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    Obstáculos ao Progresso na Vida Interior

    January 31st, 2009

    AS CAUSAS que levam a não progredir na vida interior e, portanto, a retroceder e a dar lugar ao desalento, podem ser muito diversas, mas por vezes podem reduzir-se a poucas: ao desleixo, à falta de vigilância nas pequenas coisas que dizem respeito ao serviço e à amizade com Deus, e ao recuo perante os sacrifícios que essa amizade nos pede.

    Tudo o que possuímos para oferecer ao Senhor são pequenos atos de fé e de amor, ações de graças, uma breve visita ao Santíssimo Sacramento, as orações costumeiras ao longo do dia; e esforço no trabalho profissional, amabilidade nas respostas, delicadeza ao prestar ou ao pedir um favor… Muitas pequenas coisas feitas com amor e por amor constituem o nosso tesouro deste dia que levaremos para a eternidade.

    Normalmente, a vida interior alimenta-se, pois, do corriqueiro realizado com atenção e com amor. Pretender outra coisa seria errar de caminho, não achar nada, ou muito pouco, para oferecer a Deus. “Vem a propósito – diz-nos Mons. Escrivá – recordar a história daquele personagem imaginado por um escritor francês, que pretendia caçar leões nos corredores da sua casa e, naturalmente, não os encontrava. A nossa vida é comum e corrente: pretender servir o Senhor com coisas grandes seria como tentar ir à caça de leões pelos corredores. Assim como o caçador do conto, acabaríamos de mãos vazias”, sem nada que oferecer.

    As nossas pequenas obras são como as gotas de água que, somadas umas às outras, fecundam a terra sedenta: um olhar a uma imagem de Nossa Senhora, uma palavra de alento a um amigo, uma genuflexão reverente diante do Sacrário, um movimento imperceptível de domínio da vista pela rua, um pequeno ato de força de vontade para fugir de um dissimulado convite à preguiça… criam os bons hábitos, as virtudes, que conservam e fazem progredir a vida da alma. Se formos fiéis em realizar esses pequenos atos, quando tivermos de enfrentar alguma coisa mais importante – uma doença mais séria, um fracasso profissional… -, saberemos também tirar fruto dessa situação que o Senhor quis ou permitiu. Cumprir-se-ão então as palavras de Jesus: Aquele que é fiel no pouco também o é no muito.

    Outra causa de retrocesso na vida da alma é “negarmo-nos a aceitar os sacrifícios que Deus nos pede”, esquivando-nos a essas ocasiões em que devemos dar combate ao nosso egoísmo para procurar Cristo durante o dia, ao invés de nos procurarmos a nós mesmos. O amor a Deus “adquire-se na fadiga espiritual”. Não existe amor, nem humano nem divino, sem este sacrifício voluntário. “O amor cresce e desenvolve-se em nós no meio das contradições, entre as resistências que o interior de cada um de nós lhe opõe, e ao mesmo tempo entre os obstáculos que provêm «de fora», isto é, das múltiplas forças que lhe são estranhas e até hostis”.

    Como o Senhor nos prometeu que não nos faltaria com a ajuda da sua graça, o nosso progresso só depende da nossa correspondência, do nosso empenho em recomeçar constantemente, sem desanimar, apoiando-nos nos “muitos poucos” que compõem a nossa vida e que estão sempre ao nosso alcance, como um convite ao sacrifício por amor.

    Fonte : Falar com Deus.


    A Humildade

    January 29th, 2009

    Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo” (Fl 2,5).

    Se tivesses estado presente à última ceia, terias aprendido duas lições. Terias aprendido a amar: “Dou-vos um novo mandamento. Assim como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros.” (Jo 13,34). E terias aprendido a humildade, porque eu teria lavado os teus pés.

    A humildade não consiste em atos exteriores, ainda que estes sejam motivados por ela. a humildade é interior. É uma disposição interna de conhecer a verdade sobre si mesmo, de aceitá-la e de viver de acordo com ela. É a base sólida sobre a qual deves levantar tua vida espiritual.

