Sunday, 20 of May of 2012

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Os milagres de jesus: mito ou história?

Por D. Estêvão Bettencourt

Causam certa dificuldade à fé do homem moderno os milagres em geral e, especialmente, os milagres de Jesus. A crítica dos Evangelhos vem tentando explicá-los ou como relatos de ficção ou como fenômenos parapsicológicos, negando a sua realidade transcendental. — Ora quem lê os Evangelhos, tem a impressão de que os milagres têm grande importância na missão de Jesus, pois Jesus os tem como sinais da sua Messianidade e Divindade. Eis por que, nas páginas seguintes, 1) definiremos a noção de milagre; 2) analisaremos alguns textos referentes a milagres nos Evangelhos e 3) consideraremos narrações de milagre no mundo pagão antigo.

I. QUE É MILAGRE?

O milagre não deve ser tido como mera ostentação ou show do poder de Deus. Não é o meramente extraordinário que importa no milagre, mas é o extraordinário feito sinal. O Evangelho de São João usa sistematicamente o vocábulo sinal (semeion) para designar os feitos extraordinários de Jesus; ver Jo 6,26; 10,37s; 12,37s; 15,24 e ainda Mt 12,39s.

O milagre é propriamente uma palavra de Deus… mais forte do que as palavras orais; o Senhor Deus dirige às suas criaturas esse tipo de discurso sempre que o julgue oportuno

— ou para responder à oração humilde e confiante dos homens

— ou para autenticar a missão de alguém que se diga enviado por Deus.

Para se poder falar de autêntico milagre, requer-se o cumprimento de três condições:

1) Trate-se de um fato real… Este deve ser averiguado com exatidão, para que se tenha notícia fiel à realidade ocorrida. Freqüentemente os relatos de milagres ocorrentes entre a gente simples vem-se tão somente à fantasia popular, que os tornou “portentosos”.

2) Trate-se de fato real que as ciências naturais contemporâneas ao fato não possam em absoluto explicar. A Igreja não faz questão de descobrir ou impingir milagre ao público; desde que qualquer brecha se ofereça para uma elucidação científica, o fato portentoso deixa de ser considerado pelos teólogos. A Igreja apenas aceita os milagres que, à luz de crítica objetiva e severa, pareçam real mente ser sinais de Deus.

3) O fato histórico inexplicável pela ciência deve ter ocorrido em contexto que possa merecer a chancela ou a resposta do Senhor Deus.

Vê-se, pois, que não basta o aspecto portentoso do fato. Com efeito, se o milagre é sinal, deve-se inserir em âmbito de diálogo entre Deus e as criaturas. Por conseguinte, não pode ser milagre no sentido da apologética católica qualquer fato portentoso que confirme a vaidade, o espírito mercenário ou comercial, os vícios, o charlatanismo… Se, por hipótese, alguma vez se verifique um fenômeno inexplicável pela ciência em moldura de pecado e corrupção, dir-se-á que se trata de artimanha do demônio. Tal caso, porém, é tido como extremamente raro, pois, nos ambientes de vícios, os portentos são geralmente explicáveis pela psicologia e a parapsicologia…

Aliás, sabemos pelo progresso da ciência que muitos e muitos fatos portentosos são perfeitamente explicáveis pela parapsicologia, principalmente quando se trata de doenças funcionais ou nervosas, resultantes de um bloqueio psicológico (o desbloqueio pode ser obtido por via psicológica, ou seja, pela sugestão ou pelo aparato do curandeirismo).

O milagre é um fato que foge à ordem normal ou natural dos acontecimentos… Esta afirmação suscita a objeção seguinte: Deus não estaria derrogando às leis que Ele mesmo imprimiu à natureza, se Ele fosse autor de um milagre? — A isto respondemos:

O milagre não está fora da ordem geral da Providência Divina. Esta se exerce habitualmente através das leis da natureza. Mas pode também intervir extraordinariamente, fora e acima das leis da natureza, desde que isto contribua mais eficiente mente para a realização do plano de Deus destina do a salvar e santificar os homens. Quando Deus realiza um milagre, Ele o faz sabiamente, visando à finalidade mesma que Ele se propôs ao criar o mundo e o homem.

II. OS MILAGRES NA VIDA PÚBLICA DE JESUS

Quem considera atentamente os Evangelhos, verifica que Jesus associou intimamente os seus dizeres a feitos ou sinais portentosos, que deviam autenticar e confirmar a sua pregação. Em especial, três passagens do Evangelho merecem consideração, pelo seu caráter muito enfático e arcaico:

1) Mt 12,27s: Diz Jesus: “Se eu expulso os demônios por Beelzebu, por quem os expulsam os vossos adeptos? Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, o Reino de Deus chegou a vós” (cf. Lc 11,20).

Este texto dá a ver que os judeus reconheciam a atividade de Jesus como exorcista (pois a atribuíam à ação remota do príncipe dos demônios); não negavam as ações milagrosas do Senhor; apenas questionavam a procedência ou a origem do poder de Jesus (cf. Mc 3,22). — A referência a Beelzebu, por parte dos judeus, é sinal de antigüidade e genuinidade desse episódio, pois é de crer que, se os discípulos tivessem forjado tal relato, não teriam sugerido a possibilidade de Jesus estar agindo em nome do príncipe dos demônios. — Ademais a referência ao Reino de Deus que vem, e a consciência do poder, de Jesus, para vencer Satanás são ele mentos que se encontram em outras secções do Evangelho (cf. Mc 1,14s; Mt 4,23; Jo 12,31) e que abonam a antiguidade e genuinidade do episódio.

2) Mt 11,20-24: “Jesus começou a verberar as cidades onde havia feito a maior parte dos seus milagres por não se terem arrependido: ‘Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidônia tivessem sido realizados os milagres que em vós se realizaram, há muito se teriam arrependido, vestindo-se de cilício e co brindo-se de cinza. Mas eu vos digo: no dia do julgamento haverá menos rigor para Tiro e Sidônia do que para vós. E tu, Cafarnaum, por acaso te elevarás até o céu? Antes, até o inferno descerás. Porque, se em Sodoma tivessem sido realizados os milagres que em ti se realizaram, ela teria permanecido até hoje. Mas eu vos digo que no dia do julgamento haverá menos rigor para a terra de Sodoma do que para vós”. Cf. Lc 10,13-15.

