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    Todos os Santos

    November 6th, 2011

     

    Alguém já disse que a Igreja é uma “Fábrica de Santos”; certamente trata-se de uma deveras profunda. Se o motivo da existência da Igreja fundada por Jesus (sobre esta pedra edificarei a minha Igreja) é ensinar a todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ou seja, evangelizar a todos, qual o motivo último senão que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da Verdade, numa palavra, que todos sejam santos? “Sede santos, como vosso Pai do céu é santo.”

    No entanto, diante de nossas fraquezas e limitações, nossos pecados e inclinações, poderíamos achar que o Evangelho seria algo muito bonito, uma mensagem produnda da paz que plasmou a cultura dos povos, mas uma grande e bela utopia, algo inatingível para nós, simples humanso e pecadores. Neste momento, eis que diante de nossos olhos, literalmente, à vista de seus rostos, de suas imagens são-nos propostas as vidas de homens e mulheres, crianças, adultos e idosos, ricos e pobres, nobres e plebeus, de todas as etinias e épocas, que, em seu próprio estado de vida, vocação e profissão, tornaram-se referência viva do Evangelho. De fato, os santos, são o audiovisual da fé, a Sagrada Escritura em multimídia. Seus rostos, suas histórias, suas vidas, são um resumo, cada um a seu modo, da Palavra de Deus.

    Se podemos afirmar a Deus escreveu dois livros, um escrito – a Bíblia, outro feito de imagens – a criação, e que se é possível chegar a Ele e ler sua assinatura nestas duas obras-primas, podemos dizer sem sombra de dúvida, que a Igreja escreveu um terceiro livro, de certa forma, resumo dos dois, feito de palavras e rostos, imagens que ensinam por si só a beleza da Boa-Nova, de como se pode ser feliz. Bem-Aventurado nesta vida quem faz da Palavra Eterna do Pai, a fonte de sua existência…

    Celebramos a festa de todos os Santos e Santas de Deus, nossos antepassados que nos ensinam – são nossas histórias de família – que é possível chegar ao céu, que vale a pena viver na graça de Deus aqui na terra, que o céu se conquista fazendo o bem. Bendito seja Deus, nos seus Anjos e nos seus Santos!

    Texto retirado do Folheto “A Missa”, da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. (06/11/2011)


    Reflexão para o Domingo de Páscoa–Ano A

    April 24th, 2011

     

    Domingo de Páscoa – Ressurreição do Senhor

    Ano A

    Citações bíblicas:

    At. 10,34a.37-43: www.clerus.org/bibliaclerusonline/it/9bus0jj.htm

    Col. 3,1-4: www.clerus.org/bibliaclerusonline/it/9abscnc.htm

    Jo. 20,1-9: www.clerus.org/bibliaclerusonline/it/9abthdt.htm

    Quão grande deve ter sido a admiração que expressaram os olhos de Maria Madalena! Quão grande o tremor ao ver a sepultura, onde estava o corpo Daquele que foi a causa da mudança de rumo fundamental e definitiva de sua vida, e que agora está aberta e vazia: “Tiraram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o colocaram”.

    O corpo de Jesus era a última coisa que restava àquele pequeno grupo de pessoas, fascinados por Ele. Parecia que o poder daquela época tivesse vencido. E agora, aquele pequeno tesouro, contido num sepulcro destinado a estar fechado para todo o sempre, tinha sido “retirado”.

    A preciosidade daquele corpo e daquele lugar é a única razão que poderia explicar a corrida de Pedro e João, quando apenas receberam a notícia da Madalena: agora, Jesus não estava mais com eles, tinham a necessidade de um sepulcro, junto ao qual poderiam chorar a perda do Mestre, e queriam estar certos que ninguém o tivesse profanado.

    A passagem evangélica de hoje nos chama a atenção não pelas as coisas que nos são relatadas, mas por aquelas que não são descritas: não nos é dito como o Senhor ressuscitou e não nos é descrito como os discípulos o viram! O que realmente domina a cena é o “sepulcro vazio”.

    Tão logo entraram naquela cova cavada na pedra, deram-se conta de tudo o que havia acontecido: “Viu e creu” (Jo. 20,8). Mas o que viram? “As faixas de linho no chão, e o pano que tinha coberto a cabeça de Jesus: este pano não estava com as faixas, mas enrolado num lugar à parte” (Jo. 20,6-7). Em si, um fato banal, sem significado relevante, mas que foi suficiente para fazer com que os olhos de João se abrissem à verdade. “Ressuscitei e estarei sempre contigo” (Cf. Antifona de entrada), assim deve ter escutado, com o próprio coração, o discípulo amado!

    Ademais, se paramos um momento para refletir, o Senhor continua a entrar em nossas vidas através dos encontros, gestos ou situações que, para a maior parte das pessoas, poderiam resultar insignificantes, mas que para nós assumem a mesma importância que tiveram aqueles panos de linho para o discípulo amado.

