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    Rosário Meditado (S. Luís M. G. de Montfort)

    November 15th, 2010

     

    Credo: 1º Fé na presença de Deus; 2º Fé no Evangelho; 3º Fé e obediência ao Papa como Vigário de Jesus Cristo.
    Padre Nosso: Unidade de um só Deus vivo e verdadeiro.
    1ª Ave Maria: Em honra do Padre Eterno, que engendra seu Filho contemplando-Se.
    2ª Ave Maria: Em honra do Verbo Eterno, igual ao Pai, que com Ele produz o Espírito Santo.
    3ª Ave Maria: Em honra do Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho por via de amor.

    Mistérios Gozosos
    1º Mistério: Encarnação
    Padre Nosso: Caridade de Deus – Imensa.
    Ave Maria para lamentar:
    1. O desgraçado estado de Adão desobediente, sua justa condenação e a de todos os seus filhos.
    Ave Maria para honrar:
    2. Os desejos dos Patriarcas e dos Profetas que pediam o Messias.
    3. Os desejos e as preces da Santíssima Virgem, que apressaram a vinda do Messias.
    4. A caridade do Padre Eterno, que nos deu seu Divino Filho.
    5. O amor do Filho, que Se entregou por nós.
    6. A embaixada e a saudação do Arcanjo São Gabriel.
    7. O temor virginal de Maria.
    8. A fé e o consentimento da Santíssima Virgem.
    9. A criação da Alma e a formação do Corpo de Jesus Cristo no seio de Maria, pelo Espírito Santo.
    10. A adoração do Verbo Encarnado, pelos anjos, no seio de Maria.

    2° Mistério: Visitação
    Padre Nosso: Majestade de Deus – Adorável
    Ave Maria para honrar:
    1. O gozo do Coração de Maria e a morada, durante nove meses, do Verbo em seu seio.
    2. O sacrifício que Jesus Cristo fez de Si mesmo ao Pai, ao entrar neste mundo.
    3. As complacências de Jesus no seio humilde e virginal de Maria, e de Nossa Senhora, no gozo de seu Deus.
    4. A dúvida de São José acerca da maternidade de Maria.
    5. A eleição dos escolhidos, combinada entre Jesus e Maria, em seu seio.
    6. O fervor de Maria na visita a Santa Isabel.
    7. A saudação de Maria e a santificação de São João Batista e de sua mãe, Santa Isabel.
    8. A gratidão da Santíssima Virgem para com Deus, no Magnificat.
    9. A sua caridade e humildade em servir sua prima.
    10. A mútua dependência de Jesus e de Maria, e a que devemos ter para com Ele e com Ela.

    3° Mistério: Nascimento de Jesus
    Padre Nosso: Riqueza de Deus – Infinita.
    Ave Maria para honrar:
    1. Os desprezos e as injúrias feitas a Maria e a São José, em Belém.
    2. A pobreza do estábulo onde Deus veio ao mundo.
    3. A alta contemplação e o excessivo amor de Maria no momento de dar à luz.
    4. A saída do Verbo Eterno do seio de Maria sem romper o selo de sua virgindade.
    5. As adorações e cânticos dos anjos no Nascimento de Jesus.
    6. A formosura arrebatadora de sua divina infância.
    7. A vinda dos pastores ao estábulo, com seus presentes.
    8. A circuncisão de Jesus Cristo e suas dores amorosas.
    9. A imposição do Nome de Jesus e suas grandezas.
    10. A adoração dos Reis Magos e seus presentes.

    4° Mistério: Purificação
    Padre Nosso: Sabedoria de Deus – Eterna.
    Ave Maria para honrar:
    1. A obediência de Jesus e de Maria à Lei.
    2. O sacrifício que ali fez Jesus de sua Humanidade.
    3. O sacrifício que ali fez Maria de sua honra.
    4. O gozo e os cânticos de Simeão e de Ana, a Profetisa.
    5. O resgate de Jesus pela oferenda de duas rolas.
    6. A matança dos Santos Inocentes.
    7. A fuga de Jesus para o Egito, pela obediência de São José à voz do Anjo.
    8. A estadia misteriosa no Egito.
    9. A sua volta, para Nazaré.
    10. Seu crescimento em idade e sabedoria.

