Sunday, 20 of May of 2012

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Teologia das Virtudes Ascéticas: A Mansidão

Por Izabel Ribeiro Filippi

Num mundo onde há, se não uma ausência de valores, uma inversão completa deles, dificilmente se encontra lugar para o verdadeiro Bem, que não está em objeto ou homem qualquer, mas vem do alto. Por isso, talvez, a imagem do Cristo calado, tal qual cordeiro levado ao matadouro, é muito apreciada, mas dificilmente vivida, uma vez que o manso e humilde é tido como fraco e medíocre, ou ainda falso e resignado. A virtude da mansidão parece, como tantas outras virtudes que deveríamos cultivar, fadada ao esquecimento e desprezo, já que não se vê como pode coadunar com o homem moderno e competitivo. É preciso um profundo senso cristão para compreender que a mansidão não é “a fraqueza de caráter que dissimula, sob exteriores adocicados, um profundo ressentimento. É uma virtude interna que reside ao mesmo tempo na vontade e na sensibilidade, para lá fazer reinar a serenidade e a paz, mas que se manifesta exteriormente, nas palavras e nos gestos, por maneiras afáveis” (TANQUEREY, Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana, 2007. p. 599).

Como em todas as demais virtudes, a mansidão poderá tornar-se em nós uma disposição habitual para o bem se buscarmos sempre praticá-la. “Quando estás com ânimo calmo e sem motivo algum de irritar-te, faze um grande provimento de brandura e benignidade, acostumando-te a falar e a agir sempre com este espírito, tanto em coisas grandes como pequenas” (SALES, São Francisco: Filotéia. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 217). Quanto mais nos acostumamos com o bem e nos afeiçoamos por ele, mas facilmente o empregaremos quando as grandes tentações advierem.

Esta não é uma virtude que caminha sozinha. Exigindo controle de si mesmo para moderar os movimentos da cólera, é anexa à temperança, pois a tranqüilidade da alma, por excelência, é resultado desta virtude, muito embora seja de todas. Por suportar os defeitos dos irmãos, exige-se que ande junto da paciência, e, portanto, da virtude da fortaleza, que também auxilia a vencer a ira e coibir a indignação. E não deixa de caminhar com a mais nobre das virtudes, a caridade, pois o manso perdoa as injúrias e é benevolente para com todos.

É sabido que toda virtude tem seu vício oposto, que é sufocado com a habitual prática do bem. Mas, neste caso, a teologia costuma indicar duas possibilidades para a ira: a que se submete à razão e é moderada por ela, e a que é movida pelas paixões e desordenada. A ira que está em desacordo com a ordem da razão deseja o mal ao próximo, e é esta ira que conhecemos como vício capital, também chamada de iracúndia. A ira por zelo, se moderada, é boa, mas deve-se ter extremo cuidado para que ela não deixe de ser instrumento de virtude e permaneça sempre escrava da razão, pronta a servi-la se necessário for. A ira apenas é boa e ordenada quando quer corrigir um vício e não visa a vingança e o dano alheio, mas unicamente a justa emenda das injúrias.

Não se conformar com um pecado e querer sua correção são atos virtuosos. Assim, a ira como movimento do apetite sensitivo, pode servir à razão, de modo a estar submetida à ela para pôr em prática a justiça contra o pecado. Mas quando se quer o extermínio de quem peca, irando-se não contra o pecado, mas contra o irmão que peca, querendo vingar seu pecado nele, causando-lhe dano, aí sim se encontra o mal. A ira “impede o juízo da razão, pois a alma só pode avaliar a verdade com uma certa tranqüilidade de mente, por isso diz o filósofo que a alma, tendo paz, se faz conhecedora e prudente” (AQUINO, Santo Tomás. De malo in Sobre o Ensino – Os Sete Pecados Capitais. São Paulo: Martins Fontes, 2001, pág. 97).

“Nutrirá um desejo vicioso da ira, a qual por isso se chama ira por vício, quem deseja a vingança de qualquer modo, contra a ordem da razão; por exemplo, se deseja castigar a quem não merece, ou além do merecido, ou ainda não seguindo a ordem legítima, ou enfim, não em vista do fim devido, que é a realização da justiça e a correção da culpa” (AQUINO, Santo Tomás: Suma Teológica – Primeira Parte da Segunda Parte. Porto Alegre: Sulina, 1980, Q. CLVIII). Longe do virtuoso estará, portanto, querer fazer justiça com as próprias mãos, fugindo da retidão e da ordem. E até mesmo a ira por zelo deve ser constantemente moderada, pois se deixa de servir à razão e toma ardor excessivo, não estará isenta de pecado. “É melhor, diz Santo Agostinho, escrevendo a Profuturo, fechar inteiramente a entrada do coração à cólera, por mais justa que seja, porque ela lança raízes tão profundas que é muito difícil de arrancá-las” (SALES, São Francisco: Filotéia. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 214).

Se acaso sofremos injustiças, não podemos nutrir pensamentos vingativos, que levem nosso ânimo a inchar-se, perturbando nossa mente, características do vício da ira. O manso, apesar de não se conformar com a injustiça sofrida por si ou por outrem, manterá firme a disposição de amar a todos, ainda que tanto dano tenham causado. Se for necessária uma correção da injúria, a deseja por justiça, tendo em vista o reparo do mal feito e não causar igual ou maior dano e dor ao que foi injusto.

Os que principiam na prática da virtude precisam combater os desejos e todos os movimentos apaixonados da alma. Para progredir nela é necessário buscar a Cristo, suas palavras, seus exemplos, d’Ele que foi anunciado como manso desde o Antigo Testamento: “Ele não grita, nunca eleva a voz, não clama nas ruas. Não quebrará o caniço rachado, não extinguirá a mecha que ainda fumega. Anunciará com toda a franqueza a verdadeira religião; não desanimará, nem desfalecerá, até que tenha estabelecido a verdadeira religião sobre a terra, e até que as ilhas desejem seus ensinamentos” (Is 42,2-4). Quando fala, Cristo é firme, mas suave e tranqüilo. Não apaga as faíscas da fé e da esperança que ainda permanecem nos corações dos que pecaram, e acende ainda mais a chama viva nos corações que O amam. Foi assim que Cristo inaugurou o Reino de Deus, que estabeleceu sua Igreja, que nos deixou a Salvação.

