Sunday, 20 of May of 2012

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Reflexão quaresmal: Desprendimento

 

Os bens materiais são bons, porque são de Deus. São meios que Deus pôs à disposição do homem desde a criação, para que se desenvolvesse em sociedade com os outros. Somos administradores desses bens por um breve espaço de tempo. Tudo nos deve servir para amar a Deus – Criador e Pai – e aos outros. Se nos apegamos às coisas que temos e não praticamos atos de desprendimento efetivo, se os bens não nos servem para fazer o bem, se nos separam do Senhor, então não são bens, convertem-se em males.

Exclui-se do Reino dos céus todo aquele que põe as riquezas como centro da sua vida; idolatria, é como chama São Paulo à avareza. Um ídolo ocupa o lugar que só Deus deve ocupar. Exclui-se de uma verdadeira vida interior, de um relacionamento de amor com o Senhor, todo aquele que não quebra as amarras, ainda que finas, que o atam de um modo desordenado às coisas, às pessoas e a si próprio. “Porque tanto faz – diz São João da Cruz – que uma ave esteja presa por um fio muito fino ou por uma corda, porque, mesmo que seja um fio, tão presa estará a ele como à corda, enquanto não o quebrar para poder voar. É verdade que o fio é mais fácil de quebrar; mas, por mais fácil que seja, se não o quebrar, não voará”. […]

Este tempo da Quaresma é muito oportuno para examinarmos a nossa atitude em face das coisas e em face de nós mesmos: Tenho coisas desnecessárias ou supérfluas? Evito tudo o que para mim significa luxo e mero capricho, ainda que não o seja para outros? Estou apegado às coisas ou instrumentos que devo utilizar no meu trabalho? Queixo-me quando não disponho do necessário? Levo uma vida sóbria, própria de uma pessoa que quer ser santa? Faço gastos inúteis por precipitação ou por falta de previsão? Pratico habitualmente a esmola, generosamente, sem avareza? Contribuo para a manutenção de alguma obra apostólica e para o culto da Igreja com uma ajuda proporcionada aos meus ganhos e despesas?

O desprendimento necessário para seguir de perto o Senhor inclui, além dos bens materiais, o desprendimento de nós mesmos: da saúde, do que os outros pensam de nós, das ambições nobres, dos triunfos e êxitos profissionais. “Refiro-me também [...] a esses anseios límpidos com que procuramos exclusivamente dar toda a glória a Deus e louvá-lo, ajustando a nossa vontade a esta norma clara e precisa: Senhor, só quero isto ou aquilo se for do teu agrado, porque, senão, para que me interessa? Assestamos assim um golpe mortal no egoísmo e na vaidade, que serpenteiam por todas as consciências; ao mesmo tempo, alcançamos a verdadeira paz na nossa alma, com um desprendimento que acaba na posse de Deus, cada vez mais íntima e mais intensa”. É assim que estamos desprendidos dos frutos do nosso trabalho?

Os cristãos devem possuir as coisas como se nada possuíssem. Diz São Gregório Magno que “possui como se nada possuísse aquele que ajunta todas as coisas necessárias para o seu uso, mas prevê cautamente que logo as há de deixar. Usa deste mundo como se não usasse aquele que dispõe do necessário para viver, mas não permite que nada disso domine o seu coração, para assim estar a serviço do bom andamento da alma, que tende para coisas mais altas”.

Desprendimento da saúde corporal. “Punha-me a considerar quanto importa não nos amedrontarmos com a nossa fraca disposição quando se trata claramente de servir o Senhor [...]. Para quê a vida e a saúde, senão para as perder por tão grande Rei e Senhor? Crede-me, irmãs, nunca vos fará mal seguir por este caminho”.

Os nossos corações são para Deus, porque foram feitos para Ele e somente nEle saciarão as suas ânsias de felicidade e de infinito. “Jesus não se satisfaz «compartilhando»; quer tudo”. Todos os outros amores nobres e limpos que compõem a nossa vida aqui na terra, cada um segundo a específica vocação recebida de Deus, ordenam-se para esse grande Amor: Jesus Cristo Nosso Senhor, e dele se alimentam.