    5º Mistério: Encontro de Jesus no Templo
    Padre Nosso: Santidade de Deus – Incompreensível.
    Ave Maria para honrar:
    1. Sua vida oculta, laboriosa e obediente na casa de Nazaré.
    2. Sua pregação e encontro no Templo entre os doutores.
    3. Seu jejum e tentações no deserto.
    4. Seu batismo por São João Batista.
    5. Sua pregação admirável.
    6. Seus milagres portentosos.
    7. A eleição de seus doze Apóstolos e os poderes que lhes dá.
    8. Sua transfiguração maravilhosa.
    9. O lava-pés dos Apóstolos.
    10. A instituição da Sagrada Eucaristia.

    Mistérios Luminosos
    Obs: Os Mistérios Luminosos foram acrescentados no Rosário pelo Papa João Paulo II, por isso não há mistérios meditados sobre eles segundo o método de São Luís de Montfort.

    No primeiro mistério luminoso contemplamos o Batismo de Jesus.
    1. O Batismo de Jesus. ”Cada um desses mistérios é revelação do Reino divino já personificado no próprio Jesus. Primeiramente é mistério de luz o batismo no Jordão. Aqui, enquanto Cristo desce à água do rio, como inocente que se faz pecado por nós, o céu se abre e a voz do pai proclama-o filho dileto, ao mesmo tempo em que o espírito vem sobre ele para investi-lo na missão que o espera”. (Nº 21 da Encíclica: O Rosário da Virgem Maria – Rosarium Virginis Mariae – Papa João Paulo II).
    No segundo mistério luminoso contemplamos a auto-revelação de Jesus
    nas bodas de Caná.
    2. A auto-revelação de Jesus nas bodas de Caná. “Mistério de luz é o início dos sinais em Caná, quando Cristo, transformando a água em vinho, abre à fé o coração dos discípulos graças à intervenção de Maria, a primeira entre os que crêem” (Encíclica: O Rosário da Virgem Maria).
    No terceiro mistério luminoso contemplamos o anúncio do Reino de Deus
    com o convite à conversão.
    3. O anúncio do Reino de Deus com o convite à conversão. “Mistério de luz é a pregação com a qual Jesus anuncia o advento do Reino de Deus e convida à conversão, perdoando os pecados de quem se dirige a ele com humilde confiança, início do ministério de misericórdia que ele prosseguirá exercendo até o fim do mundo, especialmente através do sacramento da reconciliação confiado à sua Igreja” (O Rosário da Virgem Maria).
    No quarto mistério luminoso contemplamos a Transfiguração de Jesus.
    4. A transfiguração. “Mistério de luz por excelência é a transfiguração que, segundo a tradição, se deu no Monte Tabor. A glória da divindade reluz no rosto de Cristo, enquanto o Pai o credencia aos apóstolos extasiados para que o ‘escutem’ e se disponham a viver com ele o momento doloroso da paixão, a fim de chegarem com ele à glória da ressurreição e a uma vida transfigurada pelo Espírito Santo” (O Rosário da Virgem Maria).
    No quinto mistério luminoso contemplamos a Instituição da Eucaristia.
    5. A Instituição da Eucaristia. Mistério de luz é, enfim, a instituição da Eucaristia, na qual Cristo se faz alimento com o seu corpo e o seu sangue sob os sinais do pão e do vinho, testemunhando ‘até o extremo’ seu amor pela humanidade, cuja salvação se oferecerá em sacrifício”. (O Rosário da Virgem Maria).

    Mistérios Dolorosos
    1º Mistério: Agonia de Jesus no Horto
    Padre Nosso: Felicidade de Deus – Essencial.
    Ave Maria para honrar:
    1. Os divinos retiros que fez Jesus em sua vida, principalmente no Horto.
    2. Suas orações humildes e fervorosas durante sua vida e na véspera da Paixão.
    3. A paciência e doçura com que suportou seus Apóstolos, particularmente no Horto.
    4. O tédio de sua Alma, durante toda sua vida, principalmente no Horto.
    5. Os rios de Sangue que a dor fez brotar de seu ser adorável.
    6. O consolo que houve por bem aceitar, de um anjo, na Agonia.
    7. Sua conformidade com a vontade do Pai, apesar das repugnâncias da natureza.
    8. Sua traição por Judas e prisão pelos judeus.
    9. O valor com que saiu ao encontro dos algozes, e a força da palavra com que os lançou por terra e os levantou.
    10. O abandono que sofreu de seus Apóstolos.

