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    A verdadeira liberdade

    May 31st, 2010
     

    Por Jacques Philippe

    A verdadeira liberdade, mais do que uma conquista do homem, é um dom gratuito de Deus, fruto do Espírito Santo: um dom que recebemos na medida em que nos colocamos numa posição de amorosa dependência perante o nosso Criador e Salvador. A nossa liberdade é de fato proporcional ao amor e à confiança que nos unem ao nosso Pai do Céu.

    PRISIONEIROS DAS NOSSAS PRÓPRIAS CIRCUNSTÂNCIAS

    É muito comum termos a impressão de que o que limita a nossa liberdade são as circunstâncias que nos envolvem: as restrições que a sociedade nos impõe, as obrigações de todo tipo que os outros fazem pesar sobre nós, aquela limitação psíquica ou de saúde que nos trava, etc.

    Nesse caso, para encontrarmos a nossa liberdade seria preciso eliminar essas restrições e limitações. Quando sentimo-nos um pouco “sufocados” por certas circunstâncias que nos aprisionam, passamos a ter raiva das pessoas ou instituições que parecem ter sido a causa delas. Quantos ressentimentos guardamos assim contra tudo o que nos contraria na vida e impede-nos de sermos livres como desejaríamos!

    DE LIMITE EM LIMITE

    Essa maneira de ver as coisas tem com certeza alguma parte de verdade: existem certas limitações que é preciso superar, barreiras que é preciso transpor para conseguir a liberdade. Mas há também uma parte grande de ilusão que é necessário desmascarar: mesmo que desaparecessem da nossa vida todas aquelas coisas que consideramos impedimentos à nossa liberdade, isso não nos daria nenhuma garantia de encontrar a plena liberdade à qual aspiramos.

    Quando derrubamos os limites, encontramos outros um pouco mais adiante. Quem insiste nessa problemática corre o risco de entrar num processo sem fim e numa insatisfação permanente. Sempre iremos nos deparar com contrariedades dolorosas. Podemos libertar-nos de um certo número delas, mas depois aparecem outras mais inflexíveis: as leis da física, os limites da condição humana e os da vida em sociedade, etc.

    “AMAR ATÉ MORRER DE AMOR”

    A verdadeira liberdade, a soberana liberdade do crente, consiste em sempre ter, sob quaisquer circunstâncias, a possibilidade de crer, de esperar e de amar. Disso ninguém poderá jamais o impedir: Nem a morte, nem a vida, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem criatura alguma poderá separar-nos do amor de Deus que se manifesta em Cristo Jesus, Nosso Senhor (Rom 8, 39).

    Nenhuma circunstância do mundo poderá jamais me proibir de crer em Deus, de pôr nEle toda a minha confiança, de amá-lo de todo o coração e de amar o meu próximo. A Fé, a Esperança e a Caridade são soberanamente livres: se estiverem suficientemente enraizadas em nós, serão capazes de alimentar-se até mesmo daquilo que se opõe a elas!

    Se pela perseguição quiserem impedir-me de amar, sempre tenho a possibilidade de perdoar os meus inimigos, transformando assim a situação de opressão num amor maior ainda. Se quiserem sufocar a minha fé tirando-me a vida, a minha morte tornar-se-á a mais bela confissão de fé que se pode conceber! O amor é capaz de vencer o mal com o bem, de tirar de um mal um bem.

    ACEITAR A REALIDADE

    O exercício da liberdade como escolha entre diferentes possibilidades é certamente importante. Contudo, é fundamental que se entenda – sob pena de expor-se a dolorosas desilusões – que há uma outra maneira de exercer a liberdade, menos grandiosa à primeira vista, mais pobre, mais humilde, mais corriqueira afinal, e que é de uma fecundidade humana e espiritual imensa: a liberdade não somente de escolher, mas de também aceitar aquilo que nós não tínhamos escolhido.

    Desejaria mostrar o quanto essa forma de exercitar a liberdade é importante. O ato mais alto e mais fecundo da liberdade humana reside mais no acolhimento do que na dominação. O homem manifesta a grandeza da sua liberdade quando transforma a realidade, mas manifesta-a ainda mais quando aceita, confiante, essa mesma realidade – tal e qual ela lhe é dada – dia após dia.

