Sunday, 20 of May of 2012

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Perseveraram, com Maria, em oração…

 

«Maria exerce sua maternidade com respeito à comunidade de crentes… também educando os discípulos do Senhor na comunhão constante com Deus. Assim, se converte em educadora do povo cristão na oração e no encontro com Deus…»1

A oração é «em sentido próprio, toda elevação do coração ao Senhor, o diálogo pessoal com Deus, no qual se dá uma entrega amorosa do coração, cheia de reconhecimento, gratidão e louvor… é um meio excelente posto por Deus para que os homens percorram o caminho da plenitude e da amizade com Ele. Para encontrar-se, para ser autêntico, para amar, a oração é o caminho»2. Nada substitui a oração, de modo que aquele que não reza, reza pouco ou mal, é como quem pretende viver sem respirar e sem alimentar-se adequadamente. E assim como para alimentar-me há horas específicas ao longo do dia, assim também para a oração deve-se ter momentos fortes de encontro com o Senhor na oração mental ou “lectio”, na meditação bíblica, ou no diálogo íntimo com o Senhor no Santíssimo. Dedicar tempos fortes para a oração, «em intensidade e em duração»3, são também necessários para poder orar «em todo tempo»4.

Orar sempre

O Senhor Jesus inculcou em seus discípulos «que era preciso orar sempre sem esmorecer»5. Ele mesmo se oferece como modelo, pois Ele «aprendeu a orar conforme o seu coração de homem. E o fez de sua Mãe que conservava todas as “maravilhas” do Todo poderoso e as meditava em seu coração6»7. Do Senhor «podemos dizer perfeitamente que “orava todo o tempo sem esmorecer”. A oração era a vida de sua alma, e toda a sua vida era oração»8.

Com sua palavra e exemplo Cristo nos ensina em primeiro lugar que é necessário rezar sempre, quer dizer, é necessário não só elevar o coração a Deus nos intervalos, em diversos momentos da jornada, mas aprender a rezar de tal modo que nossa oração não se interrompa em nenhum momento. Esse é o ideal ao qual os discípulos de Cristo temos que aspirar: a oração contínua.

Mas, acaso isto é possível? Podemos por acaso rezar sem interrupção? Santo Agostinho, ao meditar sobre a indicação do Apóstolo do Senhor orar sem cessar9, se perguntava: «Acaso nos ajoelhamos, nos prostramos e levantamos as mãos sem interrupção, e por isso se disse: Orai sem cessar? Se dissermos que só podemos orar assim, creio que é impossível orar sem cessar». Por isso, explicava o santo de Hipona, há que se entender que «existe outra oração interior e contínua», uma oração que não se interrompe, ainda que abandonemos o lugar de nossa oração: «Você se cala se deixa de amar… o fogo da caridade é o clamor do coração. Se a caridade permanece sempre, você clama sempre»10. E em outro momento dizia também: «Não cante os louvores a Deus só com sua voz, faça com que suas obras concordem com sua voz. Quando você canta com a voz, cala de tempo em tempo. Cante com sua vida de forma que nunca cale… Quando Deus é louvado por sua boa obra, com sua boa obra você louva a Deus»11. Assim, pois, quando nutridos pelos momentos fortes de oração atuamos conforme o Plano de Deus, procurando fazer o que o Filho de Maria nos disse, nos inserimos vitalmente em uma «dinâmica oracional»12 que permite converter cada um de nossos atos, apostolado e a própria vida em uma oração contínua, em um “gesto litúrgico”13, chegando a ser nós mesmos uma «hóstia viva, santa, agradável a Deus»14.

…e sem esmorecer

O Senhor Jesus também adverte sobre a necessidade de rezar sem esmorecer, quer dizer, é necessária também a perseverança na oração. Isto porque somos tão inconstantes na oração! Não poucas vezes desculpas como: “não sinto nada”, “não tenho tempo para rezar”, “tenho coisas mais urgentes/importantes para fazer”, “não tenho vontade”, “estou cansado”, “depois rezo” (e esse “depois” nunca chega), “me dá vergonha aproximar-me do Senhor porque pequei”, “o Senhor não me escuta”, etc., nos levam a abandonar facilmente a vida de oração! Quantas vezes deixamos de acudir ao Senhor nas diversas, e às vezes difíceis, provas pelas quais tivemos que passar por causa do nosso desejo de seguir o Senhor Jesus!

Perante todas as dificuldades, provas e tentações que nos convidam a abandonar a vida de oração, o Senhor nos alenta a não esmorecer. Em qualquer circunstância, favorável ou adversa, aprendamos com o Senhor a permanecer obstinadamente perseverantes na oração! E mais, é da própria oração que obtemos a força necessária para ultrapassar as provas!

Perseveravam em oração com Maria

Maria, como ensina o Papa, é «educadora do povo cristão na oração e no encontro com Deus»15, pois também Ela «orava todo o tempo sem esmorecer», também para Ela «a oração era a vida de sua alma, e toda a sua vida era oração»16. No Cenáculo, exercendo sua função maternal, vemo-la reunindo em torno de si os apóstolos e discípulos de seu Filho, perseverando com eles na oração unânime, ensinando-lhes a dispor seus corações —como Ela soube fazê-lo ao longo de toda a sua vida— para acolher o Dom prometido pelo Senhor: «virá sobre vós o Espírito Santo». Assim Maria, «Mestra de oração e Paradigma de proximidade com o Altíssimo, vai educando evangelicamente os discípulos na prece confiada»17: ora a Mãe implorando o Dom do Espírito que há de acender neles o ardor por anunciar o Evangelho do Senhor, ora em união com seus filhos, que aprendem a levar uma vida espiritual intensa de seu testemunho vivo de oração.

E o que os discípulos de Cristo aprendemos também hoje daquela que é escola e «Mãe da Oração»18? Aprendemos de sua atitude de silêncio e recolhimento interior, disposições essenciais para acolher e meditar no mais profundo do coração as grandezas de Deus, assim como para escutar, acolher e meditar continuamente a Palavra divina, aderindo-nos cordialmente a ela para pô-la em prática. Maria, mulher de oração e ação, nos ensina com seu exemplo a reservar para Deus momentos fortes de oração assim como a andar continuamente na Presença de Deus, a buscar que tudo o que façamos seja feito com a intenção de servir a Deus e seus desígnios19, desdobrando-nos assim em uma vida que dá glória a Deus com todo o nosso ser e atuar. Maria nos ensina a ter uma visão de eternidade que nos permite ver e valorizar tudo desde uma perspectiva divina. Contemplemos, pois, à Mãe, e unidos a Ela aprendamos a perseverar na oração, e em uma oração que busca ser contínua!

