Sunday, 20 of May of 2012

Tag » direção espiritual

Disposições para Encontrar Jesus

 

– Fé e correspondência à graça. Purificar a alma para ver Jesus.

– A cura de Naamã. Docilidade e humildade.

– Docilidade na direção espiritual.

I. A MINHA ALMA desfalecida consome-se suspirando pelos átrios do Senhor. O meu coração e a minha carne exultam pelo Deus vivo, lemos no Intróito da Missa1. E para penetrar na morada de Deus, é necessário ter uma alma limpa e humilde; para ver Jesus, são necessárias boas disposições. O Evangelho da Missa no-lo mostra uma vez mais.

O Senhor, depois de um tempo dedicado à pregação pelas aldeias e cidades da Galiléia, volta a Nazaré, onde se tinha criado. Ali todos o conhecem: é filho de José e Maria. No sábado, foi à sinagoga, conforme era seu costume2,levantou-se para a leitura do texto sagrado e escolheu um trecho messiânico do profeta Isaías. São Lucas capta a densa expectativa que havia no ambiente: Enrolando o livro, deu-o ao ministro e sentou-se; todos quantos estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Tinham ouvido maravilhas sobre o filho de Maria e esperavam ver coisas ainda mais extraordinárias em Nazaré.

Não obstante, ainda que a princípio todos lhe davam testemunho e se admiravam das palavras de graça que procediam da sua boca3, não têm fé. Jesus explica-lhes que os planos de Deus não se baseiam na pátria ou no parentesco: não basta ter convivido com Ele, é necessária uma fé grande. E serve-se de alguns exemplos do Antigo Testamento: Havia muitos leprosos em Israel no tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi curado a não ser Naamã, o sírio. As graças do Céu são concedidas sem qualquer limitação por parte de Deus, sem levar em conta a raça – Naamã não pertencia ao povo judeu –, a idade ou a posição social. Mas Jesus não encontrou boas disposições nos ouvintes, na terra onde se havia criado, e por isso não fez ali nenhum milagre. Aquelas pessoas só viram nEle o filho de José, aquele que fabricava mesas e consertava portas. Não é este o filho de José?, perguntavam4. Não souberam ir além disso. Não descobriram o Messias que os visitava.

Nós, para podermos contemplar o Senhor, também devemos purificar a nossa alma. “Esse Cristo que tu vês não é Jesus. – Será, quando muito, a triste imagem que podem formar teus olhos turvos… – Purifica-te. Clarifica o teu olhar com a humildade e a penitência. Depois… não te hão de faltar as luzes límpidas do Amor. E terás uma visão perfeita. A tua imagem será realmente a sua: Ele!”5

A Quaresma é uma boa ocasião para intensificarmos o nosso amor com obras de penitência que preparem a alma para receber as luzes de Deus.

II. NA PRIMEIRA LEITURA da Missa, narra-se a cura de Naamã, general do exército sírio6, a quem o Senhor se refere no Evangelho. Este leproso ouvira dizer, a uma escrava hebréia, que vivia em Israel um profeta com poder para curá-lo. Depois de uma longa viagem, Naamã veio com o seu carro e os seus cavalos e parou à porta de Eliseu. Este mandou-lhe dizer por um mensageiro: Vai, lava-te sete vezes no Jordão e a tua carne ficará limpa.

Mas Naamã não entendeu esse caminho de Deus, tão diferente do que havia imaginado. Eu pensava que ele viria em pessoa e, diante de mim, invocaria o Senhor, seu Deus, poria a mão no lugar infetado e me curaria da lepra. Porventura os rios de Damasco, o Abana e o Farfar, não são melhores que todas as águas de Israel? Não poderia eu lavar-me neles e ficar limpo?

O general sírio queria curar-se, e tinha feito um longo trajeto para isso; mas levava consigo a sua própria solução sobre o modo de ser curado. E quando já regressava, dando por inútil a viagem, os seus servidores disseram-lhe: Mesmo que o profeta te tivesse mandado uma coisa difícil, não a deverias tu fazer? Quanto mais agora que ele te disse: Lava-te e ficarás curado.