    Pela humildade meus santos tornaram-se dignos do amor da Santíssima Trindade. Aprende a humildade de Maria. Ela, a mãe do Altíssimo, a mais favorecida de minhas criaturas, jamais se orgulhou. Reconheceu, aceitou e viveu a verdade sobre si mesma, cumprindo perfeitamente o seu dever. Apesar de saber que era bendita entre todas as mulheres da Terra, não se retirou na solidão, esperando que o mundo reconhecesse sua grandeza e viesse servi-la. Sabendo que Isabel, sua prima, estava no sexto mês de gravidez, foi imediatamente ajudá-la. E ficou com ela durante três meses. Depois, com admirável respeito, partiu, porque Isabel deveria gozar a alegria do filho de sua velhice e ser a rainha do lar. Nisto ninguém deveria interferir. Depois de ter prestado seus serviços à prima, Maria logo se retirou.

    Humildade!

    Aprende também a humildade de João Batista, o maior profeta dentre os filhos dos homens. Medita em seu desprendimento, em não deixar o Jordão para me procurar e depois de me descobrir, em não me seguir fisicamente. “O homem não pode receber coisa alguma”, disse João, “se não lhe for dada do Céu” (Jo 3,27).

    E assim, João permaneceu no Jordão cumprindo seu dever até o dia em que Herodes o lançou na prisão por dizer a verdade de Deus.

    Aprende a humildade do Filho do Homem que, como criança, obedecia às suas próprias criaturas; e que disse a João, no batismo: “Convém que cumpramos toda a justiça” (Mt 3,15). Ele pagou o tributo do templo para que ninguém se escandalizasse. Seus lábios muitas vezes repetiram a frase de obediência: para que se cumprissem as Escrituras.

    Tornei-me um ser humano, um servidor, uma criatura, não exigindo ficar imune daquilo que acontece à humanidade: viver, na Terra, entre dores. Sabendo plenamente o que este fato me traria, jamais murmurei, muito menos me revoltei contra os erros, as injustiças e os tormentos que me sobrevieram.

    Submeti-me em tudo às minhas criaturas. Insultaram-me, chamaram-me de louco, desprezaram-me como o mais vil dos seres: o demônio. Prenderam-me, açoitaram-me, bateram-me, zombaram de mim e cuspiram em mim. Como reagirias a tais ultrajes de criaturas, cujas vidas estivessem em tuas mãos, criaturas que não pudessem mover-se e menos ainda existir sem tua vontade?

    Atravessaram, com pregos, os meus pés e as minhas mãos. Deixaram-me pendente do madeiro da cruz, morrendo lentamente, enquanto minha mãe observava tudo aquilo. Suportarias tudo isto?

    Mas era vontade de meu Pai que eu sofresse, e por isso, era também minha vontade.

    Adão e Eva tinham somente de obedecer. Mas, apesar de todas as vantagens que lhes tinham si, do apresentadas, não quiseram aceitar a supremacia do Criador.

    Eu reparei seu pecado, obedecendo em todas as coisas, mesmo quando o demônio arremessava toda a sua fúria sobre mim. Abatido, no jardim, pelos pensamentos de agonia, diante da expectativa de ter de suportar sobre meus ombros todos os pecados da humanidade, entregue a mim mesmo, à terrível tentação de recusar sofrer os mais horríveis tormentos, não obstante submeti-me inteiramente. “Não se faça, contudo, a minha vontade, mas a tua” (Lc 22,42).

    Isto é humildade. Aprende de mim!

    Do livro Cristo minha vida, págs. 93-95.


    “Dispostos a uma nova conversão”

    January 27th, 2009

    Teus parentes, teus colegas, teus amigos vão notando a mudança, e reparam que não é uma transição momentânea, que já não és o mesmo. – Não te preocupes, continua em frente! Cumpre-se o “vivit vero in me Christus” – agora é Cristo quem vive em ti. (Sulco, 424)

    Qui habitat in adiutorio Altissimi, in protectione Dei coeli commorabitur.Habitar sob a proteção de Deus, viver com Deus: esta é a arriscada segurança do cristão. Precisamos persuadir-nos de que Deus nos ouve, de que está com os olhos postos em nós; assim se inundará de paz o nosso coração. Mas viver com Deus é indubitavelmente correr um risco, porque o Senhor não se satisfaz compartilhando: quer tudo. E aproximar-se um pouco mais dEle significa estarmos dispostos a uma nova conversão, a uma nova retificação, a escutar mais atentamente as suas inspirações, os santos desejos que faz brotar na alma, e a pô-los em prática.

