Sunday, 20 of May of 2012

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A consciência e a vida correta

 

Por Joseph Ratzinger

Seguir a consciência significa realizar todos os nossos gostos? O conceito de autoridade exclui o conceito de liberdade? O então Cardeal Ratzinger fala sobre essas e outras questões nesse conjunto de reflexões tirado do posfácio do livro Joseph Ratzinger: uma biografia.

A unidade do homem tem um órgão: a consciência. Foi uma ousadia de São Paulo afirmar que todos os homens têm a capacidade de escutar a sua consciência, separando assim a questão da salvação da questão do conhecimento e da observância da Torah e situando-a no terreno da comum exigência da consciência em que o Deus único fala e diz a cada um o que é verdadeiramente essencial na Torah: Quando os gentios, que não têm lei, cumprem naturalmente as prescrições da lei, sem ter lei são lei para si mesmos, demonstrando que têm a realidade dessa lei escrita no seu coração, segundo o testemunho da sua consciência… (Rom 2, 14 e segs.). Paulo não diz: “Se os gentios se mantiverem firmes na sua religião, isso é bom diante do juízo de Deus”. Pelo contrário, ele condena grande parte das práticas religiosas daquele tempo. Remete para outra fonte, para aquela que todos trazem escrita no coração, ao único bem do único Deus.

Seja como for, aqui se enfrentam hoje dois conceitos contrários de consciência, que na maioria das vezes simplesmente se intrometem um no outro. Para Paulo, a consciência é o órgão da transparência do único Deus em todos os homens, que são um homem. Em contrapartida, atualmente a consciência aparece como expressão do caráter absoluto do sujeito, acima do qual não pode haver, no campo moral, nenhuma instância superior. O bem como tal não seria cognoscível. O Deus único não seria cognoscível. No que diz respeito à moral e à religião, a última instância seria o sujeito.

Isto seria lógico, se a verdade como tal fosse inacessível. Assim, o conceito moderno da consciência equivale à canonização do relativismo, da impossibilidade de haver normas morais e religiosas comuns, ao passo que, pelo contrário, para Paulo e para a tradição cristã, a consciência sempre foi a garantia da unidade do ser humano e da cognoscibilidade de Deus, e assim da obrigatoriedade comum de um mesmo e único bem. O fato de que em todos os tempos houve e há santos pagãos baseia-se em que em todos os lugares e em todos os tempos – embora muitas vezes com grande esforço e apenas parcialmente – a voz do coração era perceptível; a Torah de Deus se nos fazia perceptível como obrigação dentro de nós mesmos, no nosso ser criatural, e assim tornava possível que superássemos a mera subjetividade na relação de uns com os outros e na relação com Deus. E isto é a salvação (1).

CONSCIÊNCIA E VERDADE

A vida e a obra do Cardeal Newman poderia ser realmente definida como um extraordinário e extenso comentário ao problema da consciência <…>. Quem não se recorda <…> da famosa frase acerca da consciência na carta que dirigiu ao duque de Norfolk? Diz assim: “Se tivesse de brindar pela religião, o que é altamente improvável, fá-lo-ia pelo Papa. Mas em primeiro lugar pela consciência. Só depois o faria pelo Papa” (2). Newman queria que a sua resposta fosse uma adesão clara ao Papado em face da contestação de Gladstone, mas também queria que fosse, em face das formas errôneas do “ultramontanismo”, uma interpretação do Papado que só pode ser concebido adequadamente quando visto de forma conjunta com o primado da consciência, não como oposto a ela, mas como algo que a funda e lhe dá garantia. É difícil para o homem moderno, que pensa sempre na subjetividade como oposta à autoridade, entender esse problema. Para ele, a consciência está do lado da subjetividade e é expressão da liberdade do sujeito, enquanto a autoridade aparece como sua limitação e, inclusive, como sua ameaça e negação. É preciso aprofundar mais em tudo isso para entender de novo a perspectiva em que tal oposição não é válida.

O conceito central de que Newman se serve para unir autoridade e subjetividade é a verdade. Não tenho reparos em dizer que a verdade é a idéia central da sua luta espiritual. A consciência ocupa para ele um lugar central porque a verdade está no centro. Dito de outra maneira: em Newman, a importância do conceito de consciência está unida à excelência do conceito de verdade e deve ser entendida exclusivamente a partir dele. A presença constante da idéia de consciência não significa a defesa, no século XIX e em contraposição à neo-escolástica “objetivista”, de uma filosofia ou uma teologia da subjetividade. O sujeito merece, a seu ver, uma atenção como não havia despertado talvez desde Santo Agostinho. Mas é uma atenção na linha de Santo Agostinho, não na da filosofia subjetivista da modernidade. Ao ser elevado ao cardinalato, Newman confessou que toda a sua vida tinha sido uma luta contra o liberalismo. Poderíamos acrescentar: e também contra o subjetivismo cristão tal como o encontrou no movimento evangélico do seu tempo, e que constituiu o primeiro degrau de um caminho de conversão que duraria toda a sua vida.

A consciência não significa para Newman a norma do sujeito frente às demandas da autoridade num mundo sem verdade, que vive entre as exigências do sujeito e da ordem social, mas, antes, a presencia clara e imperiosa da voz da verdade no sujeito. A consciência é a anulação da mera subjetividade no ponto em que se tangenciam a intimidade do homem e a verdade de Deus. São significativos os versos que escreveu na Sicília em 1833: “Eu amava o meu próprio caminho. Agora Te peço, ilumina-me para Te seguir” (3). A conversão ao catolicismo não foi para ele uma questão de gosto pessoal ou de uma necessidade anímica subjetiva. Já em 1844, no umbral de sua conversão, falava sobre isso com estas palavras: “Ninguém pode ter uma opinião mais desfavorável que eu da situação atual dos católicos” (4). Mas a Newman importava mais obedecer à verdade, inclusive contra o seu próprio sentir, que seguir o seu gosto, os vínculos de amizade e os caminhos trilhados.

Parece-me muito significativo que ele tenha sublinhado a prioridade da verdade sobre o bem na série das virtudes, ou, expresso de forma mais compreensível para nós, a sua primazia em face do consenso e dos pactos de grupo. Eu diria que essas atitudes são comuns quando falamos de um homem de consciência. Homem de consciência é aquele que não compra tolerância, bem-estar, êxito, reputação e aprovação públicas renunciando à verdade. Nisso Newman coincide com outra grande testemunha britânica da consciência, com Thomas More, para quem a consciência nunca foi expressão da sua vontade de obstinação nem de heroísmo caprichoso. Thomas More contava-se a si mesmo entre os mártires temerosos que só depois de muitos atrasos e inumeráveis questionamentos conseguiu levar a alma a obedecer à consciência: a obediência à verdade, que deve estar acima das instâncias sociais e dos gostos pessoais. Aparecem então dois critérios para distinguir a presença de uma verdadeira voz da consciência: que não coincida com os desejos e gostos próprios nem com o que é mais benéfico para a sociedade, o consenso do grupo ou as exigências do poder político ou social.

Chegados a este ponto, parece natural lançar um olhar aos problemas da nossa época. O indivíduo não deve trair a verdade reconhecida para comprar o progresso e o bem-estar. A humanidade não o permite. Com isto, tocamos o ponto verdadeiramente crítico da modernidade: o conceito de verdade foi praticamente abandonado e substituído pelo de progresso. O progresso “é” a verdade. Mas com essa aparente elevação desmente-se e anula a si próprio, pois quando não há direção, o mesmo movimento pode ser tanto progressivo como retrógrado. É assim que a teoria da relatividade formulada por Einstein vê o cosmos físico. Mas penso que também descreve com acerto a situação do cosmos espiritual do nosso tempo. A teoria da relatividade estabelece que não há nenhum sistema de referência fixo; cabe a nós considerar um ponto qualquer como referência e a partir dele tentar medir a totalidade, pois apenas assim poderemos obter resultados; da mesma maneira que escolhemos um, poderíamos ter escolhido qualquer outro.

O que se diz a respeito do cosmos físico reflete também o segundo giro “copernicano” que se deu na nossa relação fundamental com a realidade: a verdade, o absoluto, o ponto de referência do pensamento deixou de ser evidente. Por isso, já não há – tampouco do ponto de vista espiritual – nem norte nem sul. Não há direção num mundo sem pontos de medida fixos. O que consideramos direção não assenta numa medida verdadeira, mas numa decisão nossa e, em última análise, no ponto de vista da utilidade. Num tal contexto “relativista”, a ética teleológica ou conseqüencialista converte-se numa ética niilista, mesmo quando não se percebe. O que numa cosmovisão como essa se chama “consciência” é, considerada em profundidade, um modo de dissimular que não há autêntica consciência, isto é, unidade de conhecimento e verdade. Cada um cria os seus próprios critérios, e, na situação de relatividade geral, ninguém pode ajudar os outros, e menos ainda dar-lhes instruções.

