Sunday, 20 of May of 2012

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A Paz de Cristo

 

São Cipriano: «O Espírito Santo nos faz esta advertência: “busca a paz e vai ao seu encalço” (Sal 33,15). O filho da paz tem que procurar e perseguir a paz. Aquele que ama e conhece o vínculo da caridade tem que guardar sua língua do mal da discórdia. Entre suas prescrições divinas e seus mandamentos de salvação, o Senhor, à véspera de sua paixão, acrescentou o seguinte: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz.” (Jo 14,27). Esta é a herança que nos legou: todos os seus dons, todas as recompensas que nos prometeu tendem à conservação da paz que nos promete. Se somos os herdeiros de Cristo, permaneçamos na paz de Cristo. Se somos filhos de Deus temos que ser pacíficos: “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus!” (Mt 5,9). Os filhos de Deus são pacíficos, humildes de coração, simples em suas palavras, concordam entre si pelo afeto sincero, unidos fielmente pelos laços da unanimidade».

São Cirilo: «Tenhamos vergonha de prescindir da saudação da paz que o Senhor nos deixou quando ia sair do mundo. A paz é um dom e uma coisa doce, que sabemos provir de Deus, segundo o que o Apóstolo diz aos Filipenses: “A paz de Deus” (Flp 4,7), e “Deus da Paz” (2Cor 13,11). Pois Deus mesmo é a Paz, já que “Ele é nossa paz” (Ef 2,14). A paz é um bem recomendado a todos, mas observado por poucos. Qual é a causa disso? Talvez o desejo do domínio, ou a ambição, ou a inveja, ou a intolerância ao próximo, ou o desprezo, ou alguma outra coisa que vemos a cada passo que damos naqueles que desconhecem o Senhor. A paz procede de Deus, que é quem tudo une. Deus, cujo ser é unidade de sua natureza e de seu estado pacífico. Ele a transmite aos anjos e às potestades do céu, que estão em constante paz com o Senhor e consigo mesmos. Também se estende por todas as criaturas que desejam a paz. Em nós subsiste, segundo o espírito de cada um, por meio da busca e exercício das virtudes, e segundo o corpo, no equilíbrio dos membros e dos elementos de que se forma. O primeiro se chama beleza, o segundo saúde».

São Gregório Magno: «Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Só este discípulo estava ausente e, ao voltar e escutar o que tinha acontecido, não quis acreditar no que lhe contavam. Apresenta-se de novo o Senhor e oferece ao discípulo incrédulo seu flanco para que o apalpe, mostra-lhe suas mãos e, mostrando-lhe a cicatriz de suas feridas, cura a ferida de sua incredulidade. O que é, irmãos muito amados, o que revelam nestes fatos? Acaso vocês creem que esse fatos aconteceram por coincidência: que aquele discípulo eleito primeiro estivesse ausente, que assim que veio, ouvisse, que para ouvir duvidasse, que ao duvidar apalpasse, que ao apalpar acreditasse?

»Tudo isto não aconteceu ao acaso, mas sim por disposição divina. A bondade de Deus atuou neste caso de um modo admirável, já que aquele discípulo que tinha duvidado, ao apalpar as feridas do corpo de seu mestre, curou as feridas de nossa incredulidade. Mais proveitosa foi para nossa fé a incredulidade de Tomé do que a fé dos outros discípulos, já que, ao ser ele induzido a acreditar pelo fato de ter apalpado, nossa mente, livre de toda dúvida, é confirmada na fé. Deste modo, com efeito, aquele discípulo que duvidou e que apalpou se converteu em testemunha da realidade da ressurreição.

»Apalpou e exclamou: “Meu senhor e meu Deus!” Jesus lhe disse: “Creste, porque me viste. Felizes aqueles que creem sem ter visto!” Por isso Apóstolo Paulo diz: "A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê" (Hb 11,1). É evidente que a fé é a plena convicção daquelas realidades que não podemos ver, porque as que vemos já não são objeto de fé, mas sim de conhecimento. Por conseguinte, se Tomé viu e apalpou, como é que lhe diz o Senhor: Não acreditaste senão depois de me haver visto? É que o que acreditou superava o que viu. Com efeito, um homem mortal não pode ver a divindade. Por isso o que ele viu foi a humanidade de Jesus, mas confessou sua divindade ao dizer: meu senhor e meu Deus! Ele, pois, acreditou com tudo o que viu, já que, tendo diante de seus olhos um homem verdadeiro, proclamou-o Deus, coisa que escapava a seu olhar.

»E é para nós motivo de alegria o que vem a seguir: Felizes aqueles que creem sem ter visto! Nesta sentença o Senhor nos designa especialmente, nós que O guardamos em nossa mente sem vê-lO corporalmente. Designa-nos, com o intuito de que as obras acompanhem nossa fé, porque quem crê de verdade age segundo sua fé. Pelo contrário, com relação àqueles que acreditam só de boca, diz Paulo: "Proclamam que conhecem a Deus, mas na prática o renegam, detestáveis que são, rebeldes e incapazes de qualquer boa obra" (Tt 1,16). E São Tiago diz: "A fé: se não tiver obras, é morta em si mesma". (Tg 2,17)».

Fonte: Estudo Bíblico do Movimento de Vida Cristã, 2º Dom. de Páscoa, ano B.


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Fé, verdade e cultura

Por Joseph Ratzinger 

A busca da verdade – sobre Deus e sobre o mundo – é profundamente humana e aparece em todas as culturas. Mas a verdade não é meramente relativa, como se as culturas fossem incomunicáveis e incapazes de evoluir. É por ela que a fé católica encontra-se com a filosofia e com as outras religiões. Estas reflexões do então Cardeal Ratzinger sobre a Encíclica Fides et Ratio, de João Paulo II, foram apresentadas no Primeiro Congresso Internacional da Faculdade San Dámaso de Teologia, em Madrid, no dia 16.02.2000. 

   

Do que trata, essencialmente, a Encíclica Fides et ratio? É um documento só para especialistas, uma tentativa de renovar a partir da perspectiva cristã uma disciplina em crise, a Filosofia, e portanto interessante só para os filósofos, ou coloca uma questão que nos afeta a todos? Dito de outra maneira: A Fé precisa realmente da Filosofia, ou a Fé – que, em palavras de Santo Ambrósio, foi confiada a pescadores e não a dialéticos – é completamente independente da existência ou inexistência de uma filosofia aberta em relação a ela? Se considerarmos a Filosofia apenas como uma disciplina acadêmica entre outras, então a Fé é de fato independente dela. Mas o Papa João Paulo II entende a Filosofia num sentido muito mais amplo e mais conforme com a sua origem. A Filosofia pergunta se o homem pode conhecer a verdade, as verdades fundamentais sobre si mesmo, sobre a sua origem e o seu futuro, ou se vive numa penumbra que não é possível iluminar e tem de recolher-se, em última análise, ao âmbito da utilidade.

A característica própria da Fé cristã no mundo das religiões é que afirma dizer-nos a verdade sobre Deus, o mundo e o homem, e que pretende ser a religio vera, a religião da verdade.

Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida: nestas palavras de Cristo segundo São João (14, 6) está expressa a pretensão fundamental da Fé cristã. Dessa pretensão, brota o impulso missionário da Fé: se a Fé cristã é a verdade, diz respeito a todos os homens. Se fosse apenas uma variante cultural das experiências religiosas do homem, cifradas em símbolos e nunca decifradas, então faria bem em permanecer na sua cultura e deixar as outras em paz.

Mas isto significa o seguinte: a questão da verdade é a questão essencial da Fé cristã, e, neste sentido, a Fé tem inevitavelmente a ver com a Filosofia. Se tivesse que caracterizar brevemente a intenção da Encíclica, diria que quer reabilitar a questão da verdade num mundo marcado pelo relativismo. Perante a situação atual da Ciência – que certamente busca verdades, mas qualifica a questão da verdade como sendo não-científica –, a Encíclica apresenta essa questão como tarefa racional e científica; caso contrário, a Fé perderia o ar que respira. A Encíclica quer simplesmente animar-nos de novo a empreender a aventura da verdade. Por isso fala daquilo que está fora do âmbito da Fé, mas também daquilo que está no próprio centro do mundo da Fé.

1. AS PALAVRAS, A PALAVRA E A VERDADE

Num livro de sucesso publicado nos anos quarenta, Cartas do diabo ao seu sobrinho, o escritor e filósofo C.S. Lewis mostrou magnificamente como não é moderno perguntar pela verdade. O livro compõe-se de cartas fictícias de um demônio superior, Screwtape, que dá lições a um principiante na arte de seduzir o homem, instruindo-o quanto ao modo correto de proceder. O demônio pequeno tinha manifestado aos seus superiores a preocupação de que justamente os homens mais inteligentes poderiam ler os livros dos sábios antigos e descobrir assim os rudimentos da verdade. Screwtape tranqüiliza-o esclarecendo que os espíritos infernais felizmente conseguiram persuadir os eruditos do mundo ocidental a aderir ao “ponto de vista histórico”, o que significa que “a única questão que com certeza nunca levantarão é a relativa à verdade do que leram; em vez disso, perguntar-se-ão sobre as repercussões e as influências recíprocas, sobre a evolução do escritor estudado, sobre a história da sua autoridade e outras coisas desse tipo”.

Josef Pieper, que reproduz essa passagem de C.S. Lewis no seu tratado sobre a interpretação, assinala a esse respeito que as edições de Platão ou de Dante, por exemplo, nos países dominados pelo comunismo, antepunham ao texto uma introdução que pretendia proporcionar ao leitor uma compreensão histórica e assim excluir a questão da verdade. Uma cientificidade exercida dessa forma torna os espíritos imunes à verdade. A questão de saber se o que foi dito pelo autor é ou não verdadeiro, e em que medida, seria uma questão “não-científica”; tirar-nos-ia do campo do demonstrável e do verificável e nos faria recair na ingenuidade do mundo pré-crítico. Deste modo, neutraliza-se também a leitura da Bíblia: podemos explicar quando e em que circunstâncias surgiu determinado texto, e assim conseguimos classificá-lo dentro do “histórico”, que no fim das contas não nos afeta.

Por trás desse modo de interpretação histórico, há uma filosofia, uma atitude apriorística ante a realidade, que nos diz: não faz sentido perguntar sobre o que é, só podemos perguntar-nos sobre o que podemos fazer com as coisas. A questão não é a verdade, mas a práxis, o domínio das coisas para nosso proveito. Diante dessa redução aparentemente iluminadora do pensamento humano, surge sem mais a pergunta: e o que é realmente o que nos traz proveito? E para que nos aproveita? Aliás, para que existimos?

O observador profundo verá nessa atitude fundamental moderna uma falsa humildade e, ao mesmo tempo, uma falsa soberba: falsa humildade, porque nega ao homem a capacidade de conhecer a verdade; e falsa soberba, porque esse homem se situa acima das coisas, acima da própria verdade, e – na medida em que erige como meta do seu pensamento a ampliação do seu poder – acima da realidade.

O que em Lewis aparece sob a forma de ironia, podemos encontrá-lo hoje apresentado “cientificamente” na crítica literária, em que a a questão da verdade é abertamente descartada como não-científica. O exegeta alemão Mario Reiser chamou a atenção para uma passagem de Umberto Eco no seu best-seller O nome da rosa, em que diz: “A única verdade consiste em aprender a libertar-se da paixão doentia pela verdade”.

O fundamento para a renúncia inequívoca à verdade estriba no que hoje se denomina o “giro lingüístico”: não se poderia remontar para além da linguagem e das suas representações, a razão estaria condicionada pela linguagem e vinculada à linguagem. Já em 1901 F. Mauthner cunhou a seguinte frase: “O que se denomina pensamento é pura linguagem”. M. Reiser comenta, neste contexto, o abandono da convicção de que com meios lingüísticos se pode ascender ao que é supralingüístico. O relevante exegeta protestante U. Luz afirma – totalmente de acordo com o que antes dizia Screwtape – que a crítica histórica abdicou na Idade Moderna da questão da verdade, e considera-se obrigado a aceitar e reconhecer como correta essa capitulação: agora já não haveria uma verdade a buscar para além do texto, mas apenas posições sobre a verdade que concorreriam entre si, ofertas de verdade que seria preciso defender com um discurso público no mercado das visões-de-mundo.

