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    A leitura espiritual

    August 24th, 2010

    Por Pe. Francisco Faus

    O que é a “leitura espiritual”?

    Há muitos tipos de leitura religiosa, mas não vou falar agora de todos nem de vários deles. Apenas falarei de um: daquele que, na linguagem clássica cristã, se chama «leitura espiritual», em sentido estrito, e que costuma fazer parte do programa diário das pessoas que querem levar a sério a sua vida interior.

    Consiste na leitura atenta e bem assimilada de um livro que trate de assuntos de «vida espiritual», com seriedade e boa doutrina, e que os focalize de maneira prática, de modo que nos ajude a aplicá-los à nossa vida diária.

    Tenha em conta que, dentro do conceito estrito de «vida espiritual» ou de «vida interior», não só entram as práticas de oração, de adoração, a Eucaristia, o amor a Nossa Senhora e outras devoções… – que são, sem dúvida, elementos básicos de uma vida espiritual autêntica-, mas entram também as virtudes e o modo de melhorá-las (fé, caridade, paciência, firmeza, temperança, constância, etc.), bem como os defeitos (vaidade, preguiça, ira, inveja, desordem sensual, etc.) e o modo de vencê-los; e ainda o esforço por santificar a família, por achar Deus no trabalho, por levar Deus a outras almas, etc, etc. Em suma, entra tudo quanto nos ajuda a procurar a santidade e o apostolado no dia-a-dia.

    Como fazer a leitura espiritual?

    1) Antes de mais nada, é preciso convencer-se da sua necessidade e tomar a decisão de fazê-la, sempre que possível, diariamente.

    2) Ao tomar essa decisão deverá ter em conta:

    a) Primeiro: que é importante escolher o melhor momento do dia – o “seu” melhor momento -para essa leitura. Antes do café da manhã? No escritório, antes de começar o trabalho? No começo da tarde (hora que pode ser útil para estudantes, para algumas mães de família…)? Ao visitar uma igreja, antes de voltar para casa? No ônibus ou no metrô, desde que possa sentar-se? Pense, tire experiências, e defina.

    b) Pense que será mais fácil definir o horário, se tiver consciência de que a leitura não precisa ser longa: ordinariamente bastam dez ou quinze minutos para tirar bom fruto dessa prática espiritual. Vivendo-a com constância, em pouco tempo terá lido, e aproveitado, mais livros bons do que imagina.

    c) É importante que você defina – volto a dizer – o lugar, o momento e a duração dessa leitura espiritual. E acrescento um conselho, fruto da experiência: se você definir dez minutos de leitura, faça sempre dez minutos como “norma”, nunca menos. Caso queira esticar essa leitura por mais tempo, ou deseje ler mais em outra hora, não há problema, mas considere isso como “leitura extra”. É só em relação ao seu programa diário, aos seus dez ou quinze minutos, que deve se sentir comprometido, com sincera exigência.

    d) Escolha bem, em cada momento, o livro de leitura espiritual. Para isso, é muito útil pedir conselho a uma pessoa de critério que conheça a sua alma e as lutas da sua vida. Em todo o caso, sempre que possível, procure ler um livro que vá ao encontro das suas necessidades espirituais daquela temporada.

    e) Uma vez definido o livro, leia-o devagar, pausadamente, em sequência, e do começo ao fim (lendo, relendo, refletindo, rezando). Quem borboleteia nas leituras, “debicando” por curiosidade pedacinhos de vários livros ao mesmo tempo, sem completar nenhum, tira pouco proveito e permanece superficial na sua vida interior.

    f) Não importa quanto tempo demorar a terminar um livro, mesmo que seja breve. Também não importa, antes pelo contrário, reler vários dias em seguida os mesmos trechos do livro, se a sua intenção é assim gravá-los melhor, para tirar deles mais fruto. Um livro bom pode ser relido todos os anos (por exemplo, um clássico sobre a Paixão de Cristo, no tempo da Quaresma; ou um bom livro sobre Nossa Senhora, em Maio, mês de Maria).

    g) Depois da leitura diária, ao fechar o livro e pergunte-se: O que foi que eu li, o que compreendi, o que me ficou mais gravado?

    3. É muito bom ter o desejo de conhecer (de ler) as obras clássicas de espiritualidade, que têm ajudado inúmeras pessoas a se aproximarem de Deus e a melhorar. Como diz São Josemaria: «A leitura tem feito muitos santos» (Caminho, n. 116). Para ter idéia de que tipo de livros estou falando, vou citar alguns, apenas alguns, dentre os mais conhecidos:

    ? Tomás de Kempis: A imitação de Cristo

    ? São Francisco de Sales: Introdução à vida devota (também chamado Filotéia), Tratado do Amor de Deus (mais “teológico”)

    ? Santo Afonso Maria de Ligório: A oração, A prática do amor a Jesus Cristo, As glórias de Maria

    ? Santa Teresa de Lisieux (Santa Teresinha): História de uma alma (também chamado Manuscritos autobiográficos)

    ? Santa Teresa de Ávila: O livro da vida, Caminho de perfeição

    ? Santa Catarina de Sena: O diálogo

    E muitos outros, que agora seria impossível citar, além de numerosas obras excelentes de autores antigos e contemporâneos, que podem fazer um bem imenso à nossa alma. Pesquise, pergunte, consulte a quem lhe puder dar um bom conselho. Acredite na leitura espiritual. A ela se pode aplicar perfeitamente o dito de Jesus: Pelos seus frutos os conhecereis (Mt 7,16).

