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    Exigências da Fé

    August 31st, 2008

    Por Dom Eugênio Sales

    A autenticidade na vida e nas atitudes, é como o alicerce firme nas construções sólidas. O cristão que vive a sua Fé, nas diversas ocasiões de sua existência, contribui para a edificação da Igreja. A credibilidade com que esta se apresenta diante dos homens é, em parte, constituída pelas ações de seus filhos. Há um outro dever que desejo lembrar: ser sinal. O católico, reconhecido como tal, assume esse encargo e dele não se pode esquivar.

    Dirijo-me aos que procuram realmente viver de modo autêntico e íntegro os ensinamentos de Cristo, não aos simples batizados e aos que apenas e ocasionalmente vão à Missa. Apresento, aos que querem ser membros conscientes e vivos, em toda extensão da palavra, alguns dados e levanto determinadas questões diante deste duplo dever: ser autêntico e ser sinal do Redentor. Aliás, esse é o único caminho que nos deixou o Cristo para sermos a Ele fiéis.

    Examinemos, sob esse ângulo, a responsabilidade social. Depois, poderemos inquirir sobre a posição diante de doutrinas que hoje pululam.

    Metade da população no Brasil sobrevive com até cinco salários mínimos por mês. Assim, 85 milhões de brasileiros pertencem às famílias que sobrevivem com essa renda mensal. Esta é uma das informações fornecidas pela pesquisa do orçamento familiar (POF 2002-2003) divulgada pelo IBGE. O total inclui 26.502.399 de brasileiros que sobrevivem sem rendimentos ou com rendimento inferior a dois salários mínimos por mês.

    Não se trata de atribuir responsabilidades ao Governo ou às estruturas, mas de interrogar, diante de Deus, a própria consciência.

    Certamente, não devemos ser ingênuos e pedir simplesmente uma distribuição, da qual resultariam mendigos em maior número, pelo estímulo à ociosidade. Devemos ir às raízes do mal. Não podemos deixar de refletir sobre a aplicação de grandes somas no supérfluo, por uma restrita parcela da população, quando, para nós cristãos, todos são filhos do mesmo Pai. Importâncias vultosas são despendidas unicamente em proveito próprio, na ostentação e no luxo. Busca-se uma afirmação pelo acidental e transitório, pelo que brilha e não, no valor pessoal.

    Deve ser ressalvado o decoro social de uma classe, ou da Autoridade para melhor cumprir sua missão de servir. Entretanto, insisto no que chamo de escândalo e ofensa a um irmão pobre. Repetindo o que escrevi há muitos anos, ainda quando Arcebispo de Salvador: “o que o rico gasta em uma noite, em casas de diversões noturnas, corresponde ao salário mensal de um operário que deve sustentar sua família. E, pela madrugada, quando um se recolhe para dormir, o outro acorda para se encaminhar a um labor cotidiano. Nesta cidade, são milhares que, diariamente, repousam, após terem utilizado o dinheiro alheio, pois o supérfluo do abastado pertence ao pobre“.

    Não é um mal, em si, ser rico. A condenação evangélica se caracteriza pelo uso que se faz dessa mesma riqueza. Há uma responsabilidade de quem possui haveres além de suas necessidades. Por exemplo, o aproveitamento de recursos excedentes para acelerar o progresso traz em seu seio um objetivo social, com novos empregos e o desenvolvimento do País.

    Outra maneira, é realmente contribuir para instituições que, com boa técnica, ajudam a minorar os males da pobreza, especialmente se estimulam o esforço pela promoção pessoal. Ou, ainda, dar do seu tempo e de sua capacidade operativa para obras que se destinem ao bem comum.

    O esbanjamento, sim, é uma injúria ao Cristo feita por quem O recebe na comunhão e ao qual pertence como membro do corpo Místico.

    Que outros o façam, é lamentável. O cristão, entretanto, tem o dever de ser anúncio da Boa Nova e de ser autêntico. Caso contrário, faz uma obra demolidora da Igreja, diante da comunidade civil e religiosa a que pertence.