Em momentos onde estamos por ser levados pelas paixões, é mister esforçar-nos em medir as palavras, de modo a não cair em insultos e blasfêmias. Ainda que a ira seja causada por grande mal, não justifica ferir o outro que, ainda que pecador, continua naturalmente dotado da dignidade que Deus deu a cada homem ao nos criar e fazer-nos imagem e semelhança d’Ele. E por isso Nosso Senhor colocou a mansidão ao lado da humildade: “Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas” (Mt 11,29). A humildade suscitará uma postura mansa frente às injustiças, pois o humilde sabe-se indigno de honras e quer andar ao lado do Cristo, que rumou silencioso para o Calvário, tendo sobre si o peso dos pecados – não os Dele, porque jamais os teve, mas os de toda a humanidade. É a mansidão “que faz o homem passar por cima de todo o sofrimento e que excede a todas as virtudes, porque é a flor da caridade que, como diz São Bernardo, só possui o auge da sua perfeição quando ajunta a virtude à paciência” (SALES, São Francisco: Filotéia. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 211)

“Digo-vos a vós, afirma o Senhor: Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos caluniam. Por que o ordenou? Para libertar-te do ódio, da tristeza, da ira e do rancor, e tornar-te digno de grandíssimo tesouro da perfeita caridade; é impossível que a possua quem não ama igualmente a todos os homens, à imitação de Cristo, o qual ama igualmente a todos os homens e quer que se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (MÁXIMO, São: Centúrias sobre a Caridade e Outros Escritos Espirituais. São Paulo: Landy, 2003. p. 64). Se vemos almas em todos aqueles com quem convivemos, isso ajudará a não irar-se contra eles, pois assim veremos Cristo em tudo e todos. É nosso dever, inclusive, orar pelos nossos inimigos, o que ajudará não apenas estas almas, mas também fortalecerá aos que por conta de seus atos se escandalizaram. Fazendo isso a alma fica em paz consigo, com o próximo e com Deus. Tudo suporta, pois sabe “que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os seus desígnios” (Rm 8,28).

Não só de atos exteriores nos fazemos mansos, pois o Cristo diz ser “manso e humildade de coração”. Quem mantém a tranqüilidade no espírito, não se exaspera com ardor e orgulho diante das mágoas sofridas. O orgulhoso acha que deve ser exaltado e que é imerecedor de qualquer desonra ou injúria, e por isso se volta com ira contra aquele que lhe fere. O humilde se compraz com as humilhações e danos, pois, diferente do orgulhoso que só quer compartilhar com Cristo sua glória, assim se assemelha mais ao seu Senhor e pode compartilhar uma pequena parte do sofrimento da Cruz.

O mal não está só no ato, mas em nosso interior. Quando nos apresentarmos a Deus, é o que somos (que se reflete no que fazemos) que será visto: estaremos nús diante de Deus, e não poderá coexistir o mal junto do Supremo Bem: se nosso coração não tende à perfeição de Cristo, e não se faz manso como o d’Ele, só por isso já teremos nossa condenação. Um coração amargurado, indignado com tudo e todos, com ódio e rancor, que não tem tranqüilidade nem paz, com certeza não está próximo ao Coração de Jesus. É certo que muitas vezes nosso coração é massacrado pelo pecado, pelas injustiças, pelas humilhações e todo tipo de sofrimento, mas aquele que tem certeza de onde quer chegar não se atormenta por isso: permanece com Cristo, clama a Ele em todas as suas angústias, e não se volte contra ao próximo e muito menos contra Deus. Luta persistente e eficazmente, mas sem violência, seja a física ou a de coração: esta é a verdadeira paz com Deus.

Conforme aconselha São Francisco de Sales, “a ciência de viver sem cólera é muito melhor do que a de servir-se dela com sabedoria e moderação; e, se por qualquer imperfeição ou fraqueza, esta paixão surpreender o nosso coração, é melhor reprimi-la imediatamente que procurar regrá-la” (SALES, São Francisco: Filotéia. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 215). Ainda segundo o santo, a melhor forma de reprimi-la é doce e eficazmente, não de um modo brusco que perturbe a alma; mas, recorrendo a Deus, em oração, sempre com suavidade, para que Ele nos auxilie em nossas fraquezas. Caso formos tentados com a cólera, não podemos reter a irritação, não permitindo que o ânimo se exalte e venhamos a expressar a ira, retribuindo as injúrias recebidas ou ainda atacando os que sequer nos fizeram algo. Se porventura nos irarmos contra alguém, é importante corrigir logo a falta com atos de mansidão e brandura, pois as feridas recentes são mais fáceis de curar que as antigas.

“A vida é uma viagem que temos que fazer para atingir o céu; não nos zanguemos no caminho uns contra os outros; andemos em companhia com nossos irmãos, em espírito de paz e amizade. Generalizando, aconselho-te: nunca por nada te exaltes, se for possível, e nunca, por pretexto algum, abras teu coração à ira; pois São Tiago diz expressamente: a ira do homem não opera a justiça” (SALES, São Francisco: Filotéia. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 213). Assim, se no afã contra a injustiça, nos exaltamos contra o injusto, de certo modo tornamo-nos como ele quando à falta de justiça, pois, conforme citou São Francisco de Sales: “Todo homem deve ser pronto para ouvir, porém tardo para falar e tardo para se irar; porque a ira do homem não cumpre a justiça de Deus” (Tg 1,19-20).

O homem perde muito tempo de sua vida empregando-o no mal. Se, frente o mal praticado pelos ímpios, não pagamos o mal com o mal, mas nos esforçamos em fazer o bem, aplicaremos muito mais eficazmente nosso tempo – que não sabemos quanto ainda nos resta para gastar – e esforços na correção justa do que se os perdêssemos com vinganças, que só fariam aumentar a injustiça e as ofensas a Deus e de nada adiantariam senão para saciar o orgulho de quem se vinga. Pagar o mal com o bem é o que diferenciará o cristão dos que não levam Deus no coração, porque os que O levam vêm tudo com sentido sobrenatural e querem fazer valer o exemplo de Cristo, uma vez que “a caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,4-8). Assim, a mansidão abre as portas para que esta caridade adentre o coração do homem.

Ser manso significa, muitas vezes, calar o desnecessário, mas nem sempre o silêncio é essencial. Se é nosso dever corrigir um erro e podemos realmente fazer algo para emendá-lo e emendar aquele que errou, precisamos fazer tudo que estiver ao nosso alcance para que assim seja, visando o bem de todos os envolvidos e o agrado de Deus. “Deve-se resistir ao mal e corrigir os maus costumes dos seus subalternos com santo ânimo e muita firmeza, mas sempre com uma inalterável mansidão e tranqüilidade; nada pode aplacar tão facilmente um elefante com a vista dum cordeirinho, e o que mais diminui o ímpeto duma bala de canhão é a lã [...] Se a razão procura com mansidão seus direitos de autoridade por meio de algumas correções e castigos, todos aprovarão e a estimarão, mas se a razão mostra indignação, despeito e cólera, [...] ela mais faz-se temer que amar e perturba e oprime a si mesma” (SALES, São Francisco: Filotéia. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 213-214).

