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    Liberdade III: A liberdade algemada.

    July 31st, 2009

    Querer e não poder

    «O Amor de Deus marca o caminho da verdade, da justiça e do bem. Quando nos decidimos a responder ao Senhor: A minha liberdade para Ti, ficamos livres de todas as cadeias que nos haviam atado a coisas sem importância, a preocupações ridículas, a ambições mesquinhas. E a liberdade – tesouro incalculável, pérola preciosa que seria triste lançar aos animais – emprega-se inteira em aprender a fazer o bem. Esta é a liberdade gloriosa dos filhos de Deus» ( Amigos de Deus, n. 38).

    Essas palavras de São Josemaria Escrivá, com as quais terminávamos o comentário de «Liberdade:II- Há liberdade sem verdade?», fazem lembrar um conhecido episódio das Viagens de Gulliver, que nos introduzirá na reflexão sobre outra doença da liberdade (Ver «Liberdade: I- Entender a liberdade»).

    O protagonista do famoso romance de Jonathan Swift, após ter naufragado nos mares do Sul, arriba a nado a uma terra desconhecida. Exausto, deita-se na relva e, passadas nove horas, ao acordar – como ele mesmo narra – «tentei levantar-me, mas em vão o fiz. Vi-me deitado de costas, notando também que as pernas e os braços estavam presos ao chão, assim como os cabelos. Observei então que muitos cordões delgadíssimos me rodeavam o corpo, dos sovacos às coxas. Só podia olhar para cima».

    Não tardou em descobrir que, enquanto dormia, os minúsculos habitantes daquele país, a terra de Líliput, o haviam amarrado com finíssimos, mas sólidos cordões a uma multidão de estacas fincadas na terra. Mesmo fazendo força, não podia libertar-se.

    Gulliver amarrado em Líliput é todo um símbolo. Pois é o verdadeiro retrato de muitos rapazes e moças – e adultos! -, que se julgam livres porque não estão mais condicionados ou amarrados por papai, por mamãe nem por ninguém, mas que, na realidade, estão presos por inúmeros fios que eles mesmos fabricaram.

    Esses falsos-livres, enquanto se ufanam da sua total independência de idéias e de movimentos, não percebem que centenas de “liliputianos” invisíveis, nascidos da sua falta de caráter, lhes estão amarrando, dia após dia, a cabeça, o coração e a vontade. Parecem livres – libérrimos -, mas são prisioneiros, porque estão atados pelas cordas das suas fraquezas, vícios e defeitos.

    Cabeça “presa”

    Começam por ter a cabeça presa, porque as poucas idéias que possuem estão acorrentadas às modas, ao que está em voga no ambiente, ao que pensa a cabeça dos outros. – É moda fumar maconha? – Ele fuma. – É moda beber nas festas até cair no chão? – Ela se embriaga. – É moda rir da religião? – Ele ri. – É moda acreditar na reencarnação? – Ela acredita. – É moda o rock satânico? – Ele blasfema e faz que adora Lúcifer. – É moda ir praticamente sem roupa? – Ela vai. A moda os escravizou, a ele e a ela, e são incapazes de pensar e agir com liberdade.

    Esses subprodutos do ambiente, essas cabeças de fantoche, movidas pelos cordéis do meio ambiente, não são livres.

    Como também não são livres os cristãos sem doutrina, que desconhecem até o catecismo elementar das criancinhas e nem sabem que os Evangelhos são quatro e, no entanto, pontificam com arrogância sobre temas de religião e Igreja, sem perceber que estão algemados pela sua ignorância.

    Falta-lhes a todos, como facilmente se percebe, o que é a base primordial do ato livre: a razão madura, o conhecimento da verdade (Ver«Liberdade: -II).

    Vontade e coração “presos”

    Mas há também outros “liliputianos” invisíveis – defeitos nossos, igualmente – que amarram a vontade e o coração. Para pôr um exemplo corriqueiro, comum, não é raro que alguns digam: “Eu faço o que quero. Acordo quando quiser, não quero que me batam à porta, não me venham com bitolações de pontualidade e horas certinhas de acordar”. Dizem isso e não reparam que um “liliputiano” chamado preguiça já há muito tempo que os tem amarrados com cordões de aço, de maneira que seriam mais sinceros se dissessem: “Eu só consigo acordar quando a preguiça me dá licença; ela me mantém prisioneiro, escraviza-me, não posso acordar quando a inteligência me indica que deveria fazê-lo, nem quando a vontade desejaria; só quando a preguiça consente”.

