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    Mariolatria – é possível amar Maria demais?

    September 30th, 2010

    Reprodução

    Considera-se culto de latria o amor absoluto que se deve ao Ser Absoluto, de modo que nenhum outro amor rivalize contra esse. É um dever natural e não se proclame justo quem não dá louas ao Ser Absoluto, Criador e Providente. Com efeito, há cultos de latria, estritamente, onde se reconhece um Absoluto. Portanto, como o diferencial é que o homem reconheça um Absoluto e a ele preste culto, pode acontecer de se eleger mal o ente amado e se oferecer este amor de latria a entes incompetentes desse amor. Por exemplo, é possível adorar a saúde, um bem necessário, mas nunca absoluto; é possível adorar o marido ou a esposa, ou os filhos, todos objetos dignos de serem amados, mas nunca com amor de latria. Enfim, pode-se até amar o sucesso e o dinheiro, como fizeram os nossos irmãos mais velhos, os judeus, no tempo de Moisés com o bezerro de ouro; ou certas denominações cristãs atuias, no caso da teologia da prosperidade. Deste modo, é possível “adorar” entes intra-mundanos, como o poder, o dinheiro (ouro e prata) ou a carreira. Esse tipo de adoração, contudo, é tão contrária à razão, que os que a praticam são chamados tolos. A Sagrada Escritura não os chama de descrentes, nem de injustos, pois eventualmente eles podem ser justos e crentes. Chama-lhes insensatos, pois não pensam em quem depositam sua segurança (cf. Lc 12,20).

    De modo análogo, como todos os objetos – até mesmo os bons, como a honra e a inteligência – podem ser postos em situação de adoração incompatível com sua dignidade, também Nossa Senhora pode ser amada com um amor incompatível.  Pois bem, o amor que se presta ao objeto amado deve ser proporcional ao valor que o objeto possui em si mesmo. Com efeito, o amor que se deve à Maria, pelo bem que sua adesão à Vontade de Deus proporcionou à humanidade, dificilmente será superdimensionado. Por isso, todo amor que o homem puder devotar à Maria, por causa dos méritos que alcançou diante de Deus, jamais superará o valor que seus méritos merecem.

    Por estes motivos, é impossível a Mariolatria, com a única condição de se ter clara a razão deste culto:  a Maternidade Divina. Deve-se notar que – individualmente – qualquer católico pode recair em cultos de idolatria a falsos deuses: assim foi com Israel no passado; assim pode ser conosco hoje em dia. Basta que se ame mais a um objeto que a Deus. O próprio Senhor adverte que quem ama mais os pais que a Ele não é digno dele. Ora, amar mais aos pais que a Jesus é idolatria. Quanto à doutrina, nunca será possível acusar o catolicismo de idolatria pois todos os louvores e honras que se prestam à Virgem Santíssima, todas as merecidas festas realizadas em seu nome, tudo está em vista dos méritos que seu “Fiat” alcançou ao homem. Além disso, é sinal de obediência à Palavra de Deus louvar seu nome pois dela nasceu a Salvação: “todas as gerações me chamarão Bem-aventurada” (Lc 1,48). Proclamá-la bem-aventurada e reconhecê-la acima de qualquer outra mulher é a mais simples obediência ao Evangelho!

    Fonte: Humanitatis


    Dever de Diversão

    September 25th, 2010

    Somos pessoas criadas à imagem e semelhança de Deus. É lógico que São Paulo diga: Sede, pois, imitadores de Deus (Ef 5, 1). Imitamos Deus quando trabalhamos. Diz Jesus: O meu Pai trabalha sempre e eu também trabalho (Jo 5,17). Pois bem, o descanso necessário deve consistir também em imitar Deus, porque faz parte do trabalho bem feito.

    Chega uma altura em que a pessoa que trabalha seriamente tem vontade de se divertir. Diz a Escritura que para tudo há um tempo debaixo dos céus: tempo para nascer e tempo para morrer;[...] tempo para chorar e tempo para rir; tempo para gemer e tempo para dançar (Ecl 3, 1-4). E, um pouco mais adiante: Jovem, rejubila-te na tua adolescência, e, enquanto ainda és jovem, entrega teu coração à alegria (Ecl 11, 9). Não é bem visto na Sagrada Escritura o chamado “caxias” que apenas vive para o estudo: Muito estudo se torna uma fadiga para o corpo (Ecl 12, 12). Também não se deve esquecer o conselho: lembra-te de teu Criador… (Ecl 12, 1).

    Não seria um programa normal de vida cristã aquele que excluísse sistematicamente a diversão. Num dos tratados de teologia mais importantes de todos os tempos, a Suma Teológica, de São Tomás de Aquino, a diversão aparece como uma nota indispensável da vida do cristão: «Faltam por defeito à diversão – diz o Doutor Angélico – aqueles que não dizem sequer uma piada, e se aborrecem se os outros gracejam; porque não toleram a expansão moderada dos seus semelhantes. Esses são viciados e chamam-se rudes e ríspidos» (S. Th. II-II, q. 168, a. 4c). Ninguém imagine a vida cristã como um luto sem fim. Se Nosso Senhor Jesus Cristo tivesse sido um desmancha-prazeres tristonho – como alguns filmes parecem sugerir–, as crianças não se teriam aproximado dEle.

    «TEMPO DE DANÇAR»

    Na família cristã, deve haver muita serenidade, muita luz, muita alegria. Há um tempo para cada necessidade. Nem sempre é fácil, mas é uma questão de ordem. Há tempo para dançar. Sabemos que a dança pode converter-se no sepulcro do espírito, da honra da pessoa, da pureza da alma e do corpo. Mas daí não se pode depreender que se deva negar à dança um valor saudável. Basta que não exceda as normas do bom-senso. Entenda-se o que se pretende dizer: que não seja sensual (que não desperte paixões extemporâneas), que se guardem as devidas distâncias; que não incite a nenhuma desordem moral, pois, então, já não seria “diversão”, mas sim abandono e perda de qualidade humana e espírito cristão.

    Os pais, primeiros educadores, devem velar para que esta faceta normal da vida, sobretudo quando se é muito jovem e se possui o quase irresistível instinto de dançar, se desenvolva com normalidade, ou seja, segundo as “normas” da nobreza, da honestidade e do decoro.

    RECUPERAR AS FESTAS SAUDÁVEIS

    Deveriam ser recuperadas aquelas festas que há alguns anos, apesar de muitos já as terem esquecido, eram celebradas em casa dos próprios pais ou de algum amigo ou amiga, sob luzes claras e o olhar atento, mas discreto, de uma pessoa adulta. Assim era fácil divertir-se nobremente. É claro que é sempre possível, se se quiser, ultrapassar os contornos vivificantes da moral (até numa igreja); mas quando se tomam as precauções necessárias, é mais difícil incorrer em algo que a vontade não queira.

    Nas discotecas atuais, passa-se o contrário: talvez uma pessoa privilegiada, muito ingênua ou idiota, possa passar uma noite a dançar ou a beber sem ofender a Deus. Mas o mais fácil e provável é acontecer o contrário. As discotecas, onde se torna quase impossível falar, proporcionam uma expressão baseada unicamente no contacto físico, na vibração e nos instintos estimulados pelo som, pela penumbra — quando não pelo álcool ou pela droga. Isto já afeta o pudor, na medida em que favorece uma falsificação da intimidade. A pessoa tem de evitar riscos desnecessários para a sua saúde espiritual e o escândalo que possa causar com imprudências temerárias. É preciso chamar a atenção também para o fato de existirem ambientes que, se bem que não causem ofensas “atuais” a Deus, distorcem a formação de personalidades que poderiam chegar a ser ricas, profundas e maduras.

    Os pais que possam devem animar-se a organizar festas para os seus filhos, com os seus amigos e amigas. “Urge recristianizar as festas e os costumes populares. – Urge evitar que os espetáculos públicos se vejam nesta disjuntiva: ou piegas ou pagãos. Pede ao Senhor que haja quem trabalhe nessa tarefa urgente, a que podemos chamar «apostolado da diversão»” (São Josemaría, Caminho, n. 975).

    O QUE SIGNIFICA “DIVERSÃO”

    Detenhamo-nos um momento no significado da palavra “diversão”. “Di-versão”, divertir-se, soa a verter-se ou voltar-se, sair de certa forma de si mesmo. Se alguém sai e se perde, está perdido; mas se sai bem apetrechado, com domínio de si e da situação, consegue um reencontro mais aprazível consigo mesmo.

