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    Castidade

    March 31st, 2009

    Por Pablo Cabellos Llorente

    O título é esse mesmo: Castidade. Sem anestesia. Um título que é politicamente incorreto porque, segundo os cronistas atuais, o correto seria afirmar que os ensinamentos católicos em matéria de sexo são – ou parecem ser – “aberrações”, como dizem algumas páginas na Internet e alguém do alto escalão da Comunidade Européia. Evidentemente não concordo com essa afirmação, mas respeito quem as fez. Mais ainda: quero escrever de forma positiva, tanto ao referir-me às opiniões contrárias como ao tratar da própria virtude, que no dizer de São Josemaría Escrivá “é uma afirmação gozosa” (Amigos de Deus, nº 177).

    Embora a autoridade em doutrina católica seja o Magistério da Igreja, não faz mal citar estas palavras de Goethe: “Pensamentos grandes e coração puro, isso é o que teríamos que pedir a Deus”, pois elas de algum modo sintetizam a castidade.

    O Catecismo da Igreja Católica afirma que “a sexualidade afeta todos os aspectos da pessoa humana, na sua unidade de corpo e alma. Diz respeito particularmente à afetividade, à capacidade de amar e de procriar e, de uma maneira mais geral, à aptidão para criar vínculos de comunhão com os outros” (n. 2332). Parece-me que os pensamentos grandes e o coração limpo do genial Goethe são mais fáceis de cultivar nesse contexto em que o Catecismo resume a sexualidade. Basta pensar na referência que faz à pessoa humana inteira, e já se pode descartar que a sexualidade seja somente o uso dos órgãos genitais. Uma sexualidade que se resuma a isso é muito pobre; mais ainda: pode corroer-se e ser destruída, corrompida pela busca constante de novas sensações, que logo ao nascerem já envelhecem.

    Um pouco mais à frente o Catecismo acrescenta: “A castidade significa a integração correta da sexualidade na pessoa e com isso a unidade interior do homem em seu ser corporal e espiritual. A sexualidade, na qual se exprime a pertença do homem ao mundo corporal e biológico, torna-se pessoal e verdadeiramente humana quando é integrada na relação de pessoa a pessoa, na doação mútua integral e temporalmente ilimitada, do homem e da mulher. A virtude da castidade comporta, portanto, a integridade da pessoa e a integralidade da doação”.

    Essas linhas expressam muitas idéias:

    - A sexualidade procede da corporalidade, mas se integra na pessoa que se relaciona com outra pessoa na forma de uma doação mútua entre o homem e a mulher, mediante vinculação permanente que chamamos matrimônio.

    - A integração na pessoa alude à sua unidade, uma unidade que não tolera nem a dupla vida nem a dupla linguagem. Isso implica um domínio de si próprio para ser fiel ao dom que faz à outra pessoa.

    - A sexualidade se realiza num homem e numa mulher cuja capacidade unitiva e procriativa estão entrelaçadas de forma harmônica com todos os aspectos do seu próprio ser.

    Talvez seja por isso que Lacordaire disse que “a castidade não é uma virtude própria do claustro e dos iniciados. É uma virtude moral e social, uma virtude necessária para a vida do gênero humano”. É imprescindível para o seguimento de Cristo, para o respeito aos outros e para uma ordem social justa, na qual o corpo e os sentimentos – e com eles a pessoa – não se convertam em meros instrumentos de prazer. Santo Agostinho ia muito mais longe ao comentar a conhecida bem aventurança: “Queres ver a Deus? Escuta-O: Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. Em primeiro lugar pensa na pureza do teu coração; aquilo que nele vejas que desagrada a Deus, elimina-o.”

