Sunday, 20 of May of 2012

Archives from month » August, 2009

Fé ou Amor ?

 

Por Pe. Francisco Faus.

Fé e amor em debate

No início da década de setenta, num período em que fermentavam as crises e revoluções sociais, ideológicas e religiosas, dois intelectuais católicos franceses – o filósofo Jean Guitton e o jornalista converso André Frossard – mantiveram um diálogo aberto sobre problemas de atualidade, ao longo de vários programas radiofônicos. O diálogo era aberto porque, como hoje é tão comum na televisão, os ouvintes participavam, manifestando – no caso, por escrito – as suas opiniões.

Num dos programas, Guitton começou dizendo: “Em uma das nossas conversas anteriores, abordávamos o problema da fé, e já recebi muitas cartas a esse respeito. Um dos meus correspondentes escrevia: «André Frossard e o Sr. falaram da crise da fé; mas o essencial não é um problema de fé, e sim um problema de amor. Não importa tanto saber se se tem ou não se tem fé; trata-se de saber se se ama»…”

Penso que muitos dos jovens atuais, mesmo católicos, concordariam plenamente com a opinião desse rapaz. Não hesitariam em afirmar que o que nos faz bons e autênticos é, acima de tudo, amar, independentemente de crermos ou não, de termos esta ou aquela fé. Tanto faz a religião que cada qual tem – diriam –, o importante é amar, é ter amor e dar amor.

Para quem leia o Evangelho, não há dúvida de que Cristo dá a primazia absoluta ao amor: O primeiro de todos os mandamentos – ensina Jesus – é este: amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças. Eis o segundo: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior do que estes, não existe (Mc 12, 29-31).

Então, como se explica que Frossard, bom conhecedor do Evangelho, comentasse a seguir naquele programa? “No Evangelho, o que Deus mais admira, o que provoca a admiração de Cristo, é, sobretudo, precisamente a fé. Chega a dizer, com uma espécie de espanto [ao ver a fé do centurião romano que pede a cura do seu servo]: «Nunca tinha visto tamanha fé em Israel». Essa fé faz parte das virtudes teologais e não pode ser separada do amor”.

Na mesma linha, Guitton reforçou: “Se tivesse que escolher entre a fé e o amor, creio que daria preferência à fé. Partindo da fé, estou persuadido de que encontraria o amor, sem as falsas ilusões nem os equívocos que costumam acompanhá-lo”. E acrescentou ainda: “Entre a fé e o amor há uma corrente de força e de luz, que faz com que o verdadeiro amor leve à fé, e a verdadeira fé leve ao amor”(Revista Palabra, Madrid, maio de 1971, pág. 9.).

Esses comentários não são nenhuma tolice. Pelo contrário, apontam para questões decisivas, muito delicadas, em que é fácil derrapar sem perceber, com conseqüências desastrosas; questões de que depende precisamente a autenticidade da bondade e da fé. Por isso, interessa-nos refletir com um pouco de calma a esse respeito.

A fé abre a porta ao amor

Tanto Guitton como Frossard partem da base de que a fé precede o amor, mais concretamente, de que a fé é uma condição para podermos amar com um amor autêntico.

Para entender exatamente o que querem dizer, é preciso ter presente que se trata de dois católicos inteligentes e cultos. Portanto, a noção de fé que eles possuem não é um conceito infantil, vago ou confuso. Pelo contrário, têm a noção clara e precisa que deveria ter todo e qualquer católico que conheça ao menos o catecismo da primeira comunhão, a mesma noção que nos expõe o Catecismo da Igreja Católica: “A fé é primeiramente uma adesão pessoal do homem a Deus; é ao mesmo tempo, e inseparavelmente, o assentimento livre a toda a verdade que Deus revelou” (n. 150).

Por outras palavras: ter fé é, antes de mais nada, crer em Deus: crer que Deus existe, que é Alguém que pode ser encontrado, conhecido e amado, e aderir pessoalmente a Ele; e depois disso, ter fé é aceitar, assentir às verdades que Deus revelou – que nos manifestou claramente – sobre Si mesmo, sobre o sentido da vida humana, sobre os valores da existência, sobre a nossa missão na terra, sobre o bem e o mal, sobre a verdadeira religião, etc.

Sabendo que a fé é isso, uma pessoa de boa vontade chega facilmente a duas conclusões:

* Primeira: como bem sabemos, só podemos amar a quem conhecemos. Ninguém ama de verdade um desconhecido – um nome lido por acaso na lista telefônica –, nem uma figura puramente imaginária. Em contrapartida, podemos amar e admirar de verdade uma pessoa das nossas relações, que conhecemos bem; e também uma pessoa que nunca vimos, mas que conhecemos a fundo, como se a tivéssemos visto, por referências, leituras e outras informações objetivas. Aplicando este raciocínio ao amor de Deus, está claro que só podemos amar a Deus de verdade se o conhecemos bem. E um cristão sabe que só o conhecemos bem se sabemos o que Ele nos manifestou acerca de si mesmo por meio de Jesus Cristo: Ninguém jamais viu a Deus. O Filho único [Jesus], que está no seio do Pai, foi quem o revelou (Jo 1, 18).

* Segunda: Deus revelou-nos – sobretudo pelos ensinamentos de Cristo – o verdadeiro bem e o verdadeiro mal, os valores certos da vida, os caminhos da bem-aventurança, da felicidade terrena e eterna, ou seja, da autêntica realização humana, individual e social. Ora, ninguém pode negar que é impossível amar o próximo de verdade se não sabemos o que é bom para ele, pois amar é querer bem, querer o bem da pessoa amada. Mas como poderemos proporcionar aos outros o verdadeiro bem se o ignoramos?