É desta forma, com a razão soberana em nós, que devemos ser veementemente contra calúnias contra a Igreja e a Nosso Senhor, corrigindo quem o faz sem ira nem tristeza: é dever de todo cristão não permitir que o Santo Nome de Deus seja insultado ou que sua doutrina seja deturpada, porém nossa defesa só será eficaz se for humilde, mansa e racional. Com esta mesma mansidão os pais devem criar seus filhos. Vivemos numa sociedade que acha que qualquer tipo de correção é repressão, e deixa suas crianças à mercê delas mesmas, não dando a elas diretrizes para seguir e tornarem-se adultos cristãos, que respeitem a todos e saibam seus direitos e deveres. A educação com limites não é violência – e não pode vir a ser –, pelo contrário, é por amor e com amor que os pais dão aos seus filhos a noção do certo e do errado, levando-os aos caminhos do bem desde cedo, para que se habituem a ele e o amem. Lembremos de Nossa Senhora – aquela que melhor guardou o santo silêncio – que, quando encontrou o menino Jesus que havia se separado da caravana, não tardou em questioná-lo de seu sumiço, firme e brandamente. Foi com a ajuda da sua Sagrada Família que Cristo cresceu em estatura, em sabedoria e em graça (Cf. Lc 2,52).

Nem mesmo para conosco devemos nos irar. A dor pelo pecado não deve ser aborrecida, mas mansa e humilde. A verdadeira compunção nos leva a abrandar todas as paixões e a não nos exasperarmos, colocando toda a confiança na Misericórdia de Deus, que tudo perdoa a um coração contrito que o busca no Sacramento da Confissão, e com tranqüilidade e firmeza mantém o propósito de não mais voltar a ofender ao Senhor. Com o salmista, devemos repetir: “meu sacrifício, ó Senhor, é um espírito contrito, um coração arrependido e humilhado, ó Deus, que não haveis de desprezar” (Sl 50,19).

Quando nos vemos assolados pelo pecado, certamente nos achamos indignos de Cristo… E isto é verdade, não o somos! Mas é igual verdade que nosso Deus é um Deus misericordioso, que abre os braços a todos os seus filhos que o procuram. Se nós não podemos, sozinhos, oferecer reparo suficiente por nossas faltas, unidos aos méritos da Cruz de Cristo podemos ser justificados se nos arrependemos sinceramente e o buscamos. Mas o homem que não dá um passo a frente e, vendo sua miséria, não vê também a misericórdia e o amor de Cristo, se desespera e se consome por seu pecado, não visando seu reparo, mas sim afundando-se cada vez mais nele. Esta não é a atitude do autêntico cristão! O cristão que vive a humildade se compraz em sua miséria, e, toda vez que cai, volta-se para Deus, com ânimo renovado, para continuar a batalha, para seguir no caminho, pois não quer permanecer caído e não quer voltar ao chão lamacento do pecado. Agarra-se, por isso, às mãos estendidas do Cristo – mãos marcadas pelas chagas da Cruz – e segue em frente. Para quem tem um coração manso e humilde, as barreiras do orgulho e do desespero são retiradas do caminho rumo à caridade, e assim pode serenamente aproximar-se de Deus e com Ele permanecer.

Esta virtude se faz presente no encontro da Verdade, a qual conhecemos com certeza através da Igreja Santa e Católica. A mansidão destrói os impedimentos aos atos de piedade, e por isso liga-se a este dom indiretamente. Dom do Espírito Santo, a piedade “convém aos mansos, porque aquele que com piedade investiga e honra as Sagradas Escrituras não critica o que ainda não compreende; e, portanto, não resiste a coisa alguma, o que constitui a virtude da mansidão” (AGOSTINHO, Santo: O Sermão da Montanha. São Paulo: Edições Paulinas, 1992. p.31). É próprio do manso ser obediente à Igreja e solícito com as coisas do Pai, já que não se revolta com aquilo que não entende e busca pacientemente a explicação junto à Santa Madre Igreja.

A mansidão nos prepara para o conhecimento de Deus, removendo-nos os impedimentos ao nos tornar senhores de nós mesmos, com a razão soberana à vontade e às paixões e iluminada pela fé, nos levando, assim, a nos submetermos à Verdade. “É próprio da mansidão não contradizer as palavras da Verdade, o que às vezes muitos fazem pela comoção da ira. Por isso, diz Santo Agostinho: ser humilde é não contradizer à divina Escritura, quer quando, entendendo-a, vemos que condena certos vícios nossos; quer quando não a entendemos, como se pudéssemos saber e mandar melhor que ela” (AQUINO, Santo Tomás: Suma Teológica – Primeira Parte da Segunda Parte. Porto Alegre: Sulina, 1980, p. 3175, Q. CLVII).

“Se a pessoa não dirige de modo algum toda a sua escolha às coisas visíveis e, por isso, não se encontra sujeita a nenhum sofrimento que lhe advenha ao corpo, então ela perdoa, verdadeira e impassivelmente, àqueles que pecam contra ela, uma vez que absolutamente ninguém pode por a mão no bem que ela busca com tanto zelo, pois o sabe inalienável por natureza” (MÁXIMO, São: Centúrias sobre a Caridade e Outros Escritos Espirituais. São Paulo: Landy, 2003. p. 146). Estes bens que a alma, já nos caminhos da santidade, busca com tranqüilidade e zelo, são os bens eternos, os quais ninguém pode nos privar senão nós mesmos. Se o homem faz caso de bens terrenos e passageiros, como glórias humanas, conforto e prazeres mundanos, se apegando a eles de tal forma a deixar de lado o Bem divino, se vierem a lhe faltar fica perturbado e inconsolável, irado contra os que o privou de tais bens e, por vezes, encolerizado para com Deus, chamando-O injusto por não ter mais aquilo a que tanto ama. Já o manso não tendo os bens temporais como objetivo, mas como meios dos quais pode se utilizar para chegar Àquele para quem foi criado, não tem nada disto como importante o bastante perto de seu Senhor, a quem tanto ama; não será neste mundo que terá sua plena felicidade, e se for privado de tudo, honras, prazeres, consolos, ainda lhe resta uma grande esperança; sabe que, junto de Cristo, tudo pode suportar e que um dia todo sofrimento acabará. Aí, então, na eternidade, possuirá todo o Bem que desejou, o qual neste mundo apenas vê como que em espelho, mas então verá face a face.