    2º Mistério: A Flagelação
    Padre Nosso: Paciência de Deus – Admirável.
    Ave Maria para honrar:
    1. As cordas com que Jesus foi atado.
    2. A bofetada que recebeu em casa de Caifás.
    3. As negações de São Pedro.
    4. As ignomínias que sofreu em casa de Herodes quando Lhe puseram a veste branca.
    5. O despojamento de suas vestes.
    6. Os desprezos e insultos que sofreu, de seus verdugos, pela sua nudez.
    7. As varas espinhosas e os açoites cruéis com que foi golpeado.
    8. A coluna a que foi atado.
    9. O sangue que derramou e as chagas que recebeu.
    10. Sua queda pela fraqueza, pelo Sangue que derramou.

    3° Mistério: Coroação de Espinhos
    Padre Nosso: Formosura de Deus -: Inefável.
    Ave Maria para honrar:
    1. O despojamento de suas vestes pela terceira vez.
    2. Sua coroa de espinhos.
    3. O véu com que Lhe vendaram os olhos.
    4. As bofetadas e escarros com que Lhe cobriram o rosto.
    5. O andrajo que Lhe puseram sobre os ombros.
    6. A cana que Lhe puseram nas mãos.
    7. A pedra pontiaguda sobre a qual O sentaram.
    8. Os ultrajes e insultos que Lhe fizeram.
    9. O Sangue e os suores que saíam de sua cabeça adorável.
    10. Os cabelos e a barba que Lhe arrancaram.

    4° Mistério: Jesus carrega a Cruz
    Padre Nosso: Onipotência de Deus – Sem limites.
    Ave Maria para honrar:
    1. A apresentação de Nosso Senhor diante do povo com o “Ecce Homo”.
    2. O haver sido preferido a Ele, Barrabás.
    3. Os falsos testemunhos que contra Ele deram.
    4. Sua condenação à morte.
    5. O amor com que abraçou e beijou a Cruz.
    6. O trabalho espantoso que teve em carregá-la.
    7. As quedas de pura debilidade sob seu peso.
    8. O Encontro doloroso com sua Santa Mãe.
    9. O véu da Verônica, no qual seu rosto se estampou.
    10. Suas lágrimas, as de sua Santa Mãe e das piedosas mulheres que O seguiam até o Calvário.

    5° Mistério: A Crucifixão
    Padre Nosso: Justiça de Deus – Espantosa.
    Ave Maria para honrar:
    1. As cinco chagas de Jesus e o Sangue que derramou na Cruz.
    2. Seu Coração transpassado e a Cruz em que foi crucificado.
    3. Os cravos e a lança que O atravessaram, a esponja, o fel e o vinagre que Lhe deram a beber.
    4. A vergonha e a infâmia que sofreu, sendo crucificado nu entre dois ladrões.
    5. A compaixão de sua Mãe Santíssima.
    6. Suas sete últimas palavras.
    7. Seu desamparo e seu silêncio.
    8. A aflição de todo o universo.
    9. Sua morte cruel e ignominiosa.
    10. A descida da Cruz e sepultamento.

    Mistérios Gloriosos
    1º Mistério: A Ressurreição
    Padre Nosso: Eternidade de Deus – Sem princípio.
    Ave Maria para honrar:
    1. A descida da Alma de Nosso Senhor aos Infernos.
    2. O gozo e a saída das almas dos Santos Padres que estavam no Limbo.
    3. A reunião de sua Alma e de seu Corpo no Sepulcro. .
    4. Sua milagrosa saída do Sepulcro.
    5. Suas vitórias sobre a morte, o pecado, o mundo e o demônio. .
    6. Os quatro dons gloriosos de seu Corpo.
    7. O poder que Lhe deu seu Pai no Céu e na Terra.
    8. As aparições com que honrou sua Santa Mãe.
    9. As conversações sobre o Céu e a Ceia que fez com os Apóstolos.
    10. A autoridade e missão que lhes deu, para que fossem pregar por toda a Terra.

    2° Mistério: Ascensão de Jesus
    Padre Nosso: Imensidade de Deus – Sem limite.
    Ave Maria para honrar:
    1. A promessa que Jesus fez aos Apóstolos de lhes enviar o Espírito Santo, e a ordem que lhes deu de se prepararem para O receber.
    2. A reunião no Monte das Oliveiras.
    3. A bênção que lhes deu ao Se elevar da Terra aos Céus.
    4. Sua gloriosa e admirável ascensão por sua própria virtude até o Céu Empíreo.
    5. O recebimento e o triunfo que Lhe fez Deus, seu Pai, e toda a corte celestial.
    6. O poder triunfante com que abriu as portas do Céu, onde nenhum mortal havia entrado.
    7. Seu assento à direita do Pai, como seu Filho querido, igual a Ele mesmo.
    8. O poder que Lhe deu de julgar os vivos e os mortos.
    9. Sua última vinda sobre a Terra, na qual seu poder e majestade aparecerão em todo o seu esplendor.
    10. A justiça queimará no último Juízo, recompensando os bons e castigando os maus por toda a eternidade.

