Sunday, 20 of May of 2012

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A consciência e a vida correta

 

Por Joseph Ratzinger

Seguir a consciência significa realizar todos os nossos gostos? O conceito de autoridade exclui o conceito de liberdade? O então Cardeal Ratzinger fala sobre essas e outras questões nesse conjunto de reflexões tirado do posfácio do livro Joseph Ratzinger: uma biografia.

A unidade do homem tem um órgão: a consciência. Foi uma ousadia de São Paulo afirmar que todos os homens têm a capacidade de escutar a sua consciência, separando assim a questão da salvação da questão do conhecimento e da observância da Torah e situando-a no terreno da comum exigência da consciência em que o Deus único fala e diz a cada um o que é verdadeiramente essencial na Torah: Quando os gentios, que não têm lei, cumprem naturalmente as prescrições da lei, sem ter lei são lei para si mesmos, demonstrando que têm a realidade dessa lei escrita no seu coração, segundo o testemunho da sua consciência… (Rom 2, 14 e segs.). Paulo não diz: “Se os gentios se mantiverem firmes na sua religião, isso é bom diante do juízo de Deus”. Pelo contrário, ele condena grande parte das práticas religiosas daquele tempo. Remete para outra fonte, para aquela que todos trazem escrita no coração, ao único bem do único Deus.

Seja como for, aqui se enfrentam hoje dois conceitos contrários de consciência, que na maioria das vezes simplesmente se intrometem um no outro. Para Paulo, a consciência é o órgão da transparência do único Deus em todos os homens, que são um homem. Em contrapartida, atualmente a consciência aparece como expressão do caráter absoluto do sujeito, acima do qual não pode haver, no campo moral, nenhuma instância superior. O bem como tal não seria cognoscível. O Deus único não seria cognoscível. No que diz respeito à moral e à religião, a última instância seria o sujeito.

Isto seria lógico, se a verdade como tal fosse inacessível. Assim, o conceito moderno da consciência equivale à canonização do relativismo, da impossibilidade de haver normas morais e religiosas comuns, ao passo que, pelo contrário, para Paulo e para a tradição cristã, a consciência sempre foi a garantia da unidade do ser humano e da cognoscibilidade de Deus, e assim da obrigatoriedade comum de um mesmo e único bem. O fato de que em todos os tempos houve e há santos pagãos baseia-se em que em todos os lugares e em todos os tempos – embora muitas vezes com grande esforço e apenas parcialmente – a voz do coração era perceptível; a Torah de Deus se nos fazia perceptível como obrigação dentro de nós mesmos, no nosso ser criatural, e assim tornava possível que superássemos a mera subjetividade na relação de uns com os outros e na relação com Deus. E isto é a salvação (1).

CONSCIÊNCIA E VERDADE

A vida e a obra do Cardeal Newman poderia ser realmente definida como um extraordinário e extenso comentário ao problema da consciência <…>. Quem não se recorda <…> da famosa frase acerca da consciência na carta que dirigiu ao duque de Norfolk? Diz assim: “Se tivesse de brindar pela religião, o que é altamente improvável, fá-lo-ia pelo Papa. Mas em primeiro lugar pela consciência. Só depois o faria pelo Papa” (2). Newman queria que a sua resposta fosse uma adesão clara ao Papado em face da contestação de Gladstone, mas também queria que fosse, em face das formas errôneas do “ultramontanismo”, uma interpretação do Papado que só pode ser concebido adequadamente quando visto de forma conjunta com o primado da consciência, não como oposto a ela, mas como algo que a funda e lhe dá garantia. É difícil para o homem moderno, que pensa sempre na subjetividade como oposta à autoridade, entender esse problema. Para ele, a consciência está do lado da subjetividade e é expressão da liberdade do sujeito, enquanto a autoridade aparece como sua limitação e, inclusive, como sua ameaça e negação. É preciso aprofundar mais em tudo isso para entender de novo a perspectiva em que tal oposição não é válida.

O conceito central de que Newman se serve para unir autoridade e subjetividade é a verdade. Não tenho reparos em dizer que a verdade é a idéia central da sua luta espiritual. A consciência ocupa para ele um lugar central porque a verdade está no centro. Dito de outra maneira: em Newman, a importância do conceito de consciência está unida à excelência do conceito de verdade e deve ser entendida exclusivamente a partir dele. A presença constante da idéia de consciência não significa a defesa, no século XIX e em contraposição à neo-escolástica “objetivista”, de uma filosofia ou uma teologia da subjetividade. O sujeito merece, a seu ver, uma atenção como não havia despertado talvez desde Santo Agostinho. Mas é uma atenção na linha de Santo Agostinho, não na da filosofia subjetivista da modernidade. Ao ser elevado ao cardinalato, Newman confessou que toda a sua vida tinha sido uma luta contra o liberalismo. Poderíamos acrescentar: e também contra o subjetivismo cristão tal como o encontrou no movimento evangélico do seu tempo, e que constituiu o primeiro degrau de um caminho de conversão que duraria toda a sua vida.

A consciência não significa para Newman a norma do sujeito frente às demandas da autoridade num mundo sem verdade, que vive entre as exigências do sujeito e da ordem social, mas, antes, a presencia clara e imperiosa da voz da verdade no sujeito. A consciência é a anulação da mera subjetividade no ponto em que se tangenciam a intimidade do homem e a verdade de Deus. São significativos os versos que escreveu na Sicília em 1833: “Eu amava o meu próprio caminho. Agora Te peço, ilumina-me para Te seguir” (3). A conversão ao catolicismo não foi para ele uma questão de gosto pessoal ou de uma necessidade anímica subjetiva. Já em 1844, no umbral de sua conversão, falava sobre isso com estas palavras: “Ninguém pode ter uma opinião mais desfavorável que eu da situação atual dos católicos” (4). Mas a Newman importava mais obedecer à verdade, inclusive contra o seu próprio sentir, que seguir o seu gosto, os vínculos de amizade e os caminhos trilhados.

Parece-me muito significativo que ele tenha sublinhado a prioridade da verdade sobre o bem na série das virtudes, ou, expresso de forma mais compreensível para nós, a sua primazia em face do consenso e dos pactos de grupo. Eu diria que essas atitudes são comuns quando falamos de um homem de consciência. Homem de consciência é aquele que não compra tolerância, bem-estar, êxito, reputação e aprovação públicas renunciando à verdade. Nisso Newman coincide com outra grande testemunha britânica da consciência, com Thomas More, para quem a consciência nunca foi expressão da sua vontade de obstinação nem de heroísmo caprichoso. Thomas More contava-se a si mesmo entre os mártires temerosos que só depois de muitos atrasos e inumeráveis questionamentos conseguiu levar a alma a obedecer à consciência: a obediência à verdade, que deve estar acima das instâncias sociais e dos gostos pessoais. Aparecem então dois critérios para distinguir a presença de uma verdadeira voz da consciência: que não coincida com os desejos e gostos próprios nem com o que é mais benéfico para a sociedade, o consenso do grupo ou as exigências do poder político ou social.

