Sunday, 20 of May of 2012

Tag » eucaristia

Penhor de Vida Eterna

MEDITAÇÕES SOBRE A SAGRADA EUCARISTIA.

SÉTIMA MEDITAÇÃO

47. PENHOR DE VIDA ETERNA

– Uma antecipação do Céu.

– Participação na vida que nunca acaba.

– Maria e a Eucaristia.

I. IESU, QUEM VELATUM nunc aspicio… “Jesus, a quem contemplo escondido, rogo-Vos se cumpra o que tanto desejo: que, ao contemplar-Vos face a face, seja eu feliz vendo a vossa glória. Amém”1.

Um dia, pela misericórdia divina, veremos Jesus cara a cara, sem véu algum, tal como está no Céu, com o seu Corpo glorificado, com os sinais dos cravos, com o seu olhar amável, com o seu rosto acolhedor de sempre. Distingui-lo-emos imediatamente, e Ele nos reconhecerá e virá ao nosso encontro, depois de tanta espera.

Mas encontramo-lo já agora, escondido, oculto aos sentidos, nas mil situações da vida diária: no trabalho profissional, nos pequenos serviços que prestamos aos que estão junto de nós, em todos os que compartilham conosco a mesma fadiga e as mesmas alegrias… Encontramo-lo sobretudo na Sagrada Eucaristia, onde nos espera e se entrega inteiramente a cada um de nós, numa antecipação da glória do Céu, quando comungamos. Adoramo-lo dentro do nosso peito, e então tomamos parte na liturgia que se celebra na Jerusalém celestial, para a qual nos dirigimos como peregrinos e onde Cristo está sentado à direita de Deus Pai; e unimo-nos ao coro dos anjos que o louvam eternamente no Céu, pois o sacramento da Eucaristia “conjuga o tempo e a eternidade”2.

A Sagrada Eucaristia é uma garantia do amor que nos aguarda; nela “recebemos um penhor da glória futura”3. Dá-nos forças e consolo, mantém viva a recordação de Jesus, é o viático, o “farnel” necessário para percorrermos o caminho, que por vezes pode tornar-se íngreme. “A Igreja, ao anunciar na celebração eucarística a morte do Senhor, proclama também a sua vinda. É um anúncio dirigido ao mundo e aos seus próprios filhos, quer dizer, a si mesma”4. Os nossos corpos, pela recepção deste sacramento, “deixam de ser corruptíveis e passam a possuir a esperança da ressurreição para sempre”5. O Senhor revelou-o claramente na sinagoga de Cafarnaum: Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e Eu o ressuscitarei no último dia6.

Jesus, a quem agora contemplamos escondido – Iesu quem velatum nunc aspicio… –, não quis esperar pelo encontro definitivo, que acontecerá depois da jornada de trabalhos aqui na terra, para se unir intimamente conosco. Agora, no Santíssimo Sacramento, permite-nos entrever o que será a bem-aventurança no Céu. “Está no Sacrário como por trás de um muro, e dali nos olha como através de estreitas grades (Cant 2, 9). Ainda que se oculte aos nossos olhos, está realmente presente para ficar ao nosso alcance; oculta-se para se fazer desejar. E enquanto não chegarmos à pátria celestial, quer dar-se por inteiro e viver completamente unido a nós”7.

II. COM FREQÜÊNCIA, O SENHOR ensina-nos no Evangelho que muitas das coisas que consideramos reais e definitivas são simples imagens ou cópias das que nos aguardam no Céu. Cristo é a verdadeira realidade, e o Céu é a Vida autêntica e definitiva, a felicidade eterna, aquela que realmente tem conteúdo, comparada com a qual a felicidade desta vida não é senão um mau sonho. Quando o Senhor nos diz: Quem comer deste pão viverá eternamente8, refere-se a um Alimento por excelência e a uma Vida que nunca acaba e que é a plenitude do existir.

Para agradecermos de todo o coração a imensa dádiva que é a presença de Jesus Cristo na Sagrada Eucaristia, pensemos que Ele se entrega a cada um de nós como Vida definitiva, como antecipação daquela que teremos um dia para sempre na eternidade. Perante esta consideração, “toda a agitação e estrépito das ruas, todas as grandes fábricas que dominam as nossas paisagens – escreve R. Knox –, não passam de ecos e sombras, se nelas pensarmos por um momento à luz da eternidade; a realidade está aqui, sobre o altar, nessa parte dele que os nossos olhos não podem ver nem os nossos sentidos distinguir. O epitáfio colocado sobre o túmulo do Cardeal Newman deveria ser o de todo o católico: Ex umbris et imaginibus in veritatem, das sombras e aparências até à verdade. Quando a morte nos levar deste mundo, o efeito não será o de uma pessoa que dorme e tem sonhos, mas o de alguém que desperta de um sonho para a plena luz do dia. Neste mundo, estamos tão cercados pelas coisas sensíveis, que as tomamos como realidades absolutas. Mas de vez em quando temos um clarão de luz que corrige essa perspectiva errônea. E, sobretudo, quando vemos o Santíssimo Sacramento entronizado, devemos olhar para esse disco branco que brilha no ostensório como se fosse uma janela através da qual, por um momento, chega até aqui a luz do outro mundo”9, Aquele que contém toda a plenitude.

Quando contemplamos a Sagrada Hóstia no altar ou no ostensório, vemos o próprio Cristo que nos anima a viver na terra com os olhos postos no Céu, Aquele que um dia veremos glorioso, rodeado pelos anjos e pelos santos. Aqui na terra, é Cristo em pessoa quem acolhe o homem, maltratado pelas asperezas do caminho, e o conforta com o calor da sua compreensão e do seu amor. Na Eucaristia, encontram a sua plena realização aquelas dulcíssimas palavras: Vinde a mim todos os que estais fatigados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei10. Este alívio pessoal e profundo, que é o único remédio verdadeiro para todas as nossas fadigas pelos caminhos do mundo, podemos encontrá-lo – ao menos como participação e antecipação – nesse Pão divino que Cristo nos oferece na mesa eucarística11. Não deixemos de recebê-lo como merece, pensando no Céu.

III. JUNTO DE JESUS encontramos sempre Nossa Senhora: no Céu e aqui na terra, na Sagrada Eucaristia. Os Atos dos Apóstolos referem que, depois da Ascensão de Jesus ao Céu, Maria se encontrava junto dos Apóstolos, unida a eles – exercendo já o seu ofício de Mãe da Igreja – na oração e na fração do pão12, isto é, “comungando no meio dos fiéis com o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade do seu próprio Filho [...]. Maria reconhecia no Cristo da Missa e das suas comunhões eucarísticas o Cristo de todos os mistérios da Redenção. Que olhar humano ousaria medir as profundezas da intimidade em que a alma da Mãe e a do Filho voltavam a encontrar-se na Eucaristia?”13Como seriam as comunhões de Nossa Senhora enquanto permaneceu aqui na terra?

