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    O Melhor Lugar

    October 30th, 2010

     

    – Os primeiros lugares.

    – Humildade de Maria.

    – Frutos da humildade.

    I. TODOS OS DIAS são bons para fazer uns minutos de oração junto da Virgem, mas hoje, sábado, é um dia especialmente apropriado, pois são muitos os cristãos de todas as regiões da terra que procuram que os sábados transcorram muito perto de Maria.

    Aproximamo-nos dEla, no dia de hoje, para que nos ensine a progredir na virtude da humildade, fundamento de todas as outras, pois a humildade “é a porta pela qual passam as graças que Deus nos outorga; é ela que amadurece todos os nossos atos, dando-lhes valor e fazendo com que sejam agradáveis a Deus. Finalmente, constitui-nos donos do coração de Deus, até fazer dEle, por assim dizer, nosso servidor, pois Deus nunca pode resistir a um coração humilde”1. É tão necessária à salvação que Jesus aproveita qualquer circunstância para elogiá-la.

    O Evangelho da Missa2 diz que Jesus foi convidado para um banquete. Na mesa, como também acontece freqüentemente nos nossos dias, havia lugares de honra. Os convidados, talvez atabalhoadamente, dirigiam-se para esses lugares mais considerados. Jesus observava-os. A certa altura, quando talvez a refeição estava já a ponto de terminar, num desses momentos em que a conversa se torna menos ruidosa, disse: Quando fores convidado para umas bodas, não te sentes no primeiro lugar [...]. Mas vai tomar o último lugar, para que, quando vier o que te convidou, te diga: Amigo, vem mais para cima. Então serás muito honrado na presença de todos os comensais. Porque todo aquele que se exalta será humilhado; e aquele que se humilha será exaltado.

    Jesus ocupou provavelmente um lugar discreto ou aquele que o anfitrião lhe indicou. Ele sabia onde estar, e ao mesmo tempo apercebeu-se da atitude pouco elegante, mesmo humanamente, de alguns comensais. Estes, por sua vez, enganaram-se por completo, porque não souberam perceber que o melhor lugar é sempre ao lado de Jesus. Era em ocupar esse lugar, ao lado de Jesus, que deveriam porfiar. Na vida dos homens, observa-se não poucas vezes uma atitude parecida à desses comensais: quanto empenho em serem considerados e admirados, e que pouco em permanecerem perto de Deus! Nós pedimos hoje a Santa Maria, neste tempo de oração e ao longo do dia, que nos ensine a ser humildes, que é a única maneira de crescermos no amor ao seu Filho, de estarmos perto dEle. A humildade conquista o Coração de Deus.

    “«Quia respexit humilitatem ancillae suae» – porque viu a baixeza da sua escrava…

    “Cada dia me persuado mais de que a humildade autêntica é a base de todas as virtudes!

    “Fala com Nossa Senhora, para que Ela nos vá adestrando em caminhar por essa senda”3.

    II. A VIRGEM MOSTRA-NOS o caminho da humildade. É uma virtude que não consiste essencialmente em reprimir os impulsos da soberba, da ambição, do egoísmo, da vaidade…, pois Nossa Senhora nunca teve nenhum desses movimentos e, no entanto, foi humilde em grau eminente. A palavra “humildade” vem do latim humus, terra, e significa inclinar-se para a terra. Trata-se de uma virtude que consiste fundamentalmente em inclinar-se diante de Deus e diante de tudo o que há de Deus nas criaturas4, em reconhecer a nossa pequenez e indigência em face da grandeza do Senhor.

    As almas santas “sentem uma alegria muito grande em aniquilar-se diante de Deus, em reconhecer que só Ele é grande e que, em comparação com a dEle, todas as grandezas humanas estão vazias de verdade e não são mais do que mentira”5. Este aniquilamento não reduz, não encurta as verdadeiras aspirações da criatura, mas enobrece-as e concede-lhes novas asas, abre-lhes horizontes mais amplos.

    Quando Nossa Senhora é escolhida como Mãe de Deus, proclama-se imediatamente sua escrava6. E no momento em que ouve a sua prima Santa Isabel dizer-lhe que é bendita entre as mulheres7, dispõe-se a servi-la. É a cheia de graça8, mas guarda na sua intimidade a grandeza que lhe foi revelada. Não desvenda o mistério nem sequer a José; deixa que a Providência o faça no momento oportuno. Cheia de alegria, canta as coisas grandes que se realizaram nEla, mas diz que essas maravilhas cabem ao Todo-Poderoso; da sua parte, só colaborou com a sua pequenez e o seu querer9.

    “Ignorava-se a si mesma. Por isso, aos seus próprios olhos, não contava absolutamente nada. Não viveu preocupada consigo própria, mas com a vontade de Deus. Por isso pôde medir plenamente o alcance da sua baixeza e da sua condição de criatura – desamparada e segura ao mesmo tempo –, sentindo-se incapaz de tudo, mas sustentada por Deus. A conseqüência foi que se entregou a Deus, que viveu para Deus”10. Nunca buscou a sua própria glória, nem se esforçou por aparecer, nem ambicionou os primeiros lugares nos banquetes, nem quis ser considerada ou receber elogios por ser a Mãe de Jesus. Procurou unicamente a glória de Deus.