Senhor, Vós que amais a inocência e a devolvei aos que a perderam, atraí para Vós os nossos corações e queimai-os no fogo do vosso Espírito.

Santa Maria, nossa Mãe, ajudar-nos-á a limpar e ordenar os afetos do nosso coração para que só o seu Filho reine nele. Agora e por toda a eternidade. Coração dulcíssimo de Maria, guardai o nosso coração e preparai-lhe um caminho seguro.

Fonte: Falar com Deus


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A Tua Maneira de Viver

Por Padre Leo Trese

Desprendimento

“É fácil acabarmos por ser escravos das coisas. O instinto de posse no homem é um instinto bom, é uma parte da natureza humana criada por Deus. O direito do homem à propriedade privada, o seu direito de possuir o que possa ser necessário ao seu bem-estar espiritual e temporal, é algo que a Igreja tem defendido através dos séculos. Se o direito à propriedade não fosse um impulso bom, renunciar livremente a ele pelo voto de pobreza deixaria de ter o mérito que na realidade tem. No entanto, a paralisia espiritual derivada do pecado original torna-nos difícil o controle dos nossos desejos e instintos, que são bons em si mesmos. Quem é vítima de paralisia verificará alguma vez que, ao tentar alcançar um objeto, pela sua falta de coordenação motora, estende o braço longe demais ou perto demais. De maneira parecida, é-nos freqüentemente difícil manter dentro dos objetivos queridos por Deus os impulsos naturais com que Ele nos enriqueceu. É-nos muito fácil perder o autodomínio e cair num extremo ou noutro.

Esta a razão pela qual o nosso instinto de posse por vezes toma o freio entre os dentes e se transforma no vício da ambição, que é o de obter bens à custa dos outros – essa ambição que leva ao desfalque, à fraude e a todo o tipo de injustiças. No entanto, existe um outro gênero de cobiça que é mais insidioso, apesar de ser menos deplorável: é o de afanar-se desmedidamente numa busca desordenada e excessiva de bens materiais. Quase todos nós estamos expostos a esta espécie de cobiça, e contra ela devemos prevenir-nos.

Semelhante apetência desordenada talvez não desemboque numa conduta criminosa, mas costuma ser causa de graves injustiças contra os outros. Tomemos como exemplo o pai de família tão ansioso de ganhar dinheiro que raramente a sua esposa e filhos têm ocasião de ver-lhe a cara. Dir-vos-á que se esgota tanto apenas em benefício da família, quando na realidade o que ama de verdade é o dinheiro ou tudo o que o dinheiro pode comprar. Se interrogasse os seus, perceberia que preferem tê-lo mais tempo a seu lado e arranjar-se com menos dinheiro.

A situação agrava-se de modo considerável quando a dona-de-casa também trabalha fora do lar. Argumentará assim: “Com meu ordenado extra posso fazer muito aos meus filhos”; mas o certo é que adora o sentimento de independência que esse ordenado proporciona. E ainda que traga para casa alguns milhões todos os meses, jamais recuperará para os seus filhos a felicidade e a segurança que estes perdem em conseqüência das suas ausências desnecessárias do lar.

O demônio não precisa trabalhar muito para atrair-nos com o chamariz da ambição. E não se mexerá enquanto uma grande parte da publicidade trabalhar em seu proveito. Vistosos anúncios a cores em todas as páginas das revistas semanais nos tentam com as mil e uma utilidades novo produto, e os anúncios em preto e branco dos jornais dirão em complemento que teremos vantagens enormes se o adquirirmos sem perda de tempo.

Um fato da vida real pode convencer-nos das incongruências a que leva a cobiça. Dois vizinhos tem cada um, o seu carro. Um possui um modelo simples, de dois anos atrás, mas que desempenha perfeitamente o seu papel na cidade e nas eventuais viagens que tenha de fazer. O outro dispõe do “carro do ano” em versão luxo – muito mais caro, obviamente, do que o primeiro -, e que além de cumprir exatamente as mesmas funções que o anterior, lhe toma aproximadamente o triplo do tempo com polimentos, lavagens e manutenção. Apesar disso, o primeiro faz planos para comprar um modelo luxo, considerando os reajustes do ordenado que estão por vir, enquanto o segundo pensa em desfazer-se do seu para adquirir o próximo modelo, um três volumes superluxo, muito mais caro, e que lhe reclamará ainda mais tempo e dinheiro por ser muito mais sofisticado.