    É fácil e natural aceitar as situações que se apresentam na nossa vida com um aspecto agradável e prazenteiro, mesmo que nós não as tenhamos escolhido. O problema surge, evidentemente, em face do que nos desagrada, que nos contraria, que nos faz sofrer. Mas é precisamente nesses domínios em que somos freqüentemente chamados – para sermos verdadeiramente livres – a “escolher” aquilo que não tínhamos querido, e às vezes até mesmo aquilo que não aceitaríamos por preço nenhum. Eis uma lei paradoxal da vida: só poderemos ser verdadeiramente livres se aceitarmos não sê-lo sempre!

    O PEQUENO RESTO

    O homem livre – o cristão espiritualmente “maduro”, isto é, o que age verdadeiramente como um “filho pequeno” de Deus – é aquele que experimentou a radicalidade do seu próprio nada, a sua miséria absoluta, aquele que, por assim dizer, ficou “reduzido a nada”, mas que no meio desse nada descobre uma ternura inefável: o amor absolutamente incondicional de Deus. A partir desse instante não haverá para ele nenhum outro apoio, nenhuma outra esperança além desta: a misericórdia sem limites do Pai. Essa será a sua única e exclusiva segurança.

    Ele espera tudo dessa misericórdia e somente dela: não mais dos seus recursos pessoais nem da ajuda dos outros. Realizam-se nele as palavras que Deus dirigiu a Israel pela boca do profeta Sofonias: Deixarei subsistir no meio de ti um povo humilde e modesto, que porá sua confiança no nome do Senhor. Os que pertençam a esse resto de Israel se absterão do mal (…) serão apascentados e repousarão, sem haver quem os inquiete (Sof 3, 12-13). Ele esforça-se generosamente por fazer o bem e recebe com alegria e reconhecimento todas as coisas boas que lhe vêm do próximo, mas com uma grande liberdade, pois o seu apoio está em outro lugar: está somente em Deus.

    Ele não se inquieta, portanto, por causa das suas fraquezas, nem se irrita com os outros por eles nem sempre corresponderem ao que esperava deles. O seu apoio em Deus protege-o contra todas as decepções e confere-lhe uma grande liberdade interior, que o leva a dedicar-se por inteiro ao serviço de Deus e dos seus irmãos, os homens, com a alegria de quem está devolvendo amor por amor.

    O POBRE DAS BEM-AVENTURANÇAS

    O nosso mundo anda a busca da liberdade, mas procura-a na acumulação de posses e de poder. Esquece-se dessa verdade essencial: só é verdadeiramente livre quem não tem nada a perder, porque já se desprendeu de tudo, despojou-se de tudo, e por isso está livre em relação a todos (1 Cor 9, 19): dele pode-se dizer de verdade que deixou a morte “atrás de si”, pois todo o seu bem passou a estar somente em Deus.

    Os que nada cobiçam e os que nada temem são soberanamente livres. Quem nada cobiça, porque tudo o que é verdadeiramente importante já lhe está assegurado por Deus; quem nada teme, porque nada tem a perder: não precisa proteger coisa alguma nem se sente ameaçado por ninguém, mesmo pelos seus inimigos. Ele é o pobre das Bem-aventuranças: desprendido, humilde, misericordioso, manso, artífice da paz.

    A LIBERDADE INALIENÁVEL

    Na parte central do Evangelho estão as Bem-aventuranças. A primeira resume todas elas: Felizes os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus (Mt 5, 3). A pobreza de espírito, a dependência total de Deus e da sua Misericórdia, é a condição da liberdade interior. É ela que nos faz ser como as crianças, e tudo esperar do Pai.

    Não sabemos o que virá sobre o mundo nos próximos anos; quais serão os acontecimentos que marcarão o terceiro milênio. Mas uma coisa é certa: nunca serão pegos de surpresa aqueles que souberem descobrir e desenvolver o espaço inalienável de liberdade que Deus depositou nos seus corações ao fazer deles seus filhos.


    O Valor da Amizade

    May 28th, 2010

    – Jesus, “o amigo que nunca atraiçoa”. NEle aprendemos o verdadeiro valor da amizade.

