Sunday, 20 of May of 2012

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A verdadeira liberdade

 

Por Jacques Philippe

A verdadeira liberdade, mais do que uma conquista do homem, é um dom gratuito de Deus, fruto do Espírito Santo: um dom que recebemos na medida em que nos colocamos numa posição de amorosa dependência perante o nosso Criador e Salvador. A nossa liberdade é de fato proporcional ao amor e à confiança que nos unem ao nosso Pai do Céu.

PRISIONEIROS DAS NOSSAS PRÓPRIAS CIRCUNSTÂNCIAS

É muito comum termos a impressão de que o que limita a nossa liberdade são as circunstâncias que nos envolvem: as restrições que a sociedade nos impõe, as obrigações de todo tipo que os outros fazem pesar sobre nós, aquela limitação psíquica ou de saúde que nos trava, etc.

Nesse caso, para encontrarmos a nossa liberdade seria preciso eliminar essas restrições e limitações. Quando sentimo-nos um pouco “sufocados” por certas circunstâncias que nos aprisionam, passamos a ter raiva das pessoas ou instituições que parecem ter sido a causa delas. Quantos ressentimentos guardamos assim contra tudo o que nos contraria na vida e impede-nos de sermos livres como desejaríamos!

DE LIMITE EM LIMITE

Essa maneira de ver as coisas tem com certeza alguma parte de verdade: existem certas limitações que é preciso superar, barreiras que é preciso transpor para conseguir a liberdade. Mas há também uma parte grande de ilusão que é necessário desmascarar: mesmo que desaparecessem da nossa vida todas aquelas coisas que consideramos impedimentos à nossa liberdade, isso não nos daria nenhuma garantia de encontrar a plena liberdade à qual aspiramos.

Quando derrubamos os limites, encontramos outros um pouco mais adiante. Quem insiste nessa problemática corre o risco de entrar num processo sem fim e numa insatisfação permanente. Sempre iremos nos deparar com contrariedades dolorosas. Podemos libertar-nos de um certo número delas, mas depois aparecem outras mais inflexíveis: as leis da física, os limites da condição humana e os da vida em sociedade, etc.

“AMAR ATÉ MORRER DE AMOR”

A verdadeira liberdade, a soberana liberdade do crente, consiste em sempre ter, sob quaisquer circunstâncias, a possibilidade de crer, de esperar e de amar. Disso ninguém poderá jamais o impedir: Nem a morte, nem a vida, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem criatura alguma poderá separar-nos do amor de Deus que se manifesta em Cristo Jesus, Nosso Senhor (Rom 8, 39).

Nenhuma circunstância do mundo poderá jamais me proibir de crer em Deus, de pôr nEle toda a minha confiança, de amá-lo de todo o coração e de amar o meu próximo. A Fé, a Esperança e a Caridade são soberanamente livres: se estiverem suficientemente enraizadas em nós, serão capazes de alimentar-se até mesmo daquilo que se opõe a elas!

Se pela perseguição quiserem impedir-me de amar, sempre tenho a possibilidade de perdoar os meus inimigos, transformando assim a situação de opressão num amor maior ainda. Se quiserem sufocar a minha fé tirando-me a vida, a minha morte tornar-se-á a mais bela confissão de fé que se pode conceber! O amor é capaz de vencer o mal com o bem, de tirar de um mal um bem.

ACEITAR A REALIDADE

O exercício da liberdade como escolha entre diferentes possibilidades é certamente importante. Contudo, é fundamental que se entenda – sob pena de expor-se a dolorosas desilusões – que há uma outra maneira de exercer a liberdade, menos grandiosa à primeira vista, mais pobre, mais humilde, mais corriqueira afinal, e que é de uma fecundidade humana e espiritual imensa: a liberdade não somente de escolher, mas de também aceitar aquilo que nós não tínhamos escolhido.

Desejaria mostrar o quanto essa forma de exercitar a liberdade é importante. O ato mais alto e mais fecundo da liberdade humana reside mais no acolhimento do que na dominação. O homem manifesta a grandeza da sua liberdade quando transforma a realidade, mas manifesta-a ainda mais quando aceita, confiante, essa mesma realidade – tal e qual ela lhe é dada – dia após dia.

