataques de que é objeto a instituição familiar em nossos dias têm causado a desagregação de muitas famílias com os sofrimentos morais tão profundos que isso implica para seus membros. São propostos novos modelos substitutivos da família ou inclusive alguns irão agorar sua desaparição.

É preciso, hoje mais que nunca, defender a unidade e a beleza da família, como um valor precioso para a sociedade e para os indivíduos. A defesa da família há de ser feita antes de tudo através do testemunho de famílias unidas, onde se viva a autêntica comunhão, se apreciem os autênticos valores humanos e cristãos, os esposos se amem sacrificada e fielmente, e todos os membros se nutram de um mesmo amor. Deste modo, as famílias serão escolas vivas de valores onde se forjem os homens e cristãos maduros de amanhã. Tudo o que se faça em favor das famílias será pouco, pois elas são as colunas que fundamentam essa civilização do amor da qual falava o Papa Paulo VI.

Finalmente, no topo da escala de valores, encontramos os valores religiosos que concernem e regulam as relações do homem com Deus, o fundamento de todos os demais valores.

(Continua…)


Leave a comment

Valores morais e cristãos – Somente Deus dá sentido a vida (III)

Traduzimos esta carta do saudoso Pe. Marcial Maciel destinada aos Legionários de Cristo no encontro realizado na cidade de St. Louis, no período de 23 a 25 de maio de 1997. O texto completo foi dividido em dez partes a serem publicadas a cada semana. Há dez anos atrás, o chamado era o mesmo e os temas abordados remetem aos valores morais e evangélicos.

Seu texto afirma que ao início do cristianismo houve um punhado de homens e mulheres que creram na força transformadora dos valores do Evangelho e que souberam levá-los à vida penetrando desta maneira no mundo.

Boa leitura!

………………………………………………………………………………………………………………………………………………………

Por Pe. Marcial Maciel L.C.

 

(Continuação…

A pergunta pelo sentido da vida, vem associada normalmente a outros porquês: “Por que morrer?”; “Por que o mal?”; “Por que a dor e o sofrimento?” Em minhas sinceras reflexões de ”rapaz da roça“, eu também concebia durante minha adolescência essas perguntas fundamentais sobre a vida e a morte, sobre a dor e o sofrimento, sobre a felicidade e a eternidade.

Naquelas ocasiões não podia encontrar a solucão do enigma da vida nem em mim mesmo, nem em meus pais que a haviam transmitido para mim, nem nos homens e mulheres que como eu estavam destinados a passar, nem nas coisas belas deste mundo que tambem apareciam como transitórias e caducas. Somente via com nitidez uma solução possível e radiante para o problema da vida, que me enchia o coração de um gozo inexplicável. 

Na origem de minha vida encontrava a presença de um amor sobreabundante e poderoso, um amor capaz de me criar do nada e de me chamar à existência; do amor único e incomparável de Deus, meu Criador. E ao final de minha vida via também o rosto do Pai que me acolhia com os braços abertos depois do peregrinar terreno. E se Deus era o sentido de minha vida, o único modo seguro de construí-la era vivê-la junto a Ele, face a face com Ele, em sua presença e em seu amor. Ele haveria de ser meu grande ideal. Por Ele a vida merecia a pena ser vivida.

Ele dava sentido ao sofrimento, a dor, aos dessabores, as incompreensões, as trevas, a solidão, a amargura. Ele seria o grande tesouro pelo qual valia a pena vender tudo a fim de cumprir sua vontade.

Eu sei pela fé que meu sincero raciocínio de adolescente estava sustentado pela ação do Espírito Santo. Desde então, decidi me apegar a Deus como o tesouro de maior valia, me atar a Ele como base e fundamento de todo outro valor e dedicar minha vida a compartilhar com os demais esta verdade que enchia de gozo minha alma. Me entristece profundamente contemplar como, por diversas causas, outros homens não têm chegado a esta conclusão, por outra parte tão lógica e contundente, e vivem absorvidos no desespero ou na amargura, constriendo a esmo sua existência. Encontrando em Deus o valor supremo de minha vida, pronto me dei conta de que minha vida cobrava pleno sentido no cumprimento de sua vontade, na realização daquilo que Ele tinha planejado para mim desde a eternidade e para o que me havia criado.

Assim a vida me foi apresentada como uma apaixonante missão por realizar. Merecia a pena inverter todo o esforço e a energia que foram necessárias para levá-la a cabo, para dizer ao final dela, como Jesus Cristo: «Tudo foi cumprido» (Jn 19, 30) ou, como São Paulo: «Combati o bom combate, cheguei a meta, conservei a fé» (2 Tm 4, 7).

Muito me ajudou a meditação da parábola dos talentos (cf. Mt 25, 14-30) para considerar que a vida se apresenta como uma missão por realizar, de cujo cumprimento Deus nos pedirá contas ao final de nossa jornada terrestre; que o triunfo é dado pela realização do projeto de vida que Ele nos sinaliza: triunfa quem cumpre por amor a missão confiada; fracassa quem administra de modo negligente, preguiçoso ou inconsciente os dons que Deus lhe outorgou.

(Continua…


Leave a comment