    – A amizade é um grande bem humano que podemos sobrenaturalizar. Qualidade da verdadeira amizade.

    – Apostolado com os amigos.

    I. NINGUÉM TEM MAIOR AMOR do que aquele que dá a vida pelos seus amigos. Vós sois meus amigos [...]. Já não vos chamo servos [...], mas chamei-vos amigos1, diz-nos o Senhor no Evangelho da Missa.

    Jesus é o nosso Amigo. NEle os Apóstolos encontraram a sua melhor amizade. Era alguém que os amava, a quem podiam comunicar as suas penas e alegrias, a quem podiam fazer perguntas com toda a confiança. Sabiam bem o que Ele desejava exprimir quando lhes dizia: Amai-vos uns aos outros… como eu vos amei2. As irmãs de Lázaro não encontraram melhor título que o da amizade para solicitarem a sua presença: o teu amigo está doente3, mandam dizer-lhe, cheias de confiança.

    Jesus procurou a amizade de todos os que encontrou pelos caminhos da Palestina. Aproveitava sempre o diálogo para chegar ao fundo das almas e cumulá-las de amor. E, além do seu infinito amor por todos os homens, ofereceu a sua amizade a pessoas bem determinadas: aos Apóstolos, a José de Arimatéia, a Nicodemos, a Lázaro e à sua família… Não negou ao próprio Judas o honroso título de amigo, precisamente no momento em que este o entregava às mãos dos seus inimigos. Estimava muito a amizade dos seus amigos; depois da tríplice negação, perguntará a Pedro: Amas-me?4, és meu amigo?, posso confiar em ti? E entrega-lhe a Igreja: Apascenta os meus cordeiros…, apascenta as minha ovelhas.

    “Cristo, Cristo ressuscitado, é o companheiro, o Amigo. Um companheiro que se deixa ver apenas entre sombras, mas cuja realidade inunda toda a nossa vida e nos faz desejar a sua companhia definitiva”5. Ele, que compartilhou a nossa natureza, quer compartilhar também os nossos fardos: Eu vos aliviarei6, diz a todos. É o mesmo que deseja ardentemente que partilhemos da sua glória por toda a eternidade.

    Jesus Cristo é o Amigo que nunca atraiçoa7; quando vamos vê-lo, falar-lhe, está sempre disponível, dá-nos as boas-vindas sempre com o mesmo calor, ainda que nos veja frios ou distraídos. Ele ajuda sempre, anima sempre, consola em qualquer ocasião.

    II. A AMIZADE COM O SENHOR, que nasce e cresce pela oração e pela digna recepção dos sacramentos, faz-nos entender melhor o significado da amizade humana, que a Sagrada Escritura qualifica como um tesouro: Um amigo fiel é uma proteção poderosa; quem o achou descobriu um tesouro. Nada é comparável a um amigo fiel; seu preço é incalculável8.

    Compreende-se bem que o trato diário e a amizade com Jesus Cristo nos aumentem a capacidade de ter amigos, pois fomentam em nós uma atitude aberta: a oração afina a alma e torna-a especialmente apta para compreender os outros, aumenta a generosidade, o otimismo, a cordialidade na convivência, a gratidão…, e essas virtudes facilitam ao cristão o caminho da amizade.

    A verdadeira amizade é sempre desinteressada, pois consiste mais em dar do que em receber; não procura o proveito próprio, mas o do amigo: “O amigo verdadeiro não pode ter duas caras para o seu amigo; a amizade, se deve ser leal e sincera, exige renúncia, retidão, troca de favores, de serviços nobres e lícitos. O amigo é forte e sincero na medida em que, de acordo com a prudência sobrenatural, pensa generosamente nos outros, com sacrifício pessoal. Do amigo espera-se correspondência ao clima de confiança que se estabelece na verdadeira amizade; espera-se o reconhecimento do que somos e, quando necessário, a defesa clara e sem paliativos”9.