Quem medita sobre semelhantes modos de ver as coisas, perceberá que lhe vem quase que inevitavelmente à memória uma passagem profunda do Fedro de Platão. Nela, Sócrates conta a Fedro uma história ouvida dos antigos, que “tinham conhecimento do que é verdadeiro”. Certa vez Thot, o “pai das letras” e o “deus do tempo”, teria visitado o rei egípcio Thamus, de Tebas. Instruiu o soberano em diversas artes que havia inventado, e especialmente na arte de escrever que tinha concebido. Ponderando o seu próprio invento, disse ao rei: “Este conhecimento, ó rei, tornará os egípcios mais sábios e fortalecerá a sua memória; é o elixir da memória e da sabedoria”. Mas o rei não se deixou impressionar. Previu o contrário como conseqüência do conhecimento da escrita: “Este método produzirá esquecimento nas almas dos que o aprenderem porque descuidarão o exercício da memória, já que agora, fiando-se da escrita externa, recordarão apenas de uma maneira externa, não a partir do seu próprio interior e de si mesmos. Por conseguinte, tu inventaste um meio, não para recordar, mas para perceber, e transmites aos teus aprendizes apenas a representação da sabedoria, não a própria sabedoria. Pois agora são eruditos em muitas coisas, mas sem verdadeira instrução, e assim pensam ser entendidos em mil coisas quando na realidade não entendem nada, e são gente com quem é difícil tratar, pois não são verdadeiros sábios, mas sábios apenas na aparência”.

Quem pensa no modo como hoje os programas de televisão do mundo inteiro inundam o homem com informações e o tornam assim “sábio na aparência”; quem pensa nas enormes possibilidades do computador e da Internet, que, por exemplo, permitem que qualquer um tenha acesso a todos os textos de um Padre da Igreja e veja as palavras sem no entanto ter compreendido o pensamento, esse não considerará exageradas as prevenções do rei. Platão não rejeita a escrita enquanto tal – como nós também não rejeitamos as novas possibilidades de informação, antes fazemos delas um uso agradecido –, mas dá um sinal de alerta cuja seriedade se comprova diariamente pelas conseqüências do “giro lingüístico” e pelas muitas circunstâncias que são familiares a todos. H. Schade mostra o núcleo daquilo que Platão tem a dizer-nos hoje quando escreve: “É acerca do predomínio de um mero método filológico e da conseqüente perda da realidade que Platão nos previne”.

Quando a escrita, o escrito, é convertido em barreira que oculta o conteúdo, transforma-se numa anti-arte, que não torna o homem mais sábio, mas o leva a extraviar-se numa sabedoria falsa e doente. Por isso, em face do “giro lingüístico”, A. Kreiner adverte com razão: “O abandono da convicção de que se pode remeter com meios lingüísticos a conteúdos extralingüísticos equivale ao abandono de um discurso que de algum modo ainda estava cheio de sentido”. E sobre esta mesma questão João Paulo II comenta na Encíclica Fides et ratio: “A interpretação desta Palavra (a de Deus) não pode levar-nos de interpretação em interpretação, sem nunca chegarmos a descobrir uma afirmação simplesmente verdadeira”. O homem não está aprisionado na sala de espelhos das interpretações; pode e deve buscar o acesso ao real, que está além das palavras e se lhe revela nas palavras e através delas.

Aqui chegamos ao ponto central da discussão da Fé cristã com determinado tipo de cultura moderna, que gostaria de ser considerada como a cultura moderna sem mais, mas que, felizmente, é apenas uma variedade desta. Isto fica muito claro, por exemplo, na crítica que o filósofo italiano Paolo Flores d’Arcais fez à Encíclica Fides et ratio.

Como a Encíclica insiste na necessidade da questão da verdade, comenta esse pensador que “a cultura católica oficial (isto é, a Encíclica) já não tem nada que dizer à cultura «enquanto cultura»…”. Mas isso significa também que a pergunta pela verdade estaria fora da cultura “enquanto cultura”. Nesse caso, porém, essa tal cultura “enquanto cultura” não seria antes uma anticultura? E não seria a sua presunção de ser “a cultura sem mais” uma presunção arrogante e que despreza o ser humano?

Fica evidente que é exatamente disso que se trata quando Flores d’Arcais acusa a Encíclica de ter conseqüências mortíferas para a democracia e identifica o seu ensinamento com o tipo “fundamentalista” do Islã. Comentando o fato de o Papa ter qualificado como carentes de validade autenticamente jurídica as leis que permitem o aborto e a eutanásia, argumenta: quem se opusesse dessa forma a um Parlamento eleito e tentasse exercer o poder secular com uma máscara eclesial, mostraria que o selo do dogmatismo católico permanecerá essencialmente estampado no seu pensamento.

Semelhantes afirmações pressupõem que não pode haver nenhuma instância acima das decisões da maioria. A maioria conjuntural converte-se num absoluto. Porque, de fato, volta-se a cair num absoluto, algo inapelável. Estamos expostos ao domínio do positivismo e à absolutização do conjuntural, do manipulável. Se o homem põe-se fora da verdade, necessariamente passa a estar submetido ao conjuntural, ao arbitrário. Por isso, não é “fundamentalismo”, e sim um dever de humanidade proteger o homem contra a ditadura do conjuntural convertido em absoluto e devolver-lhe a sua dignidade, que consiste justamente em que nenhuma instância humana pode dominá-lo porque está aberto à própria verdade. Precisamente pela sua insistência na capacidade do homem para a verdade, a Encíclica é uma apologia sumamente necessária da grandeza do homem contra tudo o que pretende apresentar-se como a cultura tout court.

Naturalmente, é difícil voltar a dar carta de cidadania à questão da verdade no debate público, por causa do cânon metodológico que hoje se impôs como selo de garantia de cientificidade. Por isso é necessário um debate fundamental sobre a essência da Ciência, sobre a verdade e o método, sobre a tarefa que cabe à Filosofia e sobre os possíveis caminhos que ela pode trilhar.

O Papa não considerou que era tarefa sua tratar na Encíclica da questão – totalmente prática – de se a verdade pode chegar a ser novamente científica, e como. Mas mostra por que devemos acometer essa tarefa. Não quis realizar ele mesmo a tarefa dos filósofos, mas cumpriu a tarefa de denunciar e advertir-nos contra aquilo que é uma tendência auto-destrutiva da “cultura enquanto tal”. Aliás, justamente essa chamada de atenção é um ato autenticamente filosófico, que revive no presente a origem socrática da Filosofia e com isso mostra a potência filosófica contida na Fé bíblica.

Opõe-se à essência da Filosofia um certo tipo de cientificidade que barra o caminho para a questão da verdade, ou mesmo a torna impossível. Essa autoclausura, esse apoucamento da razão não pode ser a norma da Filosofia, nem a Ciência como um todo pode tornar impossíveis as perguntas que são próprias do homem, sem as quais a própria Ciência converte-se num ativismo vazio e, no fim das contas, perigoso. O papel da Filosofia não é o de submeter-se a um cânon metodológico qualquer, por ser ele legítimo para certos setores do pensamento. Sua tarefa tem de ser justamente a de pensar a cientificidade como um todo, conceber criticamente a sua essência e – de maneira racionalmente responsável – ir mais além, rumo àquilo que lhe dá sentido.

A Filosofia tem de perguntar-se sempre sobre o homem, e portanto questionar-se sempre sobre a vida, sobre a morte, sobre Deus e sobre a eternidade. Para isso, terá de servir-se hoje, antes de mais nada, dos becos sem saída aos quais chega aquele tipo de cientificidade que afasta o homem de tais questões. E partindo dessas aporias – que a nossa sociedade põe à mostra – tentar sempre abrir novamente o caminho rumo ao que é necessário, e rumo àquilo que se faz necessário.

Na história da Filosofia moderna não faltaram tentativas como essa – também hoje em dia há suficientes ensaios promissores –, visando abrir outra vez a porta para a questão da verdade: uma porta para além da linguagem que gira sobre si mesma. Nesse sentido, a chamada da Encíclica é sem dúvida crítica para com a nossa situação cultural atual, mas ao mesmo tempo está em profunda união com os elementos essenciais do esforço intelectual da Idade Moderna.

A confiança em buscar a verdade e encontrá-la nunca é anacrônica. É justamente essa confiança que mantém o homem na sua dignidade, que rompe os particularismos e une as pessoas – ultrapassando os limites culturais –, em virtude da sua comum dignidade.

2. CULTURA E VERDADE

a) A essência da Cultura

Tratamos até aqui do debate entre a Fé cristã que a Encíclica expressa e um tipo concreto de cultura moderna; por isso as nossas reflexões deixaram entre parênteses o lado técnico-científico da Cultura: o olhar dirigiu-se ao que se relaciona com as ciências humanas na nossa cultura. Não seria difícil mostrar que a sua desorientação quanto à questão da verdade (que acabou por converter-se em ira contra esse tema) reside, em última análise, na pretensão de se alcançar o mesmo cânon metodológico, o mesmo tipo de segurança, que se dá no campo empírico.

A renúncia metodológica praticada pela ciência natural, que a leva a ater-se ao que pode ser verificado, converte-se em credencial da cientificidade; mais ainda: converte-se na própria racionalidade. Essa redução metodológica, cheia de sentido – aliás, necessária – no âmbito da ciência empírica, converte-se assim num muro para a questão da verdade. No fundo, trata-se do problema da verdade e do método, da universalidade de um cânon metodológico estritamente empírico. Em face desse cânon, o Papa defende a multiplicidade de caminhos do espírito humano, a amplitude da racionalidade, que precisa conhecer diversos métodos conforme a índole do objeto. O que é imaterial não pode ser abordado com os métodos que correspondem ao que é material. Assim poderia ser resumida, em grandes traços, a denúncia do Papa contra uma forma unilateral de racionalidade.

O debate com a cultura moderna, o debate acerca da verdade e do método, é a primeira fibra do tecido da Encíclica. Mas a questão acerca da verdade da cultura apresenta-se ainda sob outro aspecto, que substancialmente remete-se ao âmbito propriamente religioso. Hoje, contrapõe-se de bom grado a relatividade das culturas à pretensão universal do cristão, fundamentada na universalidade da verdade. O tema ressoa já no século XVIII em Gotthold Ephraim Lessing, que apresenta as três grandes religiões na parábola dos três anéis, dos quais um tem que ser o autêntico, mas cuja autenticidade já não é verificável. A questão da verdade é insolúvel e é substituída pela questão do efeito curativo e purificador da religião.

Logo no início do século XX, Ernst Troeltsch refletiu expressamente sobre a questão da religião e da cultura, da verdade e da cultura. No princípio ainda considerava o Cristianismo como a revelação completa da religiosidade personalista, como a única ruptura completa com os limites e as condições da religião natural. Mas, no decorrer do seu caminho intelectual, a determinação cultural da religião foi fechando-lhe cada vez mais o olhar para a verdade e subordinando todas as religiões à relatividade das culturas. No final, a validez do Cristianismo converte-se num assunto europeu: para ele o Cristianismo seria a forma de religião adequada à Europa, enquanto atribui ao budismo e ao bramanismo uma autonomia absoluta. Na prática elimina-se a questão da verdade, e os limites entre as culturas tornam-se intransponíveis.

Por isso, uma Encíclica toda dedicada à aventura da verdade deveria também colocar a questão da relação entre verdade e cultura. Deveria perguntar se pode dar-se uma comunhão das culturas numa única verdade, se a verdade pode ser decidida para todos os homens, transcendendo as diversas formas culturais, ou se afinal teríamos que pressenti-la apenas assintoticamente, em meio a formas culturais diversas e até opostas.

A um conceito estático de cultura que pressupõe formas culturais fixas – que afinal só convivem umas com as outras, sem que haja comunicação entre elas –, o Papa opôs, na Encíclica, uma compreensão dinâmica e comunicativa da cultura. E ressalta que as culturas, “quando estão profundamente enraizadas no humano, trazem consigo o testemunho da abertura típica do homem ao universal e à transcendência”. Por isso as culturas – que são expressões do único ser do homem – estão caracterizadas pela dinâmica do homem, que transcende todos os limites: não estão fixadas numa dada forma de uma vez para sempre. Têm a capacidade de progredir e de transformar-se, e também o perigo da decadência. Estão voltadas para o encontro e para a fecundação mútua.

Quanto maiores e mais genuínas são as culturas, mais impregnadas estão da abertura interior do homem a Deus: trazem impressa uma predisposição para a revelação de Deus. A Revelação não lhes é estranha. Responde a uma espera interior presente nas próprias culturas. A propósito disso, Theodor Haecker falou do caráter de “advento” das culturas pré-cristãs, e são muitas as pesquisas de História das Religiões que puderam mostrar de maneira concreta essa alusão das culturas ao Logos de Deus, encarnado em Jesus Cristo.