Tudo isto evidencia que primeiro deve vir o conhecimento – que nos é dado sobretudo pela fé em Jesus Cristo –, e só depois pode vir o amor. Neste sentido, os dois intelectuais franceses tinham razão.

Por não perceber isso é que muitas pessoas de muito boa vontade e muito pouca doutrina tropeçam e se afundam. Querem uma religião “autêntica”, sem as “firulas” – assim falam às vezes – das doutrinas, dos dogmas, dos ensinamentos da Igreja; querem uma fé “sincera”, de coração, com “pouca teoria e muito amor”. Na realidade, padecem de um vácuo de fé, de uma ignorância leviana, que os leva a amar mal – e a causar até um grande mal aos outros – ou a não amar em absoluto. É desse modo que se forja a triste inautenticidade de tantos “autênticos”.

Fé e “fés”

Talvez os esclarecimentos anteriores se destaquem mais se os colocarmos contra o pano de fundo das “fés que não são a fé”; por assim dizer, das fés falsas, que parecem ouro, mas são barro.

Vejamos um bom elenco dessas “fés” inautênticas, em confronto com a fé verdadeira, feito por um escritor cristão, Michel Quoist:

“A fé não é:

* uma impressão ou um sentimento;

* uma certa forma de otimismo em face da vida;

* a satisfação de uma necessidade de segurança.

“Também não é:

* uma opinião;

* uma simples regra de bom comportamento moral;

* uma convicção baseada apenas no raciocínio;

* uma evidência científica;

* um hábito social, fruto da educação.

“A fé é, em primeiro lugar, uma graça (recebida em germe no batismo), quer dizer, um dom de Deus. Essa graça ajuda-nos a reencontrar uma pessoa viva, Jesus Cristo; permite-nos
adquirir a certeza de que Ele fala a Verdade, de que o seu testemunho – palavra e vida – é exato. Com a força dessa certeza, a fé consiste então em esposar o seu olhar, a sua visão de nós mesmos, dos outros, das coisas, da humanidade, da história, do universo, do próprio Deus, e comprometer-se em função desse olhar” (Michel Quoist, Réussir, Les Éditions Ouvrières, Paris, 1961, pág. 201).

Comentemos, por enquanto, só a primeira parte desse texto. O autor começa dizendo o que a fé “não é”. Não custa muito perceber que isso – o que a fé “não é” – coincide exatamente com o que grande quantidade de jovens e menos jovens acham que “é” a fé, pelo menos a “fé” deles.

Para bastantes deles, com efeito, a fé não passa de um sentimento; ou então é uma simples opinião pessoal, uma crença que cada qual escolhe, não se sabe bem como, ou, melhor, sabe-se, sim: de acordo com os seus interesses.

A pseudofé dessas pessoas parece-se muito com o mitológico leito de Procusto, o estalajadeiro grego que tinha na hospedaria uma cama-padrão. Se o hóspede era mais comprido do que o leito, serrava-lhe o que sobrava das pernas e deixava-o esvaindo-se em sangue; se era baixinho, esticava-o pela cabeça e pelos pés até torná-lo do tamanho do leito, mesmo que com isso acabasse com a vida do coitado. O importante era “adaptar” todo o mundo ao formato do leito.

Da mesma forma, bastantes, que se julgam autênticos, só aceitam as verdades religiosas e morais se se “adaptam” – mesmo que seja deturpando-as, reta-lhando-as, arrancando-lhes pedaços vitais – ao formato do leito do seu comodismo, da sua sensualidade, da sua ambição, da sua cupidez…, quer dizer, ao formato dos seus sete pecados capitais, que eles não estão dispostos a combater.

Por isso, se há, por exemplo, um preceito da Igreja que, concretizando o terceiro mandamento da Lei de Deus, manda ir à Missa aos domingos e dias santos, eles acharão “careta” levá-lo a sério. Tal preceito só seria autêntico se se adaptasse ao leito de Procusto da sua moleza, dos seus planos de fim de semana, dos seus gostos e do seu prazer. Não se adapta? Corta!

Se, para pôr outro exemplo, o sexto e o nono mandamentos da Lei de Deus ordenam que se respeitem amorosamente os planos divinos nas coisas relativas ao sexo – à faculdade de transmitir a vida humana –, eles vão rir-se desse “plano divino” – dentro do qual justamente se ilumina o valor da castidade e da fidelidade – e dirão que o sexo é para gozar (como a cerveja, o sorvete, a coca-cola, a praia e as drogas) e que o resto são histórias.

Em conseqüência dessa mentalidade, o “deus” deles – tal como a religião deles – é um falso “deus” plástico, ajeitado, domesticado, moldado pelos dedos do egoísmo, da condescendência, da vida fácil, do consumismo, do prazer, do descompromisso…; em suma, um “deus” falsificado que se adapta ao leito de Procusto da sua falsíssima autenticidade. Não é, absolutamente, o Deus vivo e verdadeiro (1 Tess 1, 9). É somente um ídolo, obra das suas mãos (Salmo 135, 15).

Uma graça e uma boa disposição

O autor acima citado, além de dizer aquilo que a fé não é, comenta também o que é. Digo que “comenta”, porque usa palavras simples, conversacionais, sem pretender formular uma definição teológica. Começa essa parte – como víamos – com uma afirmação categórica: “A fé é, em primeiro lugar, uma graça, quer dizer, um dom de Deus”.

É coisa que muitos esquecem e, por isso, são poucos os que rezam, pedindo a Deus a fé, ou o aumento da fé, que tanta falta lhes faz; e também são poucos os que procuram ter a alma preparada para recebê-la, purificando-a dos obstáculos que bloqueiam a recepção da fé.

