Sunday, 20 of May of 2012

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“Senhor Jesus, Limpai-me…”

MEDITAÇÕES SOBRE A SAGRADA EUCARISTIA.

SEXTA MEDITAÇÃO

46. “SENHOR JESUS, LIMPAI-ME…”

– A entrega de Cristo na Cruz, renovada na Eucaristia, purifica as nossas fraquezas.

– Jesus em pessoa vem curar-nos, consolar-nos, dar-nos forças.

– A Santíssima Humanidade de Cristo na Eucaristia.

I. PIE PELLICANE, IESU DOMINE, me immundum munda tuo sanguine… “Bom pelicano, Senhor Jesus! Limpai-me a mim, imundo, com o vosso Sangue, com esse Sangue do qual uma só gota pode salvar do pecado o mundo inteiro”1.

Conta uma antiga lenda que o pelicano restituía a vida aos seus filhos mortos ferindo-se a si mesmo e aspergindo-os com o seu sangue2. Esta imagem foi aplicada a Jesus Cristo pelos cristãos, desde tempos muitos remotos. Uma só gota do Sangue de Jesus, derramado no Calvário, teria bastado para reparar todos os crimes, ódios, impurezas, invejas… de todos os homens de todos os tempos, dos passados e dos que virão. Mas Cristo quis ir além: derramou até a última gota do seu Sangue não só pela humanidade como um todo, mas por cada homem, como se só um homem tivesse existido na terra:… Este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos os homens para o perdão dos pecados, disse Jesus na Última Ceia. E no dia seguinte, no Calvário, um dos soldados atravessou-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água3, a última gota de sangue que lhe restava. Os Padres da Igreja ensinam que os sacramentos e a própria vida da Igreja brotaram desse lado aberto de Cristo. “Ó morte que dá a vida aos mortos! – exclama Santo Agostinho –. Haverá coisa mais pura do que este sangue? Haverá ferida mais salutar do que esta?”4Por ela nós somos curados.

Comentando esta passagem do Evangelho, São Tomás de Aquino ressalta que São João diz de um modo significativo aperuit, non vulneravit, que o lado lhe foi aberto, não ferido, “porque por esse lado se abriu para nós a porta da vida eterna”5. Tudo isso aconteceu – afirma o Santo no mesmo lugar – para nos mostrar que, por meio da Paixão de Cristo, conseguimos a purificação dos nossos pecados e manchas.

Os judeus consideravam que a vida estava no sangue. Jesus derrama o seu Sangue por nós, entrega a sua vida pela nossa. Demonstrou o seu amor por nós ao lavar os nossos pecados com o seu próprio Sangue, ressuscitando-nos assim para uma vida nova6. São Paulo diz que Jesus foi exposto publicamente na Cruz por nossa causa: pendeu da Cruz como um anúncio para chamar a atenção de todos o que por ali passassem, para chamar a nossa atenção. Por isso dizemos-lhe hoje, na intimidade da nossa oração: Bom pelicano, Senhor Jesus! Limpai-me a mim, imundo, que me encontro cheio de fraquezas, limpai-me com o vosso Sangue.

II. O SENHOR ESTÁ NA EUCARISTIA como Médico para limpar e curar as feridas que tanto mal fazem à alma. Quando vamos visitá-lo, no Sacrário, o seu olhar purifica-nos. Mas, se quisermos, pode fazer muito mais: vir ao nosso coração e enchê-lo de graças.

Antes de comungar, o sacerdote apresenta-nos a Sagrada Forma e repete-nos umas palavras ditas por São João Batista a João e André, referindo-se a Jesus que passava: Eis o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. E os fiéis respondem com aquelas outras do centurião de Cafarnaum, cheias de fé e de amor: Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada….

Naquela ocasião, Jesus curou à distância o servo desse homem elogiado por Cristo pela sua grande fé. Mas na Comunhão, apesar de dizermos a Jesus que não somos dignos, que nunca teremos a alma suficientemente preparada, Ele deseja vir em pessoa, com o seu Corpo e a sua Alma, ao nosso coração manchado por tantas indelicadezas. Todos os dias repete as palavras que dirigiu aos seus discípulos ao começar a Última Ceia: Desiderio desideravi… Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco…7Meditar com freqüência no imenso desejo que Jesus tem de vir à nossa alma, apesar das nossas misérias, pode cumular o nosso coração de alegria e de amor.

Bem se pode pensar que “o milagre da transubstanciação se realizou exclusivamente para nós. Jesus veio e habitou na terra só para nós [...]. Nenhum intermediário, nenhum agente secundário nos comunicará a influência de que a nossa alma necessita; virá Ele mesmo. Quanto o Senhor não nos deve amar para fazer isto! Como deve estar decidido a que não falte nada da sua parte, e não tenhamos nenhuma desculpa para rejeitar o que nos oferece, quando Ele mesmo o traz! E nós tão cegos, tão vacilantes, tão pouco interessados, tão pouco dispostos a dar-nos plenamente Àquele que se dá totalmente a nós!”8

As faltas e misérias cotidianas, de que ninguém está livre, não são obstáculo para recebermos a Comunhão. “Pelo fato de nos reconhecermos pecadores, não só não devemos abster-nos da Comunhão do Senhor, como devemos antes aproximar-nos dela cada vez com maior desejo: para remédio da alma e purificação do espírito, mas com tal humildade e fé que, julgando-nos indignos de receber tão grande favor, nos aproximemos para buscar remédio para as nossas feridas”9. Só os pecados graves impedem a digna recepção da Sagrada Eucaristia, se não se procura antes o perdão na Confissão sacramental. E no momento da Comunhão, a alma converte-se num segundo Céu, cheio de resplendor e de glória, que provoca surpresa e admiração nos próprios anjos: “Quando O receberes, diz-lhe: – Senhor, espero em Ti; adoro-te, amo-te, aumenta-me a fé. Sê o apoio da minha debilidade, Tu, que ficaste na Eucaristia, inerme, para remediar a fraqueza das criaturas”10.

III. ME IMMUNDUM, MUNDA TUO SANGUINE…, “limpai-me a mim, imundo, com o vosso Sangue…”

Devemos pedir ao Senhor um grande desejo de pureza no nosso coração. Deve ser um desejo tão intenso como o daquele leproso que um dia, em Cafarnaum, se prostrou diante de Jesus e lhe suplicou que o limpasse da sua doença. O mal devia ter-se alastrado por todo o seu corpo, pois o Evangelista diz que estava coberto de lepra11. E Jesus estendeu a mão, tocou na sua podridão e disse-lhe: Quero, sê limpo. E no mesmo instante desapareceu dele a lepra. E isso é o que Jesus fará conosco, pois não somente nos toca, mas vem habitar na nossa alma e nela derrama os seus dons e graças.