Citações para a oração

  • O Senhor Jesus, Ele mesmo homem de oração, é mestre e modelo de oração contínua e perseverante: Lc 3,21-22; Lc 5,16; Lc 6,12-13; Lc 9,18; Lc 9,28-29; Lc 11,1; Lc 21,37-38; Lc 22,39-46.
  • O Senhor nos ensina que é necessário perseverar na oração: Lc 1,18; para não cair em tentação: Lc 22,46; Mt 26,41; para ter força no momento da prova:Lc 21,36.
  • Também Paulo convida a ser perseverantes na oração: Rm 12,12; Cl 4,2; a orar em todas as ocasiões: Ef 6,17-18; Fl 4,6; a orar constantemente: 1Ts5,17.
  • Maria, mulher de oração, nos ensina a guardar e meditar constantemente as obras e palavras de Deus em nosso coração: Lc 2,19.51; A viver a dinâmica da oração contínua atuando em amorosa obediência aos desígnios divinos: Lc 1,38; Jo 2,5; Lc 11,27-28.
  • Os apóstolos e discípulos perseveravam na oração com Maria: At 1,14.

Notas

  • 1 S.S. João Paulo II, Catequesis do 6/9/95, n.5.
  • 2 Luis Fernando Figari, Huellas de um Peregrinar, Fondo Editorial, Lima, 1991, 2ª edição, p. 35. Esta é a mais recente.
  • 3 Catecismo da Igreja Católica, 2697.
  • 4 Lc 21,36.
  • 5 Lc 18,1.
  • 6 Ver Lc 1,49; 2,19.51.
  • 7 Catecismo da Igreja Católica, 2599.
  • 8 S.S. João Paulo II, La oração do Hijo ao Padre, 22/7/1987, 1. (Deve ter em português) ? pedir o dado na comunidade para conferirme em L’Osservatore
  • 9 1Ts 5, 17.
  • 10 Santo Agostinho, Narrações sobre os Salmos, 37. ? em portugués, acho que se traduz como “enarrações” e também como “comentários” sobre os salmos: melhor conferir
  • 11 Santo Agostinho, Narrações sobre os Salmos, 146,2. ? idem. Se precisar dos textos em portugués, acho que o Joathas os têm.
  • 12 Ver Luis Fernando Figari, Características de uma espiritualidade para nosso tempo desde a América Latina, Loyola, São Paulo 1990, p. 38.
  • 13 Ver Puebla, 213.
  • 14 Rm 12,1; ver Lumen gentium, 10.
  • 15 S.S. João Paulo II, Catequesis do 6/9/95, n.5.
  • 16 S.S. João Paulo II, A oração do Filho ao Pai, 22/7/1987, 1.
  • 17 Luis Fernando Figari, Maria paradigma de unidade.
  • 18 Luis Fernando Figari, Com María em Oração, p.28. Trata-se da oração de Santa María de Pentecostes.
  • 19 Ver Lc 1,38.

Fonte: MVC


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Ser Agradecidos

 

– Jesus cura dez leprosos.

– O Senhor espera que saibamos dar-lhe graças, pois os dons que recebemos diariamente são incontáveis.

– Ser agradecidos com todos os homens.

I. A PRIMEIRA LEITURA da Missa1 recorda-nos o episódio de Naamã, o Sírio, curado da sua lepra pelo profeta Eliseu. O Senhor serviu-se desse milagre para atraí-lo à fé, um dom muito maior do que a saúde corporal. Agora reconheço que não há outro Deus em toda a terra a não ser o de Israel, exclamou Naamã ao verificar que estava livre da doença. No Evangelho da Missa2, São Lucas relata-nos um episódio similar: um samaritano – que, como Naamã, também não pertencia ao povo de Israel – encontra a fé depois de curado, como prêmio ao seu agradecimento.

Na sua última viagem a Jerusalém, Jesus passava entre a Samaria e a Galiléia. E, ao entrar numa aldeia, saíram ao seu encontro dez leprosos que se detiveram a certa distância do lugar em que se encontravam o Mestre e o grupo que o acompanhava, pois a lei proibia que esses doentes se aproximassem das pessoas3. Entre os leprosos contava-se um samaritano, apesar de não haver trato entre os judeus e os samaritanos4, dada a inimizade secular que separava os dois povos; mas a desgraça unira-os, como acontece tantas vezes na vida. E levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem compaixão de nós. Recorreram à misericórdia de Jesus, e o Senhor, compadecendo-se deles, mandou-os apresentar-se aos sacerdotes, como estava prescrito na Lei5. Apesar de ainda não estarem curados, esses homens obedeceram a Cristo e foram apresentar-se aos sacerdotes. E pela sua fé e docilidade, viram-se livres da doença.

Estes leprosos ensinam-nos a pedir: recorrem à misericórdia divina, que é a fonte de todas as graças. E mostram-nos o caminho da cura, seja qual for a lepra que tenhamos na alma: ter fé e sermos dóceis àqueles que, em nome do Mestre, nos indicam o que devemos fazer. A voz do Senhor ressoa com especial força e clareza nos conselhos que recebemos na direção espiritual.

II. E ACONTECEU que, enquanto iam, ficaram limpos. Podemos imaginar facilmente a alegria que os dominou. Mas, no meio de tanto alvoroço, esqueceram-se de Jesus. Na desgraça, acodem a Ele; na ventura, esquecem-no. Somente um, o samaritano, voltou ao lugar onde o Senhor estava com os seus discípulos. Provavelmente voltou correndo, louco de contentamento, glorificando a Deus em voz alta, sublinha o Evangelista. E foi prostrar-se aos pés do Mestre, dando-lhe graças.