O principal desses obstáculos é a má disposição do coração, mais ou menos consciente. Geralmente, é a má vontade que nos leva a não querer ouvir falar de Deus, a manter uma voluntária indiferença, a não querer “saber” das coisas de Deus, para não termos que incomodar-nos, corrigir-nos, comprometer-nos e mudar.

Mas, quer queiramos ouvi-lo quer não, Deus fala-nos, e fala claro. Abramos a Bíblia, mesmo que seja ao acaso. Logo perceberemos que Deus nos procura sem cessar; que se dirige de mil modos a cada um de nós; que se “abre” conosco, oferecendo-nos o seu amor; que nos quer salvar, enviando-nos e entregando-nos, para isso, o seu Filho, Jesus Cristo. Como diz o autor da Carta aos Hebreus: Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas; ultimamente falou-nos pelo seu Filho (Hebr 1, 1-2).

Falou-nos pelo Filho. Jesus Cristo, desde o seu nascimento em Belém, “fala”, não cessa de falar. Fala com o seu exemplo, fala com a sua palavra, fala, por meio do Espírito Santo, dentro do nosso coração. Ele é a verdadeira Luz que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem (Jo 1, 9). É a luz que resplandece nas trevas, apesar de que, muitas vezes, as trevas não o recebam (cf. Jo 1, 5).

Mas, como Ele próprio dizia – e já Isaías profetizara antes –, há muitos que, diante dEle e das suas palavras, vendo não vêem, e ouvindo não ouvem (cf. Lc 8, 10). Por quê? Porque o seu coração se endureceu: taparam os seus ouvidos, e fecharam os seus olhos, para que os seus olhos não vejam, e os seus ouvidos não ouçam, nem o seu coração compreenda; para que não se convertam e eu os sare (Mt 13, 15). E, se nos perguntarmos ainda por que fizeram isso, Jesus dir-nos-á mais: Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas aquele que pratica a verdade [nós diríamos, o “homem autêntico e sincero”] vem para a luz (Jo 3, 20-21).

Só quem é sincero, reto e bom (Lc 8, 15), é capaz de abrir os olhos e o coração a Deus.

Mas, e quando já existe essa boa disposição? Isso vale muito, mas não basta. Temos que compreender que as verdades que Deus nos revelou são de uma grandeza tão indizível, de uma claridade tão intensa e deslumbrante, que os olhos da mente – as forças da razão humana – não são capazes de captá-las plenamente, de abrangê-las até ao fim. É uma coisa análoga à que acontece com a luz do sol: certamente um cego não a pode ver, porque carece de toda a capacidade visual; mas também não consegue vê-la quem tem boa vista, se encara o sol diretamente, devido ao excesso de luminosidade; não é que lhe falte capacidade visual; é que essa capacidade é limitada, e não suporta uma luz tão forte.

Há verdades referentes a Deus que não excedem a capacidade visual da nossa razão (por exemplo, chegar à conclusão de que Deus existe, é criador, é bom, etc.). Mas há outras muitas que a ultrapassam (como o conhecimento dos desígnios e planos de Deus sobre a Redenção do mundo, a vida íntima da Santíssima Trindade, o mistério de Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, etc.). Para podermos “ver” essas realidades, precisamos de outra “visão” mais poderosa. Pois bem, essa nova potência visual é justamente a que a graça da fé comunica à alma; é como se Deus nos emprestasse os seus próprios olhos.

“Poderia talvez comparar-se a alma cristã – escreve Boylan – a um piloto que voa às cegas, que segue o rumo e as ordens pelo rádio. Tem de estar equipado com um aparelho receptor devidamente sintonizado [...]. A alma cristã está em situação semelhante. Precisa de um equipamento sobrenatural para receber e acatar a direção de Deus com certeza e confiança” (E. Boylan, Amor sublime, União Gráfica, Lisboa, 1955, págs. 84-85).

Se procurarmos “ver a Deus??
?, com coração puro e vontade sincera (cf. Mt 5, 8), Cristo tocará os olhos da nossa alma, como tocou os do cego Bartimeu; conceder-nos-á a graça da fé e nos dirá: “Vê!”… No mesmo instante, ele recuperou a vista e foi seguindo Jesus pelo caminho (Mc 10, 52).

(Trecho do livro de F. Faus: Autenticidade & Cia)

Fonte: padrefaus.org


1 comment

Pe. Paulo Ricardo na TV Canção Nova: Oitavo Dia.

 

A Canção Nova lança uma nova série de programas, chamada "Oitavo Dia", apresentada pelo nosso já querido e reverendíssimo Padre Paulo Ricardo.

Confiram também o blog da CN criado para acompanhar o programa:

http://blog.cancaonova.com/oitavodia/

No youtube há a gravação integral também para quem se interessar. Procurem nos relacionados os vídeos que seguem este primeiro:

http://www.youtube.com/watch?v=klosawMCzTE

 

Abaixo, segue a transcrição do programa que foi ao ar em 18/07/2009, sobre o tema O Domingo. A transcrição é de Lucas Santos.

 

Lídice Lannes: Vamos começar, padre, pela explicação. Por que “oitavo dia”? De onde surgiu essa ideia?