    A importância de ser sinal é mais grave hoje, pela ampla difusão através dos meios de comunicação social, do estilo de vida em uma sociedade de consumo. Além disso, há um aspecto explosivo, pois leva até à massa empobrecida detalhes de um desperdício realmente ofensivo. E os exorbitantes gastos durante o Carnaval, além da licenciosidade que vemos pela televisão, são uma ofensa à população mais carente, bem como à família. Assim também a permissividade nos trajes, bem como a sua divulgação pela mídia, provoca uma reação que pode ser contida até certo limite, pela força, mas se constitui em uma permanente ameaça.

    Já se manifestam entre nós os efeitos nefastos, creio eu, pelos crescentes atentados ao pudor. Reclamamos da Polícia, mas deveríamos, antes, repartir responsabilidades.

    Mais do que estes crimes, temo a força provocada por essa ostentação. Poderia eclodir, desordenadamente, em determinadas circunstâncias.

    Estes são argumentos humanos. Quem vive sua Fé, sabe que um dia comparecerá diante do Supremo Juiz. Diz o Senhor: “Todo aquele que der testemunho de Mim diante dos homens, também Eu darei testemunho dele diante do meu Pai. Aquele que Me negar, também eu o negarei” (Mt 10,32-33).

    Tão grave como abandonar o nome de católico é professar, por atos, a doutrina contrária. Não ser Cristo onde se vive e se trabalha, especialmente onde se diverte, traz consigo graves conseqüências. Gastar o próprio dinheiro, egoisticamente, conflita com as normas sociais de uma Fé que é exigente.

    Fonte: http://www.arquidiocese.org.br/paginas/v20052005.htm


    “Não dialogues com a tentação”

    August 29th, 2008
    Vais chapinhando nas tentações, pões-te em perigo, brincas com a vista e com a imaginação, ficas conversando sobre… estupidez. – E depois te assustas por te assaltarem dúvidas, escrúpulos, confusões, tristeza e desalento. – Tens de admitir que és pouco conseqüente. (Sulco, 132)

    Temos de fomentar em nossas almas um verdadeiro horror ao pecado. Senhor – repete-o de coração contrito -, que eu não Te ofenda mais! Mas não te assustes ao notares o lastro do pobre corpo e das humanas paixões: seria tolo e ingenuamente pueril que descobrisses agora que “isso” existe. A tua miséria não é obstáculo, mas acicate para que te unas mais a Deus, para que O procures com constância, porque Ele nos purifica. (Sulco, 134)

    Não dialogues com a tentação. Deixa-me que te repita: tem a coragem de fugir, e a energia de não manusear a tua fraqueza pensando até onde poderias chegar. Corta, sem concessões! (Sulco, 137)

    Não tens desculpa nenhuma. A culpa é somente tua. Se sabes – conheces-te o bastante – que, por esse caminho – com essas leituras, com essa companhia… -, podes acabar no precipício, por que te obstinas em pensar que talvez seja um atalho que facilita a tua formação ou que amadurece a tua personalidade? Muda radicalmente o teu plano, ainda que te exija mais esforço, menos diversões ao alcance da mão. Já é tempo de que te comportes como uma pessoa responsável. (Sulco, 138)

    http://www.opusdei.org.br/art.php?p=18370


    “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos”

    August 28th, 2008
    Por D. Estêvão Bettencourt, OSB
    Aconteceu que, indo eles pelo caminho, veio um homem que lhe disse: Seguir-te-ei para onde quer que vás. Jesus disse-lhe: As raposas têm seus covis e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.

    A outro disse: Segue-me. Mas ele disse: Senhor, permite-me que vá primeiro sepultar meu pai. Mas Jesus respondeu: Segue-me, e deixa que os mortos enterrem os seus mortos; tu vai e anuncia o reino de Deus (Lc 9, 57-60; cfr. Mt 8, 19-22).