Foi uma ação profundamente humana e cheia de beleza. “Que coisa melhor podemos trazer no coração, pronunciar com a boca, escrever com a pena, do que estas palavras: «graças a Deus»? Não há nada que se possa dizer com maior brevidade, nem ouvir com maior alegria, nem sentir com maior elevação, nem realizar com maior utilidade”6. A gratidão é uma grande virtude.

O Senhor deve ter-se alegrado com as mostras de gratidão desse samaritano, mas ao mesmo tempo encheu-se de tristeza ao verificar a ausência dos outros. Jesus esperava o regresso de todos: Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão?, perguntou. E manifestou a sua surpresa: Não houve quem voltasse e desse glória a Deus, a não ser este estrangeiro? Quantas vezes Jesus não terá perguntado por nós, depois de tantas graças! Hoje, na nossa oração, queremos compensá-lo pelas nossas muitas ausências e faltas de gratidão, pois os anos que contamos não são outra coisa que a sucessão de uma série de graças divinas, de curas, de chamadas, de misteriosos encontros. Os benefícios recebidos – bem o sabemos – superam de longe as areias do mar7, como afirma São João Crisóstomo.

Com freqüência, temos melhor memória para as nossas necessidades e carências do que para os nossos bens. Vivemos pendentes daquilo que nos falta, e reparamos pouco naquilo que temos, e talvez seja por isso que ficamos aquém no nosso agradecimento. Pensamos que temos pleno direito ao que possuímos e esquecemo-nos do que diz Santo Agostinho ao comentar esta passagem do Evangelho: “Nada é nosso, a não ser o pecado que possuímos. Pois que tens tu que não tenhas recebido? (1 Cor 4, 7)”8.

Toda a nossa vida deve ser uma contínua ação de graças. Recordemo-nos com freqüência dos dons naturais e das graças que o Senhor nos dá, e não percamos a alegria quando percebemos que nos falta alguma coisa, porque mesmo isso que nos falta é, possivelmente, uma preparação para recebermos um dom mais alto. Lembrai-vos das maravilhas que Ele fez9, exorta o salmista. O samaritano, através do seu mal, pôde conhecer Jesus Cristo, e por ser agradecido conquistou a sua amizade e o incomparável dom da fé: Levanta-te e vai; a tua fé te salvou. Os nove leprosos desagradecidos ficaram sem a melhor parte que o Senhor lhes tinha reservado. Porque – como ensina São Bernardo – “a quem humildemente se reconhece obrigado e agradecido pelos benefícios, com razão lhe são prometidos muitos mais. Pois quem se mostra fiel no pouco, com justo direito será constituído sobre o muito, assim como, pelo contrário, se torna indigno de novos favores quem é ingrato em relação aos que antes recebeu”10.

Agradeçamos tudo ao Senhor. Vivamos com a alegria de estar repletos de dons de Deus; não deixemos de apreciá-los. “Já viste como agradecem as crianças? – Imita-as dizendo, como elas, a Jesus, diante do favorável e diante do adverso: «Que bom que és! Que bom…!»”11 Sabemos agradecer, por exemplo, a facilidade com que podemos purificar-nos dos nossos pecados no Sacramento do perdão? Damos graças freqüentemente pelo imenso dom de termos Jesus Cristo conosco na Sagrada Eucaristia, e isso na mesma cidade, talvez na mesma rua?

III. CANTAI AO SENHOR um cântico novo, porque Ele fez maravilhas12, convida o Salmo responsorial. Quando vivemos de fé, só encontramos motivos para estar agradecidos. “Não há ninguém que, por pouco que reflita, não encontre facilmente motivos que o obrigam a ser agradecido com Deus [...]. Ao conhecermos o que Ele nos deu, encontraremos muitíssimos dons pelos quais devemos dar graças continuamente”13.

Muitos favores do Senhor nos chegam através das pessoas com quem convivemos diariamente, e por isso, nesses casos, o agradecimento a Deus deve passar por essas pessoas que tanto nos ajudam para que a vida nos seja menos dura, a terra mais grata e o Céu mais próximo. Ao agradecer-lhes, agradecemos a Deus, que se torna presente nos nossos irmãos, os homens.

Não podemos ficar aquém neste agradecimento aos homens. “Não pensemos que estamos quites com os homens porque lhes damos, pelos seus trabalhos e serviços, a compensação pecuniária de que necessitam para viver. Eles nos deram algo mais do que um dom material. Os professores instruíram-nos, e aqueles que nos ensinaram o nosso ofício, como também o médico que nos atendeu um filho e o salvou da morte, e tantos outros, abriram-nos os tesouros da sua inteligência, da sua ciência, da sua perícia, da sua bondade. Isso não se paga com um talão de cheques, porque eles nos deram a sua alma. Mas também o carvão que nos aquece representa o trabalho penoso do mineiro; e o pão que comemos, a fadiga do agricultor: entregaram-nos um pouco da sua vida. Vivemos da vida dos nossos irmãos. Isso não se retribui com dinheiro. Todos puseram o coração no cumprimento do seu dever social: têm direito a que o nosso coração o reconheça”14. De modo muito particular, a nossa gratidão deve dirigir-se aos que nos ajudaram a encontrar o caminho que leva a Deus.

O Senhor sente-se feliz quando nos vê agradecidos com todos aqueles que nos favorecem diariamente de mil maneiras. Para isso, é necessário que nos detenhamos um pouco, que digamos simplesmente “obrigado”, com um gesto amável que compensa a brevidade da palavra… É bem possível que aqueles nove leprosos curados bendissessem o Senhor no seu coração…, mas não retornaram, como fez o samaritano, para encontrar-se com Jesus que os esperava.

Também é significativo que fosse um estrangeiro quem voltasse para agradecer. Isso recorda-nos que, por vezes, cuidamos de agradecer um serviço ocasional prestado por uma pessoa desconhecida, e ao mesmo tempo não sabemos dar importância às contínuas delicadezas e atenções que recebemos dos mais próximos.