Consigamos o que conseguirmos, a ambição nunca nos deixará satisfeitos se lhe permitirmos tomar conta de nós. A cobiça alimenta-se da vaidade, e sempre haverá alguém que possua o que nós ainda não chegamos a alcançar, ou será lançado um modelo novíssimo que nos faça detestar o antigo. Basta folhear uma revista: “Invista em qualidade”, “Esteja à frente do seu tempo”, “Por que não pensei nisso antes?”, “Brilhe como nunca!”, “Áudio e vídeo em toda a sua expressão”, “Estéreo espacial: ligou, viajou”, e assim todos os demais cantos de sereias. Para que haveria o demônio de incomodar-se em trabalhar? Uma vez que a ambição se apodera de nós, passa a dominar-nos uma sede insaciável, semelhante à sede do náufrago que, quanto mais água salgada bebe, mais sede experimenta. Quanto mais coisas a pessoa ambiciosa adquire, mais vontade tem de possuir.

O antídoto da ambição é o espírito de desprendimento que, basicamente, significa possuir um sentido verdadeiro da proporção, um verdadeiro sentido dos valores, tanto dos espirituais como dos humanos e materiais. O homem desprendido nunca é escravo das coisas. Contenta-se em ter aquilo de que necessita, sem se deixar afetar por essa massacrante propaganda comercial. Pode até chegar a desfazer-se, em qualquer momento, daquilo que já possui, se os seus deveres para com Deus ou para com o próximo assim o exigem. É o caso da família cujos membros se sentem felizes vendo os outros felizes, e preferem de verdade a integridade do seu lar ao dinheiro extra no mês e à abundância de meios materiais. O Verdadeiro desprendimento é mais difícil do à primeira vista parece. Mas podemos chegar a possuí-lo pela oração e pela retidão de pensamento.

A Mentalidade Prática: O Secularismo

Um dos obstáculos mais ocultos, e no entanto mais perigosos, para a plenitude da vida cristã é a atmosfera semipagã em que vivemos. Aqui, na América, tratamos a Deus do mesmo modo como tratamos um ex-presidente: com a deferência devida a quem foi uma figura poderosa, mas que na realidade, hoje conta pouco. Escutamos suas palavras com interesse, mas sem esse sentimento que nos move a agir de acordo com tudo que nos diz. Raras vezes se nega Deus abertamente; antes o ignoramos. E ignoramo-lo na vida política, econômica e social da nossa nação. Deus conta tanto como se fosse um outro cidadão qualquer.

Esta atitude para com Deus é o que chamamos espírito de secularismo. A religião é boa, diz o secularismo. É bom ir à igreja aos domingos; é bom rezar. Mas quando a religião se relaciona com a nossa luta diária pela vida, devemos ser práticos. Quando se trata de fazer projetos, quando se trata de levar à prática as decisões, a única coisa que importa é isso: Como tirar o máximo de proveito? O secularismo acharia uma piada a idéia de olhar as coisas do dia a dia do ponto de vista divino. Esse tipo de pensamento fica para os visionários. Deixemos a religião na igreja; esse é o seu lugar. Dia após dia vivemos e respiramos nesta atmosfera de utilitarismo. Não é de estranhar, pois, que os nossos espíritos se infectem. Também não é de estranhar que encontremos indivíduos que continuam a considerar-se “católicos praticantes”, ainda que o seu catolicismo se tenha reduzido há muito tempo à Missa dominical.

Temos o exemplo da mulher que recebe com freqüência a Sagrada Comunhão. ” É claro – confidencia a uma amiga – que eu não me confesso de usar a pílula. Acho que isso é um problema meu e não da Igreja”. A pobre mulher não chega a perceber que a sua fé está mais do que morta, e que as suas práticas religiosas estão reduzidas a uma casca de ovo vazia. Porque, se não acaba de compreender que a Igreja fala em nome de Deus ao interpretar a sua Lei, demonstra que não crê realmente na Igreja. E é absolutamente ilógica quando afirma que crê na Confissão e na Sagrada Comunhão, já que é a própria Igreja, em nome de Cristo, quem garante a realidade desses sacramentos. O secularismo – “deixem a religião no seu lugar” – já fez mais uma vítima.