    ATITUDE PERANTE A VOCAÇÃO

    O significado dos dizeres acima reproduzidos entende-se bem à luz do respectivo contexto, contexto que no Evangelho de São Lucas é um pouco mais explícito do que no de São Mateus.

    Na verdade, os Evangelistas nos apresentam sucessivamente duas atitudes dos homens perante uma chamada do Divino Mestre – a chamada para seguirem a Cristo na qualidade de discípulos.

    A primeira atitude é a da generosidade aparente, mas superficial. Com efeito, alguém se apresentou ao Divino Mestre afirmando: Mestre, seguir-te-ei para onde quer que vás. A esse fervor pouco experimentado, dizem os Evangelistas, Jesus houve por bem responder com reservas, mostrando as dificuldades do propósito: segui-lo seria expor-se a todas as espécies de privações, pois as raposas têm os seus covis, e as aves do céu os seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça, advertiu o Senhor.

    A segunda atitude do homem perante a chamada de Cristo é a da vacilação. Certa vez, o próprio Divino Mestre dirigiu a alguém o convite: Segue-me. Ao que o discípulo replicou: Senhor, permite-me que vá primeiro sepultar meu pai. Não se dando por satisfeito com a resposta, Cristo insistiu: Segue-me, e deixa que os mortos enterrem os seus mortos.

    Alguns comentadores julgam que o pai do jovem se achava ainda em vida, se bem que gravemente enfermo. O mancebo teria então pedido ao Senhor o prazo mais ou menos longo que decorreria até a morte e o sepultamento do doente, talvez pensando em esquivar-se definitivamente ao convite de Jesus. A maioria dos exegetas, porém, admite que o ancião já morrera e que o jovem pedia apenas o exíguo tempo necessário para participar dos funerais.

    Como quer que seja, num e noutro caso o pedido parecia muito legítimo: prestar assistência aos genitores e sepultar os mortos eram obras altamente estimadas pelos judeus piedosos*. E já que os judeus costumavam sepultar no próprio dia da morte (cfr. At 5, 5-6), o pedido do jovem não implicaria em grande atraso para seguir o Divino Mestre. Contudo, Jesus não quis reconhecer a legitimidade da súplica.

    ——————————————–

    (*) Em particular, o sepultamento dos defuntos era tido como dever tão imperioso que os rabinos dispensavam das orações usuais e do estudo da Lei os filhos que tivessem por sepultar pai ou mãe (cfr. o tratado do Talmud, Berachot 17, 2); além disso, a própria Escritura Sagrada, por suas narrativas, muito parecia recomendar aos filhos o cuidado de sepultarem os seus pais (cfr. Gên 25, 9; 50, 5; Tob 1, 21; 2, 3-7; 4, 3).

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    Não porque o cuidado dos mortos não seja em si uma obra boa, mas porque, no caso focalizado, a atitude do mancebo significava falta de generosidade para com Deus, significava certa covardia ou também um coração dividido entre o amor a Deus e o amor às criaturas. Ora, o Senhor quer ser amado acima de tudo; é, aliás, a reta hierarquia de valores que o exige: ou Deus ocupa o lugar capital na vida do homem, norteando todas as suas atitudes, ou simplesmente dever-se-á dizer que Deus não existe para esse homem; ninguém se iludirá julgando que cultua a Deus pelo fato de Lhe consagrar algumas de suas atitudes ou algumas de suas horas na vida.

    O VALOR ABSOLUTO

    Uma pequena digressão servirá para ilustrar quanto acabamos de dizer.