    A mesma coisa poderia dizer-se de inúmeras “liberdades” de que jovens e velhos se gabam. “Liberdade sexual! Nada de restrições moralistas!” – “Liberdade? – poderíamos retrucar -. Seja sincero. Você está tão dominado pelo egoísmo sexual como outros o estão pela droga. Você não é livre! Você é uma pobre marionete dos seus instintos e das suas paixões! Não faz o que quer, mas o que não consegue deixar de fazer. Faz tempo que já não é dono do seu sexo, mas seu escravo”.

    Tal outra pessoa é escrava da gula: nunca consegue fazer o regime de alimentação que lhe convém, nem é capaz de deixar de beliscar um prato na copa, nem de assaltar a geladeira fora de horas, nem de comprar constantemente chocolate, balas, chiclete, biscoitos, sorvete por quilo, etc., etc.

    Uma outra pessoa – pode ser a mesma, pois não há muitos especialistas de um só vício – nunca chega pontualmente a nada. Atrasa-se na escola, atrasa-se no trabalho, atrasa-se no médico, atrasa-se na excursão, atrasa-se na visita à casa do amigo ou da amiga; atrasa o estudo, atrasa as tarefas, atrasa pôr em ordem os documentos… Uns “liliputianos” chamados moleza e desordem (irmãos gêmeos da preguiça) a trazem dominada e a puxam pela coleira como se fosse um cachorrinho.

    Tal outra pessoa está dominada pela vaidade. Não consegue agir livremente, com simplicidade. Tudo nela é artificial, “dependente” do que os outros vão pensar, vão comentar entre si, vão criticar. É escrava da “imagem” que quer apresentar aos outros. E essa enervante dependência acaba sendo como que um choque elétrico constante, que lhe paralisa a liberdade.

    Tal outra pessoa – último exemplo – está tão voltada para si mesma, tão apegada aos seus planos, que não consegue sair deles para ajudar a quem lhe pede uma mão, para gastar um tempo cuidando de um doente em casa, para prestar um serviço necessário aos colegas. Fechada em si mesma, amarrada pelo “eu”, deixou de ser livre para amar.

    Os exemplos poderiam multiplicar-se até ao infinito. Tentemos examinar-nos sinceramente a nós mesmos, procurando descobrir que cordões nos amarram. Veremos tantos! Descobriremos que estamos envolvidos por uma malha, uma teia, espessa e pegajosa, tecida por uma aranha chamada egoísmo, que é preciso romper.

    “A liberdade – diz o Papa João Paulo II – necessita de ser libertada” (Encíclica Veritatis splendor, n. 86). Para sermos livres, precisamos cortar as amarras. E a tesoura que corta os fios chama-se mortificação.

    Cortando os Fios

    Víamos que a teia de fios finos e fortes que nos envolve é tecida, no fim das contas, pela aranha do nosso egoísmo, com seus múltiplos tentáculos. A única maneira de vencermos o egoísmo é dizer-lhe não.

    Sem a negação dos impulsos egoístas, não pode haver afirmação da bondade e do amor que, livremente, nós desejamos. Sem o esforço e o treinamento da mortificação – do autodomínio, praticado com renúncias e sacrifícios -, poderemos querer, mas não vamos poder fazer.

    Mais uma vez fica claro que a atitude autêntica não é a do “espontaneísmo” – ir tocando a vida, sem negar nada aos impulsos, desejos e caprichos -, mas a do ideal na cabeça, secundado por uma vontade libertada de
    amarras (Ver «Liberdade -II»).

    Mortificação, sim. Mas, qual? São necessárias muitas, em geral: mortificações pequenas e constantes. Por exemplo:

    * Dizer não a detalhes de gula: mais esse chocolate, não; mais esse copo de cerveja, não!

    * Dizer não à preguiça que nos faz atrasar, com desculpas esfarrapadas, um dever ou um compromisso (profissional, religioso, familiar), ou nos sugere levantar-nos da mesa de trabalho antes de termos terminado o estudo ou a tarefa começada.

    * Dizer não ao egoísmo que nos leva a fazer-nos de surdos quando o pai, a mãe, um irmão, um colega, um amigo, precisam da nossa colaboração.

    * Dizer não ao amor-próprio que ferve, querendo retrucar com ira a uma indelicadeza, ou que não quer desistir de uma pequena vingança.

    * Dizer não à tentação de sensualidade egoísta, que quer olhar todas as baixarias – nas bancas de jornal, na televisão, na Internet -, que só nos degradam.