Jesus se queixa da incredulidade das cidades onde Ele mais milagres havia feito. Em tais dizeres, encontram-se elementos arcaicos: assim dynamis, vocábulo que o português traduz por “milagre”, mas que significa “força, poder”; é o designativo mais antigo dos portentos de Jesus. — A menção da cidade de Corozaim é outro indício de antiguidade do texto ou indício de que não foram os antigos cristãos que criaram tais dizeres e os atribuíram a Jesus, pois Corozaim não é mencionada em nenhuma outra secção do Novo Testamento. De resto, ficou na consciência dos cristãos a lembrança de que Jesus efetuara muitos milagres; cf. At 2,22; 10,38. Diz São Pedro no dia de Pentecostes: ‘Homens de Israel, ouvi estas palavras! Jesus, o Nazareu, foi por Deus aprovado diante de vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus operou por meio dele entre vós, como bem sabeis (cf. At 2,22).

Em casa de Cornélio, centurião romano, disse Pedro: ‘Deus ungiu Jesus de Nazaré com o Espírita Santo e com poder, ele passou fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo diabo, porque Deus estava com ele’ (cf. At 10,38).

3) Mt 11,2-6: “João, ouvindo falar, na prisão, a respeito das obras de Cristo, enviou a ele alguns de seus discípulos para lhe perguntarem: ‘És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro?’ Jesus respo
ndeu-lhes: ‘Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados’. E bem-aventurado aquele que não se escandalizar a meu respeito!”. Cf. Lc 7,18-23.

A resposta de Jesus a João faz eco a profecias do Antigo Testamento que anunciavam o Messias como restaurador do homem e do mundo feridos pelo pecado; cf. Is 26,19; 29,18s; 35, 5s; 61,1. Jesus aponta milagres por Ele realizados para dizer a João Batista que Ele, Jesus, é o Messias predito pelos Profetas. A autenticidade destes dizeres se depreende do fato de que o conceito de Messias assim apresentado por Jesus não é o conceito alimentado pelos judeus, que pensavam num Messias político e nacionalista; por conseguinte, o novo conceito de Messias não deve ter tido origem nas comunidades cristãs antigas, mas sim na pregação mesma de Jesus. — Ademais a resposta de Jesus a João está em plena conformidade com os ensinamentos e a atividade de Jesus; daí poder-se dizer que é genuína; ela evidencia que Jesus associava entre si pregação e milagres, sendo estes o sinal que confirmava e comprovava aquela.

III. HISTORICIDADE DOS MILAGRES DE JESUS

1. DEVE TER HAVIDO ALGO…

Os milagres ocupam lugar tão importante nos Evangelhos que não se poderia conceber o ensinamento de Jesus sem esses sinais concomitantes; ensinamentos e milagres devem manifestar, segundo Jesus, a mesma realidade: a chegada do Reino de Deus.

Detendo-nos particularmente no Evangelho de Marcos, verificamos que neste livro os milagres representam 31% do texto global, e, se considerarmos apenas os dez primeiros capítulos de Marcos (ministério público do Senhor), concluímos que aí a proporção chega a 47%. Ora tão ampla narrativa de milagres não se poderia entender se não houvesse base histórica para tanto; leve-se ainda em conta que muitos de tais sinais foram realizados perante multidões, segundo os evangelistas; ora, se não se tratasse de fatos reais, mas de narrações fictícias dos antigos cristãos, tais relatos teriam sido facilmente desmentidos. Precisamente por haver base histórica é que São Pedro no dia de Pentecostes pôde aludir a tais feitos como algo de incontestável (cf. At 2,22); nem mesmo os inimigos de Jesus podiam negar que Ele fizera obras portentosas. Muito interessante, por exemplo, é a atitude do rabino Gamaliel perante o Sinédrio: vendo seus colegas de tribunal enraivecidos e desejosos de matar os Apóstolos, ponderou:

“Deixai de ocupar-vos com esses homens. Soltai-os! Pois, se o seu intento ou sua obra provêm dos homens, destruir-se-ão por si mesmos; mas, se vêm de Deus, não podereis destruí-los. E não aconteça que vos encontreis movendo guerra a Deus” (cf. At 5,38s).

O texto dos Atos acrescenta que os membros do tribunal concordaram com Gamaliel. Ora tal fato bem demonstra que ninguém podia argüir os Apóstolos de mentirosos ou fraudulentos; se houvesse qualquer brecha de ordem ética no comportamento destes, teria sido aproveitada para se lavrar a sua sentença de morte.

2. CINCO CRITÉRIOS DE HISTORICIDADE

Para corroborar quanto até aqui foi dito, pode mos recorrer aos cinco critérios que os críticos aplicam para verificar a autenticidade de algum segmento do Evangelho:

1) Critério de múltiplo testemunho: são autênticos os episódios do Evangelho que vêm atesta dos por várias fontes ou testemunhos convergentes. Ora os sinóticos, o Evangelho de S. João, o livro dos Atos dos Apóstolos, a Epístola aos Hebreus (2,23s) e os apócrifos dão unânime testemunho de que Jesus fez muitos milagres.

2) Critério da descontinuidade: são autênticos os episódios do Evangelho que não se possam reduzir às concepções do judaísmo. Assim, por exemplo, as tentações de Jesus, a sua agonia e morte de Cruz, a atitude de Jesus perante a Lei de Moisés… não são produtos da mentalidade judaica. — De modo semelhante, a maneira como Jesus efetuava milagres contrastava com o modo de proceder dos profetas do Antigo Testamento; estes podiam realizar feitos extraordinários, mas sempre e tão somente em nome de Iahweh. Ao contrário, Jesus fazia milagres em seu nome próprio; disse à filha de Jairo: “Talitha kum, Menina, eu te digo, levanta-te” (cf. Mc 5,41);… a Lázaro: “Lázaro, vem para fora! (cf. Jo 11,43);… ao leproso: “Eu quero, sê purificado! (cf. Mt 8,3);… ao paralítico: “Levanta-te, toma o teu Ieito e vai para casa” (cf. Mt 9,6)…

Frente aos leprosos em particular, o comportamento de Jesus não era de rejeição, como era o dos fariseus; ao contrário, Jesus os chamava a participar do Reino de Deus (cf. Mc 1,40-45).

3) Critério de conformidade: seja considerado autêntico todo gesto ou palavra de Jesus que esteja em íntima conformidade com a sua época e o seu ambiente Iingüístico, geográfico, social, político e também com os ensinamentos fundamentais de Jesus referentes à vinda e à instauração do Reino Messiânico. — Ora os milagres estão em perfeita harmonia com a pregação de Jesus, pois ilustram a vinda do Reino de Deus.