    3º Mistério: Descida do Espírito Santo
    Padre Nosso: Providência de Deus – Universal.
    Ave Maria para honrar:
    1. A verdade do Espírito Santo, Deus que procede do Pai e do Filho, e que é o Coração da Divindade.
    2. O dom do Espírito Santo pelo Pai e pelo Filho sobre os Apóstolos.
    3. O grande estrondo com que desceu, sinal de sua força e seu poder.
    4. As línguas de fogo que enviou sobre os Apóstolos, para dar-lhes a inteligência das Escrituras, o amor de Deus e do próximo.
    5. A plenitude de graças com que distinguiu a Maria, sua fiel esposa.
    6. Sua conduta maravilhosa, com os santos e com o próprio Jesus Cristo, a quem guiou durante toda a vida.
    7. Os doze frutos do Espírito Santo.
    8. Os sete dons do Espírito Santo.
    9. Para pedir em particular o dom da sabedoria e a vinda de seu reino aos corações.
    10. Para obter a vitória sobre os três espíritos malignos que Lhe são opostos, a saber: o espírito da carne, do mundo e do demônio.

    4° Mistério: Assunção de Nossa Senhora
    Padre Nosso: Liberalidade de Deus – Inenarrável.
    Ave Maria para honrar:
    1. A predestinação eterna de Maria, como obra-prima das mãos de Deus.
    2. Sua Conceição Imaculada, a plenitude das graças e o uso da razão no seio de sua mãe.
    3. Sua natividade, que regozijou todo o Universo.
    4. Sua apresentação e sua vida no Templo.
    5. Sua vida admirável e isenta de todo pecado.
    6. A plenitude de suas virtudes singulares.
    7. Sua virgindade fecunda e seu parto sem dor.
    8. Sua maternidade divina e sua aliança com a Santíssima Trindade.
    9. Sua morte preciosa e cheia de amor.
    10. Sua Ressurreição e Assunção triunfante.

    5° Mistério: Coroação de Nossa Senhora
    Padre Nosso: Glória de Deus – Inacessível.
    Ave Maria para honrar:
    1. A tríplice coroa com que a Santíssima Trindade coroou Maria.
    2. O gozo e glória nova que recebeu o Céu por seu triunfo.
    3. O reconhecimento de Maria como Rainha do Céu e da Terra, dos anjos e dos homens.
    4. A tesoureira e dispensadora das graças de Deus, dos méritos de Jesus Cristo e dos dons do Espírito Santo.
    5. A Medianeira e Advogada dos homens.
    6. A destruidora e a ruína do demônio e das heresias.
    7. O refúgio seguro dos pecadores.
    8. A mãe e nutriz dos cristãos.
    9. A que é o gozo e doçura dos justos.
    10. A que é o asilo universal dos vivos, consolo todo-poderoso dos aflitos, dos moribundos e das almas do Purgatório.


    A Dignidade do Corpo Humano

    November 9th, 2010

     

    – A ressurreição dos corpos declarada por Jesus.

    – Os corpos devem dar glória a Deus junto com a alma.

    – A nossa filiação divina, iniciada na alma pela graça, será consumada pela glorificação do corpo.

    I. A LITURGIA DA MISSA deste domingo propõe à nossa consideração uma das verdades de fé enunciadas no Credo e que repetimos muitas vezes: a ressurreição dos corpos e a existência de uma vida eterna para a qual fomos criados. A primeira Leitura1 fala-nos dos sete irmãos Macabeus que, junto com a mãe, preferiram a morte a transgredir a Lei do Senhor. Enquanto eram torturados, confessaram com firmeza a sua fé numa vida além da morte: É melhor morrer às mãos dos homens quando se espera que o próprio Deus nos ressuscitará.