São inúmeros os exemplos que se podem dar desta contaminação secularista, desta espécie de pensamento torcido. Temos os pais católicos que se esquecem dos ensinamentos da Igreja sobre as relações pré-matrimoniais: “Não vejo nisso nada mau. Os jovens de hoje são diferentes dos da nossa época. Aliás, todos os colegas da escola se portam assim”. Vemos católicos que se dedicam aos negócios, ou à política, ou às mais diversas profissões, e que encolhem os ombros diante de umas “fraudezinhas”: “Eu sei que a Igreja diz isso é errado, mas é preciso enfrentar os fatos se quero sobreviver. Todos fazem o mesmo, e se eu não o fizer, vou acabar dando-me mal”.

E os católicos jovens que dizem: “A Igreja é muito reacionária, não entendo que uma ‘amizade colorida’ seja assim tão perigosa”. Temos também o caso do católico segregacionista que comenta :”É ótimo falar de justiça social, mas o Papa não convive com essa gente como eu”. Ouçamos a sogra católica: “Sim, eu sei que não está certo que um divorciado se case de novo, afinal de contas as crianças precisam de uma mãe”. Também não falta o católico auto-suficiente que sentencia: “Embora este filme tenha sido desaconselhado, não me fará mal nenhum; tenho idade suficiente para julgar por mim mesmo”.

Nenhum dos que assim se manifestam teria valentia suficiente para dizer simples e diretamente: “Gosto de fazer as coisas quando me são fáceis, mas não quando supõem sacrifício”. A todos esses, fá-los-iam baixar os olhos de vergonha os mártires de épocas passadas, e particularmente os mártires de hoje do outro lado da cortina de ferro. Nenhum deles se atreveria a confessar: “O que me acontece, simplesmente, é que não concordo com Deus”.

Sempre tratarão de estabelecer uma distinção imaginária entre Cristo e a sua Igreja, e cegar-se-ão eles próprios na sua própria inconsistência. Se a Igreja não é o arauto de Cristo, para que crer em alguma coisa? Cristo não nos permitirá interpor obstáculos entre Ele e a sua Esposa. Não podemos passar pelo lado de fora da Igreja, confiando em encontrar Cristo do outro lado. É evidente que os exemplos que expusemos são as conseqüências extremas a que nos pode levar o poluído ar secularista que nos envolve. Talvez não tenhamos ido tão longe, mas não há dúvida de que necessitamos vez por outra de tomar a nossa temperatura espiritual e diagnosticar o grau de infecção.

Verdadeiramente,seremos bem-aventurados se tivermos aprendido a pensar com Cristo e com a sua Igreja, se nos tivermos treinado em viver por princípios, tanto nas coisas pequenas como nas de maior envergadura. Isto significará que vivemos na presença de Deus em cada momento da nossa existência, e não somente aos domingos na igreja. Quererá significar que o ingrediente básico de todas as nossas decisões é “aquilo que Deus desejaria que eu fizesse”. Quererá significar que Cristo e o seu Corpo Místico são indivisíveis e que é a Sua voz que fala através da Igreja. Com a graça de Deus, podemos viver num mundo secularizado sem que a infecção nos atinja. Mas isso é uma graça que temos de pedir”.

Fonte: Não Vos Preocupeis – TRESE, Leo – Editora Quadrante – São Paulo 1991 – 3@ Edição – Tradução: Emérico da Gama .

Disponível em: É Razoável Crer ?


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Desprendimento (I)

Domínio de si mesmo

… que aproveita ao homem…?” (Mc 8,36)

Meu amigo , compreende tua incrível felicidade. Convidei-te não somente para ser outro Cristo, mas para seres um outro eu.

Desejas isto, mas também alimentas as tuas paixões e os teus apetites inferiores. As duas coisas não podem estar juntas. Não podes ser um outro eu a não ser que renuncies a ti mesmo.