Naamã refletiu sobre as palavras dos seus acompanhantes e, retornando, prontificou-se com humildade a cumprir o que o profeta Eliseu lhe havia dito. Desceu ao Jordão e banhou-se ali sete vezes, como lhe ordenara o homem de Deus, e a sua carne tornou-se tenra como a de uma criança. Acabou por aceitar com docilidade um conselho que podia parecer inútil. E ficou curado. As suas novas disposições interiores tornaram eficaz a oração de Eliseu.

Não poucas vezes nós também andamos doentes da alma, cheios de erros e defeitos que não acabamos de arrancar. O Senhor espera que sejamos humildes e dóceis às indicações e conselhos das pessoas por Ele estabelecidas para nos ajudarem a procurar a santidade. Não tenhamos soluções próprias quando o Senhor nos indica outras, talvez contrárias aos nossos gostos e desejos.

No que diz respeito à alma, ninguém é bom conselheiro nem bom médico de si próprio. Ordinariamente, o Senhor serve-se de outras pessoas. “Cristo chamou e falou diretamente com São Paulo. Mas, embora pudesse revelar-lhe naquele momento o caminho da santidade, preferiu encaminhá-lo a Ananias e ordenou-lhe que aprendesse a verdade dos lábios deste: Levanta-te, entra na cidade e lá te será dito o que deves fazer”7. São Paulo deixar-se-á guiar. A sua forte personalidade, manifestada de tantos modos e em tantas ocasiões, serve-lhe agora para ser dócil. Primeiro os seus companheiros de viagem o levam a Damasco; depois Ananias devolve-lhe a vista, e só a partir desse momento é que será já um homem útil para as batalhas do Senhor.

Mediante a direção espiritual, a alma prepara-se para encontrar o Senhor e para reconhecê-lo nas situações correntes do seu dia.

III. A FÉ NOS MEIOS que o Senhor nos oferece opera milagres. Certa vez, Jesus pediu a um homem que fizesse uma coisa que esse homem sabia por experiência que não podia fazer: estender a sua mão seca, sem movimento. E a docilidade, sinal de uma fé operativa, tornou possível o milagre: Estendeu-a e ela tornou-se tão sã como a outra8. Haverá ocasiões em que nos pedirão coisas que nos sentiremos incapazes de fazer, mas que serão possíveis se deixarmos que a graça atue em nós. E essa graça chegar-nos-á freqüentemente como conseqüência da docilidade que manifestemos na direção espiritual.

Houve dez homens, segundo narra o Evangelho, que ficaram curados por terem sido dóceis. Jesus Cristo dissera-lhes somente: Ide, mostrai-vos ao sacerdote. E enquanto eles iam andando, ficaram curados9. Em outra ocasião, o Senhor compadeceu-se de um mendigo que era cego de nascença, e diz-nos São João queJesus cuspiu no chão, fez um pouco de lodo com a saliva e com o lodo ungiu os olhos do cego. Depois disse-lhe: Vai, lava-te na piscina de Siloé. O mendigo não duvidou um instante. O cego foi, lavou-se e voltou com vista10.

“Que exemplo de firmeza na fé nos dá este cego! Uma fé viva, operativa [...]. Que poder continha a água, para que os olhos ficassem curados ao serem umedecidos? Teria sido mais adequado um colírio misterioso, um medicamento precioso preparado no laboratório de um sábio alquimista. Mas aquele homem crê; põe em prática o que Deus lhe ordena, e volta com os olhos cheios de claridade”11.

A cegueira, os defeitos, as fraquezas são males que têm remédio. Nós não podemos nada, mas Jesus Cristo é onipotente. A água daquela piscina continuou a ser água; e o barro, barro. Mas o cego recuperou a vista, e depois, além disso, alcançou uma fé mais viva no Senhor. É assim que a fé dos que encontram Jesus se mostra tantas vezes ao longo do Evangelho.

Sem docilidade, a direção espiritual é estéril. E não poderá ser dócil quem se empenhe em ser teimoso, obstinado, incapaz de assimilar uma idéia diferente da que já tem ou da que lhe dita uma experiência que foi negativa por não ter contado com a ajuda da graça. O soberbo é incapaz de ser dócil, porque, para aprender, é necessário estarmos convencidos de que há coisas que ainda não conhecemos e de que precisamos de alguém que nos ensine. E para melhorarmos espiritualmente, devemos estar convencidos de que não somos ainda tão bons quanto Deus espera que sejamos.