    Por essas e por outras razões – também de tipo natural – a Igreja pede a virtude da castidade a todos os que queiram seguir a Cristo, quer sejam solteiros ou casados. Aos solteiros lhes exige a continência total; aos casados, que os atos próprios do amor conjugal estejam abertos à vida. Isso porque a pureza – como disse João Paulo II – “sempre é exigida pelo amor: é a dimensão da sua verdade interior no coração do homem”. Se há amor verdadeiro no coração, há de manifestar-se externamente de modo casto: “Onde não há amor a Deus, reina a concupiscência” (Santo Agostinho).

    Pode-se argumentar dizendo que há católicos que vivem à margem desses ensinamentos. Sabemos muito bem que eles existem, mas esse comportamento não somente não altera em nada a doutrina de Cristo – como o fato de haver ladrões não implica que o roubo deva ser permitido – como também não é irrevogável: sempre podemos ser o filho pródigo que regressa à casa do Pai mediante o Sacramento da Penitência.

    Também se pode afirmar que ser casto exige um heroísmo impossível. Não é bem assim quando – além de contar com a ajuda de Deus na oração e nos sacramentos – se sabe antepor ao sexo outros interesses mais fortes: a fé, a família, o trabalho, o serviço aos outros, gostos humanos nobres, etc. E também empreender a luta: a boa ascética cristã, que não fabrica super-homens, mas sim pessoas que sabem o que é fortaleza e vontade firme. “Gravai-o na vossa cabeça – diz São Josemaría comparando a castidade às asas, que embora pesem são imprescindíveis para voar – decididos a não ceder se notais a mordida da tentação, que se insinua apresentando a pureza como um fardo insuportável. Ânimo! Para o alto! Até o sol, à caça do Amor” (Amigos de Deus, nº 177).

    Fonte: Quadrante


    Mortificação e Penitência

    March 29th, 2009

    O SACRIFÍCIO VOLUNTÁRIO

    Conta-nos o Evangelho que Jesus, depois de ter repreendido severamente São Pedro, porque – cheio de um carinho mal entendido – queria afastá-Lo da Cruz (Mt 16,23), dirigiu o olhar aos outros discípulos e lhes disse com firmeza: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me (Mt 16, 24).

    Lemos também no Evangelho que, certa vez, Jesus estava acompanhado de muito povo. Era o tempo em que as multidões o seguiam com um entusiasmo, e em que a fé de muitos alternava com a emotividade superficial e com o interesse. Cristo, que conhecia bem os homens e os amava, quis gravar-lhes na alma a idéia clara de que, sem tomar a Cruz, era impossível segui-lo pelo seu caminho, pois é caminho de amor. E assim, voltando-se para os que o cercavam, alertou-os: Quem não carrega a sua cruz e me segue não pode ser meu discípulo. E, para deixar essa afirmação bem vincada, ilustrou-a com uma comparação: falou-lhes de um homem que, desejando construir uma torre, errou nos cálculos e não previu os meios necessários para edificar. Aconteceu o inevitável: fracassou, de modo que todos os que o viam ficavam zombando dele e diziam: Este homem principiou a edificar, mas não pôde terminar! O Senhor esclareceu que assim aconteceria com aqueles que quisessem segui-lo sem renúncia e sem Cruz (cfr. Lc 14, 25-30).

    Reparemos que, nessas passagens do Evangelho, Jesus fala de algo que depende de nós. Algo que podemos fazer ou não – Se alguém quiser… -, algo que pertence, portanto, à nossa livre iniciativa.

    Sempre a Cruz deve ser tomada livremente. Em primeiro lugar, a que Deus nos envia sem nós a procurarmos, ou seja, a Cruz do sofrimento inesperado, que devemos saber abraçar com fé e amor. Mas há outra Cruz santa que – com a ajuda da graça – depende totalmente da nossa decisão, da nossa generosidade, e é justamente a dos sacrifícios voluntários. Se nós queremos, sacrificamos um fim de semana para dar assistência aos pobres; se nós queremos, deixamos de ir ao cinema para visitar um doente; se nós queremos, assumimos os trabalhos mais pesados em casa. Mas ninguém nos impõe nada. Se não queremos, não fazemos nada disso.

