Sunday, 20 of May of 2012

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Exame sobre o Bom Exemplo – 1 (III)

Por Pe. Francisco Faus

A imagem do sal

Vós sois o sal da terra. Se o sal perder o sabor, com que lhe será restituído o sabor? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e calcado pelos homens (Mat 5, 13).

Os ouvintes de Cristo podiam entender bastante bem estas palavras, como também nós podemos, pois sabemos qual é a utilidade do sal. Resume-a com simplicidade este pensamento de São Josemaria Escrivá: “Sal da terra. – Nosso Senhor disse que os seus discípulos – tu e eu também – são sal da terra: para imunizar, para evitar a corrupção, para temperar o mundo. – Mas também acrescentou «quod si sal evanuerit…» – que se o sal perde o seu sabor, será lançado fora e pisado pelos homens…”.

Há pessoas que, tendo uma vida comum, igual à de muitos outros, dão a tudo o que dizem e fazem o toque de um “sabor” diferente. Os que com eles convivem e se relacionam captam, talvez de modo inconsciente, que tudo neles é atraente, porque está condimentado pela bondade, pelo amor, pela caridade, pela lealdade, pela serenidade, pela fé. Admiram-nas. Gostariam de ser como elas.

Era isso o que acontecia com os primeiros cristãos, como relata um antiqüíssimo escrito do século II, a Carta a Diogneto: “Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver [...]. Vivendo em cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida singular e admirável [...]. Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põem a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo as paixões da carne; moram na terra, mas têm a sua cidadania no céu; obedecem às leis estabelecidas, mas com sua conduta ultrapassam as leis; amam a todos, ainda que sejam perseguidos por todos [...]. Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo” (nn. 5 e 6).

Fica patente nessa apologia que os primeiros cristãos eram, como Cristo desejava, o sal da terra. O seu “modo de vida singular e admirável”, o seu exemplo – fruto palpável de sua fé e do seu amor – atraía os corações mais nobres dentre os pagãos.

Mas não nos esqueçamos de que Cristo falou também do sal que perde o sabor, que se estraga. Não só deixa os alimentos insípidos, como pode vir a produzir náuseas. Talvez nos lembremos de umas palavras bastante fortes do Apocalipse, que Jesus dirige a uma comunidade em que começava a haver cristãos mornos, tíbios, dizendo-lhes – é duro! – que lhe produziam ânsia de vômito. Trata-se de um trecho da carta dirigida à igreja de Laodicéia, muitas vezes citada nas obras de espiritualidade: Conheço as tuas obras: não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, como és morno, nem frio nem quente, estou para te vomitar da minha boca. (Apoc 3, 15-16).

Nem frio nem quente. Na vida de um cristão morno tudo é insípido, tudo tem o mau sabor de sal corrompido. Assim acontece, infelizmente, com o amor decadente, desleixado e rotineiro dos esposos, dos pais, esse amor que, por não se renovar com detalhes de delicadeza, criatividade e abnegação, foi ficando encardido, esgarçado, e acabou tendo cheiro de mofo, por não dizer odor de cadáver.

São Josemaria Escrivá dizia: “Fujamos da rotina como do próprio demônio”, e qualificava a rotina de “abismo, sepulcro”, armazém de coisas mortas iv. A rotina não é só o túmulo do amor dos esposos. Também o trabalho feito sem amor, sem perfeição e capricho nos detalhes, sem espírito de serviço (pense no trabalho no lar), fica sendo como uma comida insossa e azedada… O “exemplo” de pais assim, espiritualmente mais “mortos” do que “vivos”, é natural que não atraia nem faça bem algum. Como seria triste, ou melhor, trágico, que houvesse filhos que pensassem. – “Eu não quero ser como os meus pais! Eles me fizeram desacreditar do casamento, do amor, da família, da vida”. Como seria amargo ter tido pais, mestres, pastores de almas, que foram incapazes de nos fazer sentir o gosto de Deus.