Tendo isso em vista, o Papa vale-se da lista de nações contida no relato pascal dos Atos dos Apóstolos (2, 7-14), onde nos é narrado como o testemunho da Fé em Cristo é perceptível e comunicável mediante todas as línguas, e em todas as línguas, isto é, em todas as culturas das quais a língua é expressão. Em todas elas, a palavra humana faz-se portadora do falar próprio de Deus, do seu próprio Logos. E a Encíclica acrescenta: “O anúncio do Evangelho nas diversas culturas, embora exija a fé de cada destinatário, não o impede de conservar uma identidade cultural própria. Isso não cria nenhuma divisão, porque o povo dos batizados caracteriza-se por uma universalidade que sabe acolher cada cultura, favorecendo o progresso daquilo que nela está implícito, rumo à sua plena explicitação na verdade”.

A partir disso – e no que diz respeito às relações entre a Fé cristã e as culturas pré-cristãs em geral – o Papa, tomando o caso da cultura indiana, desenvolve de modo exemplar os princípios que devem ser observados no encontro dessas culturas com a Fé. Em primeiro lugar, chama brevemente a atenção para o grande auge espiritual do pensamento indiano, que luta por libertar o espírito das condições espaço-temporais, exercitando assim a abertura metafísica do homem, que depois haveria de receber uma configuração especulativa em importantes sistemas filosóficos.

Com essas indicações, o Papa põe em evidência a tendência universal das grandes culturas, a sua superação do tempo e do espaço, e também o seu avanço na direção do ser do homem e das suas supremas possibilidades. Aqui reside a capacidade de diálogo entre as culturas, neste caso entre a cultura indiana e as que cresceram no âmbito da Fé cristã.

O primeiro critério infere-se espontaneamente, por assim dizer, no próprio contato interior com a cultura indiana: consiste na “universalidade do espírito humano, cujas exigências fundamentais são idênticas nas mais diversas culturas”.

Dele se segue um segundo critério: “Quando a Igreja entra em contato com grandes culturas a que antes não tinha chegado, não pode esquecer o que adquiriu quando da sua inculturação no pensamento greco-latino. Rejeitar essa herança seria ir contra o desígnio providencial de Deus…”

Finalmente a Encíclica aponta um terceiro critério, decorrente das reflexões anteriores sobre a essência da cultura: “Deve-se evitar confundir a legítima reivindicação do que há de específico e original no pensamento indiano com a idéia de que uma tradição cultural deva encerrar-se na sua diferença e afirmar-se na sua oposição às demais tradições. Isso seria contrário à própria natureza do espírito humano”.

b) A superação das culturas na Bíblia e na história da Fé

Tendo o Papa insistido no caráter irrenunciável da herança cultural forjada no passado, que chegou a ser um veículo para a verdade comum de Deus e do homem, surge então espontaneamente a questão de se isso não seria canonizar um eurocentrismo da Fé. Um eurocentrismo que não parece ter sido superado pelo fato de que, ao longo da História, possam introduzir-se – ou já se tenham introduzido – novas heranças na identidade da fé constante que afeta a todos.

É uma questão que não se pode evitar. Até que ponto a Fé é grega ou latina, tendo aliás surgido não no mundo greco-latino, mas no mundo semita do antigo Oriente, onde estavam e estão em contato a Ásia, a África e a Europa? A Encíclica assume uma posição sobre isso, especialmente no seu segundo capítulo, em que trata do desenvolvimento do pensamento filosófico no interior da Bíblia, e no quarto capítulo, ao apresentar o encontro decisivo dessa sabedoria da razão cultivada na Fé com a sabedoria grega da Filosofia. Gostaria de acrescentar o seguinte:

Um variado acervo de pensamento religioso e filosófico, a partir de mundos culturais diversos, já está elaborado na Bíblia. A Palavra de Deus desenvolve-se num processo de encontros com a busca humana por respostas às suas perguntas últimas. Essa Palavra não é algo caído do céu como um meteorito: é precisamente uma síntese de culturas. Vista com mais profundidade, permite reconhecer um processo no qual Deus luta com o homem, fazendo com que este se vá abrindo lentamente à sua Palavra mais profunda, a Si próprio: ao Filho, que é o Logos.

A Bíblia não é a mera expressão da cultura do povo de Israel. Está, pelo contrário, continuamente em disputa com a intenção – totalmente natural desse povo – de ser ele próprio e de instalar-se na sua própria cultura. A Fé em Deus e o sim à sua vontade vão-lhe continuamente desarraigando as representações e aspirações próprias. Deus enfrenta-se continuamente com a religiosidade peculiar a Israel e com a sua cultura religiosa, que queria expressar-se no culto dos lugares altos, à deusa celeste e na pretensão de poder da própria monarquia.

Começando pela a cólera de Deus e de Moisés contra o culto do bezerro de ouro no Sinai e até os últimos profetas depois do Exílio, tudo sempre concorre para que Israel desprenda-se da sua própria identidade cultural, abandone, por assim dizer, o culto à própria nacionalidade, o culto à raça e à terra, para inclinar-se diante do Deus totalmente outro, de Quem não podem apropriar-se, do Deus que criou o Céu e a Terra, e que é Deus de todos os povos.

A Fé de Israel significa uma permanente auto-superação da própria cultura na abertura no horizonte da verdade comum. Os livros do Antigo Testamento podem parecer, sob muitos pontos de vista, menos piedosos, menos poéticos, menos inspirados do que certas passagens mais importantes dos livros sagrados de outros povos. Mas em troca têm sua singularidade na índole combativa da Fé contra aquilo que é próprio, nesse desarraigamento daquilo que é próprio, iniciado com a peregrinação de Abraão.

A libertação da Lei que São Paulo alcança pelo seu encontro com Jesus Cristo ressuscitado conduz essa orientação fundamental do Antigo Testamento à sua conseqüência lógica: a plena universalização dessa Fé, separada da ordem nacional. Agora todos os povos são convidados a ingressar nesse processo de superação daquilo que é próprio, começado em primeiro lugar em Israel. Todos são convidados a se converterem a Deus, que se despojando de Si mesmo em Jesus Cristo derrubou o “muro de inimizade” que havia entre nós (cfr. Ef 2, 14) e nos congrega a todos na auto-entrega da Cruz.

Desse modo, a Fé em Jesus Cristo é na sua essência um permanente abrir-se, uma irrupção de Deus no mundo humano com a correspondente abertura do homem para Deus, que ao mesmo tempo congrega os homens. Tudo o que é próprio pertence agora a todos, e tudo o que é alheio chega a ser, ao mesmo tempo, algo próprio. E tudo abarcado pela palavra do pai ao filho mais velho: Tudo o que é meu é teu (Lc 15, 31), que torna a aparecer na oração sacerdotal de Jesus como modo de o Filho dirigir-se ao Pai: Tudo o que é meu é teu, e tudo o que é meu é teu” (Jo 17, 10).

Esse padrão determina também o encontro da mensagem revelada com a cultura grega, que por certo não começa apenas com a evangelização cristã: já se desenvolvera dentro dos escritos do Antigo Testamento – sobretudo mediante a sua tradução ao grego –, e a partir de então no judaísmo primitivo. Esse encontro era possível, porque já fora aberto o caminho no mundo grego para um acontecimento de autotranscendência como esse. Os Padres da Igreja não verteram sem mais no Evangelho uma cultura grega que se mantinha em si e por si mesma: puderam assumir o diálogo com a filosofia grega e convertê-la em instrumento do Evangelho justamente porque nesse mundo grego já se tinha iniciado, mediante a busca de Deus, uma autocrítica da própria cultura e do próprio pensamento.

A Fé une os diversos povos – começando pelos germanos e pelos eslavos, que na época das invasões bárbaras tomaram contato com a mensagem cristã, até os povos da Ásia, da África e da América – não à cultura grega como tal, mas à sua auto-superação, que era o verdadeiro ponto de contato para a interpretação da mensagem cristã. A partir daí a Fé os introduz na dinâmica da sua auto-superação.

Richard Schäffler disse recentemente, e de modo certeiro, que a pregação cristã desde o princípio exigiu dos povos da Europa (que aliás nem existia antes da evangelização cristã) “a renúncia a todos os seus respectivos «deuses» autóctones, muito antes de entrarem em seu campo de visão as culturas extra-européias”. É a partir daí que se deve entender por que a pregação cristã entrou em contato com a filosofia, e não com as religiões. Rapidamente caíram em desuso as tentativas de, por exemplo, interpretar Cristo como sendo o verdadeiro Dionísio, Esculápio ou Hércules. O fato de se ter entrado em contato com a filosofia, e não com as religiões, tem a ver com que não se tenha canonizado uma cultura, e sim se pôde entrar nela justamente no ponto onde ela já havia começado a sair de si mesma: por onde tinha começado ela mesma a sair de si, por onde tinha iniciado o caminho de abertura à verdade comum, deixando atrás a instalação no que lhe era meramente próprio. Isso constitui também hoje uma indicação fundamental para a questão dos contatos e transferências a outros povos e culturas.

A Fé não pode sintonizar com filosofias que excluam a questão da verdade, mas sintoniza, sim, com movimentos que se esforçam por sair do cárcere do relativismo. Da mesma forma, não pode integrar diretamente as antigas religiões. No entanto, as religiões podem proporcionar-lhe formas e imagens de diverso tipo, mas sobretudo atitudes, como o respeito, a humildade, a abnegação, a bondade, o amor ao próximo, a esperança na vida eterna. Isto parece-me – seja dito entre parênteses – ser importante também para a questão do significado salvífico das religiões. Não salvam, por assim dizer, na medida em que são sistemas fechados e pela fidelidade a esses sistemas, mas colaboram com a salvação na medida em que levam os homens a “perguntar-se por Deus” (como diz o Antigo Testamento), a “buscar o seu rosto”, a “buscar o Reino de Deus e a sua justiça”.

3. RELIGIÃO, VERDADE E SALVAÇÃO

Permitam-me que me detenha um momento mais nesse ponto, pois toca um aspecto fundamental da existência humana, e que com razão representa também uma questão radical no atual debate teológico. Isso porque se trata do próprio impulso do qual partiu a Filosofia, e ao qual tem de voltar sempre: nele se tocam necessariamente a Filosofia e a Teologia, quando estas se mantêm fiéis à sua intenção. É a questão de como o homem se salva, de como se justifica.

No passado, pensou-se de preferência na morte e naquilo que vem depois da morte; hoje o mais além é visto como algo incerto, e portanto continua sendo excluído das questões atuais. Por isso é necessário continuar buscando o que é reto e justo no tempo: não se pode preterir o problema de como se deve enfrentar a morte. Curiosamente, no debate sobre a relação do Cristianismo com as religiões universais, o ponto de discussão que vem sendo mantido é o de como se relacionam as religiões e a salvação eterna.

A questão sobre como o homem pode salvar-se ainda vem sendo debatida em moldes clássicos. Ultimamente, porém, vem-se impondo de modo bastante geral esta tese: todas as religiões são caminhos de salvação. Talvez não o caminho ordinário, mas ao menos caminhos “extraordinários” de salvação: por todas as religiões se chegaria à salvação. É essa a visão habitual.

Semelhante tese não corresponde apenas à idéia da tolerância e do respeito pelos outros que hoje nos é imposta. Corresponde também à imagem moderna de Deus: Deus não pode rejeitar homem algum apenas porque não conhece o cristianismo e, em conseqüência, cresceu em outra religião. Aceitará a sua vida religiosa da mesma forma que faz com a nossa.

Embora esta tese – reforçada nos últimos tempos com muitos outros argumentos – seja bastante clara à primeira vista, não deixa de suscitar dúvidas. Pois as religiões particulares não exigem apenas coisas diferentes, mas também coisas opostas. Diante do número crescente de homens não vinculados ao religioso, esta teoria universal da salvação estendeu-se também a formas de existência não religiosas, mas vividas de maneira coerente. Sendo assim, atitudes contraditórias conduziriam à mesma meta. Em poucas palavras, estamos novamente diante do relativismo. Pressupõe-se sub-repticiamente que, no fundo, todos os conteúdos são igualmente válidos. Não sabemos o que vale realmente.

