Sunday, 20 of May of 2012

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5a Feira Santa: Instituição da Eucaristia e do Sacerdócio.

QUINTA-FEIRA SANTA
CELEBRAÇÃO DA INSTITUIÇÃO
DA EUCARISTIA E DO SACERDÓCIO
João Bosco Oliver de Faria
Arcebispo de Diamantina

Celebrando nesta noite a instituição dos mistérios da Eucaristia, do sacerdócio e a unidade da Igreja, realizaremos a bênção dos Óleos dos Catecúmenos, dos Enfermos e consagraremos o óleo do Santo Crisma para as celebrações dos santos sacramentos ao longo do ano. Participam conosco os fiéis desta Paróquia Santo Antônio da Catedral, as representações de todas as paróquias da Arquidiocese, o clero e os seminaristas. Rezam, ainda conosco, os pais de nossos sacerdotes.

Queremos com esta Eucaristia elevar nossas vozes ao Céu para agradecer a generosidade desses pais que ofereceram seus filhos ao serviço de Cristo e da Igreja, oferecendo assim o que tinham de melhor em suas vidas.

Queridos pais, quero lhes dizer que a Igreja lhes é grata por poder contar com a presença valiosa de seus filhos na obra da santificação do nosso povo. Aquele que prometeu recompensar cem vezes mais um copo de água dado em Seu nome, sabe e saberá recompensá-los por tal gesto, na grandeza de Sua misericórdia.

Se Santo Agostinho dizia tristemente a Jesus: “Tarde demais Te conheci, tarde demais eu Te amei”, graças aos nossos pais podemos dizer: “Obrigado Senhor, por tê-Lo conhecido tão cedo, desde a infância. Obrigado Senhor por poder amá-Lo desde jovem!” Vocês, pais, são os principais mediadores da graça da vocação recebida por seus filhos. Vocês são, pelos desígnios da misericórdia divina, aqueles que, com o próprio exemplo e oração, garantiram a esses filhos a graça da fidelidade à vocação recebida. A oração dos pais pelos próprios filhos tem, diante de Deus, uma força diferente e maior. Vocês são e devem ser o grande apoio espiritual para o filho padre. Rezem por ele, sempre.

Ouço, às vezes, que quando os pais deixam seus filhos irem para o Seminário, acontece que eles perdem os filhos. Felizmente, nada disso é verdade: é tudo ao contrário. Os filhos consagrados à vida religiosa, os filhos sacerdotes são os que se sentem mais livres para amparar e dar presença aos próprios pais, quando a doença chega, ou quando se prolongam os anos de vida. Posso testemunhar isso com o exemplo de meus próprios pais. Fomos, os dois filhos padres e nossa irmã religiosa, aqueles que mais se fizeram presentes em suas vidas, sobretudo quando a idade se aproximou da beleza dos noventa e dos cem anos. Como foi importante e boa a presença de minha irmã religiosa na assistência atenta aos dois velhinhos. E como nós dois sacerdotes, mais que nossos irmãos casados, podíamos dispor de mais tempo para estar com eles.

Deus se fará presente em suas vidas, de maneira misteriosa, mas atenta e constante, enriquecendo-os com Sua bênção, com Seus dons e graças. Como Arcebispo de Diamantina, trago-lhes nesta Eucaristia, queridos pais, a gratidão da Igreja.

Caros fiéis, irmãs e irmãos em Cristo,

quero, agora, ser o intérprete de seus corações para dizer aos seus sacerdotes o quanto vocês os amam e lhes querem bem, desejando-os alegres e felizes em seu ministério sacerdotal. Interpreto, pois, a gratidão das comunidades de nossas paróquias, aos nossos padres que se sacrificam e se doam totalmente, sem reservas, para ensinar-lhes os caminhos do Céu, fazendo-as crescer no amor de Deus.

