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    As Chagas vistas por Tomé

    June 24th, 2010

    MEDITAÇÕES SOBRE A SAGRADA EUCARISTIA. QUARTA MEDITAÇÃO

    44. AS CHAGAS VISTAS POR TOMÉ

    – Fé com obras.

    – Fé e Eucaristia.

    – Intimidade com Jesus presente no Sacrácio.

    I. PLAGAS, SICUT THOMAS, non intueor, Deum tamen meum te confiteor… “Não vejo as chagas como Tomé, mas confesso que sois o meu Deus. Fazei que eu creia mais e mais em Vós, que em Vós espere, que Vos ame”.

    Tomé não estava presente quando Jesus apareceu aos seus discípulos. E apesar do testemunho de todos, que lhe asseguravam com firmeza: Vimos o Senhor!1, este Apóstolo não quis acreditar na Ressurreição do Mestre: Se eu não lhe vir nas mãos o sinal dos cravos, e não puser o meu dedo no lugar dos cravos e a minha mão no seu lado, não creio2.

    Oito dias mais tarde, o Senhor apareceu novamente aos seus discípulos. Tomé estava entre eles. Então Jesus dirigiu-se ao Apóstolo e, num tom de censura singularmente amável, disse-lhe: Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos, aproxima também a tua mão e mete-a no meu lado, e não sejas incrédulo, mas fiel. Diante de tanta delicadeza de Jesus, o Apóstolo exclamou: Meu Senhor e meu Deus!3Não foi uma simples exclamação de surpresa, mas uma afirmação, um profundo ato de fé na divindade de Jesus Cristo.

    Nós, à diferença de Tomé, não vemos nem tocamos as chagas sacratíssimas de Jesus, mas temos uma fé tão firme como a do Apóstolo depois de ter visto o Senhor, porque o Espírito Santo nos sustém com a sua constante ajuda. Comenta São Gregório Magno: “Alegra-nos muito o que o Senhor disse a seguir: Bem-aventurados os que não viram e creram. Sentença na qual, sem dúvida, estamos incluídos todos nós que confessamos com a alma aquilo que não vimos na carne. Alude-se a nós, desde que vivamos de acordo com a fé; porque só crê de verdade aquele que pratica o que crê”4.

    Quando estivermos diante do Sacrário, olhemos para Jesus, que se dirige a nós para nos fortalecer a fé, para que ela se manifeste nos nossos pensamentos, palavras e obras: em todo o nosso modo de julgar o próximo com espírito impregnado de caridade; na conversa que sempre anima os outros a serem pessoas honradas, a seguirem Jesus de perto; nas obras, sempre exemplares em terminar com perfeição o que nos foi encomendado, fugindo dos trabalhos deixados a meio e das obras mal acabadas. “Fixemos o nosso olhar no Mestre. Talvez também tu escutes neste momento a censura dirigida a Tomé: Mete aqui o dedo e vê as minhas mãos [...]; e, com o Apóstolo, sairá da tua alma, com sincera contrição, aquele grito: Meu Senhor e meu Deus! (Jo 20, 28), eu te reconheço definitivamente por Mestre, e já para sempre – com o teu auxílio – vou entesourar os teus ensinamentos e esforçar-me por segui-los com lealdade”5.

    II. JESUS DISSE A TOMÉ que eram mais felizes aqueles que, sem terem visto com os olhos da carne, possuem, no entanto, a penetrante visão da fé. Por isso anunciou-lhes durante a Última Ceia: Convém que eu vá6. Quando percorria os caminhos da Palestina, a sua divindade estava oculta, a ponto de os próprios discípulos terem de recorrer constantemente à fé. Ver, ouvir, tocar, pouco significam se a graça não atua na alma e não se tem um coração limpo e preparado para crer. Nem sequer os milagres em si mesmos são decisivos para a fé, se não há boas disposições. Depois da ressurreição de Lázaro, muitos judeus creram em Jesus, mas outros foram procurar os fariseus, resolvidos a perdê-lo7. O resultado da reunião do Sinédrio, motivado justamente por esse acontecimento, resume-se numa frase referida por São João: Desde aquele dia, pois, decidiram matá-lo8.

    No fundo, a situação daqueles que conviveram com o Senhor, que o viram e ouviram, que falaram com Ele, é a mesma que a nossa. O que conta decisivamente é a fé. Por isso escreve Santa Teresa: “Quando ouvia algumas pessoas dizer que quereriam ter vivido no tempo em que Cristo nosso Bem andava no mundo, ria-me de mim para mim. Parecia-me que, possuindo-o no Santíssimo Sacramento tão verdadeiramente como então, que diferença faz?”9

    E o Santo Cura d’Ars sublinha que nós temos até mais sorte do que aqueles que viveram com o Senhor durante a sua vida terrena, pois às vezes tinham de andar horas ou dias para encontrá-lo, ao passo que nós o temos tão perto em cada Sacrário10. Normalmente, é bem pouco o esforço que temos de fazer para encontrar o próprio Jesus.

    Podemos vê-lo nesta vida através dos véus da fé, e, um dia, se formos fiéis, vê-lo-emos glorioso, numa visão inefável. “Depois desta vida, desaparecerão todos os véus para que possamos ver cara a cara”11. Todos os olhos o verão12, diz São João no Apocalipse, e os seus servos o servirão e verão a sua face13. Um dia, vê-lo-emos com o seu corpo glorificado, com aquelas santíssimas chagas que mostrou a Tomé. Mas desde já o confessamos como nosso Deus e Senhor: Meu Senhor e meu Deus!, cremos nEle, amamo-lo sem o termos visto14e pedimos-lhe: “Fazei que eu creia mais e mais em Vós”, com uma fé mais firme; “que em Vós espere”, com uma esperança mais segura e alegre; “que Vos ame” com todo o meu ser.

    Hoje, ao considerarmos uma vez mais essa proximidade de Jesus na Sagrada Eucaristia, fazemos o propósito de viver muito unidos ao Sacrário mais próximo. E teremos sempre esse referencial no nosso coração: quando praticamos esporte, enquanto viajamos… “pois é muito boa companhia a do bom Jesus, para não nos separarmos dEle e de sua Sacratíssima Mãe”15.

    “Acorre perseverantemente ao Sacrário, de modo físico ou com o coração, para te sentires seguro, para te sentires sereno: mas também para te sentires amado… e para amar!”16

    III. QUANDO JESUS IA A UM LUGAR, os seus amigos fiéis permaneciam atentos à sua chegada. Não podia ser de outro modo. São Lucas narra que, certa vez, Jesus chegava a Cafarnaum, numa barca, vindo da margem oposta, e todos o estavam esperando17. Podemos imaginá-los, alegres, à espera do Mestre, desejosos de estar com Ele e de fazer-lhe os seus pedidos. Nessa ocasião – diz o Evangelista –, Jesus fez dois portentosos milagres: a cura de uma mulher que se atreveu a tocar a orla do seu manto, e a ressurreição da filha de Jairo. Mas todos se sentiram reconfortados com as suas palavras, com um olhar ou com uma pergunta pessoal. Talvez algum deles se tivesse decidido naquele dia a segui-lo com mais generosidade… Os amigos estavam pendentes do Amigo.