    Um monge hindu dizia com muito acerto: “Deus é a unidade sem a qual só existem zeros”. Com efeito, Deus é, por definição, o Ser Absoluto – o que significa: o Valor Absoluto. Deus é, sim, o Valor que torna valiosa toda e qualquer criatura, e sem o qual esta é vazia e enganadora. Imaginemos uma série de três zeros, outra de seis, outra de nove zeros:

    000 000.000 000.000.000

    Os zeros que se acrescentam aos zeros nada alteram; tudo fica sendo zero… Mas coloquemos o número Um, uma só unidade, coisa simplicíssima, na série… Se pusermos o “Um” em último lugar, o conjunto, por mais longo que seja, ficará valendo muito pouco, será uma ninharia… Se o colocarmos em penúltimo lugar, já o conjunto valerá dez, o que ainda é muito pouco… Caso ponhamos a unidade em terceiro, em quarto, em quinto lugar, a série irá aumentando de valor (cem, mil, dez mil…). Finalmente, se se coloca o número Um à frente de cada série, ter-se-á:

    1.000 = mil

    1.000.000 = um milhão

    1.000.000.000 = um bilhão

    Coisa estupenda! Os zeros tomam imenso valor desde que o “Um” lhes seja anteposto e os ilumine. Pois bem; Deus é esse “Um” sem o qual as criaturas nada são.

    Se Deus ficar em último lugar na vida do homem, esta se apresentará sempre como insípida bagatela, ninharia vazia… Uma vez, porém, que se ponha Deus incondicionalmente em lugar capital, cada bagatela, cada zero da vida toma valor imprevistamente grande.

    O homem pode acumular mil bens criados no seu tesouro; se chegarem a fazer empalidecer ou a remover a face de Deus no horizonte do indivíduo, esses bens, por mais numerosos que sejam, equivalerão a uma longa série de zeros; deixarão o seu possuidor sempre frustrado e insatisfeito…

    Mas se o cristão puser Deus à frente de cada criatura e procurar ver tudo sob a perspectiva dEle, então e somente então esse homem começará a compreender o valor das criaturas; começará a compreender também que seguir Cristo é o maior de todos os bens e que a vida, vivida em fidelidade absoluta ao Senhor, vale, apesar de tudo, a pena de ser vivida!

    A ÚNICA RESPOSTA

    Voltando ao texto do Santo Evangelho, diremos conseqüentemente que, no caso da chamada dirigida pessoalmente por Jesus ao jovem, só uma resposta era adequada: a aceitação imediata, não postergada por qualquer outra tarefa; embora esta fosse em si legítima – como o sepultamento dos mortos –, naquelas circunstâncias tornava-se condenável porque, em vez de levar o discípulo a amar mais a Deus, servia para diminuir e entibiar a sua adesão ao Bem Infinito.

    Eis o motivo da insistência apresentada por Cristo. Contudo, a segunda parte da frase do Senhor costuma também causar estranheza: Deixa que os mortos enterrem os seus mortos.

    A construção da frase é evidentemente artificiosa, pois, como de antemão se pode conjeturar, faz duplo emprego do termo “mortos”. Em suma. Jesus quer dizer que, para sepultar cadáveres materiais – ou os mortos, no sentido físico –, há sempre gente suficiente; há, sim, todos aqueles que não são chamados à vida da graça e do apostolado, gente talvez indiferente aos interesses do Reino de Deus. Tais pessoas vivem para o mundo e para as tarefas deste mundo; são por Jesus designadas metaforicamente como “mortos”…

    Esta figura de linguagem, forte como é, justifica-se pelo desejo que Jesus tem de realçar a grandeza e a premência da vocação dirigida ao jovem mancebo; chamado a seguir diretamente a Jesus, ele possui o quinhão por excelência, em comparação com o qual tudo empalidece ou desaparece, morre.

    A figura também se explica pelo uso dos rabinos, que costumavam considerar como mortos – em espírito – os indivíduos que viviam alheios ao Reino de Deus. Aliás, um eco bem significativo desse uso ressoa no texto de São Paulo: A viúva que vive em prazeres está morta, embora pareça viva (1 Tim 5, 6).

    Conseqüentemente, os mestres de Israel tinham os homens piedosos na conta de “vivos”, mesmo que estes se vissem atribulados e condenados à morte (cfr. 2 Cor 4, 7-12).