    Outras passagens do Antigo Testamento também expressam esta verdade fundamental revelada por Deus. No tempo de Jesus, tratava-se de uma crença universalmente admitida, a não ser pelo partido dos saduceus, que também não acreditavam na imortalidade da alma, na existência dos anjos e na ação da Providência divina2. No Evangelho da Missa3, lemos que alguns deles se aproximaram de Jesus dispostos a colocá-lo numa situação embaraçosa. Segundo a lei do levirato4, se um homem morria sem ter tido filhos, o irmão estava obrigado a casar-se com a viúva para deixar descendência. O caso – dizem a Jesus – aconteceu com sete irmãos sucessivamente: Quando chegar a ressurreição, de qual deles será a mulher, pois que o foi de todos os sete? Parecia-lhes que essa lei levava a uma situação ridícula se se sustentava a ressurreição dos corpos.

    Jesus resolve a dificuldade reafirmando a ressurreição e ensinando as propriedades dos corpos ressuscitados. A vida eterna não será igual à vida presente: Nem os homens desposarão mulheres, nem as mulheres homens [...], porquanto assemelham-se aos anjos e são filhos de Deus, visto serem filhos da ressurreição. E, citando a Sagrada Escritura5, ressalta o grave erro dos saduceus e argumenta: Moisés chamou ao Senhor Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacó, que tinham morrido há muito tempo. Ora, Deus não é Deus de mortos mas de vivos, porque, para Ele, todos vivem. Portanto, ainda que os justos tenham morrido quanto ao corpo, vivem com verdadeira vida em Deus, porque as suas almas são imortais e esperam a ressurreição dos corpos6. Os saduceus, dali em diante, já não se atreviam a interrogá-lo.

    Nós, cristãos, professamos no Credo a nossa esperança na ressurreição do corpo e na vida eterna. Este artigo da fé “expressa o termo e o fim do desígnio de Deus” sobre o homem. “Se não existe ressurreição, todo o edifício da fé desaba, como afirma vigorosissimamente São Paulo (cfr. 1 Cor 15). Se o cristão não está certo do conteúdo das palavras vida eterna, as promessas do Evangelho, o sentido da Criação e da Redenção desaparecem, e a própria vida terrena fica despojada de toda a esperança (cfr. Hebr 11, 1)”7.

    Diante da atração das coisas da terra, que por vezes podem parecer as únicas que contam, temos de considerar freqüentemente que a nossa alma é imortal, e que se unirá ao nosso corpo no fim dos tempos; ambos – o homem inteiro: alma e corpo – estão destinados a uma eternidade sem fim. Tudo o que levamos a cabo neste mundo deve ser feito com o olhar posto nessa vida que nos espera, pois “pertencemos totalmente a Deus, de alma e corpo, com a carne e com os ossos, com os sentidos e com as potências”8.

    II. A MORTE, como ensina a Sagrada Escritura, não foi feita por Deus; é a pena merecida pelo pecado de Adão9. Cristo mostrou com a sua ressurreição o poder sobre a morte: Mortem nostram moriendo destruxit et vita resurgendo reparavit; morrendo, destruiu a morte, e, ressuscitando, deu-nos a vida, canta a Igreja no Prefácio pascal. Com a ressurreição de Cristo, a morte perdeu o seu aguilhão, a sua maldade, para se tornar redentora em união com a Morte de Cristo. E nEle e por Ele, os nossos corpos ressuscitarão no fim dos tempos para se unirem à alma, a qual estará dando glória a Deus desde o instante da morte, se tiver sido fiel e nada tiver a purificar.

    Ressuscitar significa que volta a levantar-se aquele que caiu10, que retorna à vida aquele que morreu, que se levanta vivo aquele que sucumbiu no pó. Desde o princípio, a Igreja pregou a ressurreição de Cristo – fundamento de toda a nossa fé – e a ressurreição dos nossos corpos, da nossa carne, “desta em que vivemos, nos movemos e somos”11. A alma voltará a unir-se ao corpo para o qual foi criada e do qual se separou com dor. E o Magistério da Igreja precisa: os homens “ressuscitarão com os corpos que agora possuem”12.

    Ao considerarmos que também os nossos corpos darão glória a Deus, compreendemos melhor a dignidade de cada homem e as suas características essenciais e inconfundíveis, diferentes das de qualquer outro ser da Criação. O homem não somente possui uma alma livre, “belíssima entre as obras de Deus, feita à imagem e semelhança do Criador, e imortal porque assim Deus o quis”13, mas também um corpo que ressuscitará e que, se estiver em graça, é templo do Espírito Santo. São Paulo recordava freqüentemente esta verdade gozosa aos primeiros cristãos: Não sabeis que os vossos membros são templo do Espírito Santo, que habita em vós?14

    Os nossos corpos não são uma espécie de prisão que a alma abandona quando parte deste mundo, não “são um lastro que nos vemos obrigados a arrastar, mas as primícias de eternidade confiadas aos nossos cuidados”15. A alma e o corpo pertencem-se mutuamente de maneira natural, e Deus criou-os um para o outro. “Respeita-o – exortava São Cirilo de Jerusalém –, já que tem a grande sorte de ser templo do Espírito Santo. Não manches a tua carne [...], e, se te atreveste a fazê-lo, purifica-a agora com a penitência. Limpa-a enquanto tens tempo”16.