Agora se percebe a enorme radicalidade do debate ético atual, cujo centro é a consciência. Penso que o paralelismo mais aproximado na história das idéias é a controvérsia entre Sócrates e Platão, por um lado, e os sofistas, por outro, na qual se põe à prova a resolução originária de duas atitudes fundamentais: a confiança na capacidade humana de verdade e uma visão do mundo na qual o homem cria os seus próprios critério.

O motivo pelo qual Sócrates, um pagão, se converteu em certo sentido num profeta de Jesus Cristo é, a meu ver, essa questão primordial: a sua disposição de acolher a verdade foi o que permitiu ao modo de fazer filosofia inspirado na sua figura o privilégio de ser de algum modo um elemento da História Sagrada, e o que fez dele um recipiente idôneo do Logos cristão, cuja finalidade é a libertação pela verdade e para a verdade. Se separarmos a luta de Sócrates das contingências históricas do momento, perceberemos rapidamente com que intensidade intervém – com outros argumentos e nomes – nos assuntos da polêmica do presente. <…> em muitos lugares já não se pergunta o quê um homem qualquer pensa. Basta-nos dispor de uma idéia sobre o seu modo de pensar para incluí-lo na categoria formal conveniente: conservador, reacionário, fundamentalista, progressista ou revolucionário. A inclusão num esquema formal torna desnecessária qualquer explicação do seu pensamento. Algo parecido, mas reforçado, se observa na arte. O que expressa é indiferente: pode glorificar Deus ou o diabo. O único critério é que seja formalmente conhecido.

Com isto, chegamos ao verdadeiro núcleo do nosso assunto. Quando os conteúdos não contam e a pura fraseologia assume o comando, o poder converte-se em critério supremo, isto é, transforma-se em categoria – revolucionária ou reacionária – dona de tudo. Esta é a forma perversa de semelhança com Deus de que fala o relato do pecado original. O caminho do mero poder e da pura força é a imitação de um ídolo, não a realização da imagem de Deus. O traço essencial do homem enquanto homem não é perguntar pelo poder, mas pelo dever, e abrir-se à voz da verdade e suas exigências. Esta é, a meu ver, a trama definitiva da luta de Sócrates. Também é o argumento mais profundo do testemunho dos mártires: os mártires manifestam a capacidade de verdade do homem como limite de qualquer poder e como garantia da sua semelhança com Deus. É assim que os mártires se constituem nas grandes testemunhas da consciência, da capacidade outorgada ao homem para perceber o dever acima do poder e começar o progresso verdadeiro e a ascensão efetiva (5).

A CONSCIÊNCIA “INFALÍVEL”

A consciência é apresentada como o baluarte da liberdade em face das constrições da existência causadas pela autoridade. <…> Desse modo, a moral da consciência e a moral da autoridade parecem enfrentar-se como duas morais contrapostas em luta recíproca. A liberdade do cristão ficaria a salvo graças ao postulado original da tradição moral: a consciência é a norma suprema que o homem deve seguir sempre, mesmo quando vai contra a autoridade. Quando a autoridade, nesse caso o Magistério da Igreja, falasse sobre problemas de moral, estaria submetendo um material à consciência, que reservaria sempre para si mesma a última palavra <…>. Essa concepção da consciência como última instância é recolhida por alguns autores na fórmula “a consciência é infalível”. <…>

Por um lado, é inquestionável que devemos sempre seguir o veredito evidente da consciência, ou pelo menos não o infringir com as nossas ações. Mas é muito diferente sustentar a convicção de que o ditame da consciência, ou o que consideramos como tal, sempre estaria certo, sempre seria infalível. Semelhante afirmação significaria o mesmo que dizer que não há verdade alguma, ao menos em matéria de moral e religião, isto é, justamente no âmbito que é o fundamento constitutivo da nossa existência. Como os juízos da consciência se contradizem uns aos outros, só haveria uma “verdade do sujeito” <…>.

A pergunta pela consciência nos transporta, na prática, para o domínio essencial do problema moral e a interrogação acerca da existência do homem. Não gostaria de pôr esses problemas em forma de considerações estritamente conceituais e, por conseguinte, completamente abstratas, mas preferiria avançar de modo narrativo.

Primeiramente, contarei a história da minha relação pessoal com esse problema. Ele pôs-se pela primeira vez com toda a sua urgência no começo da minha atividade acadêmica. Um meu colega mais velho <…>, expressou durante uma disputa a opinião de que devíamos dar graças a Deus por conceder a muitos homens a possibilidade de fazer-se não-crentes seguindo a sua consciência; se lhes abríssemos os olhos e eles se fizessem crentes, não seriam capazes de suportar neste nosso mundo o peso da fé e das suas obrigações morais. Mas, como todos seguiram de boa-fé um caminho diferente, poderiam alcançar a salvação.

O que mais me chocava nessa afirmação não era a idéia de uma consciência equivocada concedida pelo próprio Deus para poder salvar os homens mediante esse estratagema, isto é, a idéia de uma ofuscação enviada por Deus para a salvação de alguns. O que me perturbava era a idéia de que a fé fosse uma carga insuportável que só naturezas fortes poderiam suportar, quase um castigo ou, em todo o caso, uma exigência difícil de cumprir. A fé não facilitaria a salvação, antes a dificultaria. Livre seria aquele que não carregasse com a necessidade de crer e de dobrar-se ao jugo da moral que decorre da fé da Igreja Católica. A consciência errônea, que permitiria uma vida mais leve e mostraria um caminho mais humano, seria a verdadeira graça, o caminho normal da salvação. A falsidade e o afastamento da verdade seriam melhores para o homem do que a verdade. O homem não seria libertado pela verdade, mas deveria ser libertado dela. A morada do homem seria mais a obscuridade do que a luz, e a fé não seria um dom benéfico do bom Deus, mas uma fatalidade.

Porém, se as coisas fossem assim, como poderia surgir a alegria da fé? Como poderia surgir a coragem de transmiti-la aos demais? Não seria melhor deixá-los em paz e mantê-los distantes dela? Foram idéias como essa que paralisaram, com cada vez mais força, a tarefa evangelizadora. Quem encara a fé como uma carga pesada ou como uma exigência moral excessiva não pode convidar outras pessoas a abraçá-la. Prefere deixá-los na suposta liberdade da sua boa consciência.

<…> O que inicialmente me estarreceu no argumento mencionado era, sobretudo, a caricatura de fé que me pareceu haver nele. Mas, numa segunda consideração, pareceu-me igualmente falso o conceito de consciência que pressupunha. A consciência errônea protege o homem das exigências da verdade e o salva: assim soava o argumento. A consciência não aparecia nele como uma janela que abre para o homem o panorama da verdade comum que sustenta a cada um e a todos, tornando possível que sejamos uma comunidade de vontade e de responsabilidade apoiada na comunidade do conhecimento. Nesse argumento, a consciência também não é a abertura do homem ao fundamento que o sustenta nem a força que lhe permite perceber o supremo e essencial. Trata-se antes de uma espécie de invólucro protetor da subjetividade <…> que não dá acesso à estrada salvadora da verdade, que ou não existe ou é exigente demais; e converte-se assim em justificação da subjetividade, que não se quer ver questionada, e do conformismo social, que deve possibilitar a convivência como valor médio entre as diversas subjetividades. Desaparecem assim o dever de buscar a verdade e as dúvidas quanto às atitudes e costumes dominantes: bastariam o conhecimento adquirido individualmente e a adaptação aos outros. O homem é reduzido às convicções mais superficiais, e quanto menor a sua profundidade, melhor para ele. <…>.

Pouco depois, numa disputa entre um grupo de colegas sobre a força justificadora da consciência errônea, alguém objetou contra essa tese que, se fosse universalmente válida, estariam justificados – e deveríamos procurá-los no céu – os membros das SS que cometeram os seus crimes com um conhecimento fanatizado e plena segurança de consciência. <…> Não haveria a menor dúvida de que Hitler e os seus cúmplices, que estavam profundamente convencidos do que faziam, não podiam ter agido de outra forma. Apesar do horror objetivo das suas ações, teriam agido moralmente do ponto de vista subjetivo. Como seguiam a sua consciência, embora esta os tivesse guiado erroneamente, deveríamos reconhecer que as suas ações eram morais para eles; não poderíamos duvidar, em suma, da salvação eterna das suas almas.