Cada um tem de percorrer o seu caminho, ser feliz à sua maneira, como dizia Frederico II da Prússia. Assim, galopando nas teorias da salvação, o relativismo torna a entrar sub-repticiamente pela porta traseira: a questão da verdade é separada da questão das religiões e da salvação. A verdade é substituída pela boa intenção; a religião mantém-se no plano subjetivo, porque não se pode conhecer aquilo que é objetivamente bom e verdadeiro.

a) A diferença entre as religiões e seus perigos

Temos que conformar-nos com isso? É inevitável a alternativa entre o rigorismo dogmático e o relativismo humanitário? Penso que as teorias aqui analisadas não pensaram suficientemente três coisas. Em primeiro lugar, as religiões (e agora também o agnosticismo e o ateísmo) são consideradas iguais. Mas com certeza isto não é assim. Com efeito, há formas de religião degeneradas e doentias, que não elevam o homem, mas o alienam: a crítica marxista da religião não carecia totalmente de base. Também as religiões com uma certa grandeza moral, e que estão a caminho da verdade, podem estar doentes em alguns pontos. No hinduísmo (que mais propriamente é um nome coletivo para diversas religiões), há elementos grandiosos, mas também aspectos negativos: por exemplo o entrelaçamento com o sistema de castas, a prática da queima de viúvas – que se formou a partir de representações inicialmente simbólicas –, bem como as aberrações do shaktismo (*), para mencionar apenas uns poucos exemplos. Também o Islã, com toda a grandeza que representa, está continuamente exposto ao perigo de perder o equilíbrio, de dar espaço à violência e deixar que a religião deslize para o ritualismo externo.

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(*) Conjunto de crenças dentro do tantrismo – movimento filosófico e ritualístico que influenciou diversas seitas hinduístas, budistas, etc. – que preconiza a realização espiritual por meio de práticas densamente simbolistas, que em alguns casos abrangem a magia negra, o culto à morte e práticas sexuais orgiásticas (N. do T.)
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E naturalmente há também, como todos nós bem sabemos, formas doentias no cristianismo. Assim aconteceu quando os cruzados, na conquista da cidade santa de Jerusalém, em que Cristo morreu por todos os homens, mergulharam muçulmanos e judeus num banho de sangue. Isto significa que a religião exige discernimento, discernimento em relação às formas das religiões e discernimento no interior da própria religião, conforme o seu próprio nível.

Com o indiferentismo quanto aos conteúdos e às idéias – todas as religiões, embora distintas, seriam iguais –, não se pode avançar. O relativismo é perigoso, tanto para a formação do ser humano individualmente como em comunidade. A renúncia à verdade não cura o homem. Não se pode esquecer o enorme mal que se fez na História em nome de opiniões e intenções boas.

b) A questão da salvação

Tocamos já o segundo ponto costumeiramente deixado de lado. Surpreendentemente, quando se fala do significado salvífico das religiões, pensa-se, na maioria das vezes, apenas em que todas possibilitariam a vida eterna, o que acaba neutralizando o pensamento da vida eterna, pois todo o mundo chegaria a ela de uma forma ou de outra. Contudo, isso rebaixa de maneira inconveniente a questão da salvação.

O céu começa na terra. A salvação no além pressupõe uma vida correspondente no aquém. Não podemos, pois, perguntar-nos apenas quem vai para o céu e desentender-nos simultaneamente da questão do céu. É necessário perguntar o que é o céu e como vem à terra. A salvação do além deve refletir-se numa forma de vida que torne o homem humano no aquém, isto é, neste mundo, e portanto conforme com a vontade de Deus. Uma vez mais, isto significa que, na questão da salvação, é preciso olhar para além das próprias religiões, para um horizonte ao qual pertencem as regras de uma vida reta e justa, regras que não podem ser relativizadas arbitrariamente. Eu diria, pois, que a salvação começa com a vida reta e justa do homem neste mundo, que abarca sempre os dois pólos: o indivíduo e a comunidade.

Há formas de comportamento que nunca podem servir para tornar reto e justo o homem, e outras que sempre pertencem ao ser reto e justo do homem. Isto significa que a salvação não está nas religiões como tais, mas depende também de até que ponto elas levam os homens à Deus, à verdade e ao bem. Por isso, a questão da salvação traz sempre consigo um elemento de crítica religiosa, embora também possa aliar-se positivamente com as religiões. Em qualquer caso, tem a ver com a unidade do bem, com a unidade do verdadeiro, com a unidade de Deus e do homem.

c) A consciência e a capacidade do homem para a verdade

A unidade do homem tem um órgão: a consciência. Foi uma ousadia de São Paulo afirmar que todos os homens têm a capacidade de escutar a sua consciência, separando assim a questão da salvação da questão do conhecimento e da observância da Torah, e situando-a no terreno da comum exigência interior em que o Deus único fala e diz a cada um o que é verdadeiramente essencial na Lei: Quando os gentios, que não têm lei, cumprem naturalmente as prescrições da lei, sem ter lei são lei para si mesmos, demonstrando que têm a realidade dessa lei escrita no seu coração, segundo o testemunho da sua consciência… (Rom 2, 14 e segs.). Paulo não diz: “Se os gentios se mantiverem firmes na sua religião, isso é bom diante do juízo de Deus”. Pelo contrário, ele condena grande parte das práticas religiosas do seu tempo. Remete para outra fonte, para aquela que todos trazem escrita no coração, para o único bem do único Deus.

Enfrentam-se hoje dois conceitos contrários de consciência neste ponto, que na maioria das vezes simplesmente se intrometem um no outro. Para Paulo, a consciência é o órgão da transparência do único Deus em todos os homens, que são um só homem. Mas, atualmente, a consciência aparece como expressão do caráter absoluto do sujeito, acima do qual não poderia haver, no campo moral, nenhuma instância superior. O bem como tal não seria cognoscível. O Deus único não seria cognoscível. No que diz respeito à moral e à religião, a última instância seria o sujeito. Isso seria lógico, se a verdade como tal fosse inacessível.

Assim, o conceito moderno de consciência equivale à canonização do relativismo, da impossibilidade de haver normas morais e religiosas comuns, ao passo que, pelo contrário, para Paulo e para a tradição cristã, a consciência sempre foi a garantia da unidade do ser humano e da cognoscibilidade de Deus, e portanto da obrigatoriedade comum de um mesmo e único bem. O fato de em todos os tempos ter havido e haver santos pagãos baseia-se em que em todos os lugares e em todos os tempos – embora muitas vezes com grande esforço e apenas parcialmente – a voz do coração era perceptível; a Torah de Deus se nos fazia perceptível como obrigação dentro de nós mesmos, no nosso ser criatural, e desse modo tornava possível que superássemos a mera subjetividade na relação de uns com os outros e na relação com Deus. E isto é a salvação.

Resta saber o que Deus faz com os pobres fragmentos do nosso caminho rumo ao Bem, rumo a Ele mesmo e ao Seu mistério: um caminho que não deveríamos pretender controlar.

CONCLUSÃO

Ao final destas minhas reflexões, quisera chamar novamente a atenção sobre uma indicação metodológica dada pelo Papa para as relações entre a Teologia e a Filosofia, entre a Fé e a razão, porque com ela se toca a questão prática de como se pode pôr em andamento, no sentido em que fala a Encíclica, uma renovação do pensamento filosófico e teológico. A Encíclica fala de um movimento circular entre a Teologia e a Filosofia, entendendo-o no sentido de que a Teologia tem que partir sempre em primeiro lugar da Palavra de Deus; mas, posto que essa Palavra é verdade, é preciso relacioná-la com a busca humana da verdade, com a luta da razão pela verdade, pondo-a assim em relação com a Filosofia.

A busca da verdade por parte de quem crê realiza-se, pois, num movimento em que sempre se confrontam a escuta da Palavra proclamada e a busca da razão. Desse modo, por um lado, a Fé se torna mais profunda e mais pura; por outro, o pensamento também se enriquece, porque se abrem para ele novos horizontes. Parece-me que essa idéia de circularidade pode ser ampliada ainda mais: a própria Filosofia não deveria fechar-se naquilo que lhe é meramente próprio e pensado por ela. Assim como tem que estar atenta aos conhecimentos empíricos, que se amadurecem nas diversas ciências, assim também deveria considerar a sagrada tradição das religiões, e especialmente a mensagem da Bíblia, como fonte de conhecimentos capazes de fecundá-la.

De fato, não há nenhuma grande filosofia que não tenha recebido da tradição religiosa luzes e orientações: pensemos na filosofia da Grécia ou da Índia, ou na filosofia que se desenvolveu no âmbito do cristianismo. Também vale o mesmo para as filosofias modernas, que embora estivessem convencidas da autonomia da razão e considerassem essa autonomia como critério último do pensar, mesmo assim mantiveram-se devedoras dos grandes temas do pensamento que a Fé cristã foi dando à Filosofia: Kant, Fichte, Hegel e Schelling não seriam imagináveis sem os antecedentes da Fé. Até mesmo Marx, no coração da sua radical reinterpretação, vive do horizonte de esperança assumido pela tradição judaica.

Quando a Filosofia apaga totalmente esse diálogo com o pensamento da Fé, acaba – como já disse uma vez Jaspers – numa “seriedade que se vai esvaziando, até ficar sem conteúdo”. Por fim se vê impelida a renunciar à questão da verdade, e isso significa dar-se a si mesma por perdida: uma filosofia que já não pergunta mais quem somos, para que somos, se existe Deus e a vida eterna, abdicou como filosofia.

Quero concluir com a menção de um comentário à Encíclica publicado no semanário alemão Die Zeit, cuja tendência é distanciar-se das posições da Igreja. O comentarista Jan Ross sintetiza com muita precisão o núcleo da Encíclica ao dizer que o destronamento da Teologia e da Metafísica “não somente tornou o pensamento mais livre, mas também mais estreito”. Sim, Ross não receia falar de um “emburrecimento por descrença”. “Quando a razão se afastou das questões últimas, tornou-se apática e tediosa, deixou de ser capaz de lidar com os enigmas vitais do bem e do mal, da morte e da imortalidade. A voz de João Paulo II – continua o comentarista – deu ânimo a muitos homens e a povos inteiros; também soou dura e cortante aos ouvidos de muitos, e até suscitou ódio, mas, se emudecer, far-se-á um terrível silêncio”.

Com efeito, se deixamos de falar de Deus e do homem, do pecado e da graça, da morte e da vida eterna, todo o grito e todo o ruído que houver será apenas uma tentativa inútil de fazer esquecer o emudecimento daquilo que é próprio do ser humano. O Papa fez frente ao perigo de um tal emudecimento, com a sua coragem e com a franqueza intrépida da Fé, prestando assim um serviço não somente à Igreja, mas a toda a Humanidade. E devemos agradecer-lhe por isso.

Fonte: Quadrante

 


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O Valor da Amizade

– Jesus, “o amigo que nunca atraiçoa”. NEle aprendemos o verdadeiro valor da amizade.

– A amizade é um grande bem humano que podemos sobrenaturalizar. Qualidade da verdadeira amizade.

– Apostolado com os amigos.

I. NINGUÉM TEM MAIOR AMOR do que aquele que dá a vida pelos seus amigos. Vós sois meus amigos [...]. Já não vos chamo servos [...], mas chamei-vos amigos1, diz-nos o Senhor no Evangelho da Missa.

Jesus é o nosso Amigo. NEle os Apóstolos encontraram a sua melhor amizade. Era alguém que os amava, a quem podiam comunicar as suas penas e alegrias, a quem podiam fazer perguntas com toda a confiança. Sabiam bem o que Ele desejava exprimir quando lhes dizia: Amai-vos uns aos outros… como eu vos amei2. As irmãs de Lázaro não encontraram melhor título que o da amizade para solicitarem a sua presença: o teu amigo está doente3, mandam dizer-lhe, cheias de confiança.

Jesus procurou a amizade de todos os que encontrou pelos caminhos da Palestina. Aproveitava sempre o diálogo para chegar ao fundo das almas e cumulá-las de amor. E, além do seu infinito amor por todos os homens, ofereceu a sua amizade a pessoas bem determinadas: aos Apóstolos, a José de Arimatéia, a Nicodemos, a Lázaro e à sua família… Não negou ao próprio Judas o honroso título de amigo, precisamente no momento em que este o entregava às mãos dos seus inimigos. Estimava muito a amizade dos seus amigos; depois da tríplice negação, perguntará a Pedro: Amas-me?4, és meu amigo?, posso confiar em ti? E entrega-lhe a Igreja: Apascenta os meus cordeiros…, apascenta as minha ovelhas.

“Cristo, Cristo ressuscitado, é o companheiro, o Amigo. Um companheiro que se deixa ver apenas entre sombras, mas cuja realidade inunda toda a nossa vida e nos faz desejar a sua companhia definitiva”5. Ele, que compartilhou a nossa natureza, quer compartilhar também os nossos fardos: Eu vos aliviarei6, diz a todos. É o mesmo que deseja ardentemente que partilhemos da sua glória por toda a eternidade.

Jesus Cristo é o Amigo que nunca atraiçoa7; quando vamos vê-lo, falar-lhe, está sempre disponível, dá-nos as boas-vindas sempre com o mesmo calor, ainda que nos veja frios ou distraídos. Ele ajuda sempre, anima sempre, consola em qualquer ocasião.