    * Dizer não à vontade de mexericar, de criticar, de meter a colher numa conversa onde se fala mal dos outros.

    * E muitos outros não, que devemos ter a coragem de dizer a tudo aquilo que é falso e errado, para poder dizer sim ao bem e à verdade.

    João Paulo II, depois de dizer que a liberdade tem que ser libertada, acrescenta: “Cristo é o seu libertador”.

    O cristão com as características do homem ou da mulher autenticamente livres que estamos descrevendo, entende perfeitamente essa breve frase. É junto de Cristo, e com a graça dEle – sem a qual não teríamos a força de que necessitamos (cf. Jo 15, 5) -, que aprendemos a descobrir a verdade, a escolher com autenticidade e a mortificar-nos com generosidade, a fim de podermos correr livremente pela estrada do amor e do bem.

    [Adaptação de um trecho do livro de F.Faus: Autenticidade & Cia]


    Liberdade II: Há liberdade sem verdade?

    July 29th, 2009

     

    Liberdade e verdade

    No texto «Liberdade-I», lembrávamos uma realidade evidente: se o nosso raciocínio, se o nosso modo de pensar na vida e nas coisas da vida, nas escolhas pessoais e nas decisões, é confuso ou errado, como poderemos escolher “bem”?

    E muito importante perceber que a falta de lucidez do pensamento é uma doença mortal da liberdade. Pensar mal leva a escolher mal. Mas são poucos os que reconhecem que “não pensam bem”. Acham que se “eles” pensam, que se “isso” é o que “eles pensam”, então está bom! Será? Vamos fazer uma reflexão muito simples.

    Podem servir-nos, como referencial, algumas experiências do cotidiano. Um conhecido, por exemplo, conta-nos que resolveu ir com o filho de São Paulo ao Rio de Janeiro: uma viagem-prêmio que o pai prometera (pai sentimental, que premia a mera obrigação) se o filho passasse de ano. Aí temos os dois, mais a mãe e uma irmã, no carro, com o bagageiro atulhado. O rapaz premiado assume o volante. Está ansioso por chegar ao Rio. – “Você conhece a saída de São Paulo para a Via Dutra?”, pergunta-lhe o pai. O moço sorri com ar de suficiência. Nem se digna responder. Claro que sabe! E, ei-lo rodando por um emaranhado de ruas, de mãos e contramãos, de viadutos e elevados. Vai com uma segurança magnífica. Pega atalhos de homem esperto. Até que, duas horas depois, todos percebem que estão indo exatamente em sentido contrário, rumo ao Mato Grosso, na direção Oeste…

    Outra experiência, que dispensa comentários, é a dos fracassos e decepções no casamento, que nos cercam, infelizmente, em quantidade quase incontável. Em muitos desses casos lamentáveis, o que houve – além de sérias falhas morais – foi um engano. A pessoa – apesar das observações objetivas de amigos, de colegas, de familiares – empenhou-se em casar-se com fulano ou sicrana. Achava que os outros não a entendiam. Só ela sabia. Até que, passados poucos meses, ou um ano, ou dois, teve que dizer, com a cara coberta de vergonha: “Eu me enganei”, “Eu não sabia”… Agiu com total independência, com absolua “liberdade”, mas sem nenhum conhecimento profundo, sem a base da razão esclarecida, que é imprescindível para se viver a verdadeira liberdade.

    A verdade, sangue arterial da liberdade

    O Papa João Paulo II não se cansou de insistir em que «o conhecimento da verdade é condição para uma autêntica liberdade» (ver Encíclica Veritatis Splendor, n. 87). Com essas breves palavras, estava dizendo algo de essencial. É óbvio que, se um engano – uma falta de conhecimento da realidade, da verdade das coisas – em assuntos como o casamento ou a profissão, pode ser funesto e até mesmo frustrar a nossa vida, mais ainda nos pode arrasar o erro a respeito dos verdadeiros bens, do verdadeiro ideal, do verdadeiro sentido da nossa vida. Oxalá não sejamos daqueles que só se dão conta de que erraram redondamente quando já estão sem retorno, na velhice ou à beira da morte: “Eu achava”, “Eu não percebi”, “Agora é tarde”…

    A liberdade autêntica precisa da verdade, que lhe dá sentido, rumo e firmeza; que é como a estrela que lhe marca o rumo; que a orienta e a potencia para construir e não para destruir. É – dizia alguém – como o sangue arterial para o corpo!