A partir dessa conversa, sei com segurança absoluta que há algum erro na teoria sobre a força justificadora da consciência subjetiva; em outras palavras, que um conceito de consciência que conduz a semelhantes resultados é falso. A firme convicção subjetiva e a segurança e falta de escrúpulos que dela derivam não tiram a culpa do homem. Quase trinta anos depois, lendo o psicólogo Albert Görres, descobri resumida em poucas palavras a idéia que então tentava penosamente reduzir a conceitos e cujo desenvolvimento forma o núcleo das nossas reflexões. Görres indica que o sentimento de culpabilidade, a capacidade de sentir culpa, pertence de forma essencial ao patrimônio anímico do homem. O sentimento de culpa, que rompe a falsa tranqüilidade da consciência <…>, é um sinal tão necessário para o homem como a dor corporal, que permite conhecer a alteração das funções vitais normais. Quem não é capaz de sentir culpa está espiritualmente doente, é um “cadáver vivente, uma máscara do caráter”, como diz Görres (6). “Os animais e os monstros, entre outros, não têm sentimento de culpa. Talvez Hitler, Himmler ou Stalin também não o tenham tido. Com certeza, os chefões da máfia também carecem dele. Mas, na verdade, é bem possível que os seus cadáveres estejam ocultos no sótão, junto com os sentimentos de culpa rejeitados… Todos os homens necessitam de um sentimento de culpa” (7).

Além do mais, uma rápida olhada na Sagrada Escritura poderia ter evitado esses diagnósticos e as teorias da justificação pela consciência errônea. No Salmo 19, 13 encontramos uma proposição eternamente digna de reflexão: “Quem será capaz de reconhecer os seus deslizes? / Limpa-me <, Senhor,> dos que me são ocultos”. Isso não é um “objetivismo veterotestamentário”, mas profunda sabedoria humana: negar-se a ver a culpa ou fazer emudecer a consciência em tantos assuntos é uma doença da alma mais perigosa que a culpa reconhecida como culpa. Aquele que é incapaz de perceber que matar é pecado cai mais baixo do que aquele que reconhece a ignomínia da sua ação, pois está muito mais distante da verdade e da conversão. Não é em vão que, diante de Jesus, o orgulhoso aparece como alguém verdadeiramente perdido. O fato de o publicano, com todos os seus pecados indiscutíveis, parecer mais justo diante de Deus que o fariseu, com todas as suas obras verdadeiramente boas (Lc 18, 9-14), não significa que os pecados do publicano não sejam pecados nem que não sejam boas as obras boas. <…> O fundamento desse juízo paradoxal de Deus revela-se precisamente a partir do nosso problema: o fariseu não sabe que também tem pecados. Está inteiramente quite com a sua consciência. Mas o silêncio da consciência torna-o impermeável a Deus e aos homens, ao passo que o grito da consciência que aflora no publicano torna-o capaz da verdade e amor. Jesus pode atuar nos pecadores porque eles não se fazem inacessíveis às mudanças que Deus espera deles – de nós – escondendo-se atrás do biombo da sua consciência errônea. Mas não pode atuar nos “justos”, que não sentem necessidade nem de perdão nem de conversão; a sua consciência, que os exculpa, não acolhe nem o perdão nem a conversão.

Voltamos a encontrar a mesma idéia, ainda que exposta de outro modo, em Paulo, que nos diz que os gentios, quando guiados pela razão natural, sem Lei, cumprem os preceitos da Lei (Rom 2, 1-16). Toda a teoria da salvação pela ignorância fracassa diante desses versículos: no homem, existe a presença inegável da verdade, da verdade do Criador, que se oferece também por escrito na revelação da História Sagrada. O homem pode ver a verdade de Deus no fundo do seu ser criatural. É culpado se não a vê. Só se deixa de vê-la quando não se quer vê-la, ou seja, porque não se quer vê-la. Essa vontade negativa que impede o conhecimento é culpa. Que o farol não brilhe é conseqüência de um afastamento voluntário do olhar daquilo que não queremos ver.

A estas alturas das nossas reflexões, é possível tirar as primeiras conseqüências para responder à pergunta sobre o que é a consciência. Agora já podemos dizer: não é possível identificar a consciência humana com a autoconsciência do eu, com a certeza subjetiva de si e do seu comportamento moral. Essa consciência pode ser às vezes um mero reflexo do meio social e das opiniões nele difundidas. Outras vezes, pode estar relacionada com uma pobreza autocrítica, com não ouvir suficientemente a profundidade da alma. O que se deu no Leste Europeu após a derrocada dos sistemas marxistas confirma este diagnóstico. Os espíritos mais claros e despertos dos povos libertados falam de um imenso abandono moral, produzido por muitos anos de degradação espiritual, e de um embotamento do sentido moral, cuja perda e os perigos que acarreta pesariam ainda mais que os danos econômicos que produziu. O novo patriarca de Moscou pôs energicamente em evidência esse aspecto, no começo da sua atividade, no verão de 1990: as faculdades perceptivas dos homens que vivem num sistema de engano turvam-se inevitavelmente. A sociedade perde a capacidade de misericórdia e os sentimentos humanos desaparecem. <…> “Temos de conduzir de novo a humanidade aos valores morais eternos”, isto é, desenvolver de novo o ouvido quase extinto para escutar o conselho de Deus no coração do homem. O erro, a consciência errônea, só são cômodos num primeiro momento. Depois, o emudecimento da consciência converte-se em desumanização do mundo e em perigo mortal, se não reagimos contra eles.

Em outras palavras: a identificação da consciência com o conhecimento superficial e a redução do homem à subjetividade não libertam, mas escravizam. Fazem-nos completamente dependentes das opiniões dominantes e reduzem dia após dia o nível dessas mesmas opiniões dominantes. Aquele que iguala a consciência à convicção superficial identifica-a com uma segurança aparentemente racional, tecida de fatuidade, conformismo e negligência. A consciência degrada-se à condição de mecanismo exculpatório, em vez de representar a transparência do sujeito para refletir o divino, e, como conseqüência, degrada-se também a dignidade e a grandeza do homem. A redução da consciência à segurança subjetiva significa a supressão da verdade. Quando o salmista, antecipando a visão de Isaías sobre o pecado e a justiça, pede para libertar-se dos pecados que se nos ocultam, chama a atenção para o seguinte fato: deve-se, sem dúvida, seguir a consciência errônea, mas a supressão da verdade que a precede, e que agora se vinga, é a verdadeira culpa, que adormece o homem numa falsa segurança e por fim o deixa só num deserto inóspito (8).

FORMAR A CONSCIÊNCIA

Certamente a fé cristã vai além daquilo que a pura razão é capaz de reconhecer, mas faz parte das suas convicções fundamentais que Cristo é o Logos, quer dizer, a razão criadora de Deus da qual procede o mundo e que se reflete na nossa racionalidade. O apóstolo Paulo, que falou com tanta ênfase da novidade e da unicidade do cristianismo, destacou ao mesmo tempo que o preceito moral registrado na Sagrada Escritura coincide com aquele que “está inscrito nos nossos corações, segundo o testemunho da nossa consciência” (Rom 2, 15). É verdade que, com freqüência, esta voz do nosso coração, a consciência, é sufocada pelos ruídos secundários da nossa vida. A consciência pode, por assim dizer, tornar-se cega. Precisamos assistir às “aulas de recuperação” da fé, que volta a despertá-la, e assim torna novamente perceptível a voz do Criador em nós, suas criaturas (9).

O RESPEITO HUMANO, TRAIÇÃO DA PRÓPRIA CONSCIÊNCIA

O Juiz do mundo, que um dia voltará para nos julgar a todos nós, está ali, aniquilado, insultado e inerme diante do juiz terreno. Pilatos não é um monstro de maldade. Sabe que esse condenado é inocente, e procura um modo de libertá-lo. Mas o seu coração está dividido. E, por fim, faz prevalecer a sua posição, a si mesmo, acima do direito. Também os homens que gritam e pedem a morte de Jesus não são monstros de maldade. Muitos deles, no dia de Pentecostes, sentir-se-ão emocionados até ao fundo do coração (At 2, 37) quando Pedro lhes disser: a Jesus do Nazaré, homem acreditado por Deus junto de vós, <…>, vós o matastes, cravando-o na cruz pela mão de gente perversa (At 2, 22-23). Naquele momento, porém, sofrem a influência da multidão. Gritam porque os outros gritam e tal como os outros gritam. E assim a justiça é espezinhada pela covardia, pela pusilanimidade, pelo medo do diktat da mentalidade predominante. A voz sutil da consciência fica sufocada pelos gritos da multidão. A indecisão, o respeito humano dão força ao mal (10).

FALSAS PROMESSAS

Cristo diz: Guardai-vos dos falsos profetas que vêm a vós sob disfarce de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. Pelos seus frutos os conhecereis. Parece uma advertência contra as seitas e heresias.

É uma interpretação possível. Mas também é uma advertência contra qualquer regra fácil. Jesus nos previne contra os “curandeiros do espírito”. Diz que a nossa norma deve ser perguntarmo-nos: “Como vive essa pessoa? Quem é na realidade? Que frutos produzem ele e o seu círculo? Analise isso e verá a que conduz”.

Essa norma prática, ditada por Cristo à vista do momento em que viveu, projeta-se sobre a História. Pensemos nos pregadores da salvação do século passado, quer se trate de Hitler ou dos pregadores marxistas; todos vieram e disseram: “Trazemos a justiça para vós”. No princípio, pareciam mansas ovelhas, mas acabaram sendo grandes destruidores. Mas também diz respeito aos numerosos pequenos pregadores que nos dizem: “Eu tenho a chave, age assim e em pouco tempo conseguirás a felicidade, a riqueza, o êxito”.