    4. Mas, antes de encerrar esta conversa, queria dar dois esclarecimentos:

    a) Não confunda a «leitura espiritual» com a «oração mental» (ou a «meditação»). É muito frequente o engano de pessoas que utilizam determinados livros para fazer a sua oração mental (ou a sua meditação), e acham que com isso estão fazendo leitura espiritual. Misturam e confundem conceitos diferentes. Veja o que já dissemos a respeito da oração e da meditação. Para a oração mental ou meditação, cada dia, se quiser, você pode escolher à vontade textos de livros diferentes, os que achar que lhe podem servir de apoio para meditar sobre a sua vida e “falar com Deus”. A «leitura espiritual», porém, como acabamos de ver, é coisa diferente: trata-se de ler em sequência, quase que de “estudar” um livro inteiro, completo, que garanta o aprofundamento da sua formação. Não esqueça essa distinção;

    b) Há outras leituras, que também nos fazem muito bem; mais ainda, que nos fazem muita falta: as que nos proporcionam formação doutrinal. Entre elas, podem-se destacar os catecismos: desde o Primeiro Catecismo ou o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, até o próprio Catecismo da Igreja Católica, amplo, profundo, excelente, ainda que exige certo preparo doutrinário para entendê-lo bem. Um bom livro de teologia para leigos, que não hesito em recomendar, é a obra do americano Leo Trese, A fé explicada; excelente, pedagógico e claro. Em bastantes casos, pode ser usado também como “leitura espiritual”.

    Todos deveríamos achar algum tempo (não precisa ser diário, pode ser semanal, mais longo nas férias) para ler obras doutrinais. Hoje, num mundo de idéias confusas, é uma necessidade vital.


    O Rosário: como rezá-lo bem (II)

    August 17th, 2010

    Por Pe. Francisco Faus

    O sentido profundo do Rosário (segunda parte)

    II. Diálogo com Nossa Senhora

    Em várias das anteriores meditações, recordamos que “orar é falar com Deus”. Rezar o Rosário, então, é “falar com Deus e Maria”, ou, melhor, “orar a Deus juntamente com Maria”, nossa Mãe e Intercessora: «Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós, pecadores…»

    Como podemos fazer das Ave-Marias um verdadeiro diálogo filial com a Mãe?

    1) Já comentávamos antes – em “Como rezar bem o Rosário (I) -, que quando nos concentramos especialmente na “contemplação” dos Mistérios, pode acontecer que as Ave-Marias saiam um pouco distraídas. Dizíamos que não importa: na realidade elas ficam sendo uma bela música de fundo em honra da Nossa Senhora. São Josemaria tinha uma comparação muito bonita para explicar isso. Evocava aquelas épocas antigas, românticas, em que os namorados ficavam fazendo serenata, com o viola ou o bandolim, em baixo da janela da namorada. Cantavam, repetiam as canções, e mesmo que por um tempo longo se distraíssem do sentido das palavras que pronunciavam, a sua serenata continuava sendo um ato de carinho sincero, que a namorada agradecia emocionada. Assim faz Maria conosco.

    2) Muitas vezes, porém, depois da breve “contemplação” do Mistério, nos esforçaremos por rezar bem as Ave-Marias (e também o Pai-nosso e o Glória), prestando a maior atenção possível às palavras que recitamos, sem por isso fazer do Terço uma oração longuíssima, interminável. Há várias maneiras de consegui-lo. Vou sugerir-lhe algumas (sempre ressalvando que cada qual deve agir com toda a liberdade e fazendo o que Deus lhe inspirar):

    a) Ajuda muito escolher uma ou duas palavras da oração, e rezá-las dando-lhes uma ênfase especial, até mesmo em voz mais alta, se estivermos sozinhos. Por exemplo:

    ? «Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é covosco». A São Josemaria, essa frase lembrava-lhe que a alma de Maria estava cheia do Espírito Santo, que “estava com Ela”.

    ? Ou: «Bendito o fruto do vosso ventre Jesus». João Paulo II diz que o nome de Jesus é «o baricentro da Ave-Maria», e comenta: «Ora, é precisamente pela acentuação dada ao nome de Jesus e ao seu mistério que se caracteriza a recitação expressiva e frutuosa do Rosário».

    ? Ou: «Santa Maria, Mãe»… Carregar a atenção e a ênfase na palavra “Mãe” pode ajudar-nos a manter a atenção e a ter o coração desperto.

    ? Ou: «Rogai por nós pecadores». Frisar especialmente a palavra “pecadores” ajuda-nos a ser humildes e a sentir mais a necessidade do amparo da Mãe.

    b) Por outro lado, o Rosário é «arma poderosa» para pedir, para «suplicar a Cristo com Maria», que é «onipotente por graça» (João Paulo II). Vejamos possíveis maneiras de viver esse espírito de súplica, ao rezarmos o Terço:

    ? Oferecer o Terço inteiro por uma intenção (por exemplo, pela alma de um parente ou amigo falecido, pela próxima viagem pastoral do Papa, por um recém-nascido, para dar graças pelos benefícios recebidos, etc.);

    ? Oferecer cada Mistério por uma intenção: Por exemplo: «Primeiro Mistério da Luz» – pela saúde de tal filho. Segundo Mistério da Luz: «Pelo sucesso do meu irmão num concurso». Terceiro Mistério da Luz: «Pela conversão de Tal pessoa»…, e assim em cada Mistério, quer mantendo intenções fixas, habituais, quer intenções que vão variando dia a dia conforme as necessidades.