    Nós, que não o vemos fisicamente, estamos tão perto dEle como aqueles que o esperavam e foram ao seu encontro ao desembarcar. Temos também de adquirir cada vez mais um vivo sentido da sua presença nas nossas cidades e aldeias. Temos de tratá-lo – Ele assim o quer – como nosso Deus e Senhor, mas também como nosso Amigo por excelência. “Cristo, Cristo ressuscitado, é o companheiro, o Amigo. Um companheiro que se deixa ver apenas entre sombras, mas cuja realidade inunda toda a nossa vida e nos faz desejar a sua companhia definitiva”18.

    Saímos diariamente ao seu encontro. E Ele nos espera. E sente a nossa falta se alguma vez – que enorme pena! – nos esquecemos de tratá-lo com intimidade, “sem anonimato”, tal como tratamos as pessoas que encontramos no trabalho, no elevador ou na rua. Para encontrá-lo, pouca ajuda podemos receber dos sentidos, nos quais tanto nos apoiamos na vida corrente; muitas vezes teremos a sensação de estarmos “como cegos diante do Amigo”19, mas essa escuridão inicial ir-se-á transformando numa claridade jamais alcançada pelos sentidos. Diz Santa Teresa que foi tanta a humildade do bom Jesus, que quis como que pedir licença para ficar conosco20. Como não havemos de agradecer-lhe tanta bondade, tanto amor?

    Dizemos-lhe, ao terminarmos a nossa oração: Senhor, nós procuraríamos a tua presença “por muitas salas que tivéssemos de fazer, por muitas audiências que tivéssemos de pedir. Mas não é preciso pedir nenhuma! És tão todo-poderoso, também na tua misericórdia, que, sendo o Senhor dos Senhores e o Rei dos que dominam, te humilhas até esperares como um pobrezinho que se arrima à ombreira da nossa porta. Não esperamos nós; és Tu que nos esperas constantemente.

    “Tu nos esperas no Céu, no Paraíso. Tu nos esperas na Hóstia Santa. Tu nos esperas na oração. És tão bom que, quando estás aí escondido por Amor, oculto sob as espécies sacramentais – eu assim o creio firmemente –, permanecendo nelas real, verdadeira e substancialmente, com o teu Corpo e o teu Sangue, com a tua Alma e a tua Divindade, também está presente a Trindade Beatíssima: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Além disso, pela inabitação do Paráclito, Deus encontra-se no centro das nossas almas, procurando por nós”21. Não o façamos esperar.

    E a nossa Mãe Santa Maria anima-nos constantemente a sair ao encontro do seu Filho. Como temos de cuidar da visita diária ao Santíssimo Sacramento!

    (1) Jo 20, 25; (2) ib.; (3) Jo 20, 26-29; (4) São Gregório Magno, Homilias sobre o Evangelho, 26, 9; (5) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 145; (6) Jo 16, 7; (7) cfr. Jo 11, 45-46; (8) Jo 11, 53; (9) Santa Teresa, Caminho de perfeição, 34, 6; (10) cfr. Cura d’Ars, Sermão sobre a Quinta-Feira Santa; (11) Santo Agostinho, em Catena Aurea, vol. VIII, pág. 86; (12) Apoc 1, 7; (13) Apoc 22, 4; (14) cfr. 1 Pe 1, 8; (15) Santa Teresa, Moradas, VI, 7, 13; (16) Josemaría Escrivá, Forja, n. 837; (17) Lc 8, 40; (18) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 116; (19) Paulo VI, Audiência geral, 13-I-1971; (20) cfr. Santa Teresa, Caminho de perfeição, 33, 2; (21) S. Bernal, Perfil do Fundador do Opus Dei, Quadrante, São Paulo, 1977, págs. 417-418.

    Fonte: Falar com Deus


    Sagrado Coração de Jesus – Meditação 2

    June 18th, 2010

    SEXTA-FEIRA DA SEGUNDA SEMANA DEPOIS DE PENTECOSTES.

    SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

    49. O AMOR DE JESUS

    – Amor único e pessoal por cada criatura.

    – Desagravo e reparação.

    – Um forno ardente de caridade.

    I. NÓS CONHECEMOS E CREMOS no amor que Deus tem por nós. Deus é amor; e quem permanece no amor, permanece em Deus, e Deus nele, podemos ler numa das Leituras da Missa1.

    A plenitude da misericórdia de Deus para com os homens manifesta-se pela encarnação do seu Filho Unigênito. Soubemos que Deus nos amava não só por ser esse o contínuo ensinamento de Jesus, mas pela sua presença entre nós, que é a prova máxima desse amor. Ele próprio é a plena revelação de Deus e do seu amor aos homens2. Santo Agostinho ensina que a fonte de todas as graças é o amor de Deus por nós, revelado não só por meio de palavras, mas por atos, isto é, pela sua encarnação3.

    Hoje temos de pedir novas luzes para entendermos de um modo mais profundo o amor de Deus por todos os homens, por cada um. Devemos suplicar ao Espírito Santo que, com a sua graça e a nossa correspondência, possamos dizer pessoalmente e de um modo muito vivo: “Eu conheci o amor de Deus por mim”. Chegaremos a essa sabedoria – a única que verdadeiramente importa – se, com a ajuda da graça, meditarmos muitas vezes na Santíssima Humanidade de Jesus: na sua vida, nas suas obras, nos seus padecimentos para nos redimir da escravidão em que nos encontrávamos e nos elevar a uma amizade com Ele que durará pelos séculos sem fim. O Coração de Jesus, um coração com sentimentos humanos, foi o instrumento unido à Divindade que nos fez chegar o seu amor indizível; o Coração de Jesus é o coração de uma Pessoa divina, quer dizer, do Verbo Encarnado, e “por conseguinte, representa e coloca diante dos nossos olhos todo o amor que Ele teve e tem por nós. E aqui está a razão pela qual, na prática, se considera o culto ao Sagrado Coração como a mais completa profissão de fé cristã. Verdadeiramente, a religião de Jesus Cristo fundamenta-se totalmente no Homem-Deus, Medianeiro; de maneira que não se pode chegar ao Coração de Deus a não ser passando pelo Coração de Cristo, conforme o que Ele mesmo afirmou: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por Mim (Jo 14, 6)”4.