    Depois de dois mil anos, aquele sepulcro está ainda vazio, mas diante de um acontecimento desses, cada um de nós é chamado a tomar uma decisão. Como fazê-lo de forma consciente, sem que sejam outros a decidirem por nós? Não nos servem grandes conhecimentos ou uma inteligência superior. Podemos ser testemunhas do Senhor Ressuscitado, podemos reconhecer no sinal das faixas ali deixadas, a sua ressurreição, somente se estamos dispostos a deixar que Ele entre em nossas vidas e as cumulem com o seu Espírito. Será a amizade com Cristo, a familiaridade com Ele, dia após dia, que nos levará a darmo-nos conta “de tudo o que Jesus fez” (At. 10,39) e nos ajudará a compreender que a esperança – de justiça, de bem, de bondade, de verdade, de beleza – que se ascendeu quando o encontramos, realmente se realizará.

    O cristão não é um visionário ou um iludido, mas sim uma pessoa dotada de simplicidade de coração, a tal ponto que o leva a chamar as coisas pelo próprio nome e, dessa forma, o que para o mundo é uma “sepultura vazia”, para nós tornou-se o maior sinal da única Presença que pode satisfazer os anseios do nosso coração.

    “Ressuscitei e estarei sempre contigo” é o que o Senhor, neste momento, está dizendo também a você!

    Fonte: Clerus.org


    A Batina do pobre

    September 5th, 2010

    Por Prof. Carlos Ramalhete

    Costumo dizer que a única coisa boa que a TV Globo já fez no Brasil foi não deixar as pessoas esquecerem que padre usa batina. Para a imensa maioria das pessoas, hoje em dia, padre de batina é coisa que só se vê em novela. É uma pena.

    Além das questões legais (o Código de direito canônico manda usar, sendo contudo legalmente permitida no Brasil a sua substituição pelo "clergyman") e espirituais (a batina é um sacramental), há uma questão social e psicológica que me parece estar sendo deixada de lado por muita gente boa.

    É simples: a batina é um uniforme. A diferença maior entre o pobre e o rico, entre quem serve e quem é servido, é que o pobre, geralmente, trabalha de uniforme. Seja o faxineiro ou o trocador do ônibus, o porteiro ou a mocinha que serve atrás do balcão, é a impossibilidade de escolha do vestuário que designa quem está ali para servir.

    É até curioso perceber como é geralmente fácil descobrir o dono de uma lanchonete ou padaria: enquanto os empregados estão todos de uniforme, frequentemente com direito até a touquinhas tampando os cabelos, o dono é o único sujeito atrás do balcão que não usa uniforme. É como um delegado de polícia entre soldados da PM, como um doutor que passa altaneiro entre os faxineiros que, anônimos, varrem os corredores.

    O objetivo primeiro do uniforme é justamente este: a negação da
    personalidade. É por isso que os "bacanas" fogem do uniforme como o Diabo da cruz, mas o impõem aos menos afortunados. O faxineiro é o faxineiro; o "bacana" é o Doutor Fulano. Doutor Fulano usa gravatas vistosas, terno que brilha, sapatos engraxados. O faxineiro é invisível, não tem nome, não tem brilho, não tem nada que não o seu humilde serviço, que só é percebido quando não é feito. Ele é faxineiro.

    Um pesquisador da USP fez uma curiosa experiência, que lhe valeu um livro ("Homens invisíveis – Relatos de uma humilhação social", de Fernando Braga da Costa, ISBN 8525038911): uniu-se aos faxineiros da própria universidade, onde estudava e tinha amigos e colegas aos magotes. Ele simplesmente sumiu. Desapareceu atrás do uniforme: pessoas que sempre o cumprimentavam não mais o viam, amigos passavam por ele sem perceberem sua existência… De homem, de personalidade que faz escolhas (inclusive de vestuário), ele passou a ser um ente categorial: um faxineiro sem nome, invisível como os meios-fios que lava e as latas de lixo que esvazia.

    O mesmo acontece com a mocinha atrás do balcão, com o motorista do ônibus ("aquele ônibus me fechou!"), com, em suma, todos os pobres que a sociedade não quer ver afirmados como pessoas.

    O padre que usa batina afirma-se, assim, categorial: ele não é o Fulano, mas é um padre, é alguém que está ao serviço dos outros. A batina é um componente da pobreza evangélica, que é negada quando o padre se dá ao luxo de escolher roupa, parecer "bacana", de poder escolher – ao contrário do faxineiro ou da moça atrás do balcão – se vai ou não servir.