Bem-aventurados os mansos, pois estes possuirão a pátria celestial. A herança do manso é o repouso e a vida dos santos, onde reina a paz. “Cada reunião eucarística é para os cristãos esse lugar da soberania do rei da paz. A comunidade da Igreja de Jesus Cristo, que envolve todo o mundo, é então um pré-esboço da terra de amanhã, que deve tornar-se uma terra da paz de Jesus Cristo” (RATZINGER, Joseph – Bento XVI. Jesus de Nazaré: do Batismo do Jordão à Transfiguração. São Paulo: Planeta, 2007. p. 87).

Cristo pediu que deixassem vir a Ele as criancinhas, e falou aos discípulos: “se não voltardes a ser como meninos não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18,3). Assim disse pois “as crianças caracterizam-se pela sua incapacidade de ódio, e vê-se nelas uma total inocência no que diz respeito aos vícios, e principalmente ao orgulho, que é o maior de todos. São simples e abandonam-se confiadamente” (Bíblia Sagrada – Santos Evangelhos. Edição da Universidade de Navarra. p. 317). É nas almas inocentes que Jesus Cristo estabelece sua morada, é aí onde o Senhor se deleita. Será tornando-nos almas inocentes, que não levam em conta o mal que lhe fazem e logo se reconcilia com o irmão, que seremos mansos. Nos caminhos da perfeição, os que se unem a Cristo têm uma só vontade com Ele, e compartilham integralmente sua doçura, não havendo lugar nenhum para o que não procede de Deus.

Para quem assim vive, buscando as coisas do alto, nem a maior injustiça é motivo suficiente para irar-se, pois sabe que a ira contra o irmão não procede a justiça divina e a afastará de Deus; antes oferecer a face esquerda a quem ferir a direita, que pecar. Nenhuma injúria é grande o bastante que valha perder o Bem Eterno por sua causa!

A regra de ouro para o manso será: “tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles” (Mt 7,12). Dizendo isto, Cristo indicou que o caminho não seria fácil, e continuou: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram” (Mt 7,13). E para provar-nos que não era algo impossível, Ele mesmo veio até nós e nos ensinou. Doce redentor, que enquanto sofre e está humilhado, perdoa os pecados do que os injuriam e oferece o Céu a quem se arrepende de sua iniqüidade.

E ainda assim, na maioria das vezes, tudo é difícil… Ou, parafraseando Santa Teresinha do Menino Jesus, deveríamos dizer que parece difícil, pois o jugo do Senhor é suave e leve (Cf. Mt 11,30). Por isso temos ainda mais uma fonte de consolo e auxílio, deixada por Cristo a todos os homens. Ele deu-nos uma mãe! “Ama a Senhora. E Ela te obterá graça abundante para venceres nesta luta quotidiana. – E de nada servirão ao maldito essas coisas perversas que sobem e sobem, fervendo dentro de ti, até quererem sufocar, com a sua podridão bem cheirosa, os grandes ideais, os mandamentos sublimes que o próprio Cristo pôs em teu coração. – «Serviam!»”(ESCRIVÁ, São Josemaria: Caminho. São Paulo: Quadrante, 1999. Ponto 493). Se estamos cansados e não encontramos saída no desespero, olhemos para Maria, ela nos retribuirá com seu piedoso olhar, e depois de todo este desterro, nos mostrará seu Filho, ajudando-nos a tornar nosso coração semelhante ao d’Ele, manso e humilde.

FILIPPI, Izabel Ribeiro. Apostolado Sociedade Católica: Teologia das Virtudes Ascéticas: A Mansidão. Disponível em: http://www.sociedadecatolica.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=239 desde 13/05/08


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Roteiro de Adoração – Quinze Minutos

Muitas vezes nos colocamos diante de Jesus presente na Eucaristia e, envolvidos com nossos problemas e tribulações, não aproveitamos esses momentos preciosos diante de Deus Vivo.

Santo António Maria Claret (1807 – 1870), fundador dos Claretianos, inspiradamente desenvolveu textos que nos levam a uma profunda intimidade com Deus na oração, usando a técnica do diálogo com Jesus, para que assim possamos ouvir sua voz em nossos corações.

O roteiro que abaixo publicamos foi selecionado pela Equipe Pastoral da Arquidiocese de Viena, no ano de 1988.

Siga este roteiro em sua oração diante do Santíssimo Sacramento, sem pressa, por um período mínimo de quinze minutos, se possível, diariamente.

Inicie sempre a sua Adoração procurando ouvir a Voz de Jesus dizendo-lhe:

”Não é preciso, meu filho(a), saber muito me agradar; basta amar-me fervorosamente. Fala-me, pois, de uma maneira simples, assim como falarias com o mais íntimo dos amigos…”.

Menciona-me o seu nome e diz-me o que desejas que eu lhe faça. Pede muito. Não receies pedir.

Conversa comigo, simples e francamente, sobre os pobres que gostarias de consolar, sobre os doentes que vês sofrer, sobre os desencaminhados que tanto desejas ver no caminho certo. Diz-me a favor deles ao menos uma palavra.

Diz-me abertamente que te reconheces orgulhoso, egoísta, inconstante, negligente…
E pede-me, então, que Eu venha em teu auxílio nos poucos ou muitos esforços que fazes para te livrares dessas faltas. Não te envergonhes! Há muitos justos, muitos santos no céu, que tinham exatamente os mesmos defeitos. Mas pediram com humildade, e… pouco a pouco se viram livres deles.

Tão pouco deixes de me pedir saúde, bem como bons resultados nos teus trabalhos, nos teus negócios ou estudos. Posso dar-te e realmente te darei tudo isso, contanto que não se oponha à tua santificação, mas antes a favoreça. Mas quero que o peças. O que necessitas precisamente hoje? Que posso fazer por ti? Ah, se soubesses quanto Eu desejo ajudar-te!

Conta-me. O que é que te ocupa? Que pensas? Que desejas? Que posso Eu fazer por teu irmão, por tua irmã, pêlos teus amigos, pela tua família, pêlos teus superiores? Que gostaria tu de lhes fazer? E no que se refere a mim, não sentes o desejo de me ver glorificado?

E não queres fazer um favor aos amigos que amas, mas que talvez vivam sem jamais pensar em mim?

Dize-me, em que se detém hoje, de maneira especial, a tua atenção?

Que desejas mais vivamente? Quais os meios que tens para alcançar? Conta-me se não consegues fazer o que desejas e Eu te indicarei as causas do insucesso.

Não gostarias de conquistar os meus favores?

Conta-me com todos os pormenores o que te entristece. Quem te feriu? Quem ofendeu o teu amor próprio? Quem te desprezou? Conta-me tudo. Então, em breve, chegarás ao ponto de me dizer que imitando-me, queres perdoar tudo e de tudo te esqueceres. Como recompensa hás de receber a minha bênção consoladora. Acaso tens medo?