    A humildade funda-se na verdade, na realidade; sobretudo numa certeza: a de que a distância que existe entre o Criador e a criatura é infinita. Quanto mais se compreende esta distância e o modo como Deus se aproxima da criatura com os seus dons, a alma, com a ajuda da graça, torna-se mais humilde e agradecida. Quanto mais alto se encontra uma criatura, mais compreende esse abismo; por isso a Virgem foi tão humilde.

    Ela, a Escrava do Senhor, é hoje a Rainha do universo. Cumpriram-se nEla, de modo eminente, as palavras de Jesus no final da parábola: quem se humilha, quem ocupa o seu lugar diante de Deus e dos homens, será exaltado. Quem é humilde ouve Jesus dizer-lhe: Amigo, vem mais para cima. “Saibamos pôr-nos ao serviço de Deus sem condições, e seremos elevados a uma altura incrível; participaremos da vida íntima de Deus – seremos como deuses! –, mas pelo caminho regulamentar: o da humildade e da docilidade ao querer do nosso Deus e Senhor”11.

    III. A HUMILDADE FAR-NOS-Á descobrir que todas as coisas boas que existem em nós vêm de Deus, tanto no âmbito da natureza como no da graça: Diante de ti, Senhor, a minha vida é como um nada12, exclama o Salmista. Somente a fraqueza e o erro é que são especificamente nossos.

    Ao mesmo tempo, porém, a humildade nada tem a ver com a timidez, com a pusilanimidade ou a mediocridade. Longe de apoucar-se, a alma humilde coloca-se nas mãos de Deus e enche-se de alegria e de agradecimento quando o Senhor quer fazer grandes coisas através dela. Os santos foram homens magnânimos, capazes de grandes empreendimentos para a glória de Deus. O humilde é audaz porque conta com a graça do Senhor, que tudo pode, porque recorre com freqüência à oração – reza muito –, convencido da absoluta necessidade da ajuda divina. E por ser simples e nada arrogante ou auto-suficiente, atrai as amizades, que são veículo para uma ação apostólica eficaz e de longo alcance.

    A humildade é o fundamento de todas as virtudes, mas é-o especialmente da caridade: na medida em que nos esquecemos de nós mesmos, podemos interessar-nos verdadeiramente pelos outros e atender às suas necessidades. Ao redor destas duas virtudes encontram-se todas as outras. “Humildade e caridade são as virtudes mães – afirma São Francisco de Sales –; as outras seguem-nas como os pintinhos seguem a galinha”13. Em sentido contrário, a soberba, aliada ao egoísmo, é a “raiz e mãe” de todos os pecados, mesmo dos capitais14, e o maior obstáculo que o homem pode opor à graça.

    A soberba e a tristeza andam frequentemente de mãos dadas15, enquanto a alegria é patrimônio da alma humilde. “Olhai para Maria. Jamais criatura alguma se entregou com tanta humildade aos desígnios de Deus. A humildade da ancilla Domini (Lc 1, 38), da escrava do Senhor, é a razão pela qual a invocamos como causa nostrae laetitiae, como causa da nossa alegria. Eva, depois de pecar por ter querido na sua loucura igualar-se a Deus, escondia-se do Senhor e envergonhava-se: estava triste. Maria, ao confessar-se escrava do Senhor, é feita Mãe do Verbo divino e enche-se de júbilo. Que este seu júbilo, de Mãe boa, nos contagie a todos nós: que nisto saiamos a Ela – a Santa Maria –, e assim nos pareceremos mais com Cristo”16.

    (1) Cura d’Ars, Sermão para o décimo domingo depois de Pentecostes; (2) Lc 14, 1, 7-11; (3) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Sulco, n. 289; (4) cfr. Réginald Garrigou-Lagrange, Las tres edades de la vida interior, vol. II, pág. 670; (5) ibid.; (6) cfr. Lc 1, 38; (7) Lc 1, 42; (8) Lc 1, 28; (9) cfr. Lc 1, 47-49; (10) Federico Suárez, A Virgem Nossa Senhora, pág. 129; (11) cfr. Antonio Orozco Delclos, Olhar para Maria, pág. 138; (12) Sl 38, 6; (13) São Francisco de Sales, Epistolário; (14) São Tomás de Aquino, Suma teológica, II-II, q. 162, aa. 7-8; (15) cfr. Cassiano, Colações, 16; (16) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 109.

    Fonte: Falar com Deus


    Frases de Santa Teresa D´Avila

    October 23rd, 2010

     

    santa teresa

    “Quem ama, faz sempre comunidade; não fica nunca sozinho”

    “A amizade é a mais verdadeira realização da pessoa”

    “Falais muito bem com outras pessoas, por que vos faltariam palavras para falar com Deus?”