    Por conseguinte, Jesus quer incutir ao discípulo que Ele chama a preciosa norma: “Deixa o cuidado dos mortos ou, mais amplamente ainda, o cuidado das coisas mortais ou temporais, aos homens que, por desconhecerem valores mais elevados, se dedicam profissionalmente a isso; tu, porém, que recebeste a melhor das vocações, não queiras viver como se não a tivesses, mas volta-se decididamente para os valores eternos”.

    Durand comenta assim as palavras de Jesus: “Admiramos o soldado que, no caso de extremo perigo da pátria, permanece em seu posto na frente de combate, deixando aos de trás o cuidado de sepultar o seu pai. Como então nos contentaríamos com uma dedicação menor, ao tratar-se do Reino de Deus?” (Com. em Mateus, 133).

    Por fim, o episódio que acabamos de analisar ainda sugere uma reflexão: em dados momentos da vida, a maior graça que Deus pode conceder a uma alma é a de pedir-lhe um ato de heroísmo. Esse ato, esse impulso forte, ainda que faça sofrer, vem a ser a condição imprescindível para que o cristão se eleve acima de seus interesses temporais ou para que fortaleça a sua verdadeira vida, e não se torne um morto a sepultar mortos no cemitério das coisas temporais.

    D. Estêvão Bettencourt, OSB
    Sacerdote e teólogo beneditino. Exerceu o magistério em diversas universiades do Brasil. É o fundador e redator pela revista “Pergunte e responderemos”, que desde 1957 tem esclarecido diversos pontos da doutrina católica.
    Fonte: “Páginas dfíceis do Evangelho”, 2ª ed., Quadrante, São Paulo, 1993, págs. 23-29.

    http://www.quadrante.com.br/Pages/servicos02.asp?id=339&categoria=Espiritualidade


    Como pude fazer isso ??!!

    August 27th, 2008

    “(…) é freqüente perguntarmo-nos, ao recordar os nossos pecados: “Como pude ser tão estúpido ? Como é possível que me tenha comportado como um animal, que tenha caído outra vez após outra nisto… e também naquilo?” Falamos como se no fundo, fôssemos pessoas excelentes, e os nossos pecados uma espécie de lapsos inexplicáveis.

    Não é necessário dizer-te que essa visão é completamente falsa. A verdade – tanto do ponto de vista teológico como do da experiência própria – é que somos criaturas caídas e, por isso, constantemente inclinadas a deixar-nos levar pela tentação, embora nos esqueçamos disso com freqüência. Dizemos a nós mesmos: “Que coisa extraordinária ! Vi claramente que não deveria fazer aquilo, mas acabei fazendo-o apesar de tudo. É absurdo”. Como vês, não o é de maneira nenhuma, desde que compreendas retamente a doutrina do pecado original.

    (…) quando confessamos os nossos pecados, devemos sentir dor de coração, envergonhar-nos deles, odiá-los, mas não surpreender-nos de tê-los cometido. E muito menos dizer: “Isto não é próprio de mim”. Muito pelo contrário, isso é que é próprio de nós, visto que somos criaturas caídas ! Mas sobretudo não te aborreças, não te irrites por teres caído; nunca essa atitude fez bem a ninguém.

    É uma sutil vaidade a que nos faz ter essas reações; tendemos inconscientemente a pensar no nosso progresso espiritual como se tratasse de ir vencendo uma corrida de obstáculos ou de ir conquistando recordes, e, se tropeçamos ou não conseguimos a marca prevista, sentimo-nos humilhados, quando na verdade o que Deus quer é que sejamos humildes, o que é completamente diferente.

    Oxalá não nos aconteça o mesmo com os nossos pecados, já que pecar não é surpreendente. Pelo contrário, é o normal numas criaturas caídas como nós, que necessitam da graça de Deus a cada instante. Sem ela, não podemos fazer nada de bom.