    Isso é o que não conseguem entender os que confundem a liberdade com o desejo e a autenticidade com a simples espontaneidade irrefletida. Perdidos num “espontaneísmo” simplório, e num conceito também superficial da liberdade -entendida como livre vazão dos gostos e desejos -, não conseguem se aprofundar, nem conseguem entender aquelas pessoas que são livres de verdade: aqueles que agem movidos por um ideal bem conhecido, por um raciocínio objetivo e sábio, fruto de séria reflexão; os que, por isso mesmo, tomam decisões inteligentes e livres, não atreladas, como a carroça ao jumento, aos estados de ânimo e às oscilações dos desejos.

    São Josemaría Escrivá, que amou e defendeu a liberdade com paixão, tem, sobre este tema, umas palavras que vale a pena meditar: «O Amor de Deus marca o caminho da verdade, da justiça e do bem. Quando nos decidimos a responder ao Senhor: a minha liberdade para Ti, ficamos livres de todas as cadeias que nos haviam atado a coisas sem importância, a preocupações ridículas, a ambições mesquinhas. E a liberdade – tesouro incalculável, pérola preciosa que seria triste lançar aos animais – emprega-se inteira em aprender a fazer o bem. Esta é a liberdade gloriosa dos filhos de Deus» ( Amigos de Deus, n. 38).

    [Adaptação de um trecho do livro de F. Faus, Autenticidade & Cia]


    Liberdade I: O que é a Liberdade ?

    July 27th, 2009

    Liberdade I: Entender a liberdade

    Um pequeno diálogo

    Todos amamos a liberdade. Vemos nela um valor imprescindível para podermos ter uma vida autenticamente humana. Mas, será que entendemos o que é a liberdade?

    Que diria – vamos supor – uma menina estudante, uma adolescente comum, se lhe perguntássemos: – Você acha que alguém é capaz de viver autenticamente sem liberdade?

    Eu não duvido de que a sua resposta seria: – Não! E provavelmente acrescentaria mais um comentário: – Se não tenho liberdade, não posso fazer nada. Como posso me realizar? Se estou presa, dependente em tudo dos outros, como posso ser eu mesma?

    - Ou seja que, para você, a liberdade consiste em…?

    - Em poder fazer o que eu quero, sem imposições nem “podações”!

    - O quê?

    - Sem que me imponham o que tenho que fazer nem me “podem” a toda a hora: “Não pode sair”, “Não vai viajar sozinha com esses amigos”, “Se não voltar antes de tal hora, ficará proibida de ir a outras festas”…

    - Certo, certo. Se não entendi mal, você quer dizer que, para ser livre, precisa de duas coisas: em primeiro lugar, de não ser impedida por outros (de não estar amarrada por imposições e proibições); e, em segundo lugar, de poder fazer o que quer.

    - Exatamente. Ser livre é poder fazer o que eu quero.

    Muito bem. Tomo nota desta última frase, que lembraremos mais adiante. Agora, vamos refletir um pouco sobre as tais duas coisas.

    A primeira – não estar tolhidos pelos outros – é importante, mas eu diria que não é a mais importante para se ter uma autêntica liberdade. Mesmo um prisioneiro escravizado num campo de concentração pode possuir uma liberdade interior mais profunda que a dos seus carcereiros livres. Sobre isto haveria coisas muito bonitas a dizer, mas aqui não é o lugar.

    A segunda coisa – poder fazer o que se quer – parece-me mais interessante. Mas precisa de ser bem compreendida, porque, se não, estragamos tudo…

    Para nos entendermos melhor, será bom pensarmos em dois tipos de falsa liberdade, que nos ajudarão a enxergar a verdadeira.

    Duas falsas liberdades

    Imagine, em primeiro lugar, que observa na rua um homem que, de olhos esbugalhados e soltando grandes gargalhadas, vai batendo com um tijolo na cabeça dos velhinhos, arrancando bebês dos braços das mães e atirando-os como bolas de basquete para o outro lado da rua, quebrando as vitrines das lojas e deitando-se no meio da rua, lá onde o fluxo dos carros é maior. O que você diria? Que está doido varrido, não é? E, no entanto, você tem que concordar comigo em que ele está “fazendo tudo o que quer”, enquanto não lhe puserem a camisa-de-força. Faz tudo o que lhe dá na telha, só que… está mal da telha, e isso o torna um caso patológico, e não um autêntico homem livre. Quando falta a razão, não se pode falar em liberdade, mas em loucura.