Sentes na tua alma melancolia e incerteza que, embora não justificadas, não deixam de ser dolorosas? Lança-te nos braços da minha amorosa Providência. Estou contigo, a teu lado. Vejo tudo, ouço tudo e, em momento algum te desamparo.

Sentes frieza da parte de pessoas que antes te queriam bem e que agora, esquecidas, se afastam de ti apesar de não encontrares em ti motivo algum para isso? Roga por elas, pois se não forem obstáculo à sua santificação, Eu as trarei de volta a teu lado.

Por que não me deixas tomar parte na tua vida com a força de um bom amigo? Conta-me o que desde ontem, desde a tua última visita, consolou e agradou teu coração. Talvez fossem surpresas agradáveis; talvez se tenham dissipado teus negros receios; talvez tenhas recebido boas noticias, uma carta, uma demonstração de carinho; talvez tenhas conseguido vencer alguma dificuldade ou sair de algum apuro. Tudo é obra minha. Dize-me simplesmente, como um filho ao seu pai: “Obrigado, meu Pai, obrigado!”

Bem sabes que eu leio que está no fundo do teu coração. É fácil enganar os homens, mas a Deus não podes enganar. Fala-me, pois, com toda a sinceridade.

Fizeste o propósito firme de, no futuro, não mais te expores àquela ocasião de pecado, de te privares do objeto que te seduz, de não mais leres o livro que exalta a tua imaginação, de não procurares a companhia das pessoas que perturbam a paz da tua alma?

Serás novamente amável e condescendente para agradar àquela outra, a quem, por ter te ofendido, consideraste até hoje como inimiga?
Ora, meu filho, volta agora às tuas ocupações habituais: ao teu trabalho, à tua família, aos teus estudos; mas não esqueça os quinze minutos desta agradável conversa que tiveste aqui, a sós comigo, no silêncio do santuário.

Pratica tanto quanto possível o silêncio, a modéstia, o recolhimento, a serenidade e a caridade para com o próximo. Ama e honra minha Mãe que é também tua.

E volta amanhã, com o coração mais amoroso, mais entregue a mim.

No meu coração hás de encontrar, em cada dia, um amor totalmente novo, novos benefícios e novas consolações. Vem que Eu aqui te espero”.

(Baseado em textos de Santo António Maria Claret).


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Unidade na Diversidade

“São muitas as formas de apostolado – proclama o Concílio Vaticano II – com que os leigos edificam a Igreja e santificam o mundo, animando-o em Cristo”. A única condição é “estar com Cristo”, ensinar a sua doutrina, amá-lo com obras. O espírito cristão deve levar-nos a fomentar uma atitude aberta perante as diversas formas apostólicas, a empenhar-nos em compreendê-las e a alegrar-nos sinceramente de que existam, entre outros motivos porque o campo é imenso e os operários poucos. “Alegra-te quando vires que outros trabalham em bons campos de apostolado. – E pede, para eles, graça de Deus abundante e correspondência a essa graça. – Depois, tu pelo teu caminho; persuade-te de que não tens outro”.

Para um cristão, não seria possível viver a fé e ter ao mesmo tempo uma mentalidade de partido único, que excluísse todo aquele que não adotasse determinado estilo, método ou modo de atuar, ou preferisse outros campos de apostolado. Ninguém que trabalhe com reta intenção é um estorvo no campo do Senhor. Todos somos necessários. É muito conveniente que, entendendo bem a unidade na Igreja, Cristo seja anunciado de modos muito diferentes.

Unidade “na fé e na moral, nos sacramentos, na obediência à hierarquia, nos meios comuns de santidade e nas grandes normas de disciplina, segundo o conhecido princípio de Santo Agostinho: In necessariis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas (nos assuntos necessários, unidade; nos de livre opinião, liberdade; em todos, caridade)”. E essa unidade necessária nunca provocará uma uniformidade que empobreça as almas e os apostolados: “No jardim da Igreja houve, há e haverá uma variedade admirável de formosas flores, diferentes pelo aroma, pelo tamanho, pelo desenho e pela cor”. Uma variedade que é riqueza para a glória de Deus.

Quando trabalhamos numa tarefa apostólica, devemos evitar a tentação de nos “entretermos” inutilmente avaliando as iniciativas apostólicas dos outros. Mais do que estar pendentes da atuação dos outros, devemos sondar o nosso coração e ver se nos empenhamos totalmente na nossa, se procuramos fazer render em bem das almas os talentos que recebemos de Deus: “…tu pelo teu caminho; persuade-te de que não tens outro”.

http://www.hablarcondios.org/meditacaodiaria.asp


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Teologia das Virtudes Ascéticas: A Diligência

por Izabel Ribeiro Filippi

Diligência, para muitas pessoas, é uma palavra que soa estranha aos ouvidos. Pode ser pouco corriqueira em nosso vocabulário, mas deve estar constantemente presente em nosso pensar e agir. Ser diligente é, acima de tudo, amar, pois quem ama deseja contentar o Amado. Como cristãos, somos diligentes quando nos entregamos a Deus e tudo fazemos por amor a Ele. Certamente, faremos estas boas obras com esmero, buscando que fiquem bem acabadas. Ainda que não entreguemos diretamente todos nossos pensamentos e obras a Cristo, a Ele pertencerão na mesma medida que nós pertencermos a Ele, e isso se demonstrará no empenho que colocamos em agradá-Lo. Além disso, cada momento de nossa vida, se estamos junto de Nosso Senhor, tem um objetivo maior, que está atrelado à eternidade; nesta busca pelo eterno encontramos a ligação de tudo quanto aqui fazemos com o nosso objetivo final, que é o Cristo Ressuscitado, e estas coisas ganham novo sentido: não mais as fazemos em vão, mas as utilizamos como meio para alcançar os Céus.

A preguiça, na maioria das vezes, provém de uma doença na vontade, que se recusa ao esforço, chegando até a temê-lo. “O preguiçoso quer evitar qualquer trabalho, tudo quanto lhe pode perturbar o sossego e arrastar consigo fadigas. Verdadeiro parasita, vive, quanto pode, a expensas dos outros. Manso e resignado, enquanto o não inquietam, impacienta-se e irrita-se, se o querem tirar da sua inércia” (TANQUEREY, Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana, 2007. p. 466). Esta explicação pode, num primeiro momento, parecer de um caso extremo de pessoa preguiçosa, no qual não nos encaixamos. Entretanto, se formos sinceros conosco, veremos que esta postura é inúmeras vezes assumida por nós. Então perceberemos como estas atitudes, que são também nossas, não convêm a um cristão, não são dignas de Cristo.

