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    A Quaresma

    February 26th, 2009

    Dom Eugenio Sales
    Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro

    Na quarta-feira de cinzas foi iniciado o tempo da Quaresma. O Concílio Vaticano II nos adverte: “A penitência quaresmal deve ser também externa e social, não só interna e individual” (“Sacrosantum Concilium”, 10). Aliás, este dever não se restringe apenas ao período preparatório à Páscoa, mas é uma decorrência da própria natureza da vida cristã.

    O homem moderno busca o prazer a qualquer preço e reage às restrições feitas ao mesmo. O sofrimento, para ele, é algo meramente negativo, que deve ser afastado. Por isso, as crenças religiosas que surgem na atualidade, alcançam mais sucesso, são aquelas que oferecem um produto que é ansiosamente desejado. Mesmo se falso, muitos se deixam enganar na expectativa de obter a saúde, o emprego, o dinheiro, felicidade imediata na terra, por meios fáceis, sem compromissos com a liberdade.

    Cristo veio ensinar uma doutrina que se expressa na seguinte comparação: “Entrai pela porta estreita, porque largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição e muitos os que entram por ele. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho que conduz à vida e poucos são os que o encontram” (Mt 7,13-14).

    Todo o cristianismo brota de um instrumento de suplício: a Cruz. E somente através do sofrimento do homem, unido ao de Cristo, abrem-se para nós as portas da salvação.

    Intimamente relacionadas com essa verdade, estão as determinações decorrentes dos Mandamentos. Com a desordem instalada em nossa vida, tornou-se difícil seguir o caminho estabelecido pelo Criador para as suas criaturas. Somente esta constatação nos faz compreender que não é possível sem grande esforço cumprir o que nos é exigido. A corrente segue em direção contrária e é preciso remar contra, para assegurar o rumo.

    Por isso, a Sagrada Escritura nos fala repetidamente dessa luta que convive conosco e que deve ser levada a bom termo.

    No Antigo Testamento, repetidas vezes e sob variados aspectos, nos é apresentado o sentido religioso da penitência. Ora para aplacar a ira divina, desencadeada por nossos delitos, outras vezes para conseguir a benevolência do Senhor. O jejum, a esmola e a oração tem especial destaque no texto sagrado.

    No Novo Testamento assumem dimensões novas e mais amplas. Sua importância se revela no fato de Jesus ter assim inaugurado sua pregação: “Depois que João foi preso, veio Jesus para a Galileia, proclamando o evangelho de Deus: ‘Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho’” (Mc 1,14-15).

    A explicação dessa exigência é simples. O homem foi feito à imagem de Deus. A liberdade que lhe dá essa dignidade única em toda a criação é, ao mesmo tempo, uma fonte do mal – quando usada para contrariar a ordem estabelecida pelo Senhor. Para guardar o reto equilíbrio entre as paixões decorrente da estrutura material e a razão, iluminada pela Fé, característica do seu componente espiritual, faz-se mister o emprego de recursos outorgados pelo Salvador. Entre eles, está o autodomínio que se adquire pelas restrições que solidificam a vontade e manifestam ao Senhor nossa adesão às suas orientações. A obediência é um ato de louvor a Deus que nos impõe deveres, no caso: os Mandamentos de Deus e, em seu nome, os da Igreja.

    A independência que se adquire, pela ascese cotidiana nos faz crescer na dimensão transcendental e fortalece os valores que asseguram posições em consonância com o Salvador. Em toda nossa existência, o cumprimento do Evangelho nos garante admirável paz e segurança no presente e no futuro.

    Toda essa visão é absolutamente incompreensível e inaceitável para quem não acredita no Redentor nem vive seus ensinamentos. Caminham pelas estradas da vida, lado a lado, duas correntes humanas: uma que assume posições decorrentes da Fé e a outra, sem esse rumo, que opta por diversos outros procedimentos. O resultado é o que vemos cada dia e a expressar-se constantemente nos meios de comunicação social, em nosso relacionamento nas ruas, nos lugares de trabalho e, muitas vezes, no próprio lar.

    O cristão não se satisfaz em ser fiel à sua crença. Esta o compele (cf 2Cor 5,14) a iluminar o próximo desgarrado. E este tempo da Quaresma nos oferece uma grande oportunidade ao aperfeiçoamento pessoal e eficaz atuação missionária, em nosso ambiente. Um dos principais recursos é a prática da penitência. Sem dúvida, este comportamento nos deve ser familiar durante todo o ano, mas de modo especial, nesse período do ano litúrgico que prepara a celebração da Paixão, Morte e Ressurreição, a Semana Santa, o Tríduo Sagrado.