    Quantas vezes, porém, a diversão deixa um travo de amargura. Aquilino Polaino, conhecido catedrático em Psicopatologia, numa conferência sobre a famosa “depressão” (dois milhões e meio de espanhóis têm problemas depressivos), contava o que sucede no fim do verão:

    “Em Setembro, deparamos nas consultas com a chegada dos veranistas cansados, o que é um paradoxo. Foram para descansar e voltaram cansados. O que sucedeu?…

    “Acontece que há gente que não sabe descansar e que pretende fazê-lo em ambientes ruidosos e massificados, onde o relaxamento se torna difícil. É óbvio que a montanha é relaxante e, portanto, um fator que previne a depressão, ao passo que muitos ambientes na praia contêm um fator de pressão. Apesar de, em alguns momentos, servirem de paliativo para a ansiedade, é possível que ao fim de poucos dias a depressão surja novamente, mais profunda”.

    O desafio das leis morais leva consigo uma deterioração da integridade da pessoa, do equilíbrio psíquico e, não raras vezes, do físico. Mas como nem sempre se vê o mal imediatamente, costuma-se se pensar que se não mato ou não roubo, não faço mal a ninguém… Mas sem dúvida que não matar ou não roubar é compatível com causar um dano profundo, mais ou menos grave, a menos que não se seja sensível, a si próprio e aos outros. Nada do que acontece na nossa intimidade pessoal deixa de repercutir de algum modo no ambiente familiar e social que nos rodeia.

    As normas morais são o ingrediente principal da diversão – embora em muitos pratos não sejam notadas, como o sal. Sem elas, não encontramos a felicidade que tanto procuramos. É lamentável que se ignore ou se esqueça tanto esta verdade: as normas morais ensinadas por Deus não têm outra finalidade senão mostrar como pode uma pessoa chegar a ser feliz. Deus criou-nos e revelou-nos uns “mandamentos” que não são mais do que indicadores para o caminho até à felicidade temporal e eterna. Digamos isso com palavras de Cervantes: “As nossas almas estão em contínuo movimento, e não podem parar nem sossegar senão no seu verdadeiro centro, que é Deus, para quem foram criadas”. Não existe experiência mais universal do que esta. O que distancia de Deus não é bom; ou, dito de forma diferente, causa-nos um mal, sobretudo à alma.

    SAIR, MAS SEM SE PERDER

    Divertir-se – o mesmo com relação às férias – é sair um pouco do habitual, do esforço ao qual estamos acostumados. De certa maneira, é retirarmo-nos de nós próprios. Mas a alegria, o sossego, a paz, a recuperação de energias, não se conseguem fugindo do verdadeiro centro da nossa existência, que é como que o nosso centro de gravidade espiritual. Sair de Deus é violentar o mais profundo do núcleo pessoal e isto não pode proporcionar um verdadeiro descanso. Quando o Senhor diz vinde a mim vós que estais cansados (Mt 5, 5), entre outras coisas, adverte-nos que for a dEle não existe verdadeiro descanso.

    Por outras palavras: para “divertir-se” é preciso “converter-se”, isto é, devemos voltar-nos para o nosso verdadeiro centro que é Deus e, a partir daí, ocupar-nos nas atividades que relaxam, distendem, sossegam, reparam as forças «para que depois sejamos capazes de maiores esforços» (que é, segundo São Tomás, «o fim do descanso»).

    Quando se planejam as coisas de forma inversa e se tem a diversão como um fim em si mesmo, espera-se da diversão algo que ela não possui e, portanto, algo que não pode dar. Por isso, é freqüente a tristeza e a depressão às segundas-feiras, ou no período que se segue às férias. Quando se toma a diversão como um fim, começa o desencanto, o desgosto da alma. Suspira-se, então, por novas diversões, novos descansos, que se os continuarmos a tomar como razão de ser da existência, nunca nos conseguirão fazer felizes.

    O AMBIENTE DAS FÉRIAS

    As férias virão e voltarão, como as andorinhas. E muitos esqueceram o sabor amargo das férias passadas em ambientes teoricamente ótimos para um descanso merecido, mas péssimos para o sossego daquilo que nos é mais caro: a alma.

    O ambiente, as relações sociais de muitos lugares de veraneio repercutem negativamente na vida espiritual dos jovens e dos adultos. Mesmo o fato de terem sido muitos aqueles que se submeteram a essa lamentável tortura moral (ou a esse vacilo lamentável, dependendo dos casos), não muda as coisas nem imuniza contra o mal; pelo contrário, o mal, quando é de muitos, apresenta características de epidemia, o que exige o uso de medidas de resistência extraordinárias.

    Apesar de tudo, muitas vezes reincide-se, tropeça-se na mesma pedra. Se ainda há tempo para planejar as férias, vale a pena ponderar o assunto com seriedade e profundidade. Há algum louco que vá descansar na frente de batalha? Há algum insensato que empregue o seu tempo de férias para arriscar a vida colocando-se no meio de um furacão, ou que fique fascinado por respirar o ar de uma lixeira? E se uma mulher, um homem cristão, sabe que a sua fé vale tanto que é preferível morrer a pecar, e que, de outra forma, dificilmente poderá conservar a graça de Deus num determinado ambiente – porque teria de lutar como um cossaco para vencer tentações contínuas contra a caridade, a castidade ou a justiça, e mesmo assim, cairia mais de uma vez –, esse homem, essa mulher, seria tão louco ou insensato que fosse passar ali as suas férias e, o que seria pior, com o cônjuge e com os filhos?

    A FOSSA DO MUNDO

    Uma vez, ouvi uma mãe dizer a um filho que estava, decidido a comportar-se com coerência cristã: “Você diz que quer santificar o mundo e não vai a essas praias, não vai a esses cinemas… Como se pode entender uma coisa dessas?” O rapaz respondeu: “Mas, mãe, não vê que “essas” praias, “esses” cinemas, “essas” discotecas, não são «o mundo», mas, a fossa do mundo?”

    Aquela mãe gostou da resposta. E nós, cristãos, não temos culpa de que aumente a dimensão dos esgotos do planeta. O absurdo seria se montássemos a nossa tenda à sua beira, só porque alguns dos nossos colegas, amigos, parentes ou conhecidos também o fazem. Para estes, o lema é: “Não se prive disso: seiscentos bilhões de moscas não podem estar enganados”.

    O que podemos fazer é criar ambientes de águas claras e ar limpo (se não os houver). Há ambientes que não são santos, mas que podem ser santificados, porque se podem corrigir os seus defeitos e conservar as suas coisas positivas. Mas há ambientes tão desagregados que não há forma de os endireitar, tal como não existe a possibilidade de resolver a quadratura do círculo. Uma casa de prostituição é de santificação impossível, por muitas voltas que lhe dermos. A única solução é demoli-la e construir outra coisa. O mesmo acontece com muitos lugares junto à costa e de diversão. Onde não se pode amar Deus, onde não se pode viver, por exemplo, a castidade sem eufemismos, onde uma pessoa não pode estar sem se envergonhar, aí não deve estar um cristão calado e condescendente. Se optar por essa postura, converte-se ele próprio num cooperador do mal, em pedra de escândalo e em responsável pelas ofensas feitas a Deus.

    Por isso, como sempre aconteceu, muitos cristãos decidem mudar o lugar de férias em defesa da sua vida espiritual e da sua família. E, assim, comprovam que se passa muito melhor esse tempo e se descansa muito mais. Porque Deus se faz presente no meio deles, dá-lhes “cem por um”. Ele é a alegria. E quem não é capaz de fazer uma coisa assim, deixar certos ambientes por amor a Deus e aos seus, não merece chamar-se cristão. Não é uma opinião, é Palavra de Deus: Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim não é digno de Mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim não é digno de Mim (Mt 10,37). Pior seria amar mais um determinado ambiente, algumas amizades, um lugar, algumas coisas, alguma situações frívolas, do que a Ele.

    E se for necessário “zangar-se” um pouco com alguém? O Senhor responde: Não penseis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer a paz, mas a espada. Vim colocar o filho contra o pai, a filha contra a mãe e a nora contra a sogra. E os inimigos do homem serão os da sua própria casa (Mt 10, 34-36). Não nos espantemos quando aparecem protestos em casa quando defendemos determinados princípios morais. Se são de Deus, não se deve ceder. Também não se trata de fazer “brilhar espadas na noite”, ou de disparar “tiros verbais” que incendeiam os relacionamentos. Há que defender a verdade com força e carinho e, se possível, com bom humor. As duas coisas são indispensáveis e compatíveis. Então, ninguém precisa partir para as vias de fato, antes pelo contrário, a família fica mais unida, mais robusta, mais sã e mais cristã. É evidente que, em época de férias, toda a atividade da família deve subordinar-se a uma melhor formação e atenção aos filhos, para o que não se devem poupar esforços, mesmo econômicos.