    Para que haja uma amizade verdadeira, é necessário que o afeto e a benevolência sejam mútuos10. E então tenderá sempre a tornar-se mais forte: não se deixará corromper pela inveja, não arrefecerá pelas suspeitas, crescerá na dificuldade11, “até fazer sentir o amigo como outro eu. Por isso diz Santo Agostinho: Retratou bem o seu amigo aquele que o chamou metade da sua alma”12. Então compartilham-se com naturalidade as alegrias e as penas.

    A amizade é um bem humano e, ao mesmo tempo, ocasião de desenvolver muitas virtudes humanas, porque cria “uma harmonia de sentimentos e gostos que prescinde do amor dos sentidos, desenvolvendo, por outro lado, até graus muito elevados, e mesmo até o heroísmo, a dedicação do amigo ao amigo. Pensamos – ensinava Paulo VI – que os encontros [...] são uma oportunidade para que as almas nobres e virtuosas gozem desta relação humana e cristã que se chama amizade. Ela pressupõe e desenvolve a generosidade, o desinteresse, a simpatia, a solidariedade e, especialmente, a possibilidade de sacrifícios mútuos”13.

    O bom amigo não desaparece nas dificuldades, não atraiçoa; nunca fala mal do amigo nem permite que, quando ausente, seja criticado, porque toma a sua defesa. Amizade é sinceridade, confiança, compartilhar penas e alegrias, animar, consolar, ajudar com o exemplo.

    III. AO LONGO DOS SÉCULOS, a amizade foi um caminho pelo qual muitos homens e mulheres se aproximaram de Deus e alcançaram o Céu. É um caminho natural e simples, que elimina muitos obstáculos e dificuldades. O Senhor conta com freqüência com esse meio para se dar a conhecer. Os primeiros que o conheceram foram comunicar a boa notícia àqueles que amavam. André trouxe Pedro, seu irmão; Filipe trouxe o seu amigo Natanael; e foi João com certeza quem levou ao Senhor o seu irmão Tiago…

    Assim se difundiu a fé em Cristo na primitiva cristandade: através dos irmãos, de pais para filhos, de filhos para pais, do servo para o seu amo e vice-versa, de amigo para amigo. A amizade é uma base excepcional para dar a conhecer Cristo, porque é o meio natural de comunicar sentimentos, de partilhar confidências com os que estão junto de nós por razões de família, trabalho, inclinações…

    É próprio da amizade dar ao amigo o melhor que se possui. O nosso valor mais alto, sem comparação possível, é termos encontrado o Senhor. Não teríamos verdadeira amizade pelos nossos amigos se não lhes comunicássemos o imenso dom que é a nossa fé cristã. Em cada um de nós, cristãos que queremos seguir o Senhor de perto, os nossos amigos devem encontrar apoio, fortaleza e um sentido sobrenatural para as suas vidas. A certeza de encontrarem em nós compreensão, interesse, atenção, animá-los-á a abrir o coração confiadamente, cientes de que são estimados, de que estamos dispostos a ajudá-los. E isto enquanto realizamos as nossas tarefas diárias, procurando ser exemplares na profissão ou no estudo, permanecendo abertos ao convívio com todos, movidos pela caridade.

    A amizade leva-nos a iniciar os nossos amigos numa verdadeira vida cristã, se estão longe da Igreja, ou a fazê-los reempreender o caminho que um dia abandonaram, se deixaram de praticar a fé que receberam. Com paciência e constância, sem pressas, sem pausas, irão aproximando-se do Senhor, que os espera. Haverá ocasiões em que poderemos fazer juntamente com eles uns minutos de oração, praticar juntos uma obra de misericórdia visitando um doente ou uma pessoa necessitada; pedir-lhes que nos acompanhem numa breve visita a Jesus sacramentado… Quando for oportuno, falar-lhes-emos do sacramento da misericórdia divina, a Confissão, e os ajudaremos a preparar-se para recebê-lo.

    Quantas confidências ao abrigo da amizade são caminhos abertos pelo Espírito Santo para um apostolado fecundo! “Essas palavras que tão a tempo deixas cair ao ouvido do amigo que vacila; a conversa orientadora que soubeste provocar oportunamente; e o conselho profissional que melhora o seu trabalho universitário; e a discreta indiscrição que te faz sugerir-lhe imprevistos horizontes de zelo… Tudo isso é «apostolado da confidência»”14.