Nos assuntos da nossa vida interior, devemos estar prevenidos e manter uma prudente desconfiança em relação aos nossos próprios juízos, para podermos aceitar outro critério diferente ou oposto ao nosso. E devemos deixar que Deus nos faça e refaça através dos acontecimentos e das inspirações e luzes que venhamos a receber na direção espiritual: com a docilidade do barro nas mãos do oleiro, sem oferecer resistência, com espírito de fé, vendo e ouvindo o próprio Cristo na pessoa que orienta a nossa alma. Assim nos diz a Sagrada Escritura: Desci então à casa do oleiro e encontrei-o ocupado a trabalhar no torno. Quando o vaso que estava a modelar não lhe saiu bem, como costuma acontecer nos trabalhos de cerâmica, pôs-se a trabalhar em outro do modo que lhe aprouve [...]. Sabei que o que é a argila nas mãos do oleiro, isso sois vós nas minhas12.

Disponibilidade, docilidade, deixar-se modelar e remodelar por Deus quantas vezes for necessário. Este pode ser o propósito da nossa oração de hoje, que poremos em prática com a ajuda da Virgem.

(1) Sl 83, 3; Intróito da Missa da segunda-feira da terceira semana da Quaresma; (2) Lc 2, 16; (3) Lc 4, 22; (4) ib.; (5) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 212; (6) cfr. 2 Rs 5, 1-15; (7) Cassiano, Colações, 2; (8) cfr. Mt 12, 9 e segs.; (9) Lc 17, 11-19; (10) Jo 9, 1 e segs.; (11) Josemaría Escrivá, Amigo de Deus, n. 193; (12) Jer 18, 1-7.

Fonte: Falar com Deus


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O ministério da direção espiritual (VI Parte)

Por Pe. Adair José Guimarães

A relação do dirigido com o diretor espiritual

Qual deve ser a relação a ser estabelecida entre o dirigido e o diretor espiritual? De antemão vale lembrar que a direção espiritual não é apenas um desabafo ou uma conversa informal. Mas trata-se de um diálogo franco, aberto e com um claro objetivo: o crescimento espiritual do dirigido. Na direção espiritual não podemos considerar apenas a dimensão sobrenatural que envolve este ministério; é, também, um desabrochar de um relacionamento entre duas pessoas humanas e situadas dentro de um contexto também humano, movidos pela fé e desejosas de alcançar a plenitude da vivência cristã.

Deus sempre fala à pessoa humana utilizando sempre uma mediação também humana. O diretor espiritual, antes de tudo, deve ser uma pessoa aberta ao relacionamento humano e com Deus. Sua fé e sua experiência de Deus lhe outorgará o caminho do bom entendimento na ajuda humana e sobrenatural aos que lhe procurarem para a direção espiritual. Ele, por graça de Deus, realiza essa maravilhosa mediação.

Igualmente, o dirigido deve possuir largueza de alma e um profundo desejo de se relacionar e se abrir cada vez mais aos caminhos de Deus. A escuta e a capacidade de ruminar as admoestações em vista do pleno amadurecimento. Como já aludimos em artigos anteriores, além da Palavra de Deus e da Oração, não se descarta neste processo interativo entre dirigido e diretor espiritual a iluminação do instrumental de análise e de interpretação fornecidos pelas ciências do comportamento.

Considero importante que o dirigido possua simpatia pelo diretor espiritual e, sobretudo, muita confiança. Deve considerar a direção espiritual um espaço de muita liberdade onde tudo possa ser partilhado, sem receios e sem arrodeios.

O dirigido deve rezar pelo seu diretor espiritual, comungar na intenção dele. Por ser uma pessoa humana, necessita da graça divina para instruir adequadamente o dirigido. Creio que esta solidariedade na oração ajuda muito o processo de amadurecimento na direção.

A direção deve obedecer ao movimento cadencial do crescimento constante. Não pode ser um processo fechado ou repetitivo; a cada etapa elementos novos devem ser visualizados de tal modo que favoreça o amadurecimento do dirigido e a elaboração de seu itinerário de fé e vivência humana.

Quando o dirigido perceber que a direção não está rendendo e o esforço está sendo em vão, deve fazer uma avaliação com o diretor espiritual. Em certos casos, aconselha-se mudar de diretor. Se não houver sintonia e a abertura se tornar impossível, a mudança pode ser de todo benéfica. Lembro que a mudança de diretor espiritual deve ser discutida com o próprio diretor. Uma mudança que não obedeça o caminho da caridade, fere o bom senso moral e ético, alem de depor contra o próprio dirigido, principalmente se este faz parte de um seminário, instituto ou congregação religiosa.