    Não houve um só ato da alma de Cristo ou da sua vontade que não tivesse por fim a nossa redenção, que não se propusesse conseguir-nos todas as ajudas para que jamais nos separássemos dEle ou para que voltássemos, se nos extraviamos. Não houve sequer uma só parte do seu corpo que não tivesse padecido pelo nosso amor. Todo o tipo de penas, injúrias e opróbrios, aceitou-os o Senhor alegremente pela nossa salvação. Não restou uma só gota do seu preciosíssimo Sangue que não fosse derramado por nós.

    Deus me ama. Esta é a verdade mais consoladora de todas e a que mais ressonâncias práticas deve ter na minha vida. Quem poderá compreender o infinito abismo da bondade de Jesus, manifestada na chamada que recebemos para compartilhar com Ele a sua própria Vida, a sua amizade…? Uma Vida e uma amizade que nem a morte conseguirá romper, antes as tornará mais fortes e mais seguras.

    “Deus me ama… E o Apóstolo João escreve: Amemos, pois, a Deus, porque Deus nos amou primeiro. – Como se fosse pouco, Jesus dirige-se a cada um de nós, apesar das nossas inegáveis misérias, para nos perguntar como a Pedro: «Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?»…

    “– É o momento de responder: «Senhor, Tu sabes tudo, Tu sabes que eu te amo!», acrescentando com humildade: – Ajuda-me a amar-te mais, aumenta o meu amor!”5

    II. NA MISSA DESTA SOLENIDADE rezamos: Ó Deus, que no Coração do vosso Filho ferido pelos nossos pecados, depositastes infinitos tesouros de caridade, nós Vos pedimos que, ao prestar-lhe a homenagem do nosso amor, lhe ofereçamos uma generosa reparação”6.

    Ao considerarmos uma vez mais, neste tempo de oração, o amor vivo e atual de Jesus por todos os homens, deve brotar dentro de nós uma imensa alegria. Um Deus com um coração de carne como o nosso! Jesus de Nazaré continua a passar pelas nossas ruas e praças fazendo o bem7, como quando estava em carne mortal entre os homens: ajudando, curando, consolando, perdoando, concedendo a vida eterna por meio dos sacramentos… Os tesouros do seu Coração são infinitos, e Ele continua a derramá-los a mãos cheias.

    São Paulo ensina que o Senhor, subindo às alturas, levou cativo o cativeiro, e derramou os seus dons sobre os homens8. São incomensuráveis as graças, as inspirações, as ajudas, espirituais e materiais, que recebemos diariamente do Coração amantíssimo de Jesus. No entanto, Ele “não se impõe com atitudes de domínio, mas mendiga um pouco de amor, mostrando-nos em silêncio as suas mãos chagadas”9. Quantas vezes não lhe teremos dito não! Quantas vezes não terá Ele esperado de nós um pouco de amor, de fervor, nessa visita ao Santíssimo, naquela Comunhão…!

    Devemos desagravar muito o Coração Sacratíssimo de Jesus: pela nossa vida passada, por tanto tempo perdido, por tantas indelicadezas, por tanta falta de amor… “Peço-te, Senhor – dizemos-lhe com palavras escritas por São Bernardo –, que acolhas a oferenda dos anos que me restam. Não desprezes, meu Deus, este coração contrito e humilhado, por todos os anos que malbaratei”10. Dá-me, Senhor, o dom da contrição por tanta torpeza atual no meu trato e no meu amor por Ti, aumenta-me a aversão por todo o pecado venial deliberado, ensina-me a oferecer-te como expiação as contrariedades físicas e morais de cada dia, o cansaço no trabalho, o esforço por concluir com esmero os trabalhos começados, como Tu desejas.

    Diante de tantos e tantos que parecem fugir da graça, não podemos permanecer indiferentes.

    “Não peças perdão a Jesus apenas das tuas culpas; não o ames com o teu coração somente…

    “Desagrava-o por todas as ofensas que lhe têm feito, que lhe fazem e lhe hão de fazer…; ama-o com toda a força de todos os corações de todos os homens que mais o tenham amado.

    “Sê audaz: diz-lhe que estás mais louco por Ele que Maria Madalena, mais que Teresa e Teresinha…, mais apaixonado que Agostinho e Domingos e Francisco, mais que Inácio e Xavier”11.

    III. AQUELES DOIS DISCÍPULOS que Jesus acompanhou enquanto iam a caminho de Emaús reconheceram-no por fim ao partir o pão, depois de umas horas de caminhada. E disseram um para o outro: Não ardia o nosso coração dentro de nós enquanto nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?12 Os seus corações, que pouco antes estavam apagados, desalentados, tristes, agora estão cheios de fervor e de alegria. Isto teria sido motivo suficiente para reconhecerem que Cristo os acompanhava, pois esse é o efeito produzido por Jesus naqueles que estão perto do seu Coração amabilíssimo. Foi o que aconteceu naquela ocasião e é o que acontece todos os dias.

    Nessa “arca preciosíssima” que é o Coração de Jesus, encontra-se a plenitude de toda a caridade. Dom por excelência do Coração de Cristo e do seu Espírito, “foi a caridade que deu aos Apóstolos e aos mártires a fortaleza necessária para anunciarem e testemunharem a verdade evangélica, até derramarem o seu sangue por ela”13. Pela caridade teremos a firmeza necessária para dar a conhecer Cristo, pois é no trato com Cristo que se ateia o verdadeiro zelo apostólico, capaz de perdurar por cima dos aparentes fracassos, dos obstáculos de um ambiente que às vezes parece fugir de Jesus.

    O amigo faz chegar ao amigo aquilo que tem de melhor, e é por isso que temos que dar a conhecer Jesus aos nossos parentes, amigos e colegas de profissão. Não possuímos nada que se possa comparar ao fato de termos conhecido Jesus, e nEle encontramos uma fogueira acesa de caridade pelas almas, como rezamos na Ladainha do Sagrado Coração.

    “A fogueira arde – comentava o Papa João Paulo II –, e, ao arder, queima todo o material, quer seja lenha ou outra substância facilmente combustível. Pois bem, o Coração de Jesus, o Coração humano de Jesus, queima com o amor que possui, o amor ao Pai Eterno e o amor aos homens, aos seus filhos e filhas adotivos.

    “A fogueira, queimando, apaga-se pouco a pouco, mas o Coração de Jesus é fogo inextinguível. Nisto se parece com a sarça ardente do livro do Êxodo, no meio da qual Deus se revelou a Moisés: com essa sarça que ardia com o fogo…, mas não se consumia (Ex 3, 2).

    “Efetivamente, o amor que arde no Coração de Jesus é sobretudo o Espírito Santo, em quem Deus-Filho se une eternamente ao Pai. O Coração de Jesus, o Coração humano de Deus-Homem, está abrasado pela chama viva do Amor trinitário que jamais se extingue.

    “Coração de Jesus, fogueira ardente de caridade. A fogueira, enquanto arde, ilumina as trevas da noite e aquece os corpos dos viajantes que tiritam de frio.