4) Critério de explicação necessária: se diante de um conjunto de feitos que exigem explicação coerente e adequada, é oferecida uma explicação que ilumine e justifique todos esses feitos (explicação sem a qual o conjunto seria difícil de se entender ou enigmático), pode-se concluir que tal explicação é autêntica. Este critério é de especial importância: sem os milagres, não se poderiam explicar certos dados encontrados no Evangelho: o entusiasmo do povo por Jesus (cf. Mc 11,1-11), o reconhecimento de que Ele era “Profeta” (cf. Lc 7,16), a fé dos Apóstolos na Messianidade de Jesus (cf. Mt 16,16), a decisão, dos fariseus, de eliminar Jesus porque os milagres do Mestre punham em xeque o prestígio dos fariseus (cf. Mc 3,6; Jo 11, 45-53); a pregação da Igreja antiga, que apelava para os milagres de Jesus, a fim de apresentá-lo como Messias e Filho de Deus (cf. At 2,22; 10,38).

5) Critério do estilo de Jesus: a maneira como os evangelistas apresentam os milagres do Senhor é simples e despojada de aparato: Jesus profere uma palavra ou efetua um gesto simbólico muito singelo (cf. Mc 7,33-35 — o surdo-mudo; Jo 9,6s — o cego de nascença; Mc 8,22-25 — outro cego; Mc 10,46-52 — Bartimeu…). Jesus não fazia milagres para dar espetáculo ou show de seu poder; ao contrário, era movido por compaixão e amor; geralmente mandava que o prodígio não fosse divulgado (cf. Mc 1,44s; 5,43; 7,36; 8,26). Ora o modo de Jesus sóbrio e discreto ao realizar milagres corresponde em geral ao estilo de vida de Jesus pobre desprendido de si.

Estes cinco critérios, aplicados pelos críticos aos milagres de Jesus, levam a concluir em favor da autenticidade histórica dos mesmos.

Após estas ponderações sobre o Evangelho parece muito útil comparar o texto dos Evangelhos simples e equilibrado, com os relatos de milagres ocorrentes na antiga literatura pagã.

IV. OS RELATOS PAGÃOS DE MILAGRES NA ANTIGÜIDADE

Sabe-se que em Epidauro (Grécia) havia perto do templo de Asclépio (o Asclepeion) uma fonte sagrada; o acesso ao templo era facultado por duplo pórtico; este, com as suas arcadas, servia de dormitório (ábaton) posto à disposição dos peregrinos que aguardavam a cura. No ábaton (em grego é o lugar inacessível ou o santuário) os sacerdotes praticavam um rito que adormecia o paciente (egkoímesis); este então mergulhava em sono sagrado, que o dispunha a receber as comunicações da Divindade. Esta, como se pregava, aparecia durante o sono e explicava ao doente como ficaria cur
ado. Tal sonho era o grande objetivo da peregrinação.

Os enfermos visitados pela Divindade durante a noite davam-se por curados desde a manhã ou, ao menos, diziam ter recebido as indicações terapêuticas que os curariam. Depositavam sua oferta no templo e voltavam para casa.

Nas paredes internas do santuário de Epidauro, encontram-se relatos escritos de curas aí obtidas. Seis desses narram os casos de mulheres que após a aparição da Divindade em sonho ou depois de ter tido relações com o deus local, deram à luz. Assim, por exemplo:

“CIéo estava grávida havia cinco anos. Por isto, suplicante, foi ao templo do deus; adormeceu no ábaton. Logo que saiu deste e se viu fora do templo, deu à luz um menino, que, ao aparecer, se lavou na água da fonte e se pôs a caminhar junto à sua mãe”.

Uma dezena de casos refere-se a doenças da vista. A falta de higiene ocasiona tais moléstias. O termo “cegueira”, em tais relatos, significa “inflamação e abcessos das pálpebras”, os quais podem ser tão violentos que a visão cesse. A cura, porém, de tais males está ao alcance da medicina. Eis alguns espécimens:

“Um homem foi ter ao templo em súplica. Estava caolho. As suas pálpebras não recobriam coisa alguma… No templo as pessoas o tinham por muito simplório por acreditar que recuperaria a vista, pois do seu olho nada ficava senão o respectivo lugar. Enquanto dormia, foi agraciado por uma visão; parecia que a Divindade lhe preparava um remédio; abria-lhe as pálpebras e nelas derramava o remédio. Por ocasião da aurora, saiu e enxergou com os dois olhos”.

“Um cego perdeu o seu colírio durante o banho. Dormiu no ábaton, sonhou que a Divindade lhe aconselhava que procurasse o colírio no grande albergue à esquerda, na entrada. Uma vez nascido o dia, o cego, auxiliado por um escravo, foi procurar o colírio. Entrou no albergue, viu o colírio e ficou bom”.

“Timão de X, foi ferido por um golpe de lança debaixo do olho. Enquanto dormia, teve um sonho; pareceu-lhe que a Divindade triturava uma erva e lhe derramava algo no olho. Ele está curado”.

Há também casos de mudez e paralisia:

“Uma jovem muda perambulava no santuário. Viu uma serpente descer de uma árvore e penetrar dentro da alvenaria. Espantada, ela chamou pai e mãe. Voltou curada”.

“Clemenes de Argos estava paralítico. Apresentou-se no ábaton; adormeceu e teve um sonho: a Divindade o envolveu com uma coberta vermelha levou-o ao banho fora do recinto sagrado, num tanque de água muito fria. Tremia de angústia; Asklepios disse-lhe que ele não curava os covardes, mas sim, tão somente aqueles que o procurassem com confiança. Ele não lhes fazia mal algum, mas despedia-os, curados, para casa. Clemenes acordou, tomou um banho, e voltou em perfeito estado”.

Há dois casos de feridas purulentas e um de tumor abdominal, que parecem supor uma intervenção cirúrgica elementar:

“Ferido por uma lança, Evippos tinha a ponta da mesma encravada na axila havia seis anos. Adormeceu no ábaton; a Divindade lhe retirou essa ponta de lança e a colocou em suas mãos. Quando despontava o dia, ele se foi curado, levando a ponta nas mãos”.

‘N. N. de X está ferido no peito. A chaga é purulenta; foi ter com a Divindade em súplicas. Dormiu no ábaton e teve uma visão: a Divindade lhe lavou o peito com leite fresco e untou a ferida com ungüento. Depois de tê-la enxugado, ordenou-lhe que se lavasse na água fria. Ao despertar, mergulhou na água corrente e ficou curado”.

“Um homem sofria de tumor no abdômem. Teve um sonho no ábaton: a Divindade mandou a seus auxiliares que o imobilizassem e lhe abrissem o ventre. Ele fugiu, mas foi apreendido e atado quando atravessava a soleira da porta. Asklepios abriu-lhe o ventre, retirou-lhe o abscesso e coseu a ferida; o doente foi desatado. Voltou curado; o solo estava coberto de sangue”.