    O padre de roupa social parece um "doutor", alguém que é percebido como uma pessoa que faz escolhas, que atende quem quer atender, que ou bem não está "no serviço" ou bem é importante o suficiente para definir os termos do seu serviço, como o dono da padaria. Para os mais pobres, isso é algo que faz do padre uma figura psicologicamente distante. Quem é faxineiro, quem é trocador, quem trabalha de uniforme reconhece sempre que por trás do uniforme há um ser humano. Mas também reconhece no uniforme o sinal do serviço, o sinal da disponibilidade para atender. Quem é "bacana", quem trabalha sem uniforme, vê do mesmo modo no uniforme do padre – a batina – um sinal de disponibilidade.

    A disponibilidade do padre é e deve ser absoluta, por não ser, como é o caso dos outros trabalhadores de uniforme, algo limitado a uma dada situação. O trocador do ônibus, fora do veículo, não é trocador: é apenas trabalhador, identificado como tal pelo seu uniforme. Mas o padre nunca está "fora do serviço", porque não serve à companhia de ônibus, mas a Deus e, por Ele e n’Ele, aos homens.

    Passar desapercebido, como passa o faxineiro quando vestido com suas roupas de folga, não é para o padre uma opção. Ele deve estar disponível para o escarro do herege e para a confissão do fiel, porque não há folga no seu serviço.

    O mesmo, evidentemente, vale para o hábito religioso das freiras e
    frades: se eles o usam, mostram estar "em serviço", mostram estar à disposição para quem precise de uma oração, para quem precise de ajuda. Chega a ser engraçado ouvir de alguns padres a justificativa furadíssima de que não usam batina porque querem se identificar com "o pobre"! Só se for com o pobre de folga… ou com o rico que alguns pobres sonham em ser.

    Pobre usa uniforme quando trabalha. Quem o dispensa, ou melhor, quem a ele não é obrigado, é a madame – e o que há de freira fantasiada de madame! -, é o "doutor"- e o que há de padre com roupa social, entrando ou saindo de um carro, indistinguível, para todos os que estão em torno, de qualquer rico acumulando bens e negando serviço!

    O uso do "clergyman", a meu ver, apresenta também este problema: é próximo demais de um terno, de uma roupa de quem, por sua posição social, pode se dar ao luxo – negado ao pobre – de negar seu serviço. Como todos sabem, o uso do "clergyman", originalmente, uma roupa usada por "pastores" protestantes, surgiu na Igreja como uma forma de apagar a identidade do sacerdote, tornando-o indistinguível dos protestantes em lugares onde padres corriam o risco de ser atacados na rua, tamanho o sentimento anti-católico.

    É por isso, por ser em cada país diferente a situação do clero, que a legislação canônica faculta às Conferências episcopais de cada país autorizar ou não o uso do "clergyman" em substituição à batina. Presume-se que a Conferência possa distinguir se é ou não necessário "esconder" o padre. No Brasil, é ridícula a idéia de que isso seja necessário, o que faz da permissão dada pela CNBB um abuso de um direito lícito. Em outras palavras: é permitido usar o "clergyman" no lugar da batina no Brasil, mas não existem as razões que autorizariam esta substituição, apenas o frio texto da lei.

    Cumpre mesmo observar que só reconhece no "clergyman" uma roupa de padre quem já é "de Igreja", quem já viu padres assim vestidos. A TV Globo, graças a Deus, manteve viva a percepção nas massas afastadas da Igreja de que padre usa batina: para quem não é "de Igreja", o "clergyman" indica que seu portador é um "pastor" protestante, não um padre.

    Há ainda outra razão para o uso da batina, igualmente importante: a simbologia deste um uniforme específico. Assim como a roupa do faxineiro o faz ser indiscutivelmente um faxineiro e a roupa do motorista faz com que ele não seja confundido com o atendente da lanchonete, a batina mostra que ali há um padre. O hábito não faz o monge, mas o identifica.

    Isto tem vários benefícios. Para o padre, há o benefício imediato de que sua condição será sempre reconhecida antes mesmo que abra a boca. Por exemplo, a mocinha que vê o rapaz bonito vestido de batina vai logo suspirar que é um "desperdício", sem achar que ele possa ser um namorado em potencial. Isto vai livrar o padre de algumas tentações mais perigosas que a média, e vai livrar a mocinha de um desapontamento sério. Afinal, a moça honesta não tenta seduzir o padre que ela sabe ser padre, mas pode tentar e conseguir seduzir o padre que ela não identificou como tal e que, por fraqueza, não desfez o malentendido. A chance de um momento de fraqueza se transformar em uma relação desorganizada duradoura é muito menor para o padre cuja batina à vista afasta desde logo as moças honestas. Resta-lhe apenas lidar com as que querem um "troféu" sacrílego, mas estas dificilmente quereriam uma relação duradoura. São quedas de que é mais fácil se levantar.