William Shakespeare, evidentemente um católico, viveu com intensidade a roda da existência. Como bom pedagogo, no fim ofereceu uma recomendação, algo assim como a essência do seu conhecimento mundano: “Compra tempo divino, vende horas do triste tempo terrenal”. São palavras sábias, como as que se esperam de um grande homem. O tempo mais bem aproveitado é o que se transforma em algo duradouro: é o tempo que recebemos de Deus e a Ele devolvemos. O tempo que é pura transição desmorona e se transforma em mera caducidade (11).

A REGRA DE OURO

O Sermão da Montanha não corresponde necessariamente às idéias tradicionais. Opõe-se até às nossas definições de sorte, grandeza, poder, êxito ou justiça. E, no seu final, oferece ao seu público um resumo, quase que uma lei das leis, a “regra de ouro” da vida. Diz assim: “Portanto, tudo o que quiserdes que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles; porque esta é a Lei e os Profetas”.

A regra de ouro já existia antes de Cristo, embora formulada de maneira negativa: “Não faças a ninguém o que não queres que te façam”. Jesus a supera com uma formulação positiva que, como é lógico, é muito mais exigente.

Na minha opinião, o que é grandioso é que já não se volta a comparar quem fez o que, quando, como, a quem; que a pessoa já não se perde em diferenciações, mas compreende a missão essencial que nos foi confiada: abrir bem os olhos, abrir o coração e encontrar as possibilidades criativas do bem. Já não se trata de perguntar que é o que eu quero, mas de trasladar para os outros o meu desejo. E esta entrega autêntica, com toda a sua fantasia criativa, com todas as possibilidades que abre diante de nós, está recolhida numa regra muito prática, para que não fique reduzida a um sonho idealista qualquer (12).

VIVER AS VIRTUDES

Creio que todo o mundo gostaria de saber como levar uma vida correta, <…>, como levá-la ao cume sentindo-se à vontade consigo mesmo. Antes de morrer, o grande ator Cary Grant deixou à sua filha Jennifer uma carta de despedida comovente. Quis dar-lhe nela algumas recomendações adicionais para o caminho. “Queridíssima Jennifer”, escreveu, “viva a sua vida plenamente, sem egoísmo. Seja comedida, respeite o esforço dos outros. Esforce-se para conseguir o melhor e o bom gosto. Mantenha puro o juízo e limpa a conduta”. E prosseguia: “Dê graças a Deus pelos rostos das pessoas boas e pelo doce amor que há por trás dos seus olhos… Pelas flores que ondulam ao vento… Um breve sono e despertarei para a eternidade. Se não despertar como nós o entendemos, então continuarei a viver em você, filha queridíssima”.

De certa forma, soa a católico. Seja como for, é uma carta belíssima. Se era católico ou não, não sei, mas certamente é a expressão de uma pessoa que se tornou sábia e compreendeu o significado do bem, e tenta transmiti-lo, além disso, com uma assombrosa amabilidade (13).

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NOTAS:
(1) Fe, verdad y cultura. Reflexiones a propósito de la encíclica Fides et ratio, Primeiro Congresso Internacional da Faculdade San Dámaso de Teologia, Madrid, 16.02.00.
(2) Letter to Norfolk, pág. 261.
(3) Do conhecido poema Lead, kindly light.
(4) Correspondence of J. H. Newman with J. Keble and Others, págs. 351 e 364.
(5) Verdad, valores, poder, págs. 56-64.
(6) A. Görres, “Schuld und Schuldgefühle”, em Internationale katolische Zeitschrift “Communio”, 13 (1948), pág. 434.
(7) Ibid., pág. 142.
(8) “Se quiseres a paz, respeita a consciência de cada um (Consciência e verdade)”, em Wahrheit, Werte, Macht. Prüfsteine der pluralistischen Gesellschaft, Herder, Friburgo, 1993; trad. esp. Verdad, valores, poder. Piedras de toque de la sociedad pluralista, Rialp, Madrid, 2000, págs. 40-55.
(9) Entrevista a Jaime Antúnez Aldunate.
(10) Via-sacra no Coliseu, Primeira estação: meditação, Departamento para as Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice, Roma, 14.04.05.
(11) La fe, de tejas abajo.
(12) La fe, de tejas abajo.
(13) La fe, de tejas abajo.

Fonte: Quadrante


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Cinco perguntas que nenhum protestante consegue responder (mas qualquer católico consegue)

Por Carlos Ramalhete

1 – Por favor, diga-me uma razão para aceitar a Bíblia que um muçulmano não poderia usar para considerar o Corão inspirado por Deus?

Nós, católicos, aceitamos a Bíblia como Palavra de Deus porque a Igreja que Cristo fundou e confiou a Pedro (Mateus XVI, 18), e que é a Coluna e Firmamento da Verdade (I Timóteo III, 15), diz que a Bíblia é a Palavra de Deus. Como dizia Santo Agostinho, “creio nos Evangelhos porque a Santa Madre Igreja me diz para crer neles”.

2 – Por favor, diga-me porquê você aceita apenas uma parte da Bíblia (afinal, a lista de livros que compõem o Novo e o Antigo Testamento foi determinada ao mesmo tempo – aliás, junto com o título de Mãe de Deus para Nossa Senhora – e você aceita apenas parte do Antigo Testamento), e com que autoridade o faz.

Nós, católicos, aceitamos a Bíblia em sua íntegra porque a lista de livros que a compõem foi definida em 397 d.C., sob a autoridade do Sucessor de Pedro, o Papa São Damaso I.

3 – Por favor, diga-me porque a Bíblia teria precisado de quase 1.600 anos para ser entendida corretamente, se ela é teoricamente algo que qualquer um pode entender.

Nós, católicos, sabemos que a Bíblia não é algo que qualquer um pode ler e entender sem ajuda (II Pedro III, 16; Atos VIII, 31), e sabemos que Cristo confiou a São Pedro, o primeiro Papa, a tarefa de tomar conta de Seu rebanho, a Igreja (João XXI, 15-17). Nós seguimos o que os sucessores de Pedro nos transmitiram.

4 – Por favor, explique como alguém pode saber se entendeu a Bíblia corretamente, se só pode confiar na Bíblia e em mais nada; afinal, existem mais de 30.000 seitas protestantes no mundo, cada uma entendendo a Bíblia de maneira diferente e todas achando que estão certas.

Nós, católicos, sabemos que é a Igreja que Cristo fundou e confiou a São Pedro (Mateus XVI, 18), e que é a Coluna e Firmamento da Verdade (I Timóteo III, 15), quem tem a missão de ensinar (Mateus XXVIII, 19), e que as Escrituras não devem sofrer interpretação particular (II Pedro II, 20), pois quem o faz comete erros que o conduzem à perdição (II Pedro III, 16). Assim, sabemos que a explicação feita pela Igreja está certa, e está errada qualquer interpretação diferente desta.

5 – Por favor, prove usando apenas a Bíblia que ela é o que você considera que ela seja (isto é, a única fonte da Verdade Revelada, composta pelos livros que você aceita, todos eles e só eles). Claro que todo mundo sabe que a Bíblia é Palavra de Deus, boa para o ensino, etc. e tal, mas, por favor, tente provar que ela é a única fonte de Palavra de Deus, composta pelos livros que você aceita, todos eles e só eles.

Ao contrário dos protestantes, que acreditam na heresiachamada Sola Scriptura, segundo a qual apenas a Bíblia é a Palavra de Deus, os católicos sabem que além da Bíblia, que não tem toda a Palavra de Deus e não está completa (João XX, 30-31; XXI, 25; II Tessalonicenses II, 14), há ainda a Santa Tradição que deve ser segujida ( I Coríntios XI, 2; Gálatas I, 14; II Tessalonicenses II, 15; III, 6; I Timóteo VI, 20; II Timóteo I, 13; II, 2; etc.). O próprio São Paulo, em Atos XX, 35, cita palavras de Cristo que não estão em nenhum dos Evangelhos, dizendo aos bispos de Éfeso que eles devem lembrar-se delas. Sabemos ainda que os livros que compõem a Sagrada Escritura são os que a Igreja determinou em 397 d.C., mais de mil anos antes dos primeiros protestantes arrancarem sete livros de suas bíblias em 1517 d.C..

Fonte: Apologética Católica


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RELATIVISMO: QUE É?

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, Osb.,

Nº 531, Ano 2006, Página 394.

RELATIVISMO: QUE É?