    COMO DEVEM SER AS FÉRIAS

    Para ser bem passadas, as férias devem ser um tempo de intensa vida familiar. Devem-se programar várias atividades que ajudem a aproveitar o tempo, que sejam atraentes para os filhos e que façam crescer o desejo de estar com os pais e os irmãos. Ter presente que a atração está no ambiente (é o que se “come”), mais do que na atividade em si mesma. Os pais têm de criar entusiasmo por essas atividades, e afã de superação; têm de saber cativar adeptos. Os jogos mais caros não são necessariamente os mais divertidos. Há que se resguardaras das escolhas da manipulação comercial que a publicidade faz com freqüência.

    TRABALHOS MANUAIS

    O verão é um tempo propício para a realização de alguns trabalhos manuais, que educam a destreza no uso das ferramentas: artesanato, murais, etc. Servem para conferir responsabilidade no cuidado das coisas da casa: pequenos consertos, regar alguns vasos; ensinam a viver aspectos da pobreza cristã.

    TRABALHOS CULTURAIS

    Por exemplo: colecionar minerais, insetos, moluscos, plantas; recolher ditados populares, vocabulário da região onde se está. Plantar em alguns vasos sementes comuns, para estudar o desenvolvimento dessas plantas. Interessa ajudar os filhos a refletir, a pensar, a meditar: que tenham momentos a sós, sabendo que estão na presença de Deus. Pode-se convidá-los a fazê-lo com o pai ou com a mãe, com carinho, sem imposição, mostrando-lhes o valor que tem o cultivo do espírito. Além do mais, pode ser oportuno fazerem juntos uns momentos de meditação, mediante a leitura de alguns pontos, especialmente escolhidos para os filhos, de algum livro de espiritualidade.

    Antonio Orozco – Licenciado em Filosofia e Letras e Doutor em Filosofia Escolástica. É sacerdote e autor de diversos artigos sobre temas teológicos, além dos livros: Resurección, de espiritualidade, e La libertad en el pensamiento, ensaio filosófico.

    Fonte: Arvo.net
    Tradução: Alexandre Gonçalves


    Da parte da Santíssima Virgem na Vida Cristã

    September 22nd, 2010
     


    É fora de toda a dúvida que não há mais que um só Deus e um Mediador necessário, Jesus Cristo: «Unus enim Deus, unus, et Mediator c.ominum, homo Christus Iesus» Mas aprouve à Sabedoria e Bondade divina dar-nos protetores, intercessores e modelos que estejam, ou ao menos pareçam estar mais perto de nós: são os Santos que, tendo reproduzido em si mesmos as perfeições divinas e as virtudes de Nosso Senhor, fazem parte do Seu corpo místico e se interessam por nós, que somos seus irmãos.Honrá-los é honrar o próprio Deus neles, que são reflexo das suas perfeições: invocá-los é, em última análise, dirigir a Deus as nossas invocações, pois que pedimos aos Santos sejam nossos intercessores perante o Altíssimo; imitar as suas virtudes, é imitar a Jesus Cristo, já que eles mesmos não foram santos senão na medida em que produziram as virtudes do divino Modelo. Esta devoção aos Santos, longe de prejudicar o culto de Deus e do Verbo Encarnado, não faz, pois, senão confirmá-lo e completá-lo. Como, porém, entre os Santos, a Mãe de Jesus ocupa um lugar à parte, exporemos qual seja o seu papel .

    I. Da parte de Maria na vida cristã

    1 – Fundamento da sua Missão. O papel de Maria depende da sua estreita união com Jesus, ou, por outros termos, do dogma da maternidade divina, que tem por corolário a sua dignidade e a sua missão de mãe dos homens.

    A- É no dia da Encarnação que Maria é constituída Mãe de Jesus, Mãe dum Filho-Deus, Mãe de Deus. Ora, se bem repararmos no diálogo entre o Anjo e a Virgem, Maria é Mãe de Jesus, não somente enquanto este é pessoa privada, senão enquanto é Salvador e Redentor.« O Anjo não fala somente das grandezas pessoais de Jesus; é o Salvador, é o Messias esperado, é o Rei eterno da humanidade regenerada, cuja maternidade se propõe a Maria … Toda a obra redentora está suspensa do Fiat de Maria. E disto tem a Virgem plena consciência. Sabe o que Deus lhe propõe. Consente no que Deus lhe pede, sem restrição nem condição; o seu Fiat responde à ampliação das proposições divinas, estende-se a toda a obra redentora» Maria é pois, a Mãe do Redentor, e, como tal, associada à sua obra redentora; e assim, tem na ordem da reparação o lugar que Eva teve na ordem da nossa ruína espiritual, como os Santos Padres o farão notar com Santo Ireneu.

    Mãe de Jesus, Maria terá com as três divinas Pessoas as relações mais íntimas:

    Será a Filha muito amada do Pai, e sua associada na obra da Encarnação; a Mãe do Filho,com direito ao seu respeito, ao seu amor, e até mesmo, na terra, à sua obediência; pela parte que terá nos seus mistérios, parte secundária, mas real, será a sua colaboradora na obra da salvação e santificação dos homens; será enfim o templo vivo, o santuário privilegiado do Espírito Santo, e, numa acepção analógica, a sua Esposa, neste sentido que, com Ele e em dependência dele, trabalhará em regenerar almas para Deus.
    B -É igualmente no dia da Encarnação que Maria é constituída Mãe dos homens. Jesus, é o chefe da humanidade regenerada, a cabeça dum corpo místico, de que nós somos os membros. Ora Maria, Mãe do Salvador, gera-o todo inteiramente e, por conseguinte, como chefe da humanidade, como cabeça do corpo místico. Gera, pois, também todos os seus membros, todos aqueles que nele estão incorporados, todos os regenerados ou aqueles que são chamados a sê-lo. E assim, ao ser constituída Mãe de Jesus segundo a carne, é constituída ao mesmo tempo Mãe dos seus membros segundo o espírito. A cena do Calvário não fará senão confirmar esta verdade; no próprio momento em que a nossa redenção vai ser consumada pela morte do Salvador, diz este a Maria, mostrando-Ihe São João, e nele todos os seus discípulos presentes ou futuros: Eis aí teu filho e ao próprio São João: Eis aí a tua Mãe. Era declarar, segundo uma tradição que remonta até Orígenes, que todos os regenera dos eram filhos espirituais de Maria. É este duplo título de Mãe de Deus e Mãe dos homens que deriva o papel que Maria desempenha em nossa vida espiritual.

    2 – Maria Causa Meritória da Graça. Sabemos que Jesus é a [i]causa meritória principal e em sentido próprio de todas as graças que recebemos. Maria, sua associada na obra da nossa santificação, mereceu secundariamente e somente de congruo (Esta expressão foi ratificada por São Pio X na Encíclica de 1904, em que declara que Maria nos mereceu de ongruo todas as graças que Jesus nos mereceu de condigno), com mérito de conveniência, todas essas mesmas graças. Não as mereceu senão secundariamente, isto é, em dependência de seu Filho, e porque lhe conferiu o poder de merecer por nós. Mereceu-as, primeiro, no dia da Encarnação, no momento em que pronunciou o seu fiat. É que realmente a Encarnação é a Redenção começada ,cooperar, pois, na Encarnação é cooperar na Redenção, nas graças que delas serão frutos, e por conseguinte, em nossa salvação e santificação.
    E depois, no decurso de toda a sua vida, Maria, cuja vontade é em tudo conforme à de Deus, como à de seu Filho, associa-se à obra reparadora: É ela que educa a Jesus, que sustenta e prepara para imolação a vítima do Calvário; associada às suas alegrias como às suas provações, aos seus humildes trabalhos na casa de Nazaré, às suas virtudes, Ela se unirá, por uma compaixão generosíssima, à Paixão e morte de seu Filho, repetindo o seu fiat ao pé da Cruz e consentindo na imolação daquele que ama indizivelmente mais que a si mesma, e o seu coração amante será trespassado espada de dor: «tuam ipsius animam pertransibit gladius» Que de merecimentos não adquiriu Ela por esta imolação perfeita!