    Do mesmo modo, o reconhecimento do padre como tal faz com que ele seja chamado na rua quando há um acidente e alguém jaz moribundo, para ministrar-lhe os sacramentos, quando há uma crise espiritual em andamento, o que pode salvar uma alma e mesmo uma vida (conheço um padre que, reconhecido pela batina, foi chamado numa lanchonete e convenceu uma moça a não abortar), quando há, em suma, a necessidade do seu serviço.

    E, finalmente, o padre de batina, como a freira ou o frade de hábito, servem como "homens-sanduíche" (aquelas pessoas com placas enormes na frente e nas costas, anunciando a compra de ouro ou os serviços de uma lanchonete): eles anunciam que Deus não esqueceu de nós. A simples visão de um padre ou freira pode servir, e serve, para muita gente como um "recado" de que devem se emendar, devem procurar voltar à Fé. É uma presença da Igreja no mundo, mais forte que os sinos da Matriz ou que milhares de campanhas de propaganda. É um bem enorme prestado à sociedade, um lembrete de que há algo além da cobiça, da luxúria, do orgulho.

    Que Deus abençoe todos os padres e religiosos que andam pelo mundo sem medo de mostrar que, como qualquer outro pobre, estão em serviço. Um serviço, porém, que não acaba e que não tem folga: o serviço do Bem.


    Trabalho: Trabalho e contemplação

    August 8th, 2010

     

    Ser contemplativos é desfrutar do olhar de Deus. Por isso, quem se sabe acompanhado por Ele durante o dia, vê com outros olhos as ocupações nas quais está empenhado.

    Gostaria que hoje, na nossa meditação, nos persuadíssemos definitivamente da necessidade de nos dispormos a ser almas contemplativas, no meio da rua, do trabalho, mantendo com o nosso Deus um diálogo contínuo, que não deve decair ao longo do dia. Se pretendermos seguir lealmente os passos do Mestre, esse é o único caminho.[1]

    Para aqueles que são chamados por Deus  a santificar-se no meio do mundo,  converter o trabalho em oração e ter alma contemplativa, é o único caminho, porque ou sabemos encontrar o Senhor em nossa vida ordinária, ou nunca O encontraremos[2].

    Opus Dei -

    Convém que meditemos bem devagar sobre este ensinamento capital de São Josemaria. Neste texto, consideraremos o que é a contemplação; em outras ocasiões deter-nos-emos no aprofundamento da vida contemplativa no trabalho e nas atividades da vida ordinária.

    COMO EM NAZARÉ, COMO OS PRIMEIROS CRISTÃOS

    A descoberta de Deus na atividade habitual de cada dia dá aos próprios afazeres seu valor último e sua plenitude de sentido. A vida oculta de Jesus em Nazaré, os anos intensos de trabalho e de oração, nos quais Jesus Cristo levou uma vida comum — como a nossa, se o quisermos —,  divina e humana ao mesmo tempo[3], mostram que a atividade profissional, a atenção dedicada à família e as relações sociais não são obstáculo para orar sempre[4], mas ocasião e meio para uma vida intensa de intimidade com Deus, até que chega um momento em que é impossível estabelecer uma diferença entre trabalho e contemplação.

    Por esse caminho de contemplação na vida ordinária, seguindo as pegadas do Mestre, decorreu a vida dos primeiros cristãos: «quando passeia, conversa, descansa, trabalha ou lê, o crente ora»[5], escrevia um autor do século II. Anos mais tarde, São Gregório Magno testemunha, como um ideal tornado realidade em numerosos fiéis, que «a graça da contemplação não se dá sim aos grandes e não aos pequenos; mas muitos grandes a recebem, e também muitos pequenos; e tanto entre os que vivem retirados como entre pessoas casadas. Portanto, se não há estado algum entre os fiéis que fique excluído da graça da contemplação, aquele que guarda interiormente o coração pode ser ilustrado com essa graça»[6].

    Opus Dei -

    O Magistério da Igreja, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, recordou muitas vezes esta doutrina, tão importante para os que têm a missão de levar Cristo a todas as partes e transformar o mundo com o espírito cristão. «As atividades diárias apresentam-se como um precioso meio de união com Cristo, podendo converter-se em matéria de santificação, terreno de exercício das virtudes, diálogo de amor que se realiza nas obras. O espírito de oração transforma o trabalho e assim torna-se possível estar em contemplação de Deus ainda que permanecendo nas ocupações mais variadas»[7].

    A CONTEMPLAÇÃO DOS FILHOS DE DEUS

    Ensina o Catecismo que «a contemplação de Deus na Sua glória celestial é chamada pela Igreja "visão beatífica"»[8]. Desta contemplação plena de Deus, própria do Céu, podemos ter uma certa antecipação nesta terra, um princípio imperfeito [9] que, embora seja de ordem diversa da visão, é já uma verdadeira contemplação de Deus, assim como a graça, embora sendo de ordem distinta da glória, é, não obstante, uma verdadeira participação na natureza divina. Agora vemos como num espelho, obscuramente; depois veremos cara a cara. Agora conheço de modo imperfeito, depois conhecerei como sou conhecido [10], escreve São Paulo.