No momento da Comunhão, estamos realmente na posse da Vida. “Possuímos o Verbo encarnado todo inteiro, com tudo o que Ele é e faz, isto é, Jesus Deus e homem, todas as graças da sua Humanidade e todos os tesouros da sua Divindade, ou, para falar com São Paulo, a insondável riqueza de Cristo (Ef 3, 8)”12.

Em primeiro lugar, Jesus está em nós como homem. A Comunhão derrama em nós a vida atual, celestial e glorificada da sua Humanidade, do seu Coração e da sua Alma. Alguns santos tiveram a visão do Corpo glorificado de Cristo como Ele está no Céu, resplandecente de glória, e como está na alma no momento da Comunhão, enquanto permanecem em nós as sagradas espécies. Diz Santa Ângela de Foligno: “Era uma formosura que fazia a palavra humana morrer”, e durante muito tempo conservou desta visão “uma alegria imensa, uma luz sublime, um deleite indescritível e contínuo, um deleite deslumbrante que ultrapassa todo o deslumbramento”13. Este é o mesmo Jesus que nos visita diariamente no sacramento e que realiza as mesmas maravilhas.

O Senhor vem à nossa alma também como Deus. Especialmente nesses momentos em que o temos dentro de nós, estamos unidos à sua vida divina, à sua vida como Filho Unigênito do Pai. “Ele mesmo nos diz: Eu vivo pelo Pai (Jo 6, 58). Desde a eternidade, o Pai dá ao Filho a vida que tem no seu seio. E a dá totalmente, sem medida, e com tal generosidade de amor que, permanecendo distintos, não formam senão uma divindade com uma mesma vida, na plenitude do amor, da alegria e da paz. Esta é a vida que nós recebemos”14.

Diante de um mistério tão insondável, diante de tantos dons, como não havemos de desejar a Confissão, que nos prepara para receber melhor Jesus? Como não havemos de pedir-lhe, quando estiver na nossa alma em graça, que nos purifique tantas manchas, tantas fraquezas? Se o leproso ficou curado quando Jesus estendeu a mão sobre ele, como não purificará o nosso coração, se a nossa falta de fé e de amor não o impedir?

Dizemos hoje a Jesus na intimidade da oração: “Senhor, se quiseres – e Tu queres sempre –, podes curar-me. Tu conheces a minha debilidade; sinto estes sintomas e experimento estas outras fraquezas. E descobrimos com simplicidade as chagas; e o pus, se houver pus. Senhor, Tu, que curaste tantas almas, faz com que, ao ter-te no meu peito ou ao contemplar-te no Sacrário, te reconheça como Médico divino”15.

(1) Hino Adoro te devote; (2) cfr. Santo Isidoro de Sevilha, Etimologías, 12, 7, 26; (3) Jo 19, 34; (4) Santo Agostinho, Tratado sobre o Evangelho de São João, 120, 2; (5) São Tomás, Leitura sobre o Evangelho de São João, n. 2458; (6) cfr. Apoc 1, 5; (7) Lc 22, 15; (8) R. A. Knox, Sermones pastorales, págs. 516-517; (9) Cassiano, Colaciones, 23, 21; (10) Josemaría Escrivá, Forja, n. 832; (11) cfr. Lc 5, 12 e segs.; (12) P. M. Bernadot, De la Eucaristia a la Trinidad, 7ª ed., Palabra, Madrid, 1976, págs. 22-23; (13) cfr. ib.; (14) ib., pág. 24; (15) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 93.

Fonte: Falar com Deus


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A consciência e a vida correta

 

Por Joseph Ratzinger

Seguir a consciência significa realizar todos os nossos gostos? O conceito de autoridade exclui o conceito de liberdade? O então Cardeal Ratzinger fala sobre essas e outras questões nesse conjunto de reflexões tirado do posfácio do livro Joseph Ratzinger: uma biografia.

A unidade do homem tem um órgão: a consciência. Foi uma ousadia de São Paulo afirmar que todos os homens têm a capacidade de escutar a sua consciência, separando assim a questão da salvação da questão do conhecimento e da observância da Torah e situando-a no terreno da comum exigência da consciência em que o Deus único fala e diz a cada um o que é verdadeiramente essencial na Torah: Quando os gentios, que não têm lei, cumprem naturalmente as prescrições da lei, sem ter lei são lei para si mesmos, demonstrando que têm a realidade dessa lei escrita no seu coração, segundo o testemunho da sua consciência… (Rom 2, 14 e segs.). Paulo não diz: “Se os gentios se mantiverem firmes na sua religião, isso é bom diante do juízo de Deus”. Pelo contrário, ele condena grande parte das práticas religiosas daquele tempo. Remete para outra fonte, para aquela que todos trazem escrita no coração, ao único bem do único Deus.

Seja como for, aqui se enfrentam hoje dois conceitos contrários de consciência, que na maioria das vezes simplesmente se intrometem um no outro. Para Paulo, a consciência é o órgão da transparência do único Deus em todos os homens, que são um homem. Em contrapartida, atualmente a consciência aparece como expressão do caráter absoluto do sujeito, acima do qual não pode haver, no campo moral, nenhuma instância superior. O bem como tal não seria cognoscível. O Deus único não seria cognoscível. No que diz respeito à moral e à religião, a última instância seria o sujeito.

Isto seria lógico, se a verdade como tal fosse inacessível. Assim, o conceito moderno da consciência equivale à canonização do relativismo, da impossibilidade de haver normas morais e religiosas comuns, ao passo que, pelo contrário, para Paulo e para a tradição cristã, a consciência sempre foi a garantia da unidade do ser humano e da cognoscibilidade de Deus, e assim da obrigatoriedade comum de um mesmo e único bem. O fato de que em todos os tempos houve e há santos pagãos baseia-se em que em todos os lugares e em todos os tempos – embora muitas vezes com grande esforço e apenas parcialmente – a voz do coração era perceptível; a Torah de Deus se nos fazia perceptível como obrigação dentro de nós mesmos, no nosso ser criatural, e assim tornava possível que superássemos a mera subjetividade na relação de uns com os outros e na relação com Deus. E isto é a salvação (1).