Não existe um só dia em que Deus não nos conceda alguma graça particular e extraordinária. Não deixemos passar o exame de consciência de cada noite sem dizer ao Senhor: “Obrigado, Senhor, por tudo”. Não deixemos passar um só dia sem pedir abundantes bênçãos do Senhor para aqueles que, conhecidos ou não, procuraram fazer-nos algum bem. A oração é também um meio eficaz de agradecer: Dou-te graças, meu Deus, pelos bons propósitos, afetos e inspirações que me comunicaste…

(1) 2 Re 5, 14-17; (2) Lc 17, 11-19; (3) cfr. Lev 13, 45; (4) cfr. 2 Re 17, 24 e segs.; Jo 4, 9; (5) cfr. Lev 14, 2; (6) Santo Agostinho, Epístola 72; (7) cfr. São João Crisóstomo, Homilias sobre São Mateus, 25, 4; (8) Santo Agostinho, Sermão 176, 6; (9) Sl 104, 5; (10) São Bernardo, Comentário ao Salmo 50, 4, 1; (11) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Caminho, n. 894; (12) Sl 97, 1-4; Salmo responsorial da Missa do vigésimo oitavo domingo do Tempo Comum, ciclo C; (13) São Bernardo, Homilia para o Domingo VI depois de Pentecostes, 25, 4; (14) Georges Chevrot, “Pero Yo os digo…”, Rialp, Madrid, 1981, págs. 117-118.


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O plano de vida espiritual

Por Pe. Francisco Faus

O que é um “plano de vida espiritual”?

O “plano de vida espiritual” consiste, simplesmente, em programar as práticas da vida espiritual (oração, comunhão, leituras, terço, etc.) de modo a garantir que sejam realizadas com ordem e constância. Esse “plano” tem dois aspectos:

1º) A definição do “tipo” de práticas espirituais que nos propomos a exercitar. Quer o tipo, quer o número e a frequência dessas práticas não tem que ser o mesmo para todos: para uns, o plano consistirá em rezar algumas orações breves ao acordar e ao deitar e em ler diariamente o Evangelho durante cinco ou dez minutos; para outros, além disso, o plano incluirá a Comunhão frequente e, diariamente, a meditação, o Terço, uma leitura formativa, o exame de consciência, etc. Dependerá das circunstâncias espirituais de cada pessoa.

Uma boa direção espiritual pessoal poderá aconselhá-lo sobre o tipo e o número de práticas que lhe convém em cada momento da vida, sobre a frequência delas, e sobre a conveniência, lógica e natural, de ir aumentando-as um pouco, por um plano inclinado, à medida que a alma amadurece. Nisso do “aumento” também não há regras fixas: cada alma é “uma” alma.

2) O segundo aspecto consiste em definir, de modo claro e concreto, o momento do dia em que cada prática será cumprida, ou seja, definir um horário, que garanta que o “plano” não fique inutilmente só nos desejos gerais, mas seja um meio eficaz de formação e de crescimento espiritual.

Monotonia e amor

É interessante, a esse respeito, ler as seguintes palavras de “Caminho“: «Sujeitar-se a um plano de vida, a um horário, é tão monótono!, disseste-me. – E eu te respondi: há monotonia porque falta Amor» (n. 77).

1) A “monotonia”! Fazer todos os dias as mesmas coisas é tão monótono – podemos pensar -, acaba tornando-se rotina, prática mecânica. Não seria melhor rezar, ler, comungar, etc. só de vez em quando, nos momentos em que nos sentirmos mais dispostos, com mais condições de aproveitar esses meios, ou mais necessitados de Deus?

Com Camões, vou-lhe responder: «ledo engano!», ou seja, não. O problema da “monotonia” ou da “rotina” não procede da repetição, mas do vazio de amor do coração. Talvez entenda isso, tomando como referência um fato real:

Uma boa senhora de família minha conhecida veio conversar comigo, para desabafar e pedir conselho. Nem tinha começado a falar, e já chorava. Quando lhe perguntei por que, respondeu: “Durante vinte anos, meu marido, todos os dias, ao sair de casa para o trabalho, se despedia de mim com um beijo. Desde faz dois meses, ele sai sem nem avisar”. Andava mal aquele amor. Tão mal, que o drama da separação veio pouco depois. Deu para entender? Havendo amor, a repetição da mesma prática diária não é rotineira. Isso é o que devemos procurar, e pedir a Deus: amor. “Mas… e se não sinto esse amor?”

2) Aí vem um segundo ponto. Será que amar é sentir? Quando uma mãe, fatigada e morta de sono, levanta três, quatro, cinco vezes à noite para amamentar ou acalmar o seu bebê, duvido que “sinta” uma grande emoção ou alegria. Mas ela ama seu filho, e esse seu amor – quer sinta, quer não sinta – justifica todos os seus sacrifícios. “Sentir amor”, muitas vezes significa “sentir-me bem a mim mesmo…, ter prazer (como quando “sinto” vontade de beber cerveja, e então bebo; e quando não sinto, não bebo)

O amor daquela mãe é mil vezes mais autêntico que o amor de uma mulher superficial, que logo pensa em separação quando nota que a convivência com o marido já não lhe dá prazer, não lhe traz satisfações. A esse falso amor, chama-se “egoísmo”.

«Passou-me o entusiasmo”, escreveste-me. – Tu não deves trabalhar por entusiasmo, mas por Amor; com consciência do dever, que é abnegação» – lemos também em “Caminho” (n. 994). É isso o que faz a mãe do bebê chorão. E Deus será menos? Não estaremos dispostos a dar-lhe o que daríamos a uma pessoa querida, sendo que, ao rezar, comungar, etc, na realidade é Ele quem nos ama e nos dá, é Ele quem se entrega a nós.

Amar é “querer”

Não caiamos, portanto, na cilada da falsa autenticidade. Amar é “querer” bem (o bem, o que é bom), custe o que custar. Por isso, pergunto-lhe ainda com “Caminho“: «Dizes que sim, que queres. – Está bem. -Mas queres como um avaro quer o seu ouro, como a mãe quer ao seu filho, como um ambicioso quer as honras, ou como um pobre sensual quer o seu prazer? – Não? Então não queres».

Pense um pouco nos sacrifícios que é capaz de fazer, nos compromissos a que não falta de jeito nenhum, nas despesas que não mede aquele que “quer” mesmo ficar rico, ou ganhar uma posição política elevada, ou satisfazer um prazer que o traz alucinado… Então? Deus não merece mais?

