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    O Sofrimento Junto aos Doentes

    June 29th, 2009

    Bento XVI meditou sobre o enigma do sofrimento, ao visitar a Casa Alívio do Sofrimento, o hospital fundado há 53 anos por São Pio de Pietrelcina (1887-1968), na localidade em que desempenhou seu ministério.

    “A doença, que se manifesta de muitas formas e nos atinge de maneiras diferentes, suscita inquietantes perguntas: por que sofremos? A experiência da dor pode ser considerada positiva? Quem pode nos livrar do sofrimento e da morte?”.

    “Interrogantes existenciais, que na maioria das vezes ficam humanamente sem resposta, dado que o sofrimento constitui um enigma inescrutável para a razão.”

    “O sofrimento faz parte do próprio mistério da pessoa humana”, constatou o pontífice, observando que “certamente, é preciso fazer todo o possível para diminuir o sofrimento; mas eliminá-lo totalmente do mundo não está dentro das nossas possibilidades, simplesmente porque nenhum de nós é capaz de eliminar o poder do mal, fonte contínua de sofrimento”.

    “O único que pode eliminar o mal é Deus – assegurou. Precisamente pelo fato de que Jesus veio ao mundo para revelar-nos o desígnio divino da nossa salvação, a fé nos ajuda a penetrar no sentido de tudo o que é humano e, portanto, também do sofrimento.”

    “Existe, então, uma íntima relação entre a Cruz de Jesus, símbolo da suprema dor e preço da nossa verdadeira liberdade, e a nossa dor, que se transforma e se sublima quando é vivida com a consciência da proximidade e da solidariedade de Deus”, afirmou.

    O pontífice recordou que o Padre Pio, canonizado por João Paulo II em 2002, mostrou “esta profunda verdade” no primeiro aniversário da fundação deste hospital, quando disse que, nele, “quem sofre deve viver o amor de Deus por meio da sábia aceitação das suas dores, da serena meditação do seu destino”.

    ORAÇÃO a SÃO PIO de PIETRELCINA (PADRE PIO)

    Ó Deus, que doastes a São Pio de Pietrelcina, sacerdote capuchinho, o insigne privilégio de participar, de modo admirável, da Paixão de vosso Filho, por sua intercessão, dai-me a graça… que tanto desejo; e, sobretudo, concedei-me unir-me à Paixão de Jesus, para depois chegar à Sua gloriosa ressureição. Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.”

    Fonte: http://blog.paroquiansconceicao.org.br/2009/06/o-sofrimento-junto-aos-doentes/


    Esquecimento de Deus: A Religião Self-Service…

    June 21st, 2009

    “Quem descobriu Cristo deve conduzir os outros a Ele. Uma grande alegria não se pode ter para si. É preciso transmiti-la. Em vastas partes do mundo existe hoje um estranho esquecimento de Deus. Parece que tudo caminha igualmente sem Ele. Mas existe, ao mesmo tempo, também um sentimento de frustração, de insatisfação de tudo e de todos. É espontâneo exclamar: não é possível que esta seja a vida! Deveras, não. E assim, juntamente com o esquecimento de Deus existe um “boom” do religioso. Não quero desacreditar tudo o que existe neste contexto. Pode existir nisto também a alegria sincera da descoberta. Mas para dizer a verdade, não raramente a religião se torna quase um produto de consumo. Escolhe-se aquilo de que se gosta, e alguns sabem até tirar dela um proveito. Mas a religião procurada a seu “bel-prazer” no fim não nos ajuda. É cômoda, mas no momento da crise abandona-nos a nós próprios. Ajudai, queridos amigos, os homens a descobrir a verdadeira estrela que nos indica o caminho: Jesus Cristo! Procuremos nós próprios conhecê-lo sempre melhor para poder de maneira convincente guiar também os outros para Ele. Por isso, é tão importante o amor pela Sagrada Escritura e, por conseguinte, é importante conhecer a fé da Igreja que nos apresenta o sentido da Escritura. É o Espírito Santo que guia a Igreja na sua fé crescente e que a fez e faz penetrar cada vez mais nas profundezas da verdade”.

    Bento XVI, Homilia, 21/8/2005.