Fonte: http://padrefaus.googlepages.com/


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Exame sobre o Bom Exemplo – 1 (II)

Por Pe. Francisco Faus.

Eu sou luz ou sombra?

Tendo isso em mente, tentemos fazer o nosso exame de consciência, partindo de uma pergunta desafiadora. Eu sou luz ou sombra? Está disposto a enfrentá-la com coragem? Pois, então, veja, só para exemplificar, alguns flashes ilustrativos:

- Se eu sou uma pessoa sincera, constante, organizada, leal à palavra dada e fiel aos compromissos, sou luz. Os outros – filhos alunos, etc. – , junto de mim, vêem claro e sentem-se seguros.

- Mas se sou pessoa mentirosa, inconstante, desordenada e volúvel, sou sombra. Os que dependem de mim ficam confusos, inseguros, não conseguem avaliar o alcance das minhas palavras, das minhas atitudes, das minhas promessas; em suma, não podem contar comigo como um farol orientador nem como um apoio.

- Se eu sou pessoa com ideais nobres e definidos na vida, pessoa que tem valores positivos – ânsias de fazer o bem – , que vibra com eles, que procura praticá-los; se sou pessoa cheia de fé e de esperança e posso dizer, como Jesus, eu sei de onde venho e para onde vou, então eu sou luz, mais ainda, sou reflexo da Luz com maiúscula, sou sinalização divina, foco cristão que orientará outras vidas.

- Mas se sou pessoa cética, agnóstica, cheia de incertezas e de pessimismo, convencida de que neste mundo nada há de bom, tudo é interesseiro, os valores são imaginários e os ideais tolices; se me julgo realista porque capitulo perante os interesses egoístas da terra e sou incapaz de ver, além deles, outra finalidade para a vida, então sou uma sombra mais daninha que uma cascavel oculta no armário, e as primeiras vítimas podem ser os que mais amo.

- Se eu sou um lutador que detesta o conformismo e a acomodação, um coração que sempre quer puxar a vida para patamares mais elevados e perfeitos – para aspirações nobres, para virtudes, para maiores quilates de amor e amizade – ; se eu detesto a mediocridade, se vibro com ânsias de justiça, se arquiteto sonhos realistas para tornar o mundo mais fraterno e belo e os demais mais felizes, então, com certeza, sou luz.

- Se, porém, cochilo na rede da canseira moral e do desencanto; se resmungo mais do que animo, se tenho alma, coração, atitudes, palavras e gestos desbotados pela frustração; se faço troça dos sonhadores sacrificados, se tenho pena dos que “ainda” acreditam no amor, na verdade, na justiça e no bem, então eu sou, com certeza, uma treva miserável..

- Se eu vejo, antes de mais nada, o lado positivo das coisas; se os meus comentários, em casa e fora de casa, sem serem ingênuos, são sempre estimulantes; se sou conhecido como aquela pessoa que sempre acolhe, que sempre está disposta a ajudar, que sempre anima, que sempre sorri, que alegra qualquer ambiente, então eu sou uma luz que concentra as sete cores da alegria..

- Mas se pertenço ao rol daqueles que, mal aparecem em casa, ou se sentam à mesa, ou entram na sala de aula, iniciam uma nova era glacial, apagam o sorriso dos outros (“fechou o tempo” – dizem deles); se a minha característica é a irritação, a impaciência e o mau humor; se reclamo de tudo e de todos; se acho tudo ruim; se não agradeço nada; se tenho pena de mim mesmo e ando com complexo de vítima, então, meu amigo, então eu sou uma sombra pior que as que Dante pinta no Inferno.

Guardemos essas amostras e passemos para outra imagem muito clara de Cristo.

Fonte: http://padrefaus.googlepages.com/


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Exame sobre o Bom Exemplo – 1 (I)

Por Pe. Francisco Faus.

As obras acima das palavras.