Se medita nisso, compreenderá a grande importância de ter e seguir um plano de vida espiritual, definindo-o bem claramente por escrito na sua agenda, e ficará precavido contra os “grandes inimigos” do plano de vida espiritual:

a) os sentimentalismo egoísta e a autenticidade falsa, já mencionados;

b) o engano perigosíssimo de quem diz a si mesmo: “agora, na hora prevista no plano para a oração, não vou fazer; faço depois”. Quase sempre, o “depois” não existe. É muito melhor, quando se prevê dificuldade, fazê-lo “antes”, ou seja, adiantar uma prática, que você prevê que não poderá cumprir no horário previsto. São Josemaria dizia, meio brincando e muito a sério, que os grandes inimigos da alma são: “amanhã, depois, achei que, pensei que”… Quer dizer, as desculpas, que continuam sendo desculpas por mais que queiramos justificá-las. Quase sempre, o momento em que Deus nos concede mais graça é precisamente o “mau momento”, aquela hora em que nos custa cumprir o nosso compromisso de fé e amor a Deus, e, mesmo assim, nos vencemos e o cumprimos;

c) também é um inimigo o desânimo de achar que não serve de nada cumprir fielmente o plano, ao vermos que, por mais que o cumpramos não melhoramos. Creio que basta outro ponto de Caminho para responder a isso: «Quantos anos comungando diariamente! Qualquer outro seria santo – disseste-me -, e eu, sempre na mesma! -Meu filho – respondi-te -, continua com a Comunhão diária e pensa: Que seria de mim se não tivesse comungado?».

Se tiver oportunidade de ler alguma vida de Santa Teresa de Ávila, a mulher admirável, forte, dinâmica e empreendedora, que era ao mesmo tempo uma alma mística, de elevadíssima oração, verá como a santa conta que as horas de oração que lhe trouxeram mais proveito espiritual foram aquelas (muitas!), em que se sentia incapaz de pensar e de sentir na capela, mas perseverava nos seus horários de oração, entregando-se assim humildemente nas mãos de Deus.


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Escapulário do Carmo

 

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 008/1958)

«Como se explicam as promessas anexas ao escapulário do Carmo? A Justiça Divina poderia, simplesmente em atenção a essa insígnia, permitir que um pecador endurecido não seja condenado?»
Dividiremos a resposta em três etapas: 1) origem do escapulário como tal; 2) privilégios anexos ao escapulário do Carmo; 3) valor histórico e significado religioso dos mesmos.

1. Origem do escapulário
O escapulário (do latim scapula, espádua) é uma longa peça de pano que das espáduas desce sobre o peito e as costas de quem a traja, recobrindo a respectiva túnica. Inicialmente servia de avental durante o trabalho manual. Muito usado entre os monges, tornou-se uma das insígnias carac terísticas das Ordens monásticas e religiosas em geral.

Na Idade Média as Ordens Religiosas propriamente ditas foram criando em torno de si o que se chama «as Ordens Terceiras» (ou as famílias de «Oblatos» e «Oblatas»), compostas de pessoas seculares desejosas de viver em contato assíduo com os mosteiros e conventos (a «Ordem Segunda» era o ramo feminino, enclausurado, de uma Ordem masculina dita Primeira»). Os terciários e Oblatos receberam, como distin tivo de seu estado, o escapulário. Aos poucos, este foi sendo adotado até pelas Confrarias, associações remotamente vei culadas a determinada Ordem. Então, para facilitar o uso da insígnia, os Superiores religiosos resolveram admitir, ao lado do escapulário grande, o escapulário pequeno, que consta de dois retângulos de pano de lã ligados entre si por duas fitas, de sorte a poder ser trazidos pelos irmãos dia e noite sobre o peito e as costas. É esta a forma hoje em dia mais comumente adotada pelos fiéis que vivem no mundo.
Distinguem-se atualmente vários tipos de escapulários segundo as diversas Ordens Religiosas e modalidades da piedade cristã: o mais famoso é o escapulário marron ou negro, da Or dem do Carmo, ao lado do qual se podem citar: o escapulário branco, da SSma. Trindade, propagado a partir de 1200; o escapulário negro, das Sete Dores de Maria, devido aos Servitas, a partir de 1255; o escapulário azul, da Imaculada Conceição, concedido em 1691 e 1710 aos Teatinos; o escapulá rio vermelho, dedicado à Paixão do Senhor, difundido pelos Lazaristas e aprovado em 1847.

O uso do escapulário não visa apenas ornamentar o respectivo portador. Ao contrário, tem valor religioso digno de nota: significando a filiação a uma Ordem ou Confraria, implica, em quem o traz, o desejo sincero de praticar os conselhos evangélicos (cf. Mt 19,21), na medida em que são aplicáveis à vida no século. Além disto, significa participação nos bens espirituais de que goza a respectiva família religiosa; costuma ser bento e entregue aos fiéis segundo determinado ritual, tornando-se assim um sacramental, ou seja, objeto que comuni ca a graça em quem o usa com fé e caridade. Vê-se, por conseguinte, que, embora sejam múltiplos os tipos de escapulá rio, têm todos a mesma finalidade: significar e, ao mesmo tempo, fomentar o serviço aprimorado de Deus, que é a grande devoção de todos os cristãos.

2. Os privilégios anexos ao escapulário do Carmo

Dentre os favores espirituais outorgados ao uso do escapulário, sobressaem os que se prendem ao da Ordem do Carmo.

Quais são precisamente?
Enunciam-se dois: a) o privilégio de uma boa morte; b) a pronta libertação do purgatório.

a) A graça da boa morte teria sido prometida pela SSma. Virgem numa aparição a S. Simão Stock, sexto Superior Geral dos Carmelitas (1242-1265), em Cambridge, aos 16 de julho de 1251. Trazendo em mão o hábito da Ordem, teria dito a excelsa Senhora: «Eis o privilégio que dou a ti e a todos os filhos do Carmelo: todo aquele que morrer, revestido por este hábito, será salvo».

b) O privilégio «sabatino» afirma que a Virgem SSma. liberta do purgatório os irmãos filiados à Ordem do Carmelo no primeiro sábado após a morte de cada um. Este favor, dizem, foi revelado pela própria Mãe de Deus ao Papa João XXII, provavelmente na véspera de sua eleição. O mesmo Pontífice terá anunciado aos fiéis tal graça e várias outras concedidas à Ordem do Carmo mediante a bula «Sacratissimo uti culmine» de 3 de março de 1317.