    HOMEM VELHO E HOMEM NOVO

    Sacrifícios voluntários? Mortificação? Penitência? Meter na nossa vida mais “cruzes”, quando a vida já traz tantas sem que as procuremos? Por quê?

    Vamos deixar que, mais uma vez, o Espírito Santo nos responda pela boca de São Paulo.

    Este Apóstolo serve-se com freqüência de uma comparação: a imagem dos dois homens que estão sempre brigando dentro de nós: o homem velho e o homem novo. Poderíamos traduzir por “homem modelado pelos parâmetros mundanos, pagãos” e “homem modelado – conforme a imagem de Cristo – pela graça do Espírito Santo”.

    Assim, escrevendo aos Efésios, o Apóstolo pede-lhes: Não persistais em viver como os pagãos, que andam à mercê das suas idéias frívolas [...]. Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelos desejos enganadores. Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em justiça e santidade verdadeiras (Ef 4, 17.22-24). É claro que está lhes propondo uma luta árdua, mediante a qual deverão arrancar – quase como se arranca a pele – o homem velho, para revestir-se do homem novo.

    As mesmas idéias, mais sinteticamente expostas, encontramo-las na Carta aos Colossenses: Vós vos despistes do homem velho com os seus vícios, e vos revestistes do novo, que se vai restaurando constantemente à imagem dAquele que o criou (Col 3, 9-10).

    Um terceiro texto, dirigido aos Gálatas, completa os anteriores: Os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências (Gál 5, 24). Para entender o que quer dizer, é preciso ter presente que, na mesma carta, havia explicado o que é a carne e as suas concupiscências (palavra que significa aqui maus desejos), mostrando que por carne entende – como é comum em textos bíblicos – o homem egoísta, afastado da graça de Deus e mergulhado no materialismo, cujo deus é o ventre [...] e só tem prazer no que é terreno (Fil 3, 19).

    Característica típica do homem velho é a de se deixar dominar pelos desejos da carne, que – como explica detalhadamente o Apóstolo – se chamam fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdia, facções, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes (Gál 5, 19-21).

    Esta é a carne que deve ser crucificada, ou seja, mortificada, dominada e vencida com a renúncia, com o sacrifício, com a Cruz.

    MEIO DE PURIFICAÇÃO

    A mortificação voluntária – que faz parte essencial da luta do cristão – é um meio necessário de purificação. Santo Agostinho tem um pensamento muito profundo a este respeito. Lembra que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, e que o pecado “deformou” essa imagem e apagou a semelhança. A graça de Deus, recebida no Batismo, fez-nos renascer para uma vida nova. É tarefa nossa colaborar com a graça para limpar os males que nos deformam; só assim ela nos devolverá à “forma” primeira, que é a imagem do ser de Deus 1.

    Como é sugestiva esta idéia, para nos ajudar a compreender que a formação cristã não se limita ao conhecimento da verdade, da doutrina – ler, estudar, aprender -, mas exige um trabalho de purificação – de limpar, de extirpar, de endireitar, de podar o que procede do egoísmo -, para podermos “arrancar a triste máscara que forjamos com as nossas misérias” 2, e estarmos em condições de ir reproduzindo fielmente em nós os traços do nosso modelo, Jesus Cristo.

    Pensemos seriamente qual é o nosso homem velho, quais são as nossas paixões e concupiscências, para assim podermos descobrir as mortificações que precisamos fazer a fim de arrancar de nós as máscaras deformantes. Não é muito difícil adivinhar. Difícil é concretizar… e fazer.

    Na realidade, todos notamos em nós mesmos defeitos que nos prejudicam, hábitos, vícios de diversas espécies, que nos dominam; falhas de caráter que atrapalham o nosso trabalho; atitudes desagradáveis ou omissões no nosso relacionamento com os outros… Pois bem, é aí que deve entrar a nossa cruz, ou seja, os sacrifícios necessários para corrigir tais defeitos.