    (…)

    Mas não metas os pés pelas mãos. Não penses que, pelo fato de seres uma criatura caída, não podes evitar o pecado. Todos somos – não é necessário insistir nisto – responsáveis pelos nossos atos. Nem sempre é possível ter a certeza de que uma falta em concreto é um pecado ou uma simples imperfeição; nem de que um pecado que cometemos é venial ou mortal. Em última instância, esse juízo cabe a Deus. Mas com muita freqüência não é assim. Normalmente, sabemos que pecamos, mortal ou venialmente. E é aqui que precisamos ter em conta retamente a nossa condição de criaturas caídas: ela não desculpa as nossas faltas, apesar de explicá-las.

    Por isso, sejamos pacientes com os nossos pecados, como o seríamos com os dos outros; alimentemos a esperança de ser curados, e rezemos com constância para isso.  Consideremos as nossas faltas com humildade, tal como as nossas virtudes.”

    KNOX, Ronald. Deus e Eu. Quadrante, São Paulo, 1987, p-86/89.


    Poesia para almas cansadas de tanta tribulação… (II)

    August 26th, 2008

    Poesias neolatinas… Reparem bem nas estrofes, a ortografia do Português é diferente, mas não se perde a compreensão das idéias dos autores. Boa leitura!

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    Da Oração

    Por Frei Agostinho da Cruz (1540-1619)

    Doce quietação de quem vos ama,
    Em serviços, Senhor, que tanto quanto
    Amado sois, tão longe o fim de tanto,
    Subindo mais, e mais, mais se derrama:

    Ardendo por arder em viva chama
    De amor do vosso amor, a voz levanto;
    Sinto, suspiro, choro, colho, e planto
    Ao som doutra suave que me chama.

    Onde se vai, Senhor, quem vos ofende?
    Donde levais, Deus meu, a quem vos segue?
    Onde fugir se pode uma de duas?

    Morto por quem o mata que pretende,
    Ou que extremos de amor há que nos negue
    Quem culpas nossas chama ofensas suas?

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    Trecho extraído do Auto da Alma

     Por Gil Vicente (1465?-1537?)

    Santo Agostinho

    Consolar à sua despesa
    Nesta mesa
    Qualquer alma caminheira
    Necessário foi, amigos,
    Que nesta triste carreira
    Desta vida,
    Para os mui perigosos perigos
    Dos imigos,
    Houvesse algua maneira
    De guarida.
    Porque a humana transitória
    Natureza vai cansada
    Em várias calmas,
    Nesta carreira de glória
    Meritória,
    Foi necessária pousada
    Para as almas.

    Pousada com mantimentos,
    Mesa posta em clara luz,
    Sempre esperando,
    Com dobrados mantimentos
    Dos tormentos
    Que o Filho de Deus, na cruz,
    Comprou, penando.
    Sua morte foi avença,
    Dando, por dar-nos paraíso,
    A sua vida
    Apreçada, sem detença,
    Por sentença
    Julgada a paga em provido
    E recebida.
    A sua mortal empresa
    Foi: santa estalajadeira
    Igreja Madre
    Com o padre.
    E o Anjo Custódio aio
    Alma que lhe é encomendada
    Se enfraquece
    E lhe vai tomando raio
    De desmaio
    E chegando a esta pousada
    Se guarece.

    Anjo:

    Alma humana, formada
    De nenhuma cousa, feita
    Mui preciosa,
    De corrupção separada,
    E esmaltada
    Naquela frágua perfeita,
    Gloriosa;
    Planta neste vale posta
    Para dar celestes flores
    Olorosas,
    E para serdes transposta
    Em a alta costa
    Onde se criam primores
    Mais que rosas.

    Planta sois e caminheira,
    Que ainda que estais, vos is
    Donde viestes.
    Vossa pátria verdadeira
    é ser herdeira
    Da glória que conseguis;
    Andai prestes,
    Alma bem-aventurada,
    Dos anjos tanto querida,
    Não durmais;

    Um ponto não esteis parada,
    Que a jornada
    Muito em breve é fenecida
    Se atentais.

     

     Fonte: http://www.geocities.com/Paris/LeftBank/2238/1indice1.htm