Eis ainda dois casos:

“Erasipa tinha o ventre inchado e nada conseguia digerir. Dormiu no ábaton; teve um sonho; a Divindade lhe fazia massagens sobre o abdômem e a abraçava; depois o deus lhe ofereceu, numa taça, um remédio, que lhe mandou beber; forçou a vomitar; ela o fez, sujando a sua roupa. A nascer do dia, verificou que o vestido estava todo sujo de vômitos; sentiu-se curada”.

“N. N. de X sofria de um tumor. Entrou no santuário. Não obteve o que pedia. A Divindade não se mostrou durante o seu sono no ábaton; ele julgou então ter sido esquecido pelo deus e voltou par casa. Todavia, não podendo suportar por mais tempo a dor, quis suicidar-se transpassando o abscesso com uma punhalada. A sua filha encontrou-o desfalecido, tomou-o nos braços, retirou o punhal. O sangue jorrou do tumor e o doente ficou curado”.

Outras semelhantes narrações poderiam se aduzidas. Estas, porém, são suficientes para evidenciar que os “milagres” de Epidauro são:

— fatos que as ciências médicas e a psicologia explicam satisfatoriamente;

— as narrações respectivas devem-se, em grande parte, à fantasia do narrador, que explora capacidade de admiração dos leitores;

— diferem profundamente das narrações evangélicas tanto pelo conteúdo como pela forma, evidenciando que os Evangelistas estão longe de haver plagiado os relatos populares de portentos antigos.

Eis como, em poucas páginas, se pode argumentar em prol da historicidade dos milagres de Jesus, sem os quais não se entenderia a projeção de Jesus no seu tempo e nos séculos subseqüentes.


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Por que não sou espírita?

Por D Estêvão Bettencourt

INTRODUÇÃO

A relação entre Espiritismo e Umbanda, por exemplo, é tão íntima que há quem diga que a Umbanda é complementação do Espiritismo; seria a quarta revelação (após a de Moisés, a de Jesus Cristo e a de Allan Kardec). Tenha-se em vista o texto do jornal “O Reformado” órgão oficial da Federação Espírita Brasileira, julho de 1953, p. 149:

“Baseados em Kardec, é-nos lícito dizer: Todo aquele que crê nas manifestações dos espíritos, é espírita; ora o umbandista nelas crê, logo o umbandista é espírita… Assim todo umbandista é espírita, porque aceita a manifestação dos Espíritos, mas nem todo espírita é umbandista, porque nem todo espírita aceita as práticas de Umbanda”

O Espiritismo seduz muitos fiéis católicos, seja por causa dos “fatos prodigiosos” que lá ocorrem, seja pela promessa de comunicação com os defuntos, seja porque o Espiritismo às vezes se reveste de capa católica, adotando no mês de Santos para os seus Centros e louvando Jesus Cristo…

Daí a necessidade de dizermos porque um católico não pode ser espírita. É o que faremos nas páginas seguintes, abrangendo sob a designação de Espiritismo também as religiões afro brasileiras (Umbanda, Candomblé, Macumba…); estas têm em comum com o kardecismo a prática da evocação dos mortos e a crença na reencarnação.

São sete as razões pelas quais não sou espírita (kardecista ou umbandista):

1. GRANDE ILUSÃO

Um dos fatores mais atraentes do Espiritismo é a aparente comunicação com os “espíritos desencarnados”; estes parecem acompanhar os vivos, consolando-os e orientando-os; é o que ocorre nos casos do copo falante, da psicografia, das casas mal-assombradas, etc.

Ora, a explicação desses fenômenos por intervenção de espíritos do além podia ter crédito nos tempos de Allan Kardec (1804-1869). Hoje, porém, o estudo do psiquismo humano mostra que todos os fenômenos ditos “de mediunidade” são meras expressões do psiquismo do médium e de seus assistentes. Com efeito, a parapsicologia ensina que temos 7/8 de nossos conhecimentos (adquiridos desde a infância) em nosso inconsciente; usamos apenas 1/8 daquilo que sabemos. Ora, por efeito da sugestão, essas noções latentes sobem à consciência do indivíduo e lhe possibilitam manifestações que parecem estranhas, oriundas do além, quando na verdade são apenas expressões daquilo que a pessoa viu, ouviu, sentiu no decorrer de sua vida presente.

O inconsciente, a sugestão e uma grande sensibilidade são, portanto, os principais fatores que explicam os fenômenos mediúnicos. O inconsciente é um enorme repertório de imagens, sons e experiências latentes no ser humano; está sujei to a ser ativado pela sugestão de que o médium vai receber um espírito do além e, por isto, terá que representar um papel condizente com tal “in corporação”.

Não há fenômeno mediúnico que não possa ser explicado pela parapsicologia, de modo que é falso recorrer a intervenções do além para compreendê-los.

Somente quem permite que a emoção e os sentimentos preponderem sobre o raciocínio e ciência, pode aderir ao Espiritismo. Este não é ciência, como diz, mas (doloroso afirmá-lo) é obscurantismo, pois supõe ainda o contexto do século XIX e ignora os resultados comprovados da Psicologia contemporânea.

2. DESMENTIDO DAS IRMÃS MARGARET E KATY FOX

Pouco se conhece um fato importante:

1. O Espiritismo moderno, como dizem os próprios espíritas, começa em Hydesville (N.Y., U.S.A.) em 1848. Certa noite, o pastor protestante John Fox, sua esposa e as duas filhas Margarida e Catarina estavam a conversar sobre estranhos fenômenos de “assombração”; Catarina então produziu estalos com os dedos; notaram todos que alguém os repetia. Por sua vez, Margarida produziu estalos e encontrou o eco. Apavorada, a Sra. Fox perguntou: “E homem ou mulher que está batendo?”, mas não obteve resposta. Insistiu então: “E espírito? Se é espírito, bata duas vezes”. Produziram-se duas breves pancadas. Concluiu assim que um espírito “desencarnado” estava em comunicação com a família. Segundo se diz, os próprios espíritos indicaram às irmãs Fox em 1850 nova forma de comunicação: que os interessados se colocassem em torno da mesa, em cima da qual poriam as mãos; às interrogações que fizessem aos espíritos, a mesa responderia com golpes e movimentos indicadores de letras do alfabeto e de palavras.