    III. A ALTÍSSIMA DIGNIDADE do homem já se encontra presente na sua criação, mas chega à sua plena manifestação com a Encarnação do Verbo, na qual se dá como que um desposório entre o Verbo e a carne humana17. “Todo o homem vem ao mundo concebido no seio materno e nasce da sua mãe, e [...] em virtude do mistério da Redenção é confiado à solicitude da Igreja. Esta solicitude afeta o homem todo, inteiro, e está centrada sobre ele de modo absolutamente particular. O objeto destes cuidados da Igreja é o homem na sua única e singular realidade humana, na qual permanece intacta a imagem e semelhança com o próprio Deus”18.

    Ensina São Tomás que a nossa filiação divina, iniciada pela ação da graça na alma, “será consumada pela glorificação do corpo [...], de forma que, assim como a nossa alma foi redimida do pecado, assim o nosso corpo será redimido da corrupção da morte”19. E a seguir cita as palavras de São Paulo aos Filipenses: Nós somos cidadãos dos céus, donde também esperamos o Salvador, nosso senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de miséria e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso, em virtude do poder que tem de submeter a si todas as coisas20. O Senhor transformará o nosso corpo débil e sujeito à doença, à morte e à corrupção, num corpo glorioso. Não temos o direito de desprezá-lo, como também não temos o direito de exaltá-lo como se fosse a única realidade no homem. Devemos dominá-lo mediante a mortificação porque, em conseqüência da desordem produzida pelo pecado original, tende sempre a atraiçoar-nos21.

    É novamente São Paulo quem nos exorta: Fostes comprados por um grande preço. Glorificai, pois, e trazei a Deus no vosso corpo22. E comenta a este respeito o Papa João Paulo II: “A pureza como virtude, quer dizer, como capacidade de manter o corpo em santidade e respeito (cfr. 1 Tess 4, 4), aliada ao dom da piedade, como fruto da inabitação do Espírito Santo no templo do corpo, realiza nele uma plenitude de dignidade tão grande nas relações interpessoais, que o próprio Deus é glorificado nele. A pureza é glória do corpo humano diante de Deus. É a glória de Deus no corpo humano”23.

    A nossa Mãe Santa Maria, que subiu ao Céu em corpo e alma, recordar-nos-á a cada momento que o nosso corpo também foi feito para dar glória a Deus, aqui na terra e no Céu por toda a eternidade.

    (1) 2 Mac 7, 1-2; 9-14; (2) cfr. J. Dheilly, Diccionario biblico, verbete Saduceus, pág. 921; (3) Lc 20, 27-38; (4) cfr. Deut 25, 5; (5) Êx 3, 2; 6; (6) cfr. Sagrada Bíblia, Santos Evangelhos, nota a Lc 20, 27-40; (7) Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, Carta sobre algumas questões referentes à escatologia, 17.05.79; (8) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 177; (9) cfr. Rom 5, 12; (10) cfr. São João Damasceno, Sobre a fé ortodoxa, 27; (11) cfr. J. Ibañez-F. Mendoza, La fe divina y católica de la Iglesia, Magisterio Español, Madrid, 1978, ns. 7, 216 e 779; (12) ibid.; (13) São Cirilo de Jerusalém, Catequese, IV, 18; (14) 1 Cor 6, 19; (15) cfr. Ronald A. Knox, El torrente oculto, Rialp, Madrid, 1956, pág. 346; (16) São Cirilo de Jerusalém, Catequese, 25; (17) Tertuliano, Sobre a ressurreição, 63; (18) João Paulo II, Carta Encíclica Redemptor hominis, 4.03.79, 13; (19) São Tomás de Aquino, Comentário à Epístola aos Romanos, 8, 5; (20) Fil 3, 21; (21) cfr. Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Caminho, n. 196; (22) 1 Cor 6, 20; (23) João Paulo II, Audiência geral, 18.03.81.

    Fonte: Falar com Deus