Depois da sua Assunção aos Céus, Maria contempla novamente Jesus glorioso, cara a cara; está intimamente unida a Ele, e nEle conhece todo o plano redentor, no centro do qual se encontram a Encarnação e a sua Maternidade divina. Em torno dEle, no Céu e na terra, os anjos e os santos louvam-no sem cessar. Maria, mais do que todos juntos, ama e adora o seu Filho realmente presente no Céu e na Eucaristia, e ensina-nos a cultivar os mesmos sentimentos que Ela teve em Nazaré, em Belém, no Calvário, no Cenáculo; anima-nos a tratá-lo com o amor com que Ela o adora no Céu e no Sacramento do Altar14.

Olhando para esta imensa piedade de Nossa Senhora, podemos repetir: Eu quisera, Senhor, receber-Vos, com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu a vossa Santíssima Mãe… A Santíssima Virgem, sempre perto do seu Filho, anima-nos a recebê-lo, a visitá-lo, a tê-lo como centro do nosso dia, a dirigir-lhe freqüentemente os nossos pensamentos, a procurá-lo nas nossas necessidades.

E não nos esqueçamos também de que, no Céu, muito perto de Jesus, veremos não somente Maria, mas, muito junto dEla, São José, nosso Pai e Senhor. A glória do Céu será, de certo modo, a continuação do trato que tivermos mantido aqui na terra com Jesus, Maria e José.

“Muitas vezes os autores medievais compararam Maria à Nau bíblica que traz o Pão de longe. Realmente, assim é. Maria é quem nos traz o Pão eucarístico; é a Medianeira; é a Mãe da vida divina que Ele dá às almas. Alegra-nos considerar sobretudo, à luz da sua Maternidade espiritual, as relações que há entre Ela e a Eucaristia; como Mãe, Maria diz a todos nós: Vinde, comei o pão que vos preparei; comei bastante, que ele vos dará a verdadeira vida”15.

É o convite maternal que Nossa Senhora nos envia nestes dias em que ainda temos presente a festa do Corpus et Sanguis Christi. E sempre.

(1) Hino Adoro te devote; (2) Paulo VI, Breve apost. ao Cardeal Lercaro, 16-VII-1968; (3) Conc. Vat. II, Const. Sacrossanctum Concilium, 47; (4) M. Schmaus, Teologia dogmática, vol. VI; (5) Santo Irineu, Contra as heresias, I, 4, 18; (6) Jo 6, 54; (7) Santo Afonso Maria de Ligório, Prática do amor a Jesus Cristo, 2; (8) Jo 6, 58; (9) R. A. Knox, Sermones pastorales, pág. 435; (10) Mt 11, 28; (11) cfr. João Paulo II, Homilia, 9-VII-1980; (12) At 2, 42; (13) M. M. Philipon, Los sacramentos en la vida cristiana, págs. 139-140; (14) cfr. R. M. Spiazzi, María en el misterio cristiano, pág. 202; (15) ib., pág. 203-204.

Fonte: Falar com Deus


Leave a comment

“Senhor Jesus, Limpai-me…”

MEDITAÇÕES SOBRE A SAGRADA EUCARISTIA.

SEXTA MEDITAÇÃO

46. “SENHOR JESUS, LIMPAI-ME…”

– A entrega de Cristo na Cruz, renovada na Eucaristia, purifica as nossas fraquezas.

– Jesus em pessoa vem curar-nos, consolar-nos, dar-nos forças.

– A Santíssima Humanidade de Cristo na Eucaristia.

I. PIE PELLICANE, IESU DOMINE, me immundum munda tuo sanguine… “Bom pelicano, Senhor Jesus! Limpai-me a mim, imundo, com o vosso Sangue, com esse Sangue do qual uma só gota pode salvar do pecado o mundo inteiro”1.

Conta uma antiga lenda que o pelicano restituía a vida aos seus filhos mortos ferindo-se a si mesmo e aspergindo-os com o seu sangue2. Esta imagem foi aplicada a Jesus Cristo pelos cristãos, desde tempos muitos remotos. Uma só gota do Sangue de Jesus, derramado no Calvário, teria bastado para reparar todos os crimes, ódios, impurezas, invejas… de todos os homens de todos os tempos, dos passados e dos que virão. Mas Cristo quis ir além: derramou até a última gota do seu Sangue não só pela humanidade como um todo, mas por cada homem, como se só um homem tivesse existido na terra:… Este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos os homens para o perdão dos pecados, disse Jesus na Última Ceia. E no dia seguinte, no Calvário, um dos soldados atravessou-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água3, a última gota de sangue que lhe restava. Os Padres da Igreja ensinam que os sacramentos e a própria vida da Igreja brotaram desse lado aberto de Cristo. “Ó morte que dá a vida aos mortos! – exclama Santo Agostinho –. Haverá coisa mais pura do que este sangue? Haverá ferida mais salutar do que esta?”4Por ela nós somos curados.

Comentando esta passagem do Evangelho, São Tomás de Aquino ressalta que São João diz de um modo significativo aperuit, non vulneravit, que o lado lhe foi aberto, não ferido, “porque por esse lado se abriu para nós a porta da vida eterna”5. Tudo isso aconteceu – afirma o Santo no mesmo lugar – para nos mostrar que, por meio da Paixão de Cristo, conseguimos a purificação dos nossos pecados e manchas.

Os judeus consideravam que a vida estava no sangue. Jesus derrama o seu Sangue por nós, entrega a sua vida pela nossa. Demonstrou o seu amor por nós ao lavar os nossos pecados com o seu próprio Sangue, ressuscitando-nos assim para uma vida nova6. São Paulo diz que Jesus foi exposto publicamente na Cruz por nossa causa: pendeu da Cruz como um anúncio para chamar a atenção de todos o que por ali passassem, para chamar a nossa atenção. Por isso dizemos-lhe hoje, na intimidade da nossa oração: Bom pelicano, Senhor Jesus! Limpai-me a mim, imundo, que me encontro cheio de fraquezas, limpai-me com o vosso Sangue.

II. O SENHOR ESTÁ NA EUCARISTIA como Médico para limpar e curar as feridas que tanto mal fazem à alma. Quando vamos visitá-lo, no Sacrário, o seu olhar purifica-nos. Mas, se quisermos, pode fazer muito mais: vir ao nosso coração e enchê-lo de graças.