É fácil e natural aceitar as situações que se apresentam na nossa vida com um aspecto agradável e prazenteiro, mesmo que nós não as tenhamos escolhido. O problema surge, evidentemente, em face do que nos desagrada, que nos contraria, que nos faz sofrer. Mas é precisamente nesses domínios em que somos freqüentemente chamados – para sermos verdadeiramente livres – a “escolher” aquilo que não tínhamos querido, e às vezes até mesmo aquilo que não aceitaríamos por preço nenhum. Eis uma lei paradoxal da vida: só poderemos ser verdadeiramente livres se aceitarmos não sê-lo sempre!

O PEQUENO RESTO

O homem livre – o cristão espiritualmente “maduro”, isto é, o que age verdadeiramente como um “filho pequeno” de Deus – é aquele que experimentou a radicalidade do seu próprio nada, a sua miséria absoluta, aquele que, por assim dizer, ficou “reduzido a nada”, mas que no meio desse nada descobre uma ternura inefável: o amor absolutamente incondicional de Deus. A partir desse instante não haverá para ele nenhum outro apoio, nenhuma outra esperança além desta: a misericórdia sem limites do Pai. Essa será a sua única e exclusiva segurança.

Ele espera tudo dessa misericórdia e somente dela: não mais dos seus recursos pessoais nem da ajuda dos outros. Realizam-se nele as palavras que Deus dirigiu a Israel pela boca do profeta Sofonias: Deixarei subsistir no meio de ti um povo humilde e modesto, que porá sua confiança no nome do Senhor. Os que pertençam a esse resto de Israel se absterão do mal (…) serão apascentados e repousarão, sem haver quem os inquiete (Sof 3, 12-13). Ele esforça-se generosamente por fazer o bem e recebe com alegria e reconhecimento todas as coisas boas que lhe vêm do próximo, mas com uma grande liberdade, pois o seu apoio está em outro lugar: está somente em Deus.

Ele não se inquieta, portanto, por causa das suas fraquezas, nem se irrita com os outros por eles nem sempre corresponderem ao que esperava deles. O seu apoio em Deus protege-o contra todas as decepções e confere-lhe uma grande liberdade interior, que o leva a dedicar-se por inteiro ao serviço de Deus e dos seus irmãos, os homens, com a alegria de quem está devolvendo amor por amor.

O POBRE DAS BEM-AVENTURANÇAS

O nosso mundo anda a busca da liberdade, mas procura-a na acumulação de posses e de poder. Esquece-se dessa verdade essencial: só é verdadeiramente livre quem não tem nada a perder, porque já se desprendeu de tudo, despojou-se de tudo, e por isso está livre em relação a todos (1 Cor 9, 19): dele pode-se dizer de verdade que deixou a morte “atrás de si”, pois todo o seu bem passou a estar somente em Deus.

Os que nada cobiçam e os que nada temem são soberanamente livres. Quem nada cobiça, porque tudo o que é verdadeiramente importante já lhe está assegurado por Deus; quem nada teme, porque nada tem a perder: não precisa proteger coisa alguma nem se sente ameaçado por ninguém, mesmo pelos seus inimigos. Ele é o pobre das Bem-aventuranças: desprendido, humilde, misericordioso, manso, artífice da paz.

A LIBERDADE INALIENÁVEL

Na parte central do Evangelho estão as Bem-aventuranças. A primeira resume todas elas: Felizes os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus (Mt 5, 3). A pobreza de espírito, a dependência total de Deus e da sua Misericórdia, é a condição da liberdade interior. É ela que nos faz ser como as crianças, e tudo esperar do Pai.

Não sabemos o que virá sobre o mundo nos próximos anos; quais serão os acontecimentos que marcarão o terceiro milênio. Mas uma coisa é certa: nunca serão pegos de surpresa aqueles que souberem descobrir e desenvolver o espaço inalienável de liberdade que Deus depositou nos seus corações ao fazer deles seus filhos.