CONSCIÊNCIA E VERDADE

A vida e a obra do Cardeal Newman poderia ser realmente definida como um extraordinário e extenso comentário ao problema da consciência <…>. Quem não se recorda <…> da famosa frase acerca da consciência na carta que dirigiu ao duque de Norfolk? Diz assim: “Se tivesse de brindar pela religião, o que é altamente improvável, fá-lo-ia pelo Papa. Mas em primeiro lugar pela consciência. Só depois o faria pelo Papa” (2). Newman queria que a sua resposta fosse uma adesão clara ao Papado em face da contestação de Gladstone, mas também queria que fosse, em face das formas errôneas do “ultramontanismo”, uma interpretação do Papado que só pode ser concebido adequadamente quando visto de forma conjunta com o primado da consciência, não como oposto a ela, mas como algo que a funda e lhe dá garantia. É difícil para o homem moderno, que pensa sempre na subjetividade como oposta à autoridade, entender esse problema. Para ele, a consciência está do lado da subjetividade e é expressão da liberdade do sujeito, enquanto a autoridade aparece como sua limitação e, inclusive, como sua ameaça e negação. É preciso aprofundar mais em tudo isso para entender de novo a perspectiva em que tal oposição não é válida.

O conceito central de que Newman se serve para unir autoridade e subjetividade é a verdade. Não tenho reparos em dizer que a verdade é a idéia central da sua luta espiritual. A consciência ocupa para ele um lugar central porque a verdade está no centro. Dito de outra maneira: em Newman, a importância do conceito de consciência está unida à excelência do conceito de verdade e deve ser entendida exclusivamente a partir dele. A presença constante da idéia de consciência não significa a defesa, no século XIX e em contraposição à neo-escolástica “objetivista”, de uma filosofia ou uma teologia da subjetividade. O sujeito merece, a seu ver, uma atenção como não havia despertado talvez desde Santo Agostinho. Mas é uma atenção na linha de Santo Agostinho, não na da filosofia subjetivista da modernidade. Ao ser elevado ao cardinalato, Newman confessou que toda a sua vida tinha sido uma luta contra o liberalismo. Poderíamos acrescentar: e também contra o subjetivismo cristão tal como o encontrou no movimento evangélico do seu tempo, e que constituiu o primeiro degrau de um caminho de conversão que duraria toda a sua vida.

A consciência não significa para Newman a norma do sujeito frente às demandas da autoridade num mundo sem verdade, que vive entre as exigências do sujeito e da ordem social, mas, antes, a presencia clara e imperiosa da voz da verdade no sujeito. A consciência é a anulação da mera subjetividade no ponto em que se tangenciam a intimidade do homem e a verdade de Deus. São significativos os versos que escreveu na Sicília em 1833: “Eu amava o meu próprio caminho. Agora Te peço, ilumina-me para Te seguir” (3). A conversão ao catolicismo não foi para ele uma questão de gosto pessoal ou de uma necessidade anímica subjetiva. Já em 1844, no umbral de sua conversão, falava sobre isso com estas palavras: “Ninguém pode ter uma opinião mais desfavorável que eu da situação atual dos católicos” (4). Mas a Newman importava mais obedecer à verdade, inclusive contra o seu próprio sentir, que seguir o seu gosto, os vínculos de amizade e os caminhos trilhados.

Parece-me muito significativo que ele tenha sublinhado a prioridade da verdade sobre o bem na série das virtudes, ou, expresso de forma mais compreensível para nós, a sua primazia em face do consenso e dos pactos de grupo. Eu diria que essas atitudes são comuns quando falamos de um homem de consciência. Homem de consciência é aquele que não compra tolerância, bem-estar, êxito, reputação e aprovação públicas renunciando à verdade. Nisso Newman coincide com outra grande testemunha britânica da consciência, com Thomas More, para quem a consciência nunca foi expressão da sua vontade de obstinação nem de heroísmo caprichoso. Thomas More contava-se a si mesmo entre os mártires temerosos que só depois de muitos atrasos e inumeráveis questionamentos conseguiu levar a alma a obedecer à consciência: a obediência à verdade, que deve estar acima das instâncias sociais e dos gostos pessoais. Aparecem então dois critérios para distinguir a presença de uma verdadeira voz da consciência: que não coincida com os desejos e gostos próprios nem com o que é mais benéfico para a sociedade, o consenso do grupo ou as exigências do poder político ou social.

Chegados a este ponto, parece natural lançar um olhar aos problemas da nossa época. O indivíduo não deve trair a verdade reconhecida para comprar o progresso e o bem-estar. A humanidade não o permite. Com isto, tocamos o ponto verdadeiramente crítico da modernidade: o conceito de verdade foi praticamente abandonado e substituído pelo de progresso. O progresso “é” a verdade. Mas com essa aparente elevação desmente-se e anula a si próprio, pois quando não há direção, o mesmo movimento pode ser tanto progressivo como retrógrado. É assim que a teoria da relatividade formulada por Einstein vê o cosmos físico. Mas penso que também descreve com acerto a situação do cosmos espiritual do nosso tempo. A teoria da relatividade estabelece que não há nenhum sistema de referência fixo; cabe a nós considerar um ponto qualquer como referência e a partir dele tentar medir a totalidade, pois apenas assim poderemos obter resultados; da mesma maneira que escolhemos um, poderíamos ter escolhido qualquer outro.

O que se diz a respeito do cosmos físico reflete também o segundo giro “copernicano” que se deu na nossa relação fundamental com a realidade: a verdade, o absoluto, o ponto de referência do pensamento deixou de ser evidente. Por isso, já não há – tampouco do ponto de vista espiritual – nem norte nem sul. Não há direção num mundo sem pontos de medida fixos. O que consideramos direção não assenta numa medida verdadeira, mas numa decisão nossa e, em última análise, no ponto de vista da utilidade. Num tal contexto “relativista”, a ética teleológica ou conseqüencialista converte-se numa ética niilista, mesmo quando não se percebe. O que numa cosmovisão como essa se chama “consciência” é, considerada em profundidade, um modo de dissimular que não há autêntica consciência, isto é, unidade de conhecimento e verdade. Cada um cria os seus próprios critérios, e, na situação de relatividade geral, ninguém pode ajudar os outros, e menos ainda dar-lhes instruções.

Agora se percebe a enorme radicalidade do debate ético atual, cujo centro é a consciência. Penso que o paralelismo mais aproximado na história das idéias é a controvérsia entre Sócrates e Platão, por um lado, e os sofistas, por outro, na qual se põe à prova a resolução originária de duas atitudes fundamentais: a confiança na capacidade humana de verdade e uma visão do mundo na qual o homem cria os seus próprios critério.