Pe. Paulo Ricardo: Bem, na verdade não é uma invenção minha. O “oitavo dia” é uma expressão da Tradição da Igreja. A Igreja, vocês sabem, não nasceu hoje. Ela tem dois mil anos. E nos primeiros séculos, os Santos Padres, os primeiros escritores cristãos, notaram que existia algo diferente na ressurreição de Cristo. De alguma forma, na ressurreição de Jesus a criação estava sendo refeita. Nós sabemos como é o relato da Criação como está no Livro do Gênesis no capítulo primeiro: Deus criou o mundo em seis dias. Quando ele terminou a criação, Ele viu que “tudo era muito bom”, e no sétimo dia Ele descansou. No sétimo dia, no sábado, Deus criou esse “shabbat”, esse momento de paz, alegria, felicidade e repouso. Mas sabemos também que a história não parou por aí. A história infelizmente foi perturbada por uma realidade chamada pecado. E o pecado quebrou esta bondade. Ele fez com que, de alguma forma, a criação fosse maculada. Havia alguma coisa que “não estava funcionando” no mundo. Então, o que Deus faz? Deus saiu do seu repouso. Deus não está mais no sétimo dia de repouso. Está no oitavo. O dia em que ele sai do seu repouso e vai na direção do homem para resgatá-lo. Jesus vem ao mundo, morre na Cruz, e ressuscita. Quando? Depois do sétimo dia, ou seja, no domingo, o “oitavo dia da criação”.

É claro, a semana continua tendo 7 dias, mas o domingo tem esta dupla identidade, que consiste no fato em que ele é o primeiro dia da criação, bonita como Deus a sonhou, e é também o dia da recriação. O dia em que nós de alguma forma somos criados novamente porque Cristo ressuscita, fazendo com que a nossa natureza humana, que antes estava manchada pelo pecado, agora seja redimida.

Lídice: Qual vai ser a função desse programa? Como ele foi pensado? Pra que nós vamos trazer ao público da TV Canção Nova e para todo mundo um programa chamado Oitavo Dia?

Pe. Paulo: Primeiramente, vocês devem estar pensando: o programa é sobre o domingo, e no entando o programa é no sábado! Mas não existe uma contradição aqui. Por quê? Na época de Jesus e na cultura judaica, ainda hoje, os dias não são contados da mesma forma como nós os contamos. Para nós, o domingo começa à meia-noite. Para o judeu, o domingo começa quando aparece a primeira estrela no céu. Então é interessante sabermos que é por isso que a gente pode ir à missa no sábado à noite. Porque, aparecendo a primeira estrela no céu, nós já estamos de alguma forma no domingo. Então, já estamos começando agora, nesta noite de sábado, este “tempo santo”, esse tempo do domingo, que é um tempo que a gente deve dedicar: à oração, à visita aos doentes, à caridade aos pobres, à família, mas também, e principalmente, para irmos à Eucaristia, e uma coisa que as pessoas esquecem: é também um tempo de estudo e aprofundamento das coisas de Deus.

É por essa realidade de estarmos já num tempo santo, num tempo de que nós participamos da ressurreição de Cristo, que nós queremos dedicar um pouco de tempo ao estudo. Isso também é a “santificação do domingo”. Nós santificamos o domingo, em primeiro lugar, claro, indo à Eucaristia, à assembleia eucarística, participando da Santa Missa na nossa paróquia. É assim que você santifica o domingo, mas existem outras realidades que precisam ser feitas também no domingo. O tempo à família, o tempo à oração, o tempo à visita aos doentes, aos pobres, e o tempo ao estudo das coisas de Deus.

Lídice: — É por isso que hoje em especial por ser o primeiro programa nós vamos aprofundar sobre o domingo. Pelo que o senhor explicou, o domingo, esse “oitavo dia”, seria como se a gente começasse a viver um pouco do céu?

Pe. Paulo — É isso mesmo. Ou seja, pra gente entender o que é o “tempo sagrado” do domingo, nós temos que entender um pouco o conceito de “espaço sagrado”. Veja só, espaço sagrado nós entendemos o que é. Existem as nossas cidades, que são grandes, mas a gente “corta um pedaço” da cidade e diz que quele terreno vai ser um espaço sagrado. Vamos dedicar aquilo para Deus, vamos construir ali uma igreja. Quando você entra num espaço sagrado, quando você vai para a igreja, você sabe que não pode fazer qualquer coisa lá dentro. Você não pode fazer um forró dentro da igreja, você não pode fazer um lanche e comer pipoca dentro da igreja. Por quê? Porque aquele “espaço” pertence a Deus. É claro, o mundo inteiro pertence a Deus. Mas aquele espaço sagrado é uma forma de você se conscientizar de que o mundo pertence a Deus. Então a Igreja dedica espaços para Deus. E quando a gente entra no espaço santo, a gente entra com uma atitude diferente.

Bem, assim como existe o espaço santo, existe também o tempo santo. O tempo sagrado. O tempo que foi “cortado” para Deus. O domingo é uma forma de nós sacrificarmos um pouco do nosso tempo para Deus. A gente “corta” um pedaço da semana, e diz: “Senhor, isso te pertence”. É teu. É claro, a semana inteira é de Deus. Mas no domingo, de forma especial, nós entramos num tempo da “visitação de Deus”.