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“Grito o meu amor à liberdade pessoal”

Liberdade de consciência: não! Quantos males trouxe aos povos e às pessoas este erro lamentável, que permite agir contra os ditames íntimos da própria consciência! Liberdade "das consciências", sim: que significa o dever de seguir esse imperativo interior… Ah, mas depois de se ter recebido uma séria formação! (Sulco, 389)

Quando, ao longo dos meus anos de sacerdócio, não direi que prego, mas grito o meu amor à liberdade pessoal, noto em alguns um gesto de desconfiança, como se suspeitassem que a defesa da liberdade traz no seu bojo um perigo para a fé. Tranqüilizem-se esses pusilânimes. Só atenta contra a fé uma interpretação errônea da liberdade, uma liberdade sem qualquer fim, sem norma objetiva, sem lei, sem responsabilidade. Numa palavra: a libertinagem. Desgraçadamente, é isso o que alguns propugnam. Essa reivindicação, sim, constitui um atentado contra a fé.

Por isso não é correto falar de liberdade de consciência, que equivale a considerar como de boa categoria moral a atitude do homem que rejeita a Deus. Recordamos atrás que podemos opor-nos aos desígnios salvíficos do Senhor; podemos, mas não devemos fazê-lo. E se alguém assumisse essa posição deliberadamente, pecaria, porque estaria transgredindo o primeiro e o mais fundamental dos mandamentos: Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração (Dt, VI, 5).

Eu defendo com todas as minhas forças a liberdade das consciências (Leão XIII, Enc.Libertas praestantissimum, 20-VI-l888, ASS 20 (1888), 606), que denota não ser lícito a ninguém impedir que a criatura preste culto a Deus. É preciso respeitar as legítimas ânsias de verdade; o homem tem obrigação grave de procurar o Senhor, de conhecê-lo e adorá-lo, mas ninguém na terra deve permitir-se impor ao próximo a prática de uma fé que este não possui; assim como ninguém pode arrogar-se o direito de maltratar quem a recebeu de Deus.

A nossa Santa Mãe a Igreja pronunciou-se sempre pela liberdade e rejeitou todos os fatalismos, antigos e menos antigos. Esclareceu que cada alma é dona do seu destino, para bem ou para mal: E os que não se afastaram do bem irão para a vida eterna; os que praticaram o mal, para o fogo eterno. (Amigos de Deus, 32-33)

Fonte: Opus Dei.


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Liberdade IV: Como conquistar a liberdade.

Para ser “capaz”

No texto «Liberdade: I» – que se encontra neste site -, mencionavam-se três doenças da liberdade:

1) A falta de conhecimento, de lucidez. Pensamos mal e, por isso, escolhemos mal (Ver «Liberdade: II»).

2) Mesmo pensando bem, quando chega a hora de “fazer o que queremos” (o que é bom, o que verdadeiramente nos vai realizar), não “podemos”, devido à nossa fraqueza, às amarras do egoísmo que nos escravizam (Ver «Liberdade: III»).

3) Em terceiro lugar, pode suceder que, mesmo tendo começado a fazer o que decidimos livremente, porque é bom, porque é mesmo o melhor, não sejamos capazes de chegar até ao final, porque nos faltam as forças necessárias.

Vamos agora meditar sobre essa terceira doença da liberdade: a falta de perseverança. Começaremos, para isso, com um comentário, cheio de admiração, que talvez nos escape, às vezes, ao falar sobre uma pessoa que muito admiramos:

- Que maravilha, Fulano, é genial! Ele tem um domínio! Ele faz o que quer!

É um tipo de comentário que é fácil ouvir quando conversamos sobre a apresentação de um artista excepcional: músico, ator, cantor…, ou de um jogador de futebol fora de série.

Pensemos agora, por exemplo, num grande pianista. Começa a interpretar uma peça de Mozart, e os seus dedos voam, deslizam, dançam, correm, acariciam as teclas, desenvolvem movimentos quase angélicos por cima do teclado, dando uma sensação de facilidade absoluta. Realmente, esse pianista faz o que quer, domina, com absoluta liberdade, segurança, arte e graça, o instrumento musical.