O motivo pelo qual Sócrates, um pagão, se converteu em certo sentido num profeta de Jesus Cristo é, a meu ver, essa questão primordial: a sua disposição de acolher a verdade foi o que permitiu ao modo de fazer filosofia inspirado na sua figura o privilégio de ser de algum modo um elemento da História Sagrada, e o que fez dele um recipiente idôneo do Logos cristão, cuja finalidade é a libertação pela verdade e para a verdade. Se separarmos a luta de Sócrates das contingências históricas do momento, perceberemos rapidamente com que intensidade intervém – com outros argumentos e nomes – nos assuntos da polêmica do presente. <…> em muitos lugares já não se pergunta o quê um homem qualquer pensa. Basta-nos dispor de uma idéia sobre o seu modo de pensar para incluí-lo na categoria formal conveniente: conservador, reacionário, fundamentalista, progressista ou revolucionário. A inclusão num esquema formal torna desnecessária qualquer explicação do seu pensamento. Algo parecido, mas reforçado, se observa na arte. O que expressa é indiferente: pode glorificar Deus ou o diabo. O único critério é que seja formalmente conhecido.

Com isto, chegamos ao verdadeiro núcleo do nosso assunto. Quando os conteúdos não contam e a pura fraseologia assume o comando, o poder converte-se em critério supremo, isto é, transforma-se em categoria – revolucionária ou reacionária – dona de tudo. Esta é a forma perversa de semelhança com Deus de que fala o relato do pecado original. O caminho do mero poder e da pura força é a imitação de um ídolo, não a realização da imagem de Deus. O traço essencial do homem enquanto homem não é perguntar pelo poder, mas pelo dever, e abrir-se à voz da verdade e suas exigências. Esta é, a meu ver, a trama definitiva da luta de Sócrates. Também é o argumento mais profundo do testemunho dos mártires: os mártires manifestam a capacidade de verdade do homem como limite de qualquer poder e como garantia da sua semelhança com Deus. É assim que os mártires se constituem nas grandes testemunhas da consciência, da capacidade outorgada ao homem para perceber o dever acima do poder e começar o progresso verdadeiro e a ascensão efetiva (5).

A CONSCIÊNCIA “INFALÍVEL”

A consciência é apresentada como o baluarte da liberdade em face das constrições da existência causadas pela autoridade. <…> Desse modo, a moral da consciência e a moral da autoridade parecem enfrentar-se como duas morais contrapostas em luta recíproca. A liberdade do cristão ficaria a salvo graças ao postulado original da tradição moral: a consciência é a norma suprema que o homem deve seguir sempre, mesmo quando vai contra a autoridade. Quando a autoridade, nesse caso o Magistério da Igreja, falasse sobre problemas de moral, estaria submetendo um material à consciência, que reservaria sempre para si mesma a última palavra <…>. Essa concepção da consciência como última instância é recolhida por alguns autores na fórmula “a consciência é infalível”. <…>

Por um lado, é inquestionável que devemos sempre seguir o veredito evidente da consciência, ou pelo menos não o infringir com as nossas ações. Mas é muito diferente sustentar a convicção de que o ditame da consciência, ou o que consideramos como tal, sempre estaria certo, sempre seria infalível. Semelhante afirmação significaria o mesmo que dizer que não há verdade alguma, ao menos em matéria de moral e religião, isto é, justamente no âmbito que é o fundamento constitutivo da nossa existência. Como os juízos da consciência se contradizem uns aos outros, só haveria uma “verdade do sujeito” <…>.

A pergunta pela consciência nos transporta, na prática, para o domínio essencial do problema moral e a interrogação acerca da existência do homem. Não gostaria de pôr esses problemas em forma de considerações estritamente conceituais e, por conseguinte, completamente abstratas, mas preferiria avançar de modo narrativo.

Primeiramente, contarei a história da minha relação pessoal com esse problema. Ele pôs-se pela primeira vez com toda a sua urgência no começo da minha atividade acadêmica. Um meu colega mais velho <…>, expressou durante uma disputa a opinião de que devíamos dar graças a Deus por conceder a muitos homens a possibilidade de fazer-se não-crentes seguindo a sua consciência; se lhes abríssemos os olhos e eles se fizessem crentes, não seriam capazes de suportar neste nosso mundo o peso da fé e das suas obrigações morais. Mas, como todos seguiram de boa-fé um caminho diferente, poderiam alcançar a salvação.

O que mais me chocava nessa afirmação não era a idéia de uma consciência equivocada concedida pelo próprio Deus para poder salvar os homens mediante esse estratagema, isto é, a idéia de uma ofuscação enviada por Deus para a salvação de alguns. O que me perturbava era a idéia de que a fé fosse uma carga insuportável que só naturezas fortes poderiam suportar, quase um castigo ou, em todo o caso, uma exigência difícil de cumprir. A fé não facilitaria a salvação, antes a dificultaria. Livre seria aquele que não carregasse com a necessidade de crer e de dobrar-se ao jugo da moral que decorre da fé da Igreja Católica. A consciência errônea, que permitiria uma vida mais leve e mostraria um caminho mais humano, seria a verdadeira graça, o caminho normal da salvação. A falsidade e o afastamento da verdade seriam melhores para o homem do que a verdade. O homem não seria libertado pela verdade, mas deveria ser libertado dela. A morada do homem seria mais a obscuridade do que a luz, e a fé não seria um dom benéfico do bom Deus, mas uma fatalidade.

Porém, se as coisas fossem assim, como poderia surgir a alegria da fé? Como poderia surgir a coragem de transmiti-la aos demais? Não seria melhor deixá-los em paz e mantê-los distantes dela? Foram idéias como essa que paralisaram, com cada vez mais força, a tarefa evangelizadora. Quem encara a fé como uma carga pesada ou como uma exigência moral excessiva não pode convidar outras pessoas a abraçá-la. Prefere deixá-los na suposta liberdade da sua boa consciência.

<…> O que inicialmente me estarreceu no argumento mencionado era, sobretudo, a caricatura de fé que me pareceu haver nele. Mas, numa segunda consideração, pareceu-me igualmente falso o conceito de consciência que pressupunha. A consciência errônea protege o homem das exigências da verdade e o salva: assim soava o argumento. A consciência não aparecia nele como uma janela que abre para o homem o panorama da verdade comum que sustenta a cada um e a todos, tornando possível que sejamos uma comunidade de vontade e de responsabilidade apoiada na comunidade do conhecimento. Nesse argumento, a consciência também não é a abertura do homem ao fundamento que o sustenta nem a força que lhe permite perceber o supremo e essencial. Trata-se antes de uma espécie de invólucro protetor da subjetividade <…> que não dá acesso à estrada salvadora da verdade, que ou não existe ou é exigente demais; e converte-se assim em justificação da subjetividade, que não se quer ver questionada, e do conformismo social, que deve possibilitar a convivência como valor médio entre as diversas subjetividades. Desaparecem assim o dever de buscar a verdade e as dúvidas quanto às atitudes e costumes dominantes: bastariam o conhecimento adquirido individualmente e a adaptação aos outros. O homem é reduzido às convicções mais superficiais, e quanto menor a sua profundidade, melhor para ele. <…>.