    ? O fato de colocar intenções ajuda a prestar mais atenção à Ave-Maria, especialmente às palavras «rogai por nós». Pode-se inclusive ir mais longe neste sentido, e até mesmo colocar intenções em cada Ave-Maria. Nada impede “ampliar” um pouco a Ave-Maria e rezar assim: «Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por… (Fulano, pela paz, por minha mãe, etc.) e por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém.».

    c) Embora, em geral, não seja costume entre nós, há certos países ou regiões em que – como lembram Paulo VI e João Paulo II -, é frequente acrescentarem ao nome de Jesus, em cada Ave-Maria, uma alusão ao Mistério concreto que se contempla (inclusive em voz alta, quando rezam vários). Por exemplo: «… o fruto do vosso ventre, Jesus, que deu a vida por nós na Cruz » (quinto Mistério da Dor); ou «…do vosso ventre, Jesus, que ressuscitou e vive junto de nós» (primeiro mistério da Glória), etc.

    Concluindo: O Rosário é um “tesouro escondido”. Vale a pena que você o “descubra” e se entusiasme cada vez mais com ele. E, para isso, convirá que se empenhe:

    1º) Em rezar o Terço, se possível, todos os dias; ou, pelo menos, comece a rezá-lo uma vez por semana, de preferência aos sábados, dia dedicado a Nossa Senhora;

    2º) Em aproveitar a riqueza de delicadezas e meios práticos – os que comentamos aqui, e outros que Deus lhe inspirará -, que fazem da recitação do Terço uma oração viva, saborosa e eficacíssima, muito grata a Maria Santíssima.


    Porque um católico não pode ser maçom?

    August 15th, 2010

     

    Ao longo de sua história a Igreja Católica condenou e desaconselhou seus fiéis à pertença a associações que se declaravam atéias e contra a religião, ou que poderiam colocar em perigo a fé. Entre essas associações encontra-se a maçonaria. Atualmente, a legislação se rege pelo Código de Direito Canônico promulgado pelo Papa João Paulo II em 25 de janeiro de 1983, que em seu cânon 1374, afirma: "Quem ingressa em uma associação que maquina contra a Igreja deve ser castigado com uma pena justa; quem promove ou dirige essa associação deve ser castigado com entredito".

    Esta nova redação, entretanto, apresenta duas novidades em relação ao Código de 1917: a pena não é automática e não é mencionado expressamente a maçonaria como associação que conspire contra a Igreja. Prevendo possíveis confusões, um dia antes de entrar em vigor a nova lei eclesiástica no ano de 1983, foi publicada uma declaração assinada pelo Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Nela se apresenta que o critério da Igreja não sofreu variação em relação às anteriores declarações, e a nominação expressa da maçonaria foi omitida para assim incluir outras associações. É indicado, juntamente, que os princípios da maçonaria seguem sendo incompatíveis com a doutrina da Igreja, e que os fiéis que pertençam a associações maçônicas não podem ter aceder à Sagrada Comunhão.

    Neste sentido, a Igreja condenou sempre a maçonaria. No século XVIII, os Papas o fizeram com muito mais força, e no XIX persistira nisto. No Código de Direito Canônico de 1917 eram excomungados os católicos que fizessem parte da maçonaria, e no de 1983 o cânon da excomunhão desaparece, junto com a menção explícita da maçonaria, o que pôde criar em alguns a falsa opinião de que a Igreja por pouco aprovaria a maçonaria.

    É dificil encontrar um tema – explica Federico R. Aznar Gil, em seu ensaio La pertenencia de los católicos a las agrupaciones masónicas según la legislación canónica actual (1995) – sobre o qual as autoridades da Igreja Católica tenham se pronunciado tão reiteradamente com no caso da maçonaria: desde 1738 a 1980 conservam-se não menos de 371 documentos, aos quais deve-se acrescentar abundantes intervenções dos dicastérios da Cúria romana e, a partir sobretudo do Concílio Vaticano II, as não menos numerosas declarações das Conferencias Episcopais e dos bispos de todo o mundo. Tudo isto está indicando que nos encontramos frente a uma questão vivamente debatida, fortemente sentida e cuja discussão não pode se considerar fechadas.

    Quase desde a sua aparição, a maçonaria gerou preocupações na Igreja. Clemente XII, "In eminenti", havia condenado a maçonaria. Mais tarde, Leão XIII, em sua encíclica "Humanum genus", de 20 de abril de 1884, a qualificava de organização secreta, inimigo astuto e calculista, negadora dos princípios fundamentais da doutrina da Igreja. No cânon 2335 do Código de Direito Canônico de 1917 estabelecia-se que "aqueles que dão seu nome à seita maçônica, ou a outras associações do mesmo gênero, que maquinam contra a Igreja ou contra as potestades civis legítimas, incorrem ipso facto em excomunhão simplesmente reservada à Sede Apostólica".

    O delito – segundo Federico R. Aznar Gil – consistia em primeiro lugar em dar o nome ou inscrever-se em determinadas associações. (…) Em segundo lugar, a inscrição devia se realizar em alguma associação que maquinasse contra a Igreja: se entendia por maquinar "aquela sociedade que, em seu próprio fim, exerce uma atividade rebelde e subversiva ou as favorecesse, quer pela própria ação dos membros, quer pela propagação da doutrina subversiva; que de forma oral ou por escrito, atua para destruir a Igreja, isto é, sua doutrina, autoridades em quanto tais, direitos, ou a legítima potestade civil". (…) Em terceiro lugar, as sociedades penalizadas eram a maçonaria e outras do mesmo gênero, com o qual o Código de Direito Canônico estabelecia uma clara distinção: enquanto o ingresso na maçonaria era castigado automaticamente com a pena de excomunhão, a pertença a outras associações tinha que ser explicitamente declarada como delitiva pela autoridade eclesiática em cada caso. Os motivos que argumentava a Igreja católica para sua condenação à maçonaria eram fundamentalmente: o caráter secreto da organização, o juramento que garantia esse caráter oculto de suas atividades e os pertubadores complôs que a maçonaria empreendia contra a Igreja e os legítimos poderes civis. A pena estabelecia diretamente a excomunhão, estabelecendo-se também uma pena especial para os clérigos e os religiosos no cânon 2336.