    FAZER PENITÊNCIA

    A fé nos mostra o imenso valor que podem ter os padecimentos – os sofrimentos que Deus manda ou permite -, como meio de nos unirmos à Cruz de Cristo, a fim de reparar – expiar – pelos nossos pecados e pelos pecados de todo o mundo.

    Também o sacrifício voluntário pode ter – e muitas vezes deve ter – uma função reparadora, de penitência pelos pecados.

    O Catecismo da Igreja Católica, ao falar dos tempos e dias de penitência, cita as práticas penitenciais que são mais tradicionais na Igreja, porque o próprio Cristo se referiu a elas no Sermão da Montanha (cfr. Mt 6, 1 e segs.), a saber: a oração, o jejum e a esmola. E frisa de modo particular o valor que tem a mortificação – o jejum e outras privações voluntárias -, como meio de reparação dos pecados (cfr. ns. 1434 e 1438).

    É muito próprio do espírito de um cristão determinar-se a cumprir algumas dessas práticas penitenciais – além do jejum e da abstinência de carne prescritos pela lei da Igreja – sobretudo em dias ou períodos especialmente relacionados com a Paixão de Jesus, como são as sextas-feiras e o Tempo da Quaresma. Todo bom católico deveria definir bem, até por escrito, o seu “plano” de penitências para a Quaresma (não comer tal ou qual doce ou refrigerante, reduzir a assistência à tv, abster-nos de bebidas alcoólicas, aumentaro tempo diário de oração, dedicar mais tempo a obras sociais, fazer freqüentes visitas à igreja para rezar algumas orações de joelhos, etc.).

    Na realidade, porém, não deveríamos limitar-nos às obras de penitência em datas ou tempos determinados. Todos os dias deveriam estar enriquecidos – polvilhados – por algumas pequenas privações, oferecidas por amor e com alegria, como atos de reparação pelos pecados próprios e alheios, e também como exercícios de autodomínio que nos ajudassem a “converter-nos”: a ser mais senhores de nós mesmos e a mudar, a “converter-nos”, com a graça de Deus.

    Em maio do ano 2000, o Papa celebrou em Fátima a beatificação dos meninos Jacinta e Francisco. Ao elevar os dois pastorinhos à glória dos altares, o Santo Padre fez questão de realçar a generosidade com que ambos, a pedido de Nossa Senhora, se entregaram à penitência “pelos pobres pecadores”. De Francisco, dizia o Papa que “suportou os grandes sofrimentos da doença que o levou à morte sem nunca se lamentar. Tudo lhe parecia pouco para consolar Jesus; morreu com um sorriso nos lábios. Grande era, no pequeno Francisco, o desejo de reparar as ofensas dos pecadores, esforçando-se por ser bom e oferecendo sacrifícios e oração. E Jacinta, sua irmã, quase dois anos mais nova que ele, vivia animada dos mesmos sentimentos”. Citava depois o Papa as palavras com que Jacinta se despediu de Francisco, pouco antes de este morrer: “Dá muitas saudades minhas a Nosso Senhor e a Nossa Senhora e dize-lhes que sofro tudo quanto Eles quiserem para converter os pecadores” 3.

    Como é tocante essa lição dos pequeninos, dos simples, que ouvem e entendem a voz de Deus, por meio de Maria! (cfr. Lc 10, 21). Podemos ter a certeza de que a perda do sentido da penitência, entre os cristãos, anda em paralelo com a perda do sentido do pecado, e que isto significa que enfraqueceu muito ou se perdeu o sentido do amor de Deus.