Pouco depois, numa disputa entre um grupo de colegas sobre a força justificadora da consciência errônea, alguém objetou contra essa tese que, se fosse universalmente válida, estariam justificados – e deveríamos procurá-los no céu – os membros das SS que cometeram os seus crimes com um conhecimento fanatizado e plena segurança de consciência. <…> Não haveria a menor dúvida de que Hitler e os seus cúmplices, que estavam profundamente convencidos do que faziam, não podiam ter agido de outra forma. Apesar do horror objetivo das suas ações, teriam agido moralmente do ponto de vista subjetivo. Como seguiam a sua consciência, embora esta os tivesse guiado erroneamente, deveríamos reconhecer que as suas ações eram morais para eles; não poderíamos duvidar, em suma, da salvação eterna das suas almas.

A partir dessa conversa, sei com segurança absoluta que há algum erro na teoria sobre a força justificadora da consciência subjetiva; em outras palavras, que um conceito de consciência que conduz a semelhantes resultados é falso. A firme convicção subjetiva e a segurança e falta de escrúpulos que dela derivam não tiram a culpa do homem. Quase trinta anos depois, lendo o psicólogo Albert Görres, descobri resumida em poucas palavras a idéia que então tentava penosamente reduzir a conceitos e cujo desenvolvimento forma o núcleo das nossas reflexões. Görres indica que o sentimento de culpabilidade, a capacidade de sentir culpa, pertence de forma essencial ao patrimônio anímico do homem. O sentimento de culpa, que rompe a falsa tranqüilidade da consciência <…>, é um sinal tão necessário para o homem como a dor corporal, que permite conhecer a alteração das funções vitais normais. Quem não é capaz de sentir culpa está espiritualmente doente, é um “cadáver vivente, uma máscara do caráter”, como diz Görres (6). “Os animais e os monstros, entre outros, não têm sentimento de culpa. Talvez Hitler, Himmler ou Stalin também não o tenham tido. Com certeza, os chefões da máfia também carecem dele. Mas, na verdade, é bem possível que os seus cadáveres estejam ocultos no sótão, junto com os sentimentos de culpa rejeitados… Todos os homens necessitam de um sentimento de culpa” (7).

Além do mais, uma rápida olhada na Sagrada Escritura poderia ter evitado esses diagnósticos e as teorias da justificação pela consciência errônea. No Salmo 19, 13 encontramos uma proposição eternamente digna de reflexão: “Quem será capaz de reconhecer os seus deslizes? / Limpa-me <, Senhor,> dos que me são ocultos”. Isso não é um “objetivismo veterotestamentário”, mas profunda sabedoria humana: negar-se a ver a culpa ou fazer emudecer a consciência em tantos assuntos é uma doença da alma mais perigosa que a culpa reconhecida como culpa. Aquele que é incapaz de perceber que matar é pecado cai mais baixo do que aquele que reconhece a ignomínia da sua ação, pois está muito mais distante da verdade e da conversão. Não é em vão que, diante de Jesus, o orgulhoso aparece como alguém verdadeiramente perdido. O fato de o publicano, com todos os seus pecados indiscutíveis, parecer mais justo diante de Deus que o fariseu, com todas as suas obras verdadeiramente boas (Lc 18, 9-14), não significa que os pecados do publicano não sejam pecados nem que não sejam boas as obras boas. <…> O fundamento desse juízo paradoxal de Deus revela-se precisamente a partir do nosso problema: o fariseu não sabe que também tem pecados. Está inteiramente quite com a sua consciência. Mas o silêncio da consciência torna-o impermeável a Deus e aos homens, ao passo que o grito da consciência que aflora no publicano torna-o capaz da verdade e amor. Jesus pode atuar nos pecadores porque eles não se fazem inacessíveis às mudanças que Deus espera deles – de nós – escondendo-se atrás do biombo da sua consciência errônea. Mas não pode atuar nos “justos”, que não sentem necessidade nem de perdão nem de conversão; a sua consciência, que os exculpa, não acolhe nem o perdão nem a conversão.

Voltamos a encontrar a mesma idéia, ainda que exposta de outro modo, em Paulo, que nos diz que os gentios, quando guiados pela razão natural, sem Lei, cumprem os preceitos da Lei (Rom 2, 1-16). Toda a teoria da salvação pela ignorância fracassa diante desses versículos: no homem, existe a presença inegável da verdade, da verdade do Criador, que se oferece também por escrito na revelação da História Sagrada. O homem pode ver a verdade de Deus no fundo do seu ser criatural. É culpado se não a vê. Só se deixa de vê-la quando não se quer vê-la, ou seja, porque não se quer vê-la. Essa vontade negativa que impede o conhecimento é culpa. Que o farol não brilhe é conseqüência de um afastamento voluntário do olhar daquilo que não queremos ver.

A estas alturas das nossas reflexões, é possível tirar as primeiras conseqüências para responder à pergunta sobre o que é a consciência. Agora já podemos dizer: não é possível identificar a consciência humana com a autoconsciência do eu, com a certeza subjetiva de si e do seu comportamento moral. Essa consciência pode ser às vezes um mero reflexo do meio social e das opiniões nele difundidas. Outras vezes, pode estar relacionada com uma pobreza autocrítica, com não ouvir suficientemente a profundidade da alma. O que se deu no Leste Europeu após a derrocada dos sistemas marxistas confirma este diagnóstico. Os espíritos mais claros e despertos dos povos libertados falam de um imenso abandono moral, produzido por muitos anos de degradação espiritual, e de um embotamento do sentido moral, cuja perda e os perigos que acarreta pesariam ainda mais que os danos econômicos que produziu. O novo patriarca de Moscou pôs energicamente em evidência esse aspecto, no começo da sua atividade, no verão de 1990: as faculdades perceptivas dos homens que vivem num sistema de engano turvam-se inevitavelmente. A sociedade perde a capacidade de misericórdia e os sentimentos humanos desaparecem. <…> “Temos de conduzir de novo a humanidade aos valores morais eternos”, isto é, desenvolver de novo o ouvido quase extinto para escutar o conselho de Deus no coração do homem. O erro, a consciência errônea, só são cômodos num primeiro momento. Depois, o emudecimento da consciência converte-se em desumanização do mundo e em perigo mortal, se não reagimos contra eles.