    “Trabalha com alegria”

    June 17th, 2009

    Se afirmas que queres imitar a Cristo… e te sobra tempo, andas por caminhos de tibieza. (Forja, 701)

    As tarefas profissionais – o trabalho do lar também é uma profissão de primeira grandeza – são testemunho da dignidade da criatura humana; ocasião de desenvolvimento da própria personalidade; vínculo de união com os outros; fonte de recursos; meio de contribuir para a melhoria da sociedade em que vivemos e de fomentar o progresso da humanidade inteira…

    - Para um cristão, estas perspectivas alargam-se e ampliam-se ainda mais, porque o trabalho – assumido por Cristo como realidade redimida e redentora – se converte em meio e caminho de santidade, em tarefa concreta santificável e santificadora. (Forja, 702)

    Trabalha com alegria, com paz, com presença de Deus.

    - Desta maneira, além disso, realizarás a tua tarefa com bom senso: mesmo que o cansaço te esgote, chegarás ao fim, acabá-la-ás bem…, e as tuas obras agradarão a Deus. (Forja, 744)

    Deves manter – ao longo do dia – uma constante conversa com o Senhor, que se alimente também das próprias incidências da tua tarefa profissional.

    - Vai com o pensamento ao Sacrário…, e oferece ao Senhor o trabalho que tenhas entre mãos. (Forja, 745) [Topo]

           Opus Dei.Org


    A Verdade e Vida

    June 15th, 2009

    Pode-se viver sem a “verdade”?

    O que é a verdade? Existe mesmo a verdade, uma verdade segura que possa ser alicerce firme para a nossa conduta, referencial claro que nos oriente, luz diáfana que nos esclareça nas dúvidas da vida nos cumule de paz? Que não nos deixe perdidos dando voltas dentro do nevoeiro da consciência?

    Vamos começar esta reflexão sobre a verdade e a vida formulando previamente outras perguntas: Qual é o sentido da vida humana? Quais são os valores que lhe dão autenticidade e grandeza? O que leva o homem a ser feliz, e o que o ilude com as miragens de satisfações efêmeras e traiçoeiras? O que constrói a personalidade de um filho de Deus e o que a destrói?

    É importante pôr em pauta esses temas, porque – especialmente hoje -são decisivas. Da boa ou má resposta que dermos a elas depende o futuro da humanidade, a começar pelo futuro da juventude que hoje se abre à vida. Não é de estranhar, por isso, que João Paulo II se tenha empenhado infatigavelmente em dar doutrina clara, idéias claras (luz de Deus!) sobre as questões morais em que mais se desorienta e claudica o católico atual, sujeito à vertigem de erros que gritam muito forte.

    Hoje são colocados diariamente sobre um pedestal, glorificados pelo materialismo laicista e incentivados pela mídia, comportamentos morais que destroem a dignidade do homem e da mulher, criados à imagem de Deus; que aviltam a grandeza do amor, e a do sexo, e a do casamento, e a da família, e a do caráter sagrado da vida e da morte… Hoje todos falam dessas questões, essencialmente éticas, e, portanto, todos têm que tomar uma posição – um juízo de valor – a respeito delas. Conforme for essa posição, assim será o que as pessoas vão “passar” aos filhos e, em geral, à juventude…

    É importante não nos enganarmos, fazendo de conta que tudo está bem conosco, e perguntar-nos a sério: – Qual é a luz, qual é o referencial – como um farol potente à beira-mar, como a estrela que guia os navegantes – ao qual me reporto para emitir um parecer correto sobre esses temas candentes? Basta pensar no aborto, na clonagem, na eliminação do feto anencefálico, na fecundação in vitro, nas pesquisas com células-tronco embrionárias, nas manipulações genéticas, no uso de métodos artificiais (muitos deles abortivos) de contracepção, e no divórcio, nas relações pré-matrimoniais, na “pílula do dia seguinte”, etc.

    Antes de prosseguir, já me parece ouvir algum leitor precipitado, gritando: – Só pelo modo de levantar essas questões, dá para perceber que o senhor é “conservador” (insulto, hoje, o pior possível), incapaz de acompanhar a evolução da ciência e dos costumes.

    Caso realmente alguém pense assim, vou limitar-me a fazer-lhe a pergunta básica de toda a filosofia e de toda a ciência: – Por que?