Chegados a este ponto, parece natural lançar um olhar aos problemas da nossa época. O indivíduo não deve trair a verdade reconhecida para comprar o progresso e o bem-estar. A humanidade não o permite. Com isto, tocamos o ponto verdadeiramente crítico da modernidade: o conceito de verdade foi praticamente abandonado e substituído pelo de progresso. O progresso “é” a verdade. Mas com essa aparente elevação desmente-se e anula a si próprio, pois quando não há direção, o mesmo movimento pode ser tanto progressivo como retrógrado. É assim que a teoria da relatividade formulada por Einstein vê o cosmos físico. Mas penso que também descreve com acerto a situação do cosmos espiritual do nosso tempo. A teoria da relatividade estabelece que não há nenhum sistema de referência fixo; cabe a nós considerar um ponto qualquer como referência e a partir dele tentar medir a totalidade, pois apenas assim poderemos obter resultados; da mesma maneira que escolhemos um, poderíamos ter escolhido qualquer outro.

O que se diz a respeito do cosmos físico reflete também o segundo giro “copernicano” que se deu na nossa relação fundamental com a realidade: a verdade, o absoluto, o ponto de referência do pensamento deixou de ser evidente. Por isso, já não há – tampouco do ponto de vista espiritual – nem norte nem sul. Não há direção num mundo sem pontos de medida fixos. O que consideramos direção não assenta numa medida verdadeira, mas numa decisão nossa e, em última análise, no ponto de vista da utilidade. Num tal contexto “relativista”, a ética teleológica ou conseqüencialista converte-se numa ética niilista, mesmo quando não se percebe. O que numa cosmovisão como essa se chama “consciência” é, considerada em profundidade, um modo de dissimular que não há autêntica consciência, isto é, unidade de conhecimento e verdade. Cada um cria os seus próprios critérios, e, na situação de relatividade geral, ninguém pode ajudar os outros, e menos ainda dar-lhes instruções.

Agora se percebe a enorme radicalidade do debate ético atual, cujo centro é a consciência. Penso que o paralelismo mais aproximado na história das idéias é a controvérsia entre Sócrates e Platão, por um lado, e os sofistas, por outro, na qual se põe à prova a resolução originária de duas atitudes fundamentais: a confiança na capacidade humana de verdade e uma visão do mundo na qual o homem cria os seus próprios critério.

O motivo pelo qual Sócrates, um pagão, se converteu em certo sentido num profeta de Jesus Cristo é, a meu ver, essa questão primordial: a sua disposição de acolher a verdade foi o que permitiu ao modo de fazer filosofia inspirado na sua figura o privilégio de ser de algum modo um elemento da História Sagrada, e o que fez dele um recipiente idôneo do Logos cristão, cuja finalidade é a libertação pela verdade e para a verdade. Se separarmos a luta de Sócrates das contingências históricas do momento, perceberemos rapidamente com que intensidade intervém – com outros argumentos e nomes – nos assuntos da polêmica do presente. <…> em muitos lugares já não se pergunta o quê um homem qualquer pensa. Basta-nos dispor de uma idéia sobre o seu modo de pensar para incluí-lo na categoria formal conveniente: conservador, reacionário, fundamentalista, progressista ou revolucionário. A inclusão num esquema formal torna desnecessária qualquer explicação do seu pensamento. Algo parecido, mas reforçado, se observa na arte. O que expressa é indiferente: pode glorificar Deus ou o diabo. O único critério é que seja formalmente conhecido.

Com isto, chegamos ao verdadeiro núcleo do nosso assunto. Quando os conteúdos não contam e a pura fraseologia assume o comando, o poder converte-se em critério supremo, isto é, transforma-se em categoria – revolucionária ou reacionária – dona de tudo. Esta é a forma perversa de semelhança com Deus de que fala o relato do pecado original. O caminho do mero poder e da pura força é a imitação de um ídolo, não a realização da imagem de Deus. O traço essencial do homem enquanto homem não é perguntar pelo poder, mas pelo dever, e abrir-se à voz da verdade e suas exigências. Esta é, a meu ver, a trama definitiva da luta de Sócrates. Também é o argumento mais profundo do testemunho dos mártires: os mártires manifestam a capacidade de verdade do homem como limite de qualquer poder e como garantia da sua semelhança com Deus. É assim que os mártires se constituem nas grandes testemunhas da consciência, da capacidade outorgada ao homem para perceber o dever acima do poder e começar o progresso verdadeiro e a ascensão efetiva (5).

A CONSCIÊNCIA “INFALÍVEL”

A consciência é apresentada como o baluarte da liberdade em face das constrições da existência causadas pela autoridade. <…> Desse modo, a moral da consciência e a moral da autoridade parecem enfrentar-se como duas morais contrapostas em luta recíproca. A liberdade do cristão ficaria a salvo graças ao postulado original da tradição moral: a consciência é a norma suprema que o homem deve seguir sempre, mesmo quando vai contra a autoridade. Quando a autoridade, nesse caso o Magistério da Igreja, falasse sobre problemas de moral, estaria submetendo um material à consciência, que reservaria sempre para si mesma a última palavra <…>. Essa concepção da consciência como última instância é recolhida por alguns autores na fórmula “a consciência é infalível”. <…>

Por um lado, é inquestionável que devemos sempre seguir o veredito evidente da consciência, ou pelo menos não o infringir com as nossas ações. Mas é muito diferente sustentar a convicção de que o ditame da consciência, ou o que consideramos como tal, sempre estaria certo, sempre seria infalível. Semelhante afirmação significaria o mesmo que dizer que não há verdade alguma, ao menos em matéria de moral e religião, isto é, justamente no âmbito que é o fundamento constitutivo da nossa existência. Como os juízos da consciência se contradizem uns aos outros, só haveria uma “verdade do sujeito” <…>.

A pergunta pela consciência nos transporta, na prática, para o domínio essencial do problema moral e a interrogação acerca da existência do homem. Não gostaria de pôr esses problemas em forma de considerações estritamente conceituais e, por conseguinte, completamente abstratas, mas preferiria avançar de modo narrativo.