Em pouco tempo, as novas práticas se espalharam pelos Estados Unidos, pelo Canadá e pelo México. Atravessaram o Atlântico, chegando à Escócia e à Inglaterra: passaram para a Alemanha e outros países europeus, encontrado em 1854 na França o seu grande doutrinador: León Hippolyte-Denizart-Rivai que tomou o nome de

AlIan Kardec, pois julgava ser a reencarnação de um poeta celta do mesmo nome.

2. Ora, eis o depoimento de Margaret Fox, publicado no jornal “The New York Herald”, de 24/ 9/1888:

“Quando o espiritismo começou, Kate e eu éramos criancinhas e essa velha mulher, minha outra irmã, fez de nós seus instrumentos. Nossa mãe era uma tola. Era uma fanática. Assim a chamo porque era honesta. Acreditava nessas coisas. De fato, o espiritismo começou com um nada. Éramos apenas criancinhas inocentes. Que sabíamos nós? Ah chegamos a saber demais! Nossa irmã serviu-se de nós em suas exibições; ganhávamos dinheiro para ela".

Agora se vira contra nós porque é esposa de um homem rico e, sempre que ela o pode, opõe-se a nós.

O Dr. Kane encontrou-me quando eu levava essa vida. (Sua voz tremeu, aqui, e quase desfaleceu). tinha eu apenas treze anos quando ele me livrou disso, colocando-me num colégio. Fui educada em Filadélfia. Aos dezesseis anos, casei-me com ele na ocasião em que voltou de uma expedição ártica. Agora, chegamos à triste história, tão triste… Ele se achava muito doente…

Quando recuperei as forças, fui novamente empurrada para o espiritismo. Dei exibições com minha queridíssima irmã Kate. Sabia, então, é claro, que todos os efeitos por nós produzidos eram absolutamente fraudulentos. Ora, tenho explorado o desconhecido na medida em que uma criatura humana o pode. Tenho ido aos mortos procurando receber deles um pequeno sinaL Nada vem daí — nada, nada. Tenho estado junto às sepulturas, na calada da noite, com licença dos encarregados. Tenho-me assentado sozinha sobre os túmulos, para que os espíritos daqueles que repousavam debaixo da pedra pudessem vir ter comigo. Tenho procurado obter algum sinal. Nada! Não, não, não, os mortos não hão de voltar, nem aqueles que caem no inferno. Assim o diz a Bíblia católica, e eu o digo também. “Os espíritos não voltam. Deus nunca o ordenou”.

3. Por sua vez, a Sra. Katy Fox (casada com o Sr. Jencken) deixou o seguinte testemunho, publicado no “The New York Herald”, de 10/10/1888:

“O espiritismo é fraude do princípio ao fim. É a major impostura do século. Não sei se ela já lhe disse isso, mas Maggie e eu começamos quando éramos crianças muito pequeninas, pequenas e inocentes demais para compreendermos o que fazíamos. Nossa irmã Leah contava vinte e três anos mais que nós, Iniciadas no caminho do engano e encorajadas a isso, continuamos, é claro. Outros, com bastante idade para se envergonharem de tal infâmia, apresentaram-nos ao mundo. Minha irmã L
eah publicou um livro intitulado ‘O Elo que faltava ao Espiritismo Pretende contara verdadeira história do movimento, tanto quanto se originou conosco. Ora, só há no livro falsidade do início ao fim. Salvo o fato de que foi Horace Greeley que me educou. O restante é uma cadeia de mentiras".

“E, quanto às manifestações de Hydesville em 1848 e aos ossos encontrados na adega, e o mais?’ ‘Tudo fraude, sem exceção” “Contudo, Maggíe e eu somos as fundadoras do espiritismo!”, concluiu a Sra. Jencken.

“Debaixo do nome dessa terrível, horrorosa hipocrisia — o espiritismo — tudo que há de impróprio, mau e imoral é praticado. Vão tão longes a ponto de terem o que chamam ‘filhos espirituais’! Pretendem algo como a imaculada Conceição! Coisa alguma poderia ser mais blasfematória, mais nojenta, mais altamente fraudulenta! Em Londres, fui disfarçada, a uma sessão privada em casa de um homem rico. Vi uma chamada ‘materialização O efeito foi obtido por meio de papel luminoso cujo brilho se refletia sobre o refletor. A figura assim exibida era a de uma mulher– virtualmente um nu; envolvia-a uma gaze transparente. O rosto apenas se achava oculto. Era essa uma das sessões a que são admitidos alguns amigos privilegiados, não ‘crentes’, de espíritas ‘crentes Há, porém, outras sessões a que só são admitidos os mais provados e fiéis; aí ocorrem as coisas mais vergonhosas, que rivalizam com as saturnálias secretas dos antigos romanos. Não posso descrever-lhe es sas coisas, porque não ousaria”.

4. O jornal “The World”, de 22110/1888, publicou a crônica da famosa sessão na Academia de Música de Nova lorque, ocorrida na noite de 21/ 10/1 888. A Sra. Margaret Fox Kane proferiu então, perante grande público, caloroso depoimento, que também se lê no livro de Davenport: The Death – BIow to Spiritualism (New York, 1888); desta obra extraímos o seguinte texto:

“No dia 21 de outubro de 1888, a Sra. Margaret Fox Kane, realizou pela primeira vez seu intento de, com os próprios lábios, denunciar publicamente o espiritismo e seu séquito de truques. Apresentou-se à Academia de Música em Nova York perante numerosa e distinta assembléia e, sem reservas, demonstrou a falsidade de tudo quanto no passado fizeram sob o disfarce da ‘mediunidade’ espírita".

Foi dura provação. A grande tensão nervosa de que padecia tomou-lhe a mente altamente excitada, e o grande número de espíritas presentes na casa tentava criar uma perturbação, ou uma diversão desleal que teria por fim romper a força de renúncia da Sra. Fox. Falharam, porém, completamente, graças ao caráter superior que possuía a maioria de seus ouvintes.

O efeito moral dessa exibição não poderia ter sido maior. A Sra. Kane manteve-se de pé sobre o palco; tremendo e possuída de intensos sentimentos, fez a seguinte e extremamente solene abjuração do espiritismo, enquanto a Sra. Catharine Fox Jencken assistia de um camarote vizinho, dando, por sua presença, inteiro assentimento a tudo que a irmã dizia:

‘Deveis, sem dúvida, saber que tenho sido o principal instrumento em perpetrar a fraude do espiritismo num público demasiadamente confiante.

O maior sofrimento de minha vida é que essa é a verdade. Embora tenha essa hora chegado tarde, estou agora preparada para dizer a verdade, toda a verdade e nada senão a verdade — a isso Deus me ajude!