Para iniciarmos esta nossa primeira meditação sobre o dever de dar bom exemplo, vamos escutar atentamente umas palavras muito claras de Cristo no Sermão da Montanha: Vós sois a luz do mundo [...]. Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus (Mt 5, 14.16).

A luz entra pelos olhos. O que os olhos enxergam em plena claridade fala por si, não precisa de palavras nem, muito menos, de “palavreado” para se explicar. Assim é o bom exemplo, e assim o apreciaram sempre os grandes homens, sobretudo os santos. Já Santo Inácio de Antioquia, o bispo mártir do século II, enquanto era conduzido a Roma para sofrer martírio, escrevia aos Efésios: “É melhor calar-se e ser do que falar e não ser. É maravilhoso ensinar, quando se faz o que se diz [...]. Aquele que compreende verdadeiramente a palavra de Jesus pode entender o seu silêncio [ou seja, o que "dizem", sem palavras, os seus exemplos]; e então será perfeito, porque atuará de acordo com a sua palavra, e se manifestará também mediante o seu silêncio [ou seja, mediante o que "faz" sem falar]“.

O doce Santo Antônio de Pádua adotava um tom santamente irado quando falava do exemplo: “É viva a palavra quando são as ações que falam. Cessem, peço, os discursos, falem as obras. Estamos saturados de palavras, mas vazios de obras” i. Hoje, a pedagogia científica insiste cada vez mais no valor insubstituível da chamada educação invisível ii; da força exemplar das convicções e das atitudes que as encarnam.

A imagem da luz é simples. A boa luz permite enxergar bem, sem confusões; mostra perigos que a sombra ocultaria; ilumina referenciais da paisagem e dos caminhos que a noite encobriria; a luz também aquece, estimula a vitalidade e favorece a alegria. Poderíamos dizer que os que irradiam a claridade do bom exemplo têm todas essas características da luz.

Fonte: http://padrefaus.googlepages.com/


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Se fores injustiçado ou caluniado…

Filho, não te aflijas se alguém fizer de ti mau conceito ou disser coisas que não gostas de ouvir. Pior ainda deves julgar de ti mesmo, e avaliar-te o mais imperfeito de todos. Se praticares a vida interior, pouco te importarás de palavras que voam. É grande prudência calar-se nas horas da tribulação, volver-se interiormente a mim, e não se perturbar com os juízos humanos.

Não faças depender tua paz da boca dos homens; porque, quer julguem bem, quer mal de ti, não serás por isso homem diferente. Onde está a verdadeira paz e a glória verdadeira? Porventura não está em mim? Quem não procura agradar aos homens, nem teme desagradar-lhes, esse gozará grande paz. É do amor desordenado e do vão temor que nascem o desassossego do coração e a distração dos sentidos.

Imitação de Cristo, Livro Terceiro, Capítulo 28


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"Martírio" Diário, Entrega Total e Fortaleza.

PÔR A META da nossa vida em seguir o Senhor de perto e progredir sempre nesse seguimento já requer fortaleza, porque a imitação de Jesus Cristo nunca foi uma tarefa cômoda; é um ideal alegre, extremamente alegre, mas sacrificado. E depois da primeira decisão, vem a de cada momento, a de cada dia. O cristão deve ser forte para empreender o caminho da santidade e para reempreendê-lo a cada uma das suas etapas, para perseverar sem amolecer, apesar de todos os obstáculos externos e internos que possam apresentar-se.

Necessitamos de fortaleza para ser fiéis nas pequenas coisas de cada dia, que são, em última análise, as que nos aproximam ou nos afastam de Deus. Essa atitude de firmeza manifesta-se no trabalho, na vida familiar, perante a dor e a doença, diante dos possíveis desânimos que tirariam a paz se não houvesse um esforço decidido por superá-los, apoiados sempre na consideração de que Deus é nosso Pai e permanece junto de cada um dos seus filhos.