Primeiramente, contarei a história da minha relação pessoal com esse problema. Ele pôs-se pela primeira vez com toda a sua urgência no começo da minha atividade acadêmica. Um meu colega mais velho <…>, expressou durante uma disputa a opinião de que devíamos dar graças a Deus por conceder a muitos homens a possibilidade de fazer-se não-crentes seguindo a sua consciência; se lhes abríssemos os olhos e eles se fizessem crentes, não seriam capazes de suportar neste nosso mundo o peso da fé e das suas obrigações morais. Mas, como todos seguiram de boa-fé um caminho diferente, poderiam alcançar a salvação.

O que mais me chocava nessa afirmação não era a idéia de uma consciência equivocada concedida pelo próprio Deus para poder salvar os homens mediante esse estratagema, isto é, a idéia de uma ofuscação enviada por Deus para a salvação de alguns. O que me perturbava era a idéia de que a fé fosse uma carga insuportável que só naturezas fortes poderiam suportar, quase um castigo ou, em todo o caso, uma exigência difícil de cumprir. A fé não facilitaria a salvação, antes a dificultaria. Livre seria aquele que não carregasse com a necessidade de crer e de dobrar-se ao jugo da moral que decorre da fé da Igreja Católica. A consciência errônea, que permitiria uma vida mais leve e mostraria um caminho mais humano, seria a verdadeira graça, o caminho normal da salvação. A falsidade e o afastamento da verdade seriam melhores para o homem do que a verdade. O homem não seria libertado pela verdade, mas deveria ser libertado dela. A morada do homem seria mais a obscuridade do que a luz, e a fé não seria um dom benéfico do bom Deus, mas uma fatalidade.

Porém, se as coisas fossem assim, como poderia surgir a alegria da fé? Como poderia surgir a coragem de transmiti-la aos demais? Não seria melhor deixá-los em paz e mantê-los distantes dela? Foram idéias como essa que paralisaram, com cada vez mais força, a tarefa evangelizadora. Quem encara a fé como uma carga pesada ou como uma exigência moral excessiva não pode convidar outras pessoas a abraçá-la. Prefere deixá-los na suposta liberdade da sua boa consciência.

<…> O que inicialmente me estarreceu no argumento mencionado era, sobretudo, a caricatura de fé que me pareceu haver nele. Mas, numa segunda consideração, pareceu-me igualmente falso o conceito de consciência que pressupunha. A consciência errônea protege o homem das exigências da verdade e o salva: assim soava o argumento. A consciência não aparecia nele como uma janela que abre para o homem o panorama da verdade comum que sustenta a cada um e a todos, tornando possível que sejamos uma comunidade de vontade e de responsabilidade apoiada na comunidade do conhecimento. Nesse argumento, a consciência também não é a abertura do homem ao fundamento que o sustenta nem a força que lhe permite perceber o supremo e essencial. Trata-se antes de uma espécie de invólucro protetor da subjetividade <…> que não dá acesso à estrada salvadora da verdade, que ou não existe ou é exigente demais; e converte-se assim em justificação da subjetividade, que não se quer ver questionada, e do conformismo social, que deve possibilitar a convivência como valor médio entre as diversas subjetividades. Desaparecem assim o dever de buscar a verdade e as dúvidas quanto às atitudes e costumes dominantes: bastariam o conhecimento adquirido individualmente e a adaptação aos outros. O homem é reduzido às convicções mais superficiais, e quanto menor a sua profundidade, melhor para ele. <…>.

Pouco depois, numa disputa entre um grupo de colegas sobre a força justificadora da consciência errônea, alguém objetou contra essa tese que, se fosse universalmente válida, estariam justificados – e deveríamos procurá-los no céu – os membros das SS que cometeram os seus crimes com um conhecimento fanatizado e plena segurança de consciência. <…> Não haveria a menor dúvida de que Hitler e os seus cúmplices, que estavam profundamente convencidos do que faziam, não podiam ter agido de outra forma. Apesar do horror objetivo das suas ações, teriam agido moralmente do ponto de vista subjetivo. Como seguiam a sua consciência, embora esta os tivesse guiado erroneamente, deveríamos reconhecer que as suas ações eram morais para eles; não poderíamos duvidar, em suma, da salvação eterna das suas almas.

A partir dessa conversa, sei com segurança absoluta que há algum erro na teoria sobre a força justificadora da consciência subjetiva; em outras palavras, que um conceito de consciência que conduz a semelhantes resultados é falso. A firme convicção subjetiva e a segurança e falta de escrúpulos que dela derivam não tiram a culpa do homem. Quase trinta anos depois, lendo o psicólogo Albert Görres, descobri resumida em poucas palavras a idéia que então tentava penosamente reduzir a conceitos e cujo desenvolvimento forma o núcleo das nossas reflexões. Görres indica que o sentimento de culpabilidade, a capacidade de sentir culpa, pertence de forma essencial ao patrimônio anímico do homem. O sentimento de culpa, que rompe a falsa tranqüilidade da consciência <…>, é um sinal tão necessário para o homem como a dor corporal, que permite conhecer a alteração das funções vitais normais. Quem não é capaz de sentir culpa está espiritualmente doente, é um “cadáver vivente, uma máscara do caráter”, como diz Görres (6). “Os animais e os monstros, entre outros, não têm sentimento de culpa. Talvez Hitler, Himmler ou Stalin também não o tenham tido. Com certeza, os chefões da máfia também carecem dele. Mas, na verdade, é bem possível que os seus cadáveres estejam ocultos no sótão, junto com os sentimentos de culpa rejeitados… Todos os homens necessitam de um sentimento de culpa” (7).

Além do mais, uma rápida olhada na Sagrada Escritura poderia ter evitado esses diagnósticos e as teorias da justificação pela consciência errônea. No Salmo 19, 13 encontramos uma proposição eternamente digna de reflexão: “Quem será capaz de reconhecer os seus deslizes? / Limpa-me <, Senhor,> dos que me são ocultos”. Isso não é um “objetivismo veterotestamentário”, mas profunda sabedoria humana: negar-se a ver a culpa ou fazer emudecer a consciência em tantos assuntos é uma doença da alma mais perigosa que a culpa reconhecida como culpa. Aquele que é incapaz de perceber que matar é pecado cai mais baixo do que aquele que reconhece a ignomínia da sua ação, pois está muito mais distante da verdade e da conversão. Não é em vão que, diante de Jesus, o orgulhoso aparece como alguém verdadeiramente perdido. O fato de o publicano, com todos os seus pecados indiscutíveis, parecer mais justo diante de Deus que o fariseu, com todas as suas obras verdadeiramente boas (Lc 18, 9-14), não significa que os pecados do publicano não sejam pecados nem que não sejam boas as obras boas. <…> O fundamento desse juízo paradoxal de Deus revela-se precisamente a partir do nosso problema: o fariseu não sabe que também tem pecados. Está inteiramente quite com a sua consciência. Mas o silêncio da consciência torna-o impermeável a Deus e aos homens, ao passo que o grito da consciência que aflora no publicano torna-o capaz da verdade e amor. Jesus pode atuar nos pecadores porque eles não se fazem inacessíveis às mudanças que Deus espera deles – de nós – escondendo-se atrás do biombo da sua consciência errônea. Mas não pode atuar nos “justos”, que não sentem necessidade nem de perdão nem de conversão; a sua consciência, que os exculpa, não acolhe nem o perdão nem a conversão.