    Sim. Por que acha isso? Quais são os seus parâmetros para dizer que uma atitude é certa ou errada, autêntica ou superada? Por outras palavras: quem e o quê definem o bem e o mal, o certo e o errado de atitudes e comportamentos? Com que critérios deve ser definido o bem e o mal?

    Liberdade e verdade

    Sem meter-me em amplas filosofias, que ultrapassariam o escopo deste comentário, vou começar dizendo que só podem ser dadas duas respostas às perguntas que fazíamos acima. Vou repeti-las:- Quem é que define o bem e o mal, o certo e o errado? Com que critérios o bem e o mal deve ser definido?

    A primeira resposta diz que o referencial, o oráculo sobre o bem e o mal, a agulha magnética da bússola do comportamento, é a “liberdade”. Parte-se da base de que não há valores absolutos nem verdades permanentes. Deus, caso exista, estaria ausente, desinteressado do mundo e não contaria para nada. Por isso, cada qual teria que escolher livremente o que achar certo ou errado e agir de acordo com a sua opinião (chamada, erradamente, de consciência pessoal1). Rejeitam-se quaisquer princípios ou normas morais objetivos, absolutos e universalmente válidos. Se alguém achar, subjetivamente, certo um comportamento e não for contra a lei vigente no país (não importa se a lei é justa ou injusta), a sua conduta será boa e a consciência deverá ficar tranqüila. A “norma moral”, em todos os casos, será o resultado da “sincera” opinião pessoal e, sobretudo, do “consenso” das opiniões da maioria numa determinada época, simples opiniões, condicionadas por determinadas circunstâncias históricas. Poucos anos depois, a opinião poderá ser diferente. Mais adiante, a “norma” moral boa virá a ser inclusive a contrária.

    Já se vê que essa moral de “consenso” (que é a moral típica dos laicistas) só tem como referenciais, por um lado, o consenso social (o que vai sendo socialmente aceito, sendo que a sociedade permissiva tende a ser cada vez mais concessiva com o mal); por outro lado, a ideologia dominante na mídia, ou seja, o que jornais, revistas, tv, etc, apregoam como comportamento “normal”, moderno, avançado, como, por exemplo, a legitimação do aborto, da prática e propaganda do homossexualismo, a religião subjetiva, sem dogmas nem verdades, etc.; e, em terceiro lugar, as decisões majoritárias dos órgãos legislativos (Congresso, Parlamento, etc.). Só um ingênuo desconhece que essas opiniões “majoritárias” quase sempre começam sendo forjadas pela ação aguerrida de grupos de pressão e lobbies econômicos de “minorias”. Essa propaganda das “minorias”, encampada por órgãos poderosos da mídia e políticos, devidamente “engraxados” pelo dólar, influencia fortemente o pensamento de uma massa ingênua e intelectualmente “rasa”, e acaba por pressionar (política e economicamente) os organismos legislativos.

    Já reparou que uma moral de “consenso”, como a que hoje se afirma que é a única válida (execrando os que pretendem defender “princípios” intocáveis, como o direito à vida), leva a verdadeiras aberrações (casamento homossexual, aborto quase ilimitado, eliminação de fetos e até de crianças já nascidas com algum defeito, etc.). Essa moral, sem afastar-se um milímetro da sua lógica intrínseca, pode achar, daqui por alguns anos (quando a sociedade tiver, como terá, predominância de velhos), perfeitamente “moral” e “legal” matar crianças sadias de dois, três ou mais anos (sempre que a morte delas seja “doce” e não haja parentes que vão sofrer), para pesquisa, e para desmanche e transplante de órgãos e tecidos em velhos doentes que querem sobreviver a custa do infanticídio. Bastará para tanto que, com falácias, dólares, marketing e passeatas se forje um “consenso”, e se argumente (como hoje se faz com o uso de embriões), que o sacrifício de um só trará benefícios a dezenas, talvez a centenas de outros.