Mas como a gente vive o nosso domingo? No Evangelho de São Lucas há uma cena em que Jesus chora sobre a cidade de Jerusalém, e ele diz: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas”. E ele conclui, dizendo assim: “não conhecestes o tempo da visitação”. Em grego, tem uma expressão bonita, profunda, que é “Kairós Thés episkopés”: o tempo, o kairós. Existe uma diferença. Em português “tempo” é tempo, sempre. Mas em grego não. Existem dois tipos de tempo. Existe o cronos, que é o tempo cronológico, matemático, uma hora depois da outra. Um tempo de 24 horas, um dia, no “cronos”, são todos iguais. Mas existe o “tempo do kairós”. Kairós é o tempo oportuno, o tempo da graça, é um tempo mais “denso” da presença de Deus, da “visitação”, a “episkopé” em grego, essa presença Dele. Claro, Deus está conosco a semana inteira. Mas no domingo a presença Dele é maior, porque no domingo Jesus ressuscitou. A vida vence a morte. E a vida eterna, a vida do céu, a vida de Deus é que vem nos visitar. Então, como você dizia, de alguma forma entrar no domingo é entrar nessa dimensão de eternidade. Entrar nessa dimensão de que “saímos do tempo”. Saímos da semana. Estamos no “oitavo dia”, num tempo superior, num tempo da visita de Deus.

Lídice: — As pessoas que não podem ir à missa ao domingo, o que elas devem fazer para viver esse domingo também de uma forma especial?

Pe. Paulo — Bom, a primeira coisa que temos que entender é que a santificação do domingo, é claro,
consiste em ir à missa ao domingo, mas não somente nisso. Ou seja, o centro do domingo, o centro do oitavo dia da criação é o Mistério Pascal, que nós vivemos na Eucaristia. Ou seja, na Santa Missa nós vivemos o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. Quando nós participamos da celebração eucarística, nós podemos dizer que nós estamos numa “ação eucarística”. Nós estamos participando dessa “ação redentora” da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. É verdade, então, que o centro do domingo é a Eucaristia.

Mas, não é somente isso. As pessoas que estão impossibilitadas, porque, ou têm que trabalhar — infelizmente não deveríamos trabalhar no domingo, mas às vezes não tem jeito, o emprego exige aquilo —, as pessoas que estão impossibilitadas por razão de saúde, porque estão presas, encarceradas, porque estão em hospitais, ou porque talvez, de alguma forma, por um imprevisto, por algo que não estava no poder delas, não puderam participar, essas pessoas podem sim santificar o domingo com a sua atitude interior. E nós temos aqui, na Canção Nova, não só a missa dominical, mas a missa diária. Você pode participar da missa através da televisão, mas é importante ficar bem claro: não é a mesma coisa que ir à missa. Se você tem condições de ir à missa, você deve ir à missa na sua paróquia, na sua comunidade, porque nada substitui o fato de que você, participando da celebração eucarística, está participando da graça, presença real de Cristo. E você pode comungar, você recebe a comunhão, e nada disso você pode fazer em casa. Então, você deve ir à missa se você pode. Mas se você não tem condições, você pode também participar através da televisão.

E se você já participou da missa, ou ainda vai participar, você pode pela televisão participar também, para incrementar, aprofundar aquela participação, meditando mais aquele mistério no qual você participou ou, quem sabe, se preparando para o mistério do qual você irá participar.

Então, a missa pela televisão tem o seu valor. Mas se você não tem televisão, o que você faz? Você se une a Cristo, que morre e ressuscita. É importante você, que é doente, você que está encarcerado, preso, que está impossibilitado de participar e de receber a Eucaristia, lembrar que o seu sofrimento tem um valor. São Paulo diz: “Eu completo na minha carne aquilo que falta ao sofrimento de Cristo”. Quando nós nos unimos ao Cristo Crucificado nós nos unimos também ao Cristo Ressuscitado. É uma forma de sabermos que atrás de cada cruz de nossa vida existe também uma ressurreição escondida. É o mistério pascal, que deve marcar a nossa existência: essa passagem de morte para ressurreição. De uma vida passageira e fugaz, que vivemos aqui na terra, para a vida perfeita e maravilhosa que Deus prepara para nós no céu.

Lídice: — E quanto a essas pessoas que perderam , não diria a fé, mas essa noção, e às vezes trocam a missa do domingo por uma missa semanal, ou uma novena, uma “reza”, como sempre falam, isso tudo funciona, serve, pode ser feito?

Pe. Paulo: Nós temos que dar conta que nós estamos num mundo secularista e racionalista. As pessoas são racionalistas, então dizem: “ah, eu não posso no domingo, então eu vou em outro dia.” Isso é um raciocínio humano. Você não está entendendo a profundidade do domingo. Você não está entendendo que foi no domingo que Jesus ressuscitou. Você não está entendendo que é no domingo que os cristãos se reuniam. Você pega os Atos dos Apóstolos, e veja que está sempre escrito: “No primeiro dia da semana, os discípulos estavam reunidos…” As aparições de Jesus, por exemplo, depois de ressuscitado, muitíssimas delas são marcadas pelo primeiro dia da semana. Então, os cristãos, desde cedo, tomaram consciência de que é o domingo que nos faz cristãos.

Você vai dizer: “Mas, padre, hoje em dia, no mundo do jeito que está, as pessoas não têm condições, muitas vezes têm que trabalhar no domingo, como é que faz…?” Bem, primeira coisa, vamos lembrar que os cristãos não tinham feriado no domingo. Quando se reuniam no domingo, eles faziam um sacrifício. De madrugada. Porque era o único tempo que eles tinham, porque deviam passar o dia do domingo trabalhando, porque não tinha feriado para eles. Muitos deles eram escravos, servos, empregados, e tinham que viver a sua vida. Muitos eram perseguidos, não tinham essa “vida mansa” que nós temos, de ter o domingo completamente liberado. E, no entanto, viviam o mistério do domingo. A tal ponto que os Santos Padres primeiros autores cristãos, diziam: sine Dominica non possumos, ou seja, nós não podemos existir sem o domingo. Isso quer dizer que o domingo é uma necessidade existencial da Igreja.