3. Valor histórico e significado religioso de tais privilégios

a) Os documentos sobre os quais se baseia a afirmação dos dois privilégios têm despertado a atenção dos estudiosos, levando-os a perguntar se são fontes históricas de todo fide dignas.
Examinemos o que consta.

O primeiro documento que refere a aparição da Bem-aventurada Virgem a S. Simão Stock, data do ano de 1430 aproximadamente: é o chamado «Viridarium» do Prior Geral Carmelita João Grossi (cf. Daniel a S. Virg. Maria, Speculum Carmelitarum I. Antverpia 1680,131). Entre o ano em que se terá dado a visão (1251) e a data acima, a história não apresenta documento algum que relate o caso.

No ano de 1642 apareceu pela primeira vez em público, por iniciativa do Pe. Provincial João Chéron O. C, uma carta circular de Simão Stock aos religiosos de sua Ordem, carta em que o Prior Geral referia a aparição e as palavras de Maria. Este documento teria sido ditado pelo Santo a seu secretário, Pe. Swanyngton. Denegam fé a esse instrumento os historiado res modernos, inclusive os Carmelitas (cf. Annales Ord. Carm. 1927 e 1929).

Quanto ao privilégio «sabatino», desde o séc. XVII contesta-se a autenticidade da bula de João XXII que o anuncia ao mundo cristão. Entre a data que este documento traz (1317) e o ano de 1461 não há menção da bula na tradição. O primeiro autor que a deu a conhecer foi o Carmelita Balduíno Leersius (†1483). Hoje em dia não há quem afirme a autenticidade de tal documento. O próprio Pe. Zimmermann na sua coleção de documentos referentes à Ordem do Carmo (Monumenta histó rica Carmelitana 1356-363) renunciou a defendê-la. — No texto mesmo da bula paira dúvida sobre uma das passagens principais: lê-se no original latino que a Virgem SSma. libertará do purgatório súbito (em breve, sem demora) ou, conforme outros códigos, sabbato, no sábado seguinte à morte, as almas dos seus fiéis.

Ademais notam os historiadores que até o séc. XV os membros da Ordem do Carmo não atribuíam maior importância ao uso do escapulário do que os filhos de outras Ordens.

Eis o que, do ponto de vista historiográfico, se poderia dizer sobre as promessas anexas ao escapulário do Carmo.

b) Pergunta-se agora: que resulta disso tudo para a piedade dos fiéis?

Deve-se reconhecer que uma série de Papas, a partir do séc XVI, tem favorecido o uso do escapulário do Carmo, enriquecendo-o com novas indulgências e permitindo sejam anunciadas aos fiéis as duas promessas acima. Ao fazer isso, porém, nenhum Pontífice intencionou dar definição dogmática cobre o assunto; os Papas apenas quiseram fazer da piedosa crença vigente um estímulo para a piedade dos fiéis. As promessas anexas ao escapulário do Carmo, por conseguinte, ficam pertencendo ao setor das revelações particulares, que cada cristão é livre de admitir ou não, seguindo os critérios que lhe pareçam mais fidedignos.

Observe-se, porém, que o privilégio da boa morte (a pri meira das duas promessas) jamais poderá ser entendido em sentido mecânico, como se o uso mesmo do escapulário, inde pendentemente do teor de vida moral do cristão, fosse sufi ciente para garantir a salvação eterna. Não; o portador do escapulário deverá cultivar as virtudes cristãs para que a dita insígnia lhe possa valer como penhor de especial tutela de Maria SSma. na hora da morte. Foi o que o Papa Leão XIII quis inculcar, quando, ao aprovar o Ofício de S. Simão Stock para os católicos ingleses, mandou inserir no texto respectivo uma palavrinha que não se achava no original apresentado a S. Santidade: «Todo aquele que morrer piedosamente trajando esse hábito, não sofrerá as chamas do inferno». Conseqüente mente comenta J.-B. Terrien: «Certamente os antigos consideravam o escapulário como penhor de predestinação, mas não chegavam, como penso, ao ponto de dizer que não restem dúvidas justificadas a respeito da salvação de um pecador que na hora da morte rejeita o amparo da religião, embora tenha trazido até o último suspiro a veste sagrada de Maria» (La Mère de Dieu et la Mère des hommes IV 304).

As boas disposições espirituais são também exigidas por um comentário do privilégio, comentário atribuído a S. Simão Stock: «Conservando, meus irmãos, esta palavra em vossos corações, esforçai-vos por assegurar vossa eleição mediante boas obras e por jamais desfalecer; vigiai em ação de graças por tão grande beneficio; orai incessantemente a fim de que a promessa a mim comunicada se cumpra para a glória da SSma. Trindade… e da Virgem sempre bendita» (cf. Bento XIV, De festis B. V. c. VI §§ 7-8).
No tocante ao segundo privilégio, devem-se observar os termos precisos segundo os quais a Santa Sé se tem referido a ele. Um decreto do S. Ofício datado de 15 de fevereiro de 1615 (sob o Papa Paulo V) e renovado pela S. Congregação das Indulgências a 1° de dezembro de 1885 assinala a atitude definitiva do magistério da Igreja sobre o assunto: sem proferir palavra acerca da autenticidade da controvertida bula de João XXII, admite que a Virgem Maria recobrirá com a sua proteção materna, principalmente no sábado (fórmula devida à ambi güidade do texto acima referido: súbito… sabbato…?), dia consagrado ao seu culto, as almas daqueles que na terra tive rem sido seus fiéis servos.