    Em face dessa situação, que se pode dizer, por exemplo, dos pais que pensam que, no mundo moderno, pais não devem “doutrinar” (ensinar) os filhos, pois isso atentaria contra sua liberdade; que pensam que é preciso deixar que eles – sem ter-lhes dado noções para julgar sobre a verdade – “escolham” com liberdade a sua moral, seus próprios crit?
    ?rios e condutas? O que se pode e deve dizer é que esses pais são cúmplices atuais ou potenciais de todas essas outras possíveis aberrações

    A essa filosofia de vida, que é a do subjetivismo e do relativismo que, ao não reconhecer nada como definitivo, só tem como medida última o próprio eu com seus gostos e que, com a aparência da liberdade, converte-se para cada um numa prisão, fazendo com que cada indivíduo se encontre fechado no seu próprio eu. Em um horizonte relativista assim não é possível uma autêntica educação. Sem a luz da verdade, antes ou depois toda pessoa fica condenada a duvidar da bondade da sua própria vida e das relações que a constituem, da validade do seu compromisso para construir com os demais algo em comum”2 moral, referia-se Bento XVI, falando da educação dos filhos no âmbito da família: “Um obstáculo particularmente insidioso na obra educativa é hoje a massiva presença em nossa sociedade e em nossa cultura desse tipo de

    Com grande lucidez, Bento XVI mostra que o subjetivismo relativista, sem valores nem verdades indiscutíveis, fecha a pessoa no egoísmo, tornando-a prisioneira dos seus caprichos e prazeres, e, por isso mesmo, asfixiando-lhe a liberdade e a capacidade de amar. A falsa liberdade, que faz de si mesma a lei (e à qual os egoístas chamam – como víamos – “a minha consciência”), é a que diz “quero porque quero” (porque me apetece e pronto); ao passo que verdadeira liberdade é a que diz “quero porque é bom, quero porque compreendi que é verdadeiro, quero porque agora sei que isso é o que a sabedoria e a bondade de Deus quer”. Foi para isso, para achar e escolher a verdade e, dentro dela, o bem, que Deus nos deu a liberdade.

    Veja como se expressa a esse respeito João Paulo II: “A liberdade foi dada ao homem pelo Criador simultaneamente como dom e como tarefa; com efeito, por meio da liberdade, o homem é chamado a acolher e a realizar o bem na sua verdade, escolhendo e exercendo o bem verdadeiro na vida pessoal e familiar [...]. A liberdade é autêntica na medida em que realiza o bem na verdade, só então ela é um bem. Se a liberdade deixa de estar ligada à verdade e começa a fazer-se depender de si mesma ["faço o que quero e porque quero" - dizíamos], colocam-se as premissas de nefastas conseqüências morais, cujas dimensões são às vezes incalculáveis”3

    Toda a admirável encíclica Veritatis Splendor (O esplendor da verdade)4, de João Paulo II é uma reflexão profunda sobre as relações entre a liberdade e a verdade. Interessa-nos agora lembrar que esse documento começa comentando a passagem evangélica do diálogo do jovem rico com Jesus (Mt 19,16-22): Mestre, que devo fazer de bom para alcançar a vida eterna? Jesus responde: Por que me interrogas sobre o que é bom? Um só é bom [Deus]. Mas, se queres entrar na vida eterna, cumpre os mandamentos. O jovem pergunta quais são eles, e Jesus esclarece-o mencionando explicitamente os Dez Mandamentos. Como o rapaz diz tê-los cumprido desde a infância, Jesus olha para ele com afeto e lhe diz: – Se queres ser perfeito, desprende-te das coisas puramente materiais e; depois, vem e segue-me.

    Dizíamos acima que há duas respostas sobre o por que das qualificações morais: “isto é o bem, isto é o mal”. Uma é a liberdade egoísta e arbitrária. A outra, é a Vontade de Deus, a lei de Deus, seus mandamentos. Na mesma encíclica, lemos: “Deus, que é o único bom, conhece perfeitamente o que é bom para o homem e, devido ao seu mesmo amor o propõe nos mandamentos”.

    Sim. Há um referencial claro, que é o esplendor da verdade de Deus: em matéria moral, os mandamentos da Lei de Deus, proclamados no Sinai, mandamentos que “nos ensinam a verdadeira humanidade do homem” e “enunciam as exigências do amor de Deus e do próximo”5; mandamentos que resumem a Lei divina natural, válida para todos os povos e todas as crenças, e que foram elevados até o máximo nível do amor pelos ensinamentos e o exemplo de Cristo6. Deus não nos deixou ás escuras. Depois da vinda do nosso Salvador, Jesus Cristo, já não andamos mais às apalpadelas (cf. At 17,27), porque temos a luz da vida (Jo 8, 12).