    “Hoje, queremos dirigir-nos à Mãe do Verbo Eterno e suplicar-lhe que, no horizonte da vida de cada um de nós, jamais cesse de arder o Coração de Jesus, fogueira ardente de caridade; que Ele nos revele o Amor que não se extingue nem dormita, o Amor eterno; que ilumine as trevas da noite terrena e aqueça os corações.

    “Agradecidos pelo único amor capaz de transformar o mundo e a vida humana, dirigimo-nos com a Virgem Imaculada, no momento da Anunciação, ao Coração Divino que não cessa de ser fogueira ardente de caridade. Ardente: como a sarça que Moisés viu no monte Horeb”14.

    (1) 1 Jo 4, 16; Segunda leitura da Missa da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, ciclo A; (2) cfr. Jo 1, 18; Hebr 1, 1; (3) cfr. Santo Agostinho, Tratado sobre a Trindade, 9, 10; (4) Pio XII, Enc. Haurietis aquas, 15-V-1956; (5) Josemaría Escrivá, Forja, n. 497; (6) Oração coleta, ib.; (7) cfr. At 10, 38; (8) Ef 4, 8; (9) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 179; (10) São Bernardo, Sermão 20, 1; (11) Josemaría Escrivá Caminho, n. 402; (12) Lc 24, 32; (13) Pio XII, op. cit., 23; (14) João Paulo II, Angelus, 23-VI-1985.

    Fonte: Falar com Deus


    Como o Ladrão Arrependido

    June 17th, 2010

    MEDITAÇÕES SOBRE A SAGRADA EUCARISTIA.

    TERCEIRA MEDITAÇÃO

    43. COMO O LADRÃO ARREPENDIDO

    – Os Sacrários no nosso caminho habitual.

    – Imitar o bom ladrão.

    – Purificação das nossas faltas.

    I. IN CRUCE LATEBAT sola Deitas… “Na Cruz estava oculta a divindade, mas aqui se esconde também a humanidade; creio, porém, e confesso ambas as coisas, e peço o que pediu o ladrão arrependido”.

    O Bom Ladrão soube ver em Jesus moribundo o Messias, o Filho de Deus. A sua fé, por uma graça extraordinária de Deus, venceu a dificuldade representada por aquelas aparências, que só falavam de um justiçado. A divindade ocultara-se aos olhos de todos, mas aquele homem podia ao menos contemplar a Santíssima Humanidade do Salvador: o seu olhar amabilíssimo, o perdão derramado abundantemente sobre os que o insultavam, o seu silêncio comovedor diante das ofensas. Jesus, mesmo na Cruz, no meio de tanto sofrimento, esbanja amor.

    Nós olhamos para a Hóstia santa e os nossos olhos nada percebem: nem o olhar amável de Jesus, nem a sua compaixão… Mas com a firmeza da fé, proclamamo-lo nosso Deus e Senhor. Muitas vezes, exprimindo a certeza da nossa alma e o nosso amor, ter-lhe-emos dito: Creio firmemente que estás aqui, que me vês, que me ouves… O teu olhar é tão amável como aquele que o Bom Ladrão contemplou e a tua compaixão continua a ser infinita. Sei que estás atento à menor das minhas súplicas, das minhas penas e das minhas alegrias.

    Ainda que de modo distinto, Jesus está presente tanto no Céu como na Hóstia consagrada. “Não há dois Cristos, mas um só. Nós possuímos na Hóstia o Cristo de todos os mistérios da Redenção: o Cristo de Madalena, do filho pródigo e da samaritana, o Cristo do Tabor e do Getsêmani, o Cristo ressuscitado dos mortos, sentado à direita do Pai [...]. Esta maravilhosa presença de Cristo no meio de nós deveria revolucionar a nossa vida [...]; está aqui conosco: em cada cidade, em cada aldeia”1.

    Com muita freqüência, ao irmos de um lado para outro da cidade, passamos com certeza a poucos metros do lugar onde o Senhor se encontra. Quantos atos de fé fazemos – da rua ou entrando por uns instantes na igreja –, a essas horas da manhã ou da tarde, perto ou diante desse Sacrário? Quantos atos de amor?… Que pena se passamos ao largo! Jesus não é indiferente à nossa fé e ao nosso amor. “Não sejas tão cego ou tão estouvado que deixes de meter-te dentro de cada Sacrário quando divisares os muros ou as torres das casas do Senhor. – Ele te espera”2. Quanto bem nos faz este conselho cheio de sabedoria e de piedade!

    No meio de tantos insultos, Jesus escutou emocionado aquela voz que o reconhecia como Deus. Era a voz de um ladrão que, diante de um Deus tão escondido, soube vê-lo e confessá-lo em voz alta. O amor repele a cegueira, o estouvamento, a tibieza. Esse amor vivo – muitas vezes traduzido numa jaculatória ardente – deve atear-se ainda mais quando estamos a poucos instantes de receber Jesus na Sagrada Comunhão ou quando passamos por uma igreja a caminho do trabalho ou de casa. E a nossa alma encher-se-á de alegria. “Não te alegras quando descobres, no teu caminho habitual pelas ruas da cidade, outro Sacrário!?”3É a alegria de todo o encontro desejado! Se o coração nos bate mais depressa quando divisamos ao longe uma pessoa amada, podemos passar indiferentes por um Sacrário?

    II. “PEÇO O QUE PEDIU o ladrão arrependido”…Senhor, lembra-te de mim quando estiveres no teu Reino4.

    Com esta breve súplica – tão grande foi a sua fé – o Bom Ladrão mereceu purificar toda a sua vida. Dirigiu-se humildemente a Jesus, como nós o temos feito tantas vezes, chamando-o pelo seu nome. E Ele “sempre dá mais do que aquilo que lhe pedem. O Bom Ladrão pedia ao Senhor que se lembrasse dele quando estivesse no seu Reino, e o Senhor respondeu-lhe:  Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso”5. Temos de imitar este homem que reconheceu as suas faltas6e soube merecer o perdão das suas culpas e a sua completa purificação.

    “Tenho repetido muitas vezes aquele verso do hino eucarístico: Peto quod petivit latro poenitens. E sempre me comovo: pedir como o ladrão arrependido! – Reconheceu que ele, sim, é que merecia aquele castigo atroz… E com uma palavra roubou o coração a Cristo e abriu para si as portas do Céu”7. Quanto proveito tiraríamos se, diante do próprio Jesus, conseguíssemos detestar todo o pecado venial deliberado e purificar esse fundo da alma onde há tantas coisas que obscurecem a sua imagem: egoísmos, preguiça, sensualidade, apegamentos desordenados…! “Jesus no Sacramento é essa fonte aberta a todos, onde sempre que queiramos podemos lavar as nossas almas de todas as manchas dos pecados que cometemos todos os dias”8.