Quem assume sua condição de filho muito amado por Deus busca viver, através de cada gesto, a virtude da diligência. Não quer cumprir seu dever com desleixo e deixá-lo mal feito, mas coloca nele amor e assim dá seu melhor para que seja finalizado com esmero. Sabe das suas limitações e não se desespera por elas, antes coloca em Deus sua confiança, sabendo que fazendo tudo quanto pode, Deus não lhe falta. “Embora Deus aja como queira, quando queira, e com os instrumentos que queira, ordinariamente Ele se utiliza da colaboração livre e responsável dos homens para realizar os seus desígnios. E, mesmo que o homem seja um ser tão limitado em suas possibilidades, pode conseguir coisas verdadeiramente inimagináveis, quando vive e trabalha por Deus e unido a Ele” (MACIEL, Pe. Marcial: Carta Tempo e Eternidade).

O repouso foi mandamento de Deus que, Ele mesmo, conforme nos conta o livro de Gênesis, tendo trabalhado na criação do mundo, descansou ao fim. Porém, assim como seria um absurdo dizer que Deus ficou ocioso em seu repouso, devemos nós ter em mente que descansar não é ficar inativo e inerte. “Quem se entrega a trabalhar por Cristo não há de ter um momento livre, porque o descanso não é não fazer nada; é distrair-se em atividades que exigem menos esforço” (ESCRIVÁ, São Josemaria: Caminho. São Paulo: Quadrante, 1999. p. 122, ponto 357). Este mesmo Santo, ao explicar o que é a pobreza de espírito à qual estamos obrigados se quisermos entrar no Reino dos Céus, fala-nos que ela deve existir sempre junto ao serviço: “É, além disso, saber ter o dia todo preenchido com um horário elástico onde não faltem como tempo principal — além das normas diárias de piedade — o devido descanso, a reunião familiar, a leitura, os momentos dedicados a um gosto artístico, à literatura ou a outra distração nobre, enchendo as horas com uma atividade útil, fazendo as coisas o melhor possível, vivendo os pormenores de ordem, de pontualidade, de bom-humor. Numa palavra: encontrando ocasião para servir os outros e para si mesmo, sem esquecer que todos os homens, todas as mulheres — e não apenas os materialmente pobres — têm obrigação de trabalhar. A riqueza, a situação de desafogo econômico é um sinal de que se tem mais obrigação de sentir a responsabilidade pela sociedade inteira” (ESCRIVÁ, São Josemaria: Questões atuais do Cristianismo. Ponto 111).

“O espírito e o coração do homem não podem estar inativos: se não se absorvem no estudo ou em qualquer outro trabalho, são logo invadidos por um sem-número de imagens, pensamentos, desejos e afetos; ora, no estado de natureza decaída, o que domina em nós, quando não reagimos contra ela, é a tríplice concupiscência: serão, pois, pensamentos sensuais, ambiciosos, orgulhosos, egoístas, interesseiros, que tomarão o predomínio em nossa alma, expondo-a ao pecado” (TANQUEREY, Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana, 2007. p. 467). Para não deixar que a concupiscência nos domine e, como bons filhos que devemos ser, não podemos negar o serviço, permanecendo sempre na ociosidade. Não se trata apenas de não praticar o mal, mas principalmente não deixar de fazer o bem, pois nos dizem as Sagradas Escrituras que a árvore que não der frutos será cortada (Cf Mt 3,10).

Jesus, dizem-nos também os Evangelhos, contou a parábola dos talentos, onde ao servo preguiçoso, que preferiu enterrar seu talento, que na época era o nome dado a uma certa quantia de dinheiro, ao invés de fazê-lo render e dar frutos, até o talento que tinha lhe foi tirado (Cf. Mt 25,14-30). Estes talentos que Deus nos dá, que podem ser nossas qualidades e dons, são concedidos para que o coloquemos em prática e gerem frutos, tanto em nosso trabalho particular, com em nossa família e amigos, no trabalho que empreendemos em prol da Igreja, evangelizando, fazendo apostolado. Além disso, outro talento que ganhamos é o próprio tempo, que devemos empregar corretamente, para que não apenas não o percamos, mas que seja bem usado. Este modo de ver os talentos que Deus nos dá é explicado por Pe. Marcial Maciel, que, ao tratar sobre o tempo, escreveu: “Passar pela vida como as nuvens passam pelo céu num dia de vendaval; ou, o que seria pior, vegetar e vagar, buscando somente satisfazer os próprios desejos. Isto eu considero muito grave, principalmente num cristão que, em razão do Batismo, tem o sério compromisso de colaborar com a edificação e difusão do Reino de Jesus Cristo na terra. Por isso, recomendo que todas as vezes que se aproximarem do Sacramento da Reconciliação, examinem este ponto em sua consciência, e peçam perdão a Deus se perceberem que, por preguiça, negligência ou outra causa culpável, desperdiçaram uma parte do seu tempo” (MACIEL, Pe. Marcial: Carta Tempo e Eternidade).

Como nossa auxiliar, a consciência sempre está insistentemente a nos pedir que assumamos as nossas responsabilidades. Por mais que a vontade, ainda doente, queira fazer-nos permanecer inertes, sabemos qual nosso dever e precisamos esforçar-nos para colocá-lo em prática. É necessário educar esta vontade, pois a vitória de dará a cada tarefa, individualmente, a qual nos decidirmos com firmeza a empreender com solicitude. A luta contra a negligência não pode ser descurada sequer nas pequenas coisas, pois quem é fiel no pouco, Deus lhe confiará muito mais (Cf. Mt 25,21). Se a prática da diligência não começar nos pequenos detalhes, jamais chegará esta virtude a desabrochar em nós e tornar-se viva. Assim, pouco a pouco, com a prática do amor de Deus, e já avançando na virtude da diligência, procuremos nós mesmos o serviço, a fim de melhor dedicar-nos ao Senhor por seu intermédio.

É de suma importância criarmos convicções de trabalho, que é meio de santificação pelo qual podemos mais servir a Deus, não apenas atividade com que ganhamos o pão de cada dia. O mandamento do Senhor para que o homem trabalhe e frutifique é universal, aplicando-se inclusive àqueles que, porventura, sejam tão ricos a ponto de não precisarem mais trabalhar para garantir a sobrevivência. Podem não ter necessidade para si próprios, mas há, certamente, muito que fazer pelos outros e pela Igreja, trabalhos que todos devemos buscar, de acordo com nossas possibilidades, socorrendo tantos necessitados, dando oportunidade de emprego aos que não o têm, instruindo a quem preciso for, levando Deus a toda criatura, trabalhando no anúncio do Evangelho e na construção de uma sociedade católica. Se nossa vida for estéril, seremos cobrados por todos aqueles que deixamos de ajudar e que até mesmo, por nossa omissão, sofreram ou perderam-se no pecado. Pode ser que aqui outros trabalhem e se esforcem em nosso lugar, mas ninguém será capaz de ganhar o Céu por nós.