Precisamos da virtude da fortaleza para evitar que nos extraviemos, para deixar de lado as bugigangas da terra, não permitindo que o coração se apegue a elas. Muitos cristãos parecem ter esquecido que Cristo é verdadeiramente o tesouro escondido, a pérola preciosa, por cuja posse vale a pena não encher o coração de bens minúsculos e relativos, pois “quem conhece as riquezas de Cristo Nosso Senhor, despreza por elas todas as coisas; para esse homem, as posses, as riquezas e as honras são como lixo. Porque não há nada que se possa comparar àquele supremo tesouro, nem que se possa trazer à sua presença”. Para estarmos realmente desprendidos dos bens que devemos utilizar e não os convertermos em fins, devemos ser fortes.

A virtude da fortaleza leva-nos também a ser pacientes perante os acontecimentos e notícias desagradáveis e perante os obstáculos que se apresentam todos os dias. Não é próprio de um cristão que vive na presença de seu Pai-Deus, andar com um aspecto azedo, mal-humorado ou triste por causa de uma espera que se prolonga, de uns planos que tem de mudar à última hora, ou de um pequeno (ou grande) fracasso.

A paciência leva-nos a ser compreensivos com os outros, quando parece que não melhoram ou não põem todo o interesse em corrigir-se, e a tratá-los sempre com caridade, com apreço humano e sentido sobrenatural. Quem tem ao seu cuidado a formação de outras pessoas (pais, mestres, superiores…) necessita particularmente desta virtude, porque “governar, muitas vezes, consiste em saber «ir puxando» pelas pessoas, com paciência e carinho”.

Para fazermos o nosso exame nesta matéria, há de servir-nos de muito este conselho: “Nas relações com os que te cercam, tens de conduzir-te cada dia com muita compreensão, com muito carinho, juntamente – é claro – com toda a energia necessária: de outro modo, a compreensão e o carinho se convertem em cumplicidade e egoísmo”. A caridade nunca é fraqueza, e a fortaleza, por sua vez, não deve supor uma atitude irritada, áspera e mal-humorada.

EM COMPARAÇÃO COM TODOS os fiéis que compõem a Igreja, são poucos aqueles a quem o Senhor pede um testemunho de fé mediante o derramamento de sangue, mas a ninguém deixa Ele de pedir a entrega da vida, pouco a pouco, com um heroísmo escondido, no cumprimento do dever, na luta por uma maior coerência com a fé cristã, exteriorizada mediante um exemplo que arraste e estimule.

Não basta viver interiormente a doutrina de Cristo: seria falsa uma fé que não tivesse manifestações externas. Os cristãos não podem dar a impressão – pela sua passividade ou por não quererem comprometer-se – de que não encaram a sua fé como o valor mais importante da sua vida ou de que não consideram os ensinamentos da Igreja como um elemento vital da sua conduta. “O Senhor necessita de almas fortes e audazes, que não pactuem com a mediocridade e penetrem com passo firme em todos os ambientes”.

E existem épocas em que pode haver graves razões de caridade para confortarmos com o testemunho da nossa fé os que andam vacilantes: mediante uma confissão decidida e sem complexos como a de João Batista, que arraste e mova.

A honra de Deus está acima das conveniências pessoais. Não podemos permanecer passivos quando se quer colocar Deus entre parêntesis na vida pública, ou quando homens sectários pretendem confiná-lo no fundo das consciências. Não podemos estar calados quando há tantas pessoas ao nosso lado que nos olham à espera de um testemunho coerente com a fé que professamos.

Este testemunho consistirá umas vezes na exemplaridade ao longo das muitas horas de trabalho profissional, na caridade e na compreensão com todos, na alegria que revela aos demais homens uma paz nascida do relacionamento com Deus… Outras, estará na defesa serena e firme do Sumo Pontífice ou da hierarquia da Igreja, na refutação de uma doutrina errônea ou confusa… Sempre com serenidade e sem destemperos – que não fazem bem e não são próprios de um cristão -, mas com firmeza.

Fonte: Falar com Deus


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