Em outras palavras: a identificação da consciência com o conhecimento superficial e a redução do homem à subjetividade não libertam, mas escravizam. Fazem-nos completamente dependentes das opiniões dominantes e reduzem dia após dia o nível dessas mesmas opiniões dominantes. Aquele que iguala a consciência à convicção superficial identifica-a com uma segurança aparentemente racional, tecida de fatuidade, conformismo e negligência. A consciência degrada-se à condição de mecanismo exculpatório, em vez de representar a transparência do sujeito para refletir o divino, e, como conseqüência, degrada-se também a dignidade e a grandeza do homem. A redução da consciência à segurança subjetiva significa a supressão da verdade. Quando o salmista, antecipando a visão de Isaías sobre o pecado e a justiça, pede para libertar-se dos pecados que se nos ocultam, chama a atenção para o seguinte fato: deve-se, sem dúvida, seguir a consciência errônea, mas a supressão da verdade que a precede, e que agora se vinga, é a verdadeira culpa, que adormece o homem numa falsa segurança e por fim o deixa só num deserto inóspito (8).

FORMAR A CONSCIÊNCIA

Certamente a fé cristã vai além daquilo que a pura razão é capaz de reconhecer, mas faz parte das suas convicções fundamentais que Cristo é o Logos, quer dizer, a razão criadora de Deus da qual procede o mundo e que se reflete na nossa racionalidade. O apóstolo Paulo, que falou com tanta ênfase da novidade e da unicidade do cristianismo, destacou ao mesmo tempo que o preceito moral registrado na Sagrada Escritura coincide com aquele que “está inscrito nos nossos corações, segundo o testemunho da nossa consciência” (Rom 2, 15). É verdade que, com freqüência, esta voz do nosso coração, a consciência, é sufocada pelos ruídos secundários da nossa vida. A consciência pode, por assim dizer, tornar-se cega. Precisamos assistir às “aulas de recuperação” da fé, que volta a despertá-la, e assim torna novamente perceptível a voz do Criador em nós, suas criaturas (9).

O RESPEITO HUMANO, TRAIÇÃO DA PRÓPRIA CONSCIÊNCIA

O Juiz do mundo, que um dia voltará para nos julgar a todos nós, está ali, aniquilado, insultado e inerme diante do juiz terreno. Pilatos não é um monstro de maldade. Sabe que esse condenado é inocente, e procura um modo de libertá-lo. Mas o seu coração está dividido. E, por fim, faz prevalecer a sua posição, a si mesmo, acima do direito. Também os homens que gritam e pedem a morte de Jesus não são monstros de maldade. Muitos deles, no dia de Pentecostes, sentir-se-ão emocionados até ao fundo do coração (At 2, 37) quando Pedro lhes disser: a Jesus do Nazaré, homem acreditado por Deus junto de vós, <…>, vós o matastes, cravando-o na cruz pela mão de gente perversa (At 2, 22-23). Naquele momento, porém, sofrem a influência da multidão. Gritam porque os outros gritam e tal como os outros gritam. E assim a justiça é espezinhada pela covardia, pela pusilanimidade, pelo medo do diktat da mentalidade predominante. A voz sutil da consciência fica sufocada pelos gritos da multidão. A indecisão, o respeito humano dão força ao mal (10).

FALSAS PROMESSAS

Cristo diz: Guardai-vos dos falsos profetas que vêm a vós sob disfarce de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. Pelos seus frutos os conhecereis. Parece uma advertência contra as seitas e heresias.

É uma interpretação possível. Mas também é uma advertência contra qualquer regra fácil. Jesus nos previne contra os “curandeiros do espírito”. Diz que a nossa norma deve ser perguntarmo-nos: “Como vive essa pessoa? Quem é na realidade? Que frutos produzem ele e o seu círculo? Analise isso e verá a que conduz”.

Essa norma prática, ditada por Cristo à vista do momento em que viveu, projeta-se sobre a História. Pensemos nos pregadores da salvação do século passado, quer se trate de Hitler ou dos pregadores marxistas; todos vieram e disseram: “Trazemos a justiça para vós”. No princípio, pareciam mansas ovelhas, mas acabaram sendo grandes destruidores. Mas também diz respeito aos numerosos pequenos pregadores que nos dizem: “Eu tenho a chave, age assim e em pouco tempo conseguirás a felicidade, a riqueza, o êxito”.

William Shakespeare, evidentemente um católico, viveu com intensidade a roda da existência. Como bom pedagogo, no fim ofereceu uma recomendação, algo assim como a essência do seu conhecimento mundano: “Compra tempo divino, vende horas do triste tempo terrenal”. São palavras sábias, como as que se esperam de um grande homem. O tempo mais bem aproveitado é o que se transforma em algo duradouro: é o tempo que recebemos de Deus e a Ele devolvemos. O tempo que é pura transição desmorona e se transforma em mera caducidade (11).

A REGRA DE OURO

O Sermão da Montanha não corresponde necessariamente às idéias tradicionais. Opõe-se até às nossas definições de sorte, grandeza, poder, êxito ou justiça. E, no seu final, oferece ao seu público um resumo, quase que uma lei das leis, a “regra de ouro” da vida. Diz assim: “Portanto, tudo o que quiserdes que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles; porque esta é a Lei e os Profetas”.

A regra de ouro já existia antes de Cristo, embora formulada de maneira negativa: “Não faças a ninguém o que não queres que te façam”. Jesus a supera com uma formulação positiva que, como é lógico, é muito mais exigente.

Na minha opinião, o que é grandioso é que já não se volta a comparar quem fez o que, quando, como, a quem; que a pessoa já não se perde em diferenciações, mas compreende a missão essencial que nos foi confiada: abrir bem os olhos, abrir o coração e encontrar as possibilidades criativas do bem. Já não se trata de perguntar que é o que eu quero, mas de trasladar para os outros o meu desejo. E esta entrega autêntica, com toda a sua fantasia criativa, com todas as possibilidades que abre diante de nós, está recolhida numa regra muito prática, para que não fique reduzida a um sonho idealista qualquer (12).