Meus queridos padres:

“Desejei, ardentemente, comer esta Páscoa convosco” (Lc 22, 15). Sinto uma alegria profunda em poder celebrar com vocês esta Eucaristia. Sou e quero ser o Arcebispo de cada um de vocês. Sou, diante de Deus, o responsável por suas vidas e por sua alegria no exercício do ministério sacerdotal. Fico feliz quando vejo vocês felizes. Eu sou de vocês, pertenço a cada um de vocês. Minha grande preocupação, como Arcebispo de Diamantina, é a de dar a cada um a alegria de ser sacerdote e de pertencer a esse Presbitério.

Queridos padres: abram suas próprias mãos e olhem atentamente para elas. Contemplem as próprias mãos.

Voltemos a um momento histórico e central de suas vidas: o dia de sua ordenação sacerdotal, quando o Arcebispo que os ordenou, ungiu as suas mãos. Vocês estavam ajoelhados, atentos a observar o óleo santo que se espalhava, exalando seu perfume balsâmico e tão característico. Depois ele uniu suas mãos em posição orante e as atou com uma fita. Suas mãos foram consagradas, fechadas para as coisas do mundo e para qualquer amor exclusivo. Vocês se levantaram, foram até seus pais, e suas mães, emocionadas, desataram os laços daquela fita, abrindo suas mãos para a exclusividade de um amor que só poderia ser o de Deus. Elas desataram suas mãos para batizar transmitindo às crianças a Vida de Deus, para consagrar as espécies eucarísticas, para perdoar, para abençoar as pessoas, seus pertences e realizações, para abençoar o amor matrimonial, para, enfim, ungir as mãos frágeis dos enfermos, na esperança da saúde.

Pela oração consecratória e a imposição das mãos de seu Arcebispo, vocês se tornaram pessoas consagradas. Completando essa consagração de suas pessoas, suas mãos foram solenemente ungidas e consagradas ao serviço de Cristo e da Igreja. Fisicamente, suas mãos continuam sendo suas. Mas Cristo as tomou para Si. Espiritualmente, elas passaram a ser Dele, para transmitir a Sua vida divina, abençoando, perdoando, consagrando o Corpo e o Sangue de Cristo.

Escreveu um venerando Bispo italiano que no altar, cada um de vocês é o sacerdote e Cristo é a vítima. No ministério presbiteral, Cristo é O Sacerdote e cada um de vocês é a vítima! É mais fácil ser o sacerdote em um sacrifício onde Cristo é a Vítima, do que ser a vítima em um sacrifício onde Cristo é O Sacerdote! Como vítima, Cristo teve suas mãos crucificadas… E Ele não nos pediu tal doação!…

Queridos Padres, voltem a contemplar suas mãos. Procurem reviver a sensação do perfume do bálsamo que as ungiu. Beijem, agora, reverentemente as suas mãos. Elas ainda são suas, mas elas são totalmente Dele: Mãos de Cristo no Ano da Graça de 2009! O ano Sacerdotal!

Vocês são os escolhidos de Cristo. Vocês são pessoas privilegiadas. Vocês são pessoas abençoadas. Vocês são chamados às alturas da santidade. Não cabem limites nem meios termos em nossa resposta de amor a Cristo. Ao amor total de quem morreu por nós, uma vez que fomos os Seus escolhidos, apesar de nossa fragilidade, só cabe uma resposta de amor total de quem quer viver e morrer por Ele.

Mãos Sacerdotais! As suas mãos!

Uma outra vez, elas ainda voltarão a ser ungidas e unidas por um laço em posição orante.

Ao término da nossa missão de sacerdotes de Cristo na terra, quando nossas forças falirem e nossas mãos enfraquecidas pelos trabalhos apostólicos não mais puderem se alçar e se mover com naturalidade, elas receberão uma outra unção para sustentá-las. Esta outra unção, a dos enfermos, irá fortalecê-las para se prepararem para o abraço eterno com Cristo, razão do nosso modo de ser e de viver. Quando esta vida terrena nos escapar, nossas mãos cairão em nosso último leito. Recompostos os nossos corpos, elas serão novamente unidas em posição orante. Desta vez por um enfermeiro, com uma gaze hospitalar, para mantê-las assim, até que o “rigor mortis” as imobilize, para serem enfim desfeitas no pó da terra, misturando-se à poeira dos séculos.