Voltamos a encontrar a mesma idéia, ainda que exposta de outro modo, em Paulo, que nos diz que os gentios, quando guiados pela razão natural, sem Lei, cumprem os preceitos da Lei (Rom 2, 1-16). Toda a teoria da salvação pela ignorância fracassa diante desses versículos: no homem, existe a presença inegável da verdade, da verdade do Criador, que se oferece também por escrito na revelação da História Sagrada. O homem pode ver a verdade de Deus no fundo do seu ser criatural. É culpado se não a vê. Só se deixa de vê-la quando não se quer vê-la, ou seja, porque não se quer vê-la. Essa vontade negativa que impede o conhecimento é culpa. Que o farol não brilhe é conseqüência de um afastamento voluntário do olhar daquilo que não queremos ver.

A estas alturas das nossas reflexões, é possível tirar as primeiras conseqüências para responder à pergunta sobre o que é a consciência. Agora já podemos dizer: não é possível identificar a consciência humana com a autoconsciência do eu, com a certeza subjetiva de si e do seu comportamento moral. Essa consciência pode ser às vezes um mero reflexo do meio social e das opiniões nele difundidas. Outras vezes, pode estar relacionada com uma pobreza autocrítica, com não ouvir suficientemente a profundidade da alma. O que se deu no Leste Europeu após a derrocada dos sistemas marxistas confirma este diagnóstico. Os espíritos mais claros e despertos dos povos libertados falam de um imenso abandono moral, produzido por muitos anos de degradação espiritual, e de um embotamento do sentido moral, cuja perda e os perigos que acarreta pesariam ainda mais que os danos econômicos que produziu. O novo patriarca de Moscou pôs energicamente em evidência esse aspecto, no começo da sua atividade, no verão de 1990: as faculdades perceptivas dos homens que vivem num sistema de engano turvam-se inevitavelmente. A sociedade perde a capacidade de misericórdia e os sentimentos humanos desaparecem. <…> “Temos de conduzir de novo a humanidade aos valores morais eternos”, isto é, desenvolver de novo o ouvido quase extinto para escutar o conselho de Deus no coração do homem. O erro, a consciência errônea, só são cômodos num primeiro momento. Depois, o emudecimento da consciência converte-se em desumanização do mundo e em perigo mortal, se não reagimos contra eles.

Em outras palavras: a identificação da consciência com o conhecimento superficial e a redução do homem à subjetividade não libertam, mas escravizam. Fazem-nos completamente dependentes das opiniões dominantes e reduzem dia após dia o nível dessas mesmas opiniões dominantes. Aquele que iguala a consciência à convicção superficial identifica-a com uma segurança aparentemente racional, tecida de fatuidade, conformismo e negligência. A consciência degrada-se à condição de mecanismo exculpatório, em vez de representar a transparência do sujeito para refletir o divino, e, como conseqüência, degrada-se também a dignidade e a grandeza do homem. A redução da consciência à segurança subjetiva significa a supressão da verdade. Quando o salmista, antecipando a visão de Isaías sobre o pecado e a justiça, pede para libertar-se dos pecados que se nos ocultam, chama a atenção para o seguinte fato: deve-se, sem dúvida, seguir a consciência errônea, mas a supressão da verdade que a precede, e que agora se vinga, é a verdadeira culpa, que adormece o homem numa falsa segurança e por fim o deixa só num deserto inóspito (8).

FORMAR A CONSCIÊNCIA

Certamente a fé cristã vai além daquilo que a pura razão é capaz de reconhecer, mas faz parte das suas convicções fundamentais que Cristo é o Logos, quer dizer, a razão criadora de Deus da qual procede o mundo e que se reflete na nossa racionalidade. O apóstolo Paulo, que falou com tanta ênfase da novidade e da unicidade do cristianismo, destacou ao mesmo tempo que o preceito moral registrado na Sagrada Escritura coincide com aquele que “está inscrito nos nossos corações, segundo o testemunho da nossa consciência” (Rom 2, 15). É verdade que, com freqüência, esta voz do nosso coração, a consciência, é sufocada pelos ruídos secundários da nossa vida. A consciência pode, por assim dizer, tornar-se cega. Precisamos assistir às “aulas de recuperação” da fé, que volta a despertá-la, e assim torna novamente perceptível a voz do Criador em nós, suas criaturas (9).

O RESPEITO HUMANO, TRAIÇÃO DA PRÓPRIA CONSCIÊNCIA

O Juiz do mundo, que um dia voltará para nos julgar a todos nós, está ali, aniquilado, insultado e inerme diante do juiz terreno. Pilatos não é um monstro de maldade. Sabe que esse condenado é inocente, e procura um modo de libertá-lo. Mas o seu coração está dividido. E, por fim, faz prevalecer a sua posição, a si mesmo, acima do direito. Também os homens que gritam e pedem a morte de Jesus não são monstros de maldade. Muitos deles, no dia de Pentecostes, sentir-se-ão emocionados até ao fundo do coração (At 2, 37) quando Pedro lhes disser: a Jesus do Nazaré, homem acreditado por Deus junto de vós, <…>, vós o matastes, cravando-o na cruz pela mão de gente perversa (At 2, 22-23). Naquele momento, porém, sofrem a influência da multidão. Gritam porque os outros gritam e tal como os outros gritam. E assim a justiça é espezinhada pela covardia, pela pusilanimidade, pelo medo do diktat da mentalidade predominante. A voz sutil da consciência fica sufocada pelos gritos da multidão. A indecisão, o respeito humano dão força ao mal (10).

FALSAS PROMESSAS

Cristo diz: Guardai-vos dos falsos profetas que vêm a vós sob disfarce de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. Pelos seus frutos os conhecereis. Parece uma advertência contra as seitas e heresias.

É uma interpretação possível. Mas também é uma advertência contra qualquer regra fácil. Jesus nos previne contra os “curandeiros do espírito”. Diz que a nossa norma deve ser perguntarmo-nos: “Como vive essa pessoa? Quem é na realidade? Que frutos produzem ele e o seu círculo? Analise isso e verá a que conduz”.