    Com toda a segurança, pois, podemos dizer com o Salmo: Lâmpada para os meus passos é a tua palavra, e luz no meu caminho (Sl 119,105).

    (Adaptação de um texto do livro de F.Faus: A força do exemplo)


    1 Cf. F. Faus: A voz da consciência, Ed. Quadrante, São Paulo 1996
    2 Homilia na abertura do Congresso Eclesial da diocese de Roma sobre a Família, no dia 07.05.2005
    3 Cf. João Paulo II: Memória e identidade, Ed. Objetiva, Rio de Janeiro, 2005, págs. 54-55
    4 O esplendor da Verdade, de 06.08.1993.
    5 Catecismo da Igreja Católica, nn. 2067 e 2070.
    6 Cf. O Sermão da montanha, em Mateus, 5, 1-48.


    A Tua Maneira de Viver

    June 11th, 2009

    Por Padre Leo Trese

    Desprendimento

    “É fácil acabarmos por ser escravos das coisas. O instinto de posse no homem é um instinto bom, é uma parte da natureza humana criada por Deus. O direito do homem à propriedade privada, o seu direito de possuir o que possa ser necessário ao seu bem-estar espiritual e temporal, é algo que a Igreja tem defendido através dos séculos. Se o direito à propriedade não fosse um impulso bom, renunciar livremente a ele pelo voto de pobreza deixaria de ter o mérito que na realidade tem. No entanto, a paralisia espiritual derivada do pecado original torna-nos difícil o controle dos nossos desejos e instintos, que são bons em si mesmos. Quem é vítima de paralisia verificará alguma vez que, ao tentar alcançar um objeto, pela sua falta de coordenação motora, estende o braço longe demais ou perto demais. De maneira parecida, é-nos freqüentemente difícil manter dentro dos objetivos queridos por Deus os impulsos naturais com que Ele nos enriqueceu. É-nos muito fácil perder o autodomínio e cair num extremo ou noutro.

    Esta a razão pela qual o nosso instinto de posse por vezes toma o freio entre os dentes e se transforma no vício da ambição, que é o de obter bens à custa dos outros – essa ambição que leva ao desfalque, à fraude e a todo o tipo de injustiças. No entanto, existe um outro gênero de cobiça que é mais insidioso, apesar de ser menos deplorável: é o de afanar-se desmedidamente numa busca desordenada e excessiva de bens materiais. Quase todos nós estamos expostos a esta espécie de cobiça, e contra ela devemos prevenir-nos.

    Semelhante apetência desordenada talvez não desemboque numa conduta criminosa, mas costuma ser causa de graves injustiças contra os outros. Tomemos como exemplo o pai de família tão ansioso de ganhar dinheiro que raramente a sua esposa e filhos têm ocasião de ver-lhe a cara. Dir-vos-á que se esgota tanto apenas em benefício da família, quando na realidade o que ama de verdade é o dinheiro ou tudo o que o dinheiro pode comprar. Se interrogasse os seus, perceberia que preferem tê-lo mais tempo a seu lado e arranjar-se com menos dinheiro.

    A situação agrava-se de modo considerável quando a dona-de-casa também trabalha fora do lar. Argumentará assim: “Com meu ordenado extra posso fazer muito aos meus filhos”; mas o certo é que adora o sentimento de independência que esse ordenado proporciona. E ainda que traga para casa alguns milhões todos os meses, jamais recuperará para os seus filhos a felicidade e a segurança que estes perdem em conseqüência das suas ausências desnecessárias do lar.

    O demônio não precisa trabalhar muito para atrair-nos com o chamariz da ambição. E não se mexerá enquanto uma grande parte da publicidade trabalhar em seu proveito. Vistosos anúncios a cores em todas as páginas das revistas semanais nos tentam com as mil e uma utilidades novo produto, e os anúncios em preto e branco dos jornais dirão em complemento que teremos vantagens enormes se o adquirirmos sem perda de tempo.