Deve possuir, sem dúvida, a faísca do gênio. Com certeza, está dotado de uma sensibilidade especial para a música, tem uma facilidade particular para captar-lhe os segredos. Mas todas essas predisposições naturais de nada lhe serviriam se não tivesse dedicado, ao longo de anos sem fim – com um preparo duro e infatigável -, horas e mais horas ao estudo da música, ao aprendizado, aos exercícios de solfejo, de piano, ao aprimoramento constante da sua arte. O esforço deu-lhe a facilidade de um hábito adquirido, e esse hábito bom – que continua cultivando sem parar – dá-lhe a liberdade de tocar “como quer”. É um “virtuose” (palavra muito sugestiva do que diremos a seguir).

Do piano às virtudes

Algo de semelhante acontece com a nossa conduta. Somente nos tornamos capazes de fazer livremente o bem que desejaríamos quando – além de pedir a ajuda de Deus – vamos adquirindo os hábitos bons que se chamam virtudes – as virtudes humanas – mediante o esforço, o exercício voluntário e constante: tentando, insistindo, aprendendo, corrigindo.

«A virtude – lemos no Catecismo da Igreja Católica – é uma disposição habitual e firme para fazer o bem. Permite à pessoa não só praticar atos bons, mas dar o melhor de si mesma [...]. Pessoa virtuosa é aquela que livremente pratica o bem» (nn. 1803-1804).

Quantas vezes muitos de nós, ao admirarmos as virtudes dos outros, não comentamos, com um suspiro de tristeza: “Eu não seria capaz!” Louvamos, por exemplo, a alegria e a serenidade e otimismo com que um pai, que passa por uma grave tribulação profissional, se comporta com a família; ou elogiamos a paciência de uma mãe; ou a abnegação de um rapaz órfão de pai, que estuda à noite, trabalha o dia inteiro e carrega sem protestos todo o peso familiar. “Eu não seria capaz!”

Por que não seríamos capazes? Não é, certamente, por falta de condições básicas. Para sermos um pianista exímio, um grande ator, um pintor excepcional ou o melhor futebolista do mundo, sim, seria preciso que estivéssemos dotados, que tivéssemos condições especiais. Mas, para adquirirmos as virtudes (prudência, sinceridade, coragem, paciência, perseverança, amizade, ordem, fortaleza, sobriedade, castidade, mansidão, etc., etc.), basta-nos ser humanos.

Quem é um ser humano e, portanto, tem alma, possui a inteligência e a vontade: só com isso, já está dotado das condições básicas suficientes para adquirir todas as virtudes humanas. Algumas delas poderão custar-lhe mais do que a outras pessoas, mas nenhuma cairá fora das suas possibilidades. E, se quiser, ajudado pela graça divina, acabará por conquistá-las. E, então, tornar-se-á capaz.

Não vemos, com isso, a importância da educação nas virtudes, do aprendizado das virtudes, do exercício das virtudes? É um fato lamentável que hoje, à diferença de outras épocas, pouca importância se dá, nos lares e na escola, à formação das virtudes. Parece que basta fornecer uma educação que capacite para exercer uma profissão e ganhar dinheiro. E a personalidade de muitos jovens vai ficando assim imatura e informe – não formada -, justamente porque lhes falta o que forja o caráter: as virtudes.

Chega, depois, o momento da luta pela vida, a hora de constituir uma família e de levar avante as responsabilidades profissionais e sociais, e aquele rapaz ou aquela moça, mesmo tendo um expediente universitário brilhante, encontram-se perante a “ciência da vida” como analfabetos, como combatentes desarmados. Não podem, não conseguem, não são capazes de suportar os sacrifícios e os sofrimentos normais da vida; de dar a volta por cima dos fracassos; de conviver e de colaborar no trabalho com pessoas difíceis… Não “podem” porque tudo isso só se consegue com as virtudes; e eles, ou não as têm, infelizmente, ou as têm tão fracas que se esfarelam ao primeiro choque.

A luta pelas virtudes

Convençamo-nos de que, sem as virtudes, estamos condenados a ser os náufragos da vida, que tentam sustentar-se nas águas do mundo e avançar rumo à terra firme sem jamais consegui-lo. As pessoas afundam-se quando lhes falta esse domínio, essa autêntica liberdade, que só as virtudes podem dar.