É tal a profundidade e a importância do domingo que o papa João Paulo II, de feliz memória, dedicou uma carta inteira ao domingo. Veja, aqui está a importância, porque o papa notou que nós estamos secularizando as coisas. Estamos perdendo o sentido do tempo sagrado.

Hoje as pessoas só pensam em “fim de semana”. Mas este é um conceito que para nós cristãos não é central. Para nós o importante não é o fim de semana, mas é o domingo. Então você deve desejar para as pessoas um “bom domingo”, um “feliz domingo”, um “santo domingo”, um dia da visitação do Senhor. Porque a palavra domingo,dominicus que dizer “do Senhor”. É o dia do Senhor. Dia de Deus, pertence a ele. Então não é uma coisa permutável.

Lídice: — Houve em algum momento na Igreja uma “oficialização” de que o Domingo seria o Dia do Senhor? Algum decreto ou algo que tornou isso oficial? ou ele veio com o costume mesmo e seguiu até hoje?

Pe. Paulo: — Veja, é uma coisa espantosa que desde os primeiríssimos momentos da Igreja, ela se reúne no domingo. Não houve um “decreto”, mas foi essa consciência da importância daquele dia. E vejam que os primeiros cristãos ainda estava muito ligados ao templo de Jerusalém. Nós vemos nos Atos dos Apóstolos São Pedro frequentando o templo, etc. Mas, ao mesmo tempo em que eles vão ao templo, em que os cristãos continuam indo à sinagoga no sábado, eles se reunem no primeiro dia da semana para celebrar a Eucaristia. É aqui que nós temos esse conceito da Páscoa semanal. O domingo é o núcleo, digamos, do Ano Litúrgico. Depois foi que veio a ideia de que se poderia celebrar a festa da Páscoa anual, mas antes já havia o domingo, a páscoa semanal. Depois é que foi sendo acrescentada uma série de outras festividades em que a Igreja, vivendo o Ano Litúrgico, vive uma grande pedagogia espiritual. Se nós vivêssemos o Ano Litúrgico do jeito que ele deveria ser: Tempo Pascal, Quaresma, Advento, Tempo do Natal, nós estamos numa escola de santidade. O Tempo Litúrgico é uma escola de santidade sem dúvida alguma. Mas o núcleo, o centro do Ano Litúrgico, é o domingo.

Lembremo-nos disso: a Igreja perde a sua própria essência se ela perder o domingo.Nós estamos aqui diante de algo muito grave, não diante de um detalhezinho. Desculpem-me o palavreado popular, mas não é uma “frescura”, uma bobagem. Nós estamos aqui diante do centro. Se existe algo que faz a Igreja e que faz o cristão, é o domingo. Por isso não em cabimento essa história dos nossos irmãozinhos Adventistas do Sétimo Dia, que de alguma forma ainda vivem muito fixados no antigo testamento, guardando o sábado, mas não somente. A atitude dos Adventistas com relação ao Antigo Testamento é de muito apego a muitas prescrições do Antigo Testamento, de forma que eles ainda estão, de alguma forma, no judaísmo. Não entraram na “novidade cristã”. É claro que se você pegar os Dez Mandamento
s, no Antigo Testamento, eles pedem para guardar o sábado, é evidente. Mas nós, cristãos, não estamos mais no Antigo Testamento. Nós estamos na Nova Aliança, nós estamos num novo tempo, em que Deus de certa forma “fez” para nós o domingo. “Este é o dia que o Senhor fez para nós”.

Lídice: — Eu gostaria que o senhor falasse agora para os jovens, Os jovens “curtem” muito o domingo, os passeios… O que o senhor diria para essa juventude?

Pe. Paulo: — Eu diria a você, meu irmão, minha irmã, que é jovem e está na vida que floresce: procure uma felicidade que não se apaga com as luzes de sábado à noite. Você vai sábado à noite para a balada. Mas sai, volta para casa, as luzes se apagam, e aquela felicidade também se apaga. Nós, que cremos, buscamos uma felicidade que está em Deus. Um “tempo de Deus”. Um tempo em que Deus visita você. Deus está visitando você nessa noite. Nesse domingo que inicia agora, com a primeira estrela que aparece. Deixe uma estrela aparecer na sua vida. Que ela guie você para o Domingo de Deus, o tempo em que Deus visita a sua vida, bate à sua porta. Ele quer entrar.


3 comments

“Grito o meu amor à liberdade pessoal”

Liberdade de consciência: não! Quantos males trouxe aos povos e às pessoas este erro lamentável, que permite agir contra os ditames íntimos da própria consciência! Liberdade "das consciências", sim: que significa o dever de seguir esse imperativo interior… Ah, mas depois de se ter recebido uma séria formação! (Sulco, 389)

Quando, ao longo dos meus anos de sacerdócio, não direi que prego, mas grito o meu amor à liberdade pessoal, noto em alguns um gesto de desconfiança, como se suspeitassem que a defesa da liberdade traz no seu bojo um perigo para a fé. Tranqüilizem-se esses pusilânimes. Só atenta contra a fé uma interpretação errônea da liberdade, uma liberdade sem qualquer fim, sem norma objetiva, sem lei, sem responsabilidade. Numa palavra: a libertinagem. Desgraçadamente, é isso o que alguns propugnam. Essa reivindicação, sim, constitui um atentado contra a fé.

Por isso não é correto falar de liberdade de consciência, que equivale a considerar como de boa categoria moral a atitude do homem que rejeita a Deus. Recordamos atrás que podemos opor-nos aos desígnios salvíficos do Senhor; podemos, mas não devemos fazê-lo. E se alguém assumisse essa posição deliberadamente, pecaria, porque estaria transgredindo o primeiro e o mais fundamental dos mandamentos: Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração (Dt, VI, 5).