    A Comunhão freqüente, realizada com as devidas disposições, há de levar-nos a desejar uma Confissão também freqüente e contrita. E esta maior pureza de coração cria, por sua vez, desejos muito vivos de receber o Senhor Sacramentado9. O próprio sacramento eucarístico, recebido com fé e amor, purifica a alma das suas faltas, debilita-lhe a inclinação para o mal, diviniza-a e prepara-a para os grandes ideais que o Espírito Santo inspira ao cristão.

    Peçamos ao Senhor um grande desejo de nos purificarmos nesta vida para que possamos livrar-nos do Purgatório e estar quanto antes na companhia de Jesus e de Maria. “Oxalá, meu Jesus, fosse verdade que eu nunca vos tivesse ofendido! Mas já que o mal está feito, peço-vos que vos esqueçais dos desgostos que vos causei e, pela morte amarga que por mim padecestes, levai-me ao vosso reino depois da morte; e enquanto a vida me durar fazei que o vosso amor reine sempre na minha alma”10. Ajudai-me, Senhor, a detestar todo o pecado venial deliberado; dai-me um grande amor à Confissão freqüente.

    III. O SANTO CURA D’ARS alude num dos seus sermões à piedosa lenda de Santo Aleixo, e tira dela algumas conseqüências a propósito da Eucaristia. Conta-se deste Santo que um dia, em obediência a uma chamada particular do Senhor, saiu de casa e foi viver longe como um humilde mendigo. Passados muitos anos, retornou à sua cidade natal, fraco e desfigurado pelas penitências, e foi acolhido no próprio palácio de seus pais sem no entanto se dar a conhecer. Viveu dezessete anos no desvão de uma escada. No momento em que foi amortalhado, a mãe reconheceu-o e exclamou cheia de dor: “Ó meu filho, que tarde te conheci…!”

    O Cura d’Ars comentava que a alma, ao sair desta vida, verá finalmente Aquele que possuía todos os dias na Sagrada Eucaristia, com quem falava, com quem desabafava as suas mágoas quando já não agüentava mais. Oxalá sejamos almas verdadeiramente apaixonadas, de fé sólida e crescente, para que um dia, diante da visão de Jesus glorioso, não tenhamos que exclamar: Ó Jesus, que pena ter-te conhecido tão tarde…, tendo estado tão perto de Ti!

    Jesus revelou-nos que os puros de coração verão a Deus11. Quando o coração se enche de sujidade, a figura de Cristo obnubila-se e perde os seus contornos, e a capacidade de amar encolhe. “Esse Cristo que tu vês não é Jesus. – Será, quando muito, a triste imagem que podem formar teus olhos turvos… – Purifica-te. Clarifica o teu olhar com a humildade e a penitência. Depois… não te hão de faltar as luzes límpidas do Amor. E terás uma visão perfeita. A tua imagem será realmente a sua: Ele!”12Poderemos então reconhecê-lo em qualquer circunstância, como o Bom Ladrão.

    Que alegria podermos ter Cristo tão perto!…, e vê-lo…, e amá-lo…, e servi-lo. Ele nos escuta quando lhe dizemos na intimidade do nosso coração: “Senhor, Tu que estás realmente presente no Céu e nesse Sacrário, lembra-te de mim”. Para isso devemos purificar nesta vida as seqüelas deixadas pelos pecados e cultivar um espírito de penitência mais ardente e um amor mais vivo pelo sacramento do perdão; e aceitar também as dores e contrariedades da vida com espírito de reparação, e procurar muitas ocasiões de nos negarmos a nós mesmos por meio dessas pequenas mortificações que vencem o nosso egoísmo, que ajudam os outros, que permitem uma maior perfeição na tarefa profissional.

    Se formos fiéis a essas graças que nos convidam a uma purificação mais enérgica, ouviremos Jesus dizer-nos no último dia da nossa existência aqui na terra: Hoje estarás comigo no Paraíso. E chegaremos a vê-lo e a amá-lo com uma felicidade sem fim.

    Ao terminarmos a nossa oração, dizemos a Jesus Sacramentado: Ave verum Corpus natum ex Maria Virgine… “Ave, verdadeiro Corpo, nascido da Virgem Maria… Faz que te tenhamos ao nosso lado no transe da morte”. Pedimos ao Anjo da Guarda que nos recorde a proximidade de Cristo, para que jamais passemos ao largo. E a nossa Mãe Santa Maria, se recorrermos a Ela, aumentará a nossa fé e nos ensinará a tratar o seu Filho com mais delicadeza, com mais amor.

    (1) M. M. Philipon, Los sacramentos de la vida cristiana, pág. 116; (2) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 269; (3) ib., n. 270; (4) Lc 23, 42; (5) Santo Ambrósio, Tratado sobre o Evangelho de São Lucas; (6) cfr. Lc 23, 41; (7) Josemaría Escrivá, Via-Sacra, Quadrante, São Paulo, 1984, XII, n. 4; (8) Santo Afonso Maria de Ligório, Visitas ao Santíssimo Sacramento, 20; (9) cfr. João Paulo II, Alocução à Adoração Noturna, Madrid, 31-X-1982; (10) Santo Afonso Maria de Ligório, Meditações sobre a Paixão, Med. XII para a Quarta-Feira Santa, I; (11) cfr. Mt 5, 8; (12) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 212.

    Fonte: Falar com Deus


    Imaculado Coração de Maria

    June 12th, 2010

    SÁBADO DA SEGUNDA SEMANA DEPOIS DE PENTECOSTES

    50. IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA

    Memória

    – O Coração de Maria.

    – Um Coração materno.

    – Cor Mariae dulcissimum, iter para tutum.

    Depois da consagração do mundo ao dulcíssimo e maternal Coração de Maria, feita em 1942, chegaram ao Romano Pontífice numerosos pedidos para que estendesse a toda a Igreja esse culto que já existia em alguns lugares. Pio XII acedeu em 1945, “na certeza de encontrarmos no seu amantíssimo Coração [...] o porto seguro no meio das tempestades que por toda a parte nos oprimem”. Por meio do símbolo do coração, veneramos em Maria o seu amor puríssimo e perfeito por Deus e o seu amor maternal por cada homem. Nele encontramos refúgio no meio de todas as dificuldades e tentações da vida e o caminho seguro – iter para tutum– para chegarmos rapidamente ao seu Filho.

    I. EM MIM ESTÁ TODA A GRAÇA do caminho e da verdade, em mim toda a esperança de vida e de virtude, lemos na Antífona de entrada da Missa1.

    Como considerávamos na festa de ontem, o coração expressa e simboliza a intimidade da pessoa. A primeira vez que se menciona o Coração de Maria no Evangelho é para revelar toda a riqueza da vida interior da Virgem: Maria – escreve São Lucas – guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração2.