“A alma verdadeiramente amorosa de Deus, não põe delongas em fazer quanto pode para achar o Filho de Deus, seu Amado. Mesmo depois de haver empregado todas as diligências, não se contenta e julga haver feito nada” (CRUZ, São João: Cânticos Espirituais. Fortaleza: Edições Shalom, 2003. P. 43). Assim ocorre porque, exercitando-se já no amor de Deus, a alma vê-se livre das simples obrigações, não porque não as cumpre, mas, pelo contrário, além de fazê-las com presteza, busca os meros detalhes que poderão agradar ao seu Senhor, ainda que não sejam estritamente necessários. Já não os faz por si, mas por Aquele a quem ama, livremente e sem esperar qualquer coisa em troca. Nosso empenho nas coisas de Deus não deve ter em vista consolações ainda neste mundo. As flores serão colhidas no jardim da eternidade. Aqui, devemos aceitar que, na grande maioria das vezes, apenas tocamos os espinhos. Quem quer as flores sem os espinhos não é digno da Cruz de Cristo.

Mas não devemos nos entristecer se, muitas vezes, não encontramos gozo em fazer coisas para Deus. Os atos de amor não têm em vista nós mesmos, mas Aquele a quem oferecemos estes atos, ou seja, Sua Majestade, Senhor nosso. Nosso amor também se demonstra na persistência em cumprir nossos deveres, ainda que muito nos custem. Deus, que tudo sabe, verá nosso esforço e, estes dias passados aqui em terra árida, a duras penas, nos servirão para o deleite do Céu.

A errônea concepção de que trabalhar, por si só, foi um castigo de Deus aos homens, pode nos trazer um peso desnecessário às nossas tarefas corriqueiras. A verdade é que, mesmo antes do pecado original, já estava ao encargo do homem trabalhar (Cf. Gn 2,15). O homem, por natureza, precisa aperfeiçoar as faculdade com que Deus o dotou, já que não tem a perfeição divina. E a única forma de fazer isso é colocando-as em operação, cultivando-as, e este foi o mandamento de Deus desde o princípio da criação. Verdade é que não havia ainda o cansaço pelo labor – este veio após a queda do homem. Mas a dificuldade deu-nos também a luta, através da qual, se a ela nos aplicamos com diligência, nos santificamos. “Nenhum atleta será coroado, se não tiver lutado segundo as regras. É preciso que o lavrador trabalhe antes com afinco, se quer boa colheita” (2Tm 2,5-6).

Além de nos empregarmos em boas obras, é necessário evitar veementemente a negligência para com Deus, em especial no amor que lhe devemos, que, se chegar por vezes a desprezá-Lo, é pecado mortal, por nos privar da caridade necessária à graça santificante, rompendo a comunhão com Nosso Senhor que ganhamos em nosso batismo. A preguiça espiritual pode ser muito grave quando a alma fica em tal estado de tédio que se acabrunha, desistindo de começar o bem, por ser difícil de ser praticado. A tristeza demasiada, mesmo pelo pecado, não é boa, pois pode acabar por nos retrair das boas obras. Por vezes, a acédia ou acídia, nomes dados à preguiça espiritual, é tão grande que leva a pessoa a entristecer-se pelo bem divino. Remédio para a acédia será, portanto, procurar elevar os pensamentos aos bens espirituais, tornando-os mais agradáveis à medida que mais neles nos empenhamos, e sempre buscar aprofundar-se na oração, pois sem ela todo nosso trabalho se tornará infecundo. Além disso, temos na Sagrada Eucaristia nosso alimento espiritual, pois assim como o trabalhador precisa do pão que lhe dê energia para a labuta, precisamos do Pão descido dos Céus, alimento que fortalece nossa fé e nos anima na caridade, fazendo-a crescer em nós.

Se desejamos encontrar o Senhor e, um dia, contemplá-Lo face a face, com diligência devemos nos empregar na prática das virtudes. Sendo elas bons hábitos, será impossível tê-las sem a constância e a solicitude posta na prática de cada uma em particular. Se queremos construir o bem em nós, será, dia a dia, colocando um tijolo a mais na construção e cuidando para que não caia, seja pelo pouco zelo com que o edificamos, seja pelas investidas externas que querem fazê-lo ruínas, ou seja, a virtude da diligência nos fará vigiar constantemente, tanto para solicitamente fazer crescer as virtudes como para não permitir que tentações sejam consentidas, fazendo-nos cair em pecado mortal, o que nos privará da caridade.

Segundo o grande místico e Doutor da Igreja, São João da Cruz, “para achar deveras a Deus, não é suficiente orar de coração e de boca; não basta ainda ajudar-se de benefícios alheios; mas é preciso, juntamente com isso, fazer de sua parte o que lhe compete” (CRUZ, São João: Cânticos Espirituais. Fortaleza: Edições Shalom, 2003. p. 43), pois diz o Senhor: “Buscai e achareis” (Lc 11,9). Não haverá, pois, outra forma de encontrar a Deus senão pôr-se a caminho e buscá-Lo incessantemente, por obras que demonstrem a veracidade da fé, uma vez que “a fé sem obras é morta” (Tg 2,26). Continuando, o Santo mostra qual será este caminho ao encontro do Senhor e como se perderão os que tentarem estrada mais fácil: “Há alguns que nem mesmo se animam a levantar-se de um lugar agradável e deleitoso, para contentar o Senhor; querem que lhes venham à boca e ao coração os sabores divinos, sem darem um passo na mortificação e renúncia de qualquer de seus gostos, consolações ou quereres inúteis. Tais pessoas, porém, jamais acharão a Deus, por mais que chamem a grandes vozes, até que se resolvam a sair de si para o buscar. Assim o procurava a Esposa nos Cantares, e não o achou enquanto não saiu a buscá-Lo, como diz por estas palavras: ‘Durante a noite no meu leito busquei Aquele a quem ama a minha alma; busquei-o e não O achei. Levantar-me-ei e rodarei a cidade; buscarei pelas ruas e praças públicas Aquele a quem ama a minha alma’ (Ct 3,1-2). E depois de haver sofrido alguns trabalhos, diz então que o achou” (CRUZ, São João: Cânticos Espirituais. Fortaleza: Edições Shalom, 2003. p. 44). Com amor, portanto, não haverá lugar para a preguiça. Sabemos que cada gesto feito por amor, unido aos méritos da Cruz de Cristo, terá um imenso valor, e é isso que lhes dá sentido.