Eu defendo com todas as minhas forças a liberdade das consciências (Leão XIII, Enc.Libertas praestantissimum, 20-VI-l888, ASS 20 (1888), 606), que denota não ser lícito a ninguém impedir que a criatura preste culto a Deus. É preciso respeitar as legítimas ânsias de verdade; o homem tem obrigação grave de procurar o Senhor, de conhecê-lo e adorá-lo, mas ninguém na terra deve permitir-se impor ao próximo a prática de uma fé que este não possui; assim como ninguém pode arrogar-se o direito de maltratar quem a recebeu de Deus.

A nossa Santa Mãe a Igreja pronunciou-se sempre pela liberdade e rejeitou todos os fatalismos, antigos e menos antigos. Esclareceu que cada alma é dona do seu destino, para bem ou para mal: E os que não se afastaram do bem irão para a vida eterna; os que praticaram o mal, para o fogo eterno. (Amigos de Deus, 32-33)

Fonte: Opus Dei.


Leave a comment

Obediência e Fidelidade nas pequenas coisas.

DEUS PEDE?NOS em cada momento alguma coisa muito concreta, mas sempre ao alcance das nossas forças. Depois da primeira correspondência, chegam mais graças para uma segunda, precisamente por termos correspondido à primeira. E assim uma graça maior sucede a outra, e vamo?nos tornando aptos para corresponder a Deus em coisas cada vez mais difíceis.

Pelo contrário, se descumprimos o querer de Deus em coisas que nos parecem sem importância, vamos resvalando por uma pendente que não demorará a precipitar?nos no pecado e na infelicidade: Quem despreza as pequenas coisas, pouco a pouco cairá nas grandes. “Foi dura a experiência; não esqueças a lição. – As tuas grandes covardias de agora são – é evidente – paralelas às tuas pequenas covardias diárias. – «Não pudeste» vencer nas coisas grandes, porque «não quiseste» vencer nas coisas pequenas”.

Por outro lado, as coisas pequenas não costumam levar à vaidade, que esvazia tantas obras. Quem pensará em aplaudir aquele que cedeu o seu lugar no ônibus, ou que deixou ordenados os seus papéis e livros ao terminar o estudo? Quem louvará uma mãe por sorrir, se é o que todos esperam dela, ou o professor que preparou bem a sua aula, ou o aluno que estudou a matéria da prova, ou o médico que tratou o doente com delicadeza?

E essas coisas pequenas, muitas das quais são meramente humanas, tornam?se divinas pelo oferecimento de obras que fazemos todas as manhãs e que depois procuramos renovar durante o dia. O humano e o divino fundem?se então numa íntima e forte unidade de vida, que nos permite ganhar pouco a pouco o Céu, ao preço das coisas humanas de cada dia.

Para alcançarmos essa unidade de vida mediante a fidelidade às pequenas coisas, necessitamos de um grande amor ao Senhor, de um desejo profundo de ser inteiramente dEle, de querer procurar o seu rosto em todas as ocasiões da vida normal. Por sua vez, o cuidado das pequenas coisas alimenta continuamente o nosso amor a Deus.

Nossa Senhora ensinar?nos?á a dar valor ao que parece carecer de importância, a esmerar?nos nos detalhes que podem passar despercebidos aos outros, como passou ao mestre?sala das bodas de Caná que ia faltar vinho: mas não à Virgem nossa Mãe.

Fonte: Falar com Deus


Leave a comment

Liberdade IV: Como conquistar a liberdade.

Para ser “capaz”

No texto «Liberdade: I» – que se encontra neste site -, mencionavam-se três doenças da liberdade:

1) A falta de conhecimento, de lucidez. Pensamos mal e, por isso, escolhemos mal (Ver «Liberdade: II»).

2) Mesmo pensando bem, quando chega a hora de “fazer o que queremos” (o que é bom, o que verdadeiramente nos vai realizar), não “podemos”, devido à nossa fraqueza, às amarras do egoísmo que nos escravizam (Ver «Liberdade: III»).

3) Em terceiro lugar, pode suceder que, mesmo tendo começado a fazer o que decidimos livremente, porque é bom, porque é mesmo o melhor, não sejamos capazes de chegar até ao final, porque nos faltam as forças necessárias.

Vamos agora meditar sobre essa terceira doença da liberdade: a falta de perseverança. Começaremos, para isso, com um comentário, cheio de admiração, que talvez nos escape, às vezes, ao falar sobre uma pessoa que muito admiramos:

- Que maravilha, Fulano, é genial! Ele tem um domínio! Ele faz o que quer!

É um tipo de comentário que é fácil ouvir quando conversamos sobre a apresentação de um artista excepcional: músico, ator, cantor…, ou de um jogador de futebol fora de série.

Pensemos agora, por exemplo, num grande pianista. Começa a interpretar uma peça de Mozart, e os seus dedos voam, deslizam, dançam, correm, acariciam as teclas, desenvolvem movimentos quase angélicos por cima do teclado, dando uma sensação de facilidade absoluta. Realmente, esse pianista faz o que quer, domina, com absoluta liberdade, segurança, arte e graça, o instrumento musical.

Deve possuir, sem dúvida, a faísca do gênio. Com certeza, está dotado de uma sensibilidade especial para a música, tem uma facilidade particular para captar-lhe os segredos. Mas todas essas predisposições naturais de nada lhe serviriam se não tivesse dedicado, ao longo de anos sem fim – com um preparo duro e infatigável -, horas e mais horas ao estudo da música, ao aprendizado, aos exercícios de solfejo, de piano, ao aprimoramento constante da sua arte. O esforço deu-lhe a facilidade de um hábito adquirido, e esse hábito bom – que continua cultivando sem parar – dá-lhe a liberdade de tocar “como quer”. É um “virtuose” (palavra muito sugestiva do que diremos a seguir).