    O Prefácio da Missa proclama que o Coração de Maria é sábio, porque entendeu como nenhuma outra criatura o sentido das Escrituras e conservou a recordação das palavras e das coisas relacionadas com o mistério da salvação; imaculado, quer dizer, imune de toda a mancha de pecado; dócil, porque se submeteu fidelissimamente ao querer de Deus em todos os seus desejos; novo, conforme a profecia de Ezequiel – Eu vos darei um coração novo e um espírito novo3 –, porque está revestido da novidade da graça merecida por Cristo; humilde, pois imitou o de Cristo, que disse: Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração4; simples, livre de toda a duplicidade e cheio do Espírito de verdade; limpo, capaz de ver a Deus, conforme a bem-aventurança do Senhor5; firme na aceitação da vontade divina quando Simeão lhe anunciou que uma espada de dor atravessaria o seu coração6, quando se desencadeou a perseguição contra o seu Filho7, ou quando chegou o momento da sua Morte; preparado, já que, enquanto Cristo dormia no sepulcro, Maria – à semelhança da esposa do Cântico dos Cânticos8 – permaneceu em vigília à espera da ressurreição de Cristo.

    O Coração Imaculado de Maria é chamado sobretudo santuário do Espírito Santo9, em virtude da sua Maternidade divina e da inabitação contínua e plena do Espírito divino na sua alma. É uma maternidade excelsa, que coloca Maria acima de todas as criaturas, e que teve lugar no seu Coração Imaculado antes de se ter realizado nas suas entranhas puríssimas. O Verbo que Maria deu à luz segundo a carne foi antes concebido segundo a fé no seu coração, afirmam os Santos Padres10. Foi em vista do seu Coração Imaculado, cheio de fé e de amor humilde, que Maria mereceu trazer o Filho de Deus no seu seio virginal. Como não havemos de recorrer continuamente a esse Coração dulcíssimo?

    “Sancta Maria, Stella maris – Santa Maria, Estrela do mar, conduz-nos Tu!

    “Clama assim com energia, porque não há tempestade que possa fazer naufragar o Coração Dulcíssimo da Virgem. Quando vires chegar a tempestade, se te abrigares nesse Refúgio firme que é Maria, não haverá perigo algum de que venhas a soçobrar ou a afundar-te”11. Nele encontraremos um porto seguro que tornará impossível naufragar.

    II. MARIA CONSERVAVA todas estas coisas, meditando-as no seu coração12.

    O Coração de Maria conservava como um tesouro o anúncio do Anjo sobre a sua Maternidade divina. Guardou também para sempre todas as coisas que aconteceram na noite de Belém: o revoar dos anjos, o que os pastores disseram diante do presépio, a chegada dos Magos com os seus dons…; depois, a profecia de Simeão e as dificuldades da viagem ao Egito… Mais tarde, afligiu-se profundamente com a perda do Menino-Deus no Templo e impressionaram-na as palavras que Ela e José lhe ouviram quando, por fim, angustiados, o encontraram13.

    Maria jamais esqueceu, nos anos em que viveu na terra, os acontecimentos que envolveram a morte do seu Filho na Cruz, bem como as palavras que o Senhor lhe dirigiu naquele instante supremo: Mulher, eis aí o teu filho14. Desde aquele momento, amou-nos no seu Coração com um amor de mãe, com o mesmo amor com que amou Jesus. Reconheceu o seu Filho não só em João, mas em cada um de nós, conforme Ele mesmo tinha dito: Todas as vezes que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes15.

    Mas Nossa Senhora exerceu a sua maternidade mesmo antes de se ter consumado a redenção no Calvário, pois passou a ser nossa Mãe desde o momento em que, com o seu faça-se, prestou a sua colaboração para a salvação de todos os homens. No relato da bodas de Caná, São João revela-nos um traço verdadeiramente maternal do Coração de Maria: a sua delicada solicitude para com os outros. Um coração maternal é sempre um coração atento, vigilante: nada do que diz respeito ao filho passa inadvertido à mãe. Em Caná, o Coração maternal de Maria estendeu a sua vigilante solicitude a uns parentes ou amigos, para solucionar uma situação certamente embaraçosa, mas sem conseqüências graves. Por inspiração divina, o Evangelista quis mostrar-nos que nada de humano lhe é indiferente, que ninguém é excluído da sua zelosa ternura. As nossas pequenas carências, tanto como as nossas culpas, são objeto dos seus desvelos. Debruça-se sobre os nossos lapsos e preocupações passageiras, como se debruça sobre as grandes angústias que às vezes podem sufocar-nos a alma. Não têm vinho16, diz ao seu Filho. Todos estavam distraídos; ninguém o tinha percebido. E ainda que não parecesse ter chegado a hora dos milagres, Ela soube adiantá-la. Maria conhece bem o Coração do seu Filho e sabe como chegar até Ele.

    Agora, no Céu, a sua atitude não mudou; pela sua intercessão, as nossas súplicas chegam “antes, mais e melhor” à presença do Senhor. Por isso, podemos dirigir-lhe hoje uma antiga oração da Igreja: Recordare, Virgo Mater Dei, dum steteris in conspectu Domini, ut loquaris pro nobis bona, lembra-te, ó Virgem Mãe de Deus, Tu que estás continuamente na presença do Senhor, de falar bem de nós17. Como necessitamos disso!

    Ao meditarmos no Coração Imaculado de Maria, reparemos que não se trata de acrescentar mais uma devoção às que já temos, mas de aprender a tratar a Virgem com mais confiança, com a simplicidade das crianças que recorrem às suas mães a cada momento: não se dirigem a elas apenas quando estão numa grande aflição, mas também nos pequenos percalços com que tropeçam a cada instante. As mães ajudam-nas com alegria a resolver os menores problemas. Elas – as mães – aprenderam da nossa Mãe do Céu.

    III. AO CONSIDERARMOS o esplendor e a santidade do Coração Imaculado de Maria, podemos examinar hoje a nossa própria intimidade: se estamos abertos e somos dóceis às graças e às inspirações do Espírito Santo, se guardamos zelosamente o coração de tudo aquilo que possa separá-lo de Deus, se arrancamos pela raiz os pequenos rancores, as invejas… que tendem a aninhar-se nele. Sabemos que da riqueza ou pobreza do nosso coração falam as palavras e as obras, pois o homem bom, do bom tesouro do seu coração tira coisas boas18.

    Do coração de Nossa Senhora brotam torrentes de graças de perdão, de misericórdia, de ajuda nas situações difíceis… Por isso queremos pedir-lhe hoje que nos dê um coração puro, humano, compreensivo com os defeitos dos que convivem conosco, amável com todos, capaz de suportar a dor em qualquer situação em que a encontremos, sempre disposto a ajudar os que precisam. “Mater Pulchrae dilectionis, Mãe do Amor Formoso, roga por nós! Ensina-nos a amar a Deus e aos nossos irmãos como tu os amaste: faz com que o nosso amor pelos outros seja sempre paciente, benigno, respeitoso [...]; faz com que a nossa alegria seja sempre autêntica e plena, para podermos comunicá-la a todos”19.