Antes de comungar, o sacerdote apresenta-nos a Sagrada Forma e repete-nos umas palavras ditas por São João Batista a João e André, referindo-se a Jesus que passava: Eis o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. E os fiéis respondem com aquelas outras do centurião de Cafarnaum, cheias de fé e de amor: Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada….

Naquela ocasião, Jesus curou à distância o servo desse homem elogiado por Cristo pela sua grande fé. Mas na Comunhão, apesar de dizermos a Jesus que não somos dignos, que nunca teremos a alma suficientemente preparada, Ele deseja vir em pessoa, com o seu Corpo e a sua Alma, ao nosso coração manchado por tantas indelicadezas. Todos os dias repete as palavras que dirigiu aos seus discípulos ao começar a Última Ceia: Desiderio desideravi… Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco…7Meditar com freqüência no imenso desejo que Jesus tem de vir à nossa alma, apesar das nossas misérias, pode cumular o nosso coração de alegria e de amor.

Bem se pode pensar que “o milagre da transubstanciação se realizou exclusivamente para nós. Jesus veio e habitou na terra só para nós [...]. Nenhum intermediário, nenhum agente secundário nos comunicará a influência de que a nossa alma necessita; virá Ele mesmo. Quanto o Senhor não nos deve amar para fazer isto! Como deve estar decidido a que não falte nada da sua parte, e não tenhamos nenhuma desculpa para rejeitar o que nos oferece, quando Ele mesmo o traz! E nós tão cegos, tão vacilantes, tão pouco interessados, tão pouco dispostos a dar-nos plenamente Àquele que se dá totalmente a nós!”8

As faltas e misérias cotidianas, de que ninguém está livre, não são obstáculo para recebermos a Comunhão. “Pelo fato de nos reconhecermos pecadores, não só não devemos abster-nos da Comunhão do Senhor, como devemos antes aproximar-nos dela cada vez com maior desejo: para remédio da alma e purificação do espírito, mas com tal humildade e fé que, julgando-nos indignos de receber tão grande favor, nos aproximemos para buscar remédio para as nossas feridas”9. Só os pecados graves impedem a digna recepção da Sagrada Eucaristia, se não se procura antes o perdão na Confissão sacramental. E no momento da Comunhão, a alma converte-se num segundo Céu, cheio de resplendor e de glória, que provoca surpresa e admiração nos próprios anjos: “Quando O receberes, diz-lhe: – Senhor, espero em Ti; adoro-te, amo-te, aumenta-me a fé. Sê o apoio da minha debilidade, Tu, que ficaste na Eucaristia, inerme, para remediar a fraqueza das criaturas”10.

III. ME IMMUNDUM, MUNDA TUO SANGUINE…, “limpai-me a mim, imundo, com o vosso Sangue…”

Devemos pedir ao Senhor um grande desejo de pureza no nosso coração. Deve ser um desejo tão intenso como o daquele leproso que um dia, em Cafarnaum, se prostrou diante de Jesus e lhe suplicou que o limpasse da sua doença. O mal devia ter-se alastrado por todo o seu corpo, pois o Evangelista diz que estava coberto de lepra11. E Jesus estendeu a mão, tocou na sua podridão e disse-lhe: Quero, sê limpo. E no mesmo instante desapareceu dele a lepra. E isso é o que Jesus fará conosco, pois não somente nos toca, mas vem habitar na nossa alma e nela derrama os seus dons e graças.

No momento da Comunhão, estamos realmente na posse da Vida. “Possuímos o Verbo encarnado todo inteiro, com tudo o que Ele é e faz, isto é, Jesus Deus e homem, todas as graças da sua Humanidade e todos os tesouros da sua Divindade, ou, para falar com São Paulo, a insondável riqueza de Cristo (Ef 3, 8)”12.

Em primeiro lugar, Jesus está em nós como homem. A Comunhão derrama em nós a vida atual, celestial e glorificada da sua Humanidade, do seu Coração e da sua Alma. Alguns santos tiveram a visão do Corpo glorificado de Cristo como Ele está no Céu, resplandecente de glória, e como está na alma no momento da Comunhão, enquanto permanecem em nós as sagradas espécies. Diz Santa Ângela de Foligno: “Era uma formosura que fazia a palavra humana morrer”, e durante muito tempo conservou desta visão “uma alegria imensa, uma luz sublime, um deleite indescritível e contínuo, um deleite deslumbrante que ultrapassa todo o deslumbramento”13. Este é o mesmo Jesus que nos visita diariamente no sacramento e que realiza as mesmas maravilhas.

O Senhor vem à nossa alma também como Deus. Especialmente nesses momentos em que o temos dentro de nós, estamos unidos à sua vida divina, à sua vida como Filho Unigênito do Pai. “Ele mesmo nos diz: Eu vivo pelo Pai (Jo 6, 58). Desde a eternidade, o Pai dá ao Filho a vida que tem no seu seio. E a dá totalmente, sem medida, e com tal generosidade de amor que, permanecendo distintos, não formam senão uma divindade com uma mesma vida, na plenitude do amor, da alegria e da paz. Esta é a vida que nós recebemos”14.

Diante de um mistério tão insondável, diante de tantos dons, como não havemos de desejar a Confissão, que nos prepara para receber melhor Jesus? Como não havemos de pedir-lhe, quando estiver na nossa alma em graça, que nos purifique tantas manchas, tantas fraquezas? Se o leproso ficou curado quando Jesus estendeu a mão sobre ele, como não purificará o nosso coração, se a nossa falta de fé e de amor não o impedir?

Dizemos hoje a Jesus na intimidade da oração: “Senhor, se quiseres – e Tu queres sempre –, podes curar-me. Tu conheces a minha debilidade; sinto estes sintomas e experimento estas outras fraquezas. E descobrimos com simplicidade as chagas; e o pus, se houver pus. Senhor, Tu, que curaste tantas almas, faz com que, ao ter-te no meu peito ou ao contemplar-te no Sacrário, te reconheça como Médico divino”15.

(1) Hino Adoro te devote; (2) cfr. Santo Isidoro de Sevilha, Etimologías, 12, 7, 26; (3) Jo 19, 34; (4) Santo Agostinho, Tratado sobre o Evangelho de São João, 120, 2; (5) São Tomás, Leitura sobre o Evangelho de São João, n. 2458; (6) cfr. Apoc 1, 5; (7) Lc 22, 15; (8) R. A. Knox, Sermones pastorales, págs. 516-517; (9) Cassiano, Colaciones, 23, 21; (10) Josemaría Escrivá, Forja, n. 832; (11) cfr. Lc 5, 12 e segs.; (12) P. M. Bernadot, De la Eucaristia a la Trinidad, 7ª ed., Palabra, Madrid, 1976, págs. 22-23; (13) cfr. ib.; (14) ib., pág. 24; (15) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 93.