Em síntese: O relativismo é uma corrente que nega toda verdade absoluta e perene assim como toda ética absoluta, ficando a critério de cada indivíduo definir a sua verdade e o seu bem. Opõe-se-lhe o fundamentalismo, que afirma peremptoriamente a existência de algumas verdades e algumas normas fundamentais… O indivíduo se torna o padrão ou a medida de todas as coisas. Tal atitude está baseada em fatores diversos, entre os quais o historicismo: com efeito a história mostra que tudo evolui e se tornam obsoletas coisas que em tempos passados eram plenamente válidas. A Igreja rejeita o relativismo, mas também não aceita o fundamentalismo: ao lado de verdades e normas perenes, existem outras, de caráter contingente e mutável. Ao cristão toca o dever de testemunhar ao mundo de hoje que a profissão d fé e a Moral católicas nada têm de obscurantista e de recusa dos autênticos valores da civilização contemporânea.

No fim do século passado manifestou-se com certa pujança o fenômeno do relativismo. Segundo esta corrente, o intelecto humano não pode alcançar a verdade como tal, mas apenas aspectos enquadrados dentro do subjetivismo de quem os professa. Essa relativização da Verdade e da Ética tem conseqüências de vasto alcance na vida moderna, de modo que lhe dedicaremos as páginas subseqüentes. Trataremos de apresentar as notas típicas do relativismo, suas causas e a atitude que cabe ao cristão assumir diante do problema.

1. Relativismo: em que consiste?

O relativismo é a recusa de qualquer proposição filosófica ou ética de valor universal e absoluto. Tudo o que se diga ou faça é relativo ao lugar, à época e demais circunstâncias nas quais o homem se encontra. No setor da filosofia não se poderia falar da verdade ou erro-falsidade, como na área da Moral não se poderia apregoar o bem a realizar e o mal a evitar. O homem (indivíduo) seria a medida de todas as coisas, como já dizia o filósofo grego Protágoras. Em conseqüência o comportamento do homem ignora a lei natural, que é a lei de Deus incutida a todo ser humano desde que ele dispõe do uso da razão; da mesma forma a sociedade só conhece e respeita as leis que os seus governantes lhe propõem sem questionar a consonância dessas leis (ditas “positivas”) com a lei do Criador: por conseguinte, se as leis dos governantes legalizam o aborto, a clonagem, o anti-semitismo…, a população lhes obedece, não levando em conta que, antes da palavra do legislador humano, existe a do Legislador Divino, que é a mesma para todos os homens.

Os comentadores dessa situação chegam a falar de uma “ditadura do relativismo”, contra a qual não há como apelar para uma instância ulterior, mas elevada ou mais profunda. A essa ditadura aludia o então Cardeal Joseph Ratzinger aos 18 de abril de 2005 na homilia da Missa preparatória do conclave:

Baseando-se em Ef 4, 14 (“não vos deixeis sacudir por qualquer vento de doutrina”), advertia o pregador: “Quantos ventos de doutrina viemos a conhecer nestes últimos decênios, quantas correntes ideológicas, quantas modalidades de pensar…! O pequeno barco do pensamento de não poucos cristãos foi freqüentemente agitado por essas ondas, lançado de um extremo para o outro: do marxismo ao liberalismo ou mesmo libertinismo, do coletivismo ao individualismo radical, do ateísmo a um vago misticismo religioso, do agnosticismo ao sincretismo… Todos os dias nascem novas seitas e se realiza o que diz São Paulo sobre a falsidade dos homens, sobre a astúcia que tende a atrair para o erro (Ef 4, 14). O ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, é muitas vezes rotulado como fundamentalismo. Entrementes o relativismo ou o deixar-se levar para cá e para lá por qualquer vento de doutrina aparece como orientação única à altura dos tempos atuais. Constitui-se assim uma ditadura do relativismo, que nada reconhece de definitivo e deixa como último critério o próprio eu e suas veleidades”.

Assim é posta de lado a metafísica, de acordo com a advertência de Ludwig Wittgenstein: “É preciso não falar daquilo que a mente do homem não atinge”.

Examinemos sumariamente algumas modalidades do relativismo:

1.1. Relativismo filosófico

Não se pode pretender chegar a uma verdade objetiva, pois a mente humana não conhece a realidade como ela é, mas como o sujeito a consegue enquadrar dentro dos seus parâmetros de pensamento. A verdade portanto não é aquilo que a filosofia clássica ensina (conformação do intelecto com a realidade em si), mas, ao contrário, é a conformação da realidade com o intelecto. A verdade assim é algo de subjetivo, pessoal, em vez de ser objetiva e universal, para todos os homens. Já que não há um intelecto só para todos os homens, mas cada qual tem seu intelecto, diverso do intelecto do próximo ou mesmo oposto a este, em conseqüência há muitas verdades. Cada um tem a sua própria verdade.

1.2. Relativismo ético

Não existem normas morais válidas para todos os homens; os valores éticos variam de acordo com as fases da história e das culturas; há normas e opiniões subjetivas, que o indivíduo formula para si mesmo, fazendo uso da sua liberdade, que é refreada apenas pelos limites que os direitos alheios lhe opõem.

O relativismo assim descrito conhece um único absoluto, a saber: o ser humano ou, mais precisamente, a liberdade de cada ser humano. Essa liberdade é indiscutível .

Pergunta-se agora:

2. Quais as causas do fenômeno relativista?

Apontaremos cinco causas:

2.1. Filosofia imanentista

Imanência opõe-se a Transcendência. Significa a negação de todo valor que esteja além do alcance da experiência humana. Ora o relativismo contemporâneo é ateu; vê na religião e na Moral católicas um obstáculo e um adversário, pois Deus parece escravizar o homem e a Moral católica parece destinada a tornar o homem infeliz ou cerceado. Como pode o ser humano levar Deus em conta, já que todo tipo de conhecimento não é senão uma “representação” mental e subjetiva?

2.2. O historicismo

O historicismo ensina que “tudo é histórico” ou provisório e variável; o que ontem era importante, hoje deixa de ser tal. Ora a verdade é conhecida e vivida na história, sujeita a contínuas mudanças; ela é “filha do seu tempo”. Tudo o que é verdadeiro e bom é tal unicamente para o seu tempo, e não de modo universal, para todos os tempos e todos os homens. Nenhuma cultura tem o direito de se julgar melhor do que as outras; todos os modos de pensar e viver têm o mesmo direito.

2.3. O contínuo e insaciável progresso

Apesar de todas as dificuldades e hesitações por que passa a ciência, há quem julgue que ela trará ao homem as almejadas respostas; proporcionará um crescente bem-estar, porque desvinculadas de qualquer ligação religiosa ou moral. Tenha-se em vista a teoria da evolução, que deu início à nova concepção da humanidade,… a época das luzes, que sucedeu ao “obscurantismo” medieval… os regimes democráticos, que tomam o lugar do ancien regime ou da monarquia absoluta dos reis…

2.4. O ceticismo

O ceticismo ensina que não há verdades objetivas e normas morais sempre válidas e que, mesmo que as houvesse, o homem não seria capaz de as apreender. Na época moderna, o ceticismo desponta com René Descartes (+ 1650), que propõe a “dúvida metódica” e vai dominando o pensamento posterior sob formas diversas: agnosticismo, empirismo, positivismo de Augusto Comte, fideísmo, “o pensamento fraco” (como dizem).

O relativismo é marcado também pelo ceticismo. A verdade é pragmática, prática: são verdadeiras e válidas as teorias que levam a resultados concretos satisfatórios; se determinada concepção resolve (ao menos aparentemente) um problema concreto, é tida como verídica e ponto de referência para o comportamento humano.

2.5. O utilitarismo

Associado ao ceticismo, o utilitarismo só aceita o que pode ajudar a viver em certo bem-estar aqui e agora. Tal bem-estar é geralmente hedonista, ou seja, avesso ao sacrifício, à renúncia, ao incômodo e tem por programa: “Maximizar o prazer e minimizar a dor”.

Exposto sumariamente o que seja o relativismo, resta perguntar:

3. Como diante dele se situa a Igreja?

Responderemos em duas etapas

3.1. A Igreja não é fundamentalista

O fundamentalismo é uma atitude que teve origem no ambiente protestante dos Estado Unidos na segunda metade do século XIX: apega-se ferrenhamente a certas proposições da Bíblia e não permite que sejam estudadas à luz das pesquisas lingüísticas e arqueológicas modernas, pois a ciência poria em perigo a fé. Portanto professa a criação do mundo em seis dias de 24 horas; Moisés seria o autor do Pentateuco tal como chegou até nós; o livro de Daniel terá sido escrito por inteiro nos tempos de Nabucodonosor (século VI a.C.)… O mundo moderno é dominado por Satanás, que Jesus derrotará definitivamente quando vier (e talvez venha em breve) a julgar os homens.

Fundamentalista é, por exemplo, a atitude do Islã, que propõe:

1) o Corão é livro divinamente inspirado e deve ser entendido ao pé da letra;

2) o Islã deve reger as leis do Estado, pois todos devem conformar-se aos preceitos de Alá.

O fundamentalismo, aliás, também penetrou em outras correntes religiosas, como o Judaísmo e o próprio Cristianismo (em alguns de seus setores).