    Também recordavam as condições estabelecidas para proceder à absolvição desta excomunhão, que consistiam no afastamento e a separação da maçonaria, reparação do escândalo do melhor modo possível, e cumprimento da penitência imposta. As conseqüências da excomunhão incluiam, por exemplo, a privação de sepultura eclesiática e de qualquer missa exequial, de ser padrinho de batismo, de confirmação, de não ser admitidos no noviciado, e o conselho – no caso das mulheres – de não contrair matrimônio com maçons, assim como a proibição ao pároco de assistir núpcias sem consultar o Ordinário.

    A partir da celebração do Concílio Vaticano II, um incipiente diálogo entre maçons e católicos fez com que a situação começasse a mudar. Alguns Episcopados (França, Países Escandinavos, Inglaterra, Brasil ou Estados Unidos) começaram a revisar a atitude frente a maçonaria; por um lado revendo na história os motivos que levaram a Igreja a adotar essa atitude condenadora, tais como sua moral racionalista maçônica, o sincretismo, as medidas anticlericais promovidas e defendidas pelos maçons; e por outro lado, foi questionado que se pudesse entender a maçonaria como um bloco único, sem levar em conta a cisão entre a maçonaria regular, ortodoxa e tradicional, religiosa e aparentemente apolítica, e a segunda, a irregular, irreligiosa, política, heterodoxa.

    Estes motivos e as mais ou menos constantes petições chegadas de várias partes do mundo a Roma, diálogos e debates, fizeram com que, entre 1974 e 1983, a Congregação para a Doutrina da Fé retomasse os estudos sobre a maçonaria e publicasse três documentos que supuseram uma nova interpretação do cânon 2335. Neste ambiente de mudanças, não é de se estranhar que o cardeal J. Krol, arcebispo de Filadélfia, perguntasse à Congregação para a Doutrina da Fé se a excomunhão para os católicos que se afiliavam à maçonaria seguia estando em vigor. A resposta a sua pergunta foi dada por seu Prefeito, em uma carta de 19 de julho de 1974. Nela é explicado que, durante um amplo exame da situação, tinha-se dado uma grande divergência nas opiniões, segundo os países. A Sede Apostólica acreditava oporutno, conseqüentemente, elaborar uma modificação da legislação vigente até que se promulgasse o novo Código de Direito Canônico. Advertia-se, entretanto, na carta, que existiam casos particulares, mas que continuava a mesma pena para aqueles católicos que dessem seu nome a associações que realmente maquinassem contra a Igreja. Enquanto que para os clérigos, religiosos e membros de institutos seculares a proibição seguia sendo expressa para a sua afiliação em qualquer associação maçônica. A novidade nesta carta residia na admissão, por parte da Igreja católica, de que poderiam existir associações maçônicas que não conspirassem em nenhum sentido contra a Igreja nem contra a fé de seus membros.

    As dúvidas não tardaram em surgir: qual era o critério para verificar se uma associação maçônica conspirava ou não contra a Igreja?; e que sentido e extensão devia se dar a expressão conspirar contra a Igreja?

    O clima generalizado de aproximação entre as teses de alguns católicos e maçons foi quebrado pela declaração de 28 de abril de 1980 Conferência Episcopal Alemã sobre a pertença dos católicos à maçonaria. Como aponta Federico R. Aznar Gil, a declaração explicava que, durante os anos de 1974 e 1980, foram se mantendo numerosos colóquios oficiais entre católicos e maçons; que por parte católica tinham sido examinados os rituais maçônicos dos três primeiros graus; e que os bispos católicos tinham chegado à conclusão de que havia oposições fundamentais e insuperáveis entre ambas as partes: "A maçonaria – diziam os bispos alemães – não mudou em sua essência. A pertença à mesmas questiona os fundamentos da existência cristã. (…) As principais razões alegadas para isso foram as seguintes: a cosmologia ou visão de mundo dos maçons não é unitária, mas relativa, subjetiva, e não pode se armonizar com a fé cristã; o conceito de verdade é, também, relativista, negando a possibilidade de um conhecimento objetivo da verdade, o que não é compatível com o conceito católico;

    Também o conceito de religião é relativista (…) e não coincide com a convicção fundamental do cristão, o conceito de Deus simbolizado através do "Grande Arquiteto do Universo" é de tipo deístico e não há nenhum conhecimento objetivo de Deus no sentido do conceito pessoal de Deus do teísmo, e está impregnado de relativismo, o qual mina os fundamentos da concepção de Deus dos católicos (…).

    Em 17 de fevereiro de 1981, a Congregação para a Doutrina da Fé publicava uma declaração que afirmava de novo a ex-comunhão para os caltólicos que dessem seu nome à seita maçônica e a outras associações do mesmo gênero, com o qual a atitude da Igreja permanece invariável, e invariável permanece ainda em nossos dias.