Meu amor por ti só será compatível com outros amores enquanto não for contrário ao meu, que deve ser supremo. Eu te ordeno o amor ao próximo. Contudo, nenhum outro amor, a pessoa ou a coisas, deve superar o teu amor por mim. Deves dominar todos os desejos que te afastas de mim. É impossível ser vaidoso, desejar ser mais importante que os outros, e ser, ao mesmo tempo, um outro eu.

É impossível ser demasiadamente sensível, vingativo, sempre pronto a contradizer os outros, e ser um outro eu.

Não podes ser ganancioso, sensual, guloso, invejoso, e ser um outro eu.

São todas formas de egoísmo, que deves renunciar. Não quero meias medidas.

Eu disse: “Se o teu olho direito te serve de escândalo, arranca-o e lança-o para longe de ti” (Mt 5,29). Que nada impeça tua devoção, teu amor a mim, tua identificação comigo.

Para estares unido totalmente com a Santíssima Trindade e participares da visão beatífica, deves ser perfeito. A essência da perfeição é a união de tua vontade com a minha. Mas como poderás unir tua vontade perfeitamente com a minha, se não conquistares, primeiro, tua própria vontade? É por isso que deves extirpar tuas paixões, destruir teu apego às coisas materiais, suprimir em ti o desejo de louvores, de facilidades, de popularidade, e deixar de vangloriar-te diante de tuas idéias, de tuas qualidades, ou de teu progresso espiritual.

Os impuros não podem ver a Deus. Ser puro é entregar-se totalmente à minha vontade, sem recusar nada. Ser puro no olhar e no coração é não desejar os bens terrenos que são contrários à minha vontade.

Se não te purificas completamente nesta vida, fá-lo-ás no purgatório. Ali serás purificado do apego aos bens matérias pelo método da privação. Tua vontade ficará privada daquilo que mais desejas: ver minha face. O purgatório purifica pelo fato de te encontrares tão perto de mim e, no entanto, também fora do teu alcance.

Será muito melhor suprimir, agora, todos os desejos que não te aproximam mais de mim. E não somente aqueles que seriam gravemente pecaminosos, mas até mesmo aqueles que constituiriam faltas leves ou imperfeições. Todos estes desejos voluntários servem apenas para te perturbar, te atormentar, te cegar e tornar-te indiferente. Purifica-te, negando-te aquelas coisas e aqueles prazeres que possam ser alimentá-los.

Procura o que é difícil e não o que é fácil, por amor a mim.

Procura o desagradável em vez do que agrada, por amor a mim.

Procura o que é simples em vez daquilo que é grandioso, por amor a mim.

Procura não desejar nada a não ser o que eu te envio, e não recusas nada daquilo que permito que te aconteça, por amor a mim.

São duras estas palavras? Significam, por ventura, que daqui por diante terás de abandonar tudo o que é prazer?

De forma alguma! Eu te levarei ao grau de renúncia que é melhor para ti. O que é conveniente para uma pessoa, não será para outra. Se procurares fazer, por amor, tudo o que te peço, encontrarás alegria no sacrifício.

Mortifica-te. Mas entende que a maior mortificação é a prática da verdadeira humildade. Aceitar humildemente as mortificações que te envio é melhor do que acumular mortificações escolhidas por ti.

Observa os jejuns e as penitências impostas por minha Igreja. Lembra-te, porém, que em geral, não desejo que as pessoas façam mortificações que as deixem irritadas e descontentes. Que tuas penitências voluntárias limitem-se aquelas que não perturbem a tua paz. Há pessoas que se tornam escravas da mortificação.

De vez em quando eu mando algum sofrimento para que sejas mais completamente meu, desapegando-te daquilo que me separa de ti. Aceita os sofrimentos que te envio, e seu fardo se tornará leve, porque meu jugo é suave para aqueles que me amam.

O desejo de sofrer por causa de mim é santo. Contudo, melhor ainda é a virtude da indiferença. Procura fazer minha vontade, na alegria ou na tristeza, com santa indiferença, dizendo a ti mesmo: “não escolho nem prazer nem dor, mas desejo unicamente conformar-me a vontade de Deus”. Procura amar-me em todas as coisas, igualmente: na doença, na saúde, na morte, na riqueza ou na pobreza, no prazer ou na dor, na consolação ou na desolação.