II. A AMIZADE COM O SENHOR, que nasce e cresce pela oração e pela digna recepção dos sacramentos, faz-nos entender melhor o significado da amizade humana, que a Sagrada Escritura qualifica como um tesouro: Um amigo fiel é uma proteção poderosa; quem o achou descobriu um tesouro. Nada é comparável a um amigo fiel; seu preço é incalculável8.

Compreende-se bem que o trato diário e a amizade com Jesus Cristo nos aumentem a capacidade de ter amigos, pois fomentam em nós uma atitude aberta: a oração afina a alma e torna-a especialmente apta para compreender os outros, aumenta a generosidade, o otimismo, a cordialidade na convivência, a gratidão…, e essas virtudes facilitam ao cristão o caminho da amizade.

A verdadeira amizade é sempre desinteressada, pois consiste mais em dar do que em receber; não procura o proveito próprio, mas o do amigo: “O amigo verdadeiro não pode ter duas caras para o seu amigo; a amizade, se deve ser leal e sincera, exige renúncia, retidão, troca de favores, de serviços nobres e lícitos. O amigo é forte e sincero na medida em que, de acordo com a prudência sobrenatural, pensa generosamente nos outros, com sacrifício pessoal. Do amigo espera-se correspondência ao clima de confiança que se estabelece na verdadeira amizade; espera-se o reconhecimento do que somos e, quando necessário, a defesa clara e sem paliativos”9.

Para que haja uma amizade verdadeira, é necessário que o afeto e a benevolência sejam mútuos10. E então tenderá sempre a tornar-se mais forte: não se deixará corromper pela inveja, não arrefecerá pelas suspeitas, crescerá na dificuldade11, “até fazer sentir o amigo como outro eu. Por isso diz Santo Agostinho: Retratou bem o seu amigo aquele que o chamou metade da sua alma”12. Então compartilham-se com naturalidade as alegrias e as penas.

A amizade é um bem humano e, ao mesmo tempo, ocasião de desenvolver muitas virtudes humanas, porque cria “uma harmonia de sentimentos e gostos que prescinde do amor dos sentidos, desenvolvendo, por outro lado, até graus muito elevados, e mesmo até o heroísmo, a dedicação do amigo ao amigo. Pensamos – ensinava Paulo VI – que os encontros [...] são uma oportunidade para que as almas nobres e virtuosas gozem desta relação humana e cristã que se chama amizade. Ela pressupõe e desenvolve a generosidade, o desinteresse, a simpatia, a solidariedade e, especialmente, a possibilidade de sacrifícios mútuos”13.

O bom amigo não desaparece nas dificuldades, não atraiçoa; nunca fala mal do amigo nem permite que, quando ausente, seja criticado, porque toma a sua defesa. Amizade é sinceridade, confiança, compartilhar penas e alegrias, animar, consolar, ajudar com o exemplo.

III. AO LONGO DOS SÉCULOS, a amizade foi um caminho pelo qual muitos homens e mulheres se aproximaram de Deus e alcançaram o Céu. É um caminho natural e simples, que elimina muitos obstáculos e dificuldades. O Senhor conta com freqüência com esse meio para se dar a conhecer. Os primeiros que o conheceram foram comunicar a boa notícia àqueles que amavam. André trouxe Pedro, seu irmão; Filipe trouxe o seu amigo Natanael; e foi João com certeza quem levou ao Senhor o seu irmão Tiago…

Assim se difundiu a fé em Cristo na primitiva cristandade: através dos irmãos, de pais para filhos, de filhos para pais, do servo para o seu amo e vice-versa, de amigo para amigo. A amizade é uma base excepcional para dar a conhecer Cristo, porque é o meio natural de comunicar sentimentos, de partilhar confidências com os que estão junto de nós por razões de família, trabalho, inclinações…

É próprio da amizade dar ao amigo o melhor que se possui. O nosso valor mais alto, sem comparação possível, é termos encontrado o Senhor. Não teríamos verdadeira amizade pelos nossos amigos se não lhes comunicássemos o imenso dom que é a nossa fé cristã. Em cada um de nós, cristãos que queremos seguir o Senhor de perto, os nossos amigos devem encontrar apoio, fortaleza e um sentido sobrenatural para as suas vidas. A certeza de encontrarem em nós compreensão, interesse, atenção, animá-los-á a abrir o coração confiadamente, cientes de que são estimados, de que estamos dispostos a ajudá-los. E isto enquanto realizamos as nossas tarefas diárias, procurando ser exemplares na profissão ou no estudo, permanecendo abertos ao convívio com todos, movidos pela caridade.

A amizade leva-nos a iniciar os nossos amigos numa verdadeira vida cristã, se estão longe da Igreja, ou a fazê-los reempreender o caminho que um dia abandonaram, se deixaram de praticar a fé que receberam. Com paciência e constância, sem pressas, sem pausas, irão aproximando-se do Senhor, que os espera. Haverá ocasiões em que poderemos fazer juntamente com eles uns minutos de oração, praticar juntos uma obra de misericórdia visitando um doente ou uma pessoa necessitada; pedir-lhes que nos acompanhem numa breve visita a Jesus sacramentado… Quando for oportuno, falar-lhes-emos do sacramento da misericórdia divina, a Confissão, e os ajudaremos a preparar-se para recebê-lo.

Quantas confidências ao abrigo da amizade são caminhos abertos pelo Espírito Santo para um apostolado fecundo! “Essas palavras que tão a tempo deixas cair ao ouvido do amigo que vacila; a conversa orientadora que soubeste provocar oportunamente; e o conselho profissional que melhora o seu trabalho universitário; e a discreta indiscrição que te faz sugerir-lhe imprevistos horizontes de zelo… Tudo isso é «apostolado da confidência»”14.

O Senhor deseja que tenhamos muitos amigos porque o seu amor pelos homens é infinito e a nossa amizade é um instrumento para chegar a eles. Quantas pessoas com quem estamos em contacto todos os dias esperam, mesmo sem o perceberem, que lhes chegue a luz de Cristo! Que alegria de cada vez que um amigo nosso se torna amigo do Amigo!

Jesus, que passou fazendo o bem15 e conquistou o coração de tantas pessoas, é o nosso Modelo. Assim devemos nós passar pela família, pelo trabalho, pelos vizinhos, pelos amigos. Hoje é um dia oportuno para que nos perguntemos se as pessoas das nossas relações se sentem animadas pelo nosso exemplo e pela nossa palavra a aproximar-se do Senhor; se nos preocupamos pelas suas almas, se se pode dizer de verdade que, como Jesus, estamos passando pelas suas vidas fazendo o bem.

(1) Jo 15, 13-15; (2) Jo 13, 14; (3) Jo 11, 3; (4) Jo 21, 16; (5) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 116; (6) Mt 11, 28; (7) cfr. Josemaría Escrivá, Caminho, n. 88; (8) Eclo 6, 14; (9) Josemaría Escrivá, Carta, 11-III-1940, citado por J. Cardona, em Gran Enciclopedia, Rialp, voz Amistad II; (10) cfr. São Tomás, Suma Teológica, 2-2, q. 23, a. 1; (11) cfr. Beato Elredo, Trat. sobre la amistad espiritual, 3; (12) São Tomás, Suma Teológica, 2-2, q. 28, a. 1; (13) Paulo VI, Alocução, 26-VII-1978; (14) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 973; (15) At 10, 38.

Fonte: Falar com Deus


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Fé: Um Encontro com Cristo.

 

Por Pe. Francisco Faus.

No comentário de? ?Michel? ?Quoist sobre a fé,? ?citado na meditação? ?“Fé ou amor?”? (que se encontra nesta mesma seção dom site?)?,? ?víamos que esse autor,? ?depois de dizer que a fé é uma graça,? ?acrescenta que ela nos ajuda a? ?reencontrar uma pessoa viva,? ?Jesus Cristo,? ?e nos permite adquirir a? ?certeza de que Ele fala a Verdade.? ?Vamos refletir? ?agora? ?um pouco sobre isto.

Uma das cenas mais bonitas do Evangelho é a narração da cura de? ?um cego junto? ?em Jerusalém.? ?Andava certa vez Jesus pelas dependências externas do Templo de Jerusalém,? ?quando encontrou? ?incidentalmente um cego de nascença,? ?um rapaz que nunca tinha visto a luz,? ?que jamais se extasiara com as cores da natureza nem se comovera fitando um rosto amado.? ?Ao chegar perto dele,? ?Cristo exclamou:? ?Enquanto estou no mundo,? ?eu sou a luz do mundo.? ?E,? ?imediatamente,? ?realizou o milagre de lhe abrir os olhos.?

Foi-se o antigo cego,? ?deslumbrado pela beleza do mundo,? ?a rir e a contar a todos a sua felicidade.? ?Horas depois,? ?Cristo reencontrou-o e,? ?olhando-o com carinho,? ?sorriu,? ?enquanto lhe perguntava:? – ?Crês no Filho do homem??? O cego entendeu logo a pergunta? (?bem sabia que a expressão? “?Filho do homem?” ?era um título? ?usado pelo? ?profeta Daniel? ?para? ?designar o futuro Messias?) ?e respondeu:? – ?Quem é ele,? ?Senhor,? ?para que eu creia?? ?Disse-lhe Jesus:? – ?Tu o vês,? ?é o mesmo que fala contigo.? – ?Creio,? ?Senhor?! – ?disse ele.? ?E prostrando-se diante dele,? ?o adorou? ?(Jo? ?9,? ?1? ?e segs.?)?.?

Quem é ele,? ?Senhor?? ?Essa é a grande pergunta que todos nós deveríamos fazer.? ?Quem é Cristo?? ?Quem és Tu,? ?Senhor?? ?Porque são muitos os que falam de Cristo,? ?dizem que acreditam nEle e que o admiram,? ?mas muito poucos o conhecem de verdade.? ?Em vez de possuírem a verdadeira imagem de Cristo,? ?têm dEle uma idéia distorcida pela ignorância,? ?pela confusão de opiniões e pela fantasia.?

Com a ajuda da graça de Deus,? ?o primeiro passo da fé cristã deve ser? ?conhecer Cristo.

É muito importante perceber que o Cristianismo? – ?a fé cristã? – ?começou assim:? ?com um encontro alegre,? ?com o feliz deslumbramento produzido pelo encontro com Cristo.

Os primeiros discípulos de Jesus? – ?Pedro,? ?André,? ?João,? ?Tiago,? ?Filipe…? –?,? ?depois de estarem com Ele pela primeira vez,? ?num entardecer inesquecível à beira do rio Jordão,? ?foram,? ?irradiando felicidade? – ?com os olhos? ?brilhantes e a palavra ofegante pela emoção? – ?comunicar,? ?um ao irmão,? ?outro ao amigo,? ?a grande notícia:? – ?Encontramos o Messias? (?que quer dizer o Cristo?)! ?É Jesus de Nazaré?!? (Jo? ?1,? ?41.45?)?.

?“?Conhecer?” ?Cristo deixa uma marca indelével.? ?Descobrir? ?mesmo Cristo produz um deslumbramento inefável:? ?mete no coração uma luz que não se esgota,? ?uma vitalidade nova,? ?uma alegria que jamais envelhece.

São João,? ?um daqueles primeiros discípulos que víamos junto de Jesus,? ?muito tempo depois,? ?quando já estava com a idade de quase cem anos,? ?escreveu as lembranças do seu convívio com Nosso Senhor,? ?e nelas testemunhava com viço juvenil:? ?O que era desde o princípio? ?[Cristo,? ?o Verbo,? ?Deus e homem verdadeiro?]?,? ?o que ouvimos,? ?o que vimos com os nossos olhos,? ?o que contemplamos e as nossas mãos apalparam no tocante ao Verbo da vida? ?[...?]?,? ?nós vo-lo anunciamos,? ?para que também vós tenhais comunhão conosco? [?...?]?.? ?Escrevemo-vos estas coisas para que a vossa alegria seja completa? (?cf.? ?1? ?Jo? ?1,? ?1-4?)?.? ?João tinha tanta alegria dentro do peito que queria compartilhar com todos a sua fé transbordante de felicidade.

A nossa imagem de? ?Cristo

E nós?? ?É bem provável que,? ?a muitos de nós se possam aplicar as palavras do livro? ?Caminho:? “?Esse Cristo que tu vês não é Jesus.? – ?Será,? ?quando muito,? ?a triste imagem que podem formar teus olhos turvos…? – ?Purifica-te.? ?Clarifica o teu olhar com a humildade e a penitência.? ?Depois…? ?não te hão de faltar as luzes límpidas do Amor.? ?E terás uma visão perfeita.? ?A tua imagem será realmente a sua:? ?Ele?!”? (Caminho,? ?8? ?a.? ?edição,? ?Quadrante,? ?São Paulo,? ?1995,? ?n.? ?212?)?.