Do piano às virtudes

Algo de semelhante acontece com a nossa conduta. Somente nos tornamos capazes de fazer livremente o bem que desejaríamos quando – além de pedir a ajuda de Deus – vamos adquirindo os hábitos bons que se chamam virtudes – as virtudes humanas – mediante o esforço, o exercício voluntário e constante: tentando, insistindo, aprendendo, corrigindo.

«A virtude – lemos no Catecismo da Igreja Católica – é uma disposição habitual e firme para fazer o bem. Permite à pessoa não só praticar atos bons, mas dar o melhor de si mesma [...]. Pessoa virtuosa é aquela que livremente pratica o bem» (nn. 1803-1804).

Quantas vezes muitos de nós, ao admirarmos as virtudes dos outros, não comentamos, com um suspiro de tristeza: “Eu não seria capaz!” Louvamos, por exemplo, a alegria e a serenidade e otimismo com que um pai, que passa por uma grave tribulação profissional, se comporta com a família; ou elogiamos a paciência de uma mãe; ou a abnegação de um rapaz órfão de pai, que estuda à noite, trabalha o dia inteiro e carrega sem protestos todo o peso familiar. “Eu não seria capaz!”

Por que não seríamos capazes? Não é, certamente, por falta de condições básicas. Para sermos um pianista exímio, um grande ator, um pintor excepcional ou o melhor futebolista do mundo, sim, seria preciso que estivéssemos dotados, que tivéssemos condições especiais. Mas, para adquirirmos as virtudes (prudência, sinceridade, coragem, paciência, perseverança, amizade, ordem, fortaleza, sobriedade, castidade, mansidão, etc., etc.), basta-nos ser humanos.

Quem é um ser humano e, portanto, tem alma, possui a inteligência e a vontade: só com isso, já está dotado das condições básicas suficientes para adquirir todas as virtudes humanas. Algumas delas poderão custar-lhe mais do que a outras pessoas, mas nenhuma cairá fora das suas possibilidades. E, se quiser, ajudado pela graça divina, acabará por conquistá-las. E, então, tornar-se-á capaz.

Não vemos, com isso, a importância da educação nas virtudes, do aprendizado das virtudes, do exercício das virtudes? É um fato lamentável que hoje, à diferença de outras épocas, pouca importância se dá, nos lares e na escola, à formação das virtudes. Parece que basta fornecer uma educação que capacite para exercer uma profissão e ganhar dinheiro. E a personalidade de muitos jovens vai ficando assim imatura e informe – não formada -, justamente porque lhes falta o que forja o caráter: as virtudes.

Chega, depois, o momento da luta pela vida, a hora de constituir uma família e de levar avante as responsabilidades profissionais e sociais, e aquele rapaz ou aquela moça, mesmo tendo um expediente universitário brilhante, encontram-se perante a “ciência da vida” como analfabetos, como combatentes desarmados. Não podem, não conseguem, não são capazes de suportar os sacrifícios e os sofrimentos normais da vida; de dar a volta por cima dos fracassos; de conviver e de colaborar no trabalho com pessoas difíceis… Não “podem” porque tudo isso só se consegue com as virtudes; e eles, ou não as têm, infelizmente, ou as têm tão fracas que se esfarelam ao primeiro choque.

A luta pelas virtudes

Convençamo-nos de que, sem as virtudes, estamos condenados a ser os náufragos da vida, que tentam sustentar-se nas águas do mundo e avançar rumo à terra firme sem jamais consegui-lo. As pessoas afundam-se quando lhes falta esse domínio, essa autêntica liberdade, que só as virtudes podem dar.

É muito importante, por isso, compreender que as virtudes, como ensina o Catecismo da Igreja Católica, só se adquirem «pela educação, por atos deliberados e por uma perseverança retomada com esforço» (n. 1810).

Não vamos entrar agora aqui numa reflexão detalhada sobre as virtudes, mas poderá ser útil que façamos um bom exame de consciência sobre três pontos:

1) Procuro educar-me nas virtudes humanas e cristãs? Sei o que são e como se deve lutar – passo a passo – para consegui-las? Faço leituras que me proporcionem as idéias e a formação necessária para isso? Detecto claramente os meus defeitos, as minhas falhas na prática das virtudes? Procuro aconselhamento espiritual que me ajude a “ver” e “lutar”?

2) Proponho-me, com atos deliberados – ou seja, com resoluções concretas, definidas, conscientes – realizar todos os dias algum esforço para conseguir ou para melhorar alguma virtude? Faço um exame do dia, antes de dormir, para ver como lutei, como tentei levar à prática as minhas resoluções, e programar uma retomada da luta para o dia seguinte?

3) Apesar das dificuldades que possam surgir, persevero nesse esforço de conquista e cultivo das virtudes humanas e cristãs, sem me cansar, sem desistir, sem desanimar, procurando apoio e forças em Deus – na oração, na Confissão, na Comunhão -, sabendo que Ele está sempre disposto a me ajudar, a lutar comigo?

Este é o caminho dos autênticos. Diria – ainda que seja redundância -, dos verdadeiros autênticos. Sem isso, a nossa liberdade não passa de teoria, de palavra vazia. E Deus nos chama para um grande ideal, não para uma “conversa fiada”.

[Adapt
ação de um trecho do livro de F.Faus, Autenticidade & Cia]


Leave a comment