Há, provavelmente, muitos aqui presentes que me hão de desprezar por causa do engano a que me tenho entregue; contudo, se soubessem a história verdadeira do meu passado infeliz, a viva agonia, a vergonha que tem sido para mim, haveriam de me lamentar, não reprovar.

A impostura que por tanto tempo mantive, começou na minha tenra meninice, quando, o espírito e o caráter ainda não formados, era incapaz de distinguir entre o bem e o mal. Quando atingi a maturidade, eu me arrependi. Tenho vivido anos através de silêncio, timidez, desprezo e amarga adversidade, ocultando, o melhor que pude, a consciência de minha culpabilidade. Agora, graças a Deus e à minha consciência despertada, estou enfim apta a revelara verdade fatal, a verdade exata dessa hedionda fraude que tantos corações tem feito mirrar e obscurecido tantas vidas.

Esta noite estou aqui como uma das fundadoras do espiritismo, para denunciá-lo como absoluta falsidade, do princípio ao fim, como a mais frívola das superstições, a mais maldosa blasfêmia do mundo.

Os depoimentos aqui transcritos encontram-se na obra de D. Boaventura Kloppenburg: “O Espiritismo no Brasil”, Ed. Vozes, Petrópolis, 1960, pp. 426-447, onde se encontra também a cópia fac-símile das respectivas páginas dos originais ingleses.

Notemos que, além da explicação por truques, ocorre à explicação pela parapsicologia quando se trata de fenômenos mediúnicos. Em nossos dias pode-se crer que a maioria dos médiuns e freqüentadores do Espiritismo são pessoas sinceras e de boa fé; sem o saber, estão provocando fenômenos parapsicológicos, que elas atribuem à intervenção de “espíritos desencarnados”.

3. FATOR DE DOENÇAS MENTAIS

A excitação do psiquismo humano provoca do pelo exercício da mediunidade não pode deixar de traumatizar a pessoa e tornar-se foco de doenças mentais. Atestam-no grandes médicos do Brasil, habituados a tratar de psicopatologias diversas. Eis alguns de seus depoimentos, colhidos por D. Boaventura Kloppenburg num inquérito realizado em 1953:

Dr. Luís Robalinho Cavalcanti:

“Não é aconselhável promover o desenvolvimento das faculdades mediúnicas, desde que se trata de fenômenos psicopatológicos prejudiciais ao indivíduo.

O médíum deve ser considerado como uma personalidade anormal, predisposto a enfermidades mentais, ou já portador de psicopatias crônicas ou em evolução.

As práticas mediúnicas são prejudiciais à saúde mental da coletividade, retardando o tratamento dos pacientes, que muitas vezes chegam às mãos do médico com enfermidade já cronificada. O Espiritismo põe em evidência enfermidades mentais preexistentes e desencadeia reações psicopatológicas em predispostos.

São convenientes medidas que visem a evitar a prática de atividades médicas e terapêuticas por se tratar de contravenção, proibida pelas leis sanitárias, que só reconhecem ao médico com diploma devidamente registrado nos órgãos competentes o direito de tratar pessoas doentes”

Dr. Francisco Franco:

“Provocar fenômenos espíritas é desaconselhável porque danoso para o organismo; o médium forma-se um neurastênico, autômato, visionário, abúlico, antecâmara à esquizofrenia, um indivíduo perigoso para si e a sociedade.

O médium nunca pode ser normal pelas razões expostas acima.

O Espiritismo é uma farsa, portanto nula a sua finalidade.

O Espiritismo está colocado em primeiro lugar como fator de loucura e de outras perturbações patológicas, agindo, sobretudo nas mentalidades fracas particularmente nas sugestionáveis. O Espiritismo é o maior fator produtor de insanos que perambulam pelas ruas, enquanto grandes percentagens enchem os manicômios, casas
de saúde, segundo a opinião de abalizados psiquiatras, como Austregésílo, Juliano Moreira, Franco da Rocha, Pacheco e Silva.”

Dr. Oswald Morais Andrade:

O Espiritismo é prejudicial, principalmente nos meios incultos.

É tese assente em Psiquiatria que o Espiritismo pode agir como fator desencadeante de distúrbios mentais em indivíduos predispostos.

Aprovo uma campanha de esclarecimento da população contra a prática mediúnica”.

Dr. Franco da Rocha no livro “Esboço de Psychiatria Forense”, p. 32, escreve:

“A propósito das reuniões espíritas, num trabalho recente escreveram Soilier e Boissier: ‘Em benefício da profilaxia seria de conveniência divulgar os acidentes causados pela freqüência às sessões espíritas. Charcot, Forel, Vigoroux, Henneberg e outros publicaram exemplos de pessoas, sobretudo moças, anteriormente sãs, que se tornaram histéreo-espilépticas, em conseqüência de terem tomado parte nas cenas de evocação dos espíritos. É o resultado do automatismo, um exercício metódico para o desdobramento e desagregação da personalidade. Aqui fazem explodir ou agravam a neurose, acolá despertam e sistematizam a tendência à vesânia, que um vida regular e bem dirigida teria abafado. Tais são o perigos que devem ser conhecidos”

Dr. Juliano Moreira:

Respondeu nos termos abaixo a um inquérito realizado pelo Dr. João Teixeira Alvares, que publicou as respectivas respostas no livro “ Espiritismo” (Uberaba, 1914), pp. 122-125:

‘Tenho visto muitos casos de perturbações nervosas e mentais evidentemente desperta das por sessões espíritas. No Hospital Nacional, não raro, vêm ter tais casos.

Até hoje não tive a fortuna de ver um médium principalmente os chamados videntes, que não fosse neuropata.”

Dr. Joaquim Dutra:

Respondeu ao mesmo inquérito:

“As práticas espíritas estão incluídas, e com certa proeminência, entre as causas e efeitos das moléstias mentais, incluindo diretamente, pelas perturbações emotivas, com um coeficiente avolumado, para a população dos manicômios.

Exageradas, até se tornarem preocupação dominante, elas preparam a loucura, quando não são mesmo uma denúncia da existência de loucura.

Por impressionáveis, tais práticas concorrem para a alucinação, determinando emoções que acarretam perturbações vaso-motoras ou que provocam concentração psíquica, estados de abstração, perturbações graves nas funções vegetativas, alterações nas secreções internas, redundando tudo em auto- intoxicação…”

Dr. Antônio Austregésilo:

Em resposta ao Dr. João Teixeira Alvares:

“O Espiritismo é no Rio de Janeiro uma das causas predisponentes mais comuns de loucura.