    Essa contemplação de Deus como num espelho, durante a vida presente, é possível graças às virtudes teologais, à fé e à esperança vivas, informadas pela caridade. A fé unida à esperança e vivificada pela caridade «faz-nos saborear antecipadamente o gozo e a luz da visão beatífica, fim de nosso caminhar aqui em baixo»[11].

    A contemplação é um conhecimento amoroso e gozoso de Deus e de seus desígnios manifestados nas criaturas, na Revelação sobrenatural e plenamente na Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, nosso Senhor. «Ciência de amor»[12], chama-a São João da Cruz. A contemplação é um conhecimento total da verdade, alcançado não por um processo de raciocínio, mas por uma intensa caridade[13].

    A oração mental é um diálogo com Deus. Escreveste-me: "Orar é falar com Deus. Mas, de quê?" — De quê? D´Ele e de ti: alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias…, fraquezas!: e ações de graças e pedidos: e Amor e desagravo. Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te: "relacionar-se!"[14]. Na vida espiritual, este relacionamento com Deus tende a simplificar-se à medida que aumenta o amor filial, cheio de confiança. Sucede então que, com frequência, já não são necessárias as palavras para orar, nem as exteriores nem as interiores. Sobram as palavras, porque a língua não consegue expressar-se; já o entendimento se aquieta. Não se raciocina, olha-se![15].

    Isto é a contemplação, um modo de orar ativo mas sem palavras, intenso e sereno, profundo e simples. Um dom que Deus concede aos que o buscam com sinceridade, aos que põem toda a alma no cumprimento de Sua Vontade, com obras, e procuram mover-se na sua presença. Primeiro uma jaculatória, e depois outra, e outra…, até que parece insuficiente esse fervor, porque as palavras resultam pobres…: e dá-se passagem à intimidade divina, num olhar para Deus sem descanso e sem cansaço[16]. Isto pode suceder, como ensina São Josemaria, não só nos tempos dedicados expressamente à oração, mas também enquanto realizamos com a maior perfeição possível, dentro de nossos erros e limitações, as tarefas próprias de nossa condição e de nosso ofício[17].

    SOB A ACÃO DO ESPÍRITO SANTO

    O Pai, o Filho e o Espírito Santo habitam na alma em graça[18]: somos templos de Deus[19]. As palavras não chegam para expressar a riqueza do mistério da Vida da Santíssima Trindade em nós: o Pai que gera eternamente o Filho, e que com o Filho expira ao Espírito Santo, vínculo de Amor subsistente. Pela graça de Deus, tomamos parte dessa Vida como filhos. O Paráclito une-nos ao Filho, que assumiu a natureza humana para nos fazer participantes da natureza divina: ao chegar a plenitude dos tempos, enviou Deus a seu Filho, nascido de mulher (…) a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: «¡Abba, Pai!»[20]. E nesta união com o Filho não estamos sós, mas formamos um corpo, o Corpo místico de Cristo, ao qual todos os homens estão chamados a incorporar-se como membros vivos e a ser, como os apóstolos, instrumentos para atrair a outros, participando no sacerdócio de Cristo[21].

    Opus Dei -

    A vida contemplativa é a vida própria dos filhos de Deus, vida de intimidade com as Pessoas Divinas e transbordante de afã apostólico. O Paráclito infunde em nós a caridade que nos permite alcançar um conhecimento de Deus que sem a caridade é impossível, pois o que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor[22]. Quem mais O ama melhor O conhece, já que esse amor —a caridade sobrenatural— é uma participação na infinita caridade que é o Espírito Santo[23], que tudo perscruta, até as profundezas de Deus. Pois quem sabe o que existe no homem, senão o espírito do homem que está nele? Assim também, as coisas de Deus ninguém as conheceu se não o próprio Espírito de Deus[24].

    Esse Amor, com maiúscula, instaura na vida da alma uma estreita familiaridade com as Pessoas Divinas, e um entendimento de Deus mais agudo, mais rápido, certeiro e espontâneo, em profunda sintonia com o Coração de Cristo[25]. Também no plano humano, os que se amam compreendem-se com mais facilidade e por isso São Josemaria recorre a essa experiência para transmitir de algum modo o que é a contemplação de Deus; por exemplo, dizia que em sua terra, às vezes, se dizia: olha como o contempla!; e explicava como esse modo de dizer se referia a uma mãe que tinha seu filho nos braços, a um noivo que contemplava sua noiva, à mulher que velava a cabeceira do marido. Pois bem, assim devemos contemplar ao Senhor.