VIVER AS VIRTUDES

Creio que todo o mundo gostaria de saber como levar uma vida correta, <…>, como levá-la ao cume sentindo-se à vontade consigo mesmo. Antes de morrer, o grande ator Cary Grant deixou à sua filha Jennifer uma carta de despedida comovente. Quis dar-lhe nela algumas recomendações adicionais para o caminho. “Queridíssima Jennifer”, escreveu, “viva a sua vida plenamente, sem egoísmo. Seja comedida, respeite o esforço dos outros. Esforce-se para conseguir o melhor e o bom gosto. Mantenha puro o juízo e limpa a conduta”. E prosseguia: “Dê graças a Deus pelos rostos das pessoas boas e pelo doce amor que há por trás dos seus olhos… Pelas flores que ondulam ao vento… Um breve sono e despertarei para a eternidade. Se não despertar como nós o entendemos, então continuarei a viver em você, filha queridíssima”.

De certa forma, soa a católico. Seja como for, é uma carta belíssima. Se era católico ou não, não sei, mas certamente é a expressão de uma pessoa que se tornou sábia e compreendeu o significado do bem, e tenta transmiti-lo, além disso, com uma assombrosa amabilidade (13).

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NOTAS:
(1) Fe, verdad y cultura. Reflexiones a propósito de la encíclica Fides et ratio, Primeiro Congresso Internacional da Faculdade San Dámaso de Teologia, Madrid, 16.02.00.
(2) Letter to Norfolk, pág. 261.
(3) Do conhecido poema Lead, kindly light.
(4) Correspondence of J. H. Newman with J. Keble and Others, págs. 351 e 364.
(5) Verdad, valores, poder, págs. 56-64.
(6) A. Görres, “Schuld und Schuldgefühle”, em Internationale katolische Zeitschrift “Communio”, 13 (1948), pág. 434.
(7) Ibid., pág. 142.
(8) “Se quiseres a paz, respeita a consciência de cada um (Consciência e verdade)”, em Wahrheit, Werte, Macht. Prüfsteine der pluralistischen Gesellschaft, Herder, Friburgo, 1993; trad. esp. Verdad, valores, poder. Piedras de toque de la sociedad pluralista, Rialp, Madrid, 2000, págs. 40-55.
(9) Entrevista a Jaime Antúnez Aldunate.
(10) Via-sacra no Coliseu, Primeira estação: meditação, Departamento para as Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice, Roma, 14.04.05.
(11) La fe, de tejas abajo.
(12) La fe, de tejas abajo.
(13) La fe, de tejas abajo.

Fonte: Quadrante


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Alimento para os Fracos

MEDITAÇÕES SOBRE A SAGRADA EUCARISTIA.

QUINTA MEDITAÇÃO

45. ALIMENTO PARA OS FRACOS

– A Sagrada Eucaristia, memorial da Paixão.

– O Pão vivo.

– Sustento para o caminho. Grandes desejos de receber a Comunhão. Evitar qualquer rotina.

I. O MEMORIALE MORTIS Domini! Panis vivus… “Ó memorial da morte do Senhor! Ó Pão vivo que dais a vida ao homem! Que a minha alma sempre de Vós viva, que sempre lhe seja doce o vosso sabor”1.

Desde o início da Igreja, os cristãos conservaram como um tesouro as palavras que o Senhor pronunciou na Última Ceia e por meio das quais o pão e o vinho se converteram pela primeira vez no seu Corpo e no seu Sangue sacratíssimos. Uns anos depois daquela grande noite em que foi instituída a Sagrada Eucaristia, São Paulo recordava aos primeiros cristãos de Corinto o que já lhes tinha ensinado. Diz que recebeu essa doutrina do Senhor, quer dizer, de uma tradição zelosamente guardada e que remontava ao próprio Jesus: Porque eu recebi do Senhor o que também vos transmiti (é nisto que consiste a tradição da Igreja: em “receber” e “transmitir”): o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. E do mesmo modo, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de mim2. São substancialmente as mesmas palavras que cada sacerdote repete ao tornar Cristo presente sobre o altar.

Fazei isto em memória de mim. A Santa Missa, a renovação incruenta do sacrifício do Calvário, é um banquete em que o próprio Cristo se dá como alimento, e uma recordação – um memorial – que se torna realidade em cada altar onde se renova o mistério eucarístico3.

A palavra memória tem um sentido diferente do de mera evocação subjetiva de um fato. O Senhor não encarregou os Apóstolos e a Igreja de simplesmente recordarem o acontecimento que presenciaram, mas de o atualizarem. A palavra toma o seu sentido de um termo hebreu que se usava para designar a essência da festa da Páscoa, como recordação da saída do Egito e da aliança que Deus fizera com o seu Povo. Com o rito pascal, os israelitas não só recordavam um acontecimento passado, mas também tinham consciência de atualizá-lo e de revivê-lo, para participarem dele ao longo das gerações4. Na ceia pascal, atualizava-se o pacto que Deus tinha feito com o seu Povo no Sinai.

Quando Jesus disse aos seus: Fazei isto em memória de mim, não lhes indicava, pois, que simplesmente recordassem a ceia pascal daquela noite, mas que renovassem o seu próprio sacrifício pascal no Calvário, que já estava presente, antecipadamente, naquela Última Ceia. São Tomás ensina que “Cristo instituiu este sacramento como memorial perene da sua paixão, como cumprimento das antigas figuras e a mais maravilhosa das suas obras; e deixou-o aos seus como singular consolo nas tristezas da sua ausência”5.

A Santa Missa é o memorial da Morte do Senhor, em que tem realmente lugar o banquete pascal, “em que Cristo nos é comunicado como alimento, e o espírito se cumula de graça, e nos é dado o penhor da glória vindoura”6.

Meditando na Sagrada Eucaristia, unimo-nos à oração que a liturgia nos propõe: Senhor Jesus Cristo, que neste admirável Sacramento nos deixastes o memorial da vossa Paixão, dai-nos a graça de venerarmos com tão grande amor o mistério do vosso Corpo e do vosso Sangue que possamos colher continuamente os frutos da vossa Redenção.

II. DESTE-LHES O PÃO DO CÉU7, escreveu o Salmista, pensando naquela maravilha, branca como o orvalho, que um dia os israelitas encontraram no deserto quando as provisões escasseavam. Mas aquilo, como declarou Jesus na sinagoga de Cafarnaum, não era o verdadeiro Pão do Céu. Em verdade, em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu; meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é aquele que desceu do céu e dá a vida ao mundo. Disseram-lhe, pois, eles: Senhor, dá-nos sempre desse pão8.

A verdadeira realidade está no Céu; aqui na terra encontramos muitas coisas que consideramos definitivas e na realidade são cópias passageiras daquelas que nos aguardam. Quando, por exemplo, Jesus falava à Samaritana da água viva, não queria dizer água fresca ou água corrente, como a mulher supôs a princípio; queria indicar-nos que não saberemos o que realmente significa água enquanto não tivermos uma experiência direta daquela realidade da graça de que a água é apenas uma pálida imagem9.