    “A amizade com Deus e a amizade com os outros é uma mesma coisa, não podemos separar uma da outra”

    “Em tempos de tristeza e de inquietação, não abandones nem as boas obras de oração, nem a penitência a que estás habituada. Antes, intensifica-as. E verás com que prontidão o Senhor te sustentará”

    “Quem não deixa de caminhar, mesmo que tarde, afinal chega. Para mim, perder o caminho é abandonar a Oração”

    “O Senhor não olha tanto a grandeza das nossas obras. Olha mais o amor com que são feitas”

    “O verdadeiro humilde sempre duvida das próprias virtudes e considera mais seguras as que vê no próximo”

    “Humildade é a verdade”

    “Espera um pouco, filha, e verás grandes coisas”

    “Vocês pensam que Deus não fala porque não se ouve a Sua voz? Quando é o coração que reza Ele responde”

    “O Senhor sempre dá oportunidade para oração quando a queremos ter”

    “Falte-me tudo, Senhor meu, mas se vós não me desamparardes, não faltarei eu a vós”

    “Quem vos ama de verdade, Bem meu, vai seguro por um amplo caminho real, longe do despenhadeiro, estrada na qual, ao primeiro tropeço, Vós, Senhor, dais a mão; não se perde, por alguma queda, nem mesmo por muitas, quem tiver amor a Vós, e não às coisas do mundo”

    “Se tiver humildade, não tenha receio, o Senhor não permitirá que se engane nem engane os outros”

    Uma prova de que Deus esteja conosco não é o fato de que não venhamos a cair, mas que nos levantemos depois de cada queda”

    “Se não dermos ouvidos ao Senhor quando Ele nos chama, pode acontecer que não consigamos encontrá-lo quando o quisermos”

    “São felizes as vidas que se consumirem no serviço da Igreja”

    “Basta uma graça dessas para transformar uma alma por inteiro”

    “Não me parecia que eu conhecesse a minha alma, tão transformada eu a via”

    “0 olhar de Deus é amar e conceder graças”

    “Eu quero ver a Deus e para isso é necessário morrer. Não morro, mas entro na vida”


    Espiritualidade, oração, contemplação: elevar a alma a Deus

    October 17th, 2010
     

    "A força da alma consiste em orar sem cessar; isto reveste a mente do poder que emana da visão de Deus. Devemos ler a Escritura até que a mente se tenha aquietado de pensamentos errantes; então, quando se percebe que a mente retornou ao seu próprio lugar, dentro de si mesma, liberta das distracções exteriores, imediatamente deve-se colocar de lado o livro e retornar à oração. Desta maneira, a leitura da Escritura tem o propósito de levar à oração… Noutras palavras, deixe a mente fazer tudo o que for preciso para que ela se torne digna de falar a Deus na oração."
    (Philoxeno)

    "Creio sinceramente que aqueles que atingem a perfeição não pedem ao Senhor para livrá-los das provações, tentações, perseguições e conflitos – e este é outro sinal seguro de que estes favores e esta contemplação que Sua Majestade lhes concede, provêm do Espírito do Senhor e não são ilusões. Pois, como disse antes, as almas perfeitas não se deixam vencer pelas provações, mas antes, as desejam."
    (Santa Teresa de Ávila)

    "… são muitos os que permanecem ao pé da montanha podendo subir ao topo … Eu repito e peço-lhe que tenha sempre pensamentos corajosos. Como resultado deles, o Senhor dar-lhe-á a graça para feitos corajosos."
    (Santa Teresa de Ávila)

    "Quando estamos quietos, não apenas por alguns poucos minutos mas por uma ou várias horas, podemos tornarmo-nos desajeitadamente conscientes da Presença dentro de nós, de um Estranho, perturbador, o ‘Self’ que é tanto "Eu" quanto algum outro. O “Eu" que não é inteiramente bem-vindo dentro da sua própria casa, porque é tão diferente do personagem quotidiano que construímos de nós mesmos,. Há um ‘Eu’ silencioso dentro de nós, cuja presença é perturbadora precisamente porque é tão silenciosa."
    (Thomas Merton)

    Eis o que deve fazer: eleve o seu coração a Deus, num suave impulso de amor, desejando-O por Si mesmo… Centre toda a sua atenção e desejo nEle e deixe que isto seja a única ocupação da sua mente e coração. Faça todo o possível para esquecer tudo o resto, mantenha os seus pensamentos e desejos livres de qualquer envolvimento com todas as criaturas de Deus e/ou com os seus negócios… Talvez isto lhe pareça uma atitude irresponsável, mas eu digo-lhe, deixe tudo isso de lado, não dê atenção a tais coisas.
    O que estou a descrever agora é a acção contemplativa do espírito. Isto é o que dá a Deus a maior alegria… Os seus irmãos e irmãs são enriquecidos maravilhosamente por esse ato seu, mesmo que lhe seja difícil compreender isto completamente; e, naturalmente, o seu próprio espírito é purificado e fortalecido por esse trabalho contemplativo, mais do que por todos os outros exercícios espirituais juntos. Por tudo isso, quando a graça de Deus o eleva com entusiasmo, isto se torna extremamente leve e fácil de ser feito. Sem a Sua graça contudo, é muito difícil – diria mesmo impossível – de se realizar.
    (A Nuvem do Não-Saber)