Aos 4 de julho de 1908, a S. Congregação aprovou uma Súmula de indulgências e privilégios concedidos à Confraria do Escapulário do Carmo, em que se lê verbalmente o seguinte: «O privilégio comumente chamado sabatino, de João XXII, aprovado e confirmado por Clemente VII, Ex clementis, aos 12 de agosto de 1530, por Pio V, Superna dispositione, aos 18 de fevereiro de 1566, por Gregório XIII, Ut laudes, aos 18 de setembro de 1577, e por outros, assim como pelo decreto da S. Inquisição Romana sob Paulo V, aos 20 de janeiro de 1613, declara: ‘É permitido aos Padres Carmelitas pregar que os fiéis podem admitir a piedosa crença no auxílio concedido após a morte aos Religiosos e confrades da Asso ciação de Nossa Senhora do Monte Carmelo’. Com efeito, é permitido crer que a SSma. Virgem socorra às almas dos Religiosos e confrades falecidos em estado de graça, contanto que tenham trazido durante a vida o escapulário, tenham guardado a castidade do seu estado e recitado o Ofício Parvo da Virgem ou, se não sabem ler, tenham observado os jejuns da Igreja e praticado a abstinência de carne às quartas e sábados, a menos que a festa de Natal caia num desses dias. As orações contínuas de Maria, seus piedosos sufrágios, seus méritos e sua especial proteção lhes são assegurados após a morte, principalmente no sábado, que é o dia consagrado pela Igreja à SSma. Virgem».

Neste documento chama a nossa atenção, de um lado, o fato de não serem mencionadas nem a aparição da SSma. Virgem nem a bula de João XXII «Sacratissimo uti culmine»; de outro lado, verifica-se que, independentemente desses tópicos, a Santa Sé aprecia a fidelidade ao escapulário do Carmo, mencionando especial proteção de Maria para os verdadeiros devotos do mesmo (o que certamente exclui o porte meramente mecânico de tal insígnia); o documento, porém, não fala de libertação do purgatório no primeiro sábado após a morte, preferindo a fórmula mais geral: «especial proteção». — Como quer que seja, a idéia de sábado no purgatório teria que ser entendida em sentido largo ou translato, visto que a sucessão de dias da semana só pode ser critério na terra, onde o tempo é medido pelo movimento dos corpos; no purgatório há apenas almas separadas de seus corpos.

As considerações e conclusões acima talvez causem surpresa em um ou outro dos nossos leitores. Foram contudo ditadas pela objetividade dos documentos e fatos. Não acarretam, de modo algum, detrimento para a piedade. Muito ao contrário; esta tanto mais forte e frutuosa é quanto mais alicerçada sobre a verdade e o «sentire cum Ecclesia», sobre as normas e declarações da Esposa de Cristo. A cada cristão fica a liberdade de se santificar dando fé às promessas anexas ao escapulário do Carmo. A finalidade destas linhas era apenas a de remover qualquer concepção teologicamente errônea a respeito da tradicional devoção.

BIBLIOGRAFIA:
A. Michel. Scapulaire, em «Dictionnaire de Théologie Catholique» XIV 1. Paris 1939, 1254-9.
K. Bihlmeyer, Skapulier, em «Lexikon für Théologie und Kirche» IX 617.
N. Paulus, Geschichte des Ablasses im Mittelalter II. 1923.
Beringer-Steinen, Les indulgences. Paris 1925.


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Penhor de Vida Eterna

MEDITAÇÕES SOBRE A SAGRADA EUCARISTIA.

SÉTIMA MEDITAÇÃO

47. PENHOR DE VIDA ETERNA

– Uma antecipação do Céu.

– Participação na vida que nunca acaba.

– Maria e a Eucaristia.

I. IESU, QUEM VELATUM nunc aspicio… “Jesus, a quem contemplo escondido, rogo-Vos se cumpra o que tanto desejo: que, ao contemplar-Vos face a face, seja eu feliz vendo a vossa glória. Amém”1.

Um dia, pela misericórdia divina, veremos Jesus cara a cara, sem véu algum, tal como está no Céu, com o seu Corpo glorificado, com os sinais dos cravos, com o seu olhar amável, com o seu rosto acolhedor de sempre. Distingui-lo-emos imediatamente, e Ele nos reconhecerá e virá ao nosso encontro, depois de tanta espera.

Mas encontramo-lo já agora, escondido, oculto aos sentidos, nas mil situações da vida diária: no trabalho profissional, nos pequenos serviços que prestamos aos que estão junto de nós, em todos os que compartilham conosco a mesma fadiga e as mesmas alegrias… Encontramo-lo sobretudo na Sagrada Eucaristia, onde nos espera e se entrega inteiramente a cada um de nós, numa antecipação da glória do Céu, quando comungamos. Adoramo-lo dentro do nosso peito, e então tomamos parte na liturgia que se celebra na Jerusalém celestial, para a qual nos dirigimos como peregrinos e onde Cristo está sentado à direita de Deus Pai; e unimo-nos ao coro dos anjos que o louvam eternamente no Céu, pois o sacramento da Eucaristia “conjuga o tempo e a eternidade”2.

A Sagrada Eucaristia é uma garantia do amor que nos aguarda; nela “recebemos um penhor da glória futura”3. Dá-nos forças e consolo, mantém viva a recordação de Jesus, é o viático, o “farnel” necessário para percorrermos o caminho, que por vezes pode tornar-se íngreme. “A Igreja, ao anunciar na celebração eucarística a morte do Senhor, proclama também a sua vinda. É um anúncio dirigido ao mundo e aos seus próprios filhos, quer dizer, a si mesma”4. Os nossos corpos, pela recepção deste sacramento, “deixam de ser corruptíveis e passam a possuir a esperança da ressurreição para sempre”5. O Senhor revelou-o claramente na sinagoga de Cafarnaum: Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e Eu o ressuscitarei no último dia6.

Jesus, a quem agora contemplamos escondido – Iesu quem velatum nunc aspicio… –, não quis esperar pelo encontro definitivo, que acontecerá depois da jornada de trabalhos aqui na terra, para se unir intimamente conosco. Agora, no Santíssimo Sacramento, permite-nos entrever o que será a bem-aventurança no Céu. “Está no Sacrário como por trás de um muro, e dali nos olha como através de estreitas grades (Cant 2, 9). Ainda que se oculte aos nossos olhos, está realmente presente para ficar ao nosso alcance; oculta-se para se fazer desejar. E enquanto não chegarmos à pátria celestial, quer dar-se por inteiro e viver completamente unido a nós”7.

II. COM FREQÜÊNCIA, O SENHOR ensina-nos no Evangelho que muitas das coisas que consideramos reais e definitivas são simples imagens ou cópias das que nos aguardam no Céu. Cristo é a verdadeira realidade, e o Céu é a Vida autêntica e definitiva, a felicidade eterna, aquela que realmente tem conteúdo, comparada com a qual a felicidade desta vida não é senão um mau sonho. Quando o Senhor nos diz: Quem comer deste pão viverá eternamente8, refere-se a um Alimento por excelência e a uma Vida que nunca acaba e que é a plenitude do existir.