É muito importante, por isso, compreender que as virtudes, como ensina o Catecismo da Igreja Católica, só se adquirem «pela educação, por atos deliberados e por uma perseverança retomada com esforço» (n. 1810).

Não vamos entrar agora aqui numa reflexão detalhada sobre as virtudes, mas poderá ser útil que façamos um bom exame de consciência sobre três pontos:

1) Procuro educar-me nas virtudes humanas e cristãs? Sei o que são e como se deve lutar – passo a passo – para consegui-las? Faço leituras que me proporcionem as idéias e a formação necessária para isso? Detecto claramente os meus defeitos, as minhas falhas na prática das virtudes? Procuro aconselhamento espiritual que me ajude a “ver” e “lutar”?

2) Proponho-me, com atos deliberados – ou seja, com resoluções concretas, definidas, conscientes – realizar todos os dias algum esforço para conseguir ou para melhorar alguma virtude? Faço um exame do dia, antes de dormir, para ver como lutei, como tentei levar à prática as minhas resoluções, e programar uma retomada da luta para o dia seguinte?

3) Apesar das dificuldades que possam surgir, persevero nesse esforço de conquista e cultivo das virtudes humanas e cristãs, sem me cansar, sem desistir, sem desanimar, procurando apoio e forças em Deus – na oração, na Confissão, na Comunhão -, sabendo que Ele está sempre disposto a me ajudar, a lutar comigo?

Este é o caminho dos autênticos. Diria – ainda que seja redundância -, dos verdadeiros autênticos. Sem isso, a nossa liberdade não passa de teoria, de palavra vazia. E Deus nos chama para um grande ideal, não para uma “conversa fiada”.

[Adapt
ação de um trecho do livro de F.Faus, Autenticidade & Cia]


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Liberdade III: A liberdade algemada.

Querer e não poder

«O Amor de Deus marca o caminho da verdade, da justiça e do bem. Quando nos decidimos a responder ao Senhor: A minha liberdade para Ti, ficamos livres de todas as cadeias que nos haviam atado a coisas sem importância, a preocupações ridículas, a ambições mesquinhas. E a liberdade – tesouro incalculável, pérola preciosa que seria triste lançar aos animais – emprega-se inteira em aprender a fazer o bem. Esta é a liberdade gloriosa dos filhos de Deus» ( Amigos de Deus, n. 38).

Essas palavras de São Josemaria Escrivá, com as quais terminávamos o comentário de «Liberdade:II- Há liberdade sem verdade?», fazem lembrar um conhecido episódio das Viagens de Gulliver, que nos introduzirá na reflexão sobre outra doença da liberdade (Ver «Liberdade: I- Entender a liberdade»).

O protagonista do famoso romance de Jonathan Swift, após ter naufragado nos mares do Sul, arriba a nado a uma terra desconhecida. Exausto, deita-se na relva e, passadas nove horas, ao acordar – como ele mesmo narra – «tentei levantar-me, mas em vão o fiz. Vi-me deitado de costas, notando também que as pernas e os braços estavam presos ao chão, assim como os cabelos. Observei então que muitos cordões delgadíssimos me rodeavam o corpo, dos sovacos às coxas. Só podia olhar para cima».

Não tardou em descobrir que, enquanto dormia, os minúsculos habitantes daquele país, a terra de Líliput, o haviam amarrado com finíssimos, mas sólidos cordões a uma multidão de estacas fincadas na terra. Mesmo fazendo força, não podia libertar-se.

Gulliver amarrado em Líliput é todo um símbolo. Pois é o verdadeiro retrato de muitos rapazes e moças – e adultos! -, que se julgam livres porque não estão mais condicionados ou amarrados por papai, por mamãe nem por ninguém, mas que, na realidade, estão presos por inúmeros fios que eles mesmos fabricaram.

Esses falsos-livres, enquanto se ufanam da sua total independência de idéias e de movimentos, não percebem que centenas de “liliputianos” invisíveis, nascidos da sua falta de caráter, lhes estão amarrando, dia após dia, a cabeça, o coração e a vontade. Parecem livres – libérrimos -, mas são prisioneiros, porque estão atados pelas cordas das suas fraquezas, vícios e defeitos.