O mesmo acontece com o pão, que durante muitos séculos foi o alimento básico, e muitas vezes quase único, de muitos povos. E o maná que os israelitas recolhiam diariamente no deserto, tal como o pão, era sinal e imagem esvaída para que pudéssemos entender o que a Eucaristia, Pão vivo que dá a vida ao homem, deve representar na nossa existência. Aqueles que ouviam Jesus sabiam que o maná que os seus antepassados recolhiam todas as manhãs10era símbolo dos bens messiânicos; por isso pediram a Jesus naquela ocasião um milagre semelhante. Mas não podiam suspeitar que o maná fosse figura do dom inefável da Eucaristia, o pão que desceu do Céu e dá a vida ao mundo11. “Aquele maná caía do céu, este está acima do Céu; aquele era corruptível, este não só é imune a qualquer corrupção como comunica a incorrupção a todos os que o comem com reverência [...]. Aquele era a sombra, este é a realidade”12.

Este sacramento admirável é sem dúvida a ação mais amorosa de Jesus, que se entrega não só a toda a humanidade, mas a cada homem em particular. A Comunhão é sempre única e irrepetível; cada uma é um prodígio de amor; a de hoje será sempre diferente da de ontem; a delicadeza de Jesus para conosco nunca se repete do mesmo modo, como também não deve repetir-se o amor incessantemente renovado com que nos aproximamos do banquete eucarístico.

Ecce panis angelorum…“Eis o pão dos anjos, feito alimento dos caminhantes; é verdadeiramente o Pão dos filhos, que não deve ser lançado aos cães”13, canta a liturgia. Dia após dia, ano após ano, esse é o nosso alimento indispensável. O profeta Elias andou pelo deserto durante quarenta dias com a energia proporcionada por uma única refeição que lhe foi enviada por meio de um anjo do Senhor14. Aos cristãos que vivem em lugares onde lhes é impossível comungar, o Senhor haverá de conceder-lhes as graças necessárias. Mas é a Sagrada Eucaristia que normalmente restabelece o nosso vigor em cada dia de caminhada por esta terra em que nos encontramos como peregrinos.

III. “Ó PÃO VIVO que dais a vida ao homem! Que a minha alma sempre de Vós viva, que sempre lhe seja doce o vosso sabor”.

Jesus Cristo, que se entrega na Eucaristia, é o nosso alimento absolutamente imprescindível. Sem Ele, facilmente caímos numa extrema debilidade. “A comida material converte-se naquele que a come e, em conseqüência, restaura as suas perdas e aumenta as suas forças vitais. A comida espiritual, porém, converte em si aquele que a come, e assim o efeito próprio deste sacramento é a conversão do homem em Cristo, para que não viva ele, mas Cristo nele; e, por conseguinte, tem o duplo efeito de reparar as perdas espirituais causadas pelos pecados e deficiências, e de aumentar as forças das virtudes”15.

Deus, no final da nossa vida, tem de encontrar-nos na posse da plenitude do amor. Mas o “alimento para a caminhada destina-se precisamente à caminhada, e devemos estirar bem os músculos se queremos beneficiar dele. Não há nada tão insípido como o farnel preparado para uma excursão que, por causa do mau tempo, tivemos de comer em casa. Estejam cingidos os vossos rins, diz Nosso Senhor; temos de ser peregrinos bona fide, se queremos encontrar o alimento adequado na Sagrada Eucaristia”16.

O nosso desejo de melhorar cada dia – de estar em cada dia de marcha um pouco mais perto do Senhor – é a melhor preparação para a Comunhão. A “fome de Deus”, os desejos de santidade impelem-nos a tratar Jesus com esmero, a desejar vivamente que chegue o momento de recebê-lo. Contaremos então as horas… e os minutos que faltam para tê-lo no nosso coração. Recorreremos ao Anjo da Guarda para que nos ajude a preparar-nos bem, a dar graças. Ficaremos com pena pela brevidade desses momentos em que Jesus Sacramentado permanece na alma depois de se ter comungado. E, durante o dia, lembrar-nos-emos com saudade desses momentos em que tivemos Jesus tão dentro de nós que nos identificamos com Ele; e esperaremos, impacientes, que chegue a nova oportunidade de recebê-lo. Não permitamos jamais que se introduzam a rotina, o desleixo ou a precipitação nesses instantes que são os maiores da vida de um homem!

É de bem-nascidos ser agradecidos, diz o ditado, e nós devemos agradecer a Jesus “o fato maravilhoso de que Ele próprio se entrega a nós. Que o Verbo encarnado venha ao nosso peito!… Que se encerre na nossa pequenez Aquele que criou os céus e a terra!… A Virgem Maria foi concebida imaculada para albergar Cristo no seu seio. Se a ação de graças deve ser proporcional à diferença entre o dom e os méritos, não deveríamos converter todo o nosso dia numa Eucaristia contínua? Não vos afasteis do templo mal tenhais recebido o Santo Sacramento. É tão importante o que vos espera lá fora, que não podeis dedicar dez minutos a dar-lhe graças? Não sejamos mesquinhos. Amor com amor se paga”17. Que jamais andemos com pressas ao darmos graças a Jesus depois da Comunhão! Nada pode ser mais importante do que saborear esses minutos com Ele!

(1) Hino Adoro te devote, 5; (2) 1 Cor 11, 23-25; (3) cfr. Conc. Vat. II, Const. Sacrossanctum Concilium, 47; (4) cfr. Sagrada Bíblia, Epístolas de San Pablo a los Corintios, nota a 1 Cor 11, 24; cfr. L. Bouyer, Diccionario de Teología, verbete Memorial, pág. 441; (5) São Tomás de Aquino, Sermão para a festa do Corpus Christi; (6) Conc. Vat. II, op. cit.; (7) Sl 77, 24; 104, 40; (8) Jo 6, 32-34; (9) cfr. R. A. Knox, Sermones pastorales, Rialp, Madrid, 1963, pág. 432 e segs.; (10) cfr. Ex 15, 13 e segs.; (11) cfr. Jo 6, 33; (12) Santo Ambrósio, Tratado sobre os mistérios, 48; (13) Seqüência Lauda, Sion, Salvatorem; (14) cfr. 3 Rs 19, 6; (15) São Tomás de Aquino, Comentários aos IV Livros das Sentenças, d. 12, q. 2, a. 11; (16) R. A. Knox, op. cit., pág. 469; (17) Josemaría Escrivá, Amar a Igreja, págs. 81.

Fonte: Falar com Deus


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