    Recordamos hoje como a Igreja e os seus filhos, quando as necessidades se tornaram mais prementes, sempre recorreram ao Coração Dulcíssimo de Maria, para consagrar-lhe o mundo, as nações ou as famílias20. Sempre tivemos a intuição de que somente nesse Doce Coração estamos seguros. Hoje voltamos a entregar-lhe, uma vez mais, tudo o que somos e temos. Deixamos no seu regaço os dias bons e os que parecem maus, as doenças e as fraquezas, o trabalho, o cansaço e o repouso, os ideais nobres que o Senhor despertou na nossa alma; pomos especialmente nas suas mãos o nosso caminhar para Cristo, a fim de que Ela o preserve de todos os perigos e o guarde com ternura e fortaleza, como fazem as mães. Cor Mariae dulcissimum, iter para tutum, “Coração dulcíssimo de Maria, prepara-me…, prepara-nos um caminho seguro”21.

    Terminamos a nossa oração pedindo ao Senhor, com a liturgia da Missa: Ó Deus, que preparastes no Imaculado Coração de Maria uma digna morada para o vosso Filho e um santuário para o Espírito Santo, concedei-nos um coração limpo e dócil, para que, sempre submissos aos vossos preceitos, Vos amemos sobre todas as coisas e ajudemos os nossos irmãos em todas as suas necessidades”22.

    (1) Antífona de entrada da Missa do Imaculado Coração de Maria; (2) Lc 2, 19; (3) cfr. Ez 36, 26; (4) Mt 11, 29; (5) cfr. Mt 5, 8; (6) cfr. Lc 2, 35; (7) cfr. Mt 2, 13; (8) cfr. Cant 5, 2; (9) cfr. Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, 53; (10) cfr. Santo Agostinho, Tratado sobre a virgindade, 3; (11) Josemaría Escrivá, Forja, n. 1055; (12) Lc 2, 19; Antífona de comunhão, ib.; (13) Lc 2, 51; (14) Jo 19, 26; (15) Mt 25, 40; (16) cfr. Jo 2, 3; (17) Missal de São Pio V, Oração sobre as oferendas da Missa de Santa Maria, medianeira de todas as graças, cfr. Jer 18, 20; (18) Mt 12, 35; (19) João Paulo II, Homilia, 31-V-1979; (20) cfr. Pio XII, Alocução Benedicite Deum, 31-X-1942; João Paulo II, Homilia em Fátima, 13-V-1982; (21) cfr. Hino Ave Maris Stella; (22) Oração coleta, ib.

    Fonte: Falar com Deus


    Sagrado Coração de Jesus – Meditação 1

    June 11th, 2010

    SEXTA-FEIRA DA SEGUNDA SEMANA DEPOIS DE PENTECOSTES

    48. SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

    Solenidade

    – Origem e sentido da festa.

    – O amor de Jesus por cada um de nós.

    – Amor reparador.

    A devoção ao Coração de Jesus já existia na Idade Média. Como festa litúrgica, aparece em 1675, após as aparições do Senhor a Santa Margarida Maria Alacoque. Nestas revelações, a Santa ganhou uma consciência extremamente viva da necessidade de reparar pelos pecados pessoais e de todo o mundo, e de corresponder ao amor de Cristo. A festa celebrou-se pela primeira vez em 21 de junho de 1686. Pio IX estendeu-a a toda a Igreja. Pio XI, em 1928, deu-lhe o esplendor atual.

    Sob o símbolo do Coração humano de Jesus, considera-se sobretudo o Amor infinito de Cristo por cada homem; por isso, o culto ao Sagrado Coração “nasce das próprias fontes do dogma católico”, como o Papa João Paulo II expôs na sua abundante catequese sobre este mistério tão consolador.

    I. OS PROJETOS DO CORAÇÃO do Senhor permanecem ao longo das gerações, para libertar da morte todos os homens e conservar-lhes a vida em tempo de penúria1, lemos no começo da Missa.

    O caráter desta Solenidade que hoje celebramos é duplo: de ação de graças pelas maravilhas do amor de Deus e de reparação, porque freqüentemente este amor é pouco ou mal correspondido2, mesmo por aqueles que têm tantos motivos para amar e agradecer. A consideração do amor de Jesus por todos os homens sempre foi o fundamento da piedade cristã; por isso, o culto ao Sagrado Coração de Jesus “nasce das próprias fontes do dogma católico”3. Por outro lado, recebeu um forte impulso da devoção e piedade de numerosos santos a quem o Senhor mostrou os segredos do seu Coração amabilíssimo, movendo-os a difundir esse culto e a fomentar o espírito de reparação.

    Numa sexta-feira da oitava da festa do Corpus Christi, o Senhor pediu a Santa Margarida Maria de Alacoque que promovesse o amor à comunhão freqüente, sobretudo nas primeiras sextas-feiras de cada mês. Devia ser uma prática reparadora, e o Senhor prometeu-lhe fazê-la participar – nas noites dessa primeira quinta para sexta-feira de cada mês – do seu sofrimento no Horto das Oliveiras. Tornou a aparecer-lhe um ano mais tarde e, mostrando-lhe o seu Coração Sacratíssimo, dirigiu-lhe estas palavras, que têm alimentado a piedade de tantas almas: Olha este Coração que tanto amou os homens e que a nada se poupou até esgotar-se e consumir-se para lhes manifestar o seu amor; e em reconhecimento, Eu não recebo da maioria dos homens senão ingratidões pelas suas irreverências e sacrilégios e pela frieza e desprezo com que me tratam neste sacramento de amor. Mas o que mais me dói é ver-me tratado assim por almas que me estão consagradas. Por isso te peço que se dedique a primeira sexta-feira depois da oitava do Santíssimo Sacramento a uma festa particular destinada a honrar o meu Coração, comungando nesse dia e desagravando-me com algum ato de reparação…

    Em muitos lugares, existe o costume privado de desagravar o Sagrado Coração de Jesus com algum ato eucarístico ou com a recitação das ladainhas do Sagrado Coração, na primeira sexta-feira de cada mês. Além disso, “o mês de junho é especialmente dedicado à veneração do Coração divino.

    Não apenas um dia – a festa litúrgica cai normalmente dentro do mês de junho –, mas todos os dias do mês”4.

    O Coração de Jesus é fonte e expressão do seu infinito amor por cada homem, seja qual for a sua situação: Eu mesmo – diz um belíssimo texto do profeta Ezequiel – cuidarei das minhas ovelhas e velarei por elas. Assim como o pastor se preocupa com o seu rebanho, quando vê as ovelhas dispersarem-se, assim eu me preocuparei com o meu; eu o reconduzirei de todos os lugares por onde se tenha dispersado num dia de nuvens e de trevas5. Cada um de nós é uma criatura que o Pai confiou ao Filho para que não pereça, ainda que tenha ido para longe.