    Silencie-se diante deste Deus grandioso, pois… a linguagem que Ele mais ouve é a do amor silencioso.
    (Santa Teresa de Ávila)

    Então… esforce-se e persevere até que encontre nisto alegria. No início, terá certamente a sensação de nada saber, nada sentir, excepto essa intenção surda dirigida a Deus das profundezas do seu ser. Esforce-se tanto quanto possa mas essa escuridão e essa nuvem permanecerão entre o seu espírito e Deus. Sentir-se-á frustrado pois a sua mente não será capaz de O compreender e o seu coração não poderá saborear as delícias do Seu amor.
    Porém, aprenda a estar à vontade nesta escuridão. Retorne a ela sempre que puder, deixe que o seu espírito chore por Deus, a quem ama… Se se esforçar Por fixar n’Ele o seu amor, esquecendo tudo o resto, que é o exercício da contemplação que lhe pedi para começar, tenho certeza de que Deus na Sua bondade lhe concederá uma profunda experiência de Si mesmo.
    (Nuvem do Não-Saber, cap. 3)

    A oração que tem valor para Deus consiste nisto: que uma pessoa…
    1) Retire totalmente a sua atenção do mundo e não permita que a sua mente se prenda a nada;
    2) Coloque a sua mente inteiramente à disposição de Deus;
    3) Se esqueça, durante o tempo da oração, de tudo o que é material, incluindo-se a si própria e ao lugar onde se encontra;
    4) Se revista de Deus durante o tempo da oração, tanto externamente como internamente, abrasada de ardente amor por Ele, inteiramente unida a Ele; os seus pensamentos envoltos na maravilhosa quietude de Deus, enquanto a alma sai em busca d’Aquele a quem ama, como David disse: A minha alma saiu em busca de Vós (Salmo 63:9).
    (Piloxeno)

    Um dos Pais do Deserto disse: "Do mesmo modo como lhe é impossível ver o seu rosto em águas turbulentas, assim também a alma, a menos que esteja livre de pensamentos vãos, não é capaz de orar a Deus na contemplação."
    "A oração mais poderosa e mais aceite é a que deixa os melhores efeitos… Eu descreveria os melhores efeitos como aqueles que são seguidos de acções… se a minha oração vem com fortes tentações, aridez e tribulações, e isto me deixa mais humilde, então eu a considero uma boa oração… pode-se pensar que uma pessoa que está a sofrer (aridez) não está a rezar. Pelo contrário, ela está a oferecer o seu sofrimento e muitas vezes está a rezar muito mais do que um que força o seu caminho, bate com a cabeça e depois de ter derramado algumas lágrimas, pensa que isso é oração."
    (Santa Teresa de Ávila)

    Tentei tanto quanto possível… manter Jesus Cristo, nosso Deus e nosso Senhor, presente dentro de mim. Esta é a minha forma de rezar.
    (Santa Teresa de Ávila)

    Tente compreender este ponto. Criaturas racionais tais como homens e anjos possuem duas faculdades principais: o poder de saber e o poder de amar. Ninguém pode compreender verdadeiramente o Deus incriado sem este saber; mas cada um, a seu modo, pode compreendê-Lo através do amor. Este é verdadeiramente o milagre sem fim do amor: uma pessoa desejosa pode, através do amor, abraçar a Deus, cujo Ser preenche e transcende toda a criação. E este maravilhoso exercício de amor prosseguirá eternamente, pois Aquele a quem amamos é eterno.
    Aquele que com a ajuda da graça de Deus se torna consciente dos movimentos constantes da Vontade e aprende a direccioná-los a Deus, ainda nesta vida e certamente na próxima, irá saboreá-Lo plenamente.
    Não negligencie o exercício contemplativo. Tente apreciar também os seus efeitos maravilhosos no seu próprio espírito. Quando verdadeiro, ele nada mais é Do que um súbito impulso que surge repentinamente em direcção a Deus, como a faísca do fogo. É surpreendente quantos desses impulsos apaixonados brotam do espírito de uma pessoa que está acostumada a este exercício. Ainda assim, talvez apenas um desses (impulsos amorosos) esteja completamente livre do desapego de alguma coisa criada. Novamente, mal um homem se volta para Deus com amor, por causa da fragilidade humana, ele se encontra uma vez mais distraído pela lembrança de alguma coisa criada ou preocupação terrena. Mas não importa. Não há mal nisso; pois tal pessoa prontamente retorna à sua profunda quietude.
    "Quando fomos baptizados, pela graça de Deus, recebemos o Espírito Santo das águas baptismais. Porém, nós O recebemos não para que Ele permanecesse connosco algumas vezes e outras vezes nos deixasse, mas para que sejamos os templos d’Ele, e que Ele habite continuamente dentro de nós. Como S. Paulo disse: "Vós sois templos de Deus e o Espírito de Deus habita em vós."
    (Piloxeno)