Fonte: Falar com Deus


Leave a comment

Alimento para os Fracos

MEDITAÇÕES SOBRE A SAGRADA EUCARISTIA.

QUINTA MEDITAÇÃO

45. ALIMENTO PARA OS FRACOS

– A Sagrada Eucaristia, memorial da Paixão.

– O Pão vivo.

– Sustento para o caminho. Grandes desejos de receber a Comunhão. Evitar qualquer rotina.

I. O MEMORIALE MORTIS Domini! Panis vivus… “Ó memorial da morte do Senhor! Ó Pão vivo que dais a vida ao homem! Que a minha alma sempre de Vós viva, que sempre lhe seja doce o vosso sabor”1.

Desde o início da Igreja, os cristãos conservaram como um tesouro as palavras que o Senhor pronunciou na Última Ceia e por meio das quais o pão e o vinho se converteram pela primeira vez no seu Corpo e no seu Sangue sacratíssimos. Uns anos depois daquela grande noite em que foi instituída a Sagrada Eucaristia, São Paulo recordava aos primeiros cristãos de Corinto o que já lhes tinha ensinado. Diz que recebeu essa doutrina do Senhor, quer dizer, de uma tradição zelosamente guardada e que remontava ao próprio Jesus: Porque eu recebi do Senhor o que também vos transmiti (é nisto que consiste a tradição da Igreja: em “receber” e “transmitir”): o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. E do mesmo modo, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de mim2. São substancialmente as mesmas palavras que cada sacerdote repete ao tornar Cristo presente sobre o altar.

Fazei isto em memória de mim. A Santa Missa, a renovação incruenta do sacrifício do Calvário, é um banquete em que o próprio Cristo se dá como alimento, e uma recordação – um memorial – que se torna realidade em cada altar onde se renova o mistério eucarístico3.

A palavra memória tem um sentido diferente do de mera evocação subjetiva de um fato. O Senhor não encarregou os Apóstolos e a Igreja de simplesmente recordarem o acontecimento que presenciaram, mas de o atualizarem. A palavra toma o seu sentido de um termo hebreu que se usava para designar a essência da festa da Páscoa, como recordação da saída do Egito e da aliança que Deus fizera com o seu Povo. Com o rito pascal, os israelitas não só recordavam um acontecimento passado, mas também tinham consciência de atualizá-lo e de revivê-lo, para participarem dele ao longo das gerações4. Na ceia pascal, atualizava-se o pacto que Deus tinha feito com o seu Povo no Sinai.

Quando Jesus disse aos seus: Fazei isto em memória de mim, não lhes indicava, pois, que simplesmente recordassem a ceia pascal daquela noite, mas que renovassem o seu próprio sacrifício pascal no Calvário, que já estava presente, antecipadamente, naquela Última Ceia. São Tomás ensina que “Cristo instituiu este sacramento como memorial perene da sua paixão, como cumprimento das antigas figuras e a mais maravilhosa das suas obras; e deixou-o aos seus como singular consolo nas tristezas da sua ausência”5.

A Santa Missa é o memorial da Morte do Senhor, em que tem realmente lugar o banquete pascal, “em que Cristo nos é comunicado como alimento, e o espírito se cumula de graça, e nos é dado o penhor da glória vindoura”6.

Meditando na Sagrada Eucaristia, unimo-nos à oração que a liturgia nos propõe: Senhor Jesus Cristo, que neste admirável Sacramento nos deixastes o memorial da vossa Paixão, dai-nos a graça de venerarmos com tão grande amor o mistério do vosso Corpo e do vosso Sangue que possamos colher continuamente os frutos da vossa Redenção.

II. DESTE-LHES O PÃO DO CÉU7, escreveu o Salmista, pensando naquela maravilha, branca como o orvalho, que um dia os israelitas encontraram no deserto quando as provisões escasseavam. Mas aquilo, como declarou Jesus na sinagoga de Cafarnaum, não era o verdadeiro Pão do Céu. Em verdade, em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu; meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é aquele que desceu do céu e dá a vida ao mundo. Disseram-lhe, pois, eles: Senhor, dá-nos sempre desse pão8.

A verdadeira realidade está no Céu; aqui na terra encontramos muitas coisas que consideramos definitivas e na realidade são cópias passageiras daquelas que nos aguardam. Quando, por exemplo, Jesus falava à Samaritana da água viva, não queria dizer água fresca ou água corrente, como a mulher supôs a princípio; queria indicar-nos que não saberemos o que realmente significa água enquanto não tivermos uma experiência direta daquela realidade da graça de que a água é apenas uma pálida imagem9.

O mesmo acontece com o pão, que durante muitos séculos foi o alimento básico, e muitas vezes quase único, de muitos povos. E o maná que os israelitas recolhiam diariamente no deserto, tal como o pão, era sinal e imagem esvaída para que pudéssemos entender o que a Eucaristia, Pão vivo que dá a vida ao homem, deve representar na nossa existência. Aqueles que ouviam Jesus sabiam que o maná que os seus antepassados recolhiam todas as manhãs10era símbolo dos bens messiânicos; por isso pediram a Jesus naquela ocasião um milagre semelhante. Mas não podiam suspeitar que o maná fosse figura do dom inefável da Eucaristia, o pão que desceu do Céu e dá a vida ao mundo11. “Aquele maná caía do céu, este está acima do Céu; aquele era corruptível, este não só é imune a qualquer corrupção como comunica a incorrupção a todos os que o comem com reverência [...]. Aquele era a sombra, este é a realidade”12.

Este sacramento admirável é sem dúvida a ação mais amorosa de Jesus, que se entrega não só a toda a humanidade, mas a cada homem em particular. A Comunhão é sempre única e irrepetível; cada uma é um prodígio de amor; a de hoje será sempre diferente da de ontem; a delicadeza de Jesus para conosco nunca se repete do mesmo modo, como também não deve repetir-se o amor incessantemente renovado com que nos aproximamos do banquete eucarístico.