    Fonte: http://www.acidigital.com/controversia/catolicomacom.htm

    Para ler o documento da Igreja a esse respeito:  CLIQUE AQUI


    O Rosário: como rezá-lo bem (I)

    August 10th, 2010

    Por Pe. Francisco Faus

    Uma oração que Nossa Senhora ama

    Você reza o Terço? Já viu imagens de Nossa Senhora, representando-a tal como apareceu em Lourdes e em Fátima? Maria está com o terço na mão. Ela acompanhou silenciosamente, passando as contas, o Terço que a menina Bernardete rezava na gruta de Lourdes. E, em Fátima, Ela também com o terço na mão, pediu aos três pastorzinhos que o rezassem todos os dias.

    Tomara que algum dia você possa dizer, como o Papa João Paulo II: «O Rosário é a minha oração predileta. Oração maravilhosa! Maravilhosa na simplicidade e na profundidade!».

    Mas, para isso, será preciso que comece a rezá-lo e, se já o reza com frequência, que aprenda a rezá-lo cada dia melhor. Vamos ver como podemos fazer isso.

    Primeiro, vencer as dificuldades

    1) Uma primeira dificuldade: “Não sei rezar o Terço”, “Não conheço os vinte “mistérios” (ou seja, os cinco correspondentes a cada um dos quatro “Terços” que compõem o Rosário), não os sei de cor”. Solução: comprar logo, ou pedir a alguma pessoa amiga, algum folheto ou livrinho de orações (há muitos!) que traga a explicação do Terço: como rezá-lo, quais são os mistérios, que mistérios devem rezar-se nos diferentes dias da semana… É fácil. Pessoas muitíssimo simples aprenderam tudo isso em pouco tempo. Se você “quer”- se “quer” mesmo – não lhes ficará atrás.

    Um esclarecimento: a pessoa que reza o Terço sem conhecer ou lembrar os “mistérios” faz, mesmo assim, uma oração válida, ainda que, naturalmente, o Terço fica incompleto (mas é melhor rezá-lo incompleto do que não rezá-lo).

    2) Segunda dificuldade: “Não tenho terço” 1 (o instrumento, o terço material, com as contas, a cruzinha, etc.; ou então o terço em forma de anel, que se usa girando no dedo). Compre-o, que é baratíssimo, e, enquanto não o tiver, conte pelos dedos. Mas tenha em conta que vale a pena usar o terço material: se o seu terço (de contas ou de anel) foi bento por um padre ou diácono, ao usá-lo para rezar você ganha indulgências (Por sinal, você sabia que pode ganhar nada menos que Indulgência Plenária – com as devidas condições -, quando reza o Terço em família, ou comunitariamente, num grupo?).

    3) Terceira dificuldade: “Não tenho tempo de rezar o Terço”. Essa desculpa “não gruda”. O Terço pode ser rezado, se for preciso, andando pela rua, fazendo exercício físico de corrida, indo de ônibus, metrô ou trem, guiando carro (melhor do que se irritar com o trânsito), na sala de espera do médico ou do laboratório, em casa, etc. E pode rezá-lo sentado, andando, de joelhos e até deitado (se estiver doente, ou em repouso forçado, etc.).

    Por sinal, não sei se sabe que, nas livrarias católicas, vendem CDs com o Rosário, e que também há arquivos audios para player portátil. Basta ligar o audio e ir respondendo ou acompanhando o que ouve.

    3) Finalmente, a dificuldade mais comum é a aparente monotonia. “Dizemos sempre a mesma coisa”. “A repetição de tantas Ave-Marias acaba ficando mecânica, cansativa, sem sentido”. “Que adianta fazer uma oração tão repetitiva, que fica rotineira, parece oração de papagaio…”?

    Os comentários que faremos a seguir espero que sejam a resposta que dissipe essa dúvidas e objeções. Deus faça que, após tê-las lido e, sobretudo, depois de tentar aplicá-las, você dê a razão às palavras de São Josemaria: «Há monotonia porque falta Amor».

    O sentido profundo do Rosário

    I. Oração contemplativa

    João Paulo II, na sua Carta sobre «O Rosário da Virgem Maria», diz que «recitar o Rosário nada mais é do que contemplar com Maria o rosto de Cristo». Já tinha pensado nisso? Parece curioso! Entende o que quer dizer?

    Veja como é fácil de entender. Todos os que rezam o Terço, depois de fazerem o sinal da Cruz e algumas breves orações iniciais (que encontra nos folhetos ou livros de orações antes mencionados), costumam iniciá-lo, dizendo, por exemplo: «Os mistérios que hoje vamos contemplar são os Mistérios da Dor», e, logo a seguir: «Primeiro mistério: A oração de Jesus no Horto de Getsêmani». (Só depois disso é que se reza o Pai-nosso, as dez Ave-Marias e o Glória ao Pai). «Que vamos contemplar», dizemos. Como fazer isso?

    1) Uma maneira: Após enunciar o Mistério e antes de começar o Pai-nosso, convém que faça uma “paradinha”, nem que seja de poucos segundos, e que fique imaginando Jesus no Horto, sofrendo agoniado e dizendo ao Pai: «Não se faça a minha vontade e sim a tua». Pense então, como num flash, no exemplo de Jesus e pergunte-se: «Eu sei aceitar a Vontade de Deus?»… Esta é uma boa maneira de contemplar.

    2) Outra maneira: Há pessoas que “entram” na cena como mais um personagem. No caso citado, ficam imaginando-se a si mesmas ao lado de Jesus no Horto, e ali – sem sair daquele lugar, pegados a Jesus – vão rezando as Ave-Marias, olhando para Cristo sofredor, banhado no suor de sangue. Pensam, por exemplo: «Como são pequenas as minhas penas, comparadas com as de Jesus», e pedem então a Maria que os ajude a aceitá-las com mais fé e amor. Se, naquele dia, estão abatidos por uma dor, já vão rezar esses Mistérios do Terço com o desejo de achar conforto junto de Jesus nas cenas da sua Dor.