Duas unções, dois laços de fita marcam o início e o fim da grandeza do mistério do Amor de Deus e da Graça, realizado pelas mãos sacerdotais. A primeira unção para dinamizar a ação do Mistério, do transcendente, do sobrenatural, da Graça. Eleva o humano ao máximo, para além de seus limites mortais e o potencializa para o Mistério sacramental. A última, a mesma ação sobrenatural, de outras mãos sacerdotais, acode aquelas primeiras mãos, enfraquecidas pela enfermidade, já prestes a iniciar o seu último “Te Deum laudamus, Te Dominum confitemur”, ao fechar seus olhos na terra, para abri-los no Céu, na Visão Beatífica!

As mãos

As mãos são as partes do nosso corpo mais citadas nas Sagradas Escrituras: 1538 vezes; dessas, em 1153 se parecem com um termo hebraico cujo sentido é ligado a “conhecimento, poder”: “Porei em suas mãos a chave da Casa de Davi: ele abrirá e ninguém fechará; ele fechará e ninguém abrirá”* (Is 22,22).

As crianças gostam de tocar no que vêem. Nós também, sobretudo, para verificar se uma flor é natural ou artificial. Conhecemos com as mãos. Vemos com as mãos. Como as crianças gostam de correr suas mãozinhas no rosto, nos olhos de suas mães! Não falam, sorriem e escorregam, macia e candidamente, suas mãos na face de suas mães.

Nesta Semana Santa, meditaremos a Paixão de Cristo. Nela, as mãos aparecem com atitudes sumamente diferentes:

a Jesus, serviram para lavar e perfumar os pés de seus apóstolos, para lhes dar no Pão e no Vinho, o Seu Corpo e o Seu Sangue;

ao povo, serviram para estender os mantos e agitar os ramos na entrada de Jesus em Jerusalém; mas, serviram, também, para em punhos fechados e levantados ao ar, pedir para Ele a sentença de morte na cruz, aos gritos de “crucifica-o”.

Judas as usou, cínica e sarcasticamente, num abraço e beijo de traição.

Pilatos, na oportunidade de realizar o maior ato de sua vida e da história, fazendo justiça ao Justo, preferiu, covardemente, lavá-las num ato que se tornou o expoente máximo da omissão e da fuga da própria responsabilidade.

Verônica, em um ato de amor e de coragem, expondo-se ao castigo dos soldados, enxuga o rosto sanguinolento de Jesus; suaviza-Lhe a face e Lhe permite que Seus olhos, cobertos do sangue que se lhe escorrera das feridas feitas pela coroa de espinhos, voltassem a enxergar e ver melhor o caminho pedregoso do Calvário.

Cirineu, sem o querer e sem saber o porquê, usou suas mãos para carregar a cruz com Jesus…

Tomé será convidado a “ver com as mãos”, as chagas de Jesus…

Sempre as mãos… Tão diferentes como diferentes são os corações que as mantém vivas e operantes… As mãos são a expressão do coração de uma pessoa. As mãos falam quando as pessoas não conseguem mais falar. Assim a mão do filho que acaricia suavemente o rosto frio de sua mãe ou de seu pai, na sua última despedida antes de se fechar o caixão! As lágrimas rolam, a garganta está seca e travada, mas as mãos deslizam suavemente sobre o rosto rígido de quem não mais sorri nem abre os olhos nem sente as mãos… Gesto mudo diante de quem não pode mais responder ou retribuir… Mas as mãos não se cansam… E repetem o último gesto de amor de um coração palpitante, um gesto acelerado, finalizado por um beijo encharcado de lágrimas!

O poder da mão.

Michelangelo Buonarotti para descrever a criação do homem coloca lado a lado duas mãos: a de Deus, firme e solene, apontando para sua criatura predileta, a quem dá a vida, o homem; e esse, com seu braço sem vigor, de mãos e dedos caídos, ao receber de Deus a força para viver!