    E continua a aumentá-los por esse longo martírio que padece depois da Ascensão de seu Filho ao céu: privada da presença daquele que fazia a sua felicidade, suspirando ardentemente pelo momento em que lhe poderá ser unida para sempre, e aceitando amorosamente essa provação, para fazer a vontade de Deus e contribuir para edificar a Igreja nascente, Maria acumula para nós inumeráveis merecimentos. Os seus atos são tanto mais meritórios quanto mais perfeita é a pureza de intenção com que são praticados, «Magnificat anima mea Dominum», mais intenso o fervor com que cumpre em sua integridade a vontade de Deus «Ecce ancilla Domini, fiat mihi secundum verbum tu um»,mais estreita a união com Jesus, fonte de todo o mérito. É certo que estes merecimentos eram antes de tudo para Ela mesma e aumentavam o seu capital de graça e os seus direitos à glória; mas, em virtude da parte que tomava na obra redentora, Maria merecia também de congruo para todos, e, se é cheia de graça para si mesma, deixa transbordar essa graça sobre nós, segundo a expressão de São Bernardo: ” Plena sibi, nobis superplena et supereffluens.

    3 – Maria Causa Exemplar. Depois de Jesus, Maria é o mais belo modelo que é possível imitar: o Espírito Santo que, em virtude dos merecimentos de seu Filho, nela vivia, fez dela uma cópia viva das virtudes desse Filho: «Haec est imago Christi perfectissima, quam ad vivum depinxit Spiritus Sanctus». Jamais cometeu a mínima falta, a mínima resistência à graça, executando à letra o fiat mihi secundum verbum tuum.E, assim, os Santos Padres, em particular Santo Ambrósio e o Papa São Libério, representam-na como o modelo acabado de todas as virtudes, [i]«caritativa e atenciosa para com todas as suas companheiras. sempre pronta a lhes prestar serviço, não dizendo nem fazendo nada que lhes pudesse causar o mínimo desgosto, amando-as a todas e de todas amada»
    Baste-nos apontar as virtudes assinaladas no próprio Evangelho:

    1) a sua fé profunda, que a levou a crer sem hesitação as coisas que o Anjo lhe anuncia da parte de Deus, fé de que a felicita Isabel, inspirada pelo Espírito Santo: «Feliz de ti que creste: Beata quae credidisti, quonicuam perficientur ea quae dicta sunt tibi a Domino»

    2) a sua virgindade, que aparece na resposta ao Anjo; «Quomod: fiet istud, quoniam virtum non cognosco?» que mostra a sua firme vontade de permanecer virgem, ainda que fosse necessário para isso sacrifcar a dignidade de mãe do Messias;

    3) a sua humildade, que resplandece na perturbação em que a lançam. os elogios do Anjo, na declaração de ser sempre a escrava do Senhor no próprio momento em que é proclamada, Mãe de Deus, naquele Magnificat anima mea Dominum,que foi chamado o êxtase da sua humildade, no amor que mostra para com a vida oculta, quando, pela qualidade de Mãe de Deus, tinha direito a todas as honras;

    4) o seu recolhimento interior que a leva a fixar no espírito e meditar silenciosamente tudo o que se refere a seu divino Filho. «Conservabat omnia verba haec, conferens in corde suo»

    5) o seu amor para com Deus e para com os homens, que lhe faz aceitar generosamente todas as provações duma longa vida e sobretudo a imolação de seu Filho no Calvário e a longa separação desse Filho tão amado desde a Ascensão até o momento da sua morte.

    Este modelo tão perfeito é, ao mesmo tempo, cheio de encanto: Maria é uma simples criatura como nós, é uma irmã, uma Mãe que nos sentimos estimulados a imitar, quando mais não fosse, para lhe testemunharmos o nosso reconhecimento, a nossa veneração, o nosso amor. E, depois, é modelo fácil de imitar, neste sentido, ao menos que Maria se santificou na vida comum, no cumprimento dos seus deveres de donzela, na vida oculta, nas alegrias como nas tristezas, na exaltação como nas humilhações mais profundas. Temos, pois, a certeza de estar em caminho perfeitamente seguro, quando imitamos a Santíssima Virgem: é o melhor meio de imitar a Jesus e obter a sua poderosa mediação.

    4 –Maria Mediadora Universal da Graça. Há muito que São Bernardo formulou esta doutrina no texto tão conhecido: «Sic est voluntas eius qui totum nos habere voluit per Mariam». Importa determinar-lhe com precisão o sentido. É certo que Maria nos deu, duma maneira mediata, todas as graças, dando-nos Jesus, autor e causa meritória da graça. Mas, além disso, conforme o ensino, de dia para dia, mais comum , não há uma só graça, concedida aos homens, que não venha imediatamente de Maria, isto é, sem a sua intercessão. Trata-se, pois, aqui duma mediação imediata, universal, mas subordinada à de Jesus.

    Para determinarmos com mais precisão esta doutrina, digamos com o Pe. de la Broise que «a ordem presente dos decretos divinos quer que todo o benefício sobrenatural concedido ao mundo seja outorgado com o concurso de três vontades, e que nenhum o seja de outra forma. É, em primeiro lugar, a vontade de Deus, que confere todas graças: depois, a vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo, mediador, que as merece e obtém com todo o rigor de justiça, por Si mesmo; enfim, a vontade de Maria, mediadora secundária, que as merece e obtém com toda a conveniência, por Nosso Senhor Jesus Cristo». Esta mediação é imediata, neste sentido que, para cada graça concedida por Deus, Maria intervém pelos seus méritos passados ou pelas suas orações atuais; isto porém, não implica necessariamente que a pessoa que recebe estas graças deva implorar o socorro de Maria, a qual bem pode intervir, sem que ninguém lho peça. É mediação universal, estendendo-se a todas as graças concedidas aos homens desde a queda de Adão; fica, porém, [u]subordinada[/u] à mediação de Jesus, neste sentido que Maria não pode merecer ou obter graças senão pelo seu divino Filho; e assim, a mediação de Maria não faz mais que realçar o valor, e fecundidade da mediação de Jesus.

    Esta doutrina acaba de ser confirmada pelo Ofício e Missa próprios em honra de Maria Mediadora, concedidos pelo Papa Bento XV às igrejas da Bélgica e a todas as da Cristandade que os pedirem. É, pois, doutrina segura, que podemos utilizar na prática e que não pode deixar de nos inspirar grande confiança em Maria.

    Conclusão: Devoção à Santíssima Virgem

    Desempenhando Maria papel tão importante em nossa vida espiritual, devemos ter para com Ela grandíssima devoção. Esta palavra quer dizer dedicação, e dedicação quer dizer dom de si mesmo. Seremos, pois, devotos de Maria, se nos dermos completamente a Ela, e, por Ela, a Deus. Nisto não faremos senão imitar o próprio Deus que se nos dá a nós e nos dá o Seu Filho por intermédio de Maria. Daremos a nossa [i]inteligência[/i] pela veneração mais profunda, a nossa vontade pela confiança mais absoluta, c nosso coração pelo amor mais filial, inteiramente todo o nosso ser pela imitação mais perfeita, que for possível, da suas virtudes.

    A) Veneração Profunda. Esta veneração baseia-se na dignidade de Mãe de Deus e nas conseqüências que daí dimanam. E, com efeito, jamais nos será possível estimar demasiadamente Aquela que o Verbo Encarnado, venera como sua Mãe, que o Pai contempla com amor como sua Filha muito amada e que o Espírito Santo considera como seu templo de predileão. O Pai trata-a com o maior respeito, enviando-lhe um Anjo que a saúda cheia de graça, e pede-lhe o seu consentimento na obra da Encarnação, à qual tão intimamente a quer associar; o Filho respeita-a, ama-a como Mãe e obedece-lhe; o Espírito Santo vem a Ela e nela tem as suas complacências. Venerando a Maria, não fazemos, pois, senão associar-nos às três divinas Pessoas e estimar o que Elas estimam. Há sem dúvida excessos que é mister evitar, particularmente tudo aquilo que porventura tendesse a colocá-la a par de Deus, ou a fazer dela a fonte da graça. Mas, enquanto a consideramos como criatura, que não tem grandeza, nem santidade, nem poder, senão na medida em que Deus lho confere, não há excesso que recear: é Deus que veneramos nela.

    Esta veneração deve ser maior que a que temos para com os Anjos e santos, precisamos porque Ela, pela sua dignidade de Mãe de Deus, pelo seu múnus de Mediadora, pela sua santidade, sobrepuja todas as criaturas. E, assim, o seu culto não obstante ser culto de dulia e não de latria é chamado com razão culto de hiperdulia, pois é superior ao que se tributa aos Anjos e Santos.