    3) São Josemaria fazia assim. Por exemplo, meditando – como explica no seu livro Santo Rosário- o terceiro Mistério de Gozo (Jesus nasce em Belém), imaginava-se pedindo a José que lhe deixasse pegar o Menino nos braços, e lhe dizia: «Rei, Amor, meu Deus, meu Único, meu Tudo!…». E, de modo semelhante, “acompanhando”, no quarto Mistério de Dor, Jesus com a Cruz às costas, dizia: «Olha com que amor se abraça à Cruz. – Aprende com Ele. – Jesus leva a Cruz por ti; tu… leva-a por Jesus».

    4) Quero mencionar ainda outro meio de facilitar essa breve contemplação. Existem livrinhos, folhetos, que trazem os Mistérios, e, em cada um deles, além da reprodução de um quadro ou gravura do Mistério, colocam uma frase da Sagrada Escritura e um breve comentário espiritual. É uma leitura que se pode fazer em dez ou quinze segundos.

    5) Talvez você diga: “Contemplar assim, não vai distrair a atenção das palavras da Ave-Maria?». Pode ser, mas, então, bendita distração. Nossa Senhora nada quer tanto como levar-nos até Jesus. Neste caso, as Ave-Marias ficarão sendo como uma música de fundo,que, mesmo rezadas meio-distraídos, agradarão muito à nossa Mãe. Mas também é importante aprender a rezar bem as Ave-Marias. Vou deixar a explicação disso para a segunda parte desta meditação (II. Diálogo com Nossa Senhora).

    1 Nestas meditações, usaremos Terço (com maiúscula) para referir-nos à oração, à devoção do Rosário; e terço (com minúscula, para referir-nos ao tercinho material que se utiliza para contar as Ave-Marias, etc.


    Trabalho: Trabalho e contemplação

    August 8th, 2010

     

    Ser contemplativos é desfrutar do olhar de Deus. Por isso, quem se sabe acompanhado por Ele durante o dia, vê com outros olhos as ocupações nas quais está empenhado.

    Gostaria que hoje, na nossa meditação, nos persuadíssemos definitivamente da necessidade de nos dispormos a ser almas contemplativas, no meio da rua, do trabalho, mantendo com o nosso Deus um diálogo contínuo, que não deve decair ao longo do dia. Se pretendermos seguir lealmente os passos do Mestre, esse é o único caminho.[1]

    Para aqueles que são chamados por Deus  a santificar-se no meio do mundo,  converter o trabalho em oração e ter alma contemplativa, é o único caminho, porque ou sabemos encontrar o Senhor em nossa vida ordinária, ou nunca O encontraremos[2].

    Opus Dei -

    Convém que meditemos bem devagar sobre este ensinamento capital de São Josemaria. Neste texto, consideraremos o que é a contemplação; em outras ocasiões deter-nos-emos no aprofundamento da vida contemplativa no trabalho e nas atividades da vida ordinária.

    COMO EM NAZARÉ, COMO OS PRIMEIROS CRISTÃOS

    A descoberta de Deus na atividade habitual de cada dia dá aos próprios afazeres seu valor último e sua plenitude de sentido. A vida oculta de Jesus em Nazaré, os anos intensos de trabalho e de oração, nos quais Jesus Cristo levou uma vida comum — como a nossa, se o quisermos —,  divina e humana ao mesmo tempo[3], mostram que a atividade profissional, a atenção dedicada à família e as relações sociais não são obstáculo para orar sempre[4], mas ocasião e meio para uma vida intensa de intimidade com Deus, até que chega um momento em que é impossível estabelecer uma diferença entre trabalho e contemplação.

    Por esse caminho de contemplação na vida ordinária, seguindo as pegadas do Mestre, decorreu a vida dos primeiros cristãos: «quando passeia, conversa, descansa, trabalha ou lê, o crente ora»[5], escrevia um autor do século II. Anos mais tarde, São Gregório Magno testemunha, como um ideal tornado realidade em numerosos fiéis, que «a graça da contemplação não se dá sim aos grandes e não aos pequenos; mas muitos grandes a recebem, e também muitos pequenos; e tanto entre os que vivem retirados como entre pessoas casadas. Portanto, se não há estado algum entre os fiéis que fique excluído da graça da contemplação, aquele que guarda interiormente o coração pode ser ilustrado com essa graça»[6].

    Opus Dei -

    O Magistério da Igreja, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, recordou muitas vezes esta doutrina, tão importante para os que têm a missão de levar Cristo a todas as partes e transformar o mundo com o espírito cristão. «As atividades diárias apresentam-se como um precioso meio de união com Cristo, podendo converter-se em matéria de santificação, terreno de exercício das virtudes, diálogo de amor que se realiza nas obras. O espírito de oração transforma o trabalho e assim torna-se possível estar em contemplação de Deus ainda que permanecendo nas ocupações mais variadas»[7].

    A CONTEMPLAÇÃO DOS FILHOS DE DEUS

    Ensina o Catecismo que «a contemplação de Deus na Sua glória celestial é chamada pela Igreja "visão beatífica"»[8]. Desta contemplação plena de Deus, própria do Céu, podemos ter uma certa antecipação nesta terra, um princípio imperfeito [9] que, embora seja de ordem diversa da visão, é já uma verdadeira contemplação de Deus, assim como a graça, embora sendo de ordem distinta da glória, é, não obstante, uma verdadeira participação na natureza divina. Agora vemos como num espelho, obscuramente; depois veremos cara a cara. Agora conheço de modo imperfeito, depois conhecerei como sou conhecido [10], escreve São Paulo.