Cabeça “presa”

Começam por ter a cabeça presa, porque as poucas idéias que possuem estão acorrentadas às modas, ao que está em voga no ambiente, ao que pensa a cabeça dos outros. – É moda fumar maconha? – Ele fuma. – É moda beber nas festas até cair no chão? – Ela se embriaga. – É moda rir da religião? – Ele ri. – É moda acreditar na reencarnação? – Ela acredita. – É moda o rock satânico? – Ele blasfema e faz que adora Lúcifer. – É moda ir praticamente sem roupa? – Ela vai. A moda os escravizou, a ele e a ela, e são incapazes de pensar e agir com liberdade.

Esses subprodutos do ambiente, essas cabeças de fantoche, movidas pelos cordéis do meio ambiente, não são livres.

Como também não são livres os cristãos sem doutrina, que desconhecem até o catecismo elementar das criancinhas e nem sabem que os Evangelhos são quatro e, no entanto, pontificam com arrogância sobre temas de religião e Igreja, sem perceber que estão algemados pela sua ignorância.

Falta-lhes a todos, como facilmente se percebe, o que é a base primordial do ato livre: a razão madura, o conhecimento da verdade (Ver«Liberdade: -II).

Vontade e coração “presos”

Mas há também outros “liliputianos” invisíveis – defeitos nossos, igualmente – que amarram a vontade e o coração. Para pôr um exemplo corriqueiro, comum, não é raro que alguns digam: “Eu faço o que quero. Acordo quando quiser, não quero que me batam à porta, não me venham com bitolações de pontualidade e horas certinhas de acordar”. Dizem isso e não reparam que um “liliputiano” chamado preguiça já há muito tempo que os tem amarrados com cordões de aço, de maneira que seriam mais sinceros se dissessem: “Eu só consigo acordar quando a preguiça me dá licença; ela me mantém prisioneiro, escraviza-me, não posso acordar quando a inteligência me indica que deveria fazê-lo, nem quando a vontade desejaria; só quando a preguiça consente”.

A mesma coisa poderia dizer-se de inúmeras “liberdades” de que jovens e velhos se gabam. “Liberdade sexual! Nada de restrições moralistas!” – “Liberdade? – poderíamos retrucar -. Seja sincero. Você está tão dominado pelo egoísmo sexual como outros o estão pela droga. Você não é livre! Você é uma pobre marionete dos seus instintos e das suas paixões! Não faz o que quer, mas o que não consegue deixar de fazer. Faz tempo que já não é dono do seu sexo, mas seu escravo”.

Tal outra pessoa é escrava da gula: nunca consegue fazer o regime de alimentação que lhe convém, nem é capaz de deixar de beliscar um prato na copa, nem de assaltar a geladeira fora de horas, nem de comprar constantemente chocolate, balas, chiclete, biscoitos, sorvete por quilo, etc., etc.

Uma outra pessoa – pode ser a mesma, pois não há muitos especialistas de um só vício – nunca chega pontualmente a nada. Atrasa-se na escola, atrasa-se no trabalho, atrasa-se no médico, atrasa-se na excursão, atrasa-se na visita à casa do amigo ou da amiga; atrasa o estudo, atrasa as tarefas, atrasa pôr em ordem os documentos… Uns “liliputianos” chamados moleza e desordem (irmãos gêmeos da preguiça) a trazem dominada e a puxam pela coleira como se fosse um cachorrinho.

Tal outra pessoa está dominada pela vaidade. Não consegue agir livremente, com simplicidade. Tudo nela é artificial, “dependente” do que os outros vão pensar, vão comentar entre si, vão criticar. É escrava da “imagem” que quer apresentar aos outros. E essa enervante dependência acaba sendo como que um choque elétrico constante, que lhe paralisa a liberdade.

Tal outra pessoa – último exemplo – está tão voltada para si mesma, tão apegada aos seus planos, que não consegue sair deles para ajudar a quem lhe pede uma mão, para gastar um tempo cuidando de um doente em casa, para prestar um serviço necessário aos colegas. Fechada em si mesma, amarrada pelo “eu”, deixou de ser livre para amar.