    Mas toda a realidade humana, por mais formosa que seja, transforma-se em uma sombra da contemplação que Deus concede às almas fiéis. Se a caridade sobrenatural supera em altura, em qualidade e em força qualquer amor simplesmente humano, que dizer dos dons do Espírito Santo, que nos permitem deixar-nos conduzir docilmente por Ele? Com o crescimento destes dons – Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade e Temor Filial—, cresce a co-naturalidade ou a familiaridade com Deus e se revela todo o colorido da vida contemplativa.

    Em especial, pelo dom da Sabedoria – o primeiro e maior dos dons do Espírito Santo[26]—, é-nos concedido não só conhecer e assentir às verdades reveladas acerca de Deus e das criaturas, como é próprio da fé, mas também saborear essas verdades, conhecê-las com «um certo sabor de Deus»[27]. A Sabedoria – sapientia – é uma sapida scientia: uma ciência que se saboreia. Graças a este dom não só se crê no Amor de Deus, mas também se sabe de um modo novo[28]. É um saber ao qual só se chega com santidade: e há almas obscuras, ignoradas, profundamente humildes, sacrificadas, santas, com um sentido sobrenatural maravilhoso: Eu Te glorifico, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondestes  estas coisas aos sábios e aos prudentes, e as revelastes aos pequeninos[29]. Com o dom da Sabedoria, a vida contemplativa introduz-se nas profundezas de Deus[30]. Neste sentido, São Josemaria nos convida a meditar sobre um texto de São Paulo, no qual nos propõe todo um programa de vida contemplativa —conhecimento e amor, oração e vida— (…): que Cristo habite pela fé nos vossos corações; e que arraigados e cimentados na caridade, possais compreender com todos os santos qual é a largura e a grandeza, a altura e a profundidade do mistério; e conhecer também aquele amor de Cristo, que ultrapassa todo o conhecimento para que vós estejais repletos de toda a plenitude de Deus (Ef 3,17-19)[31].

    Temos de implorar ao Espírito Santo o dom de Sabedoria junto com os restantes dons, seu séquito inseparável. São os presentes do Amor divino, as joias que o Paráclito entrega aos que querem amar a Deus com todo o coração, com toda a alma, com todas as forças.

    PELO CAMINHO DA CONTEMPLAÇÃO

    Quanto maior for a caridade, mais intensa é a familiaridade com Deus, na qual surge a contemplação.Até a caridade mais fraca, como a de quem se limita a não pecar gravemente, mas que não busca cumprir em tudo a Vontade de Deus, estabelece uma certa conformidade com a Vontade divina. No entanto, um amor que não busca amar mais, que não tem o fervor da piedade, parece-se mais com a cortesia formal de um estranho do que com o afeto de um filho. Quem se conformasse com isso em sua relação com Deus não passaria de um conhecimento das verdades reveladas, insípido e passageiro, porque quem se contenta com ouvir a palavra, sem a pôr em prática, é semelhante a um homem que contempla a figura de seu rosto no espelho: olha-se, vai embora  e imediatamente se esquece de como era[32].

    Muito diferente é o caso de quem deseja sinceramente identificar em tudo sua vontade com a Vontade de Deus e, com a ajuda da graça, emprega os meios: a oração mental e vocal, a participação nos Sacramentos – a Confissão frequente e a Eucaristia -, o trabalho e o cumprimento fiel dos próprios deveres, a procura da presença de Deus ao longo do dia: o cuidado do plano de vida espiritual junto com uma intensa formação cristã.

    O ambiente atual da sociedade conduz muitos a viverem voltados para o exterior, com uma permanente ânsia de possuir isto ou aquilo, de ir daqui para ali, de olhar e ver, de mover-se, de distrair-se com futilidades, talvez com o objetivo de esquecer seu vazio interior, a perda do sentido transcendente da vida humana. Àqueles que, como nós, descobrimos o chamado divino à santidade e ao apostolado, deve suceder o contrário. Quanto mais atividade exterior, mais vida para dentro, mais recolhimento interior, procurando o diálogo com Deus presente na alma em graça e mortificando os afãs da concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida[33]. Para contemplar a Deus é preciso limpar o coração. Bem aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus[34].

    Peçamos à Nossa Mãe Santa Maria que nos obtenha do Espírito Santo o dom de sermos contemplativos no meio do mundo, dom que excedeu na sua vida santíssima.