Os médiuns devem ser considerados indivíduos neuropatas próximos da histeria.

O Espiritismo é uma neurose provocada pela fácil auto-sugestibilidade, em que há predominância das alucinações psíco-sensoriais, sendo não raro histeria ou um estado hísteróíde’

Tais depoimentos dispensam qualquer comentário. A experiência cotidiana os comprova amplamente.

4. REENCARNAÇÃO

A reencarnação vem a ser tese arbitrária, para a qual não há fundamento objetivo. Aliás, é tão subjetiva que os espíritas mesmos não concordam entre si a respeito.

Assim, por exemplo, enquanto os espíritas latinos admitem firmemente a reencarnação, os anglo-saxões o rejeitam. E por quê? – Porque os anglo-saxões, movidos por preconceitos racistas, não podem imaginar que voltarão à Terra num corpo de raça negra ou indígena.

Mesmo entre os reencarnacionistas há divergências: alguns dizem que a reencarnação é lei geral, ao passo que outros a admitem apenas para os espíritos mais atrasados ou para os perfeitos, que tem de cumprir alguma missão na Terra. Uns sustentam que o ser humano se reencarna sempre no mesmo sexo, enquanto outros professam variação alternativa de sexo. Uns ensinam que a reencarnação se faz apenas na Terra, enquanto outros admitem que ocorra também em outros planetas. Uns pensam que a reencarnação se dá pouco depois da morte, outros afirmam um inter valo de mil e quinhentos anos precisamente. Uns julgam que a reencarnação é não só progressiva, mas também regressiva, de modo que o indivíduo pode voltar à Terra num corpo animal ou vegetal; outros, ao contrário, dizem que a reencarnação não pode ser regressiva, mas, na pior das hipóteses, é estacionária por algum tempo…

Como se vê, esta variedade de sentenças manifesta bem que a doutrina da reencarnação carece de base objetiva; é, antes, um postulado fantasioso dos que a professam. Com efeito, vejamos os argumentos aduzidos pelos reencarnacionistas:

1) Os testemunhos de vida pregressa obtidos em estado de transe hipnótico. – Um estudo apurado dos mesmos revela que nada mais são do que a combinação de impressões colhidas durante esta vida mesma e guardados no inconsciente do sujeito. Este, sugestionado pelo hipnotizador de que viveu uma encarnação anterior, projeta essas impressões em combinação livre, tecendo o enredo de uma “vida pregressa”!

2) A desigualdade das sortes humanas só se explicará como conseqüência de atos bons ou maus praticados numa encarnação anterior. – Respondemos que Deus é livre para criar os homens como Ele os quer; a cada qual Deus dá graça para que se santifique e chegue à vida eterna; às vezes uma pessoa tida como pobre ou do ente no plano material e passageiro pode ser extraordinariamente rica e sadia no plano dos valores definitivos. Ademais, segundo os princípios reencarnacionistas, quem atualmente é doente e pobre é um pecador que está expiando pecado da vida passada, ao passo que os ricos e sadio são pessoas virtuosas que estão recebendo o prêmio dos atos bons praticados em encarnação anterior. Ora, tais conclusões são absurdas.

3) Os demais fenômenos tidos como provas da reencarnação (o “já visto”, os gênios, a memória extraordinária…) são facilmente explicados pela parapsicologia como expressões do psiquismo humano.

4) O conceito de inferno… – Muitas vezes a má compreensão do que seja o inferno leva a rejeitá-lo em favor do reencarnacionismo. Na verdade, o inferno não é um tanque de enxofre fumegante atiçado por diabos munidos de tridentes, mas é um estado de alma, no qual o indivíduo se projeta por dizer Não a Deus: após a morte, a pessoa que morre consciente e voluntariamente avessa a Deus, é respeitada em sua opção definitiva, mas não pode deixar de reconhecer que Deus é o Sumo Bem… e o Sumo Bem que continua a amá-la irreversivelmente. É o fato de que Deus ama uma vez por todas, mas foi conscientemente preterido em favor de bagatelas, que causa o tormento do réprobo. Se Deus desviasse do réprobo o seu amor, ele não sofreria o inferno; mas Deus não pode deixar de amar, porque Ele não se pode contradizer. E precisamente nisto que está o princípio do inferno. Vê-se assim que o inferno, longe de contradizer ao amor de Deus, decorre, de certo
modo, da grandeza divina desse amor.

5) O reencarnacionismo atribui ao homem o poder de salvar a si mesmo mediante sucessivas existências na carne, durante as quais o indivíduo mesmo se aperfeiçoa por seus esforços. Ao contrário, o bom senso e a fé mostram que o homem é, por si só, incapaz de se libertar do pecado e necessita da graça de Deus para se salvar. Somente numa perspectiva panteísta (ver a seguir) é que se pode admitir a auto-salvação do homem (pois no caso ele é parcela da Divindade); contudo numa perspectiva monoteísta, segundo a qual Deus é distinto do mundo e do homem, é lógico que o homem limitado e falho como é, necessita de Deus para se auto-realizar plena mente.

5. PANTEÍSMO

O Espiritismo seja o kardecista, seja o afro brasileiro, parece dar menos importância a Deus do que aos espíritos desencarnados. O culto espírita versa geralmente sobre a comunicação com os mortos.

Quando tratam de Deus, vários autores espíritas professam o panteísmo, ou seja, a identificação de Deus com o mundo e o homem. Ora, tal conceito é ilógico e aberrante, pois Deus, por definição, é o Absoluto e Eterno, ao passo que toda criatura é relativa, contingente e temporária. Eis alguns testemunhos significativos:

Leão Denis:

“Deus é a grande alma universal, de que toda alma humana é uma centelha, uma irradiação. Cada um de nós possui em estado latente forças emanadas do divino Foco” (“Cristianismo e Espiritismo”, 5ª edição, p. 246).

“O Ser Supremo não existe fora do mundo, porque é sua parte integrante e essencial” (“Depois da morte”, 6ª edição, p. 114).

O escritor espírita Rangel Veloso diz ter ouvi do a seguinte declaração num Centro Espírita:

“Deus é como uma folha de papel, rasgadinha em milhões, bilhões e não sei quantas mais divisões. Lançados esses pedacinhos de papel no Universo, cada pedacinho de papel representa um homem e um ser existente; todos reunidos, formando o todo, é Deus” (”Pseudo-sábios ou Falsos Profetas”, 1947, p. 34).

O 1° Congresso de Espiritismo de Umbanda adotou unanimemente a conclusão n° 5:

“A filosofia (de Umbanda) consiste no reconhecimento do ser humano como partícula da Divindade, dela emanada límpida e pura, e nela firmemente reintegrada ao fim do necessário ciclo evolutivo no mesmo estado de limpidez e pureza, conquistado pelo seu próprio esforço e vontade”.