Não é de se estranhar que o dirigido tenha que, em certos casos, questionar o seu diretor. Acontece que o acúmulo de trabalho ou o exagerado número de dirigidos, poderá impedir o diretor de estabelecer uma meta para o seu dirigido. Nesse caso, é lógico que a direção se torne efandonha e o resultado será o esfriamento do caminho de crescimento do dirigido. Contudo, deve-se levar em conta as condições humanas do diretor, sobretudo se tratar de um padre cansado e sobressaltado pelo acúmulo de serviços pastorais, o que não é novidade por esse imenso Brasil, onde os presbíteros ainda são uma espécie rara.

Mesmo que a direção espiritual possa ser uma exigência formal de uma casa de formação, seminário ou congregação religiosa, o que se requer do dirigido é a abertura total de sua alma. Todos sabemos da nocividade da mentira em todos os processos humanos; também na direção espiritual não poderia ser diferente. Quando o dirigido mente tudo cai por terra e a direção espiritual torna-se uma perda de tempo e um pecado.

A enganação na direção espiritual acarretará uma perca de tempo do diretor espiritual e a conseqüente derrocada espiritual do dirigido. Quando vejo na mídia ou através de outros meios as histórias desastradas de lideranças leigas, padres e religiosas, a primeira coisa que me vem à mente é que não foram verdadeiros na direção espiritual. Mentiram e falsearam uma vivência de aparências. Quem tem problemas ou é problemático, carregá-lo-ás por onde quer que vá.
O problema que se esconde na direção espiritual vai, mais cedo ou mais tarde, vir a tona e o descalabro é certeiro. O segredo está, repito, na abertura plena que brota da confiança que se estabelece, uma verdadeira resposta à ação do Espírito Santo. Vale ressaltar que o Espírito Santo é o nosso diretor espiritual interior. Ao ministro humano da direção espiritual cabe a perspicácia de auxiliar o dirigido à obediência ao ditames interior do Divino Consolador e Santificador.

No relacionamento dirigido/diretor, o dirigido não deve copiar o seu diretor. Há sempre o perigo de tornar-se uma fotocópia do diretor. O diretor mesmo deve ter o cuidado de não deixar que isso venha a ocorrer. O modelo será sempre Jesus Cristo. É para ele e, conseqüentemente, para suas virtudes, que o diretor deverá encaminhar o seu dirigido. Uma boa direção deve ser, antes de tudo, cristocêntrica. Aí está o grande sucesso da direção espiritual e a pujança de sua beleza.

Para o afeiçoamento a Cristo, o dirigido deverá cultivar em si o espírito de ovelha. A ovelha, ao contrário do bode, deixa-se pastorear e conduzir às boas pastagens. O bode, ao inverso, não aceita ser conduzido, pois traz em si a auto-suficiência e um espírito inquebrantável.
O dirigido deve se sentir como um bloco de mármore a ser trabalhado pelo cinzel do diretor espiritual que, paulatinamente, com o auxílio da Graça Divina, o ajudará a dilapidar as realidades pontiagudas que a vida velha lhe plasmou. A obediência é um grande dom, o próprio Cristo a testemunhou se fazendo obediente e dócil até a morte e morte de cruz (Fil. 2, 8). Na próxima reflexão vamos meditar sobre os caminhos práticos para uma direção espiritual fecunda e feliz.

Que Senhor faça próspero o caminho dos que trabalham na orientação espiritual, sendo verdadeiros pastores e intercessores. Igualmente, faça que cada dirigido possa, exemplo de Moisés, olhar para além do deserto, do deserto da própria vida e suas contradições e mergulhar nas águas profundas do amor do Coração de Jesus.

Fonte: http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/521234


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O ministério da direção espiritual (V Parte)

Por Pe. Adair José Guimarães

A diferença entre o diretor espiritual e o psicólogo

Ambos atuam no mesmo campo: o auxílio à pessoa humana. No entanto, a vertente e a finalidade são diferenciadas. O psicólogo procura auxiliar a pessoa na compreensão de si mesma e de seus traumas ou experiências significativas com o fim de melhorar a atuação da mesma dentro do universo que a cerca. O diretor espiritual, no mesmo processo de escuta, procura orientar a pessoa na experiência de Deus; evidentemente, sem esquecer todas as dimensões que compõem a grandeza de cada um.