    "A graça de Deus irá agir nele através daquele amor contemplativo que o Espírito desperta nele. A sua aparência e conversação serão ricas de sabedoria espiritual, fogo e os frutos do amor, pois ele falará com uma segurança calma, desprovida de falsidade e da adulação fingida dos hipócritas."
    (Nuvem do Não-Saber, cap. 54)
    "É no deserto da solidão e do vazio, que a necessidade por auto-afirmação se evidencia como pura ilusão.
    Então, no coração da angústia descobre-se os dons da paz e compreensão.
    O Contemplativo deve assumir a angústia universal e a condição inescapável dos mortais.
    O Solitário, longe de se refugiar em si mesmo, torna-se Cada Um. Aquele Um que habita na solidão, na pobreza, na indigência de Cada Um."
    (Thomas Merton)

    "Digo-lhe que se se fixar nalguma coisa durante o exercício da contemplação, essa coisa tornar-se-á um obstáculo à união com Deus. Pois se a sua mente está ocupada com qualquer coisa, não há nela lugar para Ele."
    (A Nuvem do não saber)

    "É louvável reflectir sobre a bondade de Deus, louvá-Lo e glorificá-Lo por isso; é melhor ainda deixar a sua mente repousar na Sua Presença, na Sua pura existência e…. amá-Lo e louvá-Lo por Ele mesmo."
    (A Nuvem do Não-Saber – cap. 5)

    "Deus é Silêncio, e no silêncio Ele é louvado e glorificado… Não estou a falar do silêncio da língua, pois se alguém apenas mantém a sua língua silenciosa, sem saber como cantar e louvar na mente e no espírito, então esse alguém está somente ocioso no silêncio – a língua do seu ‘eu oculto’ ainda não aprendeu a alongar-se, nem a balbuciar. A língua interior da mente deve fugir de todo o discurso e de todo o pensamento … simplesmente fique ali, pronta a aprender os primeiros balbucios do diálogo espiritual.
    "Assim, há um silêncio da língua, do corpo todo, da alma, da mente, e há também o silêncio do espírito.
    O silêncio do corpo dá-se quando estamos como mortos, desocupados de tudo, em quietude, livres de preocupações.
    O silêncio da mente dá-se quando ela se acha purificada das engenhosidades, inventividades e astúcias próprias.
    O silêncio da alma dá-se quando os pensamentos não mais a perturbam, já não podendo impedir o seu recolhimento.
    O silêncio do espírito dá-se quando todos os seus movimentos são animados exclusivamente pelo Ser; Essa situação significa…. estar consciente de que esse silêncio é, por si só, calado".
    (Abraão de Nathpar)

    "A maior parte da minha oração é totalmente inarticulada. Limito-me a deixar que todos os pensamentos passem, para que toda a minha alma se entregue ao amor."
    (Thomas Merton)

    "Não dê atenção, quando sentir vontade de interromper a sua oração, mas louve ao Senhor pelo desejo que tem de rezar… Quando se sentir oprimido assim, tente algumas vezes ir a um lugar onde possa contemplar o céu, caminhar; fazer isso não interfere com a sua oração… É imprescindível que a alma seja conduzida com delicadeza."
    (Santa Teresa de Ávila)

    "Esse exercício (da contemplação) exige grande serenidade… Não se force a si mesmo, desnecessariamente, na tentativa desse exercício."
    (Nuvem do Não-Saber)

    "É inevitável que pensamentos surjam na sua mente e tentem distraí-lo de mil maneiras. Certamente perguntar-lhe-ão: "o que procura, o que deseja?"
    A tudo isso responda firmemente: "Eu procuro e desejo a Deus somente, somente a Ele."
    Sempre que se sentir movido pela graça a este exercício de contemplação e estiver determinado a isso, simplesmente dirija o seu coração a Deus com um humilde impulso de amor e direccione-o Àquele que o criou e o resgatou, e que na Sua graça o chamou a este exercício. Não permita que pensamento algum sobre Deus entre na sua mente. Pois uma simples intenção dirigida a Deus, basta.
    Se quiser reunir todo o seu desejo numa só palavra que seja capaz de guardar facilmente, é melhor que seja uma pequena palavra, de uma sílaba ou duas, tal como "Deus", "Amor", "Paz, "Jesus", "Abba", etc… Escolha uma pequena palavra, que o toque particularmente. Em seguida, prenda esta palavra ao seu coração, de modo que ela não desapareça da sua mente. Esta palavra há de ser o seu escudo e a sua espada, quer esteja em paz ou em luta interior. Com essa palavra, será capaz de açoitar essa nuvem da escuridão acima de si e colocará todas as distracções sob a nuvem do esquecimento abaixo de si; se algum pensamento exercer pressão sobre a sua mente, perguntando-lhe o que está a fazer, responda só com esta palavra e nada mais. Se a sua mente intelectualizar sobre o significado e as conotações dessa palavrinha, lembre-se a si mesmo que o seu valor está na sua simplicidade. Faça isto e garanto-lhe que esses pensamentos desaparecerão.
    Por que? Porque se recusou a deixar-se levar por pensamentos e divagações inúteis para o momento.
    (A Nuvem do Não-Saber – Cap. 7)