As mãos de um sacerdote

Elas são, na terra, as mais poderosas de todas as mãos.

Recordo-me de um jornalista brasileiro muito temido por sua caneta poderosa, mordaz e irônica, que em um de seus, quase últimos, editoriais, referia-se à Conferência dos Bispos do Brasil com os termos: “a canalha do episcopado nacional”. Os meses se passaram. A doença caminhou para o seu final. Antes de morrer, ele chamou o Presidente da “canalha episcopal” para que ele, grande sacerdote, desse paz à sua consciência e a esperança do perdão de seus pecados. Aquela mão já não segurava mais a caneta. Agora, ansiava o perdão misericordioso de Deus pelo mau uso que dela fizera…

Qual é a mão poderosa?

Mãos que dão a vida da Graça, mãos que renovam essa graça pelo perdão divino.

Mãos que não afagam um rosto querido de mulher, mas que abençoam, em nome de Deus, o amor que Deus faz brotar entre ela e um outro homem. Mãos que iluminam, com a luz do evangelho, o amor matrimonial e o faz aproximar-se do Amor de Deus Criador.

Mãos que não terão filhos ao colo, mas que colocarão no colo de seus pais os filhos, que não tendo pedido para nascer, não encontraram para si um pouco de tempo na “agenda” de seus pais.

Mãos que abençoam, enxugando lágrimas de tantas pessoas esmagadas nos revezes da vida. Mas que ficam sozinhas, na solidão, para enxugar suas próprias lágrimas, quando as coisas não correm bem entre “elas” e rebanho a elas confiado, quando a insistência da vida biológica ameaça a existência da vida espiritual, quando a insistência da morte biológica põe a perder os entes mais queridos. Sobretudo, nesta ocasião, os cumprimentos “sociais” ou protocolares chegam muito depois… Aprendi, com meu sofrimento nessa última circunstância, que não se enxuga lágrima seca!

Mãos que curam os enfermos e lhes devolvem a esperança de viver.

Mãos que fortalecem os fracos com o Pão dos Fortes: a Eucaristia.

Santas Mãos Sacerdotais!

Venero, com profunda admiração, as mãos de Mons. Otacílio de Sena Queiroz, de Mons. João Gabriel Mota, de Mons. Geraldo Lúcio do Nascimento, de Cônego José Gabriel de Oliveira, no alto de seus 50 anos de vida sacerdotal, e de Cônego Paulo Generoso de Oliveira. Por suas mãos passaram rios de Graça Divina. Hoje, enfraquecidas pela idade, elas são ainda mais vitalizantes pela força da Graça Sacerdotal. Enrugadas, porém belas. Coloridas da pele cansada, mas brilhantes à luz da fé.

Fico a pensar quantas vezes essas mãos cinqüentenárias enxugaram as lágrimas dos seus próprios olhos, umedecidos pela ingratidão, inveja, calúnia, maledicência e o inevitável esquecimento por parte de ovelhas irrequietas e às vezes rebeldes de uma comunidade. Apesar de tudo, os senhores continuaram – bons pastores que são – a conduzir o rebanho para as pastagens verdejantes de Jesus. Seguiram, firmemente, o exemplo de Cristo Bom Pastor, que dá a vida por suas ovelhas. Deus lhes recompensará na Sua medida de cem por um com a abundância de Sua Graça… Amor…

Como Arcebispo e em nome da Igreja eu lhes digo: muito obrigado pelo bem realizado por suas santas mãos sacerdotais.

Meus queridos padres:

Dentro de instantes, vamos renovar diante do Povo de Deus, as promessas que, livremente fizemos, no dia de nossa ordenação sacerdotal. Será para nós, não apenas uma recordação, mas uma ratificação de nossa promessa de amar ao Pai, a Cristo e a Sua Igreja, com um amor de exclusividade total, para sempre, e sem esperar retribuição na Terra. O amor, quando verdadeiro, ama pela necessidade de amar. Nada quer, nada deseja, nada espera, apenas AMA!