Há também o fundamentalismo leigo, não religioso, principalmente no campo da política, quando se procura impor à sociedade o fanatismo de um chefe “carismático” e tirânico.

Pois bem; a Igreja não é fundamentalista. Ela aceita e promove os estudos bíblicos voltados para a lingüística, à arqueologia, a paleontologia… Professa que a Bíblia é inspirada por Deus, que utilizou formas de pensamento antigo e oriental para se revelar. A Igreja reconhece que, fora dela, existem valores suscitados pelo próprio Deus ou, como diziam os Padres da Igreja, existem “sementes do Verbo” (logoi spermatikói); cf. Declaração Nostra Aetate nº 2 do Concílio do Vaticano II. Professa outrossim a liberdade religiosa ou o direito que todo ser humano tem de estudar livremente a questão religiosa e viver de acordo com suas conclusões sem ser coagido a abraçar algum Credo que violente a sua consciência, nem adotar o ateísmo; ver Declaração Dignitatis Humanae do Concílio:

“2. Este Concílio Vaticano declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa. Consiste tal liberdade em que todos os homens devem ser imunes de coação, tanto por parte de pessoas particulares, quanto de grupos sociais e de qualquer poder humano, de tal modo que, em matéria religiosa [in re religiosa], ninguém seja obrigado a agir contra a própria consciência, nem seja impedido de agir de acordo com ela, em particular e em público, nem só ou associado a outros, dentro dos devidos limites.

Declara, além disso, que o direito à liberdade religiosa está realmente fundado na própria dignidade da pessoa humana, tal como é conhecida tanto pela palavra revelada de Deus como pela própria razão. Este direito da pessoa humana à liberdade religiosa deve ser de tal forma reconhecido no ordenamento jurídico da sociedade que se transforme em direito civil”.

Para evitar mal-entendidos, seja dito: o Concílio apregoa a liberdade para pesquisar o problema religioso. Essa pesquisa, porém, é obrigatória, pois se trata de dar sentido à vida; se Deus existe, o rumo é um; se não existe, o rumo é outro. Ninguém está autorizado a fugir dessa pergunta: Deus existe? …Mas pesquise sem sofrer coação.

Há portanto um meio-termo entre o fanatismo cego fundamentalista e o relativismo. Quem não é relativista, não é necessariamente fanático.

3.2. A Igreja professa a Verdade Absoluta

A inteligência humana foi feita para a Verdade e não para a penumbra das semi-verdades ou do erro. O homem aspira naturalmente à Verdade; esta aspiração congênita não pode ser frustrada num mundo em que as demandas têm sua resposta; com efeito

- para o olho, há a luz para a qual ele foi feito.

- para o ouvido, há o som.

- para os pulmões, há o ar.

- para o estômago, há o alimento.

Não haveria então resposta para as aspirações mais elevadas do ser humano à Verdade e ao Bem?

A Igreja sabe que a Palavra de Deus revela com veracidade quem é Deus e qual o seu plano de salvação. Fora das verdades da fé, julga que o homem, pesquisando através de altos e baixos, pode chegar ao conhecimento da Verdade Absoluta.

O fato, porém, de professar a Verdade Absoluta não deve tornar o fiel católico cego e fanático. Sim; muitos seres humanos podem estar professando o erro, julgando que o erro é a verdade; estão de boa fé numa fé (ou religião) errônea. Deus não lhes pedirá contas daquilo que Ele não lhes revelou, mas há de julgá-los de acordo com os ditames da sua consciência que, sincera e candidamente, os impelia ao erro.

É o que ensina o Concílio do Vaticano II em Lumen Gentium nº 16.

“O Salvador quer que todos os homens sejam salvos. Aqueles portanto que sem culpa ignoram o Evangelho de Cristo e sua Igreja, mas de coração sincero buscam a Deus e se esforçam, com o auxílio da graça, por cumprirem com obras a sua vontade conhecida pela voz da consciência, também esses podem alcançar a salvação eterna. A Divina Providência não recusa os meios necessários para a salvação àqueles que, sem culpa, ainda não chegaram ao conhecimento explícito de Deus, mas procuram com a graça divina viver retamente”.

Há um só Deus para todos os homens; Ele distribui suas luzes sobre todo indivíduo como lhe apraz e não pede mais do que a justa resposta da criatura à Palavra que o Senhor lhe comunica.

Ao proclamar a verdade absoluta, a Igreja não ignora a influência, às vezes prejudicial, das culturas na formulação dos juízos religiosos e éticos de cada indivíduo, mas os católicos crêem que esses possíveis obstáculos e desvios podem ser corrigidos pela insistência de quem procura sinceramente.


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Todas as Religiões são Equivalentes entre si ?

Postei aqui, recentemente, o texto Porque não sou Espírita? , e recebi da Jaqueline Barbosa um comentário, que reproduzo em parte:

Não seria melhor aceitar a nossa diversidade cultural e de credo e entender que todos somos filhos do mesmo Pai e que todas as religiões são boas desde que atendam a necessidade de paz, fraternidade e proximidade com o Divino da pessoa que a pratica?

Essa idéia, de que ” o Deus é o mesmo” e de que “toda religião é boa” infelizmente está muito difundida nos dias de hoje, mas é completamente equivocada. Sobre isso, posto novo texto de D Estêvão Bettencourt, que pode ser baixado ou impresso a partir da tela abaixo:

Todas as Religiões são Equivalentes entre si ?


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Os milagres de jesus: mito ou história?

Por D. Estêvão Bettencourt

Causam certa dificuldade à fé do homem moderno os milagres em geral e, especialmente, os milagres de Jesus. A crítica dos Evangelhos vem tentando explicá-los ou como relatos de ficção ou como fenômenos parapsicológicos, negando a sua realidade transcendental. — Ora quem lê os Evangelhos, tem a impressão de que os milagres têm grande importância na missão de Jesus, pois Jesus os tem como sinais da sua Messianidade e Divindade. Eis por que, nas páginas seguintes, 1) definiremos a noção de milagre; 2) analisaremos alguns textos referentes a milagres nos Evangelhos e 3) consideraremos narrações de milagre no mundo pagão antigo.

I. QUE É MILAGRE?

O milagre não deve ser tido como mera ostentação ou show do poder de Deus. Não é o meramente extraordinário que importa no milagre, mas é o extraordinário feito sinal. O Evangelho de São João usa sistematicamente o vocábulo sinal (semeion) para designar os feitos extraordinários de Jesus; ver Jo 6,26; 10,37s; 12,37s; 15,24 e ainda Mt 12,39s.

O milagre é propriamente uma palavra de Deus… mais forte do que as palavras orais; o Senhor Deus dirige às suas criaturas esse tipo de discurso sempre que o julgue oportuno

— ou para responder à oração humilde e confiante dos homens

— ou para autenticar a missão de alguém que se diga enviado por Deus.

Para se poder falar de autêntico milagre, requer-se o cumprimento de três condições:

1) Trate-se de um fato real… Este deve ser averiguado com exatidão, para que se tenha notícia fiel à realidade ocorrida. Freqüentemente os relatos de milagres ocorrentes entre a gente simples vem-se tão somente à fantasia popular, que os tornou “portentosos”.

2) Trate-se de fato real que as ciências naturais contemporâneas ao fato não possam em absoluto explicar. A Igreja não faz questão de descobrir ou impingir milagre ao público; desde que qualquer brecha se ofereça para uma elucidação científica, o fato portentoso deixa de ser considerado pelos teólogos. A Igreja apenas aceita os milagres que, à luz de crítica objetiva e severa, pareçam real mente ser sinais de Deus.

3) O fato histórico inexplicável pela ciência deve ter ocorrido em contexto que possa merecer a chancela ou a resposta do Senhor Deus.

Vê-se, pois, que não basta o aspecto portentoso do fato. Com efeito, se o milagre é sinal, deve-se inserir em âmbito de diálogo entre Deus e as criaturas. Por conseguinte, não pode ser milagre no sentido da apologética católica qualquer fato portentoso que confirme a vaidade, o espírito mercenário ou comercial, os vícios, o charlatanismo… Se, por hipótese, alguma vez se verifique um fenômeno inexplicável pela ciência em moldura de pecado e corrupção, dir-se-á que se trata de artimanha do demônio. Tal caso, porém, é tido como extremamente raro, pois, nos ambientes de vícios, os portentos são geralmente explicáveis pela psicologia e a parapsicologia…

Aliás, sabemos pelo progresso da ciência que muitos e muitos fatos portentosos são perfeitamente explicáveis pela parapsicologia, principalmente quando se trata de doenças funcionais ou nervosas, resultantes de um bloqueio psicológico (o desbloqueio pode ser obtido por via psicológica, ou seja, pela sugestão ou pelo aparato do curandeirismo).