Ecce panis angelorum…“Eis o pão dos anjos, feito alimento dos caminhantes; é verdadeiramente o Pão dos filhos, que não deve ser lançado aos cães”13, canta a liturgia. Dia após dia, ano após ano, esse é o nosso alimento indispensável. O profeta Elias andou pelo deserto durante quarenta dias com a energia proporcionada por uma única refeição que lhe foi enviada por meio de um anjo do Senhor14. Aos cristãos que vivem em lugares onde lhes é impossível comungar, o Senhor haverá de conceder-lhes as graças necessárias. Mas é a Sagrada Eucaristia que normalmente restabelece o nosso vigor em cada dia de caminhada por esta terra em que nos encontramos como peregrinos.

III. “Ó PÃO VIVO que dais a vida ao homem! Que a minha alma sempre de Vós viva, que sempre lhe seja doce o vosso sabor”.

Jesus Cristo, que se entrega na Eucaristia, é o nosso alimento absolutamente imprescindível. Sem Ele, facilmente caímos numa extrema debilidade. “A comida material converte-se naquele que a come e, em conseqüência, restaura as suas perdas e aumenta as suas forças vitais. A comida espiritual, porém, converte em si aquele que a come, e assim o efeito próprio deste sacramento é a conversão do homem em Cristo, para que não viva ele, mas Cristo nele; e, por conseguinte, tem o duplo efeito de reparar as perdas espirituais causadas pelos pecados e deficiências, e de aumentar as forças das virtudes”15.

Deus, no final da nossa vida, tem de encontrar-nos na posse da plenitude do amor. Mas o “alimento para a caminhada destina-se precisamente à caminhada, e devemos estirar bem os músculos se queremos beneficiar dele. Não há nada tão insípido como o farnel preparado para uma excursão que, por causa do mau tempo, tivemos de comer em casa. Estejam cingidos os vossos rins, diz Nosso Senhor; temos de ser peregrinos bona fide, se queremos encontrar o alimento adequado na Sagrada Eucaristia”16.

O nosso desejo de melhorar cada dia – de estar em cada dia de marcha um pouco mais perto do Senhor – é a melhor preparação para a Comunhão. A “fome de Deus”, os desejos de santidade impelem-nos a tratar Jesus com esmero, a desejar vivamente que chegue o momento de recebê-lo. Contaremos então as horas… e os minutos que faltam para tê-lo no nosso coração. Recorreremos ao Anjo da Guarda para que nos ajude a preparar-nos bem, a dar graças. Ficaremos com pena pela brevidade desses momentos em que Jesus Sacramentado permanece na alma depois de se ter comungado. E, durante o dia, lembrar-nos-emos com saudade desses momentos em que tivemos Jesus tão dentro de nós que nos identificamos com Ele; e esperaremos, impacientes, que chegue a nova oportunidade de recebê-lo. Não permitamos jamais que se introduzam a rotina, o desleixo ou a precipitação nesses instantes que são os maiores da vida de um homem!

É de bem-nascidos ser agradecidos, diz o ditado, e nós devemos agradecer a Jesus “o fato maravilhoso de que Ele próprio se entrega a nós. Que o Verbo encarnado venha ao nosso peito!… Que se encerre na nossa pequenez Aquele que criou os céus e a terra!… A Virgem Maria foi concebida imaculada para albergar Cristo no seu seio. Se a ação de graças deve ser proporcional à diferença entre o dom e os méritos, não deveríamos converter todo o nosso dia numa Eucaristia contínua? Não vos afasteis do templo mal tenhais recebido o Santo Sacramento. É tão importante o que vos espera lá fora, que não podeis dedicar dez minutos a dar-lhe graças? Não sejamos mesquinhos. Amor com amor se paga”17. Que jamais andemos com pressas ao darmos graças a Jesus depois da Comunhão! Nada pode ser mais importante do que saborear esses minutos com Ele!

(1) Hino Adoro te devote, 5; (2) 1 Cor 11, 23-25; (3) cfr. Conc. Vat. II, Const. Sacrossanctum Concilium, 47; (4) cfr. Sagrada Bíblia, Epístolas de San Pablo a los Corintios, nota a 1 Cor 11, 24; cfr. L. Bouyer, Diccionario de Teología, verbete Memorial, pág. 441; (5) São Tomás de Aquino, Sermão para a festa do Corpus Christi; (6) Conc. Vat. II, op. cit.; (7) Sl 77, 24; 104, 40; (8) Jo 6, 32-34; (9) cfr. R. A. Knox, Sermones pastorales, Rialp, Madrid, 1963, pág. 432 e segs.; (10) cfr. Ex 15, 13 e segs.; (11) cfr. Jo 6, 33; (12) Santo Ambrósio, Tratado sobre os mistérios, 48; (13) Seqüência Lauda, Sion, Salvatorem; (14) cfr. 3 Rs 19, 6; (15) São Tomás de Aquino, Comentários aos IV Livros das Sentenças, d. 12, q. 2, a. 11; (16) R. A. Knox, op. cit., pág. 469; (17) Josemaría Escrivá, Amar a Igreja, págs. 81.

Fonte: Falar com Deus


Leave a comment

As Chagas vistas por Tomé

MEDITAÇÕES SOBRE A SAGRADA EUCARISTIA. QUARTA MEDITAÇÃO

44. AS CHAGAS VISTAS POR TOMÉ

– Fé com obras.

– Fé e Eucaristia.

– Intimidade com Jesus presente no Sacrácio.

I. PLAGAS, SICUT THOMAS, non intueor, Deum tamen meum te confiteor… “Não vejo as chagas como Tomé, mas confesso que sois o meu Deus. Fazei que eu creia mais e mais em Vós, que em Vós espere, que Vos ame”.

Tomé não estava presente quando Jesus apareceu aos seus discípulos. E apesar do testemunho de todos, que lhe asseguravam com firmeza: Vimos o Senhor!1, este Apóstolo não quis acreditar na Ressurreição do Mestre: Se eu não lhe vir nas mãos o sinal dos cravos, e não puser o meu dedo no lugar dos cravos e a minha mão no seu lado, não creio2.

Oito dias mais tarde, o Senhor apareceu novamente aos seus discípulos. Tomé estava entre eles. Então Jesus dirigiu-se ao Apóstolo e, num tom de censura singularmente amável, disse-lhe: Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos, aproxima também a tua mão e mete-a no meu lado, e não sejas incrédulo, mas fiel. Diante de tanta delicadeza de Jesus, o Apóstolo exclamou: Meu Senhor e meu Deus!3Não foi uma simples exclamação de surpresa, mas uma afirmação, um profundo ato de fé na divindade de Jesus Cristo.

