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    Perseguição

    December 27th, 2008

    NEM SEMPRE a perseguição teve as mesmas características. Durante os primeiros séculos, pretendeu-se destruir a fé dos cristãos por meio da violência física. Em outros momentos da história, sem que essa violência desaparecesse, os cristãos viram-se – vêem-se – oprimidos nos seus direitos mais fundamentais, ou a braços com campanhas dirigidas a minar a fé dos mais simples e a desorientá-los. Mesmo em terras de grande tradição cristã, levanta-se todo o tipo de obstáculos para que se possam educar cristãmente os filhos, ou privam-se os cristãos, pelo mero fato de o serem, de justas oportunidades profissionais.

    Não é infreqüente que, em sociedades que se chamam livres, o cristão tenha que viver num ambiente claramente adverso. Pode-se dar então uma perseguição disfarçada, com o recurso à ironia, que tenta ridicularizar os valores cristãos, ou à pressão ambiental, que pretende amedrontar os mais fracos: é uma dura perseguição não sangrenta, que não raras vezes se vale da calúnia e da maledicência. “Em outros tempos – diz Santo Agostinho -, incitavam-se os cristãos a renegar Cristo; agora, ensina-se os mesmos a negar a Cristo. Naquela época, incitava-se; agora ensina-se; antes, usava-se de violência, agora, de insídias; antes, ouvia-se o inimigo rugir; agora, apresenta-se com mansidão insinuante e envolvente, e dificilmente se deixa descobrir. Todos sabemos de que modo se violentavam os cristãos para que negassem a Cristo: procuravam atraí-los para que renegassem; mas eles, confessando Cristo, eram coroados. Agora ensina-se a negar a Cristo e, enganando-os, não querem que pareça que os afastam de Cristo”. É como se o Santo estivesse retratando os dias de hoje.

    O Senhor também quis prevenir os seus para que não se desnorteassem com a contradição que procede, não dos pagãos, mas dos próprios irmãos na fé, que com a sua atuação injusta, motivada geralmente por invejas, falso zelo e faltas de retidão de intenção, julgam que prestam um serviço a Deus. Todas as oposições, mas especialmente estas, devem ser superadas junto do Senhor no Sacrário.

    São circunstâncias que expressam um especial convite do Senhor para que estejamos unidos a Ele mediante a oração. São momentos em que devemos exercitar a fortaleza e a paciência, sem nunca querermos devolver mal por mal. Com a ajuda divina, a alma sairá dessas provas mais humilde e purificada, experimentará de um modo especial a alegria do Senhor e poderá dizer com São Paulo: Estou cheio de consolação, transbordo de alegria em todas as nossas tribulações.

    Ensinai-nos, ó Deus, a imitar o que celebramos, amando os nossos próprios inimigos, pois festejamos Santo Estêvão, vosso primeiro mártir, que soube rezar pelos seus perseguidores.

    O CRISTÃO que sofre perseguição por seguir Jesus tirará dessa experiência uma grande capacidade de compreensão e o propósito firme de não ferir, de não ofender, de não maltratar. O Senhor pede-nos, além disso, que oremos por aqueles que nos perseguem,veritatem facientes in caritate, praticando a verdade com caridade. Estas palavras de São Paulo levam-nos a ensinar a doutrina do Evangelho sem faltar à caridade de Jesus Cristo.

    A última das Bem-aventuranças acaba com uma promessa apaixonada do Senhor: Bem-aventurados sereis quando vos insultarem, vos perseguirem e vos caluniarem por minha causa. Alegrai-vos e regozijai-vos porque grande será a vossa recompensa nos céus. O Senhor é sempre bom pagador.

    Estêvão foi o primeiro mártir do cristianismo e morreu por proclamar a verdade. Também nós fomos convocados para difundir a verdade de Cristo sem medo, sem dissimulações: Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma. Por isso, quando se trata de proclamar a doutrina salvadora de Cristo, não podemos ceder perante os obstáculos, antes havemos de comportar-nos de tal modo que se cumpram em nós estas palavras de Caminho: “Não tenhas medo à verdade, ainda que a verdade te acarrete a morte”.