Essa norma prática, ditada por Cristo à vista do momento em que viveu, projeta-se sobre a História. Pensemos nos pregadores da salvação do século passado, quer se trate de Hitler ou dos pregadores marxistas; todos vieram e disseram: “Trazemos a justiça para vós”. No princípio, pareciam mansas ovelhas, mas acabaram sendo grandes destruidores. Mas também diz respeito aos numerosos pequenos pregadores que nos dizem: “Eu tenho a chave, age assim e em pouco tempo conseguirás a felicidade, a riqueza, o êxito”.

William Shakespeare, evidentemente um católico, viveu com intensidade a roda da existência. Como bom pedagogo, no fim ofereceu uma recomendação, algo assim como a essência do seu conhecimento mundano: “Compra tempo divino, vende horas do triste tempo terrenal”. São palavras sábias, como as que se esperam de um grande homem. O tempo mais bem aproveitado é o que se transforma em algo duradouro: é o tempo que recebemos de Deus e a Ele devolvemos. O tempo que é pura transição desmorona e se transforma em mera caducidade (11).

A REGRA DE OURO

O Sermão da Montanha não corresponde necessariamente às idéias tradicionais. Opõe-se até às nossas definições de sorte, grandeza, poder, êxito ou justiça. E, no seu final, oferece ao seu público um resumo, quase que uma lei das leis, a “regra de ouro” da vida. Diz assim: “Portanto, tudo o que quiserdes que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles; porque esta é a Lei e os Profetas”.

A regra de ouro já existia antes de Cristo, embora formulada de maneira negativa: “Não faças a ninguém o que não queres que te façam”. Jesus a supera com uma formulação positiva que, como é lógico, é muito mais exigente.

Na minha opinião, o que é grandioso é que já não se volta a comparar quem fez o que, quando, como, a quem; que a pessoa já não se perde em diferenciações, mas compreende a missão essencial que nos foi confiada: abrir bem os olhos, abrir o coração e encontrar as possibilidades criativas do bem. Já não se trata de perguntar que é o que eu quero, mas de trasladar para os outros o meu desejo. E esta entrega autêntica, com toda a sua fantasia criativa, com todas as possibilidades que abre diante de nós, está recolhida numa regra muito prática, para que não fique reduzida a um sonho idealista qualquer (12).

VIVER AS VIRTUDES

Creio que todo o mundo gostaria de saber como levar uma vida correta, <…>, como levá-la ao cume sentindo-se à vontade consigo mesmo. Antes de morrer, o grande ator Cary Grant deixou à sua filha Jennifer uma carta de despedida comovente. Quis dar-lhe nela algumas recomendações adicionais para o caminho. “Queridíssima Jennifer”, escreveu, “viva a sua vida plenamente, sem egoísmo. Seja comedida, respeite o esforço dos outros. Esforce-se para conseguir o melhor e o bom gosto. Mantenha puro o juízo e limpa a conduta”. E prosseguia: “Dê graças a Deus pelos rostos das pessoas boas e pelo doce amor que há por trás dos seus olhos… Pelas flores que ondulam ao vento… Um breve sono e despertarei para a eternidade. Se não despertar como nós o entendemos, então continuarei a viver em você, filha queridíssima”.

De certa forma, soa a católico. Seja como for, é uma carta belíssima. Se era católico ou não, não sei, mas certamente é a expressão de uma pessoa que se tornou sábia e compreendeu o significado do bem, e tenta transmiti-lo, além disso, com uma assombrosa amabilidade (13).

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NOTAS:
(1) Fe, verdad y cultura. Reflexiones a propósito de la encíclica Fides et ratio, Primeiro Congresso Internacional da Faculdade San Dámaso de Teologia, Madrid, 16.02.00.
(2) Letter to Norfolk, pág. 261.
(3) Do conhecido poema Lead, kindly light.
(4) Correspondence of J. H. Newman with J. Keble and Others, págs. 351 e 364.
(5) Verdad, valores, poder, págs. 56-64.
(6) A. Görres, “Schuld und Schuldgefühle”, em Internationale katolische Zeitschrift “Communio”, 13 (1948), pág. 434.
(7) Ibid., pág. 142.
(8) “Se quiseres a paz, respeita a consciência de cada um (Consciência e verdade)”, em Wahrheit, Werte, Macht. Prüfsteine der pluralistischen Gesellschaft, Herder, Friburgo, 1993; trad. esp. Verdad, valores, poder. Piedras de toque de la sociedad pluralista, Rialp, Madrid, 2000, págs. 40-55.
(9) Entrevista a Jaime Antúnez Aldunate.
(10) Via-sacra no Coliseu, Primeira estação: meditação, Departamento para as Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice, Roma, 14.04.05.
(11) La fe, de tejas abajo.
(12) La fe, de tejas abajo.
(13) La fe, de tejas abajo.

Fonte: Quadrante


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Do bom procedimento exterior, e do recurso a Deus nos perigos

 

1. Jesus: Filho, nisto deves empenhar toda a diligência, que em todo lugar, ação ou ocupação exterior estejas interiormente livre e senhor de ti mesmo, dominando todas as coisas, e a nenhuma sujeito. Deves ser o senhor e diretor de tuas ações e não servo ou escravo; cumpre sejas livre e verdadeiro israelita, que chega à condição de liberdade dos filhos de Deus. Esses elevam-se acima das coisas presentes e contemplam as eternas; só de relance olham para as coisas transitórias, e têm a vista presa nas celestiais. Não se deixam atrair e prender pelas coisas temporais, mas servem-se delas conforme o fim para que foram ordenadas por Deus e destinadas pelo supremo Artífice, que nada deixou sem ordem nas suas criaturas.

innefable sweetness

2. Se, além disso, em qualquer acontecimento, não te demorares na aparência exterior, nem considerares com os olhos carnais o que vês e ouves, mas em qualquer negócio entrares logo com Moisés no tabernáculo e consultar o Senhor; ouvirás às vezes, a sua divina resposta, e sairás instruído a respeito de muitas coisas presentes e futuras. Sempre recorria Moisés ao tabernáculo para resolver suas dúvidas e dificuldades, valia-se da oração para triunfar dos perigos e das maldades dos homens. Do mesmo modo deves tu te refugiar no mais recôndito do teu coração, para, com mais instância, implorar o divino auxílio. Por isso – como está escrito – Josué e os filhos de Israel foram enganados pelos gabaonitas "porque não consultaram primeiro ao Senhor", mas, dando crédito demasiado às suas doces palavras, deixaram-se enganar por fingida piedade.