Nós, à diferença de Tomé, não vemos nem tocamos as chagas sacratíssimas de Jesus, mas temos uma fé tão firme como a do Apóstolo depois de ter visto o Senhor, porque o Espírito Santo nos sustém com a sua constante ajuda. Comenta São Gregório Magno: “Alegra-nos muito o que o Senhor disse a seguir: Bem-aventurados os que não viram e creram. Sentença na qual, sem dúvida, estamos incluídos todos nós que confessamos com a alma aquilo que não vimos na carne. Alude-se a nós, desde que vivamos de acordo com a fé; porque só crê de verdade aquele que pratica o que crê”4.

Quando estivermos diante do Sacrário, olhemos para Jesus, que se dirige a nós para nos fortalecer a fé, para que ela se manifeste nos nossos pensamentos, palavras e obras: em todo o nosso modo de julgar o próximo com espírito impregnado de caridade; na conversa que sempre anima os outros a serem pessoas honradas, a seguirem Jesus de perto; nas obras, sempre exemplares em terminar com perfeição o que nos foi encomendado, fugindo dos trabalhos deixados a meio e das obras mal acabadas. “Fixemos o nosso olhar no Mestre. Talvez também tu escutes neste momento a censura dirigida a Tomé: Mete aqui o dedo e vê as minhas mãos [...]; e, com o Apóstolo, sairá da tua alma, com sincera contrição, aquele grito: Meu Senhor e meu Deus! (Jo 20, 28), eu te reconheço definitivamente por Mestre, e já para sempre – com o teu auxílio – vou entesourar os teus ensinamentos e esforçar-me por segui-los com lealdade”5.

II. JESUS DISSE A TOMÉ que eram mais felizes aqueles que, sem terem visto com os olhos da carne, possuem, no entanto, a penetrante visão da fé. Por isso anunciou-lhes durante a Última Ceia: Convém que eu vá6. Quando percorria os caminhos da Palestina, a sua divindade estava oculta, a ponto de os próprios discípulos terem de recorrer constantemente à fé. Ver, ouvir, tocar, pouco significam se a graça não atua na alma e não se tem um coração limpo e preparado para crer. Nem sequer os milagres em si mesmos são decisivos para a fé, se não há boas disposições. Depois da ressurreição de Lázaro, muitos judeus creram em Jesus, mas outros foram procurar os fariseus, resolvidos a perdê-lo7. O resultado da reunião do Sinédrio, motivado justamente por esse acontecimento, resume-se numa frase referida por São João: Desde aquele dia, pois, decidiram matá-lo8.

No fundo, a situação daqueles que conviveram com o Senhor, que o viram e ouviram, que falaram com Ele, é a mesma que a nossa. O que conta decisivamente é a fé. Por isso escreve Santa Teresa: “Quando ouvia algumas pessoas dizer que quereriam ter vivido no tempo em que Cristo nosso Bem andava no mundo, ria-me de mim para mim. Parecia-me que, possuindo-o no Santíssimo Sacramento tão verdadeiramente como então, que diferença faz?”9

E o Santo Cura d’Ars sublinha que nós temos até mais sorte do que aqueles que viveram com o Senhor durante a sua vida terrena, pois às vezes tinham de andar horas ou dias para encontrá-lo, ao passo que nós o temos tão perto em cada Sacrário10. Normalmente, é bem pouco o esforço que temos de fazer para encontrar o próprio Jesus.

Podemos vê-lo nesta vida através dos véus da fé, e, um dia, se formos fiéis, vê-lo-emos glorioso, numa visão inefável. “Depois desta vida, desaparecerão todos os véus para que possamos ver cara a cara”11. Todos os olhos o verão12, diz São João no Apocalipse, e os seus servos o servirão e verão a sua face13. Um dia, vê-lo-emos com o seu corpo glorificado, com aquelas santíssimas chagas que mostrou a Tomé. Mas desde já o confessamos como nosso Deus e Senhor: Meu Senhor e meu Deus!, cremos nEle, amamo-lo sem o termos visto14e pedimos-lhe: “Fazei que eu creia mais e mais em Vós”, com uma fé mais firme; “que em Vós espere”, com uma esperança mais segura e alegre; “que Vos ame” com todo o meu ser.

Hoje, ao considerarmos uma vez mais essa proximidade de Jesus na Sagrada Eucaristia, fazemos o propósito de viver muito unidos ao Sacrário mais próximo. E teremos sempre esse referencial no nosso coração: quando praticamos esporte, enquanto viajamos… “pois é muito boa companhia a do bom Jesus, para não nos separarmos dEle e de sua Sacratíssima Mãe”15.

“Acorre perseverantemente ao Sacrário, de modo físico ou com o coração, para te sentires seguro, para te sentires sereno: mas também para te sentires amado… e para amar!”16

III. QUANDO JESUS IA A UM LUGAR, os seus amigos fiéis permaneciam atentos à sua chegada. Não podia ser de outro modo. São Lucas narra que, certa vez, Jesus chegava a Cafarnaum, numa barca, vindo da margem oposta, e todos o estavam esperando17. Podemos imaginá-los, alegres, à espera do Mestre, desejosos de estar com Ele e de fazer-lhe os seus pedidos. Nessa ocasião – diz o Evangelista –, Jesus fez dois portentosos milagres: a cura de uma mulher que se atreveu a tocar a orla do seu manto, e a ressurreição da filha de Jairo. Mas todos se sentiram reconfortados com as suas palavras, com um olhar ou com uma pergunta pessoal. Talvez algum deles se tivesse decidido naquele dia a segui-lo com mais generosidade… Os amigos estavam pendentes do Amigo.

Nós, que não o vemos fisicamente, estamos tão perto dEle como aqueles que o esperavam e foram ao seu encontro ao desembarcar. Temos também de adquirir cada vez mais um vivo sentido da sua presença nas nossas cidades e aldeias. Temos de tratá-lo – Ele assim o quer – como nosso Deus e Senhor, mas também como nosso Amigo por excelência. “Cristo, Cristo ressuscitado, é o companheiro, o Amigo. Um companheiro que se deixa ver apenas entre sombras, mas cuja realidade inunda toda a nossa vida e nos faz desejar a sua companhia definitiva”18.

Saímos diariamente ao seu encontro. E Ele nos espera. E sente a nossa falta se alguma vez – que enorme pena! – nos esquecemos de tratá-lo com intimidade, “sem anonimato”, tal como tratamos as pessoas que encontramos no trabalho, no elevador ou na rua. Para encontrá-lo, pouca ajuda podemos receber dos sentidos, nos quais tanto nos apoiamos na vida corrente; muitas vezes teremos a sensação de estarmos “como cegos diante do Amigo”19, mas essa escuridão inicial ir-se-á transformando numa claridade jamais alcançada pelos sentidos. Diz Santa Teresa que foi tanta a humildade do bom Jesus, que quis como que pedir licença para ficar conosco20. Como não havemos de agradecer-lhe tanta bondade, tanto amor?