    A história da Igreja mostra que, às vezes, as tribulações fazem com que uma pessoa se acovarde e esmoreça no seu relacionamento com Deus; mas, em muitas outras ocasiões, fazem amadurecer as almas santas, que carregam a cruz de cada dia e seguem o Senhor identificadas com Ele. Vemos constantemente esta dupla possibilidade: uma mesma dificuldade – uma doença, incompreensões, etc. – tem efeitos diferentes conforme as disposições da alma. Se queremos ser santos, não há dúvida de que as nossas disposições devem ser as de seguir sempre de perto o Senhor, apesar de todos os obstáculos.

    Em momentos de contrariedade, é de grande ajuda fomentar a esperança do Céu: ajuda-nos a ser firmes na fé perante qualquer tipo de perseguição ou tentativa de desorientação. “E se caminharmos sempre com esta determinação de antes morrer que deixar de chegar ao fim, mesmo que o Senhor vos leve com alguma sede por este caminho da vida, Ele vos dará de beber com toda a abundância na outra e sem temor de que vos venha a faltar”.

    Em épocas de dificuldades externas, devemos ajudar os nossos irmãos na fé a ser firmes perante essas oposições. Prestar-lhes-emos essa ajuda se não lhes faltarmos com o nosso exemplo, com a nossa palavra, com a nossa alegria, com a nossa fidelidade e a nossa oração; e sobretudo se procurarmos ser especialmente delicados em viver com eles a caridade fraterna, porque o irmão ajudado pelo seu irmão é como uma cidade amuralhada; é inexpugnável.

    A Virgem, nossa Mãe, está particularmente perto de nós em todas as circunstâncias difíceis. Hoje dirigimo-nos também de modo especial ao primeiro mártir que deu a vida por Cristo, pedindo-lhe que nos ajude a ser fortes em todas as tribulações.

    Fonte: Falar com Deus.


    “Deus humilha-se”

    December 24th, 2008

    E em Belém nasce o nosso Deus: Jesus Cristo! – Não há lugar na pousada: num estábulo. – E sua Mãe envolve-O em panos e reclina-O no presépio (Lc 2, 7). Frio. – Pobreza. – Sou um escravozinho de José. – Que bom é José! – Trata-me como um pai a seu filho. – Até me perdoa, se tomo o Menino em meus braços e fico, horas e horas, dizendo-Lhe coisas doces e ardentes!… E beijo-O – beija-O tu -, e O embalo, e canto para Ele, e Lhe chamo Rei, Amor, meu Deus, meu Único, meu Tudo!… Que lindo é o Menino… e que curta a dezena! (Santo Rosário, mistérios gozosos, 3)

    Começa por permanecer nove meses no seio de sua Mãe, como qualquer outro homem, com extrema naturalidade. O Senhor sabia de sobra que a humanidade necessitava dEle com urgência. Tinha, portanto, fome de vir à terra para salvar todas as almas. Mas não precipita o tempo; vem na sua hora, como chegam ao mundo os outros homens. Desde a concepção até o nascimento, ninguém – a não ser São José e Santa Isabel – percebe esta maravilha: Deus veio habitar entre os homens!

    O Natal também está rodeado de uma simplicidade admirável: o Senhor vem sem estrondo, desconhecido de todos. Na terra, só Maria e José participam da divina aventura. Depois, os pastores, avisados pelos Anjos. E, mais tarde, os sábios do Oriente. Assim se realiza o fato transcendente que une o céu à terra, Deus ao homem!

    Como é possível tanta dureza de coração, que cheguemos a acostumar-nos a estes episódios? Deus humilha-se para que possamos aproximar-nos dEle, para que possamos corresponder ao seu amor com o nosso amor, para que a nossa liberdade se renda, não só ante o espetáculo do seu poder, como também ante a maravilha da sua humildade.

    Grandeza de um Menino que é Deus! Seu Pai é o Deus que fez os céus e a terra, e Ele ali está, num presépio, quia non erat eis locus in diversorio, porque não havia outro lugar na terra para o dono de toda a Criação. (É Cristo que passa, 18)

    http://www.opusdei.org.br/art.php?p=20461


    A Língua: Metáforas.

    December 21st, 2008

    Veja bem como é realista o que essas comparações manifestam, mesmo limitando-nos a escumar agora algumas metáforas sobre a língua que, em boa parte, depois haveremos de considerar com mais vagar.