    Texto de: J. López. Fonte: Opus Dei

    [1] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 238.
    [2] São Josemaria, Conversações, n. 114.
    [3] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 56.
    [4] Lc 18, 1.
    [5] Clemente de Alexandría, Stromata, 7, 7.
    [6] São Gregório Magno, In Ezechielem homiliae, 2, 5, 19.
    [7] João Paulo II, Discurso ao Congresso «A grandeza da vida ordinária», no centenário do nascimento de São Josemaria, 12-I-2002, n. 2.
    [8] Catecismo da Igreja Católica, n. 1028.
    [9] Cfr. Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, q. 12, a. 2, c; e II-II, q. 4, a.1; q. 180, a. 5, c.
    [10] 1 Cor 12, 12. Cfr. 2 Cor 5, 7; 1 Jn 3, 2.
    [11] Catecismo da Igreja Católica, n. 163.
    [12] São João da Cruz, Noite escura, liv. 2, cap. 18, n. 5.
    [13] Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 180, a. 1, c e a.3, ad 1.
    [14] São Josemaria, Caminho, n. 91.
    [15] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 307.
    [16] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 296.
    [17] Idem.
    [18] Cfr. Jo 14, 23.
    [19] Cfr. 1 Cor 3, 16; 2 Cor 6, 16.
    [20] Gal 4, 4-6.
    [21] Cfr. 1 Cor 12, 12-13, 27; Ef 2, 19-22; 4, 4.
    [22] 1 Jo 4, 9.
    [23] Cfr. Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 24, a. 7, c. In Epist. ad Rom., c. 5, lect. 1.
    [24] 1 Cor 2, 10-11.
    [25] Cfr. Mt 11, 27.
    [26] Cfr. João Paulo II, Alocução 9-04-1989.
    [27] Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae II-II, q. 45, a. 2, ad 1.
    [28] Cfr. Rm 8, 5.
    [29] Mt 11, 25.
    [30] 1 Cor 1, 10.
    [31] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 163.
    [32] St 1, 23-24.
    [33] 1 Jo 2, 16.
    [34] Mt 5, 8.


    A verdadeira liberdade

    May 31st, 2010
     

    Por Jacques Philippe

    A verdadeira liberdade, mais do que uma conquista do homem, é um dom gratuito de Deus, fruto do Espírito Santo: um dom que recebemos na medida em que nos colocamos numa posição de amorosa dependência perante o nosso Criador e Salvador. A nossa liberdade é de fato proporcional ao amor e à confiança que nos unem ao nosso Pai do Céu.

    PRISIONEIROS DAS NOSSAS PRÓPRIAS CIRCUNSTÂNCIAS

    É muito comum termos a impressão de que o que limita a nossa liberdade são as circunstâncias que nos envolvem: as restrições que a sociedade nos impõe, as obrigações de todo tipo que os outros fazem pesar sobre nós, aquela limitação psíquica ou de saúde que nos trava, etc.

    Nesse caso, para encontrarmos a nossa liberdade seria preciso eliminar essas restrições e limitações. Quando sentimo-nos um pouco “sufocados” por certas circunstâncias que nos aprisionam, passamos a ter raiva das pessoas ou instituições que parecem ter sido a causa delas. Quantos ressentimentos guardamos assim contra tudo o que nos contraria na vida e impede-nos de sermos livres como desejaríamos!

    DE LIMITE EM LIMITE

    Essa maneira de ver as coisas tem com certeza alguma parte de verdade: existem certas limitações que é preciso superar, barreiras que é preciso transpor para conseguir a liberdade. Mas há também uma parte grande de ilusão que é necessário desmascarar: mesmo que desaparecessem da nossa vida todas aquelas coisas que consideramos impedimentos à nossa liberdade, isso não nos daria nenhuma garantia de encontrar a plena liberdade à qual aspiramos.

    Quando derrubamos os limites, encontramos outros um pouco mais adiante. Quem insiste nessa problemática corre o risco de entrar num processo sem fim e numa insatisfação permanente. Sempre iremos nos deparar com contrariedades dolorosas. Podemos libertar-nos de um certo número delas, mas depois aparecem outras mais inflexíveis: as leis da física, os limites da condição humana e os da vida em sociedade, etc.

    “AMAR ATÉ MORRER DE AMOR”

    A verdadeira liberdade, a soberana liberdade do crente, consiste em sempre ter, sob quaisquer circunstâncias, a possibilidade de crer, de esperar e de amar. Disso ninguém poderá jamais o impedir: Nem a morte, nem a vida, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem criatura alguma poderá separar-nos do amor de Deus que se manifesta em Cristo Jesus, Nosso Senhor (Rom 8, 39).

    Nenhuma circunstância do mundo poderá jamais me proibir de crer em Deus, de pôr nEle toda a minha confiança, de amá-lo de todo o coração e de amar o meu próximo. A Fé, a Esperança e a Caridade são soberanamente livres: se estiverem suficientemente enraizadas em nós, serão capazes de alimentar-se até mesmo daquilo que se opõe a elas!

    Se pela perseguição quiserem impedir-me de amar, sempre tenho a possibilidade de perdoar os meus inimigos, transformando assim a situação de opressão num amor maior ainda. Se quiserem sufocar a minha fé tirando-me a vida, a minha morte tornar-se-á a mais bela confissão de fé que se pode conceber! O amor é capaz de vencer o mal com o bem, de tirar de um mal um bem.