    Jesus, Deus e Homem verdadeiro, ama o mundo com “coração de homem”6, um Coração que serve de vazão ao amor infinito de Deus. Ninguém nos amou mais do que Jesus, ninguém nos amará mais. Ele me amou e se entregou por mim7, diz São Paulo, e cada um de nós pode repeti-lo. O seu Coração está repleto do amor do Pai: repleto à maneira divina e ao mesmo tempo humana.

    II. O CORAÇÃO DE JESUS amou como nenhum outro; experimentou alegria e tristeza, compaixão e pena. Os Evangelistas anotam com muita freqüência: Tinha compaixão da multidão8, tinha compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor9. O pequeno êxito dos Apóstolos na sua primeira missão evangelizadora fez com que Jesus se sentisse como nós quando recebemos uma boa notícia: Encheu-se de alegria, diz São Lucas10; e chora quando a morte lhe arrebata um amigo11.

    Também não ocultou as suas desilusões: Jerusalém, que matas os profetas! [...] Quantas vezes eu quis reunir os teus filhos…12Jesus vê a história do Antigo Testamento e de toda a humanidade: uma parte do povo judeu e dos gentios de todos os tempos rejeitará o amor e a misericórdia divina. De alguma maneira podemos dizer que Deus chora com os seus olhos humanos por causa do sofrimento que aflige o seu coração de homem. E este é o significado real da devoção ao Sagrado Coração: traduzir-nos a natureza divina em termos humanos. Não foi indiferente para Jesus – não lhe é agora no nosso trato diário com Ele – ver que uns leprosos não voltavam para agradecer-lhe a cura, ou que um anfitrião omitia as mostras de delicadeza ou hospitalidade que se têm com um convidado, como dirá a Simão o fariseu. Em contrapartida, experimentou em muitas ocasiões a imensa alegria de ver que alguém se arrependia dos seus pecados e o seguia, ou a generosidade dos que deixavam tudo para segui-lo, e contagiou-se com a alegria dos cegos que começavam a enxergar, talvez pela primeira vez.

    Antes de celebrar a Última Ceia, ao pensar que ficaria para sempre conosco mediante a instituição da Eucaristia, manifestou aos seus mais íntimos: Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco, antes de padecer13; emoção que deve ter sido muito mais profunda quando tomou o pão, deu graças, partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: Isto é o meu Corpo…14E quem poderá explicar os sentimentos do seu Coração amabilíssimo quando nos deu no Calvário a sua Mãe como Mãe nossa?

    Mal expirou, um dos soldados atravessou-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água15. Essa ferida recorda-nos hoje o imenso amor que Jesus tem por nós, pois derramou voluntariamente até a última gota do seu precioso Sangue por cada um de nós, por mim, como se não houvesse mais ninguém no mundo. Como não havemos de aproximar-nos dEle com confiança? Que misérias humildemente reconhecidas podem impedir o nosso amor?

    III. DEPOIS DA ASCENSÃO AOS CÉUS com o seu Corpo glorioso, Jesus não cessa de amar-nos, de chamar-nos para que vivamos sempre muito perto do seu Coração amabilíssimo. “Mesmo na glória do Céu, ostenta nas feridas das suas mãos, dos seus pés e do seu lado os resplandecentes troféus da sua tríplice vitória: sobre o demônio, sobre o pecado e sobre a morte; traz, além disso, no seu Coração, como numa arca preciosíssima, os imensos tesouros dos seus méritos, fruto da sua tríplice vitória, que agora distribui generosamente pelo gênero humano já redimido”16.

    Hoje, nesta Solenidade, adoramos o Coração Sacratíssimo de Jesus “como participação e símbolo natural – o mais expressivo – daquele amor inexaurível que o nosso Divino Redentor sente ainda hoje pelo gênero humano. Já não está submetido às perturbações desta vida mortal; no entanto, vive e palpita e está unido de modo indissolúvel à Pessoa do Verbo divino, e nela e por ela, à sua divina vontade. E porque o Coração de Cristo transborda de amor divino e humano, e porque está cheio dos tesouros de todas as graças que o nosso Redentor adquiriu pelos méritos da sua vida, padecimentos e morte, é, sem dúvida, a fonte perene daquele amor que o seu Espírito comunica a todos os membros do seu Corpo Místico”17.

    Ao meditarmos hoje sobre o amor que Cristo tem por nós, sentir-nos-emos movidos a agradecer profundamente tanto dom, tanta misericórdia imerecida. E ao vermos como muitos vivem de costas para Deus, como nós mesmos não somos muitas vezes plenamente fiéis, que são muitas as nossas fraquezas, iremos ao seu Coração amabilíssimo e ali encontraremos a paz. Teremos que recorrer muitas vezes ao seu amor misericordioso em busca dessa paz, que é fruto do Espírito Santo: Cor Iesu sacratissimum et misericors, dona nobis pacem, Coração sacratíssimo e misericordioso de Jesus, dai-nos a paz.

    E a certeza de que Jesus está tão perto das nossas preocupações e dos nossos problemas e ideais levar-nos-á a dizer-lhe: “Obrigado, meu Jesus!, porque quiseste fazer-te perfeito Homem, com um Coração amante e amabilíssimo, que ama até à morte e sofre; que se enche de gozo e de dor; que se entusiasma com os caminhos dos homens e nos mostra aquele que conduz ao Céu; que se submete heroicamente ao dever e se guia pela misericórdia; que vela pelos pobres e pelos ricos; que cuida dos pecadores e dos justos… – Obrigado, meu Jesus, e dá-nos um coração à medida do Teu!”18

    Muito perto de Jesus, encontramos sempre a sua Mãe. Recorremos a Ela ao terminarmos a nossa oração e pedimos-lhe que torne firme e seguro o caminho que nos conduz ao seu Filho.

    (1) Sl 32, 11.19; Antífona de entrada da Missa da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus; (2) cfr. A. G. Martimort, La Iglesia en oración, pág. 97; (3) Pio XII, Enc. Haurietis aquas, 15-V-1956, 27; (4) João Paulo II, Angelus, 27-VI-1982; (5) Ez 34, 11-16; Primeira leitura, ib., ciclo C; (6) Conc. Vat. II, Const. Gaudium et spes, 22; (7) Gal 2, 20; (8) Mc 8, 2; (9) Mc 6, 34; (10) Lc 10, 21; (11) cfr. Jo 11, 35; (12) Mt 23, 17; (13) Lc 22, 15; (14) cfr. Lc 22, 19-20; (15) Jo 19, 34; (16) Pio XII, op. cit., 22; (17) ib.; (18) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 813.

    Falar com Deus