O psicólogo não dá nada pronto. Com auxílio do terapeuta o cliente aprende a ler o significado de sua vida e suas condicionantes para redirecionar muitos aspectos de sua existência em busca da felicidade. O diretor espiritual, um pouco diferente do psicólogo, procura orientar a pessoa, exerce realmente um relacionamento de ensino, de orientação.

A direção espiritual jamais pode se confundir com uma sessão de terapia, pois fugiria por completo de sua finalidade precípua que é a orientação espiritual ou ajuda para melhorar o relacionamento com Deus.

Inegavelmente um bom diretor espiritual não pode ignorar a contribuição da ciência do comportamento, a psicologia, no processo de compreensão do humano e na sua orientação para Deus. Desta feita, requer-se do diretor espiritual pelo menos uma noção geral de psicologia. Em determinados momentos ou etapas da direção espiritual, o entreposto de alguns condicionamentos no caminho do crescimento requer noções de temperamentos e outras expressões do comportamento humano para se chegar a uma madura orientação.

Um exemplo fictício: apresenta-me um jovem seminarista que será meu dirigido espiritual por quatro anos, durante todo o período do curso de teologia. Eu sou de Goiás e ele é de uma diocese do nordeste. Depois de ordenado dificilmente nos encontraremos. Fomos trabalhando juntos sua direção espiritual. Muitos aspectos são revisados: a vida pessoal de oração, a vida comunitária, a espiritualidade do tempo litúrgico e a superação de alguns limites humanos, etc. Um dia, no início de agosto, véspera do dias dos pais, resolvo trabalhar com o ele o tema: “quem é Deus Pai para você, na sua vida de oração, etc?”.

Naquele dia descobrimos algo importante na vida dele: não possuía a imagem de Deus Pai. Ele se relacionava muito bem com Jesus, o Espírito Santo e possuía muito afeto pela Virgem Maria. Tive que usar de conhecimentos psicológicos para ajudar o jovem a resgatar a imagem perdida de pai. Não conhecera o pai terreno que havia morrido em situação estranha durante o período de sua gravidez. Sua mãe, por não gostar do pai dele, nunca lhe falou nada de bom do falecido. A ausência do pai lhe ofuscara o caminho de relacionamento com Deus Pai.

O recurso da psicologia, a volta com Jesus à sua infância, uma espécie de cura interior, possibilitou resgatar o verdadeiro sentido de uma espiritualidade sadia e libertadora que se dirige ao amor infinito de Deus Pai. Isso lhe auxiliou, mais tarde, como padre, a fazer as pessoas abrirem-se à misericórdia. Ele entendeu melhor a passagem do Filho Pródigo e teve forças para perdoar a mãe, pois sua avó, na agonia da morte, lhe contara que a mãe dele havia tramado a morte do se pai. Ainda mais, nem por isso perdeu seu afeto pela Mãe de Jesus, pois havia amadurecido sua espiritualidade a partir do momento que assumiu a vivência de um processo difícil que estava impedindo que o desaguadouro da graça inundasse de sentido o seu existir.

Seria bom que certos psicólogos não interferissem drasticamente na espiritualidade dos seus clientes, a ponto de deletá-la. Assim, alcançaríamos o nível da interação ou simbiose de duas dimensões que culminariam no equilíbrio da pessoa. Apenas os excessos anômalos seriam cortados. O mal reside sempre nos excessos que desanda a pessoa por caminhos que atravancam o processo de libertação.

Vejam que não é muito fácil exercer o serviço da direção espiritual. Não se trata apenas de dar receitas espirituais ou simplesmente ensinar a pessoa dirigida a rezar. O orientador espiritual precisa conhecer o todo da pessoa e saber identificar certas dificuldades do dirigido em progredir decorrentes de experiências negativas que podem atravancar os processos que conduzem a uma experiência razoável ou plena de Deus.