    O Senhor deseja que tenhamos muitos amigos porque o seu amor pelos homens é infinito e a nossa amizade é um instrumento para chegar a eles. Quantas pessoas com quem estamos em contacto todos os dias esperam, mesmo sem o perceberem, que lhes chegue a luz de Cristo! Que alegria de cada vez que um amigo nosso se torna amigo do Amigo!

    Jesus, que passou fazendo o bem15 e conquistou o coração de tantas pessoas, é o nosso Modelo. Assim devemos nós passar pela família, pelo trabalho, pelos vizinhos, pelos amigos. Hoje é um dia oportuno para que nos perguntemos se as pessoas das nossas relações se sentem animadas pelo nosso exemplo e pela nossa palavra a aproximar-se do Senhor; se nos preocupamos pelas suas almas, se se pode dizer de verdade que, como Jesus, estamos passando pelas suas vidas fazendo o bem.

    (1) Jo 15, 13-15; (2) Jo 13, 14; (3) Jo 11, 3; (4) Jo 21, 16; (5) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 116; (6) Mt 11, 28; (7) cfr. Josemaría Escrivá, Caminho, n. 88; (8) Eclo 6, 14; (9) Josemaría Escrivá, Carta, 11-III-1940, citado por J. Cardona, em Gran Enciclopedia, Rialp, voz Amistad II; (10) cfr. São Tomás, Suma Teológica, 2-2, q. 23, a. 1; (11) cfr. Beato Elredo, Trat. sobre la amistad espiritual, 3; (12) São Tomás, Suma Teológica, 2-2, q. 28, a. 1; (13) Paulo VI, Alocução, 26-VII-1978; (14) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 973; (15) At 10, 38.

    Fonte: Falar com Deus


    Maria, mulher nova

    May 19th, 2010

    Por Pe. Daniel Guindón, LC

    O mês de maio é dedicado às mães, e particularmente à nossa Mãe do Céu. Quero apresentar para vocês a figura de Maria como mulher nova.

    É interessante considerar que no relato da criação, Eva vem apresentada como “a mulher”. Deus pergunta “à mulher” porque ela tomou do fruto proibido. Isto para fazer-nos entender que em Eva estão representadas todas as mulheres, como em Adão estão presentes todos os homens. Não é só Eva que pecou, somos todos nós. Do mesmo modo que dizemos que não são somente os judeus crucificaram Jesus, mas os pecados de todos nós.

    Tendo claro isto, maravilha-nos descobrir esta mesma expressão “mulher” no evangelho de São João em duas ocasiões, e referidas a Nossa Senhora. E é o mesmo Jesus que chama assim à sua mãe. A primeira vez acontece em Caná de Galiléia, quando na boda faltou vinho. Maria se aproximou de Jesus para pedir que fizesse um milagre. Jesus responde: “Mulher, o que há para mim e para ti. A minha hora ainda não chegou.” A segunda ocasião é na crucifixão. Jesus vê ao pé da cruz a sua mãe e o discípulo amado. Então fala para ela: “Mulher, eis ali o teu filho”.

    Nós precisamos entender que São João não colocou casualmente esta expressão na boca de Jesus. Jesus Cristo é o novo Adão, como São Paulo o explica nas cartas (Rm5,12 ss). Mas não é só a figura do homem que é redimida, mas também a figura da mulher. Maria encarna o modelo da mulher nova que surge a partir da Redenção.

    Não só  a culpa de Adão precisa ser reparada, mas também a de Eva. Eva dialogou com Satanás e desobedeceu à lei de Deus, tornando-se causa da entrada do pecado no mundo. Maria não dialoga com Satanás, mas com o anjo enviado por Deus, Gabriel. À sua palavra ela responde “sim, sou a escrava do Senhor”. Ela obedeceu e assim se transforma em causa material da graça, porque do seu seio nasce o Salvador.