Para agradecermos de todo o coração a imensa dádiva que é a presença de Jesus Cristo na Sagrada Eucaristia, pensemos que Ele se entrega a cada um de nós como Vida definitiva, como antecipação daquela que teremos um dia para sempre na eternidade. Perante esta consideração, “toda a agitação e estrépito das ruas, todas as grandes fábricas que dominam as nossas paisagens – escreve R. Knox –, não passam de ecos e sombras, se nelas pensarmos por um momento à luz da eternidade; a realidade está aqui, sobre o altar, nessa parte dele que os nossos olhos não podem ver nem os nossos sentidos distinguir. O epitáfio colocado sobre o túmulo do Cardeal Newman deveria ser o de todo o católico: Ex umbris et imaginibus in veritatem, das sombras e aparências até à verdade. Quando a morte nos levar deste mundo, o efeito não será o de uma pessoa que dorme e tem sonhos, mas o de alguém que desperta de um sonho para a plena luz do dia. Neste mundo, estamos tão cercados pelas coisas sensíveis, que as tomamos como realidades absolutas. Mas de vez em quando temos um clarão de luz que corrige essa perspectiva errônea. E, sobretudo, quando vemos o Santíssimo Sacramento entronizado, devemos olhar para esse disco branco que brilha no ostensório como se fosse uma janela através da qual, por um momento, chega até aqui a luz do outro mundo”9, Aquele que contém toda a plenitude.

Quando contemplamos a Sagrada Hóstia no altar ou no ostensório, vemos o próprio Cristo que nos anima a viver na terra com os olhos postos no Céu, Aquele que um dia veremos glorioso, rodeado pelos anjos e pelos santos. Aqui na terra, é Cristo em pessoa quem acolhe o homem, maltratado pelas asperezas do caminho, e o conforta com o calor da sua compreensão e do seu amor. Na Eucaristia, encontram a sua plena realização aquelas dulcíssimas palavras: Vinde a mim todos os que estais fatigados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei10. Este alívio pessoal e profundo, que é o único remédio verdadeiro para todas as nossas fadigas pelos caminhos do mundo, podemos encontrá-lo – ao menos como participação e antecipação – nesse Pão divino que Cristo nos oferece na mesa eucarística11. Não deixemos de recebê-lo como merece, pensando no Céu.

III. JUNTO DE JESUS encontramos sempre Nossa Senhora: no Céu e aqui na terra, na Sagrada Eucaristia. Os Atos dos Apóstolos referem que, depois da Ascensão de Jesus ao Céu, Maria se encontrava junto dos Apóstolos, unida a eles – exercendo já o seu ofício de Mãe da Igreja – na oração e na fração do pão12, isto é, “comungando no meio dos fiéis com o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade do seu próprio Filho [...]. Maria reconhecia no Cristo da Missa e das suas comunhões eucarísticas o Cristo de todos os mistérios da Redenção. Que olhar humano ousaria medir as profundezas da intimidade em que a alma da Mãe e a do Filho voltavam a encontrar-se na Eucaristia?”13Como seriam as comunhões de Nossa Senhora enquanto permaneceu aqui na terra?

Depois da sua Assunção aos Céus, Maria contempla novamente Jesus glorioso, cara a cara; está intimamente unida a Ele, e nEle conhece todo o plano redentor, no centro do qual se encontram a Encarnação e a sua Maternidade divina. Em torno dEle, no Céu e na terra, os anjos e os santos louvam-no sem cessar. Maria, mais do que todos juntos, ama e adora o seu Filho realmente presente no Céu e na Eucaristia, e ensina-nos a cultivar os mesmos sentimentos que Ela teve em Nazaré, em Belém, no Calvário, no Cenáculo; anima-nos a tratá-lo com o amor com que Ela o adora no Céu e no Sacramento do Altar14.

Olhando para esta imensa piedade de Nossa Senhora, podemos repetir: Eu quisera, Senhor, receber-Vos, com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu a vossa Santíssima Mãe… A Santíssima Virgem, sempre perto do seu Filho, anima-nos a recebê-lo, a visitá-lo, a tê-lo como centro do nosso dia, a dirigir-lhe freqüentemente os nossos pensamentos, a procurá-lo nas nossas necessidades.

E não nos esqueçamos também de que, no Céu, muito perto de Jesus, veremos não somente Maria, mas, muito junto dEla, São José, nosso Pai e Senhor. A glória do Céu será, de certo modo, a continuação do trato que tivermos mantido aqui na terra com Jesus, Maria e José.

“Muitas vezes os autores medievais compararam Maria à Nau bíblica que traz o Pão de longe. Realmente, assim é. Maria é quem nos traz o Pão eucarístico; é a Medianeira; é a Mãe da vida divina que Ele dá às almas. Alegra-nos considerar sobretudo, à luz da sua Maternidade espiritual, as relações que há entre Ela e a Eucaristia; como Mãe, Maria diz a todos nós: Vinde, comei o pão que vos preparei; comei bastante, que ele vos dará a verdadeira vida”15.

É o convite maternal que Nossa Senhora nos envia nestes dias em que ainda temos presente a festa do Corpus et Sanguis Christi. E sempre.

(1) Hino Adoro te devote; (2) Paulo VI, Breve apost. ao Cardeal Lercaro, 16-VII-1968; (3) Conc. Vat. II, Const. Sacrossanctum Concilium, 47; (4) M. Schmaus, Teologia dogmática, vol. VI; (5) Santo Irineu, Contra as heresias, I, 4, 18; (6) Jo 6, 54; (7) Santo Afonso Maria de Ligório, Prática do amor a Jesus Cristo, 2; (8) Jo 6, 58; (9) R. A. Knox, Sermones pastorales, pág. 435; (10) Mt 11, 28; (11) cfr. João Paulo II, Homilia, 9-VII-1980; (12) At 2, 42; (13) M. M. Philipon, Los sacramentos en la vida cristiana, págs. 139-140; (14) cfr. R. M. Spiazzi, María en el misterio cristiano, pág. 202; (15) ib., pág. 203-204.

Fonte: Falar com Deus


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