Somos de Cristo, só Dele, para sempre, na Igreja, a serviço do povo que nos é confiado, por causa do Reino. Podemos repetir com São Paulo: Cristo é o nosso viver. Sabemos em quem colocamos nossa confiança. Tudo podemos Naquele que nos conforta.

OBRIGADO SENHOR, PELO DOM DO SACERDÓCIO. AMÉM!

Fonte: Presbíteros


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SEMANA SANTA: Do Domingo de Ramos ao Domingo da Ressurreição!

O sexto domingo da Quaresma, com o qual iniciamos a Semana Santa, é chamado de “Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor”. é neste dia que a Santa Igreja recorda a entrada de Jesus em Jerusalém para realizar seu mistério pascal.

Iniciamos a Grande Semana sob os acordes solenes dos hosanas do canto dolente da paixão. Paixão que nos recorda o amor apaixonado de Deus, que nos ensina a verdadeira dimensão do amor que é entrega, doação, renúncia e perdão.

Nos três dias, após o Domingo de Ramos, as comunidades celebram a fé de diversas e variadas maneiras; porém, o momento forte é a Santa Missa, acompanhada da Via-sacra, Celebração penitencial, Terço meditado, ou segundo o costume da comunidade.

O Sagrado Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do Senhor (quinta, sexta e sábado), é o ápice de todo o ano litúrgico. A Vigília Pascal é a “mãe de todas as santas vigílias”, conforme nos ensina Santo Agostinho desde 1088. Toda Celebração da Sagrada Vigília deve realizar-se à noite, de modo que comece depois do anoitecer e termine antes da aurora do Domingo da Ressurreição ou Domingo de Páscoa.

Temos, no Tempo da Quaresma, uma média de 40 dias de preparação para a grande Festa da Páscoa que é a primeira de todas as solenidades do tempo litúrgico. No tempo pascal, de aproximadamente 50 dias, que começa com o Domingo de Páscoa e termina com o Domingo de Pentecostes, comemoramos a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. Celebrar a Ressurreição de Jesus é celebrar a esperança que perpassa o tempo, a história e encontra o seu sentido profundo e real em Deus. Jesus, morto e ressuscitado, nos abre e nos indica este caminho.

Que ao longo desta Sacrossanta Semana, num mundo marcado pelo individualismo egoísta, pela ausência do sentido do sagrado, numa época onde tantos perderam a dimensão da fé, onde tantas crianças só conhecem a Páscoa através da propaganda de ovos de chocolate, em que os dias santos são vistos mais como uma grande oportunidade para se aproveitar um feriadão, nós possamos, como o grande apóstolo São Paulo, cujo ano jubilar celebramos, testemunhar, em meio a este mundo secularizado, que Deus em pessoa vem nos revelar o grande segredo da felicidade, o verdadeiro sentido do amor.

Fonte: Paróquia Nossa Senhora da Conceição


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Um Clamor de Justiça (III)

III. “O CRISTÃO que queira viver a sua fé numa ação política concebida como serviço, não pode aderir – sem contradizer-se – a sistemas ideológicos que se oponham, radicalmente ou em pontos substanciais, à sua fé e à sua concepção do homem. Não é lícito, portanto, favorecer a ideologia marxista, o seu materialismo ateu, a sua dialética de violência e a maneira como entende a liberdade individual dentro da sociedade, negando ao mesmo tempo qualquer transcendência ao homem e à sua história pessoal e coletiva. O cristão também não apoia a ideologia liberal, que julga exaltar a liberdade individual subtraindo-a a qualquer limitação, estimulando-a mediante a procura exclusiva do interesse e do poder, e considerando as solidariedades sociais como conseqüências mais ou menos automáticas das iniciativas individuais, e não como fim e motivo primário do valor da organização social”.