O milagre é um fato que foge à ordem normal ou natural dos acontecimentos… Esta afirmação suscita a objeção seguinte: Deus não estaria derrogando às leis que Ele mesmo imprimiu à natureza, se Ele fosse autor de um milagre? — A isto respondemos:

O milagre não está fora da ordem geral da Providência Divina. Esta se exerce habitualmente através das leis da natureza. Mas pode também intervir extraordinariamente, fora e acima das leis da natureza, desde que isto contribua mais eficiente mente para a realização do plano de Deus destina do a salvar e santificar os homens. Quando Deus realiza um milagre, Ele o faz sabiamente, visando à finalidade mesma que Ele se propôs ao criar o mundo e o homem.

II. OS MILAGRES NA VIDA PÚBLICA DE JESUS

Quem considera atentamente os Evangelhos, verifica que Jesus associou intimamente os seus dizeres a feitos ou sinais portentosos, que deviam autenticar e confirmar a sua pregação. Em especial, três passagens do Evangelho merecem consideração, pelo seu caráter muito enfático e arcaico:

1) Mt 12,27s: Diz Jesus: “Se eu expulso os demônios por Beelzebu, por quem os expulsam os vossos adeptos? Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, o Reino de Deus chegou a vós” (cf. Lc 11,20).

Este texto dá a ver que os judeus reconheciam a atividade de Jesus como exorcista (pois a atribuíam à ação remota do príncipe dos demônios); não negavam as ações milagrosas do Senhor; apenas questionavam a procedência ou a origem do poder de Jesus (cf. Mc 3,22). — A referência a Beelzebu, por parte dos judeus, é sinal de antigüidade e genuinidade desse episódio, pois é de crer que, se os discípulos tivessem forjado tal relato, não teriam sugerido a possibilidade de Jesus estar agindo em nome do príncipe dos demônios. — Ademais a referência ao Reino de Deus que vem, e a consciência do poder, de Jesus, para vencer Satanás são ele mentos que se encontram em outras secções do Evangelho (cf. Mc 1,14s; Mt 4,23; Jo 12,31) e que abonam a antiguidade e genuinidade do episódio.

2) Mt 11,20-24: “Jesus começou a verberar as cidades onde havia feito a maior parte dos seus milagres por não se terem arrependido: ‘Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidônia tivessem sido realizados os milagres que em vós se realizaram, há muito se teriam arrependido, vestindo-se de cilício e co brindo-se de cinza. Mas eu vos digo: no dia do julgamento haverá menos rigor para Tiro e Sidônia do que para vós. E tu, Cafarnaum, por acaso te elevarás até o céu? Antes, até o inferno descerás. Porque, se em Sodoma tivessem sido realizados os milagres que em ti se realizaram, ela teria permanecido até hoje. Mas eu vos digo que no dia do julgamento haverá menos rigor para a terra de Sodoma do que para vós”. Cf. Lc 10,13-15.

Jesus se queixa da incredulidade das cidades onde Ele mais milagres havia feito. Em tais dizeres, encontram-se elementos arcaicos: assim dynamis, vocábulo que o português traduz por “milagre”, mas que significa “força, poder”; é o designativo mais antigo dos portentos de Jesus. — A menção da cidade de Corozaim é outro indício de antiguidade do texto ou indício de que não foram os antigos cristãos que criaram tais dizeres e os atribuíram a Jesus, pois Corozaim não é mencionada em nenhuma outra secção do Novo Testamento. De resto, ficou na consciência dos cristãos a lembrança de que Jesus efetuara muitos milagres; cf. At 2,22; 10,38. Diz São Pedro no dia de Pentecostes: ‘Homens de Israel, ouvi estas palavras! Jesus, o Nazareu, foi por Deus aprovado diante de vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus operou por meio dele entre vós, como bem sabeis (cf. At 2,22).

Em casa de Cornélio, centurião romano, disse Pedro: ‘Deus ungiu Jesus de Nazaré com o Espírita Santo e com poder, ele passou fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo diabo, porque Deus estava com ele’ (cf. At 10,38).

3) Mt 11,2-6: “João, ouvindo falar, na prisão, a respeito das obras de Cristo, enviou a ele alguns de seus discípulos para lhe perguntarem: ‘És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro?’ Jesus respo
ndeu-lhes: ‘Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados’. E bem-aventurado aquele que não se escandalizar a meu respeito!”. Cf. Lc 7,18-23.

A resposta de Jesus a João faz eco a profecias do Antigo Testamento que anunciavam o Messias como restaurador do homem e do mundo feridos pelo pecado; cf. Is 26,19; 29,18s; 35, 5s; 61,1. Jesus aponta milagres por Ele realizados para dizer a João Batista que Ele, Jesus, é o Messias predito pelos Profetas. A autenticidade destes dizeres se depreende do fato de que o conceito de Messias assim apresentado por Jesus não é o conceito alimentado pelos judeus, que pensavam num Messias político e nacionalista; por conseguinte, o novo conceito de Messias não deve ter tido origem nas comunidades cristãs antigas, mas sim na pregação mesma de Jesus. — Ademais a resposta de Jesus a João está em plena conformidade com os ensinamentos e a atividade de Jesus; daí poder-se dizer que é genuína; ela evidencia que Jesus associava entre si pregação e milagres, sendo estes o sinal que confirmava e comprovava aquela.

III. HISTORICIDADE DOS MILAGRES DE JESUS

1. DEVE TER HAVIDO ALGO…

Os milagres ocupam lugar tão importante nos Evangelhos que não se poderia conceber o ensinamento de Jesus sem esses sinais concomitantes; ensinamentos e milagres devem manifestar, segundo Jesus, a mesma realidade: a chegada do Reino de Deus.

Detendo-nos particularmente no Evangelho de Marcos, verificamos que neste livro os milagres representam 31% do texto global, e, se considerarmos apenas os dez primeiros capítulos de Marcos (ministério público do Senhor), concluímos que aí a proporção chega a 47%. Ora tão ampla narrativa de milagres não se poderia entender se não houvesse base histórica para tanto; leve-se ainda em conta que muitos de tais sinais foram realizados perante multidões, segundo os evangelistas; ora, se não se tratasse de fatos reais, mas de narrações fictícias dos antigos cristãos, tais relatos teriam sido facilmente desmentidos. Precisamente por haver base histórica é que São Pedro no dia de Pentecostes pôde aludir a tais feitos como algo de incontestável (cf. At 2,22); nem mesmo os inimigos de Jesus podiam negar que Ele fizera obras portentosas. Muito interessante, por exemplo, é a atitude do rabino Gamaliel perante o Sinédrio: vendo seus colegas de tribunal enraivecidos e desejosos de matar os Apóstolos, ponderou:

“Deixai de ocupar-vos com esses homens. Soltai-os! Pois, se o seu intento ou sua obra provêm dos homens, destruir-se-ão por si mesmos; mas, se vêm de Deus, não podereis destruí-los. E não aconteça que vos encontreis movendo guerra a Deus” (cf. At 5,38s).

O texto dos Atos acrescenta que os membros do tribunal concordaram com Gamaliel. Ora tal fato bem demonstra que ninguém podia argüir os Apóstolos de mentirosos ou fraudulentos; se houvesse qualquer brecha de ordem ética no comportamento destes, teria sido aproveitada para se lavrar a sua sentença de morte.

2. CINCO CRITÉRIOS DE HISTORICIDADE

Para corroborar quanto até aqui foi dito, pode mos recorrer aos cinco critérios que os críticos aplicam para verificar a autenticidade de algum segmento do Evangelho:

1) Critério de múltiplo testemunho: são autênticos os episódios do Evangelho que vêm atesta dos por várias fontes ou testemunhos convergentes. Ora os sinóticos, o Evangelho de S. João, o livro dos Atos dos Apóstolos, a Epístola aos Hebreus (2,23s) e os apócrifos dão unânime testemunho de que Jesus fez muitos milagres.

2) Critério da descontinuidade: são autênticos os episódios do Evangelho que não se possam reduzir às concepções do judaísmo. Assim, por exemplo, as tentações de Jesus, a sua agonia e morte de Cruz, a atitude de Jesus perante a Lei de Moisés… não são produtos da mentalidade judaica. — De modo semelhante, a maneira como Jesus efetuava milagres contrastava com o modo de proceder dos profetas do Antigo Testamento; estes podiam realizar feitos extraordinários, mas sempre e tão somente em nome de Iahweh. Ao contrário, Jesus fazia milagres em seu nome próprio; disse à filha de Jairo: “Talitha kum, Menina, eu te digo, levanta-te” (cf. Mc 5,41);… a Lázaro: “Lázaro, vem para fora! (cf. Jo 11,43);… ao leproso: “Eu quero, sê purificado! (cf. Mt 8,3);… ao paralítico: “Levanta-te, toma o teu Ieito e vai para casa” (cf. Mt 9,6)…

Frente aos leprosos em particular, o comportamento de Jesus não era de rejeição, como era o dos fariseus; ao contrário, Jesus os chamava a participar do Reino de Deus (cf. Mc 1,40-45).