Não te tornes demasiadamente apegado nem mesmo à perfeição. Uma vez que agora não me podes servir perfeitamente, oferece-me tua insatisfação. Agora deseja tão-somente servir-me o melhor que podes. Que teu único desejo seja agradar-me na situação em que estiveres.

Em resumo: cuidado para não te apegares a coisa alguma terrena, especialmente ao prazer. Sei muito bem que o corpo e o espírito necessitam de descanso. O que fazes a ti mesmo, fazes a mim. Quando te alegras com um prazer sadio, eu participo de tua alegria, porque estou contigo e em ti. Não escolhas um prazer do qual eu não possa participar contigo. Procura-o no tempo em que eu possa aprová-lo. Procura-o no grau que eu desejo. Pergunta-te de vez em quando, no meio de teu prazer: “Eu o deixaria, de uma vez, se soubesse não ser da vontade de Deus? Posso deixar isto, neste momento, sem me perturbar?”

Para ser totalmente um outro eu deves ser todo meu, desejando fazer apenas a minha vontade. Quanto mais “puro” fores, quanto mais “limpo” for teu coração, mais plenamente eu viverei contigo.

Do livro Cristo minha vida, págs. 73-76.


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Considerações de Santo Afonso de Ligório – Vaidade do mundo (III)

Considerações de Santo Afonso de Ligório, sobre a Preparação para a Morte.

Consideração XIII – Vaidade do mundo (III)

Traduzido por Celso de Alencar

 

“Quid prodest homini si mundum universum lucretur, animae vero suae

detrimentum patiatur?”

 

Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder sua alma?

(Mt 16,26)

 

PONTO III

 ”O tempo é breve… os que se servem do mundo, sejam como se dele não se servissem, porque a figura deste mundo passa…” (1Cor 7,31). Que é com efeito nossa vida temporal senão uma cena que passa e se acaba logo? “Passa a figura deste mundo“, quer dizer, a aparência, a cena de comédia. “O mundo é como um teatro…” - diz Cornélio a Lápide – “…desaparece uma geração e outra lhe sucede. Quem representou o papel de rei, não levará consigo a púrpura… Dize-me, ó cidade, ó casa, quantos donos tiveste? Quando acaba a peça, o rei deixa de ser rei, o Senhor deixa de ser senhor. Possuis agora essa quinta ou palácio; mas virá a morte e outros passarão a ser donos de tudo“.

A hora da morte faz esquecer todas as grandezas, honras e vaidades do mundo” (Ecl 11,29). Casimiro, rei da Polônia, morreu de repente, quando, achando-se à mesa com grandes do reino, levava aos lábios a taça para beber. Rapidamente acabou para ele a cena do mundo… O imperador Celso foi assassinado oito dias depois de ter sido elevado ao trono, e assim acabou para Celso a peça da vida. Ladislau, rei da Boêmia, jovem de dezoito anos, esperava a sua esposa, filha do rei da França, e lhe preparava grandes festejos, quando certa manhã o acometeu dor veementíssima da qual caiu fulminado. Expediram-se imediatamente correios, advertindo a esposa que voltasse para a França, porque para Ladislau o drama do mundo já tinha acabado… Este pensamento da vaidade do mundo fez santo a Francisco de Borja que (como em outro lugar dissemos), ao ver o cadáver da imperatriz Isabel, falecida no meio das grandezas e na flor da idade, resolveu entregar-se inteiramente a Deus, dizendo: “Assim acabam as grandezas e coroas do mundo?… Não quero servir a senhor que me possa ser roubado pela morte“.