    Um fato da vida real pode convencer-nos das incongruências a que leva a cobiça. Dois vizinhos tem cada um, o seu carro. Um possui um modelo simples, de dois anos atrás, mas que desempenha perfeitamente o seu papel na cidade e nas eventuais viagens que tenha de fazer. O outro dispõe do “carro do ano” em versão luxo – muito mais caro, obviamente, do que o primeiro -, e que além de cumprir exatamente as mesmas funções que o anterior, lhe toma aproximadamente o triplo do tempo com polimentos, lavagens e manutenção. Apesar disso, o primeiro faz planos para comprar um modelo luxo, considerando os reajustes do ordenado que estão por vir, enquanto o segundo pensa em desfazer-se do seu para adquirir o próximo modelo, um três volumes superluxo, muito mais caro, e que lhe reclamará ainda mais tempo e dinheiro por ser muito mais sofisticado.

    Consigamos o que conseguirmos, a ambição nunca nos deixará satisfeitos se lhe permitirmos tomar conta de nós. A cobiça alimenta-se da vaidade, e sempre haverá alguém que possua o que nós ainda não chegamos a alcançar, ou será lançado um modelo novíssimo que nos faça detestar o antigo. Basta folhear uma revista: “Invista em qualidade”, “Esteja à frente do seu tempo”, “Por que não pensei nisso antes?”, “Brilhe como nunca!”, “Áudio e vídeo em toda a sua expressão”, “Estéreo espacial: ligou, viajou”, e assim todos os demais cantos de sereias. Para que haveria o demônio de incomodar-se em trabalhar? Uma vez que a ambição se apodera de nós, passa a dominar-nos uma sede insaciável, semelhante à sede do náufrago que, quanto mais água salgada bebe, mais sede experimenta. Quanto mais coisas a pessoa ambiciosa adquire, mais vontade tem de possuir.

    O antídoto da ambição é o espírito de desprendimento que, basicamente, significa possuir um sentido verdadeiro da proporção, um verdadeiro sentido dos valores, tanto dos espirituais como dos humanos e materiais. O homem desprendido nunca é escravo das coisas. Contenta-se em ter aquilo de que necessita, sem se deixar afetar por essa massacrante propaganda comercial. Pode até chegar a desfazer-se, em qualquer momento, daquilo que já possui, se os seus deveres para com Deus ou para com o próximo assim o exigem. É o caso da família cujos membros se sentem felizes vendo os outros felizes, e preferem de verdade a integridade do seu lar ao dinheiro extra no mês e à abundância de meios materiais. O Verdadeiro desprendimento é mais difícil do à primeira vista parece. Mas podemos chegar a possuí-lo pela oração e pela retidão de pensamento.

    A Mentalidade Prática: O Secularismo

    Um dos obstáculos mais ocultos, e no entanto mais perigosos, para a plenitude da vida cristã é a atmosfera semipagã em que vivemos. Aqui, na América, tratamos a Deus do mesmo modo como tratamos um ex-presidente: com a deferência devida a quem foi uma figura poderosa, mas que na realidade, hoje conta pouco. Escutamos suas palavras com interesse, mas sem esse sentimento que nos move a agir de acordo com tudo que nos diz. Raras vezes se nega Deus abertamente; antes o ignoramos. E ignoramo-lo na vida política, econômica e social da nossa nação. Deus conta tanto como se fosse um outro cidadão qualquer.

    Esta atitude para com Deus é o que chamamos espírito de secularismo. A religião é boa, diz o secularismo. É bom ir à igreja aos domingos; é bom rezar. Mas quando a religião se relaciona com a nossa luta diária pela vida, devemos ser práticos. Quando se trata de fazer projetos, quando se trata de levar à prática as decisões, a única coisa que importa é isso: Como tirar o máximo de proveito? O secularismo acharia uma piada a idéia de olhar as coisas do dia a dia do ponto de vista divino. Esse tipo de pensamento fica para os visionários. Deixemos a religião na igreja; esse é o seu lugar. Dia após dia vivemos e respiramos nesta atmosfera de utilitarismo. Não é de estranhar, pois, que os nossos espíritos se infectem. Também não é de estranhar que encontremos indivíduos que continuam a considerar-se “católicos praticantes”, ainda que o seu catolicismo se tenha reduzido há muito tempo à Missa dominical.