Fonte: Imitação de Cristo, Tomás de Kempis


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Valores morais e cristãos – Os sacramentos e a oração, escola de autênticos valores (VII)

Por Pe. Marcial Maciel L.C.

 

Talvez  pudesse dar a impressão de que em tudo o que temos dito até agora, a tarefa e a responsabilidade principais na conquista dos valores humanos e cristãos recai sobre o esforço do homem. Porém, não é assim. O cristão há de se esforçar para construir sua vida sobre rocha sólida. Mas nunca há de esquecer que «se o Senhor não constrói a casa em vão se cansam os habitantes» (Sal 126, 1). O cristão necessita da graça de Deus para edificar sua vida sobre os autênticos valores. Por isso, há de acodir às fontes de onde emana a graça: os sacramentos e a oração.

Os sacramentos são a fonte ordinária de onde se nutre a vida da graça do cristão. Quem se une ao mistério pascoal de Cristo através dos sacramentos, recebe a graça para assemelhar-se mais perfeitamente a Cristo. Esta identificação com Ele possibilita a vivência mais perfeita daqueles valores, humanos e evangélicos, que Cristo mesmo viveu.

Somente unidos a Cristo, como os ramos da videira à mesma, poderemos dar frutos de vida eterna (Jn 15, 8). De modo especial, o sacramento da Penitência, ao reconciliar o pecador com Cristo e com a Igreja, dá ao homem ferido pelo pecado, a graça para prosseguir com renovadas forças nessa árdua conquista dos valores, acima das debilidades e das faltas pessoais. A Eucaristia, por sua vez, que contém ao mesmo Cristo sob as espécies do pão e do vinho, deixa a alma inundada de sua graça, favorece a doação de si na caridade até nossos irmãos, os homens, e é prova dos bens da glória futura.

O outro grande manancial da vida de graça é a oração. Nela descobrimos a Deus como fonte suprema de todos os valores e nossa dignidade como seus filhos. Nela, se revela a nós a vontade divina, e obtemos forças para viver as exigências do ideal, hierarquizamos de modo adequado todos os valores em função de Deus, valor supremo muito fundamental, ganhamos as graças necessárias para viver generosamente nossos compromissos como homens e como batizados, enchemos a alma de zelo para nos converter em difusores do Evangelho.

A oração é a respiração da alma. Quem não respira, morre por asfixia. Quem não ora, morre espiritualmente. Quem não ora, perde a necessária tensão moral e espiritual, se dispersa em meio de muitas coisas acidentais, faltando-lhe a ancoragem na eternidade de Deus. Por isso, o cristão verdadeiramente maduro acode à oração, porque se reconhece criatura necessitada de Deus, porque se reconhece pecador que busca o perdão, porque quer agradecer-Lhe o dom magnífico e misterioso da vida, porque quer louvá-Lo por sua bondade e sua misericórdia.

Dêem a importância que merece a oração em suas vidas de crentes. A ela temos de dedicar o melhor de nosso tempo porque Deus é o valor supremo que merece o melhor de nós mesmos. Quando acreditarem que lhes faltam as forças, quando perceberem que o vigor de seu ideal vem diminuindo, quando se borra o sentido de sua vida, quando não sentem a urgência da missão, acodam à oração para respirar esse ar novo do espírito que procede do mesmo Deus. Que oportunidade tão grande e maravilhosa a de poder nos colocar em contato direto com Ele, e falar com Ele como um amigo fala com outro, de contar-Lhe nossas penas e alegrias, nossos sofrimentos e fracassos, nossas perplexidades e esperanças, nossos desejos de realizar grandes empresas por Ele!

Por isso, o valor da oração é incalculável. Nela se aprende o segredo de viver e o segredo de morrer; nela se vê tudo sob a perspectiva da eternidade, sob o signo da missão, sob o poder da mão amorosa de Deus.

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Valores morais e cristãos – A maturidade integral (VI)

Por Pe. Marcial Maciel L.C.

A. Maturidade humana e cristã

Quem, como Cristo, busca realizar em sua vida os valores segundo a devida hierarquia é uma pessoa madura. O homem maduro guia sua conduta pela razão e pelos critérios de fé; orienta sua vontade até o bem; sabe se relacionar com os demais de modo altruísta e generoso. Possui um claro projeto de vida e se entrega com decisão, a exemplo de Cristo, a sua realização; um homem que sabe o que quer e luta por conseguí-lo; um homem que tem dado a sua vida um sentido trascendente e que a concebe como uma missão; um homem que persegue um ideal verdadeiro e que se esforça por alcançá-lo sem vacilações nem subterfúgios; um homem de princípios claros, seguros e firmes; um homem que é coerente e fiel as suas próprias convicções, que usa sua liberdade de modo responsável; um homem reflexivo, rico em interioridade e sabedoria.

Uma pessoa madura se reconhece pela perfeita harmonia que reina em suas faculdades. A maturidade humana dá como resultado o que chamamos o homem cabal. Aqueles que lograram em harmonizar os diversos aspectos que compõem suas personalidades, nos surpreendem e maravilham por esse senhorio que possuem sobre si mesmos, pela simplicidade com que se dão aos demais e por sua coerência de vida. Têm sabido direcionar todas as forças de seu ser até um ideal superior. São pessoas ardentemente apaixonadas que têm sabido por toda sua riqueza emotiva e afetiva ao serviço do bem e da verdade, e que portanto exercem ao máximo sua capacidade de livre arbítrio.

O homem maduro é, como diz uma popular canção italiana, l’impero dell’armonia («o império da harmonia»), um ser que despreende paz, serenidade, energia, plenitude, gozo e entusiasmo pela vida, pelo bem e pela verdade. Um homem assim construiu sua vida sobre rocha. É claro, sem dúvida, que a maturidade não é sinônimo de total perfeição, a qual é impossível nesta terra. O homem maduro não carece de limites, porém os aceita, procurando sempre superá-los na medida de suas possibilidades.

O cristão maduro é aquele que, sobre a base dos valores humanos, vive os valores evangélicos. São Paulo chama a este tipo de homem, regenerado pela graça de Cristo, o homem novo (Ef 4, 24). Este homem, que nasce de novo no Espírito Santo (Jn 3, 5) é plenamente maduro porque vive segundo Cristo, o homem perfeito, revestindo-se d’Ele em seu ser e em suas obras, de tal modo que pode repetir com São Paulo: «Já não sou eu, é Cristo quem vive em mim» (Ga 2, 20). O homem novo vive da fé (Rm 3, 26) e da esperança; goza da liberdade gloriosa dos filhos de Deus (R 8, 21), se nutre da verdade do Evangelho, e tem por máxima lei a caridade (Rm 13, 8).