    Não é exato dizer, por exemplo, como São Tiago, que a língua é um fogo…, e sendo inflamada pelo inferno, incendeia o curso da nossa vida (Tg 3, 6)? Quantas vidas não conhece que a língua própria ou alheia reduziu a cinzas: umas vezes, foi o incêndio provocado pela calúnia brutal que estraçalhou um prestígio; outras, uma palavra ofensiva, repetida entre marido e mulher tantas vezes, que acabou por desfazer um lar?

    Mas também é verdade, como diz belamente o livro dos Provérbios, que as palavras da boca de um homem são águas profundas e que a fonte da sabedoria é uma torrente transbordante (Prov 18, 4). Pense somente nas águas profundíssimas, luminosas, vivificantes e curativas, que foram e continuam a ser para os homens as palavras de Cristo. Pense no que significam ainda para muitos as palavras ardentes dos que vivem sinceramente da fé de Cristo.

    E para lembrar imagens da “charada”, veja se não têm razão os Provérbios ao afirmarem que as palavras agradáveis são como um favo de mel, doçura para a alma… (Prov 16, 24). Não vai dizer-me que nunca teve a felicidade de experimentar isso na sua vida… Há palavras cuja influência doce e benfazeja não se esquece jamais.

    Da mesma forma, todos nos sentimos atingidos quando ouvimos São Tiago – grande invectivador da má língua! – dizer sem rebuços que a língua… é um mal irrequieto, cheia de veneno mortífero (Tg 3, 8). Será que não experimentamos já a maligna comichão de falar o que não devemos, o que antes mesmo de tê-lo dito, deixa na boca o sabor do veneno que a nossa língua se dispõe a instilar…?

    Ao lado disso, certamente não faltaram ocasiões felizes – pela bondade de Deus – em que a nossa língua teve o belo privilégio de curar, de dar saúde às feridas (cf. Prov 12, 18), tanto às provocadas por nós mesmos como às causadas por outros; e então a nossa boa língua foi uma árvore de vida – porque alimentou esperanças, revigorou o amor, levantou, reabilitou -, ao contrário da língua perversa, que corta o coração (Prov 15, 4) como uma navalha afiada (Sl 52, 4).

    FRANCISCO FAUS, A LÍNGUA , 2ª edição, QUADRANTE, São Paulo 1996.


    Maria, mulher de fé, de esperança e de amor.

    December 21st, 2008

    Os santos são os verdadeiros portadores de luz dentro da história, porque são homens e mulheres de fé, esperança e caridade. Entre os Santos, sobressai Maria, Mãe do Senhor e espelho de toda a santidade. No Evangelho de Lucas, encontramo-La empenhada num serviço de caridade a sua prima Isabel, junto da qual permanece «cerca de três meses» (1, 56), assistindo-a na última fase da gravidez. «Magnificat anima mea Dominum – A minha alma engrandece o Senhor» (Lc 1, 46), diz por ocasião de tal visita, exprimindo assim todo o programa da sua vida: não se colocar a si mesma ao centro, mas dar espaço ao Deus que encontra tanto na oração como no serviço ao próximo – só então o mundo se torna bom.

    Maria é grande, precisamente porque não quer fazer-se grande a si mesma, mas engrandecer a Deus. Ela é humilde: não deseja ser mais nada senão a serva do Senhor (cf. Lc 1, 38.48). Sabe que contribui para a salvação do mundo, não realizando uma obra sua, mas apenas colocando-se totalmente à disposição das iniciativas de Deus. É uma mulher de esperança: só porque crê nas promessas de Deus e espera a salvação de Israel, é que o Anjo pode vir ter com Ela e chamá-la para o serviço decisivo de tais promessas. É uma mulher de fé: «Feliz de Ti, que acreditaste», diz-lhe Isabel (cf. Lc 1, 45).

    Fonte: Papa Bento XVI – Encíclica Deus Caritas est, § 41; Libreria Editrice Vaticana


    Oferecimento

    December 20th, 2008

    Se necessitas de virgens, Senhor,
    se necessitas de valentes sob o teu estandarte
    aí estão Clara, Teresa, Domingos, Francisco, Inácio…,
    aí estão Lourenço, Cecília…

    Mas se, por acaso, alguma vez precisares de um preguiçoso
    e de um medíocre, de um ou outro ignorante, de um orgulhoso,
    de um cobarde, de um ingrato e de um impuro,
    de um homem cujo coração esteve fechado e cujo rosto foi duro…,
    aqui estou eu.

    Quando te faltarem os outros, a mim sempre me terás.

    (Charles Péguy)