    É interessante recordar que, no mesmo Ano Santo de 2000, o Santo Padre ajudou-nos a revigorar uma verdade da nossa fé que tem uma relação mmuito estreita com a necessidade da penitência: a doutrina das indulgências. Com elas, com efeito -ao realizar, com as devidas condições, as obras indulgenciadas- , entramos em comunhão com o tesouro do “amor, do sofrimento suportado, da pureza” de todos os nossos irmãos na fé, que deixaram atrás de si como que um “saldo” de méritos, unidos às riquezas dos méritos de Cristo, de Maria e dos santos; é um imenso tesouro que a Igreja encaminha a cada um de nós, como uma transfusão de sangue puro 4, por meio da indulgência, para a purificação da “pena temporal” devida pelos nossos pecados, ou seja, da pena que deveríamos pagar no Purgatório, por não termos expiado suficientemente os nossos pecados aqui na terra.

    E esse mesmo dom da indulgência, esse tesouro de méritos e graças que “circula” no Corpo místico de Cristo, pode ser aplicado sempre às almas do Purgatório, com as quais estamos estreitamente unidos pela Comunhão dos santos. Mediante esse “intercâmbio maravilhoso de bens espirituais” , podemos auxiliar pais, parentes, amigos, conhecidos…, todos os que se encontram no estado de purificação que chamamos Purgatório, para que possam ir logo ao encontro do abraço eterno de Deus . É uma maravihosa comunhão e ajuda mútua na penitência: na expiação e a purificação 5 (Cfr. Bula pontifícia Incanationis mysterium, nn. 9 e 10).

    (Adaptação de um trecho do livro de F.Faus, A sabedoria da Cruz)

    1 Sermão 125,4

    2 São Josemaria Escrivá, Via Sacra, VI estação

    3 João Paulo II, Homilia na Beatificação, Fátima 13.05.2000

    4 Cf. São Josemaria Escrivá, Caminho, n. 544

    5 Bula Incanationis mysterium, num. 9 e 10


    Meditação sobre a Preguiça

    March 27th, 2009

    Ouvi contar há tempo, a um homem de Deus, a história verídica de um pastorzinho que todos os dias acompanhava o pai, ajudando-o a conduzir o gado para o pasto. Queimava-o o sol e cansavam-no as longas caminhadas, um dia após outro. Aconteceu que chegaram à fazenda uns estudantes para passar as férias. Acordavam tarde, passeavam longamente, prolongavam conversas à sombra das árvores. Um dia, um desses estudantes, no meio de um passeio vespertino, aproximou-se do garoto, que voltava cansado do pastoreio. – “Você – perguntou -, que gostaria de ser quando crescer?”. A resposta, após um relance ao moço e outro à boiada, não se fez esperar: – “Eu gostaria de ser ou estudante ou boi”.

    Não andava pelas alturas, aquele menino. Queria uma vida cômoda: o dolce far niente do estudante em férias ou a paz do boi ruminando no pasto. Mas será que nós andamos por maiores elevações?

    Uma das formas mais comuns da preguiça é justamente a repugnância pelas alturas espirituais e morais. É o que poderíamos chamar a ambição da mediocridade. Quer-se é viver bem, mas sem exageros de esforço nem loucuras de idealismo. Ser bom, ser um “cristão médio”, com a sua dose medida de religião, vá lá. Mas levar o cristianismo a sério e em plena coerência com a fé, isso considera-se fanatismo.

    É muito interessante verificar que a sabedoria dos antigos, já desde os primeiros séculos do cristianismo, ao enfocar a preguiça, contemplava quase que exclusivamente o seguinte conteúdo: a resistência a atingir a altura espiritual e moral própria de um filho de Deus, de um cristão.