Dizemos-lhe, ao terminarmos a nossa oração: Senhor, nós procuraríamos a tua presença “por muitas salas que tivéssemos de fazer, por muitas audiências que tivéssemos de pedir. Mas não é preciso pedir nenhuma! És tão todo-poderoso, também na tua misericórdia, que, sendo o Senhor dos Senhores e o Rei dos que dominam, te humilhas até esperares como um pobrezinho que se arrima à ombreira da nossa porta. Não esperamos nós; és Tu que nos esperas constantemente.

“Tu nos esperas no Céu, no Paraíso. Tu nos esperas na Hóstia Santa. Tu nos esperas na oração. És tão bom que, quando estás aí escondido por Amor, oculto sob as espécies sacramentais – eu assim o creio firmemente –, permanecendo nelas real, verdadeira e substancialmente, com o teu Corpo e o teu Sangue, com a tua Alma e a tua Divindade, também está presente a Trindade Beatíssima: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Além disso, pela inabitação do Paráclito, Deus encontra-se no centro das nossas almas, procurando por nós”21. Não o façamos esperar.

E a nossa Mãe Santa Maria anima-nos constantemente a sair ao encontro do seu Filho. Como temos de cuidar da visita diária ao Santíssimo Sacramento!

(1) Jo 20, 25; (2) ib.; (3) Jo 20, 26-29; (4) São Gregório Magno, Homilias sobre o Evangelho, 26, 9; (5) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 145; (6) Jo 16, 7; (7) cfr. Jo 11, 45-46; (8) Jo 11, 53; (9) Santa Teresa, Caminho de perfeição, 34, 6; (10) cfr. Cura d’Ars, Sermão sobre a Quinta-Feira Santa; (11) Santo Agostinho, em Catena Aurea, vol. VIII, pág. 86; (12) Apoc 1, 7; (13) Apoc 22, 4; (14) cfr. 1 Pe 1, 8; (15) Santa Teresa, Moradas, VI, 7, 13; (16) Josemaría Escrivá, Forja, n. 837; (17) Lc 8, 40; (18) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 116; (19) Paulo VI, Audiência geral, 13-I-1971; (20) cfr. Santa Teresa, Caminho de perfeição, 33, 2; (21) S. Bernal, Perfil do Fundador do Opus Dei, Quadrante, São Paulo, 1977, págs. 417-418.

Fonte: Falar com Deus


Leave a comment

Como o Ladrão Arrependido

MEDITAÇÕES SOBRE A SAGRADA EUCARISTIA.

TERCEIRA MEDITAÇÃO

43. COMO O LADRÃO ARREPENDIDO

– Os Sacrários no nosso caminho habitual.

– Imitar o bom ladrão.

– Purificação das nossas faltas.

I. IN CRUCE LATEBAT sola Deitas… “Na Cruz estava oculta a divindade, mas aqui se esconde também a humanidade; creio, porém, e confesso ambas as coisas, e peço o que pediu o ladrão arrependido”.

O Bom Ladrão soube ver em Jesus moribundo o Messias, o Filho de Deus. A sua fé, por uma graça extraordinária de Deus, venceu a dificuldade representada por aquelas aparências, que só falavam de um justiçado. A divindade ocultara-se aos olhos de todos, mas aquele homem podia ao menos contemplar a Santíssima Humanidade do Salvador: o seu olhar amabilíssimo, o perdão derramado abundantemente sobre os que o insultavam, o seu silêncio comovedor diante das ofensas. Jesus, mesmo na Cruz, no meio de tanto sofrimento, esbanja amor.

Nós olhamos para a Hóstia santa e os nossos olhos nada percebem: nem o olhar amável de Jesus, nem a sua compaixão… Mas com a firmeza da fé, proclamamo-lo nosso Deus e Senhor. Muitas vezes, exprimindo a certeza da nossa alma e o nosso amor, ter-lhe-emos dito: Creio firmemente que estás aqui, que me vês, que me ouves… O teu olhar é tão amável como aquele que o Bom Ladrão contemplou e a tua compaixão continua a ser infinita. Sei que estás atento à menor das minhas súplicas, das minhas penas e das minhas alegrias.

Ainda que de modo distinto, Jesus está presente tanto no Céu como na Hóstia consagrada. “Não há dois Cristos, mas um só. Nós possuímos na Hóstia o Cristo de todos os mistérios da Redenção: o Cristo de Madalena, do filho pródigo e da samaritana, o Cristo do Tabor e do Getsêmani, o Cristo ressuscitado dos mortos, sentado à direita do Pai [...]. Esta maravilhosa presença de Cristo no meio de nós deveria revolucionar a nossa vida [...]; está aqui conosco: em cada cidade, em cada aldeia”1.

Com muita freqüência, ao irmos de um lado para outro da cidade, passamos com certeza a poucos metros do lugar onde o Senhor se encontra. Quantos atos de fé fazemos – da rua ou entrando por uns instantes na igreja –, a essas horas da manhã ou da tarde, perto ou diante desse Sacrário? Quantos atos de amor?… Que pena se passamos ao largo! Jesus não é indiferente à nossa fé e ao nosso amor. “Não sejas tão cego ou tão estouvado que deixes de meter-te dentro de cada Sacrário quando divisares os muros ou as torres das casas do Senhor. – Ele te espera”2. Quanto bem nos faz este conselho cheio de sabedoria e de piedade!

No meio de tantos insultos, Jesus escutou emocionado aquela voz que o reconhecia como Deus. Era a voz de um ladrão que, diante de um Deus tão escondido, soube vê-lo e confessá-lo em voz alta. O amor repele a cegueira, o estouvamento, a tibieza. Esse amor vivo – muitas vezes traduzido numa jaculatória ardente – deve atear-se ainda mais quando estamos a poucos instantes de receber Jesus na Sagrada Comunhão ou quando passamos por uma igreja a caminho do trabalho ou de casa. E a nossa alma encher-se-á de alegria. “Não te alegras quando descobres, no teu caminho habitual pelas ruas da cidade, outro Sacrário!?”3É a alegria de todo o encontro desejado! Se o coração nos bate mais depressa quando divisamos ao longe uma pessoa amada, podemos passar indiferentes por um Sacrário?