3) Critério de conformidade: seja considerado autêntico todo gesto ou palavra de Jesus que esteja em íntima conformidade com a sua época e o seu ambiente Iingüístico, geográfico, social, político e também com os ensinamentos fundamentais de Jesus referentes à vinda e à instauração do Reino Messiânico. — Ora os milagres estão em perfeita harmonia com a pregação de Jesus, pois ilustram a vinda do Reino de Deus.

4) Critério de explicação necessária: se diante de um conjunto de feitos que exigem explicação coerente e adequada, é oferecida uma explicação que ilumine e justifique todos esses feitos (explicação sem a qual o conjunto seria difícil de se entender ou enigmático), pode-se concluir que tal explicação é autêntica. Este critério é de especial importância: sem os milagres, não se poderiam explicar certos dados encontrados no Evangelho: o entusiasmo do povo por Jesus (cf. Mc 11,1-11), o reconhecimento de que Ele era “Profeta” (cf. Lc 7,16), a fé dos Apóstolos na Messianidade de Jesus (cf. Mt 16,16), a decisão, dos fariseus, de eliminar Jesus porque os milagres do Mestre punham em xeque o prestígio dos fariseus (cf. Mc 3,6; Jo 11, 45-53); a pregação da Igreja antiga, que apelava para os milagres de Jesus, a fim de apresentá-lo como Messias e Filho de Deus (cf. At 2,22; 10,38).

5) Critério do estilo de Jesus: a maneira como os evangelistas apresentam os milagres do Senhor é simples e despojada de aparato: Jesus profere uma palavra ou efetua um gesto simbólico muito singelo (cf. Mc 7,33-35 — o surdo-mudo; Jo 9,6s — o cego de nascença; Mc 8,22-25 — outro cego; Mc 10,46-52 — Bartimeu…). Jesus não fazia milagres para dar espetáculo ou show de seu poder; ao contrário, era movido por compaixão e amor; geralmente mandava que o prodígio não fosse divulgado (cf. Mc 1,44s; 5,43; 7,36; 8,26). Ora o modo de Jesus sóbrio e discreto ao realizar milagres corresponde em geral ao estilo de vida de Jesus pobre desprendido de si.

Estes cinco critérios, aplicados pelos críticos aos milagres de Jesus, levam a concluir em favor da autenticidade histórica dos mesmos.

Após estas ponderações sobre o Evangelho parece muito útil comparar o texto dos Evangelhos simples e equilibrado, com os relatos de milagres ocorrentes na antiga literatura pagã.

IV. OS RELATOS PAGÃOS DE MILAGRES NA ANTIGÜIDADE

Sabe-se que em Epidauro (Grécia) havia perto do templo de Asclépio (o Asclepeion) uma fonte sagrada; o acesso ao templo era facultado por duplo pórtico; este, com as suas arcadas, servia de dormitório (ábaton) posto à disposição dos peregrinos que aguardavam a cura. No ábaton (em grego é o lugar inacessível ou o santuário) os sacerdotes praticavam um rito que adormecia o paciente (egkoímesis); este então mergulhava em sono sagrado, que o dispunha a receber as comunicações da Divindade. Esta, como se pregava, aparecia durante o sono e explicava ao doente como ficaria cur
ado. Tal sonho era o grande objetivo da peregrinação.

Os enfermos visitados pela Divindade durante a noite davam-se por curados desde a manhã ou, ao menos, diziam ter recebido as indicações terapêuticas que os curariam. Depositavam sua oferta no templo e voltavam para casa.

Nas paredes internas do santuário de Epidauro, encontram-se relatos escritos de curas aí obtidas. Seis desses narram os casos de mulheres que após a aparição da Divindade em sonho ou depois de ter tido relações com o deus local, deram à luz. Assim, por exemplo:

“CIéo estava grávida havia cinco anos. Por isto, suplicante, foi ao templo do deus; adormeceu no ábaton. Logo que saiu deste e se viu fora do templo, deu à luz um menino, que, ao aparecer, se lavou na água da fonte e se pôs a caminhar junto à sua mãe”.

Uma dezena de casos refere-se a doenças da vista. A falta de higiene ocasiona tais moléstias. O termo “cegueira”, em tais relatos, significa “inflamação e abcessos das pálpebras”, os quais podem ser tão violentos que a visão cesse. A cura, porém, de tais males está ao alcance da medicina. Eis alguns espécimens:

“Um homem foi ter ao templo em súplica. Estava caolho. As suas pálpebras não recobriam coisa alguma… No templo as pessoas o tinham por muito simplório por acreditar que recuperaria a vista, pois do seu olho nada ficava senão o respectivo lugar. Enquanto dormia, foi agraciado por uma visão; parecia que a Divindade lhe preparava um remédio; abria-lhe as pálpebras e nelas derramava o remédio. Por ocasião da aurora, saiu e enxergou com os dois olhos”.

“Um cego perdeu o seu colírio durante o banho. Dormiu no ábaton, sonhou que a Divindade lhe aconselhava que procurasse o colírio no grande albergue à esquerda, na entrada. Uma vez nascido o dia, o cego, auxiliado por um escravo, foi procurar o colírio. Entrou no albergue, viu o colírio e ficou bom”.

“Timão de X, foi ferido por um golpe de lança debaixo do olho. Enquanto dormia, teve um sonho; pareceu-lhe que a Divindade triturava uma erva e lhe derramava algo no olho. Ele está curado”.

Há também casos de mudez e paralisia:

“Uma jovem muda perambulava no santuário. Viu uma serpente descer de uma árvore e penetrar dentro da alvenaria. Espantada, ela chamou pai e mãe. Voltou curada”.

“Clemenes de Argos estava paralítico. Apresentou-se no ábaton; adormeceu e teve um sonho: a Divindade o envolveu com uma coberta vermelha levou-o ao banho fora do recinto sagrado, num tanque de água muito fria. Tremia de angústia; Asklepios disse-lhe que ele não curava os covardes, mas sim, tão somente aqueles que o procurassem com confiança. Ele não lhes fazia mal algum, mas despedia-os, curados, para casa. Clemenes acordou, tomou um banho, e voltou em perfeito estado”.

Há dois casos de feridas purulentas e um de tumor abdominal, que parecem supor uma intervenção cirúrgica elementar:

“Ferido por uma lança, Evippos tinha a ponta da mesma encravada na axila havia seis anos. Adormeceu no ábaton; a Divindade lhe retirou essa ponta de lança e a colocou em suas mãos. Quando despontava o dia, ele se foi curado, levando a ponta nas mãos”.

‘N. N. de X está ferido no peito. A chaga é purulenta; foi ter com a Divindade em súplicas. Dormiu no ábaton e teve uma visão: a Divindade lhe lavou o peito com leite fresco e untou a ferida com ungüento. Depois de tê-la enxugado, ordenou-lhe que se lavasse na água fria. Ao despertar, mergulhou na água corrente e ficou curado”.

“Um homem sofria de tumor no abdômem. Teve um sonho no ábaton: a Divindade mandou a seus auxiliares que o imobilizassem e lhe abrissem o ventre. Ele fugiu, mas foi apreendido e atado quando atravessava a soleira da porta. Asklepios abriu-lhe o ventre, retirou-lhe o abscesso e coseu a ferida; o doente foi desatado. Voltou curado; o solo estava coberto de sangue”.

Eis ainda dois casos:

“Erasipa tinha o ventre inchado e nada conseguia digerir. Dormiu no ábaton; teve um sonho; a Divindade lhe fazia massagens sobre o abdômem e a abraçava; depois o deus lhe ofereceu, numa taça, um remédio, que lhe mandou beber; forçou a vomitar; ela o fez, sujando a sua roupa. A nascer do dia, verificou que o vestido estava todo sujo de vômitos; sentiu-se curada”.

“N. N. de X sofria de um tumor. Entrou no santuário. Não obteve o que pedia. A Divindade não se mostrou durante o seu sono no ábaton; ele julgou então ter sido esquecido pelo deus e voltou par casa. Todavia, não podendo suportar por mais tempo a dor, quis suicidar-se transpassando o abscesso com uma punhalada. A sua filha encontrou-o desfalecido, tomou-o nos braços, retirou o punhal. O sangue jorrou do tumor e o doente ficou curado”.

Outras semelhantes narrações poderiam se aduzidas. Estas, porém, são suficientes para evidenciar que os “milagres” de Epidauro são:

— fatos que as ciências médicas e a psicologia explicam satisfatoriamente;

— as narrações respectivas devem-se, em grande parte, à fantasia do narrador, que explora capacidade de admiração dos leitores;

— diferem profundamente das narrações evangélicas tanto pelo conteúdo como pela forma, evidenciando que os Evangelistas estão longe de haver plagiado os relatos populares de portentos antigos.

Eis como, em poucas páginas, se pode argumentar em prol da historicidade dos milagres de Jesus, sem os quais não se entenderia a projeção de Jesus no seu tempo e nos séculos subseqüentes.


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