    Na linguagem clássica cristã (de Cassiano a São Tomás de Aquino, passando por São Gregório Magno), o vício capital da preguiça era designado com o nome de acédia (ou acídia). A acédia é fundamentalmente uma tristeza, uma tristeza ácida e fria – daí o nome -, que invade a alma ao pensar nos bens espirituais – na virtude, na bondade, no amor a Deus e ao próximo -, precisamente porque não são fáceis de alcançar nem de conservar. Exigem esforço, renúncia, sacrifício. E o egoísmo se defende. A repugnância que sente por tudo quanto é abnegação e doação generosa vai criando depósitos azedos no coração, e acaba transferindo para Deus e para os próprios bens árduos que Deus pede uma fria antipatia, que pode terminar em aversão: “um tédio que acabrunha”, diz Santo Tomás de Aquino.

    É natural que estes mesmos autores insistam no fato de que a acédia se opõe frontalmente àquilo que é a essência da perfeição cristã: o amor. A preguiça detesta o que o amor abraça, entristece-se com o que alegra o amor.

    É possível que já tenhamos tido, alguma vez, a experiência desse tipo de tristeza, ao pensar em Deus e nos ideais cristãos, e nos tenhamos perguntado: por que Cristo exige de todos os seus seguidores que se neguem a si mesmos e tomem a cruz (cfr. Mt 16, 24)? Por que insiste na necessidade de perder a vida – de entregá-la – para achá-la (cfr. Jo 12, 25)? Por que assinala como lei áurea do cristianismo um amor ao próximo tão exigente, que deve ser um constante “servir e dar a vida’ pelos outros (cfr. Mc 10, 5)? Não seria mais agradável um programa suave, sem cruzes nem renúncias, feito de bondades descomprometidas? É bem possível que, sem reparar, tenhamos fixado como ideal de vida a honestidade hipócrita do fariseu – não mato, não roubo, pago o dízimo -, aliada à frase que se esgrime como uma fórmula de auto-canonização: “Não faço mal a ninguém”. Basta uma leitura superficial dos Evangelhos para concluir que isso não basta. Sede perfeitos, assim como vosso Pai celestial é perfeito (Mt 5, 48). O primeiro de todos os mandamentos é este: Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças. O segundo é este: amarás o teu próximo como a ti mesmo (Mc 12, 29-31).

    Quem quiser seguir a Cristo tem que renunciar à vida fácil. Não se pode entrar no Reino de Deus sem um empenho esforçado: O reino dos Céus – diz Cristo – é arrebatado à força e são os violentos (os que lutam energicamente) que o conquistam (Mt 11, 12). Iludem-se os homens quando pensam que levar Deus a sério vai perturbar-lhes a vida, metendo-os num calvário de compromissos, exigências e complicações. Quando, na realidade, o que complica e estraga a vida, com a maior perturbação que existe – o vazio -, é exatamente o contrário: o medo de levar Deus a sério, a apreensão que faz fugir dos compromissos do ideal cristão.

    Nunca é por ter-se dado ou sacrificado que um homem se esvazia, mas por ter-se poupado.

    É dolorosa como uma queimadura a constatação de que os anos vão passando e o vazio vai aumentando. São duras certas horas de solidão, em que parece que o coração reclama: – “Não sei o que está acontecendo comigo, falta-me alguma coisa e não sei dizer o que é”.

    A única coisa que acontece é que não vivemos a “nossa” vida – o que ela deveria ser -, mas um substitutivo rebaixado ou uma falsificação. Somente seremos felizes quando realizarmos a Vontade de Deus a nosso respeito, porque só então é que nos encontraremos a nós mesmos. Aqui temos, pois, uma pista clara para descobrir a preguiça de fundo que faz murchar a alma e o coração: a renúncia à altura. Assim resume Pieper, com traços vigorosos, essa atitude: “A preguiça, como pecado capital, é a renúncia mal-humorada e triste, estupidamente egoísta, do homem à “nobreza que obriga” de ser filhos de Deus”.

    Com vibração, São Josemaria, o homem de Deus que rasgou horizontes imensos de santidade a milhares de pessoas, dizia: “Vira as costas ao infame quando te sussurra ao ouvido: «Para que hás de complicar a vida?»” (Caminho, n. 6).