    Desde a nossa primeira decisão consciente de vivermos integramente a doutrina de Cristo, não há dúvida de que avançamos muito no caminho da fidelidade à sua Palavra. Mas não é verdade que ainda restam tantas coisas por fazer? Não é verdade que resta sobretudo tanta soberba? É precisa, sem dúvida, uma nova mudança, uma lealdade mais plena, uma humildade mais profunda, de modo que, diminuindo o nosso egoísmo, Cristo cresça em nós, já que illum oportet crescere, me autem minui , é preciso que Ele cresça e eu diminua

    Não é possível ficarmos imóveis. Temos que avançar em direção à meta apontada por São Paulo: Não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. A ambição é alta e nobilíssima: a identificação com Cristo, a santidade. Mas não existe outro caminho, se desejamos ser coerentes com a vida divina que Deus fez nascer em nossas almas pelo Batismo. Avançar é progredir na santidade; e negar-se ao desenvolvimento normal da vida cristã é retroceder. Porque o fogo do amor de Deus precisa ser alimentado, crescer cada dia, ganhar raízes na alma: e o fogo mantém-se vivo quando se queimam coisas novas. Por isso, se não aumenta, leva caminho de extinguir-se. (É Cristo que passa, 58)

    http://www.opusdei.org.br/art.php?p=20812


    Diálogo Ecumênico (III)

    January 26th, 2009

    SÃO PAULO RECORDAVA aos primeiros cristãos de Éfeso que deviam proclamar a verdade com caridade: veritatem facientes in caritate, e é isso o que nós devemos fazer: com aqueles que já estão perto da plena comunhão na fé e com os que possuem apenas um vago sentimento religioso.

    Sem ceder na doutrina, devemos ser compreensivos, cordiais. E mais do que isso: se por qualquer circunstância nos encontramos num ambiente ou devemos estar com alguém que nos trata com frieza, seguiremos o sábio conselho de São João da Cruz: “Não pense em outra coisa – exortava o Santo a uma pessoa que lhe pedia luz no meio das suas tribulações e dificuldades – senão que Deus ordena todas as coisas; e onde não há amor, ponha amor e tirará amor”. Nas pequenas e grandes circunstâncias da vida, teremos abundantes ocasiões de pôr este conselho em prática. E veremos muitas vezes como, quase sem o percebermos, nos foi possível mudar esse ambiente hostil ou indiferente.

    A verdade deve ser apresentada integralmente, sem falsas composições, mas de maneira amável; nunca pode ser uma verdade azeda ou implicante, nem imposta à força ou com violência. Todas as pessoas têm o direito de ser tratadas com respeito, de que se aprecie o que sempre há de positivo nas suas idéias ou na sua conduta, por mais que estejam erradas ou que lhes façamos uma crítica legítima. Não devemos julgar ninguém, e muito menos condenar. A mesma caridade que nos anima a manter-nos firmes na fé é a que nos leva a querer bem às pessoas, a compreender, a desculpar, a deixar agir a graça de Deus, que não força nem tira a liberdade das almas.

    A compreensão leva-nos a querer saciar a maior necessidade que o coração humano experimenta: a ânsia de verdade e de felicidade, que Deus imprimiu em cada criatura. As circunstâncias em que cada qual se encontra são diferentes, como também o grau de verdade que se alcançou; e para que todos cheguem à plenitude da fé, o nosso afeto e a nossa amizade podem ser a ponte de que Deus muitas vezes se serve para penetrar mais profundamente nessas almas.

    Nossa Senhora, se lhe pedirmos que nos ajude, há de ensinar-nos a tratar a cada um como convém: com infinito carinho e respeito pela pessoa, e ao mesmo tempo com imenso amor pela verdade, com um amor que não nos levará, por falsa compreensão, a ceder na doutrina.