    Com este preâmbulo podemos explicar agora os dois textos do evangelho de São João que se referem a Maria como mulher. Em primeiro lugar, consideramos o banquete das bodas de Caná: este simboliza a nossa relação com Deus. Pois quando no antigo testamento Deus selou a aliança com Moisés, entregando-lhe as tábuas da lei, Moisés e o povo comeram na presença de Deus. O sangue do sacrifício do cordeiro representou o selo do pacto. Mas o povo não cumpriu a aliança e foi infiel aos mandamentos de Deus. Assim, o povo quebrou a aliança, e a comunhão com Deus foi rompida. Na passagem de Caná, Jesus diz para a sua mãe, tendo em conta esta alegoria: “Mulher, não tem vinho e não é nem a tua culpa nem a minha, porque nós somos as únicas criaturas que não têm pecado. A minha hora de reparar o pecado e de reconciliar a humanidade com Deus ainda não chegou. Não está na hora de comer e de beber.” Mas Maria, a mulher nova, insiste para Jesus, o novo Adão, e é causa  do milagre da água transformada em vinho.

    Na cruz, Jesus chama a sua mãe por segunda vez de “mulher”. A sua hora chegou por fim. Ele, o novo Cordeiro de Deus, derrama seu sangue para purificar os nossos pecados. É como se, vendo a sua mãe sofrendo penosamente pela sua morte, dissesse para ela: “Mulher, agora sim da para comer e beber, porque com a minha obediência restabeleço a comunhão entre Deus e a humanidade. Você não é simplesmente a minha mãe. Você é a nova Eva, a mãe de todos os viventes, os renascidos pela graça: eis aqui o teu filho.”

    São João por fim, no Apocalipse ao capítulo 12, apresenta esta mulher na glória do Céu: “uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo de seus pés, e uma coroa de doze estrelas na sua cabeça”. As doze estrelas representam as doze tribos de Israel, quer dizer, o novo povo que é a Igreja.

    Maria é  a mulher nova. Ela nos ensina com seu “sim”, com toda a sua vida de entrega e de generosidade como é a mulher da nova vida. Nós queremos colocar-nos sob o seu manto, para que ela nos proteja do inimigo. Queremos olhar para ela e tomá-la como exemplo, como modelo de mulher e de mãe valente, generosa, autêntica, fiel, cheia de amor para com Deus e com a humanidade.


    Sentido do Sofrimento Cristão

    May 17th, 2010

     Por Tiago Guimarães, LC

    Estava no Centro de teu Coração

    Durante um período da sua vida, Santa Catarina de Sena sofreu fortes e persistentes tentações. Parecia que o pequeno quarto no qual vivia estava cheio de demônios. Foi a uma Igreja para rezar, mas também lá os maus pensamentos e tentações lhe perseguiam. Já muito perturbada, se entregou aos braços de Deus: "Senhor, tenho escolhido sofrer para vos agradar; também aceito, Senhor, este sofrimento e tentações, por todo o benefício que vós queirais tirar deles. Faça-se a vossa vontade!"

    Finalmente aquela tempestade de tentações se acalmou, e a paz voltou a sua alma.

    Um dia Jesus aparaceu para a santa com a cruz nas costas. Felicitou-a pela luta e ela experimentou um grande consolo, mas deixou uma doce queixa sair de seus lábios:

    “Senhor, onde estáveis quando minha alma estava triste, e andava se enganado no lodo daqueles pensamentos tão feios?”

    O Senhor lhe respondeu:

    “Minha filha querida, eu estava constantemente no centro de teu coração!”

    Quantas dificuldades experimentamos também na nossa vida? Quantas vezes andamos pelas estradas escuras da vida sem saber aonde ir! Muitas vezes nos sentimos como se aqueles aos que mais amamos nos tivessem abandonado, não é verdade?

    Acima líamos um pequeno exemplo de Santa Catarina. No meio das dificuldades que ela sofria muitas tentações, maus pensamentos surgiram, e a paz da sua alma desapareceu. Ela se encontrava em uma profunda angústia, porque parecia que até nosso Senhor lhe havia abandonado. Mas ela sabia que Ele nunca nos abandona. Sua reação foi ir falar com Ele. Buscá-lo na Eucaristia. E lá ela se entregou aos braços de Deus.