Procuremos, pois, viver de maneira que à hora de nossa morte não se nos possa dizer o que se disse ao néscio mencionado no Evangelho: “Insensato, nesta noite hão de exigir de ti a entrega de tua alma; e as coisas que juntaste, para quem serão?” (Lc 12,20). E logo acrescenta São Lucas: “Assim é que sucede a quem enriquece para si, e não é rico aos olhos de Deus” (Lc 12,21). Mais adiante se diz: “Procurai entesourar para o céu, onde não chegam os ladrões nem rói a traça” (Mt 6,20); ou seja, procurai enriquecer, não com os bens do mundo, senão de Deus, com virtudes e merecimentos que estarão convosco eternamente no céu. Façamos, pois, todo o esforço para adquirir o grande tesouro do amor divino. “Que possui o rico, se não tem caridade? E se o pobre tem caridade, que não possui?” – diz Santo Agostinho. – “Quem possui todas as riquezas, mas não possui a Deus, é o mais pobre do mundo. Mas o pobre que possui a Deus possui tudo… E quem é que possui a Deus? Aquele que o ama. “Quem permanece na caridade, em Deus permanece, e Deus nele” (Mt 4,16).

 

Afetos e Súplicas

Meu Deus, não quero que o demônio volte a reinar na minha alma, mas que vós sejais meu único dono e senhor… Quero renunciar a tudo para alcançar vossa graça, que prefiro a mil coroas e mil reinos. E a quem deveria amar senão a vós, amabilidade infinita, bem infinito, beleza, bondade, amor infinitos? Na vida passada, enjeitei-vos pelas criaturas e isto será sempre para mim profunda dor que me atravessará o coração por vos ter ofendido, que tanto me tendes amado. Mas já que me haveis atraído com vossa graça, espero que não hei de ver-me privado novamente de vosso amor. Tomai, ó meu Amor, toda a minha vontade e tudo o que me pertence e fazei de mim o que vos aprouver. Peço-vos perdão por minhas culpas e desordens passadas. Nunca mais me queixarei das disposições da vossa providência, porque sei que todas elas são santas e ordenadas para meu bem. Fazei, pois, meu Deus, o que quiserdes, e eu vos prometo aceitar com alegria, e dar-vos graças… Fazei que vos ame, e nada mais pedirei… Basta de riquezas, basta de honras, basta de mundo. A meu Deus, só a meu Deus quero. E vós, bem-aventurada Virgem Maria, modelo de amor a Deus, alcançai-me que, ao menos no resto de minha vida, vos acompanhe nesse amor. É em vós, Senhora, que confio“.


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Considerações de Santo Afonso de Ligório – Vaidade do mundo (II)

Considerações de Santo Afonso de Ligório, sobre a Preparação para a Morte.

Consideração XIII – Vaidade do mundo (II)

Traduzido por Celso de Alencar

 

“Quid prodest homini si mundum universum lucretur, animae vero suae

detrimentum patiatur?”

 

Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder sua alma?

(Mt 16,26)

 

PONTO II

É mister pesar os bens na balança de Deus e não na do mundo, que é falsa e enganadora (Os 12,71). Os bens do mundo são desprezíveis, não satisfazem e acabam depressa. “Meus dias passaram mais depressa que um correio; passaram como um navio…” (Jo 9,25-26). Passam e fogem velozes os breves dias desta vida; e que resta por fim dos prazeres terrenos? Passaram como navios. O navio não deixa vestígio de sua passagem (Sb 5,10). Perguntemos a todos esses ricos, sábios, príncipes, imperadores, que estão na eternidade, o que acham ali de suas passadas grandezas, pompas e delícias deste mundo. Todos responderão: “Nada, nada“. “Ó homens…“, exclama Santo Agostinho, “…vós considerais somente os bens que possui aquele magnata; atentai

também nas coisas que leva consigo ao sepulcro: um cadáver pestilento e uma mortalha que com ele se consumirá. Quando morre algum dos grandes, apenas se fala dele algum tempo; depois até sua memória se perde (Sl 9,7). E se caem no inferno, que farão e que dirão ali?… Chorarão, dizendo: Para que nos serviram o luxo e a riqueza? Tudo agora se passou como sombra (Sb 5,8-9) e nada nos resta senão penas, pranto e desespero sem fim“.