Os exemplos poderiam multiplicar-se até ao infinito. Tentemos examinar-nos sinceramente a nós mesmos, procurando descobrir que cordões nos amarram. Veremos tantos! Descobriremos que estamos envolvidos por uma malha, uma teia, espessa e pegajosa, tecida por uma aranha chamada egoísmo, que é preciso romper.

“A liberdade – diz o Papa João Paulo II – necessita de ser libertada” (Encíclica Veritatis splendor, n. 86). Para sermos livres, precisamos cortar as amarras. E a tesoura que corta os fios chama-se mortificação.

Cortando os Fios

Víamos que a teia de fios finos e fortes que nos envolve é tecida, no fim das contas, pela aranha do nosso egoísmo, com seus múltiplos tentáculos. A única maneira de vencermos o egoísmo é dizer-lhe não.

Sem a negação dos impulsos egoístas, não pode haver afirmação da bondade e do amor que, livremente, nós desejamos. Sem o esforço e o treinamento da mortificação – do autodomínio, praticado com renúncias e sacrifícios -, poderemos querer, mas não vamos poder fazer.

Mais uma vez fica claro que a atitude autêntica não é a do “espontaneísmo” – ir tocando a vida, sem negar nada aos impulsos, desejos e caprichos -, mas a do ideal na cabeça, secundado por uma vontade libertada de
amarras (Ver «Liberdade -II»).

Mortificação, sim. Mas, qual? São necessárias muitas, em geral: mortificações pequenas e constantes. Por exemplo:

* Dizer não a detalhes de gula: mais esse chocolate, não; mais esse copo de cerveja, não!

* Dizer não à preguiça que nos faz atrasar, com desculpas esfarrapadas, um dever ou um compromisso (profissional, religioso, familiar), ou nos sugere levantar-nos da mesa de trabalho antes de termos terminado o estudo ou a tarefa começada.

* Dizer não ao egoísmo que nos leva a fazer-nos de surdos quando o pai, a mãe, um irmão, um colega, um amigo, precisam da nossa colaboração.

* Dizer não ao amor-próprio que ferve, querendo retrucar com ira a uma indelicadeza, ou que não quer desistir de uma pequena vingança.

* Dizer não à tentação de sensualidade egoísta, que quer olhar todas as baixarias – nas bancas de jornal, na televisão, na Internet -, que só nos degradam.

* Dizer não à vontade de mexericar, de criticar, de meter a colher numa conversa onde se fala mal dos outros.

* E muitos outros não, que devemos ter a coragem de dizer a tudo aquilo que é falso e errado, para poder dizer sim ao bem e à verdade.

João Paulo II, depois de dizer que a liberdade tem que ser libertada, acrescenta: “Cristo é o seu libertador”.

O cristão com as características do homem ou da mulher autenticamente livres que estamos descrevendo, entende perfeitamente essa breve frase. É junto de Cristo, e com a graça dEle – sem a qual não teríamos a força de que necessitamos (cf. Jo 15, 5) -, que aprendemos a descobrir a verdade, a escolher com autenticidade e a mortificar-nos com generosidade, a fim de podermos correr livremente pela estrada do amor e do bem.

[Adaptação de um trecho do livro de F.Faus: Autenticidade & Cia]


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Liberdade II: Há liberdade sem verdade?

 

Liberdade e verdade

No texto «Liberdade-I», lembrávamos uma realidade evidente: se o nosso raciocínio, se o nosso modo de pensar na vida e nas coisas da vida, nas escolhas pessoais e nas decisões, é confuso ou errado, como poderemos escolher “bem”?

E muito importante perceber que a falta de lucidez do pensamento é uma doença mortal da liberdade. Pensar mal leva a escolher mal. Mas são poucos os que reconhecem que “não pensam bem”. Acham que se “eles” pensam, que se “isso” é o que “eles pensam”, então está bom! Será? Vamos fazer uma reflexão muito simples.