    Convém lembrar que “penitência” não se identifica com a dor física, supressão do alimento ou algo semelhante. Estes aspectos de mortificação do corpo, evidentemente, estão aí incluídos como meios. Contudo, muito mais ampla é sua dimensão. Assim, toda nossa atividade em favor do próximo é um fator de crescimento religioso. Outrossim, o cumprimento do dever ocupa lugar especial na vida cristã. Há, realmente, uma ampla liberdade de escolha. Restrito é o que há de ser obedecido: o jejum e abstinência, na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira da Paixão. No entanto, trata-se de matéria obrigatória e não simplesmente, uma opção voluntária; atingindo que tem idade e saúde cumpri-los. A Constituição Apostólica “Poenitemini” (nº 18) resume estas duas faces – a observância estrita de certos atos e a opção por outras modalidades – quando exorta “a buscar, além da abstinência e do jejum, expressões novas mais aptas a realizar, segundo a índole das diversas épocas, o próprio fim da penitência”.

    O tempo da Quaresma é rico de graças. Aproveitemo-lo com a alegria de quem segue os passos de Jesus.


    Exame sobre o Bom Exemplo – 2 (III)

    February 23rd, 2009

    Por Pe. Francisco Faus

    A IMAGEM DO PASTOR

    Fazer o mal por omissão

    Mas, ao lado do escândalo, que transforma pais e educadores em lobos depredadores, há uma outra atitude que também causa muito dano: é a dos pais e educadores que, sem dar maus exemplos com a sua conduta nem maus conselhos, simplesmente se omitem e fogem, como o mercenário, amedrontados e sem ação, perante as dificuldades que o ambiente opõe à educação dos adolescentes e jovens nos nossos dias: quando vê chegar o lobo, abandona as ovelhas e foge.

    Essas omissões e fugas, na linguagem clássica cristã, se denominam “respeitos humanos”. “Respeitos humanos” que consistem no receio, na vergonha de sermos considerados diferentes da maioria; no pavor de “chocarmos com o ambiente” e de que nos julguem atrasados, ridículos, carolas ou defasados em relação à evolução dos tempos, e insensíveis aos progressos dos costumes e da modernidade.

    Comentando essa covardia, que se inibe e cede perante o erro, dizia São Josemaria Escrivá: “Assusta o mal que podemos causar, se nos deixarmos arrastar pelo medo ou pela vergonha de nos mostrarmos como cristãos na vida diária”. E acrescentava: “É verdade que nós, os filhos de Deus, não devemos servir ao Senhor para que nos vejam…, mas não nos há de importar que nos vejam, e muito menos podemos deixar de cumprir porque nos estão vendo!” iv

    Não “podemos deixar de cumprir” o dever de ensinar o que é certo (indo na frente com o nosso exemplo), de alertar nitidamente – dando também nós o exemplo – sobre o que está errado (mesmo que quase todo o mundo o julgue normal), de não autorizar – com carinho, mas com firmeza – diversões, viagens em grupo, espetáculos, baladas, modos de namorar…, que são ofensas de Deus (mesmo que passemos por intransigentes obsoletos); de ensinar e exigir com carinho a disciplina de horários e tarefas, necessária para que os filhos e os alunos não caiam numa vida desregrada…

    A luta não é fácil. Precisa ser travada com coragem e confiança em Deus. E com a pureza de quem age sob o olhar de Deus e não buscando a aprovação dos homens. Não nos esqueçamos de que hoje não há mais remédio que enfrentar a pressão consumista e hedonista que domina a sociedade, e que ceder a caprichos e abusos, por medo de que “os outros” critiquem ou zombem, só faz mal aos filhos, e pode destruir-lhes o caráter e a alma. O pastor não pode fugir.

    Vale a pena pensar em todas estas coisas que são matéria para um bom exame de consciência, do qual teriam que sair, como fruto positivo, retificações, resoluções concretas e mudanças. Façamos esse esforço de avaliação, sim, mas não nos esqueçamos, ao mesmo tempo, de levantar o coração a Deus, de pedir com fé a sua ajuda, e de animar-nos com estas palavras de um grande e santo educador: “Com a tua conduta…, mostra às pessoas a diferença que há entre viver triste e viver alegre; entre sentir-se tímido e sentir-se audaz; entre agir com cautela, com duplicidade – com hipocrisia! – , e agir como homem simples e de uma só peça. – Numa palavra, entre ser mundano e ser filho de Deus.