O cristão maduro é o santo que segue a Cristo pelo trilha da cruz para chegar, junto com Ele, à glória da resurreição. A maturidade cristã tampouco está totalmente isenta do pecado e da imperfeição, porém o cristão maduro, longe de fazer um pacto com o mal que todavia pode dominá-lo, procura viver em atitude de vigilância e de combate espiritual, aproveitando com humildade suas faltas para confiar mais em Deus e na ação da graça em sua alma.

Em contraposição ao homem maduro se encontra o homem superficial, que carece de princípios, que simplesmente vive o dia, sem um projeto de vida e sem ideal, que não sabe nem por que nem para que vive. A norma do seu atuar não é a convicção, senão a conveniência, o prazer do momento ou a emoção mais forte. Este tipo de homem se guia por um pensamento débil, de onde tudo é verdade e mentira ao mesmo tempo, tudo é relativo. Nada há de absoluto: nem normas morais, nem princípios, nem convicções. Tudo lhe é permitido contanto que satisfaça as suas tendências. É um homem dominado pela busca constante de novas sensações, do prazer e do sexo a todo custo, pela fuga da realidade e do compromisso moral e espiritual; porém vazio por dentro, sem valores sólidos, sem sentido na vida. É um ser amorfo, que vive de flor em flor: construíu sua vida sobre areia movediça.

Igualmente o cristão imaturo é quem vive na inconsciência ou na indiferença o precioso tesouro de sua fé e todas as riquezas que se derivam de seu ser cristão. Muitos são por desgraça os cristãos que o são somente de nome, pelo fato de haverem sido um dia batizados, porém não têm penetrado nas riquezas imensas do que isso implica para sua vida e que assim, vivem na miséria espiritual quando teriam todas as possibilidades para serem imensamente ricos graças à ação santificante do Espírito Santo e a sua inserção na vida de Cristo e de sua Igreja.

B. A formação da consciência

Parte imprescindível da maturidade integral da perssoa é a formação da consciência, esse sacrário de onde o homem se encontra à sós consigo mesmo e com Deus, e de onde descobre a lei imperiosa de realizar o bem e de evitar o mal. A consciência há de ser formada segundo os princípios da reta razão e da fé. Esta formação assume em nossos dias uma importância especial porque a cultura relativista que penetra por todos os lados, sobretudo através dos meios de comunicação social, faz mais difícil o juízo moral reto e objetivo. Na confusão dos valores morais em que vivemos, é necessário – mais que nunca - iluminá-la com os critérios do Evangelho, do Magistério da Igreja, das pessoas prudentes, para poder emitir juízos morais acertados. A consciência se forma sendo continuamente fiel aos seus ditames, sem permitir pequenas concessões que vão pouco a pouco debilitando a força de sua voz até fazê-la desaparecer. O homem coerente e autêntico é fiel à voz de sua consciência e, quando por debilidade não o é, sabe reconhecer com humildade seu erro e corrigir a rota.

A consciência bem formada assegura o verdadeiro exercício da liberdade. O homem é mais livre quando com maior força se adere ao bem e a verdade, e supera a tentação do egoísmo ou da mentira. A verdade nos faz livres (Jn 8, 32). Uma liberdade governada pela verdade e pelo bem é uma liberdade aberta ao valor moral, aberta a dignidade da pessoa humana, aberta a Dios em última instância. A tarefa da formação da consciência é particularmente importante hoje em dia no campo da ética familiar, social e professional. Nestes âmbitos, às vezes as paixões humanas ou as situações complexas tornam difícil um juízo moral acertado.

O Magistério da Igreja, através de importantes documentos pontifícios, vem iluminando a consciência dos fiéis cristãos e dos homens de boa vontade. Lhes aconselho que leiam e estudem atentamente estes escritos para que possam formar critérios morais seguros em seu atuar matrimonial, familiar, profissional e social. Naturalmente que existem casos concretos nos quais não é fácil emitir um juízo de consciência. Nestas situações, há de se recorrer ao exercício da virtude da prudência, ao conselho de pessoas competentes, plenas de sabedoria humana e cristã e à oração humilde e confiada ao Espírito Santo.

Encontramos um exemplo eloqüente de maturidade integral na pessoa do Papa João Paulo II. Todos aqueles que tiveram a graça de um contato direto com ele, ficaram admirados por sua personalidade tão completa e integrada. É um homem sumamente cordial; de uma grande empatia afetiva; se intui nele um caráter reto e sólido; de uma alta formação intelectual; de um juízo moral seguro, acertado e sereno; amante do exercício físico; de uma extraordinária capacidade de relacionamento; grande comunicador; um homem que se dá ao interlocutor, que se vê dominado por um ideal que o transcende; com um forte sentido da responsabilidade que, distante de agoniá-lo, o liberta e o lança à conquista de novas metas. É um líder humano, intelectual, social. Alguém que atrai, que convida à imitação.

Tudo isto não é fruto do azar nem da improvisação. É o resultado de um extenso esforço; de alguém que se propôs seriamente na vida alcançar uma maturidade humana. Porém, esta maturidade foi a base sobre a qual o Espírito Santo levantou essa outra maturidade cristã. Assim, o Santo Padre nos é apresentado como um homem seguro de sua fé, que sabe confiar em Deus acima de qualquer coisa, um homem de caridade, que vive profundamente o espírito das bem-aventuranças e toda a rica gama dos valores evangélicos. Não cabe dúvida de que é um autêntico líder humano, porém acima de tudo é um líder moral e espiritual que professa sem temores e com íntima convicção sua fé em Cristo, Redentor do homem.

(Continua…)


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Valores morais e cristãos – Os valores cristãos e Jesus Cristo (V)

Por Pe. Marcial Maciel L.C.

Todos os valores sobre os quais temos falado têm sido elevados e transformados por Jesus Cristo. Com a chegada de Cristo, os valores humanos são afetados, se elevando e transformando, na ordem da redenção. O cristianismo não suprime nem menospreza os valores humanos, senão que lhes dá uma nova orientação, um novo espírito, uma nova inspiração. Surgem assim, os valores cristãos que Cristo nos deixou consignados em sua mensagem evangélica. Talvez sua melhor síntese sejam as bem-aventuranças que nos apresentam uma radiografia do que deveria ser o coração do homem evangélico: a pobreza de espírito, a mansidão, a misericórdia, a pureza de coração, a busca da paz e da justiça, a paciência defronte à perseguição.