    Essa contemplação de Deus como num espelho, durante a vida presente, é possível graças às virtudes teologais, à fé e à esperança vivas, informadas pela caridade. A fé unida à esperança e vivificada pela caridade «faz-nos saborear antecipadamente o gozo e a luz da visão beatífica, fim de nosso caminhar aqui em baixo»[11].

    A contemplação é um conhecimento amoroso e gozoso de Deus e de seus desígnios manifestados nas criaturas, na Revelação sobrenatural e plenamente na Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, nosso Senhor. «Ciência de amor»[12], chama-a São João da Cruz. A contemplação é um conhecimento total da verdade, alcançado não por um processo de raciocínio, mas por uma intensa caridade[13].

    A oração mental é um diálogo com Deus. Escreveste-me: "Orar é falar com Deus. Mas, de quê?" — De quê? D´Ele e de ti: alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias…, fraquezas!: e ações de graças e pedidos: e Amor e desagravo. Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te: "relacionar-se!"[14]. Na vida espiritual, este relacionamento com Deus tende a simplificar-se à medida que aumenta o amor filial, cheio de confiança. Sucede então que, com frequência, já não são necessárias as palavras para orar, nem as exteriores nem as interiores. Sobram as palavras, porque a língua não consegue expressar-se; já o entendimento se aquieta. Não se raciocina, olha-se![15].

    Isto é a contemplação, um modo de orar ativo mas sem palavras, intenso e sereno, profundo e simples. Um dom que Deus concede aos que o buscam com sinceridade, aos que põem toda a alma no cumprimento de Sua Vontade, com obras, e procuram mover-se na sua presença. Primeiro uma jaculatória, e depois outra, e outra…, até que parece insuficiente esse fervor, porque as palavras resultam pobres…: e dá-se passagem à intimidade divina, num olhar para Deus sem descanso e sem cansaço[16]. Isto pode suceder, como ensina São Josemaria, não só nos tempos dedicados expressamente à oração, mas também enquanto realizamos com a maior perfeição possível, dentro de nossos erros e limitações, as tarefas próprias de nossa condição e de nosso ofício[17].

    SOB A ACÃO DO ESPÍRITO SANTO

    O Pai, o Filho e o Espírito Santo habitam na alma em graça[18]: somos templos de Deus[19]. As palavras não chegam para expressar a riqueza do mistério da Vida da Santíssima Trindade em nós: o Pai que gera eternamente o Filho, e que com o Filho expira ao Espírito Santo, vínculo de Amor subsistente. Pela graça de Deus, tomamos parte dessa Vida como filhos. O Paráclito une-nos ao Filho, que assumiu a natureza humana para nos fazer participantes da natureza divina: ao chegar a plenitude dos tempos, enviou Deus a seu Filho, nascido de mulher (…) a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: «¡Abba, Pai!»[20]. E nesta união com o Filho não estamos sós, mas formamos um corpo, o Corpo místico de Cristo, ao qual todos os homens estão chamados a incorporar-se como membros vivos e a ser, como os apóstolos, instrumentos para atrair a outros, participando no sacerdócio de Cristo[21].

    Opus Dei -

    A vida contemplativa é a vida própria dos filhos de Deus, vida de intimidade com as Pessoas Divinas e transbordante de afã apostólico. O Paráclito infunde em nós a caridade que nos permite alcançar um conhecimento de Deus que sem a caridade é impossível, pois o que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor[22]. Quem mais O ama melhor O conhece, já que esse amor —a caridade sobrenatural— é uma participação na infinita caridade que é o Espírito Santo[23], que tudo perscruta, até as profundezas de Deus. Pois quem sabe o que existe no homem, senão o espírito do homem que está nele? Assim também, as coisas de Deus ninguém as conheceu se não o próprio Espírito de Deus[24].

    Esse Amor, com maiúscula, instaura na vida da alma uma estreita familiaridade com as Pessoas Divinas, e um entendimento de Deus mais agudo, mais rápido, certeiro e espontâneo, em profunda sintonia com o Coração de Cristo[25]. Também no plano humano, os que se amam compreendem-se com mais facilidade e por isso São Josemaria recorre a essa experiência para transmitir de algum modo o que é a contemplação de Deus; por exemplo, dizia que em sua terra, às vezes, se dizia: olha como o contempla!; e explicava como esse modo de dizer se referia a uma mãe que tinha seu filho nos braços, a um noivo que contemplava sua noiva, à mulher que velava a cabeceira do marido. Pois bem, assim devemos contemplar ao Senhor.

    Mas toda a realidade humana, por mais formosa que seja, transforma-se em uma sombra da contemplação que Deus concede às almas fiéis. Se a caridade sobrenatural supera em altura, em qualidade e em força qualquer amor simplesmente humano, que dizer dos dons do Espírito Santo, que nos permitem deixar-nos conduzir docilmente por Ele? Com o crescimento destes dons – Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade e Temor Filial—, cresce a co-naturalidade ou a familiaridade com Deus e se revela todo o colorido da vida contemplativa.