    Já temos uma primeira condição da autêntica liberdade: deve ter como base a razão, a compreensão inteligente da realidade. Só em cima desse conhecimento racional é que se pode exercitar a liberdade, é que se pode querer, escolher, decidir conscientemente qualquer coisa. Por isso, uma boa definição de liberdade inclui necessariamente a idéia de reflexão, de decisão lúcida. Veja a que dá o Catecismo da Igreja Católica: “A liberdade é o poder, baseado na razão e na vontade, de agir ou não agir, de fazer isto ou aquilo, portanto de praticar atos deliberados” (n. 1731).

    O que acabamos de ver complementa-se com a consideração de um segundo tipo de falsa liberdade, a que poderíamos chamar liberdade de destruição. Não é como a do louco, pois esta segunda liberdade baseia-se na razão, na inteligência e, muitas vezes, até numa extraordinária inteligência, e nuns raciocínios extremamente lógicos e bem concatenados…, mas está toda ela orientada para o mal. É a liberdade dos gângsters, dos mafiosos, dos traficantes de drogas, dos contrabandistas de armas, dos matadores profissionais, etc, etc. Pensam, planejam, arquitetam tudo muito bem, decidem e “fazem o que querem”, mas o que querem é um mal objetivo, um mal que destrói.

    Isto ajuda-nos a ver por que a liberdade pôde ser comparada à energia atômica: porque, como ela, possui um enorme poder, que tanto pode ser utilizado para o bem como para o mal, para aniquilar de uma vez milhões de seres humanos ou para fornecer energia a milhares de cidades e de fábricas. Todas as pessoas sensatas concordam em que só é humano e certo usar a energia atômica para uma finalidade construtiva e boa. Da mesma forma, todas as pessoas inteligentes e sensatas podem compreender que a liberdade só é humana (e, por isso, autêntica) quando se utiliza visando uma finalidade construtiva e boa.

    Acabamos, assim, de pôr diante dos olhos um segundo elemento importantíssimo – ao lado da razão – para a liberdade: a finalidade.

    Toda a liberdade, de fato, é desejada e exercitada para alcançar uma finalidade (liberdade para namorar, para viajar, para amar, para ter essas amizades, para estudar isto ou aquilo, para gozar dos prazeres da vida, etc.). Não existe verdadeira liberdade sem um fim. A pessoa que diz “Quero ser livre para ser livre”, ou está dizendo uma tolice, ou na realidade está querendo dizer “Eu quero ser livre para fazer tudo o que o meu egoísmo desejar”, ou por outras palavras, “Eu quero a liberdade para fazer tudo o que, em cada momento, me apetecer”, com o que declara nitidamente a finalidade para a qual quer a sua liberdade: para o seu capricho e o seu interesse puramente egoísta.

    A finalidade, em função da qual queremos ser livres, é o indicador da categoria e da autenticidade da nossa liberdade. Liberdade para o bem, para o mal…, ou para nada (para o vazio de uma vida inútil).

    Poder fazer o que queremos

    No início deste texto, víamos a resposta que uma adolescente daria provavelmente à pergunta sobre o que é a liberdade: – “Ser livre é poder fazer o que eu quero”.

    Lembrando-nos das duas características da boa liberdade que acabamos de considerar – razão, inteligência lúcida para escolher; e finalidade boa -, podemos comentar a essa menina:

    - Você fala-me de “poder fazer o que quer”. Muito bem. Então, diga-me o que quer, na vida, e por que o quer.

    Talvez você me retruque dizendo que lhe é impossível responder, porque, realmente, quer muitas coisas e por motivos muito diversos, e não dá para enumerá-los todos. Mas, se pensar devagar sobre qual é a finalidade mais profunda por que você quer todas as coisas que deseja na vida, penso que acabará dizendo: “Eu quero tudo o que me leve a ser feliz, tudo o que leve à minha realização, ao meu bem”.

    Com isso terá expressado algo de muito verdadeiro, pois é isso mesmo o que, no fundo – no fundo do fundo -, todos nós queremos: o nosso bem, a realização plena da nossa vida. Essa é a finalidade básica a que todos aspiramos. Ninguém, a não ser um demente, quer o seu mal.

    Acontece, porém, que a maioria dos que querem a sua realização, o seu próprio bem, mesmo que disponham de toda a liberdade possível, não o alcançam. São livres, podem usar a sua liberdade, mas fracassam.