    Fonte: http://padrefaus.googlepages.com/


    Exame sobre o Bom Exemplo – 2 (II)

    February 21st, 2009

    Por Pe. Francisco Faus

    A IMAGEM DO PASTOR

    Também há lobos e mercenários

    A parábola do Bom Pastor fala, por contraste, do mercenário: O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, quando vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge; e o lobo rouba e dispersa as ovelhas (Jo 10, 12).

    Cristo lembra-nos que, ao lado dos bons pastores, existem os mercenários que fogem dos lobos. Seria muito penoso que os pais, orientadores e educadores encarnassem a figura covarde do mercenário que se omite, que foge de enfrentar os problemas difíceis das crianças, adolescentes e jovens e os abandonam à mercê dos lobos.

    Mas mais penoso ainda seria que encarnassem a figura do lobo. E fariam isso, infelizmente, os que, chamados por Deus para guiar como pastores bons, em vez de edificar, destruíssem com os seus maus exemplos.

    Podem ser chamados de lobos – por dura que pareça a expressão – os pais e educadores que, com as suas próprias mãos, isto é, com os seus maus conselhos e os seus péssimos exemplos, empurram os filhos e educandos para a desorientação, o erro, a má conduta, a confusão religiosa, espiritual e moral.

    Fazem isso, sem dúvida, os que se gabam, diante dos filhos ou dos alunos, de desprezar a religião e a Igreja, e não se cansam de expelir sarcasmos contra a fé e a moral “tradicional”; os que exibem exemplos de mau comportamento pessoal, ou de falta de escrúpulos nos negócios, ou, então, péssimos exemplos da infidelidade, justificada em nome dos direitos do egoísmo (de um egoísmo mais forte que o amor conjugal e o carinho pelos filhos, um egoísmo que não hesita em provocar separações traumáticas com a única mira de buscar a “felicidade” pessoal ao preço da infelicidade da família). Esse tipo de “exemplo” diabólico tem o nome de “escândalo”.

    Parecido com esse é o mal provocado por um lobo aparentemente mais manso; chame-o de raposa, se quiser. Refiro-me ao mau exemplo que muitas mães dão às filhas em matéria de moda, de compras descontroladas, de dependência viciada das telenovelas e, em geral, de futilidade e frivolidade mundana. Dirão que não é nada, que são bobagens. Também era nada, aparentemente, a “vovozinha” de Chapeuzinho vermelho, coitada, mas tinha dentes grandes e afiados, prontos para matar.

    Creio que faria muito bem a essa mães “inconscientes” pegar num bom catecismo, e recordar, em relação à moda, um ponto fundamental da doutrina cristã sobre o nono mandamento da Lei de Deus: “A pureza de pensamento e de coração exige o pudor, que preserva a intimidade da pessoa. Jesus disse que o homem que olhar para uma mulher, desejando-a, já pecou com ela no seu coração. Por isso, a mulher tem o dever de cooperar com esse preceito vestindo-se com pudor e modéstia, sem pretextos de arte, moda e beleza?” iii

    Tudo isso é pecado de “escândalo” (induzir os outros a pecar), e, quando de trata de gente ainda imatura, não se pode esquecer o que Cristo disse sobre esse mal: Se alguém fizer cair em pecado um destes pequenos que crêem em mim, melhor fora que lhe atassem no pescoço uma mó de moinho e o lançassem ao fundo do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos! Eles são inevitáveis, mas ai do homem que os causa! (Mat 18, 6-7). O Catecismo da Igreja Católica, ao recordar esse ensinamento de Jesus, frisa especialmente que “o escândalo é grave quando é dado por aqueles que, por natureza ou por função, devem ensinar e educar os outros” (n. 2285).