    “Frequentemente, por muitos anos, estive mais vezes ansiosa para que terminasse a hora estipulada para a oração, do que pela oração em si; e mais ansiosa ainda para ouvir o badalar do relógio do que para apreciar qualquer outra coisa. E confesso honestamente que aceitaria qualquer penitência que viesse à minha mente para não ter que recolher-me em oração. Era tão insuportável a força usada pelo demónio, ou até mesmo vinda dos meus hábitos nocivos, que me fazia fugir da oração e tão intolerável a tristeza que eu sentia ao entrar no Oratório, que eu tinha que juntar toda a minha coragem (e dizem, eu tenho muita…) para forçar-me; e no final, o Senhor socorria-me.”
    (Santa Teresa de Ávila)

    “A minha mente ficava tão dispersa e distraída que eu não podia evitar e começava a invejar aqueles que viviam nos desertos, e a pensar que, como eles não vêem nem ouvem nada, estão livres dessa mente divagadora. Então ouvi:
    ‘enganas-te, filha; …. Sê paciente pois, enquanto viveres, não poderás evitar uma mente divagadora .’”
    Algumas vezes eu dizia na minha aflição: ‘Meu Senhor, como é que o Senhor pode ordenar coisas que parecem impossíveis?’
    (Santa Teresa de Ávila)

    "Assim, deve rejeitar todas as conceitualizações óbvias que fatalmente surgirão, enquanto estiver nesse cego exercício do amor contemplativo. Se não for capaz de as vencer, elas certamente o vencerão. Pois, quando mais desejar estar a sós com Deus, elas escorregarão para dentro da sua mente tão rapidamente que, somente por uma constante vigilância, as perceberá. Tenha por seguro que, se se ocupar com algo menor que Deus, nesse preciso momento, Estará a colocar essa coisa acima de si e cria uma barreira, um obstáculo à união com Deus. Por isso, rejeite firmemente todas as imagens ou ideias, não importa quão piedosas ou encantadoras sejam. Digo-lhe: um só impulso amoroso direccionado apenas a Deus…. é mais valioso em si mesmo, mais agradável ao Senhor e aos Santos, mais benéfico para o seu próprio crescimento e mais útil para o seus amigos, tanto vivos como mortos, do que qualquer outra coisa que possa fazer. E, Naturalmente, será mais abençoado ao experimentar o afecto íntimo desse amor, dentro da escuridão da nuvem do não-saber , do que ao contemplar os Anjos e Santos do céu, e/ou ao ouvir o regozijo e a melodia da sua festa celestial.
    Naturalmente, é impossível nesta vida ver e possuir a Deus completamente, mas, pela Sua graça e no Seu próprio tempo, é possível experimentar algo d’Ele, como Ele é em Si Mesmo. E assim, com grande desejo por Ele, por possuí-Lo já nesta vida, entrar nessa nuvem. Ou melhor dizendo, permita que Deus o desperte e o atraia para essa nuvem; enquanto isso, esforce-se, com os auxílios da graça divina, por esquecer tudo o resto.
    Certamente …. se procura a Deus somente, nunca se satisfará com algo menor que Deus.
    (Nuvem do Não-Saber, cap.9)

    “É muito importante que ninguém se aflija ou se deixe perturbar por aridez ou pensamentos de inquietude e distracção. Se uma pessoa deseja ser livre no espírito e não ser sempre perturbada, tem de começar por não se deixar amedrontar pela Cruz, e ela verá como o Senhor também a auxilia a carregá-la, e assim, ficará satisfeita e se beneficiará de tudo.”
    (Santa Teresa de Ávila)

    "Sempre que se sentir atraído pela graça ao exercício contemplativo, e estiver determinado a fazê-lo, simplesmente eleve o seu coração a Deus num gentil impulso de amor…. uma intenção despojada que caminha em direcção a Deus.
    Qualquer pessoa que realmente deseje ser um contemplativo experimentará a dor de um trabalho árduo, uma luta implacável para banir os incontáveis e irrequietos pensamentos que perturbam a sua mente e a mantê-los abaixo da Nuvem do Esquecimento.
    (a nuvem do não saber)

    “O intelecto pára de trabalhar quando Deus o suspende… Desejar por si mesmo interromper e suspender o pensamento é o que creio não deve ser feito; nem devemos deixar de trabalhar com o intelecto, porque de contrário seríamos pessoas simplórias."
    “Em primeiro lugar, devemos compreender que se uma pessoa procura a Deus, o seu Bem-Amado procurou-a primeiro, procura-a com maior intensidade… e que o desejo por ter Deus nas nossas almas é a preparação para a união com Ele.”
    (Santa Teresa de Ávila)

    Fonte: Tradição Católica


    Ser Agradecidos

    October 9th, 2010

     

    – Jesus cura dez leprosos.