Nós não? “?vemos?” ?Jesus,? ?a maior parte das vezes,? ?devido à nossa ignorância,? ?porque pouco sabemos dEle.? ?Por isso,? ?far-nos-á bem reconhecer com? ?humildade:? “?Não sei quase nada.? ?Nunca me preocupei de conhecê-lo a sério?”?.? ?E,? ?penitenciando-nos por esse desinteresse,? ?que é uma falta de amor,? ?também nos fará bem acrescentar:? “?Sinto muito este descaso,? ?dói-me esta superficialidade,? ?este desleixo?”?.? ?Então,? ?surgirá sozinha dentro da nossa alma uma conclusão:? “?Preciso conhecê-lo,? ?e conhecê-lo a fundo?”?.? ?Mas,? ?como conseguirei??

Como?? ?Um bom roteiro é o que traçava? ?São Josemaria Escrivá:? “?Que procures Cristo.? ?Que encontres Cristo.? ?Que ames a Cristo.? – ?São três etapas claríssimas.? ?Tentaste,? ?pelo menos,? ?viver a primeira??? (Caminho,? ?n.? ?382.?)? Eis,? ?a seguir,? ?algumas sugestões que nos podem ajudar a percorrer essas etapas:?

* Ler todos os dias algum trecho? (?ainda que seja só uma página,? ?meia página,? ?durante cinco minutos?) ?do Evangelho,? ?do Novo Testamento.? ?Melhor se for numa hora fixa? – ?de manhã,? ?antes do trabalho,? ?ou antes do jantar,? ?por exemplo? –?,? ?lutando por adquirir esse bom hábito.

?* ?Procurar um bom livro? – ?do tipo? “?biografia?” – ?sobre a vida de Cristo,? ?e ir lendo-o devagar,? ?com o texto do Evangelho ao lado para conferir,? ?até fazermos uma idéia completa da vida de Jesus? (?Uma biografia excelente,? ?entre outras,? ?é:? ?J.? ?Pérez de Urbel,? ?A vida de Cristo,? ?2a.? ?ed.,? ?Quadrante,? ?São Paulo,? ?1998?)?;

* Depois de conhecer um pouco melhor a vida de Cristo,? ?de nos termos familiarizado mais com ela,? ?meditar as palavras e os atos de Nosso Senhor que os Evangelhos conservam.? ?Talvez a melhor maneira de fazê-lo seja a que também aconselhava? ?São Josemaria:? ?ler as passagens do Evangelho? “?metendo-nos nelas,? ?como um personagem mais?”; ?e então olhar para Cristo e pensar no seu exemplo e nas suas palavras como uma interpelação pessoal,? ?como se Ele se dirigisse a nós e esperasse a nossa resposta?; ?podemos estar certos de que? – ?dado que Cristo vive? – ?esse modo de proceder estará mais perto da realidade do que da imaginação? (?Ver a homilia? ?Vida de oração,? ?no livro? ?Amigos de Deus,? ?Quadrante,? ?São Paulo,? ?1979,? ?
págs.? ?203? ?e segs?)?.

?* ?Estudar a doutrina cristã sobre Nosso Senhor Jesus Cristo,? ?ou seja,? ?conhecer os aprofundamentos sobre o mistério de Jesus Cristo alcançados pelos grandes santos,? ?pelos místicos cristãos e pelos bons pastores e teólogos da Igreja?; ?por outras palavras,? ?a doutrina guardada,? ?aprofundada e transmitida pelo Magistério da Igreja ao longo de vinte séculos,? ?que é exposta de maneira clara e acessível nos Catecismos e em muitos bons livros de formação cristã? (?Ver o amplo? ?Catecismo da Igreja Católica,? ?Ed.? ?Vozes-Loyola,? ?São Paulo? ?1993,? ?ou,? ?pelo menos,? ?e o? ?Compêndio do Catecismo da Igreja Católica,? ?Ed.? ?Loyola,? ?São Paulo? ?2005?)?.

?* ?E,? ?ainda,? ?esforçar-nos por chegar à amizade com Cristo,? ?conversando com Ele freqüentemente? – ?em casa,? ?no quarto,? ?na rua,? ?no trânsito,? ?no trabalho,? ?em todo o lugar? –?,? ?de modo que a nossa amizade com Cristo se torne cada vez mais íntima.? ?Então,? ?o coração descobrirá coisas que a cabeça sozinha nunca seria capaz de perceber.?

Que devo fazer??

Outro que conheceu,? ?literalmente,? ?o? “?deslumbramento?” ?do encontro com Cristo foi São Paulo.? ?Ele mesmo nos conta a sua experiência.? ?Estava chegando à cidade de Damasco,? ?na Síria,? ?para onde me dirigi? – ?diz ele? –?,? ?com o fim de prender os? [?cristãos?] ?que lá se achassem e trazê-los a Jerusalém,? ?para que fossem castigados.

Ora,? ?estando eu em caminho,? ?e aproximando-me de Damasco,? ?pelo meio-dia,? ?de repente me cercou uma forte luz do céu.? ?Caí por terra e ouvi uma voz que me dizia:? ?Saulo,? ?Saulo,? ?por que me persegues?? ?Eu repliquei:? ?Quem és tu,? ?Senhor?? ?A voz disse-me:? ?Eu sou Jesus de Nazaré,? ?a quem tu persegues.? ?Os meus companheiros viram a luz,? ?mas não ouviram a voz que me falava.? ?Então eu disse:? ?Senhor,? ?que devo fazer?? ?(At? ?22,? ?5-10?)?.

Derrubado pela voz de Cristo,? ?literalmente deslumbrado pela graça da fé que lhe era concedida naquele momento,? ?São Paulo fez a pergunta da? “?autenticidade?”?:? ?Que devo fazer???

Também nós,? ?quando abraçamos sinceramente a fé em Cristo,? ?devemos dirigir-lhe esta pergunta:? ?Que devo fazer?? ?Senhor,? ?que queres que eu faça??

Víamos antes? – ?com palavras de Quoist? – ?que a fé em Jesus Cristo,? ?que nos permite adquirir a? ?certeza de que Ele fala a Verdade,? ?consiste,? ?na prática,? ?em? ?esposarmos o seu olhar e em? ?comprometer-nos em função desse olhar.? ?Duas coisas ressaltam destas? ?duas idéias sobre a fé.?

Primeira,? ?que,? ?para um cristão que? ?acredita mesmo,? ?a palavra e a vida de Cristo são a Verdade,? ?a Luz definitiva,? ?que esclarece,? ?ilumina e orienta todos os seus pensamentos,? ?palavras e ações:? ?Eu sou a luz do mundo?; ?aquele que me segue não andará nas trevas,? ?mas terá a luz da vida? (?Jo? ?8,? ?12?)?.

Segunda,? ?que essa luz não é teórica,? ?mas prática,? ?é? ?luz da vida?; ?de maneira que a fé só pode ser autêntica se for um? ?compromisso? ?de viver praticamente? ?em função do olhar de Cristo,? ?ou seja,? ?de acordo com a visão? ?que Ele tem,? ?e que Ele nos transmite,? ?sobre todas as coisas?; ?por outras palavras,? ?de acordo com as perspectivas concretas que a Verdade cristã nos dá.

Assim o expressa o Papa João Paulo II:? “?A fé? – ?escreve na Encíclica? ?Veritatis Splendor? (?ns.? ?88-89?) – ?é uma? ?decisão que compromete toda a existência.? ?É encontro,? ?diálogo,? ?comunhão de amor e de vida daquele que crê com Jesus Cristo,? ?Caminho,? ?Verdade e Vida.? ?Comporta um ato de intimidade e de abandono a Cristo,? ?fazendo-nos viver como Ele viveu,? ?ou seja,? ?no amor pleno a Deus e aos irmãos.? ?A fé inclui também um? ?compromisso coerente de vida,? ?comporta e aperfeiçoa o acolhimento e a observância dos mandamentos divinos?”?.

Uma luz e um compromisso

A alternativa,? ?para nós,? ?é clara:? ?ou levamos uma vida iluminada e guiada pela Verdade?; ?ou então caminhamos envoltos na penumbra,? ?no nevoeiro das nossas opiniões e palpites superficiais sobre o que é certo e o que é errado,? ?sobre os valores verdadeiros da existência,? ?sobre o papel da religião,? ?sobre o sentido do sexo,? ?da família,? ?da vida humana,? ?da ética no trabalho,? ?da responsabilidade em face da pobreza,? ?da ignorância,? ?do sofrimento,? ?da injustiça e de todas as chagas que afligem os nossos irmãos,? ?os homens.

Aquele que,? ?pela fé,? ?achou a Verdade de Cristo não pode fechar impunemente os olhos à sua luz.? ?Se o fizer por medo ou comodidade,? ?uma voz no íntimo da consciência lhe dirá que está fugindo,? ?mais ainda,? ?que está traindo.? ?Ter visto a Verdade compromete a agir.

Não caiamos,? ?pois,? ?na covardia de esquivar a pergunta de São Paulo:? ?Que devo fazer??? Nem as outras perguntas inseparáveis dessa:? ?Que devo pensar sobre os problemas da vida??? Que valores devo amar e defender??? Por que ideais devo pautar o meu comportamento,? ?todas as minhas opções e decisões??

Tais perguntas vão apresentar-se constantemente na nossa vida,? ?sob formas muito concretas,? ?levantando-nos delicadas questões de consciência.? ?Devemos compreender,? ?além disso,? ?que a nossa fé não é apenas uma questão pessoal,? ?com a qual se possa brincar,? ?dizendo:? “?É assunto meu?; ?se eu não acredito ou não pratico,? ?é coisa minha?; ?o que é que os outros têm a ver com isso??”

Isso é falso,? ?falsíssimo?! ?A fé não é nunca só? “?coisa minha?”?.? ?Os outros têm muitíssimo a ver.? ?Porque a luz? – ?ou as trevas? – ?que eu tiver na minha mente e no meu coração vão influir decisivamente no meu comportamento e,? ?portanto,? ?no meu exemplo?; ?nas minhas opiniões sobre os problemas da atualidade e,? ?portanto,? ?na opinião de outros,? ?que a minha vai influenciar?; ?no meu ideal de família e,? ?portanto,? ?no tipo de família pelo qual eu vou lutar?; ?no meu conceito de moral e de justiça no trabalho,? ?e,? ?portanto,? ?no meu modo de trabalhar,? ?servindo a sociedade ou atropelando tudo e todos com a minha ânsia de vantagens pessoais?; ?no modo como assumo a ajuda ao próximo? – ?ao meu irmão necessitado,? ?aos problemas sociais? – ?ou lhe viro as costas?; ?nas posições que eu adote sobre o valor da vida humana desde o seu nascimento até ao seu término natural? (?aborto,? ?eutanásia?)?,? ?etc.,? ?etc.

O? “?tipo?” ?de fé que nós tivermos e praticarmos terá muitíssima influência? – ?muito mais do que agora imaginamos? – ?no presente e no futuro da nossa vida pessoal,? ?familiar,? ?profissional e social.? ?Por isso,? ?a responsabilidade pelo nosso? “?compromisso?” ?cristão é grande.? ?Só uma pessoa
inconsciente ou infantilizada pode ficar contornando essas questões.? ?Daí que? ?a formação cristã não seja um luxo,? ?mas uma necessidade:? ?é preciso ter luz,? ?para poder caminhar na luz? (?cf.? ?1? ?Jo? ?1,? ?7?)?.?

Caminhando à luz da fé

É necessária a? ?formação cristã,? ?porque precisamos de idéias claras e respostas claras para cada situação e cada problema.? ?Não só precisamos da formação intelectual? – ?ou seja,? ?do conhecimento da doutrina de que falávamos antes? –?,? ?mas da formação prática,? ?da aplicação da doutrina à vida.? ?Não podemos ser? – ?para usar uma imagem de? ?São Josemaria Escrivá? – ?como os que? “?passam pela vida como por um túnel,? ?e não compreendem o esplendor e a segurança e o calor do sol da fé?”? (Caminho,? ?n.? ?575?)?.? ?Têm fé teórica,? ?têm algumas idéias religiosas,? ?mas essas permanecem tão fora da vida como os raios do sol estão fora do túnel.

Em cada dia há muitas ocasiões de ver e de seguir a luz de Cristo? – ?aquele que me segue não andará nas trevas? – ?ou de perder-nos dentro de um túnel.