    Fonte: http://padrefaus.googlepages.com/


    Exame sobre o Bom Exemplo – 2 (I)

    February 19th, 2009

    Por Pe. Francisco Faus

    A IMAGEM DO PASTOR

    Passos que assinalam o caminho

    Na belíssima parábola do Bom Pastor, Cristo reúne mensagens cheias de riqueza espiritual. É claro que a parábola é, em primeiro lugar, um auto-retrato de Cristo – o bom pastor que dá a vida pelas suas ovelhas (Jo 10, 11) – e, em segundo lugar, uma pauta para os pastores da Igreja. Mas as ricas virtualidades da palavra de Cristo atingem a todos, e, assim, a imagem do pastor que depois de conduzir todas as suas ovelhas para fora do aprisco, vai na frente delas, assinalando-lhes o caminho com seus passos, e as conduz à pastagem (cfr. Jo 10, 3 e 4) é especialmente ilustrativa para os que têm o dever de educar: pais, mestres, orientadores…

    A imagem do bom pastor lembra-nos, acima de tudo, a necessidade de ir na frente, marcando o rumo com o nosso exemplo. Esse dever reveste-se de uma especial gravidade quando se trata dos pais. Assim o recordava São Josemaria Escrivá, numa homilia sobre a família: “Os pais educam fundamentalmente com a sua conduta. O que os filhos e as filhas procuram no pai e na mãe não são apenas uns conhecimentos mais amplos que os seus, ou uns conselhos mais ou menos acertados, mas algo de maior categoria; um testemunho do valor e do sentido da vida encarnado numa existência concreta, confirmado nas diversas circunstâncias e situações que se sucedem ao longo dos anos.

    “Se tivesse que dar um conselho aos pais, dir-lhes-ia sobretudo o seguinte: que os vossos filhos vejam – não alimenteis ilusões, eles percebem tudo desde crianças e tudo julgam – que procurais viver de acordo com a vossa fé, que Deus não está apenas nos vossos lábios, que está nas vossas obras, que vos esforçais por ser sinceros e leais, que vos quereis e os quereis de verdade.

    “Assim contribuireis da melhor forma possível para fazer deles cristãos verdadeiros, homens e mulheres íntegros, capazes de enfrentar com espírito aberto as situações que a vida lhes apresente, de servir aos seus concidadãos e de contribuir para a solução dos grandes problemas da humanidade, levando o testemunho de Cristo aonde quer que se encontrem mais tarde, na sociedade” i

    Também o simbolismo do pastor sugere-nos uma porção de perguntas. Formulemos umas poucas:

    - quando quero incutir nos meus filhos o dever de estudar e aproveitar o tempo, dou-lhes antes – e sempre – o exemplo pessoal de aproveitá-lo? (que não me vejam perder horas infinitas diante da televisão, em navegações inúteis na Internet, ou dormindo fora de horas);

    - quando exijo ordem nas roupas, prateleiras, armários e horários, esforço-me primeiro em ser eu mesmo mais ordenado nos meus papéis, contas bancárias e cartões, prazos, livros e gavetas, roupas, etc, e na distribuição do meu tempo?

    - se incentivo os filhos a serem generosos e respeitosos para com os outros, começo dando eu exemplo de generosidade com eles e com todas as pessoas que precisam do meu tempo ou da minha ajuda material ou espiritual; e, se lhes peço respeito, adianto-me antes a respeitá-los (e nunca os humilho com as minhas “broncas”, nem os ridicularizo, nem os rebaixo com comparações e censuras acachapantes); e eles, além disso, me vêem tratar com deferência todas as pessoas, de qualquer nível e condição social, sem discriminações?

    - quando os incentivo a praticar a religião, a serem bons cristãos, por acaso eles contemplam em mim uma religiosidade sincera, quer porque lhes peço o que habitualmente já pratico (não só ocasionalmente e com as desculpas – que eles não engolem – de que sou um adulto ocupado e não tenho tempo); quer porque a minha religiosidade não consiste apenas numas práticas formais, mas consta de práticas vivas (oração, confissão, Missa e comunhão freqüente, leituras formativas…), das quais se nota que tiro luzes e forças para o dia a dia, e se percebe que é precisamente da minha religiosidade que nascem uma maior alegria, mais paciência, boa disposição e carinho mais delicado para com todos, ânsias de ajudar os mais carentes e desamparados?:

    É muito certa a comparação que se faz no “Diretório de pastoral familiar” da Conferência Nacional dos Bispos: “Os caminhos educacionais são semelhantes às trilhas nas florestas: não bastam os sinais indicadores; é preciso um guia, que vá à frente e mostre, com a sua experiência, as passagens mais seguras, os lugares menos perigosos, as picadas mais diretas. Da mesma forma, a alegria, a paz e todos os valores de um lar têm de encontrar a sua fonte na vivência dos próprios pais”.