    E, em uma das suas homilias, comentava deste modo a passagem da primeira pesca milagrosa, que nos descreve São Lucas, no começo do capítulo quinto do seu evangelho: “Conta-nos São Lucas que uns pescadores lavavam e remendavam as suas redes nas margens do lago de Genesaré. Jesus aproxima-se daquelas naves atracadas na ribeira e sobe a uma delas, à de Simão. Com que naturalidade o Senhor se mete na barca de cada um de nós! Para nos complicar a vida, como se repete em tom de queixa por ai fora. Convosco e comigo cruzou-se o Senhor no nosso caminho, para nos complicar a existência delicadamente, amorosamente.

    “Depois de pregar da barca de Pedro, dirige-se aos pescadores: Navegai mar adentro e lançai as vossas redes! Fiados na palavra de Cristo, obedecem, e obtêm aquela pesca prodigiosa. E olhando para Pedro, que, como Tiago e João, não saia do seu assombro, o Senhor explica-lhe: Não tenhas medo, de hoje em diante serás pescador de homens. E eles, trazidas as barcas para terra, deixando todas as coisas, seguiram-no (Lc 5. 10-11).

    “A tua barca – os teus talentos, as tuas aspirações, as tuas realizações – não serve para nada se não a colocas à disposição de Cristo, se não lhe permites entrar nela com liberdade, se a convertes num ídolo. Tu sozinho, com a tua barca, se prescindes do Mestre, falando sobrenaturalmente, caminhas direto para o naufrágio. Só se admites, se procuras a presença e o governo do Senhor, estarás a salvo das tempestades e dos revezes da vida. Coloca tudo nas mãos de Deus: que os teus pensamentos, as boas aventuras da tua imaginação, as tuas ambições humanas nobres, os teus amores limpos, passem pelo coração de Cristo. De outro modo, cedo ou tarde irão a pique com o teu egoísmo” (Amigos de Deus, n. 21).

    Vale a pena meditar seriamente nisso.

    (Adaptação de um trecho do livro de F. Faus: A preguiça)


    Alegria da Cruz (III)

    March 25th, 2009

    III. O CRISTÃO DÁ-SE A DEUS e aos outros, mortifica-se e é exigente consigo próprio, suporta as contrariedades… e tudo isso, realiza-o com alegria, porque sabe que essas coisas perdem muito do seu valor se as faz arreganhando os dentes: Deus ama aquele que dá com alegria. Não deve surpreender-nos o fato de a mortificação e a penitência nos custarem; o importante é que saibamos abraçá-las com decisão, com a alegria de agradar a Deus, que nos vê.

    “«Contente?» – A pergunta deixou-me pensativo. – Ainda não se inventaram as palavras para exprimir tudo o que se sente – no coração e na vontade – quando se sabe que se é filho de Deus”. É lógico que quem se sente filho de Deus experimente esse júbilo interior.

    Neste sentido, a experiência que os santos nos transmitem é unânime. Basta recordar a confidência do Apóstolo São Paulo aos fiéis de Corinto: …Estou cheio de consolação, transbordo de gozo em todas as nossas tribulações. E convém lembrar-se de que a vida de São Paulo não foi fácil nem cômoda: Cinco vezes recebi dos judeus quarenta açoites menos um; três vezes fui açoitado com varas; uma vez apedrejado; três vezes naufraguei; passei uma noite e um dia à beira do abismo no mar alto. Nas minhas viagens sem conta, expus-me a perigos nos rios, perigos de salteadores, perigos por parte dos da minha raça, perigos dos pagãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos entre falsos irmãos. Trabalhos e fadigas, repetidas vigílias, com fome e com sede, freqüentes jejuns, com frio e nudez. Pois bem, depois de toda esta enumeração, São Paulo é veraz quando nos diz: Estou cheio de consolação, transbordo de gozo em todas as nossas tribulações.