    B)Confiança absoluta,fundada no poder e bondade de Maria.
    - Este poder vem, não dela mesma, mas do seu poder de intercessão, já que Deus não quer recusar nada de legitimo Àquela que venera e ama acima de todas as criaturas. Nada mais eqüitativo: tendo Maria subministrado a Jesus aquela humanidade que lhe permitiu merecer, tendo colaborado com Ele pelas suas ações e sofrimentos na obra redentora, é conveniente que tenha parte na distribuição dos frutos da Redenção; Jesus não recusará, pois, nada que Ela pedir de legítimo, e assim se poderá dizer que Ela é onipotente pelas suas súplicas, omnipotentia supplex.

    - Quanto à sua bondade, essa é a de Mãe que transfere para nós, membros de Jesus Cristo, a afeição que tem para com seu Filho; de Mãe que, tendo-nos dado à luz na dor, entre as angústias do Calvário, nos terá tanto mais amor quanto mais lhe custamos. Por conseguinte a nossa confiança para com Ela será inabalável e universal.

    Inabalável, a despeito das nossas misérias e faltas. É que, na verdade, Maria é Mãe de misericórdia, mater misericordiae, que não tem que se ocupar de justiça, mas foi escolhida para exercer antes de tudo a compaixão, a bondade, a condescendência: sabendo que nos achamos expostos aos ataques da concupiscência, do mundo e do demônio, tem compaixão de nós, que não cessamos de ser seus filhos, ainda quando caímos em pecado. E assim, tanto que manifestamos o mínimo sinal de boa vontade, o desejo de voltar a Deus. Ela nos acolhe com bondade; muitas vezes, até, é Ela que, antecipando-se a esses bons movimentos, nos alcançará as graças que os excitarão em nossa alma. A Igreja compreendeu-o tão bem que instituiu, para certas dioceses, uma festa sob esta invocação que, à primeira vista, parece estranha, mas, na realidade é perfeitamente justificada, de Coração Imaculado de Maria, refúgio dos pecadores; precisamente porque é Imaculada e jamais cometeu a menor falta, é que Maria tem mais compaixão dos seus pobres filhos que não gozam, como Ela, do privilégio da isenção da concupiscência.

    Universal, isto é, deve estender-se a todas as graças de que precisamos, graças de conversão, de progresso espiritual, de perseverança final, graças de preservação no meio dos perigos, das angústias, das dificuldades mais graves que se possam apresentar. É esta confiança que recomenda tão instantemente São Bernardo [i]«Se se levantam as tempestades das tentações, se vos encontrais no meio dos escolhos das tribulações, erguei os olhos para a estrela do mar, chamai a Maria em vosso auxílio; se sois sacudidos à mercê das vagas da soberba, da ambição, da maledicência, da inveja, olhai para a estrela, invocai a Maria. Se, perturbados pela grandeza dos vossos crimes, confusos pelo estado miserável da vossa consciência, transidos de horror com o pensamento do juízo, começais a soçobrar no abismo da tristeza e do desespero, pensai em Maria. No meio dos perigos, das angústias, das incertezas, pensai em Maria, invocai a Maria. A sua invocação, o pensamento dela não se afastem nem do vosso coração, nem dos vossos lábios; e, para obterdes mais seguramente o auxílio das suas preces, não vos descuideis de imitar os seus exemplos. Seguindo-A, não vos extraviais; suplicando-A, não desesperais; pensando nela, não vos perdeis. Enquanto Ela vos tem de sua mão, não podeis cair; sob a sua proteção, não tendes nada que temer; sob a sua guia, não há cansaço; com o seu favor, chega-se seguramente ao termo». E, como temos constantemente necessidade de graça, para vencer os nossos inimigos e progredir na virtude, devemos dirigir-nos muito amiúde Àquela que tão justamente é chamada Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

    C) À confiança juntaremos o amor, amor filial, cheio de candura, simplicidade, ternura e generosidade. Mas é seguramente a mais amável das mães, pois tendo-A Deus destinado para ser Mãe de seu Filho, lhe deu todas as qualidades que tornam uma pessoa amável: a delicadeza, a prudência, a bondade, a dedicação da mãe. É a mais amante, visto que o seu coração foi criado expressamente para amar um Filho-Deus e amá-lo com a possível perfeição. Ora esse amor que Ela tinha para com seu Filho, transpassa para nós que somos membros vivos desse divino Filho, sua extensão e complemento. E assim, esse amor resplandece no mistério da Visitação, em que Ela se apressa a levar a sua prima Isabel aquele Jesus que em seu seio e que, só pela sua presença, santifica toda a casa; nas Bodas de Caná, onde, atenta a tudo o que se passa, intervém junto de seu Filho, para evitar aos jovens esposos uma dolorosa humilhação; no Calvário, onde consente em sacrificar o que tem de mais caro, para nos salvar; no Cenáculo, onde exercita o seu poder de intercessão, para obter aos Apóstolos maior abundância dos dons do Espírito Santo.

    Se Maria é a mais amável e a mais amante das mães, deve ser a mais amada. E, na verdade, é este um dos seus privilégios mais gloriosos; em toda a parte, onde Jesus é conhecido e amado, é o também Maria. Não se separa a Mãe do Filho; e, sem jamais se esquecer a diferença um e outro, envolvem-se na mesma afeição, posto que em grau diferente: [u]ao Filho tributa-se o amor que é devido a Deus, a Maria, o que se deve à Mãe dum Deus :amor terno, generoso, dedicado, mas subordinado ao amor de Deus. É amor de complacência,que se goza das grandezas, virtudes e prerrogativos de Maria, repassando-as amiúde pela memória, admirando-as, comprazendo-se nelas e dando-lhe o parabém de a vermos tão perfeita. Mas é também amor de benevolência,que deseja sinceramente que o nome de Maria seja mais conhecido e amado, que ora para que se estenda a sua influência sobre as almas, e à oração ajunta a palavra e ação. É amor filial, cheio de ilimitada confiança e simplicidade, de ternura e dedicação, chegando até àquela intimidade respeitosa que a mãe permite a seu filho. É e sobretudo amor de conformidade, que se esforça por conformar em todas as coisas a sua vontade com a de Maria e, por esse modo, com a de Deus, já que a união das vontades é o sinal mais autêntico da amizade. É o que nos leva à imitação da Santíssima Virgem.

    D) A imitação é, com efeito, a homenagem mais delicada que se lhe pode tributar; é proclamar não somente com palavras, senão com atos, que Ela é um modelo perfeito, cuja imitação é para nós suprema ventura. Como, sendo Maria uma cópia viva de seu Filho, nos dá o exemplo de todas as virtudes. Aproximar-se dela é aproximar-se de Jesus; e por isso é que não podemos fazer nada mais excelente do que estudar as sua virtudes, meditá-las amiúde, esforçar-nos por as reproduzir.

    Para melhor o alcançarmos, não podemos seguir método mais eficaz do que praticar todas e cada uma das nossas ações por Maria, com Maria e em Maria; per Ipsam etc cum Ipsa, et in Ipsa.
    Por Maria, isto é, pedindo por meio dela as graças de que precisamos para a imitar, passando por Ela para ir a Jesus, [i]ad Iesum per Mariam.

    Com Maria, isto é, considerando-A como modelo e colaboradora, perguntando-nos muitas vezes: Que faria a Mãe Santíssima, se estivesse em meu lugar? E pedindo-lhe humildemente que nos auxilie a conformar as nossas ações com os seus desejos.

    Em Maria na dependência desta boa Mãe, compenetrando-nos dos seus desígnios, das suas intenções, e fazendo as nossas ações, com Ela, para glorificar a Deus: Magnificat anima mea Dominum.
    É com este espírito que havemos de recitar, em honra da Senhora, a Ave-Maria e o Angelus que lhe relembram a cena da Anunciação e o seu título de Mãe de Deus; o Sub tuum praesidium, que é o ato de confiança naquela que nos protege no meio de todos os nossos perigos; o Domina mea, que é o ato de entrega completa nas suas mãos, pelo qual lhe confiamos a nossa pessoa, as nossas ações e os nossos méritos; e sobretudo o Terço ou o Rosário, que unido-nos aos seus mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos, nos permite santificar em união com Ela e com Jesus, as nossas tristezas e as nossas glórias. O Officium da Santíssima Virgem é, para as pessoas que o podem recitar, o equivalente do Breviário, e relembrar-lhes muitas vezes ao dia as grandezas, a santidade e a missão santificadora desta Boa Mãe.