II. “PEÇO O QUE PEDIU o ladrão arrependido”…Senhor, lembra-te de mim quando estiveres no teu Reino4.

Com esta breve súplica – tão grande foi a sua fé – o Bom Ladrão mereceu purificar toda a sua vida. Dirigiu-se humildemente a Jesus, como nós o temos feito tantas vezes, chamando-o pelo seu nome. E Ele “sempre dá mais do que aquilo que lhe pedem. O Bom Ladrão pedia ao Senhor que se lembrasse dele quando estivesse no seu Reino, e o Senhor respondeu-lhe:  Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso”5. Temos de imitar este homem que reconheceu as suas faltas6e soube merecer o perdão das suas culpas e a sua completa purificação.

“Tenho repetido muitas vezes aquele verso do hino eucarístico: Peto quod petivit latro poenitens. E sempre me comovo: pedir como o ladrão arrependido! – Reconheceu que ele, sim, é que merecia aquele castigo atroz… E com uma palavra roubou o coração a Cristo e abriu para si as portas do Céu”7. Quanto proveito tiraríamos se, diante do próprio Jesus, conseguíssemos detestar todo o pecado venial deliberado e purificar esse fundo da alma onde há tantas coisas que obscurecem a sua imagem: egoísmos, preguiça, sensualidade, apegamentos desordenados…! “Jesus no Sacramento é essa fonte aberta a todos, onde sempre que queiramos podemos lavar as nossas almas de todas as manchas dos pecados que cometemos todos os dias”8.

A Comunhão freqüente, realizada com as devidas disposições, há de levar-nos a desejar uma Confissão também freqüente e contrita. E esta maior pureza de coração cria, por sua vez, desejos muito vivos de receber o Senhor Sacramentado9. O próprio sacramento eucarístico, recebido com fé e amor, purifica a alma das suas faltas, debilita-lhe a inclinação para o mal, diviniza-a e prepara-a para os grandes ideais que o Espírito Santo inspira ao cristão.

Peçamos ao Senhor um grande desejo de nos purificarmos nesta vida para que possamos livrar-nos do Purgatório e estar quanto antes na companhia de Jesus e de Maria. “Oxalá, meu Jesus, fosse verdade que eu nunca vos tivesse ofendido! Mas já que o mal está feito, peço-vos que vos esqueçais dos desgostos que vos causei e, pela morte amarga que por mim padecestes, levai-me ao vosso reino depois da morte; e enquanto a vida me durar fazei que o vosso amor reine sempre na minha alma”10. Ajudai-me, Senhor, a detestar todo o pecado venial deliberado; dai-me um grande amor à Confissão freqüente.

III. O SANTO CURA D’ARS alude num dos seus sermões à piedosa lenda de Santo Aleixo, e tira dela algumas conseqüências a propósito da Eucaristia. Conta-se deste Santo que um dia, em obediência a uma chamada particular do Senhor, saiu de casa e foi viver longe como um humilde mendigo. Passados muitos anos, retornou à sua cidade natal, fraco e desfigurado pelas penitências, e foi acolhido no próprio palácio de seus pais sem no entanto se dar a conhecer. Viveu dezessete anos no desvão de uma escada. No momento em que foi amortalhado, a mãe reconheceu-o e exclamou cheia de dor: “Ó meu filho, que tarde te conheci…!”

O Cura d’Ars comentava que a alma, ao sair desta vida, verá finalmente Aquele que possuía todos os dias na Sagrada Eucaristia, com quem falava, com quem desabafava as suas mágoas quando já não agüentava mais. Oxalá sejamos almas verdadeiramente apaixonadas, de fé sólida e crescente, para que um dia, diante da visão de Jesus glorioso, não tenhamos que exclamar: Ó Jesus, que pena ter-te conhecido tão tarde…, tendo estado tão perto de Ti!

Jesus revelou-nos que os puros de coração verão a Deus11. Quando o coração se enche de sujidade, a figura de Cristo obnubila-se e perde os seus contornos, e a capacidade de amar encolhe. “Esse Cristo que tu vês não é Jesus. – Será, quando muito, a triste imagem que podem formar teus olhos turvos… – Purifica-te. Clarifica o teu olhar com a humildade e a penitência. Depois… não te hão de faltar as luzes límpidas do Amor. E terás uma visão perfeita. A tua imagem será realmente a sua: Ele!”12Poderemos então reconhecê-lo em qualquer circunstância, como o Bom Ladrão.

Que alegria podermos ter Cristo tão perto!…, e vê-lo…, e amá-lo…, e servi-lo. Ele nos escuta quando lhe dizemos na intimidade do nosso coração: “Senhor, Tu que estás realmente presente no Céu e nesse Sacrário, lembra-te de mim”. Para isso devemos purificar nesta vida as seqüelas deixadas pelos pecados e cultivar um espírito de penitência mais ardente e um amor mais vivo pelo sacramento do perdão; e aceitar também as dores e contrariedades da vida com espírito de reparação, e procurar muitas ocasiões de nos negarmos a nós mesmos por meio dessas pequenas mortificações que vencem o nosso egoísmo, que ajudam os outros, que permitem uma maior perfeição na tarefa profissional.

Se formos fiéis a essas graças que nos convidam a uma purificação mais enérgica, ouviremos Jesus dizer-nos no último dia da nossa existência aqui na terra: Hoje estarás comigo no Paraíso. E chegaremos a vê-lo e a amá-lo com uma felicidade sem fim.

Ao terminarmos a nossa oração, dizemos a Jesus Sacramentado: Ave verum Corpus natum ex Maria Virgine… “Ave, verdadeiro Corpo, nascido da Virgem Maria… Faz que te tenhamos ao nosso lado no transe da morte”. Pedimos ao Anjo da Guarda que nos recorde a proximidade de Cristo, para que jamais passemos ao largo. E a nossa Mãe Santa Maria, se recorrermos a Ela, aumentará a nossa fé e nos ensinará a tratar o seu Filho com mais delicadeza, com mais amor.

(1) M. M. Philipon, Los sacramentos de la vida cristiana, pág. 116; (2) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 269; (3) ib., n. 270; (4) Lc 23, 42; (5) Santo Ambrósio, Tratado sobre o Evangelho de São Lucas; (6) cfr. Lc 23, 41; (7) Josemaría Escrivá, Via-Sacra, Quadrante, São Paulo, 1984, XII, n. 4; (8) Santo Afonso Maria de Ligório, Visitas ao Santíssimo Sacramento, 20; (9) cfr. João Paulo II, Alocução à Adoração Noturna, Madrid, 31-X-1982; (10) Santo Afonso Maria de Ligório, Meditações sobre a Paixão, Med. XII para a Quarta-Feira Santa, I; (11) cfr. Mt 5, 8; (12) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 212.

Fonte: Falar com Deus


Leave a comment