Fonte: http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/517587


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O ministério da direção espiritual (Parte IV)

Pe. Adair José Guimarães

3. Como surgem o orientador espiritual

A Igreja é a expressão viva do Corpo Místico de Cristo, onde a variedade de membros e de carismas revela o seu fenômeno humano e divino aos olhos do mundo. De direito divino, a Igreja não pode ser compreendida através dos esquemas sociológicos ou mesmo da ciência histórica; o seu significado está para além dos muros de suas aparências, incluindo aí as pessoas que a compõem. Ela é o Mistério de Cristo que subjaz aos esquemas de sua visibilidade material e humana.

Impulsionada pelo Espírito Santo, a Igreja Povo Deus, desejada e querida por Jesus, é o espaço e tempo onde os batizados fazem a experiência do Deus vivo, doador e protetor da vida. No interior dessa mesma Igreja o Divino Espírito suscita, segundo as necessidades, a diversidade de moções e carismas a serviço da santificação e do crescimento dos eleitos. O ministério da direção espiritual é também suscitado pelo mesmo Espírito para o bem das almas que buscam a perfeição nos caminhos do Senhor.

Um carisma no interior da Igreja é sempre confirmado pela comunidade. Quem possui o dom de curar, por exemplo, não precisa propagandear que o possui; as pessoas descobrem e vêm em busca. Tanto Jesus quanto os apóstolos não divulgavam seus carismas de cura e libertação, pelo contrário, Jesus até proibia que se falassem dos milagres; mesmo assim, estava sempre às voltas com as pessoas que desejavam obter dele os benefícios espirituais e corporais.

O mesmo sucede com as pessoas que possuem o dom de aconselhamento espiritual. Não precisa esconder o dom ou, ao contrário, divulga-lo a bom e alto som. Ele flui naturalmente. Como já aludimos antes, muitas pessoas são nomeadas para o ministério da direção espiritual sem possuir a unção própria deste serviço. Nem sempre funciona. Conheço sacerdotes que ao serem nomeados pelo bispo para a direção espiritual no seminário, simplesmente disseram não por não sentir nenhum chamado ou afeição a esse carisma. Conheço outros que ficaram assustados e se fizeram bons diretores, pois possuíam abertura para o carisma.

Pessoalmente, entendo que um bom diretor espiritual cresce aos pés da cruz e do sacrário. Uma profunda experiência de Deus, de Jesus crucificado e ressuscitado é a base fundamental para o ministro da direção espiritual. Antes de ensinar o caminho da escuta de Deus o diretor espiritual precisa ser alguém experiente na escuta a Deus; deve ser mestre na arte de orar.
Por ser um carisma, nem todos o possuem. Além de ser uma pessoa experiente no caminho da oração e da escuta, o diretor espiritual precisa, necessariamente, possuir o dom de escutar as pessoas e ser capaz de ajudar a quem dirige no caminho do aprofundamento da vida espiritual. Escutar com discernimento, saber separar o joio do trigo.

Geralmente a metodologia empregada na orientação espiritual se pauta nos seguintes pontos, de muito essenciais: a vida de caridade (comunidade), a vida de oração e aprofundamento da fé (liturgia, lectio divina e conhecimento da doutrina). O diretor espiritual deve fazer e refazer sempre, pessoalmente, o caminho da caridade e da vida espiritual. Ele mesmo precisa, de quando em vez, fazer a sua direção espiritual.

O certo é que a Igreja sempre foi carente de pessoas com o carisma do aconselhamento ou direção espiritual. Se você leigo acha difícil encontrar um diretor espiritual, muito mais os padres. Estes têm dificuldades de encontrar alguém, até mesmo dentro do clero, com capacidade de escuta e orientação. Acreditem, há muitos padres que sentem insegurança até para ouvir a confissão de um irmão sacerdote; quando é o bispo, a tensão fica ainda maior. O fato é que perdemos, com o passar dos tempos, o real significado da orientação espiritual. No modelo de Igreja de Cristandade, a pessoa era mais conduzida pela normas morais e a direção ficou mais circunscrita aos recintos dos conventos.

A Igreja do Concílio Vaticano II recuperou, grandemente, aspectos profundos da essencialidade da Igreja que haviam sido ofuscados pelo tempo e pelo próprio excesso de institucionalização da Igreja pós tridentina. Hoje caminhamos numa Igreja que avança no campo da melhor compreensão do humano. Evidente que nesse processo o Espírito Santo tem um campo mais aberto para agir nos corações e suscitar os carismas dos quais dependem o povo de Deus a caminho da pátria definitiva.