Unimo-nos hoje a esse desejo de uma maior justiça, que é uma das características do nosso tempo. Pedimos ao Senhor uma maior justiça e uma maior paz, rezamos pelos governantes, como sempre se fez na Igreja, para que sejam promotores da justiça, da paz e de um maior respeito pela dignidade da pessoa. E, dentro daquilo que está nas nossas mãos, fazemos o propósito de introduzir as exigências do Evangelho na nossa vida pessoal, na família, no mundo em que cada dia nos movemos e do qual participamos.

Além do que cabe em sentido estrito à virtude da justiça, viveremos também aquelas outras manifestações de virtudes naturais e sobrenaturais que a completam e enriquecem: a lealdade, a afabilidade, a alegria… E sobretudo a fé, que nos dá a conhecer o verdadeiro valor da pessoa, bem como a caridade, que nos leva a comportar-nos com os outros muito além do que nos pediria a estrita justiça, porque vemos nos outros filhos de Deus, o próprio Cristo que nos diz: Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes.

Fonte: Falar com Deus.


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Um Clamor de Justiça (II)

II. OS DEVERES PROFISSIONAIS são um campo excelente para vivermos a virtude da justiça. Dar a cada um o que é seu – característica própria dessa virtude – significa neste caso cumprir aquilo a que nos comprometemos. O patrão, a dona de casa, o chefe, obrigam-se a remunerar as pessoas que trabalham às suas ordens de acordo com as leis civis justas e com os ditames de uma consciência reta, que muitas vezes irá mais longe que a própria lei.

Por seu turno, os operários e empregados têm o grave dever de trabalhar responsavelmente, com espírito profissional, aproveitando o tempo. A laboriosidade apresenta-se assim como uma manifestação prática da justiça. “Não acredito na justiça dos folgazões, porque com o seu dolce far niente – como dizem na minha querida Itália – faltam, e às vezes de modo grave, ao mais fundamental dos princípios da eqüidade: o do trabalho“.

O mesmo princípio se pode aplicar aos estudantes. Têm o grave dever de estudar – é o seu trabalho – e contraíram uma obrigação de justiça para com a família e a sociedade, que os sustentam economicamente para que se preparem e possam vir a prestar serviços eficazes.

Os deveres profissionais são, por outro lado, o caminho mais à mão com que contamos ordinariamente para colaborar na resolução dos problemas sociais e para intervir na construção de um mundo mais justo. No seu desejo de construir esse mundo, o cristão deve ser exemplar no cumprimento das legítimas leis civis, porque, se essas leis são justas, são queridas por Deus e constituem a base da própria convivência humana. Como cidadãos correntes que são, os cristãos devem ser exemplares no pagamento dos impostos justos, necessários para que a sociedade organizada possa chegar aonde o indivíduo pessoalmente seria ineficaz. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem imposto, imposto; a quem tributo, tributo; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra.É necessário, pois, submeter-se, não só por temor do castigo, mas por dever de consciência. Assim viveram os cristãos desde o começo as suas obrigações sociais, mesmo no meio das perseguições e do paganismo dos poderes públicos. “Tal como aprendemos dEle (de Cristo) – escrevia São Justino, nos meados do século II -, nós procuramos pagar os tributos e contribuições, integralmente e com prontidão, aos vossos encarregados”.

Entre os deveres sociais do cristão, o Concílio Vaticano II recorda “o direito e ao mesmo tempo o dever [...] de votar para promover o bem comum“. Desinteressar-se de manifestar a própria opinião nos diferentes níveis em que devemos exercer os nossos direitos sociais e cívicos seria uma falta contra a justiça, às vezes grave, se essa abstenção favorecesse candidaturas (tanto na composição dos parlamentos como na das associações de pais e mestres de um colégio, na direção de uma escola profissional, etc.) cujo programa se opusesse aos princípios da doutrina cristã. Com maior razão, seria uma irresponsabilidade, e talvez uma grave falta contra a justiça, apoiar organizações ou pessoas que não respeitassem na sua atuação os fundamentos da lei natural e da dignidade humana (aborto, divórcio, liberdade de ensino, respeito à família…)

Fonte: Falar com Deus.