(Textos colhidos no opúsculo de Frei Boaventura Kloppenburg: “Por que a Igreja condenou o Espiritismo”, 2ª edição, Petrópolis, 1954, p. 29).

6. “FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO”

O Espiritismo apregoa em alta voz a prática da caridade, sem a qual não há salvação. Tem razão em afirmar a importância da caridade. Todavia os espíritas chegam a relativizar a verdade, como se esta fosse algo de secundário, que não se teria de levar em consideração. Ora, observarmos que o ser humano foi feito para apreender a verdade com a sua inteligência e praticar o bem e o amor em seu comportamento. Por isto não se pode dizer que basta a caridade para a salvação eterna. Em nome da caridade mal entendida (ou mal iluminada pela razão e a fé), podem-se come ter autênticas aberrações; a caridade desorienta da pode tornar-se mero rótulo que dê aparência legítima ao egoísmo e à exploração do próximo. – De resto, a prática da caridade não é apanágio do Espiritismo, pois a Igreja Católica durante toda a sua história (portanto já muito antes de AlIan Kardec) sempre se empenhou pela sorte dos carentes tanto de corpo como de alma; muitos e muitos Santos foram, e são, verdadeiros heróis do serviço ao próximo.

7. A BÍBLIA REJEITA

Para quem é cristão, o texto bíblico tem valor de guia fundamental. Ora, a Bíblia condena eloqüentemente a evocação dos mortos:

Lv 19,31: “Não vos voltareis para os necromantes nem consultareis os advinhos, pois eles vos contaminariam”.

Lv 20,6: “Aquele que recorrer aos necromantes e aos adivinhos para se prostituir com eles, voltar-me-ei contra esse homem e o exterminarei do meio do seu povo”.

Lv 20,27: “O homem ou a mulher que, entre vós, for necromante ou adivinho, será morto, será apedrejado, e o seu sangue cairá sobre ele ou ela”.

Dt 18,10-14: “Que em teu meio não se encontre alguém que queime seu filho ou sua filha, nem que faça presságio, oráculo, adivinhação ou magia, ou que pratique encantamentos, que interrogue espíritos ou adivinhos, ou ainda que evoque os mortos; pois quem pratica essas coisas é abominável a Iahweh… Eis que nas nações que vais conquistar, ouvem oráculos e adivinhos. Quanto a ti isso não te é permitido por Javé teu Deus” Ver ainda 2Rs 17,17; Is 8, 19s.

A proibição se deve não à suposição de que os mortos sejam incomodados pelos vivos, mas ao fato de que não há receita que garanta a comunicação entre vivos e mortos. A necromancia é superstição. A oração que os cristãos dirigem aos Santos, não se baseia em fórmulas ou receitas mágicas, mas unicamente na convicção de que Deus quer conservar a comunhão entre os membros do Corpo Místico de Cristo; por isto Ele faz que os justos no céu tomem conhecimento das preces despretensiosas que lhes dirigimos na Terra e, em conseqüência, intercedam por nós.

Quanto ao caso de Saul, que evocou Samuel mediante a pitonisa de Endor e foi atendido (cf. 1Sm 28,5-15), não é paradigma, pois diz a própria Bíblia que Saul foi condenado por causa disso (cf. 1Cr 10,3). Deus permitiu que Saul recebesse de Samuel, naquele momento, a advertência de que estava no fim sua vida terrestre e no dia seguinte ia morrer, foi por causa da importância solene daquela hora que Deus permitiu a resposta de Samuel; ela não foi provocada pela arte da adivinha; esta apenas forneceu a ocasião ou as circunstâncias da manifestação de Samuel.

* * *

Eis por que não sou, nem posso ser, espírita. Religião não é apenas emoção e sentimento, mas é culto a Deus e serviço aos homens, sempre iluminado pelas luzes da razão e da fé na Palavra de Deus, O que muito atrai as pessoas ao Espiritismo, é a capacidade que este tem de suscitar afetos e emoções diversas, muitas vezes desligadas de senso lógico e espírito crítico. Ora, quem permite que os sentimentos preponderem sobre o raciocínio, arrisca-se a cometer graves erros doutrinários e prejudicar sua saúde psíquica… principalmente quando se trata de religião, que é um dos fatores mais aptos a impressionar o ser humano.

Fonte: Escola Mater Ecclesiae


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O Profeta nos questiona

Não é fácil a missão que Deus escolheu para Jeremias. Este sacerdote de Anatot, cuja família de origem sacerdotal estava, há 300 anos, impedida de exercer as funções levíticas em virtude da traição de um ancestral chamado Ebiatar, que havia tramado contra o Rei Salomão, é chamado por Deus a uma função nada cômoda: denunciar os erros e falhas de um povo cujas más ações o levariam à ruína e à destruição.

A ele, Deus chama, encoraja. O Senhor o conhecia antes mesmo que nascesse, e o verbo conhecer, na visão semita, significa amar. Deus ama este homem que pertence a uma família segregada pelo passado, e que será perseguido pelos ouvintes do presente. Ninguém gosta de ouvir um “desmancha-prazeres”…

Também Jesus, em Nazaré, sua terra natal, merecia ser acolhido pelos seus. No entanto, é rejeitado por aqueles que esperavam um fazedor de milagres e não um homem que, conhecendo suas fraquezas, os convidava à conversão e à mudança de vida.

É fácil agradar-se de uma religião que se cala e até aceita os nossos erros, acenando-nos com sucessos, vantagens, lucros fáceis, prosperidade barata e bem-estar supergarantido. É a religião de mercado, daqueles que vêem a Deus como um vendedor atrás de um balcão, de quem só esperam aquilo que mais lhes agrada, sem abrir mão de toda sorte de erros, vícios e pecados.

Difícil é aceitar um Deus que nos propõe uma mudança de vida, que nos desinstala de nossos comodismos, que nos inquieta diante de nossos pecados, que nos convida a sermos novas criaturas. Por isso mesmo, nem Jeremias conseguiu evitar a tragédia que se abateria em Jerusalém, nem os habitantes de Nazaré reconheceram em seu conterrâneo, Aquele que ali poderia ter realizado muitos milagres, a começar pela mudança do coração de cada um.

Fonte: A MISSA (Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro)

Primeira leitura – Jr 1,4-5.17-19
Segunda leitura – 1Cor 12,31—13,13
Salmo – Sl 70
Evangelho – Lc 4,21-30


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