    Aproximam-se a Semana Santa e a Páscoa, e portanto o perdão, a misericórdia, a compaixão divina, a superabundância da graça. Mais uns dias, e consumar-se-á o mistério da nossa salvação. Se alguma vez tivemos medo da penitência, da expiação, enchamo-nos de coragem, lembrando-nos de que o tempo é breve e grande o prêmio, sem proporção com a pequenez do nosso esforço. Sigamos Jesus com alegria, até Jerusalém, até o Calvário, até a Cruz. Além disso, “não é verdade que, mal deixas de ter medo à Cruz, a isso que a gente chama de cruz, quando pões a tua vontade em aceitar a Vontade divina, és feliz, e passam todas as preocupações, os sofrimentos físicos ou morais?”

    Fonte: Falar com Deus.


    Alegria da Cruz (II)

    March 23rd, 2009

    II. ALEGRAI-VOS SEMPRE no Senhor; digo-vos mais uma vez: alegrai-vos. Devemos alegrar-nos com uma alegria que há de ser sinônimo de júbilo interior, de felicidade, e que logicamente se manifestará também exteriormente.

    “Como se sabe – diz Paulo VI -, existem diversos graus de «felicidade». A sua expressão mais elevada é a alegria ou «felicidade» no sentido estrito da palavra, quando o homem, no nível das suas faculdades superiores, encontra a sua satisfação na posse de um bem conhecido e amado [...]. Com muito mais razão chega ele a conhecer a alegria e a felicidade espiritual quando o seu espírito entra na posse de Deus, conhecido e amado como bem supremo e imutável”. E o Papa continua: “A sociedade técnica conseguiu multiplicar as ocasiões de prazer, mas é-lhe muito difícil engendrar a alegria, pois a alegria provém de outra fonte: é espiritual. Muitas vezes, não faltam, com efeito, o dinheiro, o conforto, a higiene e a segurança material; apesar disso, o tédio, o mau humor e a tristeza continuam infelizmente a ser a sorte de muitos”.

    O cristão entende perfeitamente estas idéias expressas pelo Sumo Pontífice. E sabe que a alegria surge de um coração que se sente amado por Deus e que, por sua vez, ama com loucura o Senhor; de um coração que, além disso, se esforça por traduzir esse amor em obras, porque sabe – com o ditado castelhano – que “obras é que são amores, não as boas razões”.

    Os sofrimentos e as tribulações acompanham todos os homens na terra, mas o sofrimento, por si só, não transforma nem purifica; pode até causar revolta e ódio. Alguns cristãos separam-se do Mestre quando chegam até a Cruz, porque esperavam uma felicidade puramente humana, que estivesse isenta de dor e acompanhada de bens naturais.

    Para o amarmos com obras, o Senhor pede-nos que percamos o medo à dor, às tribulações, e o procuremos onde Ele nos espera: na Cruz. A nossa alma ficará então mais purificada e o nosso amor mais forte. Então compreenderemos que a alegria está muito perto da Cruz. Mais ainda: que nunca seremos felizes se não amarmos o sacrifício.

    Essas tribulações que, à luz exclusiva da razão, nos parecem injustas e sem sentido, são necessárias para a nossa santidade pessoal e para a salvação de muitas almas. No mistério da corredenção, a nossa dor, unida aos sofrimentos de Cristo, adquire um valor incomparável para toda a Igreja e para toda a humanidade. O Senhor faz-nos ver que tudo – mesmo aquilo que não tem muita explicação humana – concorre para o bem daqueles que o amam. A dor, quando lhe damos o seu verdadeiro sentido, quando serve para amar mais, produz uma paz íntima e uma profunda alegria. Por isso, em muitas ocasiões, o Senhor abençoa-nos com a Cruz.

    Assim temos que percorrer “o caminho da entrega: a Cruz às costas, com um sorriso nos lábios, com uma luz na alma”.

    Fonte: Falar com Deus.