Junto as bem-aventuranças, os Evangelhos sublinham também a importância de algumas atitudes que Cristo exige de seus discípulos: a fé, a confiança absoluta na Providência, a humildade, a simplicidade, a capacidade de levar a própria cruz, a abnegação, o perdão dos inimigos e, sobretudo, o amor mútuo que é o distintivo que caracterizará a qualquer um que deseje seguir-Lhe e que Jesus propõe em forma de um «mandamento novo» que substitui à multiplicidade de mandamentos da antiga lei (Jn 13, 34).

A vinda de Cristo ao mundo, operou neste a maior revolução que jamais se havia imaginado: revolução pacífica do Evangelho que modifica o homem internamente, purificando-o do pecado e abrindo sua alma à ação transformadora do amor e da graça. Cristo não somente sanou o homem da ferida do pecado original, senão elevou todo o humano a um nível superior. Por isso, podemos dizer verdadeiramente, seguindo a grande tradição cristã, que a graça não suprime, senão que aperfeiçoa e leva a sua plenitude à natureza.

Creio que o melhor modo de considerar os valores cristãos é vê-los refletidos na pessoa mesma de Jesus Cristo. A contemplação de sua personalidade é fonte de perenes graças para nossa vida. O Evangelho nos apresenta a Cristo num ato de contínua doação de si mesmo ao Pai e aos homens. Jesus Cristo vive em perene atitude de serviço (Mt 20, 28). O que Lhe preocupa por acima de tudo é realizar sempre o querer supremo do Pai (Jn 4, 34), agradar-Lhe em tudo (Jn 8, 29). E para tal, não Lhe perturba nem inquieta a opinião dos homens (Mt 22, 15).

Porém, o fato de viver sempre pendente das coisas do Pai (Lc 2, 49) não Lhe impede de apreciar as realidades criadas em todo seu valor: a beleza dos passarinhos do céu, as flores dos campos (Mt 6, 26-28), a majestade dos montes solitários aonde se dirige para orar (Mc 1, 35; 9. 2), a solidão do deserto onde foi tentado. É também sumamente sensível, diante das realidades que tocam a vida dos homens. Quer participar do gozo dos esposos, santificando o matrimônio, com sua presença nas bodas de Caná. Aprecia a amizade que Lhe oferecem Lázaro e suas irmãs (Lc 10, 38). Se comove diante a dor da viúva que perdeu seu filho (Lc 7, 13), ou diante do abandono do homem que havia caído nas mãos de ladrões e a quem ninguém ajuda (Lc 10, 25-37).

Observa o desespero do paralítico que não tem ninguém que o leve à água da piscina de Betesda para ser curado (Jn 5, 6). Se admira muitíssimo da fé da mãe cananéia que deseja ardentemente a cura de sua filha (Mt 15, 28). Lhe dói a desorientação das multidões que caminham como ovelhas sem pastor (Mt 9, 36). Se compadece da vergonha da mulher surpreendida em flagrante adultério (Jn 8, 1-11). Lhe enche de gozo a alma o desejo de conversão e de renovação interior de Zaqueu (Lc 19, 1-10).

Jesus Cristo é um apaixonado do homem. Lhe interessa o humano porque veio resgatar o homem do pecado e mostrar-lhe o caminho seguro de sua salvação. Cristo sabe que nem todos os valores são iguais e para tal, não teme exigir a renúncia de alguns deles para alcançar outros superiores. Aprecia o valor das riquezas, porém sabe que a verdadeira riqueza é Deus e por Ele pede a seus discípulos a pobreza de coração.

Tem em grande conta o matrimônio, porém sabe que Deus pode chamar a alguns homens a viver exclusivamente para o Reino dos Céus e a eles lhes propõe o carisma da consagração virginal. Estima muito o valor do corpo, porém ao mesmo tempo designa à alma um maior valor: «Não tenhas medo dos que matam o corpo e não podem matar a alma. Temei mais a quem pode lançar a alma e o corpo na geena» (Mt 10, 28).

Surgem assim os paradoxos evangélicos do morrer para viver (Jn 12, 24), de servir para reinar (Mt 20, 27-28), de humilhar-se para ser o maior no Reino dos Céus (Mt 18, 4). São paradoxos que se esclarecem ao considerá-los à luz dos valores supremos: morrer para si para viver em Deus; servir aos homens para reinar no Céu; humilhar-se na terra para ser grande aos olhos de Deus.

Jesus Cristo sabe que se exige a renúncia a bens transitórios é para poder obter os eternos.

Ele é o homem perfeito e nos revela o ideal da perfeição humana. Quando Pilatos, depois haver mandado açoitá-Lo, pronuncia diante da multidão as palavras: “Ecce homo!”, não sabia que na realidade estava apresentando diante da História o homem perfeito, aquele que, como nenhum outro, encontrou o sentido mais profundo de sua existência na entrega oblativa de sua vida ao Pai por amor à humanidade, e em quem todos os valores encontram sua plenitude e sua consumação.

Ele é o homem maduro que luta para alcançar seu ideal, movido por uma consciência totalmente lúcida do porquê de sua existência. Esta percepção tão profunda e tão clara do sentido de sua vida, fez que vivesse a todo instante atado à missão. Sabia que havia vindo a este mundo para realizar a redenção e não perdeu nunca o sentido do essencial. Par tal, quando deu cumprimento na cruz à obra para a qual o Pai o havia enviado, apesar de ter sido  considerado pelos homens como um fracasso ou um iludido, Cristo se reconhece triunfante porque cumpriu com perfeição a sua missão, viveu com total plenitude o sentido de sua existência.

Esta contínua tensão que se percebe em sua vida, na ordem do cumprimento de sua missão, nos apresenta a Jesus Cristo como alguém que não toma a vida por pouco, senão que se compromete profundamente com ela. Passou sua vida fazendo o bem (Hch 10, 38) e servendo à Verdade (Jn 18, 37), amando ao Pai e aos homens. Ele é o homem por antonomásia em quem todos os valores alcançam seu cume. Basta contemplar a profundidade e clarividência de sua inteligência, a consistência e a força de seu caráter, o equilíbrio perfeito de sua vida passional, emotiva e afetiva.

Ele é o homem de princípios, coerente com os mesmos, fiel à sua palavra, amigo de seus amigos e inimigos, homem de uma só peça. Ele sabe resistir as dificuldades inerentes à vida humana: não se desespera diante do fracasso, nem se abate diante o sofrimento; sabe dar sentido a dor, sobrepôe-se à angústia, não se arreda diante da incompreensão, não se deixa vencer pela fadiga. Nasceu por amor, viveu amando e morreu sem deixar de amar: «havendo amado aos seus, os amou até o fim» (Jn 13, 1). Não temos outro modelo melhor nem mais perfeito que o de Jesus Cristo para dar sentido pleno à vida, para enchê-la de valores, para vivê-la em plenitude.

(Continua…)


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