    Ato de Consagração total a Maria
    Natureza e extensão deste ato. É um ato de devoção que contém todos os demais. Tal qual o expõe São Luís Grignion de Montfort, consiste em se dar inteiramente a Jesus por Maria, e compreende dois elementos: um ato de consagração, que se renova de tempos a tempos, e um estado habitual que nos faz viver e operar sob a dependência de Maria. O ato de consagração, diz São Luís Grignion, «consiste em se dar um todo inteiramente, em qualidade de escravo, a Maria e a Jesus por Ela». Ninguém se escandalize do termo escravo, ao qual se deve tirar todo o sentido pejorativo, isto é, toda a idéia de coração; este ato, longe de implicar violência, é a expressão do amor mais puro. Não se conserve, pois, senão o elemento positivo, tal qual o explica o Bem-aventurado: Um simples servo ou criado recebe salário, fica livre de deixar o patrão e não dá mais que o seu trabalho, não dá a sua pessoa, os seus direitos pessoais, os seus bens; um escravo consente livremente em trabalhar sem salário; confiando no senhor, que assegura sustento e abrigo, dá-se para sempre, com todos os seus recursos, a sua pessoa e os seus direitos, para viver em completa dependência dele.

    Para fazer aplicação às coisas espirituais, o perfeito servo de Maria, dá-lhe, e por Ela, a Jesus:

    a) O corpo, com todos os seus sentidos, não conservando senão o uso, e obrigando-se a não se servir deles senão conforme o beneplácito da Santíssima Virgem ou de seu Filho: aceita de antemão todas as disposições providenciais relativas à sua saúde, enfermidade, vida e morte.

    b) Todos os bens de fortuna, não usando deles senão sob a dependência de Maria, para sua glória e honra de Deus.

    c) A alma com todas as suas formalidades, consagrando-as ao serviço de Deus e do próximo, sob a direção de Maria, e renunciando a tudo que pode pôr em risco a nossa salvação e santificação.

    d) Todos os bens interiores e espirituais, merecimentos, satisfações e o valor impetratório das boas obras, na medida em que estes bens são alienáveis.

    Expliquemos este último ponto:
    1) Os nossos méritos propriamente ditos (de condigno), pelos quais merecemos para nós mesmos aumento de graça e de glória, são inalienávis; se, pois, os damos a Maria, é para que Ela os conserve e aumente, não para que Ela os aplique a outros. Mas os méritos de simples conveniência (de congruo), como podem ser oferecidos por outrem, deixamos que Maria disponha deles livremente.

    2) O valor satisfatório dos nossos atos, incluindo as indulgências, é alienável, e deixamos a aplicação deles à Santíssima Virgem. (S. Thom., Supplement, q.XIII, a.2).

    3) O valor impetratório, isto é, as nossas orações e as boas obras enquanto gozam deste mesmo valor, podem ser-lhe entregues e de fato o são por este ato de consagração.

    Uma vez feito este ato, não podemos dispor mais destes bens sem a permissão da Santíssima Virgem; mas podemos e por vezes devem rogar-lhe se digne, conforme o seu beneplácito, dispor deles em favor das pessoas a que nos ligam obrigações particulares. O meio de tudo conciliar é oferecer-lhe, ao mesmo tempo, não somente a nossa pessoa e os nossos bens, mas todas as pessoas que nos são caras: «Tuus totus sum, omnia mea tua sunt, et omnes mei tui sunt»; deste modo a Santíssima Virgem servirse-á dos nossos bens e sobretudo dos seus tesouros e dos de seu Filho, para socorrer essas pessoas que, assim, longe de perderem, só ganharão com a nossa consagração à Santíssima Virgem.

    A excelência deste ato. É um ato de confiança absoluta, já excelente como tal, mas que ademais contém os atos das mais belas virtudes.

    1) Um ato de eligião profunda para com Deus, Jesus e Maria: com ele, efetivamente reconhecemos o supremo domínio de Deus, o nosso próprio nada, e proclamamos de todo o coração os direitos que Deus deu a Maria sobre nós.

    2) Um ato de humildade, pelo qual, reconhecendo o nosso nada e a nossa impotência, nos desapossamos de tudo quanto Deus Nosso Senhor nos deu, restituindo-lhe pelas mãos de Maria, de quem, depois dele e por Ele, tudo recebemos.

    3) Um ato de amor cheio de confiança, pois que o amor é o dom de si mesmo, e, para se dar, é necessária confiança perfeita e fé viva.
    Pode-se, pois, dizer que este ato de consagração se é bem feito, freqüentemente renovado de coração, e posto em prática, é mais excelente ainda que o ato heróico, pelo qual não se abandona mais que o valor satisfatório dos próprios atos e as indulgências que se ganham.

    Os frutos desta devoção. Derivam da sua natureza.
    1) Por este meio glorificamos a Deus e a Maria do modo mais perfeito, pois lhe damos tudo o que somos e tudo o que temos, sem reserva e para sempre; e isto fazemo-lo da maneira que lhe é mais agradável, seguindo a ordem estabelecida pela sua sabedoria, voltando a Ele pelo caminho que Ele seguiu para vir a nós.

    2) Por este meio asseguramos outrossim a nossa santificação pessoal. É que, na verdade, Maria, vendo que nós lhe entregamos a nossa pessoa e bens, sente-se vivamente estimulada a ajudar a santificar aqueles que são, por assim dizer, propriedade Sua. Obter-nos-á, pois, graças abundantíssimas, para nos permitir aumentar os nossos pequenos tesouros espirituais que são seus, e para os conservar e fazer frutificar até o momento da morte. Para isso usará tanto da autoridade do seu crédito sobre o coração de Deus, como da superabundância dos seus méritos e satisfações.

    3) Enfim a santificação do próximo, e sobretudo as almas que nos estão confiadas, não pode deixar de lucrar com isto; confiando a Maria a distribuição dos nossos méritos e satisfações segundo o seu beneplácito, sabemos que tudo será empregado da maneira mais acertada; Ela é mais prudente, previdente e dedicada que nós; por conseguinte, os nossos parentes e amigos só podem lucrar com isso.

    Objeta-se que por este ato alienamos todo o nosso haver espiritual, sobretudo as nossas satisfações, as indulgências e sufrágios que poderiam oferecer por nós, e que assim poderíamos ficar longos anos no purgatório. Em si, é verdade; mais é uma questão de confiança: temos nós, sim ou não, mais confiança em Maria que em nós mesmos e em nossos amigos? Se sim, não receemos nada: Ela terá cuidado da nossa alma e dos nossos interesses, melhor do que nós o poderíamos fazer; se não, não façamos este ato de consagração total, de que poderíamos a vir mais tarde a arrepender-nos. Em todo o caso, não se deve fazer este ato senão depois de madura reflexão, e de acordo com o próprio diretor.

    *****
    Segundo, TANQUEREY, Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana, 2007. pgs. 123 -135).

    Fonte: É Razoável Crer?


    Servir o Senhor

    September 17th, 2010

    – As santas mulheres que aparecem no Evangelho.

    – Servir o Senhor com as nossas qualidades. A contribuição da mulher para a vida da Igreja e da sociedade.

    – A entrega ao serviço dos outros.

    I. E ACONTECEU DEPOIS – narra São Lucas no Evangelho da Missa1 – que Jesus caminhava pelas cidades e aldeias pregando e anunciando o reino de Deus. Acompanhavam?no os doze e algumas mulheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios, e Joana, mulher de Cusa, procurador de Herodes; e Susana, e outras muitas que o assistiam com as suas posses.

    Na vida pública de Jesus, vemos este grupo de mulheres desempenhar um papel comovedor pela sua ternura e adesão ao Mestre. É bonito considerar como o Senhor quis apoiar?se na generosidade e no desprendimento dessas mulheres. Ele, que nunca deixou de agradecer qualquer favor, como não lhes retribuiria tanto desvelo e delicadeza em atender às suas necessidades domésticas e às dos seus discípulos! E nas horas da Paixão, essas mulheres parecem exceder?se e superam os discípulos em constância e valor; à exceção de João, foram as únicas que tiveram a coragem de permanecer ao pé da cruz, de contemplar de perto os derradeiros instantes de Jesus e de ouvir as suas últimas palavras. E quando, já morto, o Senhor é retirado do patíbulo, estão presentes no embalsamamento e dispõem?se a completá?lo no primeiro dia da semana, depois do repouso obrigatório do sábado.