    Fonte: http://padrefaus.googlepages.com/


    Exame sobre o Bom Exemplo – 1 (IV)

    February 17th, 2009

    Por Pe. Francisco Faus

    A imagem do fermento

    O Reino dos céus é comparável ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha e que faz fermentar toda a massa (Mat 13, 33).

    Esta imagem é importante, sobretudo nos tempos atuais. Lembra-nos que o mundo é uma “massa” carente, quase inteiramente, da qualidade do bom pão das virtudes cristãs, da consistência e do sabor da verdade e do alimento da lei de Deus. Por isso, o exemplo dos cristãos responsáveis, neste ambiente atual, é decisivo. Para transformar a massa em pão de Deus, o fermento precisa ter uma força e uma eficácia capazes de levantá-la. Uma força que só Cristo pode dar.

    Seria cegueira não nos darmos conta de que vivemos, de fato, numa sociedade cada vez mais massificada, em que o ambiente materializado e incrédulo que nos cerca despersonaliza as pessoas. Massifica-lhes a cabeça, os costumes, os gostos e os vícios, até quase anular a personalidade. Cria, em série, adolescentes e jovens consumistas e hedonistas. Basta abrir os olhos para perceber que a “cultura global de massa” robotiza a juventude. Se não houver educadores-fermento, cheios da vitalidade do ideal cristão, a inércia mecânica dos adolescentes que não pensam (talvez porque nunca viram nem aprenderam nada melhor por parte dos que deviam educá-los) os colocará na boca do lobo da “cultura-ambiente” materialista e pagã.

    Sob a influência crescente da mídia, do markenting internacional, dos impérios jornalísticos, da propaganda dominada pela ditadura do lucro – interesses de empresas, de laboratórios, de companhias globais; império econômico do lazer; da indústria da droga e da pornografia… -, tudo se globaliza. E vai sendo também cada vez mais forte sobre a juventude e, em geral, sobre a massa, a influência, não menos ditatorial, das ideologias predominantes (sobretudo do laicismo anti-religioso, dos resíduos imuno-resistentes do marxismo, do hedonismo consumista e das diversas formas de esoterismo e de “mística” tipo New Age).

    Nada mais fácil, nesse clima envolvente, que tornar-se massa. Nada mais fácil que aceitar, sem anti-corpos de idéias, de cultura e de espírito crítico, os valores (os contravalores) da maioria que segue a corrente. Nada mais fácil – é só deixar-se puxar pelo cabresto – que adotar os hábitos sociais comuns e mergulhar bem cedo, já na infância e na adolescência, nos vícios generalizados (álcool, drogas, obsessões “eletrônicas”, aberrações sexuais), enquanto leituras, programas de tv, “mestres”, etc, vão injetando na “veia” todos os preconceitos contra as atitudes cristãs fundamentais, os valores éticos básicos, as evidências da lei natural sobre a vida, a morte, o amor e a família, valores, infelizmente, nunca conhecidos com seriedade, nunca aprendidos e nunca aprofundados.

    “A pós-modernidade – afirma o conhecido pedagogo Víctor García Hoz – é um grande vácuo. A profusão de idéias contraditórias, o relativismo predominante em muitas ideologias e o pragmatismo superficial da sociedade atual, dão razão ao ditado de que o mundo de hoje, especialmente a juventude, sabe o que não quer, mas não sabe o que quer [...]. Os valores que apoiavam a vida humana foram rejeitados e não foram substituídos por outros. O pensamento da pós-modernidade vacila entre a melancolia e o vazio”. v

    Não feche os olhos! É em meio a essa massa desnorteada que se encontram os seus filhos, os seus alunos, os membros do seu rebanho de pastor. Muita boa gente, ao constatar isso, sofre, sofre muito. Mas, o que faz? O que fazemos? Lutamos, porventura, cada um de nós por ser o fermento de que essa massa manipulada precisa para ganhar qualidade humana e cristã? Os nossos critérios e comportamentos têm a potência do fermento, capaz de levedar a massa e transformá-la em bom pão?

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    Pense que é Deus quem lhe dirige, silenciosamente, estas interrogações. O que lhe vai responder? Eis o nosso tema, agora, de meditação e exame de consciência.

    Fonte: http://padrefaus.googlepages.com/