    – O Senhor espera que saibamos dar-lhe graças, pois os dons que recebemos diariamente são incontáveis.

    – Ser agradecidos com todos os homens.

    I. A PRIMEIRA LEITURA da Missa1 recorda-nos o episódio de Naamã, o Sírio, curado da sua lepra pelo profeta Eliseu. O Senhor serviu-se desse milagre para atraí-lo à fé, um dom muito maior do que a saúde corporal. Agora reconheço que não há outro Deus em toda a terra a não ser o de Israel, exclamou Naamã ao verificar que estava livre da doença. No Evangelho da Missa2, São Lucas relata-nos um episódio similar: um samaritano – que, como Naamã, também não pertencia ao povo de Israel – encontra a fé depois de curado, como prêmio ao seu agradecimento.

    Na sua última viagem a Jerusalém, Jesus passava entre a Samaria e a Galiléia. E, ao entrar numa aldeia, saíram ao seu encontro dez leprosos que se detiveram a certa distância do lugar em que se encontravam o Mestre e o grupo que o acompanhava, pois a lei proibia que esses doentes se aproximassem das pessoas3. Entre os leprosos contava-se um samaritano, apesar de não haver trato entre os judeus e os samaritanos4, dada a inimizade secular que separava os dois povos; mas a desgraça unira-os, como acontece tantas vezes na vida. E levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem compaixão de nós. Recorreram à misericórdia de Jesus, e o Senhor, compadecendo-se deles, mandou-os apresentar-se aos sacerdotes, como estava prescrito na Lei5. Apesar de ainda não estarem curados, esses homens obedeceram a Cristo e foram apresentar-se aos sacerdotes. E pela sua fé e docilidade, viram-se livres da doença.

    Estes leprosos ensinam-nos a pedir: recorrem à misericórdia divina, que é a fonte de todas as graças. E mostram-nos o caminho da cura, seja qual for a lepra que tenhamos na alma: ter fé e sermos dóceis àqueles que, em nome do Mestre, nos indicam o que devemos fazer. A voz do Senhor ressoa com especial força e clareza nos conselhos que recebemos na direção espiritual.

    II. E ACONTECEU que, enquanto iam, ficaram limpos. Podemos imaginar facilmente a alegria que os dominou. Mas, no meio de tanto alvoroço, esqueceram-se de Jesus. Na desgraça, acodem a Ele; na ventura, esquecem-no. Somente um, o samaritano, voltou ao lugar onde o Senhor estava com os seus discípulos. Provavelmente voltou correndo, louco de contentamento, glorificando a Deus em voz alta, sublinha o Evangelista. E foi prostrar-se aos pés do Mestre, dando-lhe graças.

    Foi uma ação profundamente humana e cheia de beleza. “Que coisa melhor podemos trazer no coração, pronunciar com a boca, escrever com a pena, do que estas palavras: «graças a Deus»? Não há nada que se possa dizer com maior brevidade, nem ouvir com maior alegria, nem sentir com maior elevação, nem realizar com maior utilidade”6. A gratidão é uma grande virtude.

    O Senhor deve ter-se alegrado com as mostras de gratidão desse samaritano, mas ao mesmo tempo encheu-se de tristeza ao verificar a ausência dos outros. Jesus esperava o regresso de todos: Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão?, perguntou. E manifestou a sua surpresa: Não houve quem voltasse e desse glória a Deus, a não ser este estrangeiro? Quantas vezes Jesus não terá perguntado por nós, depois de tantas graças! Hoje, na nossa oração, queremos compensá-lo pelas nossas muitas ausências e faltas de gratidão, pois os anos que contamos não são outra coisa que a sucessão de uma série de graças divinas, de curas, de chamadas, de misteriosos encontros. Os benefícios recebidos – bem o sabemos – superam de longe as areias do mar7, como afirma São João Crisóstomo.

    Com freqüência, temos melhor memória para as nossas necessidades e carências do que para os nossos bens. Vivemos pendentes daquilo que nos falta, e reparamos pouco naquilo que temos, e talvez seja por isso que ficamos aquém no nosso agradecimento. Pensamos que temos pleno direito ao que possuímos e esquecemo-nos do que diz Santo Agostinho ao comentar esta passagem do Evangelho: “Nada é nosso, a não ser o pecado que possuímos. Pois que tens tu que não tenhas recebido? (1 Cor 4, 7)”8.

    Toda a nossa vida deve ser uma contínua ação de graças. Recordemo-nos com freqüência dos dons naturais e das graças que o Senhor nos dá, e não percamos a alegria quando percebemos que nos falta alguma coisa, porque mesmo isso que nos falta é, possivelmente, uma preparação para recebermos um dom mais alto. Lembrai-vos das maravilhas que Ele fez9, exorta o salmista. O samaritano, através do seu mal, pôde conhecer Jesus Cristo, e por ser agradecido conquistou a sua amizade e o incomparável dom da fé: Levanta-te e vai; a tua fé te salvou. Os nove leprosos desagradecidos ficaram sem a melhor parte que o Senhor lhes tinha reservado. Porque – como ensina São Bernardo – “a quem humildemente se reconhece obrigado e agradecido pelos benefícios, com razão lhe são prometidos muitos mais. Pois quem se mostra fiel no pouco, com justo direito será constituído sobre o muito, assim como, pelo contrário, se torna indigno de novos favores quem é ingrato em relação aos que antes recebeu”10.