    O Senhor quis apressar?se a recompensar essa decidida fidelidade, e, na aurora da Ressurreição, não foi aos discípulos, mas às mulheres, que apareceu em primeiro lugar. Os anjos também foram vistos unicamente por elas; João e Pedro verificaram que o sepulcro estava vazio, mas não viram os anjos. As mulheres foram favorecidas com essa visão talvez por estarem mais bem preparadas que os homens e, sobretudo, porque lhes coube a missão de continuar o papel dos anjos e de preparar a fé nascente da Igreja. Têm um espírito aberto e um zelo inteligente. “Desde o início da missão de Cristo, a mulher demonstra para com Ele e para com o seu mistério uma sensibilidade especial, que corresponde a uma característica da sua feminilidade. É preciso dizer também que uma confirmação particular disso se verifica em relação ao mistério pascal, não só no momento da Cruz, mas também na manhã da Ressurreição”2. Elas apressam?se a cumprir a indicação de avisar os discípulos e de lhes recordar o que Jesus tinha anunciado antes da Paixão. Também estão presentes nas últimas manifestações de Jesus ressuscitado. E são, sem dúvida, as mesmas que voltaram da Galiléia após a Ascensão, com os discípulos e com as outras mulheres de Jerusalém e arredores, como as irmãs de Lázaro de Betânia. Com elas estava Maria, a Mãe de Jesus3.

    O exemplo destas mulheres fiéis, que servem o Senhor com os seus bens e não o desamparam nos piores momentos, é um apelo à nossa fidelidade e a um serviço incondicional a Deus. Deve ser um serviço feito exclusivamente por amor, sem esperar retribuição alguma, como não a esperavam as santas mulheres de Cristo morto e sepultado. Serviam! Eu te servirei, Senhor, todos os dias da minha vida.

    II. SE ALGUÉM ME SERVE, siga?me; e onde eu estou, estará também ali o que me serve. Se alguém me serve, meu Pai o honrará4.

    Desde os primeiros momentos da Igreja, a mulher prestou uma colaboração de valor inestimável na tarefa de expandir o Reino de Deus. “Vemos em lugar de destaque aquelas mulheres que se tinham encontrado pessoalmente com Cristo, que o tinham seguido e, depois da sua partida, eram assíduas na oração no Cenáculo de Jerusalém, até o dia de Pentecostes, juntamente com os Apóstolos. Naquele dia, o Espírito Santo falou por meio de filhos e filhas do Povo de Deus, cumprindo o anúncio do profeta Joel (cfr. At 2, 17). Aquelas mulheres, e depois outras mais, tiveram parte ativa e importante na vida da Igreja primitiva, na edificação da primeira comunidade cristã desde os começos – e das comunidades que se seguiram – mediante os seus carismas e com o seu serviço multiforme”5.

    Pode?se afirmar que o cristianismo começou na Europa com uma mulher, Lídia, que empreendeu imediatamente a sua missão de converter o novo continente começando pelo seu lar6. Algo de semelhante aconteceu entre os samaritanos, que ouviram falar pela primeira vez do Redentor por intermédio de uma mulher7; os Apóstolos, que tinham ido à aldeia em busca de alimento, possivelmente não se atreveram a anunciar aos habitantes do lugar – como o faria mais tarde a mulher – que o Messias estava ali mesmo, nos arredores da cidade. A Igreja sempre teve uma profunda compreensão do papel que a mulher cristã, como mãe, esposa e irmã, devia desempenhar na propagação do cristianismo. Os escritos apostólicos mencionam muitas dessas mulheres: Lídia em Filipos, Priscila e Cloé em Corinto, Febe em Cêncris, a mãe de Rufo – que também foi como uma mãe para Paulo –, as filhas de Filipe de Cesaréia, etc.

    Todos temos de pôr ao serviço do Senhor e dos outros aquilo que recebemos. “A mulher está destinada a levar à família, à sociedade civil, à Igreja, algo de característico, que lhe é próprio e que só ela pode dar: a sua delicada ternura, a sua generosidade incansável, o seu amor pelo concreto, a sua agudeza de engenho, a sua capacidade de intuição, a sua piedade profunda e simples, a sua tenacidade…”8 A Igreja espera da mulher um compromisso em favor do que constitui a verdadeira dignidade da pessoa humana. O Corpo Místico de Cristo “não cessa de enriquecer?se com o testemunho das numerosas mulheres que realizam a sua vocação para a santidade. As mulheres santas são uma personificação do ideal feminino, mas são também um modelo para todos os cristãos, um modelo de seqüela Christi – de seguimento de Cristo –, um exemplo de como a Esposa deve corresponder com amor ao amor do Esposo”9.

    O Senhor pede a todos que o sirvamos a Ele, à Igreja santa, à sociedade e aos nossos irmãos os homens, com os nossos bens, com a nossa inteligência, com todos os talentos que nos deu. Então entenderemos a profundidade desta verdade: Servir é reinar10.

    III. “O HOMEM, a única criatura na terra que Deus quis por si mesma, não pode encontrar?se plenamente senão por um dom sincero de si mesmo”11. O Papa João Paulo II aplica estas palavras do Concílio Vaticano II especialmente à mulher, que “não pode encontrar?se a si mesma senão dando amor aos outros”12.

    É no amor, na entrega, no serviço aos outros que a pessoa humana, e talvez de um modo especial a mulher, realiza a vocação recebida de Deus. Quando a mulher coloca ao serviço dos outros as qualidades recebidas do Senhor, então “a sua vida e trabalho serão realmente construtivos e fecundos, cheios de sentido, quer passe o dia dedicada ao marido e aos filhos, quer se entregue plenamente a outras tarefas, se renunciou ao casamento por alguma razão nobre. Cada uma no seu próprio caminho, sendo fiel à vocação humana e divina, pode realizar e realiza efetivamente a plenitude da personalidade feminina. Não esqueçamos que Santa Maria, Mãe de Deus e Mãe dos homens, é não apenas modelo, mas também prova do valor transcendente que pode alcançar uma vida aparentemente sem relevo”13.

    Hoje, ao considerarmos a generosidade dessas mulheres que seguiram o Senhor, pensemos como é a nossa. Vejamos se contribuímos, também materialmente – com meios econômicos – para a expansão do Reino de Cristo, se somos magnânimos com o nosso tempo no serviço aos outros… E se, ao levarmos a cabo todas as nossas tarefas, as impregnamos de uma profunda alegria, da particular felicidade que essa generosidade produz.

    Não esqueçamos, ao terminarmos a nossa oração, que, tanto na vida pública como nas horas da Paixão, e muito provavelmente nos dias que se seguiram à Ressurreição, essas mulheres mencionadas por São Lucas gozaram de um especial privilégio: permaneceram num trato com Maria mais assíduo e mais íntimo do que os próprios discípulos. Aqui encontraram o segredo da generosidade e da constância com que seguiram o Mestre. Recorremos à Virgem para que nos ajude a ser fiéis e desprendidos. Junto dEla, só encontraremos ocasiões de servir, e assim conseguiremos esquecer?nos de nós mesmos.

    (1) Lc 8, 1?3; (2) João Paulo II, Carta Apostólica Mulieris dignitatem, 15.08.88, 16; (3) cfr. P. Indart, Jesús en su mundo, Herder, Barcelona, 1963, pág. 81 e segs.; (4) Jo 12, 26; (5) João Paulo II, Carta Apostólica Mulieris dignitatem, 27; (6) cfr. At 16, 14?15; (7) cfr. Jo 4, 39; (8) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Questões atuais do cristianismo, 3ª ed., Quadrante, São Paulo, 1986, n. 87; (9) João Paulo II, Carta Apostólica Mulieris dignitatem, 27; (10) cfr. Concílio Vaticano II, Constituição Lumen gentium, 36; (11) Concílio Vaticano II, Constituição Gaudium et spes, 24; (12) João Paulo II, Carta Apostólica Mulieris dignitatem, 30; (13) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Questões atuais do cristianismo, n. 87.

    Fonte: Falar com Deus


    A Batina do pobre

    September 5th, 2010

    Por Prof. Carlos Ramalhete

    Costumo dizer que a única coisa boa que a TV Globo já fez no Brasil foi não deixar as pessoas esquecerem que padre usa batina. Para a imensa maioria das pessoas, hoje em dia, padre de batina é coisa que só se vê em novela. É uma pena.

    Além das questões legais (o Código de direito canônico manda usar, sendo contudo legalmente permitida no Brasil a sua substituição pelo "clergyman") e espirituais (a batina é um sacramental), há uma questão social e psicológica que me parece estar sendo deixada de lado por muita gente boa.