    Aqui vale a pena iniciar uma reflexão que é de importância capital. Não basta, com efeito, dispor da liberdade, ou seja, estarmos livres de imposições, restrições e a
    marras, para sermos autenticamente livres. A nossa liberdade pode revelar-se uma falsa liberdade – inútil e frustrante – por três motivos:

    1) Porque nos falta lucidez, quer dizer, porque o nosso raciocínio, o nosso modo de pensar na vida e nas coisas da vida, é confuso ou errado. Pensamos mal e, por isso, escolhemos mal.

    2) Porque, ainda que pensemos bem, quando chega a hora de “fazer o que queremos” (no caso, o que é bom, o que verdadeiramente nos vai realizar), não “podemos”, devido à fraqueza da nossa vontade.

    3) E finalmente, porque, mesmo começando a andar com lucidez e entusiasmo pelos caminhos bem escolhidos da nossa realização, pode suceder que não sejamos capazes de chegar até ao final por nos faltarem as forças necessárias; e que então desistamos, sucumbamos antes de termos atingido nenhuma meta.

    Cada um desses três perigos, cada uma dessas doenças da liberdade, pede um comentário, que o visitante do site poderá encontrar nos textos numerados sobre a liberdade, que irão sendo publicados em breve.

    (Adaptação de um trecho do livro de F. Faus: Autenticidade & Cia)


    10 sugestões aos católicos sobre a leitura da Bíblia.

    July 25th, 2009

     

    Permalink: http://www.zenit.org/article-22202?l=portuguese

    Para ler a Bíblia, deveríamos começar com uma oração para abrir nosso coração e nossa mente à Palavra de Deus e terminar “com uma oração para que esta Palavra dê fruto em nossa vida, ajudando-nos a ser pessoas mais santas e mais fiéis”.

    Começar e terminar de ler a Bíblia orando é uma das 10 sugestões para tornar frutífera a leitura da Bíblia para os católicos, oferecidas por Mary Elizabeth Sperry, diretora associada para o uso da New American Bible na Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB).

    As sugestões de Sperry, disponíveis no site http://www.usccb.org/mr/mediatalk/bible_catholics_sp.shtml, incluem saber o que é a Bíblia e o que ela não é.

    As 10 sugestões de Sperry são:

    1.Ler a Bíblia é para os católicos, sim. A Igreja estimula os católicos para que façam da leitura da Bíblia parte de sua vida diária de oração. Ao ler estas palavras inspiradas, as pessoas aprofundam em sua relação com Deus e chegam a entender seu lugar na comunidade daqueles que Deus chamou para si.

    2.Orar no começo e no final. Ler a Bíblia não é como ler um romance ou um livro de história. Deveríamos começar com uma oração pedindo ao Espírito Santo que abra nosso coração e nossa mente à Palavra de Deus. A leitura da Sagrada Escritura deveria terminar com uma oração para que esta Palavra dê fruto em nossa vida, ajudando-nos a ser pessoas mais santas e mais fiéis.

    3.Fique por dentro de toda a história! Ao escolher uma Bíblia, procure uma edição católica. A edição católica inclui a lista completa dos livros que a Igreja considera sagrados, assim como introduções e notas para compreender o texto. Toda edição católica inclui uma nota de imprimatur no verso da página de título; ele indica que o livro está livre de erros doutrinais segundo o ensinamento católico.

    4. A Bíblia não é um livro, é uma biblioteca. Ela é uma coleção de 73 livros escritos ao longo de muitos séculos. Tais livros incluem a história dos reis, profecias, poesias, cartas que desafiam as novas comunidades de crentes em dificuldade e relatos da pregação e da paixão de Jesus, transmitidos por parte dos crentes. O conhecimento do gênero literário do livro que se está lendo o ajudará a entender as ferramentas literárias que o autor utiliza e o significado que este procura transmitir.

    5.Saiba o que é a Bíblia – e também o que ela não é. A Bíblia é o relato da relação de Deus com o povo que Ele escolheu para si. Não está escrita para ser lida como um livro de história, nem de ciência, nem como um manifesto político. Na Bíblia, Deus nos ensina aquelas verdades de que precisamos para o bem da nossa salvação.

    6.O todo é maior que as partes. Leia a Bíblia em seu contexto. O que acontece antes e depois – inclusive em outros livros – nos ajuda a entender o verdadeiro significado do texto.

    7.O antigo tem relação com o novo. O Antigo e o Novo Testamentos se iluminam mutuamente. Ainda que leiamos o Antigo Testamento à luz da morte e ressurreição de Cristo, este tem também seu valor próprio. Juntos, os testamentos nos ajudam a entender o plano de Deus para a humanidade.