Basta que imaginemos uma jornada qualquer da nossa vida,? ?com muitas situações rotineiras e alguns fatos inesperados.? ?Cristo está ao nosso lado,? ?desde que acordamos?; ?e começam a aparecer as circunstâncias em que nos pede que vivamos a coerência cristã:

?* ?Perante a ira provocada pela indelicadeza de um irmão,? ?lá em casa,? ?quando pegávamos a mochila para ir à escola,? ?Cristo lança um raio de luz clara:? “?Perdoe-o,? ?não se canse de perdoar,? ?assim como eu não me canso de perdoar você?” (?cf.? ?Mt? ?18,? ?21-22?)?.

?* ?Chegamos à escola,? ?e damos de cara com o colega ou a colega de quem menos gostamos?; ?não simpatizamos com ele ou com ela nem um pouquinho,? ?e julgamos ter motivos para isso.? ?A luz da fé aquece o nosso coração,? ?e é como se a voz de Cristo sussurrasse:? “?Você sabe que deve esforçar-se por? ?amar o seu próximo como a si mesmo,? ?ainda que não seja seu amigo,? ?mesmo que seja seu inimigo,? ?mesmo que se tenha comportado mal com você?” (?cf.? ?Lc? ?10,? ?27?; ?Mt? ?5,? ?44?)?.

?* ?Ao sair para ir à lanchonete,? ?num intervalo,? ?o rapaz é abordado por uma colega,? ?conhecida por ser uma menina? “?liberada?” (?outros dão-lhe um nome dife-rente?)?,? ?que lhe sugere verem depois,? ?voltando da escola,? ?pornografias novas na Internet,? ?e,? ?de passagem,? ?programarem para domingo uma? ?plano indecente.? ?Logo a luz brilhante da fé e o amor ao seu compromisso cristão lembram ao rapaz:? “?Você bem sabe? – ?e você vibra de alegria ao pensar nisso? – ?que o seu corpo é templo de Deus,? ?que o corpo não é para a impureza,? ?mas para o Senhor,? ?para os amores nobres e limpos que desabrocham no grande ideal cristão do Matrimônio e da família.? ?Não profane nem o seu corpo nem o seu amor?” (?cf.? ?Mt? ?5,? ?27-28?; ?1? ?Cor? ?6,? ?15-20?)?.

?* ?Chegamos a casa,? ?no fim das aulas,? ?e a preguiça formiga no corpo todo.? ?Que vontade de tirar uma soneca ou,? ?pelo menos,? ?de deitar-se na cama,? ?embalados? – ?ou eletrizados? – ?pelo som de um CD?! ?O estudo…,? ?bem,? ?o estudo…,? ?que espere…? ?Pois também aí a fé bem formada nos faz chegar um raio de luz,? ?e sentimos que o próprio Cristo nos recorda que amor e dever estão muito ligados,? ?ao mesmo tempo que nos anima a ser generosos,? ?a oferecer-lhe com carinho o trabalho feito com a maior perfeição possível e a carregar com garbo,? ?com um sorriso,? ?a nossa cruz de cada dia? (?cf.? ?Mt? ?16,? ?24-25?)?.

?* ?Pronto.? ?Já estudamos durante duas horas e meia? (?com distrações e vários? “?passeios da preguiça?” ?pelo apartamento,? ?certamente?; ?mas,? ?enfim,? ?estudamos?)?.? ?Agora,? ?sim,? ?é a hora de submergir na televisão e desligar de tudo o mais.? ?Mas o coração sabe que há uma ajuda a prestar ao pai,? ?à mãe,? ?a um irmão que anda fraco nos estudos.? ?O egoísmo range e reclama…? ?Mas o bom coração sente remorsos…? ?E então Cristo nos ajuda a lembrar-nos de que? ?servir e dar a vida pelos outros,? ?como Ele fez por nós,? ?é um maravilhoso ideal que a fé acendeu na nossa alma? (?cf.? ?Mt? ?20,? ?25-28?; ?Jo? ?13,? ?12-17?)?…

Situações comuns,? ?no dia vulgar de um estudante.? ?Certamente,? ?a fé é uma luz clara para essas situações corriqueiras?; ?e,? ?do mesmo modo,? ?também virá a ser uma luz clara para as novas situações comuns? – ?um pouco mais complexas? –?,? ?que surgirem no futuro,? ?quando,? ?já adultos,? ?tivermos que assumir as grandes responsabilidades da vida.? ?E igualmente a fé será luz,? ?a grande luz que esclarece,? ?fortalece e consola,? ?quando vierem? – ?sempre vêm algumas? – ?as situações incomuns,? ?as circunstâncias difíceis em que batem à porta o sofrimento,? ?a incompreensão,? ?a injustiça,? ?a doença e a morte.? ?Só a fé bem vivida nos tornará capazes de lhes dar sentido e de manter-nos na paz.

A experiência indica que,? ?conforme seja a força da fé com que encaramos as circunstâncias normais do dia-a-dia,? ?assim será a fé com que saberemos encarar? – ?quando for o caso? – ?as grandes lutas,? ?os grandes empreendimentos,? ?os grandes desafios.

Fé autêntica e formação,? ?como vemos,? ?são inseparáveis.? ?Pois só a formação cristã séria,? ?progressiva,? ?constante,? ?pode dar-nos condições de viver coerentemente com a nossa fé.

Dizíamos há pouco que a formação não é um luxo.? ?Vale a pena frisá-lo de novo,? ?e incentivar? – ?quando já estamos chegando ao final destas páginas? – ?a Mônica,? ?o Eduardo e tantos outros rapazes e moças,? ?a decidir-se,? ?neste momento privilegiado da vida que é a juventude,? ?a levar a sério a sua formação cristã:? ?estudando a fundo a doutrina católica,? ?lendo e meditando a Sagrada Escritura e bons livros de formação e espiritualidade,? ?consultando as suas dúvidas e incertezas com quem os possa ajudar,? ?procurando uma direção espiritual pessoal que os auxilie,? ?para verem onde precisam lutar,? ?como deveriam rezar,? ?o que deveriam corrigir,? ?onde lhes faz falta melhorar,? ?como poderiam dar-se mais aos outros,? ?que virtude está sendo mais necessária,? ?que qualidade é preciso desenvolver…?; ?e que,? ?ao mesmo tempo,? ?os oriente sobre os meios necessários? (?Sacramentos,? ?oração,? ?sacrifícios,? ?planos espirituais,? ?obras de caridade,? ?etc.?) ?para lutar e vencer de maneira eficaz,? ?secundando a ação do Espírito Santo na alma.

Formação?! “?Durante a vida inteira? – ?dizia Gregorio Marañón? –?,? ?nós seremos o que formos capazes de ser desde jovens?”? (Ensayos liberales,? ?6a.? ?ed.,? ?Austral,? ?Madrid,? ?1966,? ?pág.? ?79?)?.

Sim,? ?a vida inteira vai depender da autenticidade do ideal humano e c
ristão que formos capazes de procurar,? ?assumir e seguir na juventude.? ?A vida inteira dependerá do que formos capazes de fazer com a nossa liberdade,? ?esse navio aberto a toda a rosa dos ventos,? ?que agora? – ?na juventude? – ?está à espera de uma bússola e de um Norte.? ?A vida inteira dependerá da coragem sincera com que formos capazes agora de procurar a luz da fé,? ?e de segui-la,? ?uma vez encontrada.? ?A nossa vida inteira dependerá disso tudo…,? ?e disso também dependerão muitas outras vidas,? ?que os dias,? ?os meses e os anos irão ligando à nossa.

Vel a pena terminar esta nossa meditação recordando? ?umas palavras muito sugestivas de João Paulo II.? ?São declarações do Papa ao jornal francês? ?La Croix,? ?de? ?20.08.1997,? ?logo depois de ter participado,? ?em Paris,? ?das XII Jornadas Mundiais da Juventude:

?“?Os jovens trazem consigo um ideal de vida?; ?têm sede de felicidade.? ?Pela sua atuação e pelo seu entusiasmo,? ?os jovens lembram-nos que a vida não pode ser simplesmente uma procura de riqueza,? ?de bem-estar,? ?de honrarias.? ?Eles nos revelam uma aspiração mais profunda,? ?que todo homem carrega dentro de si,? ?um desejo de vida interior e de encontro com o Senhor,? ?que bate à porta do nosso coração para nos dar a sua vida e o seu amor.? ?Somente Deus pode preencher o desejo do homem.? ?Só nEle é que os valores fundamentais encontram a sua origem e o seu sentido último.? ?Nem todas as opções valem a mesma coisa,? ?ainda que,? ?segundo a mentalidade dominante,? «?tudo seja válido?»?,? ?independentemente do sentido moral dos atos.? ?Os jovens são arrastados às vezes nessa confusão,? ?mas sabem reagir?; ?não cessam de dizer-nos que esperam de nós,? ?os adultos,? ?uma vida reta e bela?”?.

E que espera o Papa dos jovens?? – ?perguntava o jornal.? “?Espero deles que mobilizem a sua generosidade,? ?a sua inteligência e a sua energia para tornarem o mundo mais acolhedor para todos?; ?que se ponham a serviço da felicidade e da dignidade dos seus irmãos e irmãs?; ?que saibam que dar-se aos outros será para eles o modo de alcançarem o seu pleno desenvolvimento.? ?Espero dos jovens cristãos que descubram cada vez mais? «?a largura,? ?e a longitude,? ?a altura e a profundidade?» ?do mistério de Cristo? (?Ef? ?3,? ?18?) ?e a beleza da sua condição de filhos de Deus?; ?que desempenhem plenamente o seu papel ativo e responsável na Igreja e na sociedade?; ?que sejam testemunhas convincentes do Amor com que Deus nos ama,? ?fazendo eles próprios da sua vida um dom?”?.

?(?Adaptação de um trecho do livro de F.? ?Faus:? ?Autenticidade? & ?Cia?)

Fonte: padrefaus.org


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Fé ou Amor ?

 

Por Pe. Francisco Faus.

Fé e amor em debate

No início da década de setenta, num período em que fermentavam as crises e revoluções sociais, ideológicas e religiosas, dois intelectuais católicos franceses – o filósofo Jean Guitton e o jornalista converso André Frossard – mantiveram um diálogo aberto sobre problemas de atualidade, ao longo de vários programas radiofônicos. O diálogo era aberto porque, como hoje é tão comum na televisão, os ouvintes participavam, manifestando – no caso, por escrito – as suas opiniões.

Num dos programas, Guitton começou dizendo: “Em uma das nossas conversas anteriores, abordávamos o problema da fé, e já recebi muitas cartas a esse respeito. Um dos meus correspondentes escrevia: «André Frossard e o Sr. falaram da crise da fé; mas o essencial não é um problema de fé, e sim um problema de amor. Não importa tanto saber se se tem ou não se tem fé; trata-se de saber se se ama»…”

Penso que muitos dos jovens atuais, mesmo católicos, concordariam plenamente com a opinião desse rapaz. Não hesitariam em afirmar que o que nos faz bons e autênticos é, acima de tudo, amar, independentemente de crermos ou não, de termos esta ou aquela fé. Tanto faz a religião que cada qual tem – diriam –, o importante é amar, é ter amor e dar amor.

Para quem leia o Evangelho, não há dúvida de que Cristo dá a primazia absoluta ao amor: O primeiro de todos os mandamentos – ensina Jesus – é este: amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças. Eis o segundo: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior do que estes, não existe (Mc 12, 29-31).

Então, como se explica que Frossard, bom conhecedor do Evangelho, comentasse a seguir naquele programa? “No Evangelho, o que Deus mais admira, o que provoca a admiração de Cristo, é, sobretudo, precisamente a fé. Chega a dizer, com uma espécie de espanto [ao ver a fé do centurião romano que pede a cura do seu servo]: «Nunca tinha visto tamanha fé em Israel». Essa fé faz parte das virtudes teologais e não pode ser separada do amor”.

Na mesma linha, Guitton reforçou: “Se tivesse que escolher entre a fé e o amor, creio que daria preferência à fé. Partindo da fé, estou persuadido de que encontraria o amor, sem as falsas ilusões nem os equívocos que costumam acompanhá-lo”. E acrescentou ainda: “Entre a fé e o amor há uma corrente de força e de luz, que faz com que o verdadeiro amor leve à fé, e a verdadeira fé leve ao amor”(Revista Palabra, Madrid, maio de 1971, pág. 9.).

Esses comentários não são nenhuma tolice. Pelo contrário, apontam para questões decisivas, muito delicadas, em que é fácil derrapar sem perceber, com conseqüências desastrosas; questões de que depende precisamente a autenticidade da bondade e da fé. Por isso, interessa-nos refletir com um pouco de calma a esse respeito.