    Agradeçamos tudo ao Senhor. Vivamos com a alegria de estar repletos de dons de Deus; não deixemos de apreciá-los. “Já viste como agradecem as crianças? – Imita-as dizendo, como elas, a Jesus, diante do favorável e diante do adverso: «Que bom que és! Que bom…!»”11 Sabemos agradecer, por exemplo, a facilidade com que podemos purificar-nos dos nossos pecados no Sacramento do perdão? Damos graças freqüentemente pelo imenso dom de termos Jesus Cristo conosco na Sagrada Eucaristia, e isso na mesma cidade, talvez na mesma rua?

    III. CANTAI AO SENHOR um cântico novo, porque Ele fez maravilhas12, convida o Salmo responsorial. Quando vivemos de fé, só encontramos motivos para estar agradecidos. “Não há ninguém que, por pouco que reflita, não encontre facilmente motivos que o obrigam a ser agradecido com Deus [...]. Ao conhecermos o que Ele nos deu, encontraremos muitíssimos dons pelos quais devemos dar graças continuamente”13.

    Muitos favores do Senhor nos chegam através das pessoas com quem convivemos diariamente, e por isso, nesses casos, o agradecimento a Deus deve passar por essas pessoas que tanto nos ajudam para que a vida nos seja menos dura, a terra mais grata e o Céu mais próximo. Ao agradecer-lhes, agradecemos a Deus, que se torna presente nos nossos irmãos, os homens.

    Não podemos ficar aquém neste agradecimento aos homens. “Não pensemos que estamos quites com os homens porque lhes damos, pelos seus trabalhos e serviços, a compensação pecuniária de que necessitam para viver. Eles nos deram algo mais do que um dom material. Os professores instruíram-nos, e aqueles que nos ensinaram o nosso ofício, como também o médico que nos atendeu um filho e o salvou da morte, e tantos outros, abriram-nos os tesouros da sua inteligência, da sua ciência, da sua perícia, da sua bondade. Isso não se paga com um talão de cheques, porque eles nos deram a sua alma. Mas também o carvão que nos aquece representa o trabalho penoso do mineiro; e o pão que comemos, a fadiga do agricultor: entregaram-nos um pouco da sua vida. Vivemos da vida dos nossos irmãos. Isso não se retribui com dinheiro. Todos puseram o coração no cumprimento do seu dever social: têm direito a que o nosso coração o reconheça”14. De modo muito particular, a nossa gratidão deve dirigir-se aos que nos ajudaram a encontrar o caminho que leva a Deus.

    O Senhor sente-se feliz quando nos vê agradecidos com todos aqueles que nos favorecem diariamente de mil maneiras. Para isso, é necessário que nos detenhamos um pouco, que digamos simplesmente “obrigado”, com um gesto amável que compensa a brevidade da palavra… É bem possível que aqueles nove leprosos curados bendissessem o Senhor no seu coração…, mas não retornaram, como fez o samaritano, para encontrar-se com Jesus que os esperava.

    Também é significativo que fosse um estrangeiro quem voltasse para agradecer. Isso recorda-nos que, por vezes, cuidamos de agradecer um serviço ocasional prestado por uma pessoa desconhecida, e ao mesmo tempo não sabemos dar importância às contínuas delicadezas e atenções que recebemos dos mais próximos.

    Não existe um só dia em que Deus não nos conceda alguma graça particular e extraordinária. Não deixemos passar o exame de consciência de cada noite sem dizer ao Senhor: “Obrigado, Senhor, por tudo”. Não deixemos passar um só dia sem pedir abundantes bênçãos do Senhor para aqueles que, conhecidos ou não, procuraram fazer-nos algum bem. A oração é também um meio eficaz de agradecer: Dou-te graças, meu Deus, pelos bons propósitos, afetos e inspirações que me comunicaste…

    (1) 2 Re 5, 14-17; (2) Lc 17, 11-19; (3) cfr. Lev 13, 45; (4) cfr. 2 Re 17, 24 e segs.; Jo 4, 9; (5) cfr. Lev 14, 2; (6) Santo Agostinho, Epístola 72; (7) cfr. São João Crisóstomo, Homilias sobre São Mateus, 25, 4; (8) Santo Agostinho, Sermão 176, 6; (9) Sl 104, 5; (10) São Bernardo, Comentário ao Salmo 50, 4, 1; (11) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Caminho, n. 894; (12) Sl 97, 1-4; Salmo responsorial da Missa do vigésimo oitavo domingo do Tempo Comum, ciclo C; (13) São Bernardo, Homilia para o Domingo VI depois de Pentecostes, 25, 4; (14) Georges Chevrot, “Pero Yo os digo…”, Rialp, Madrid, 1981, págs. 117-118.