    É simples: a batina é um uniforme. A diferença maior entre o pobre e o rico, entre quem serve e quem é servido, é que o pobre, geralmente, trabalha de uniforme. Seja o faxineiro ou o trocador do ônibus, o porteiro ou a mocinha que serve atrás do balcão, é a impossibilidade de escolha do vestuário que designa quem está ali para servir.

    É até curioso perceber como é geralmente fácil descobrir o dono de uma lanchonete ou padaria: enquanto os empregados estão todos de uniforme, frequentemente com direito até a touquinhas tampando os cabelos, o dono é o único sujeito atrás do balcão que não usa uniforme. É como um delegado de polícia entre soldados da PM, como um doutor que passa altaneiro entre os faxineiros que, anônimos, varrem os corredores.

    O objetivo primeiro do uniforme é justamente este: a negação da
    personalidade. É por isso que os "bacanas" fogem do uniforme como o Diabo da cruz, mas o impõem aos menos afortunados. O faxineiro é o faxineiro; o "bacana" é o Doutor Fulano. Doutor Fulano usa gravatas vistosas, terno que brilha, sapatos engraxados. O faxineiro é invisível, não tem nome, não tem brilho, não tem nada que não o seu humilde serviço, que só é percebido quando não é feito. Ele é faxineiro.

    Um pesquisador da USP fez uma curiosa experiência, que lhe valeu um livro ("Homens invisíveis – Relatos de uma humilhação social", de Fernando Braga da Costa, ISBN 8525038911): uniu-se aos faxineiros da própria universidade, onde estudava e tinha amigos e colegas aos magotes. Ele simplesmente sumiu. Desapareceu atrás do uniforme: pessoas que sempre o cumprimentavam não mais o viam, amigos passavam por ele sem perceberem sua existência… De homem, de personalidade que faz escolhas (inclusive de vestuário), ele passou a ser um ente categorial: um faxineiro sem nome, invisível como os meios-fios que lava e as latas de lixo que esvazia.

    O mesmo acontece com a mocinha atrás do balcão, com o motorista do ônibus ("aquele ônibus me fechou!"), com, em suma, todos os pobres que a sociedade não quer ver afirmados como pessoas.

    O padre que usa batina afirma-se, assim, categorial: ele não é o Fulano, mas é um padre, é alguém que está ao serviço dos outros. A batina é um componente da pobreza evangélica, que é negada quando o padre se dá ao luxo de escolher roupa, parecer "bacana", de poder escolher – ao contrário do faxineiro ou da moça atrás do balcão – se vai ou não servir.

    O padre de roupa social parece um "doutor", alguém que é percebido como uma pessoa que faz escolhas, que atende quem quer atender, que ou bem não está "no serviço" ou bem é importante o suficiente para definir os termos do seu serviço, como o dono da padaria. Para os mais pobres, isso é algo que faz do padre uma figura psicologicamente distante. Quem é faxineiro, quem é trocador, quem trabalha de uniforme reconhece sempre que por trás do uniforme há um ser humano. Mas também reconhece no uniforme o sinal do serviço, o sinal da disponibilidade para atender. Quem é "bacana", quem trabalha sem uniforme, vê do mesmo modo no uniforme do padre – a batina – um sinal de disponibilidade.

    A disponibilidade do padre é e deve ser absoluta, por não ser, como é o caso dos outros trabalhadores de uniforme, algo limitado a uma dada situação. O trocador do ônibus, fora do veículo, não é trocador: é apenas trabalhador, identificado como tal pelo seu uniforme. Mas o padre nunca está "fora do serviço", porque não serve à companhia de ônibus, mas a Deus e, por Ele e n’Ele, aos homens.

    Passar desapercebido, como passa o faxineiro quando vestido com suas roupas de folga, não é para o padre uma opção. Ele deve estar disponível para o escarro do herege e para a confissão do fiel, porque não há folga no seu serviço.

    O mesmo, evidentemente, vale para o hábito religioso das freiras e
    frades: se eles o usam, mostram estar "em serviço", mostram estar à disposição para quem precise de uma oração, para quem precise de ajuda. Chega a ser engraçado ouvir de alguns padres a justificativa furadíssima de que não usam batina porque querem se identificar com "o pobre"! Só se for com o pobre de folga… ou com o rico que alguns pobres sonham em ser.

    Pobre usa uniforme quando trabalha. Quem o dispensa, ou melhor, quem a ele não é obrigado, é a madame – e o que há de freira fantasiada de madame! -, é o "doutor"- e o que há de padre com roupa social, entrando ou saindo de um carro, indistinguível, para todos os que estão em torno, de qualquer rico acumulando bens e negando serviço!

    O uso do "clergyman", a meu ver, apresenta também este problema: é próximo demais de um terno, de uma roupa de quem, por sua posição social, pode se dar ao luxo – negado ao pobre – de negar seu serviço. Como todos sabem, o uso do "clergyman", originalmente, uma roupa usada por "pastores" protestantes, surgiu na Igreja como uma forma de apagar a identidade do sacerdote, tornando-o indistinguível dos protestantes em lugares onde padres corriam o risco de ser atacados na rua, tamanho o sentimento anti-católico.

    É por isso, por ser em cada país diferente a situação do clero, que a legislação canônica faculta às Conferências episcopais de cada país autorizar ou não o uso do "clergyman" em substituição à batina. Presume-se que a Conferência possa distinguir se é ou não necessário "esconder" o padre. No Brasil, é ridícula a idéia de que isso seja necessário, o que faz da permissão dada pela CNBB um abuso de um direito lícito. Em outras palavras: é permitido usar o "clergyman" no lugar da batina no Brasil, mas não existem as razões que autorizariam esta substituição, apenas o frio texto da lei.

    Cumpre mesmo observar que só reconhece no "clergyman" uma roupa de padre quem já é "de Igreja", quem já viu padres assim vestidos. A TV Globo, graças a Deus, manteve viva a percepção nas massas afastadas da Igreja de que padre usa batina: para quem não é "de Igreja", o "clergyman" indica que seu portador é um "pastor" protestante, não um padre.

    Há ainda outra razão para o uso da batina, igualmente importante: a simbologia deste um uniforme específico. Assim como a roupa do faxineiro o faz ser indiscutivelmente um faxineiro e a roupa do motorista faz com que ele não seja confundido com o atendente da lanchonete, a batina mostra que ali há um padre. O hábito não faz o monge, mas o identifica.

    Isto tem vários benefícios. Para o padre, há o benefício imediato de que sua condição será sempre reconhecida antes mesmo que abra a boca. Por exemplo, a mocinha que vê o rapaz bonito vestido de batina vai logo suspirar que é um "desperdício", sem achar que ele possa ser um namorado em potencial. Isto vai livrar o padre de algumas tentações mais perigosas que a média, e vai livrar a mocinha de um desapontamento sério. Afinal, a moça honesta não tenta seduzir o padre que ela sabe ser padre, mas pode tentar e conseguir seduzir o padre que ela não identificou como tal e que, por fraqueza, não desfez o malentendido. A chance de um momento de fraqueza se transformar em uma relação desorganizada duradoura é muito menor para o padre cuja batina à vista afasta desde logo as moças honestas. Resta-lhe apenas lidar com as que querem um "troféu" sacrílego, mas estas dificilmente quereriam uma relação duradoura. São quedas de que é mais fácil se levantar.

    Do mesmo modo, o reconhecimento do padre como tal faz com que ele seja chamado na rua quando há um acidente e alguém jaz moribundo, para ministrar-lhe os sacramentos, quando há uma crise espiritual em andamento, o que pode salvar uma alma e mesmo uma vida (conheço um padre que, reconhecido pela batina, foi chamado numa lanchonete e convenceu uma moça a não abortar), quando há, em suma, a necessidade do seu serviço.

    E, finalmente, o padre de batina, como a freira ou o frade de hábito, servem como "homens-sanduíche" (aquelas pessoas com placas enormes na frente e nas costas, anunciando a compra de ouro ou os serviços de uma lanchonete): eles anunciam que Deus não esqueceu de nós. A simples visão de um padre ou freira pode servir, e serve, para muita gente como um "recado" de que devem se emendar, devem procurar voltar à Fé. É uma presença da Igreja no mundo, mais forte que os sinos da Matriz ou que milhares de campanhas de propaganda. É um bem enorme prestado à sociedade, um lembrete de que há algo além da cobiça, da luxúria, do orgulho.

    Que Deus abençoe todos os padres e religiosos que andam pelo mundo sem medo de mostrar que, como qualquer outro pobre, estão em serviço. Um serviço, porém, que não acaba e que não tem folga: o serviço do Bem.