A fé abre a porta ao amor

Tanto Guitton como Frossard partem da base de que a fé precede o amor, mais concretamente, de que a fé é uma condição para podermos amar com um amor autêntico.

Para entender exatamente o que querem dizer, é preciso ter presente que se trata de dois católicos inteligentes e cultos. Portanto, a noção de fé que eles possuem não é um conceito infantil, vago ou confuso. Pelo contrário, têm a noção clara e precisa que deveria ter todo e qualquer católico que conheça ao menos o catecismo da primeira comunhão, a mesma noção que nos expõe o Catecismo da Igreja Católica: “A fé é primeiramente uma adesão pessoal do homem a Deus; é ao mesmo tempo, e inseparavelmente, o assentimento livre a toda a verdade que Deus revelou” (n. 150).

Por outras palavras: ter fé é, antes de mais nada, crer em Deus: crer que Deus existe, que é Alguém que pode ser encontrado, conhecido e amado, e aderir pessoalmente a Ele; e depois disso, ter fé é aceitar, assentir às verdades que Deus revelou – que nos manifestou claramente – sobre Si mesmo, sobre o sentido da vida humana, sobre os valores da existência, sobre a nossa missão na terra, sobre o bem e o mal, sobre a verdadeira religião, etc.

Sabendo que a fé é isso, uma pessoa de boa vontade chega facilmente a duas conclusões:

* Primeira: como bem sabemos, só podemos amar a quem conhecemos. Ninguém ama de verdade um desconhecido – um nome lido por acaso na lista telefônica –, nem uma figura puramente imaginária. Em contrapartida, podemos amar e admirar de verdade uma pessoa das nossas relações, que conhecemos bem; e também uma pessoa que nunca vimos, mas que conhecemos a fundo, como se a tivéssemos visto, por referências, leituras e outras informações objetivas. Aplicando este raciocínio ao amor de Deus, está claro que só podemos amar a Deus de verdade se o conhecemos bem. E um cristão sabe que só o conhecemos bem se sabemos o que Ele nos manifestou acerca de si mesmo por meio de Jesus Cristo: Ninguém jamais viu a Deus. O Filho único [Jesus], que está no seio do Pai, foi quem o revelou (Jo 1, 18).

* Segunda: Deus revelou-nos – sobretudo pelos ensinamentos de Cristo – o verdadeiro bem e o verdadeiro mal, os valores certos da vida, os caminhos da bem-aventurança, da felicidade terrena e eterna, ou seja, da autêntica realização humana, individual e social. Ora, ninguém pode negar que é impossível amar o próximo de verdade se não sabemos o que é bom para ele, pois amar é querer bem, querer o bem da pessoa amada. Mas como poderemos proporcionar aos outros o verdadeiro bem se o ignoramos?

Tudo isto evidencia que primeiro deve vir o conhecimento – que nos é dado sobretudo pela fé em Jesus Cristo –, e só depois pode vir o amor. Neste sentido, os dois intelectuais franceses tinham razão.

Por não perceber isso é que muitas pessoas de muito boa vontade e muito pouca doutrina tropeçam e se afundam. Querem uma religião “autêntica”, sem as “firulas” – assim falam às vezes – das doutrinas, dos dogmas, dos ensinamentos da Igreja; querem uma fé “sincera”, de coração, com “pouca teoria e muito amor”. Na realidade, padecem de um vácuo de fé, de uma ignorância leviana, que os leva a amar mal – e a causar até um grande mal aos outros – ou a não amar em absoluto. É desse modo que se forja a triste inautenticidade de tantos “autênticos”.

Fé e “fés”

Talvez os esclarecimentos anteriores se destaquem mais se os colocarmos contra o pano de fundo das “fés que não são a fé”; por assim dizer, das fés falsas, que parecem ouro, mas são barro.

Vejamos um bom elenco dessas “fés” inautênticas, em confronto com a fé verdadeira, feito por um escritor cristão, Michel Quoist:

“A fé não é:

* uma impressão ou um sentimento;

* uma certa forma de otimismo em face da vida;

* a satisfação de uma necessidade de segurança.

“Também não é:

* uma opinião;

* uma simples regra de bom comportamento moral;

* uma convicção baseada apenas no raciocínio;

* uma evidência científica;

* um hábito social, fruto da educação.

“A fé é, em primeiro lugar, uma graça (recebida em germe no batismo), quer dizer, um dom de Deus. Essa graça ajuda-nos a reencontrar uma pessoa viva, Jesus Cristo; permite-nos
adquirir a certeza de que Ele fala a Verdade, de que o seu testemunho – palavra e vida – é exato. Com a força dessa certeza, a fé consiste então em esposar o seu olhar, a sua visão de nós mesmos, dos outros, das coisas, da humanidade, da história, do universo, do próprio Deus, e comprometer-se em função desse olhar” (Michel Quoist, Réussir, Les Éditions Ouvrières, Paris, 1961, pág. 201).

Comentemos, por enquanto, só a primeira parte desse texto. O autor começa dizendo o que a fé “não é”. Não custa muito perceber que isso – o que a fé “não é” – coincide exatamente com o que grande quantidade de jovens e menos jovens acham que “é” a fé, pelo menos a “fé” deles.

Para bastantes deles, com efeito, a fé não passa de um sentimento; ou então é uma simples opinião pessoal, uma crença que cada qual escolhe, não se sabe bem como, ou, melhor, sabe-se, sim: de acordo com os seus interesses.

A pseudofé dessas pessoas parece-se muito com o mitológico leito de Procusto, o estalajadeiro grego que tinha na hospedaria uma cama-padrão. Se o hóspede era mais comprido do que o leito, serrava-lhe o que sobrava das pernas e deixava-o esvaindo-se em sangue; se era baixinho, esticava-o pela cabeça e pelos pés até torná-lo do tamanho do leito, mesmo que com isso acabasse com a vida do coitado. O importante era “adaptar” todo o mundo ao formato do leito.

Da mesma forma, bastantes, que se julgam autênticos, só aceitam as verdades religiosas e morais se se “adaptam” – mesmo que seja deturpando-as, reta-lhando-as, arrancando-lhes pedaços vitais – ao formato do leito do seu comodismo, da sua sensualidade, da sua ambição, da sua cupidez…, quer dizer, ao formato dos seus sete pecados capitais, que eles não estão dispostos a combater.

Por isso, se há, por exemplo, um preceito da Igreja que, concretizando o terceiro mandamento da Lei de Deus, manda ir à Missa aos domingos e dias santos, eles acharão “careta” levá-lo a sério. Tal preceito só seria autêntico se se adaptasse ao leito de Procusto da sua moleza, dos seus planos de fim de semana, dos seus gostos e do seu prazer. Não se adapta? Corta!

Se, para pôr outro exemplo, o sexto e o nono mandamentos da Lei de Deus ordenam que se respeitem amorosamente os planos divinos nas coisas relativas ao sexo – à faculdade de transmitir a vida humana –, eles vão rir-se desse “plano divino” – dentro do qual justamente se ilumina o valor da castidade e da fidelidade – e dirão que o sexo é para gozar (como a cerveja, o sorvete, a coca-cola, a praia e as drogas) e que o resto são histórias.

Em conseqüência dessa mentalidade, o “deus” deles – tal como a religião deles – é um falso “deus” plástico, ajeitado, domesticado, moldado pelos dedos do egoísmo, da condescendência, da vida fácil, do consumismo, do prazer, do descompromisso…; em suma, um “deus” falsificado que se adapta ao leito de Procusto da sua falsíssima autenticidade. Não é, absolutamente, o Deus vivo e verdadeiro (1 Tess 1, 9). É somente um ídolo, obra das suas mãos (Salmo 135, 15).

Uma graça e uma boa disposição

O autor acima citado, além de dizer aquilo que a fé não é, comenta também o que é. Digo que “comenta”, porque usa palavras simples, conversacionais, sem pretender formular uma definição teológica. Começa essa parte – como víamos – com uma afirmação categórica: “A fé é, em primeiro lugar, uma graça, quer dizer, um dom de Deus”.

É coisa que muitos esquecem e, por isso, são poucos os que rezam, pedindo a Deus a fé, ou o aumento da fé, que tanta falta lhes faz; e também são poucos os que procuram ter a alma preparada para recebê-la, purificando-a dos obstáculos que bloqueiam a recepção da fé.

O principal desses obstáculos é a má disposição do coração, mais ou menos consciente. Geralmente, é a má vontade que nos leva a não querer ouvir falar de Deus, a manter uma voluntária indiferença, a não querer “saber” das coisas de Deus, para não termos que incomodar-nos, corrigir-nos, comprometer-nos e mudar.

Mas, quer queiramos ouvi-lo quer não, Deus fala-nos, e fala claro. Abramos a Bíblia, mesmo que seja ao acaso. Logo perceberemos que Deus nos procura sem cessar; que se dirige de mil modos a cada um de nós; que se “abre” conosco, oferecendo-nos o seu amor; que nos quer salvar, enviando-nos e entregando-nos, para isso, o seu Filho, Jesus Cristo. Como diz o autor da Carta aos Hebreus: Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas; ultimamente falou-nos pelo seu Filho (Hebr 1, 1-2).

Falou-nos pelo Filho. Jesus Cristo, desde o seu nascimento em Belém, “fala”, não cessa de falar. Fala com o seu exemplo, fala com a sua palavra, fala, por meio do Espírito Santo, dentro do nosso coração. Ele é a verdadeira Luz que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem (Jo 1, 9). É a luz que resplandece nas trevas, apesar de que, muitas vezes, as trevas não o recebam (cf. Jo 1, 5).

Mas, como Ele próprio dizia – e já Isaías profetizara antes –, há muitos que, diante dEle e das suas palavras, vendo não vêem, e ouvindo não ouvem (cf. Lc 8, 10). Por quê? Porque o seu coração se endureceu: taparam os seus ouvidos, e fecharam os seus olhos, para que os seus olhos não vejam, e os seus ouvidos não ouçam, nem o seu coração compreenda; para que não se convertam e eu os sare (Mt 13, 15). E, se nos perguntarmos ainda por que fizeram isso, Jesus dir-nos-á mais: Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas aquele que pratica a verdade [nós diríamos, o “homem autêntico e sincero”] vem para a luz (Jo 3, 20-21).

Só quem é sincero, reto e bom (Lc 8, 15), é capaz de abrir os olhos e o coração a Deus.

Mas, e quando já existe essa boa disposição? Isso vale muito, mas não basta. Temos que compreender que as verdades que Deus nos revelou são de uma grandeza tão indizível, de uma claridade tão intensa e deslumbrante, que os olhos da mente – as forças da razão humana – não são capazes de captá-las plenamente, de abrangê-las até ao fim. É uma coisa análoga à que acontece com a luz do sol: certamente um cego não a pode ver, porque carece de toda a capacidade visual; mas também não consegue vê-la quem tem boa vista, se encara o sol diretamente, devido ao excesso de luminosidade; não é que lhe falte capacidade visual; é que essa capacidade é limitada, e não suporta uma luz tão forte.

Há verdades referentes a Deus que não excedem a capacidade visual da nossa razão (por exemplo, chegar à conclusão de que Deus existe, é criador, é bom, etc.). Mas há outras muitas que a ultrapassam (como o conhecimento dos desígnios e planos de Deus sobre a Redenção do mundo, a vida íntima da Santíssima Trindade, o mistério de Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, etc.). Para podermos “ver” essas realidades, precisamos de outra “visão” mais poderosa. Pois bem, essa nova potência visual é justamente a que a graça da fé comunica à alma; é como se Deus nos emprestasse os seus próprios olhos.

“Poderia talvez comparar-se a alma cristã – escreve Boylan – a um piloto que voa às cegas, que segue o rumo e as ordens pelo rádio. Tem de estar equipado com um aparelho receptor devidamente sintonizado [...]. A alma cristã está em situação semelhante. Precisa de um equipamento sobrenatural para receber e acatar a direção de Deus com certeza e confiança” (E. Boylan, Amor sublime, União Gráfica, Lisboa, 1955, págs. 84-85).

Se procurarmos “ver a Deus??
?, com coração puro e vontade sincera (cf. Mt 5, 8), Cristo tocará os olhos da nossa alma, como tocou os do cego Bartimeu; conceder-nos-á a graça da fé e nos dirá: “Vê!”… No mesmo instante, ele recuperou a vista e foi seguindo Jesus pelo caminho (Mc 10, 52).

(Trecho do livro de F. Faus: Autenticidade & Cia)

Fonte: padrefaus.org


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