Creio firmemente que o dom da direção espiritual está sendo suscitado no interior de muitas experiências eclesiais do pós-concílio. Até nos meios da RCC e de outros movimentos têm despontando leigos com inegável capacidade de escuta que a muitos têm auxiliado na experiência de Deus.

Entendo que a direção espiritual é um serviço indispensável, pois a fé se expressa na dimensão comunitária e requer a presença do outro no auxílio solidário do amadurecimento da experiência de Deus. Por ser um ministério cansativo e de alto grau de responsabilidade, pois requer ética e discrição, muitas pessoas procuram abdicarem-se de exerce-lo. Quem o assume com amor e espírito de missão/serviço sente-se uma grande recompensa.

Nossa missão aqui é apenas procurar despertar nos leitores deste portal a importância desse ministério e, quem sabe, suscitar o dom adormecido no coração de muitos.

Fonte: http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/517578


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Quem Espera sempre Alcança…

Quando os assuntos da nossa alma não andam, quando perdemos a saúde – e nunca estamos inteiramente bons –, Jesus dispõe-se a ajudar-nos mais. Não se afasta de nós, não dá ninguém por perdido, nem sequer diante de um defeito, de um aspecto em que podemos e devemos melhorar, porque nos chama à santidade e tem preparadas as graças de que precisamos. Só o doente pode tornar ineficazes, negando-se a recebê-los, os remédios e a ação do Médico que tudo pode curar. A vontade salvadora de Cristo para cada um dos seus discípulos, para nós, é a garantia de alcançarmos o que Ele mesmo nos pede.

O Senhor diz-nos a cada um que prefere a misericórdia ao sacrifício, e se alguma vez permite que sejamos atingidos pela dor e pelo sofrimento, é porque convém, é porque há uma razão mais alta – que às vezes não compreendemos –, que redundará em benefício de nós mesmos, da família, dos amigos, de toda a Igreja; é porque quer para nós um bem superior, como a mãe permite que o filho passe por uma operação dolorosa para recuperar plenamente a saúde. São momentos para crermos com fé firme, para avivarmos a esperança, pois só esta virtude nos ensinará a encarar como um tesouro aquilo que humanamente se apresenta como um fracasso ou uma desgraça. São momentos para nos aproximarmos do Sacrário e dizermos devagar ao Senhor que queremos tudo o que Ele queira. “Este é o nosso grande engano – escreve Santa Teresa –, não nos abandonarmos inteiramente ao que o Senhor faz, porque Ele sabe melhor o que nos convém”.

Muitas vezes, devemos praticar especialmente a virtude da esperança perante situações que dizem respeito à nossa própria vida interior: quando parece que não avançamos, que os defeitos demoram a desaparecer, que caímos nos mesmos erros, de modo que a santidade passa a ser entrevista como algo muito longínquo, quase como uma quimera. Devemos então ter presente o que nos ensina São João da Cruz: que, “na esperança do céu”, a alma “tanto alcança quanto espera”.

E continua o santo autor: “Esperei só este lance, e em esperar não fui falto, pois fui tão alto, tão alto, que à caça dei alcance”. A esperança deve ser depositada somente em Deus, deve ser ampla, filial, ao estilo divino: se não a vivermos de ânimo encolhido, obteremos tudo do Senhor. Quando a santidade – a meta da nossa vida – nos parecer mais longínqua, procuraremos não afrouxar na luta por abeirar-nos mais do Senhor, por esperar ardentemente, por levar para a frente os nossos deveres, pondo em prática, com um esforço renovado, os propósitos dos nossos exames de consciência ou do último retiro que fizemos, e os conselhos da direção espiritual. Haverá ocasiões em que só poderemos oferecer a Deus a dor das nossas derrotas – em campos de maior ou de menor importância – e o desejo renovado de voltar a começar. Será então uma oferenda humilde e muito grata ao Senhor.

A esperança incita-nos a recomeçar com alegria, com paciência, sem nos cansarmos, certos de que, com a ajuda do Senhor e de sua Mãe, Spes nostra, Esperança nossa, alcançaremos a vitória, pois Ele põe ao nosso alcance os meios para vencer.

 

Fonte: http://www.hablarcondios.org/meditacaodiaria.asp

 


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