    8.Você não está lendo sozinho. Ao ler e refletir sobre a Sagrada Escritura, os católicos se unem àqueles homens e mulheres fiéis que levaram a sério a Palavra de Deus e a puseram em prática em sua vida. Lemos a Bíblia na tradição da Igreja para beneficiar-nos da santidade e sabedoria de todos os fiéis.

    9.O que Deus está me dizendo? A Bíblia não se dirige somente às pessoas que morreram há muito tempo em um lugar distante. Também se dirige a cada um de nós em suas próprias circunstâncias. Quando lemos, devemos entender o que o texto diz e como os fiéis entenderam seu significado no passado. À luz desse entendimento, então nos perguntamos: “O que Deus está me dizendo”.

    10.Ler não é suficiente. Se a Sagrada Escritura ficar somente em palavras em uma página, nossa tarefa não terminou. Precisamos meditar sobre a mensagem e colocá-la em prática em nossa vida. Somente então a Palavra pode ser “viva e eficaz” (Hb 4, 12).


    O Sacerdócio Edifica a Igreja

    July 21st, 2009

     Pe. Demétrio Gomes da Silva
    Diretor do Instituto Filosófico e Teológico do Seminário São José da Arquidiocese de Niterói

     

    Ao proclamar o Ano Sacerdotal, com ocasião da comemoração do 150º aniversário do dies natalis de São João Batista Maria Vianney o Santo Padre, Papa Bento XVI, disse que pretendia “contribuir para fomentar o empenho de renovação interior de todos os sacerdotes para um testemunho evangélico mais vigoroso e incisivo”. Este Ano Sacerdotal deve ser um tempo no qual não só os sacerdotes, mas todos os fiéis redescubramos a beleza deste grande dom que o Senhor confiou à Sua Esposa, a Igreja.

    Se todo cristão é um «Outro Cristo» – Alter Christus –, com muito mais razão o é o sacerdote. Homem configurado ao Senhor não só em virtude do sacramento batismal, mas também pela ordenação sacerdotal, que realiza nele uma identificação total com Cristo, Cabeça da Igreja. Podemos dizer que tal identificação é tão profunda, que já não existe uma alteridade perfeita entre Cristo e o sacerdote. Ele já não é somente um Alter Christus, mas Ipse Christus, o mesmíssimo Cristo.

    Estritamente falando, só existe um Único Sacerdote: Jesus Cristo. Todos aqueles que recebemos o dom do sacerdócio por imposição das mãos dos Apóstolos e seus sucessores somos sacerdotes n’Ele, isto é, participamos do seu único e sempiterno sacerdócio.

    O sacerdote perpetua a presença do Senhor na história dos homens de todos os tempos. Ele é chamado a fazer de sua voz, a voz de Seu Senhor; do seu olhar, o mesmo olhar amoroso do Mestre; de suas mãos, mãos que seguem curando e levantando aqueles que sofrem sob o peso de seus pecados. Parafraseando a Bem Aventurada Madre Teresa de Calcutá, podemos dizer, em uma palavra, que o sacerdote permite que Cristo siga amando através dele.

    Por mais que quiséssemos, jamais conseguiríamos abarcar por completo este mistério na Igreja de Deus. O Santo Cura d’Ars dizia aos seus, que se entendêssemos o que é um sacerdote, morreríamos, não de susto, mas de amor. Afirmava também que só no Céu, o sacerdote entenderá bem a si mesmo.

    A dignidade dos sacerdotes – a qual todos somos chamados a redescobrir neste Ano Sacerdotal – não consiste nas qualidades pessoais daqueles que são chamados a este ministério. Na verdade, parece que essas são inclusive bem escassas naqueles a quem o Senhor chama. Se Ele fosse seguir a lógica humana, certamente escolheria a outros. Há seguramente muito mais pessoas eloqüentes por aí, mais inteligentes, e até mesmo mais santas. Por certo, a criatura mais perfeita e bela que saiu das mãos de Deus, a Virgem Maria, não foi chamada ao sacerdócio. Aqui cai por terra a débil argumentação feminista, segundo a qual as mulheres deveriam ser também ordenadas, pois possuem a mesma dignidade que os homens. Em parte é verdade, mulheres e homens possuem a mesma dignidade diante de Deus, mas a dignidade do sacerdote – ignoram os feministas – não reside em que ele humanamente seja mais ou menos digno, mas no tesouro sobrenatural que ele porta, apesar do pobre vaso que é, na eleição que o próprio Deus fez dele.