    ACEITAR A REALIDADE

    O exercício da liberdade como escolha entre diferentes possibilidades é certamente importante. Contudo, é fundamental que se entenda – sob pena de expor-se a dolorosas desilusões – que há uma outra maneira de exercer a liberdade, menos grandiosa à primeira vista, mais pobre, mais humilde, mais corriqueira afinal, e que é de uma fecundidade humana e espiritual imensa: a liberdade não somente de escolher, mas de também aceitar aquilo que nós não tínhamos escolhido.

    Desejaria mostrar o quanto essa forma de exercitar a liberdade é importante. O ato mais alto e mais fecundo da liberdade humana reside mais no acolhimento do que na dominação. O homem manifesta a grandeza da sua liberdade quando transforma a realidade, mas manifesta-a ainda mais quando aceita, confiante, essa mesma realidade – tal e qual ela lhe é dada – dia após dia.

    É fácil e natural aceitar as situações que se apresentam na nossa vida com um aspecto agradável e prazenteiro, mesmo que nós não as tenhamos escolhido. O problema surge, evidentemente, em face do que nos desagrada, que nos contraria, que nos faz sofrer. Mas é precisamente nesses domínios em que somos freqüentemente chamados – para sermos verdadeiramente livres – a “escolher” aquilo que não tínhamos querido, e às vezes até mesmo aquilo que não aceitaríamos por preço nenhum. Eis uma lei paradoxal da vida: só poderemos ser verdadeiramente livres se aceitarmos não sê-lo sempre!

    O PEQUENO RESTO

    O homem livre – o cristão espiritualmente “maduro”, isto é, o que age verdadeiramente como um “filho pequeno” de Deus – é aquele que experimentou a radicalidade do seu próprio nada, a sua miséria absoluta, aquele que, por assim dizer, ficou “reduzido a nada”, mas que no meio desse nada descobre uma ternura inefável: o amor absolutamente incondicional de Deus. A partir desse instante não haverá para ele nenhum outro apoio, nenhuma outra esperança além desta: a misericórdia sem limites do Pai. Essa será a sua única e exclusiva segurança.

    Ele espera tudo dessa misericórdia e somente dela: não mais dos seus recursos pessoais nem da ajuda dos outros. Realizam-se nele as palavras que Deus dirigiu a Israel pela boca do profeta Sofonias: Deixarei subsistir no meio de ti um povo humilde e modesto, que porá sua confiança no nome do Senhor. Os que pertençam a esse resto de Israel se absterão do mal (…) serão apascentados e repousarão, sem haver quem os inquiete (Sof 3, 12-13). Ele esforça-se generosamente por fazer o bem e recebe com alegria e reconhecimento todas as coisas boas que lhe vêm do próximo, mas com uma grande liberdade, pois o seu apoio está em outro lugar: está somente em Deus.

    Ele não se inquieta, portanto, por causa das suas fraquezas, nem se irrita com os outros por eles nem sempre corresponderem ao que esperava deles. O seu apoio em Deus protege-o contra todas as decepções e confere-lhe uma grande liberdade interior, que o leva a dedicar-se por inteiro ao serviço de Deus e dos seus irmãos, os homens, com a alegria de quem está devolvendo amor por amor.

    O POBRE DAS BEM-AVENTURANÇAS

    O nosso mundo anda a busca da liberdade, mas procura-a na acumulação de posses e de poder. Esquece-se dessa verdade essencial: só é verdadeiramente livre quem não tem nada a perder, porque já se desprendeu de tudo, despojou-se de tudo, e por isso está livre em relação a todos (1 Cor 9, 19): dele pode-se dizer de verdade que deixou a morte “atrás de si”, pois todo o seu bem passou a estar somente em Deus.

    Os que nada cobiçam e os que nada temem são soberanamente livres. Quem nada cobiça, porque tudo o que é verdadeiramente importante já lhe está assegurado por Deus; quem nada teme, porque nada tem a perder: não precisa proteger coisa alguma nem se sente ameaçado por ninguém, mesmo pelos seus inimigos. Ele é o pobre das Bem-aventuranças: desprendido, humilde, misericordioso, manso, artífice da paz.

    A LIBERDADE INALIENÁVEL

    Na parte central do Evangelho estão as Bem-aventuranças. A primeira resume todas elas: Felizes os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus (Mt 5, 3). A pobreza de espírito, a dependência total de Deus e da sua Misericórdia, é a condição da liberdade interior. É ela que nos faz ser como as crianças, e tudo esperar do Pai.

    Não sabemos o que virá sobre o mundo nos próximos anos; quais serão os acontecimentos que marcarão o terceiro milênio. Mas uma coisa é certa: nunca serão pegos de surpresa aqueles que souberem descobrir e desenvolver o espaço inalienável de liberdade que Deus depositou nos seus corações ao fazer deles seus filhos.