    Em especial, pelo dom da Sabedoria – o primeiro e maior dos dons do Espírito Santo[26]—, é-nos concedido não só conhecer e assentir às verdades reveladas acerca de Deus e das criaturas, como é próprio da fé, mas também saborear essas verdades, conhecê-las com «um certo sabor de Deus»[27]. A Sabedoria – sapientia – é uma sapida scientia: uma ciência que se saboreia. Graças a este dom não só se crê no Amor de Deus, mas também se sabe de um modo novo[28]. É um saber ao qual só se chega com santidade: e há almas obscuras, ignoradas, profundamente humildes, sacrificadas, santas, com um sentido sobrenatural maravilhoso: Eu Te glorifico, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondestes  estas coisas aos sábios e aos prudentes, e as revelastes aos pequeninos[29]. Com o dom da Sabedoria, a vida contemplativa introduz-se nas profundezas de Deus[30]. Neste sentido, São Josemaria nos convida a meditar sobre um texto de São Paulo, no qual nos propõe todo um programa de vida contemplativa —conhecimento e amor, oração e vida— (…): que Cristo habite pela fé nos vossos corações; e que arraigados e cimentados na caridade, possais compreender com todos os santos qual é a largura e a grandeza, a altura e a profundidade do mistério; e conhecer também aquele amor de Cristo, que ultrapassa todo o conhecimento para que vós estejais repletos de toda a plenitude de Deus (Ef 3,17-19)[31].

    Temos de implorar ao Espírito Santo o dom de Sabedoria junto com os restantes dons, seu séquito inseparável. São os presentes do Amor divino, as joias que o Paráclito entrega aos que querem amar a Deus com todo o coração, com toda a alma, com todas as forças.

    PELO CAMINHO DA CONTEMPLAÇÃO

    Quanto maior for a caridade, mais intensa é a familiaridade com Deus, na qual surge a contemplação.Até a caridade mais fraca, como a de quem se limita a não pecar gravemente, mas que não busca cumprir em tudo a Vontade de Deus, estabelece uma certa conformidade com a Vontade divina. No entanto, um amor que não busca amar mais, que não tem o fervor da piedade, parece-se mais com a cortesia formal de um estranho do que com o afeto de um filho. Quem se conformasse com isso em sua relação com Deus não passaria de um conhecimento das verdades reveladas, insípido e passageiro, porque quem se contenta com ouvir a palavra, sem a pôr em prática, é semelhante a um homem que contempla a figura de seu rosto no espelho: olha-se, vai embora  e imediatamente se esquece de como era[32].

    Muito diferente é o caso de quem deseja sinceramente identificar em tudo sua vontade com a Vontade de Deus e, com a ajuda da graça, emprega os meios: a oração mental e vocal, a participação nos Sacramentos – a Confissão frequente e a Eucaristia -, o trabalho e o cumprimento fiel dos próprios deveres, a procura da presença de Deus ao longo do dia: o cuidado do plano de vida espiritual junto com uma intensa formação cristã.

    O ambiente atual da sociedade conduz muitos a viverem voltados para o exterior, com uma permanente ânsia de possuir isto ou aquilo, de ir daqui para ali, de olhar e ver, de mover-se, de distrair-se com futilidades, talvez com o objetivo de esquecer seu vazio interior, a perda do sentido transcendente da vida humana. Àqueles que, como nós, descobrimos o chamado divino à santidade e ao apostolado, deve suceder o contrário. Quanto mais atividade exterior, mais vida para dentro, mais recolhimento interior, procurando o diálogo com Deus presente na alma em graça e mortificando os afãs da concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida[33]. Para contemplar a Deus é preciso limpar o coração. Bem aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus[34].

    Peçamos à Nossa Mãe Santa Maria que nos obtenha do Espírito Santo o dom de sermos contemplativos no meio do mundo, dom que excedeu na sua vida santíssima.

    Texto de: J. López. Fonte: Opus Dei

    [1] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 238.
    [2] São Josemaria, Conversações, n. 114.
    [3] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 56.
    [4] Lc 18, 1.
    [5] Clemente de Alexandría, Stromata, 7, 7.
    [6] São Gregório Magno, In Ezechielem homiliae, 2, 5, 19.
    [7] João Paulo II, Discurso ao Congresso «A grandeza da vida ordinária», no centenário do nascimento de São Josemaria, 12-I-2002, n. 2.
    [8] Catecismo da Igreja Católica, n. 1028.
    [9] Cfr. Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, q. 12, a. 2, c; e II-II, q. 4, a.1; q. 180, a. 5, c.
    [10] 1 Cor 12, 12. Cfr. 2 Cor 5, 7; 1 Jn 3, 2.
    [11] Catecismo da Igreja Católica, n. 163.
    [12] São João da Cruz, Noite escura, liv. 2, cap. 18, n. 5.
    [13] Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 180, a. 1, c e a.3, ad 1.
    [14] São Josemaria, Caminho, n. 91.
    [15] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 307.
    [16] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 296.
    [17] Idem.
    [18] Cfr. Jo 14, 23.
    [19] Cfr. 1 Cor 3, 16; 2 Cor 6, 16.
    [20] Gal 4, 4-6.
    [21] Cfr. 1 Cor 12, 12-13, 27; Ef 2, 19-22; 4, 4.
    [22] 1 Jo 4, 9.
    [23] Cfr. Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 24, a. 7, c. In Epist. ad Rom., c. 5, lect. 1.
    [24] 1 Cor 2, 10-11.
    [25] Cfr. Mt 11, 27.
    [26] Cfr. João Paulo II, Alocução 9-04-1989.
    [27] Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae II-II, q. 45, a. 2, ad 1.
    [28] Cfr. Rm 8, 5.
    [29] Mt 11, 25.
    [30] 1 Cor 1, 10.
    [31] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 163.
    [32] St 1, 23-24.
    [33] 1 Jo 2, 16.
    [34] Mt 5, 8.