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Um Clamor de Justiça (I)

I. FAZEI-ME JUSTIÇA, ó Deus, e defendei a minha causa… Pois Vós, ó meu Deus, sois a minha fortaleza, rezamos na antífona de entrada da Missa.

Grande parte da humanidade clama aos brados por uma maior justiça, por “uma paz melhor assegurada num ambiente de respeito mútuo entre os homens e entre os povos”. Este desejo de construir um mundo mais justo, em que se respeite mais o homem criado por Deus à sua imagem e semelhança, é parte fundamental da fome e sede de justiça que deve palpitar no coração cristão.

Toda a pregação de Jesus Cristo é um apelo à justiça (na sua plenitude, sem reducionismos) e à misericórdia. O próprio Senhor condena os fariseus que devoram as casas das viúvas, enquanto fingem longas orações. E é o Apóstolo Tiago quem dirige esta severa censura aos que se enriquecem mediante a fraude e a injustiça: As vossas riquezas estão podres [...]. Eis que brada aos céus o salário que defraudastes aos trabalhadores que ceifavam os vossos campos, e os gritos dos ceifadores chegaram aos ouvidos do Senhor dos exércitos.

Fiel ao ensinamento da Sagrada Escritura, a Igreja pede-nos que nos unamos urgentemente a este clamor do mundo e o convertamos numa oração que chegue até o nosso Pai-Deus. Ao mesmo tempo, anima-nos e concita-nos a observar as exigências da justiça na vida pessoal, profissional e social, e a sair em defesa daqueles que – por serem mais fracos – não podem fazer valer os seus direitos. Não são próprias do cristão as lamentações estéreis. O Senhor, ao invés de queixas inúteis, quer que o desagravemos pelas injustiças que todos os dias se cometem no mundo, e que procuremos remediar todas as que possamos, começando pelas que estão ao nosso alcance, no âmbito em que se desenvolve a nossa vida: a mãe de família no seu lar e com as pessoas com quem se relaciona, o empresário na empresa, o professor na Universidade…

A solução definitiva para instaurar e promover a justiça em todos os níveis está no coração de cada homem, pois é nele que se forjam todas as injustiças existentes e que está a possibilidade de tornar retas todas as relações humanas. “O homem, negando e tentando negar a Deus, seu Princípio e Fim, altera profundamente a sua ordem e equilíbrio interior, o da sociedade e também o da criação visível. É em conexão com o pecado que a Escritura considera o conjunto das calamidades que oprimem o homem no seu ser individual e social”.

Por isso, nós, cristãos, não podemos esquecer que quando, mediante o apostolado pessoal, aproximamos os homens de Deus, estamos construindo um mundo mais humano e mais justo. Além disso, a nossa fé intima-nos urgentemente a nunca eludir o compromisso pessoal de sair em defesa da justiça, particularmente no âmbito dos direitos fundamentais da pessoa: o direito à vida, ao trabalho, à educação, à boa fama… “Cumpre-nos defender o direito, que todos os homens têm, de viver, de possuir o necessário para desenvolver uma existência digna, de trabalhar e descansar, de escolher o seu estado, de formar um lar, de trazer filhos ao mundo dentro do matrimônio e de poder educá-los, de passar serenamente o tempo da doença ou da velhice, de ter acesso à cultura, de associar-se com os demais cidadãos para atingir fins lícitos, e, em primeiro lugar, de conhecer e amar a Deus com plena liberdade”.

Na nossa esfera pessoal, devemos perguntar-nos se executamos com perfeição e intensidade o trabalho pelo qual nos pagam, se remuneramos devidamente as pessoas que nos prestam serviços, se exercemos responsavelmente os direitos e deveres que podem influir na configuração das instituições de que fazemos parte, se defendemos o bom nome dos outros, se saímos em defesa dos fracos, se fazemos silenciar as críticas difamatórias que podem surgir à nossa volta… É assim que amaremos a justiça.

Fonte: Falar com Deus.


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