    Algumas vezes sentimos este temor de estar sós nos nossos sofrimentos. Mas temos que estar certos de que quando sofremos Cristo está mais perto do que nunca. Ele mesmo sofreu este sentimento de solidão no horto das Oliveiras! Ele quis sofrer o que nós sofremos para estar mais perto de nós. No seu sofrimento, o Pai nunca lhe abandonou. Ele sabia que Ele o acompanhava em silêncio.

    Também no evangelho vemos como os apóstolos, ao ser surpreendidos pela tempestade repentina, se apavoraram e começaram a gritar por Cristo que estava dormindo no barco. Nosso Senhor lhes repreende pela sua falta de fé.

    Na nossa vida temos estas mesmas tempestades. Podemos nos apavorar e pensar que Cristo se esqueceu de nós. O problema com a reação dos discípulos foi que eles gritaram sem fé: "Senhor, salva-nos, estamos perecendo!" (Mt 8, 25). Não confiaram que Ele tinha o controle da situação ainda que estivesse dormindo. Santa Catarina por sua vez, soube aceitar as dificuldades e confiou-se com fé ao amor de Cristo.

    Há uma grande diferença nas duas atitude diante das dificuldades. Muitas vezes Deus, nosso Senhor, permite estas dificuldades na nossa vida para que percebamos que ele está conosco ainda quando pareça o contrário.

    Ou talvez Ele permita que soframos para que ajudemos na salvação de tantas almas que precisam de nossos sacrifícios. Já pensou nisso? Sofrimento é uma vocação maravilhosa! É um chamado para participar com Cristo na redenção. Podemos unir as nossas dores de cada dia, sejam quais forem, e ajudar a Deus nosso Senhor a levar muitas almas ao céu.

    Nunca nos esqueçamos que no sofrimento Cristo está muito mais perto de nós. Ele muitas vezes se esconde para que o busquemos com mais amor e desejos de santidade e o que é melhor, o fruto deste sofrimento é uma união mais forte com Cristo.

    Faça o seguinte compromisso com Deus: Senhor Jesus, na próxima vez que vós permitirdes um sofrimento, ainda que eu não entenda o porquê, vou colocar-me na vossa presença, e vos direi como Santa Catarina: “Senhor, tenho escolhido sofrer para vos agradar; também aceito Senhor, este sofrimento e tentações, por todo o benefício que vós queirais tirar deles. Faça-se a vossa vontade!”

    Nunca desanimemos. Cristo nos ama muito e nunca nos deixará só. Invoquemo-lo com fé.


    Mãe da Misericórdia

    May 11th, 2010

    Mãe benigna dAquele que disse: "Não são os que gozam de saúde que precisam de médico", e em outra ocasião: "Perdoai até setenta vezes sete!". Quando é que as nossas repetidas quedas poderão esgotar o Vosso poder ou a ternura da Vossa solicitude maternal? Ides em busca do pecador que todos repeliram, e, ao encontrá-lo, o abraçais e reanimais, e não descansais enquanto não o curais.

    Eu sou um dos Vossos doentes, salvai-me. "Eu sou Vosso, salvai-me" (Sl 118, 94). Este será o meu grito de esperança em todos os dias do meu desterro. Quanto mais me lembrar das minhas quedas passadas, mais me lembrarei de Vós, que pudestes e quisestes com toda a bondade levantar-me delas; e maior será a minha certeza de que não me abandonareis a meio da minha cura.

    E por fim, no Céu, quando timidamente for ocupar o meu lugar entre os que Vos devem a salvação, porque, no meio das suas misérias, puseram em Vós toda a sua esperança, serei a vossa glória, como um doente é a glória do médico que o arrancou da morte já às portas dela, e não uma vez somente, mas muitíssimas.
    Então – e será este o fruto mais delicioso que a graça terá produzido -, as minhas próprias faltas serão o pedestal da Vossa glorificação e, ao mesmo tempo, o trono das divinas misericórdias, que eu eternamente quero cantar: Misericordias Domini in æternum cantabo! (Sl 88, 2). Cantarei pelos séculos dos séculos as misericórdias do Senhor!

    (Pe. Joseph Tissot. A arte de aproveitar as próprias faltas. São Paulo: Quadrante, 1995, p. 126)

    (Revista Arautos do Evangelho, Nov/2009, n. 95, p. 2)