Os filhos do século são mais prudentes em seus negócios que os filhos da luz” (Lc 18,8). Causa pasmo ver quão prudentes são os mundanos no que diz respeito às coisas da terra. Que passos não dão para adquirir honras ou fortuna! Quantos cuidados para conservar a saúde do corpo!… Escolhem e empregam os meios mais adequados, os médicos mais afamados, os melhores remédios, o clima mais saudável… e, entretanto, quão descuidados são para a alma!… E, no entanto, é certo que a saúde, as honrarias e as riquezas devem acabar-se um dia, ao passo que a alma, imortal, não tem fim. “Observemos…” – disse Santo Agostinho – “…quanto sofre o homem pelas coisas que ama desordenadamente2. Quanto não sofrem os vingativos, ladrões e licenciosos para atingir seus malvados desígnios? E para o bem da alma nada querem sofrer. Ó Deus! À luz do círio que na hora da morte se acende, naquele momento de grandes verdades, os mundanos reconhecem e confessam sua grande loucura. Então desejariam ter renunciado ao mundo e levado vida santa.

O Pontífice Leão XI disse na hora da morte: “Em vez de ser Papa, melhor fora para mim ter sido porteiro no meu convento“. Honório III, também Pontífice, exclamou ao morrer: “Melhor teria feito, se ficasse na cozinha de minha comunidade para lavar a louça“. Filipe II, rei de Espanha, chamou seu filho na hora da morte, e, depois de afastar a roupa, lhe mostrou o peito roído de vermes, dizendo: “Vê, príncipe, como se morre, e como se acabam as grandezas do mundo“. Depois exclamou: “Por que não fui eu, em vez de monarca, simples frade leigo de qualquer ordem!” Mandou depois que lhe pusessem ao pescoço uma cruz de madeira; e tendo disposto todas as coisas para sua morte, disse a seu herdeiro: “Quis, meu filho, que estivesses presente a este ato, para que visses como, no fim da vida, o mundo trata ainda os próprios reis. Sua morte é igual à dos mais pobres da terra. Aquele que melhor tiver vivido, esse é que achará junto de Deus mais alto favor“.

E este mesmo filho, que foi depois Filipe III, ao morrer com apenas 43 anos de idade, disse: “Atendei, meus súditos, a que no meu necrológio somente se fale do espetáculo que tendes presente. Dizei que na morte de nada serve o título de rei, a não ser para sentir-se maior tormento de o haver sido… Oxalá, em vez de ser rei, tivesse vivido em um deserto servindo a Deus!… Ir-me ia agora apresentar com mais confiança entre seu tribunal, e não correria tamanho risco de me condenar!…” De que valem, porém, tais desejos no transe da morte, senão para maior desespero e

pena de quem não amou a Deus durante a vida? Dizia, por isto, Santa Teresa: “Não se deve fazer caso das coisas que acabam com a vida. A verdadeira vida consiste em viver de modo que nada se tenha a recear da morte…” Portanto, se desejamos compreender o que valem os bens da terra, consideremo-los do leito da morte e digamos logo: Aquelas riquezas, estas honras, estes prazeres, se acabarão um dia. É necessário, assim, que procuremos santificar-nos e enriquecer-nos somente dos bens únicos que hão de acompanhar-nos sempre e que constituirão nossa dita por toda a eternidade.

 

Afetos e Súplicas

Ah, meu Redentor!… Sofrestes tantos sacrifícios e tantas ignomínias por meu amor, e eu amei tanto os prazeres e as vaidades do mundo, que por sua causa fui levado a calcar aos pés inúmeras vezes a vossa graça. Mas, ainda que vos desprezasse, não deixáveis de me procurar; por isso, ó meu Jesus, não posso temer que me abandonareis agora que vos procuro e amo de todo o coração, e me dói mais de vos ter ofendido que se tivesse sofrido qualquer outro mal. Ó Deus de minha alma, não quero tornar a ofender-vos nem nas coisas mínimas. Fazei-me conhecer aquilo que vos desagrada e que não o pratique por nada deste mundo. Fazei que saiba o que vos é agradável e o ponha em execução. Quero amar-vos verdadeiramente; e por vós, Senhor, aceitarei gostosamente todos os sofrimentos e todas as cruzes que me vierem. Dai-me a resignação de que necessito. Queimai, cortai… Castigai-me nesta vida, a fim de que na outra possa amar-vos eternamente. Maria, minha Mãe, a vós me recomendo; não deixeis de rogar a Jesus por mim“.

 


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