    Temos o exemplo da mulher que recebe com freqüência a Sagrada Comunhão. ” É claro – confidencia a uma amiga – que eu não me confesso de usar a pílula. Acho que isso é um problema meu e não da Igreja”. A pobre mulher não chega a perceber que a sua fé está mais do que morta, e que as suas práticas religiosas estão reduzidas a uma casca de ovo vazia. Porque, se não acaba de compreender que a Igreja fala em nome de Deus ao interpretar a sua Lei, demonstra que não crê realmente na Igreja. E é absolutamente ilógica quando afirma que crê na Confissão e na Sagrada Comunhão, já que é a própria Igreja, em nome de Cristo, quem garante a realidade desses sacramentos. O secularismo – “deixem a religião no seu lugar” – já fez mais uma vítima.

    São inúmeros os exemplos que se podem dar desta contaminação secularista, desta espécie de pensamento torcido. Temos os pais católicos que se esquecem dos ensinamentos da Igreja sobre as relações pré-matrimoniais: “Não vejo nisso nada mau. Os jovens de hoje são diferentes dos da nossa época. Aliás, todos os colegas da escola se portam assim”. Vemos católicos que se dedicam aos negócios, ou à política, ou às mais diversas profissões, e que encolhem os ombros diante de umas “fraudezinhas”: “Eu sei que a Igreja diz isso é errado, mas é preciso enfrentar os fatos se quero sobreviver. Todos fazem o mesmo, e se eu não o fizer, vou acabar dando-me mal”.

    E os católicos jovens que dizem: “A Igreja é muito reacionária, não entendo que uma ‘amizade colorida’ seja assim tão perigosa”. Temos também o caso do católico segregacionista que comenta :”É ótimo falar de justiça social, mas o Papa não convive com essa gente como eu”. Ouçamos a sogra católica: “Sim, eu sei que não está certo que um divorciado se case de novo, afinal de contas as crianças precisam de uma mãe”. Também não falta o católico auto-suficiente que sentencia: “Embora este filme tenha sido desaconselhado, não me fará mal nenhum; tenho idade suficiente para julgar por mim mesmo”.

    Nenhum dos que assim se manifestam teria valentia suficiente para dizer simples e diretamente: “Gosto de fazer as coisas quando me são fáceis, mas não quando supõem sacrifício”. A todos esses, fá-los-iam baixar os olhos de vergonha os mártires de épocas passadas, e particularmente os mártires de hoje do outro lado da cortina de ferro. Nenhum deles se atreveria a confessar: “O que me acontece, simplesmente, é que não concordo com Deus”.

    Sempre tratarão de estabelecer uma distinção imaginária entre Cristo e a sua Igreja, e cegar-se-ão eles próprios na sua própria inconsistência. Se a Igreja não é o arauto de Cristo, para que crer em alguma coisa? Cristo não nos permitirá interpor obstáculos entre Ele e a sua Esposa. Não podemos passar pelo lado de fora da Igreja, confiando em encontrar Cristo do outro lado. É evidente que os exemplos que expusemos são as conseqüências extremas a que nos pode levar o poluído ar secularista que nos envolve. Talvez não tenhamos ido tão longe, mas não há dúvida de que necessitamos vez por outra de tomar a nossa temperatura espiritual e diagnosticar o grau de infecção.

    Verdadeiramente,seremos bem-aventurados se tivermos aprendido a pensar com Cristo e com a sua Igreja, se nos tivermos treinado em viver por princípios, tanto nas coisas pequenas como nas de maior envergadura. Isto significará que vivemos na presença de Deus em cada momento da nossa existência, e não somente aos domingos na igreja. Quererá significar que o ingrediente básico de todas as nossas decisões é “aquilo que Deus desejaria que eu fizesse”. Quererá significar que Cristo e o seu Corpo Místico são indivisíveis e que é a Sua voz que fala através da Igreja. Com a graça de Deus, podemos viver num mundo secularizado sem que a infecção nos atinja. Mas isso é uma graça que temos de pedir”.

    Fonte: Não Vos Preocupeis – TRESE, Leo – Editora Quadrante – São Paulo 1991 – 3@ Edição – Tradução: Emérico da Gama .

    Disponível em: É Razoável Crer ?