    O Senhor chama aqueles que Ele quis (Cf. Mc 3,13). Essa é a razão suprema do chamado sacerdotal: o querer libérrimo de Deus, totalmente independente das qualidades pessoais daquele que é chamado. A vocação sacerdotal é, por isso, dom totalmente gratuito. Ninguém tem “direito” a recebê-la.

    A presença do sacerdote no mundo é absolutamente necessária para que a redenção alcance a todos os homens. A ação mais sublime que um homem pode realizar na terra – consagrar o Corpo e o Sangue do Senhor, e perdoar os pecados – só pode ser realizada por um sacerdote. “O padre possui a chave dos tesouros celestes: é ele que abre a porta; é o ecônomo do bom Deus; o administrador dos seus bens (…). Deixai uma paróquia durante vinte anos sem padre, e lá adorar-se-ão as bestas” (São João Maria Vianney).

    Sem padre, não há Eucaristia, e, sem Eucaristia, não há Igreja. O teólogo francês, Henri de Lubac, afirmava que a “Eucaristia edifica a Igreja”. Podemos aqui acudir também a uma paráfrase e dizer que “o sacerdócio edifica a Igreja”. O caminho inverso, infelizmente, também é verdadeiro. Se alguém quiser desedificar a Igreja, tentará fazê-lo procurando destruir o sacerdócio. O demônio e os seus amigos sabem muito bem disso, e, como não tiram férias, tentam a todo o momento macular a imagem dos sacerdotes entre os homens.

    Essa é a única razão pela qual os pecados dos ministros de Cristo são lançados aos quatro ventos, para que todos os contemplem e deixem de perceber o tesouro que escondem por detrás de suas fragilidades humanas. Não sejamos ingênuos: qual outra razão teriam em publicar em diversos meios de comunicação as misérias desses homens?

    É verdade, lamentavelmente, que existem – sejamos realistas – sacerdotes que profanam o seu celibato com toda a espécie de corrupção sexual que a criatividade dos filhos de Adão pode imaginar, sacerdotes que se vendem por dinheiro, que desobedecem às normas da Igreja, enfim. Como afirmou o Papa Bento XVI, “nada faz a Igreja, Corpo de Cristo, sofrer mais que os pecados dos seus pastores, sobretudo daqueles que se convertem em “ladrões de ovelhas” (João 10, 1ss)”. É um dano inimaginável o que esses maus pastores podem causar às almas de quem eles deveriam salvar, sobretudo porque um sacerdote nunca se condena sozinho. Porém, devemos estar muito vigilantes para que jamais sejamos tomados de certo espírito pessimista, que nos leve a pensar que todos os sacerdotes estão corrompidos, que nos faça, enfim, deixar de contemplar a beleza do ministério sacerdotal, e maravilhosa ação que Deus prodigaliza por meio desses homens.

    Diante de tantas sombras, temos que afirmar – também com realismo –, que a imensa maioria dos sacerdotes temos o desejo de sermos fiéis à nossa vocação. Ainda com toda nossa debilidade, que compartilhamos com os nossos irmãos homens, temos o anseio sincero de conversão, de santidade, e para isso, nos confessamos, buscamos uma direção espiritual, e aproveitamos todos os meios ascéticos para colaborar com a graça de Deus em nós. Quantos são os sacerdotes que se consomem diariamente, nos altares de distantes igrejas, no silêncio dos confessionários, nos hospitais, e em tantos outros lugares, para conduzir ao Céu aquelas almas que lhe são confiadas, ocultos aos olhos dos meios de comunicação?

    Aproveitemos esta inspirada iniciativa do Santo Padre para fazer novamente brilhar o esplendor do sacerdócio na Igreja Católica. Esplendor que, nem sequer, a miséria dos pastores enfermos – não existem maus pastores, mas pastores doentes – poderão roubar da Santa Igreja. Resgatar práticas simples, mas carregadas de fé, como, por exemplo, pedir a bênção aos sacerdotes. Incentivá-los a que se vistam como padres. Rezar muito pela sua conversão. Fazer, de alguma forma, com que nós mesmos redescubramos o tesouro que recebemos em nossa ordenação e recuperemos nossa identidade diante da Igreja e do mundo.

    Certa vez ouvi dizer que a sociedade civil é um reflexo da sociedade eclesiástica. Se isso é verdade, pense no que poderíamos fazer no mundo com um punhado de sacerdotes santos?

    Fonte: Presbíteros.