Podem servir-nos, como referencial, algumas experiências do cotidiano. Um conhecido, por exemplo, conta-nos que resolveu ir com o filho de São Paulo ao Rio de Janeiro: uma viagem-prêmio que o pai prometera (pai sentimental, que premia a mera obrigação) se o filho passasse de ano. Aí temos os dois, mais a mãe e uma irmã, no carro, com o bagageiro atulhado. O rapaz premiado assume o volante. Está ansioso por chegar ao Rio. – “Você conhece a saída de São Paulo para a Via Dutra?”, pergunta-lhe o pai. O moço sorri com ar de suficiência. Nem se digna responder. Claro que sabe! E, ei-lo rodando por um emaranhado de ruas, de mãos e contramãos, de viadutos e elevados. Vai com uma segurança magnífica. Pega atalhos de homem esperto. Até que, duas horas depois, todos percebem que estão indo exatamente em sentido contrário, rumo ao Mato Grosso, na direção Oeste…

Outra experiência, que dispensa comentários, é a dos fracassos e decepções no casamento, que nos cercam, infelizmente, em quantidade quase incontável. Em muitos desses casos lamentáveis, o que houve – além de sérias falhas morais – foi um engano. A pessoa – apesar das observações objetivas de amigos, de colegas, de familiares – empenhou-se em casar-se com fulano ou sicrana. Achava que os outros não a entendiam. Só ela sabia. Até que, passados poucos meses, ou um ano, ou dois, teve que dizer, com a cara coberta de vergonha: “Eu me enganei”, “Eu não sabia”… Agiu com total independência, com absolua “liberdade”, mas sem nenhum conhecimento profundo, sem a base da razão esclarecida, que é imprescindível para se viver a verdadeira liberdade.

A verdade, sangue arterial da liberdade

O Papa João Paulo II não se cansou de insistir em que «o conhecimento da verdade é condição para uma autêntica liberdade» (ver Encíclica Veritatis Splendor, n. 87). Com essas breves palavras, estava dizendo algo de essencial. É óbvio que, se um engano – uma falta de conhecimento da realidade, da verdade das coisas – em assuntos como o casamento ou a profissão, pode ser funesto e até mesmo frustrar a nossa vida, mais ainda nos pode arrasar o erro a respeito dos verdadeiros bens, do verdadeiro ideal, do verdadeiro sentido da nossa vida. Oxalá não sejamos daqueles que só se dão conta de que erraram redondamente quando já estão sem retorno, na velhice ou à beira da morte: “Eu achava”, “Eu não percebi”, “Agora é tarde”…

A liberdade autêntica precisa da verdade, que lhe dá sentido, rumo e firmeza; que é como a estrela que lhe marca o rumo; que a orienta e a potencia para construir e não para destruir. É – dizia alguém – como o sangue arterial para o corpo!

Isso é o que não conseguem entender os que confundem a liberdade com o desejo e a autenticidade com a simples espontaneidade irrefletida. Perdidos num “espontaneísmo” simplório, e num conceito também superficial da liberdade -entendida como livre vazão dos gostos e desejos -, não conseguem se aprofundar, nem conseguem entender aquelas pessoas que são livres de verdade: aqueles que agem movidos por um ideal bem conhecido, por um raciocínio objetivo e sábio, fruto de séria reflexão; os que, por isso mesmo, tomam decisões inteligentes e livres, não atreladas, como a carroça ao jumento, aos estados de ânimo e às oscilações dos desejos.

São Josemaría Escrivá, que amou e defendeu a liberdade com paixão, tem, sobre este tema, umas palavras que vale a pena meditar: «O Amor de Deus marca o caminho da verdade, da justiça e do bem. Quando nos decidimos a responder ao Senhor: a minha liberdade para Ti, ficamos livres de todas as cadeias que nos haviam atado a coisas sem importância, a preocupações ridículas, a ambições mesquinhas. E a liberdade – tesouro incalculável, pérola preciosa que seria triste lançar aos animais – emprega-se inteira em aprender a fazer o bem. Esta é a liberdade gloriosa dos filhos de Deus» ( Amigos de Deus, n. 38).

[Adaptação de um trecho do livro de F. Faus, Autenticidade & Cia]


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