    Fonte: Falar com Deus


    Diálogo Ecumênico (II)

    January 24th, 2009

    A BOA NOVA que a Igreja proclama é precisamente fonte da salvação porque é a mesma verdade pregada por Cristo. “Consciente disso, Paulo quer confrontar a doutrina que anuncia com a dos outros Apóstolos, para estar certo da autenticidade da sua pregação (Gal 2, 10); e durante toda a sua vida, nunca deixou de recomendar a fidelidade aos ensinamentos recebidos, porque ninguém pode estabelecer outro fundamento senão aquele que já foi estabelecido, que é Jesus Cristo (1 Cor 3, 11)”.

    A verdade que recebemos do Senhor é una, imutável, integramente conservada nos começos e através dos séculos, e nunca será lícito relativizá-la e aceitar dela somente aquilo que pareça conveniente, pois “qualquer atentado à unidade da fé é um atentado contra o próprio Cristo”. São Paulo está tão profundamente convencido desta verdade que não cessa de censurar nas suas Epístolas as pequenas facções que iam aparecendo naquela primeira época. Trago-vos à memória, irmãos, o Evangelho que vos tenho pregado, que recebestes, no qual vos mantendes firmes e pelo qual sois salvos [...]. Pois transmiti-vos em primeiro lugar aquilo que eu mesmo recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; e que apareceu a Cefas e depois aos doze. Posteriormente, apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais muitos ainda vivem e alguns morreram.

    O Apóstolo anuncia a esses primeiros cristãos que a doutrina que devem crer não é uma teoria sua, pessoal, nem de nenhum outro, mas a doutrina comum dos Doze, daqueles que foram testemunhas da vida, morte e ressurreição de Cristo, de quem por sua vez a receberam. O conteúdo da fé – nos primeiros tempos e hoje – encontra-se resumido no Credo, que tem a sua origem nos ensinamentos de Jesus, transmitidos pelos Apóstolos com a assistência constante do Espírito Santo. Este conteúdo não é uma teoria abstrata acerca de Deus, mas a verdade salvadora revelada pelo Senhor, que tem umas conseqüências práticas e reais no nosso modo de ser, de pensar, de trabalhar, de agir… Por não resultar de um convênio humano nem ser uma doutrina inventada pelos homens, “é absolutamente necessário expor com clareza toda a doutrina. Nada é tão alheio ao ecumenismo – ensina o Concílio Vaticano II – como aquele falso irenismo que desvirtua a pureza da doutrina católica e obscurece o seu sentido genuíno”.

    O verdadeiro objetivo do diálogo ecumênico, bem como de todo o diálogo apostólico, reside, pois, em procurar a comunhão mais perfeita com a verdade salvadora de Cristo. O progresso no conhecimento e na aceitação dessa verdade necessita da contínua assistência do Espírito Santo, a quem pedimos luz nestes dias, e de estudo e reflexão para podermos entender e explicar cada vez de modo mais claro tudo aquilo que Jesus Cristo nos revelou, e que se encontra guardado como um tesouro no seio da Igreja Católica. Só então é que podemos compreender – diz Paulo VI – por que a Igreja, “ontem e hoje, dá tanta importância à rigorosa conservação da autêntica revelação, por que a considera um tesouro inviolável e tem uma consciência tão severa do seu dever fundamental de defender e transmitir em termos inequívocos a doutrina da fé. A ortodoxia é a sua primeira preocupação; o magistério pastoral, a sua função primária e providencial [...]; e o lema do Apóstolo Paulo: Depositum custodi (1 Tim 6, 20; 2 Tim 1, 14), constitui para ela um compromisso tal, que seria uma traição violá-lo.

    “A Igreja, mestra, não inventa a sua doutrina; ela é testemunha, guardiã, intérprete, meio; e naquilo que se refere às verdades próprias da mensagem cristã, pode-se dizer que é conservadora, intransigente; e a quem lhe pede que torne a sua fé mais fácil, mais de acordo com os gostos da cambiante mentalidade dos tempos, responde-lhe com os Apóstolos: Non possumus, não podemos (At 4, 20)”. Este ensinamento também deve servir de critério na ação apostólica com aqueles católicos que quereriam adaptar a doutrina, às vezes severa, a uma situação particular em que está ausente o espírito de sacrifício e que, portanto, é incompatível com o seguimento do Senhor.

    Fonte: Falar com Deus