Muitas vezes o amor por Deus é tão grande que nossas ânsias são como as de São Paulo: “Para mim, viver é Cristo, e morrer, um lucro. Desejaria partir e estar com Cristo, pois seria muitíssimo melhor” (Fl 1,21;23). Mas, assim como este santo bispo da Igreja, se amamos deveras a Cristo padeceremos pacientemente esta dor de amor por querer estar logo junto do Amado, continuando nossa luta cotidiana com os pés no chão, mas os olhos e pensamentos voltados aos Céus. Isso fazemos quando damos sentido sobrenatural a todas as coisas, sejam elas as mais simples de cada dia ou os acontecimentos mais nobres de nossas vidas, tornando mais fácil cumprir tudo com alegria, ainda que nos custe, pois aí as tarefas passam a ser empreendidas não mais por si mesmas, mas por um fim infinitamente maior: o Amor.

Em nossa Santa Igreja, que compreende uma imensa diversidade de carismas e formas de viver a mesma fé – onde temos a essencial unidade da Igreja de Cristo – muitos foram os que, ocultamente, nas suas ocupações comuns e pouco cobiçadas, santificaram-se. Santos ocultos, mas que, com certeza, chegaram ao seu objetivo final, a salvação eterna e o encontro com Deus. Esta particular forma de servir ao Senhor, através do trabalho bem feito, da perseverança no ambiente familiar, no bom trato com os amigos, na constância na oração e freqüência aos Sacramentos, é forma que todo cristão leigo pode escolher para si, vivendo cada particularidade de sua vida com um propósito sobrenatural.

Portanto, o zelo com que realizamos nossas obras tem em vista agradar a Deus, não aos homens. A humildade, companheira de todas as virtudes, no fará sermos solícitos sem desejar reconhecimento dos homens. O serviço é visto por Deus ainda que oculto aos olhos humanos. Assim procedeu Santa Maria, que se dedicou a seu Filho – seu e nosso Senhor – sem que ninguém a visse, sem qualquer exaltação pública enquanto esteve junto de nós. Já na glória eterna do Pai, foi elevada acima de toda criatura. Ela, serva e escrava de Deus, pois “aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado” (Mt 23,12).

Se nos faltam forças para seguir em frente com ânimo e ardor, podemos mirar nossa Mãe e Rainha, pensando como agiu Maria enquanto esteve neste mundo. Ainda tão jovem, ao ser visitada pelo anjo, não hesitou no seu sim a Deus. Sabia, com certeza, que esta opção lhe custaria o empenho de toda uma vida; não desconhecia as muitas dificuldades que passaria. Mas, respondendo prontamente ao chamado, pôs-se a serviço. Já carregando o Filho de Deus em seu ventre imaculado, empreendeu longa caminhada para chegar à casa de sua prima, Santa Isabel, a quem auxiliou por três meses. E, indo mais a fundo, imaginamos todas as palavras que não nos foram escritas, mas que certamente fizeram parte de sua vida; quanto carinho e dedicação não concedeu a cada detalhe da vida de seu Menino… Podemos também nós assim fazer, compartilhando com Maria a atenção que o Menino Jesus merece receber. E, como à doce criança na Manjedoura, com o mesmo amor fitamos, junto d´Ela, o Cristo pregado à Cruz. Nos pomos aos seus pés e, tendo a certeza que a Cruz não foi uma derrota, mas a vitória perpétua, prometemos dar nossa vida, se necessário for, para que tudo seja feito conforme a vontade de Deus. Diante do exemplo perfeito de doação do Verbo de Deus encarnado, que não mediu esforços para nos salvar, o único grito que talvez nos reste seja: “Não mais, Senhor. Não mais me recusarei ao serviço!”.

FILIPPI, Izabel Ribeiro. Apostolado Sociedade Católica: Teologia das virtudes ascéticas: a diligência. Disponível em: http://www.sociedadecatolica.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=195 desde 12/03/08


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SALMO II

Por que bramaram as nações
E os povos tramam vãs conspirações?
Erguem-se os reis da terra
E, unidos, os príncipes se insurgem
Contra o Senhor e contra seu Cristo.
“Quebremos seu jugo”, disseram eles,
“E sacudamos para longe de nós seus vínculos que nos atam”.
Aquele, porém, que habita nos céus, se ri,
O Senhor faz troça deles.
Dirigindo-se a eles em sua cólera,
Ele os aterra com seu furor:
“Eu, porém, fui constituído rei
Em Sião, meu monte santo.
Vou publicar o preceito do Senhor:
Disse-me o Senhor:
Tu és meu filho, eu hoje te gerei.
Pede-me; dar-te-ei por herança as nações;
Tu possuirás os confins do mundo,
Tu as governarás com cetro de ferro,
Tu as desfarás como um vaso de argila”.
Agora, ó reis, compreendei isto
Instruí-vos, ó vós que julgais a terra.
Servi ao Senhor com temor
E exultai em sua presença com tremor;
Acolhei a disciplina para que não se irrite
E não pereçais fora do caminho justo.
Pois, quando, em breve, se acender sua cólera
Bem-aventurados todos os que nele confiam.

As palavras que o salmista dirige a Deus contemplando a situação do seu tempo foram palavras proféticas que se verificaram no tempo dos Apóstolos e ao longo dos séculos de vida da Igreja, e que se verificam nos nossos dias. Também nós podemos repetir com total realismo: Por que se amotinam as nações e os povos maquinam planos vãos?… Por que tanto ódio e tanto mal? Por que tanta rebeldia?

Desde o pecado original, essa luta não cessou um momento sequer: os poderosos do mundo aliam-se contra Deus e contra o que é de Deus. Basta ver como a dignidade da criatura humana é conculcada em tantos lugares, como se multiplicam as calúnias, as difamações, os meios de comunicação a serviço do mal, o aborto de centenas de milhares de criaturas que não puderam optar pela vida humana e pela vida sobrenatural para a qual Deus as havia destinado, tantos ataques contra a Igreja, contra o Sumo Pontífice e contra aqueles que querem ser fiéis à fé…

Mas Deus é mais forte. Ele é a Rocha. A Ele recorreram Pedro e João e aqueles que estavam reunidos com eles naquele dia em Jerusalém. E, quando terminou aquela oração – diz-nos São Lucas –, todos se sentiram reconfortados e cheios do Espírito Santo, e anunciavam com toda a liberdade a palavra de Deus.

Na meditação do Salmo II, podemos nós encontrar fortaleza para vencer os obstáculos que podem apresentar-se num ambiente afastado de Deus.

Comentando estes versículos do Salmo, Santo Agostinho salienta que também se pode entender por ira de Deus a cegueira da mente que se apodera daqueles que transgridem a lei divina. Não há nenhuma desgraça comparável à de não se conhecer a Deus, de se viver afastado dEle, de se procurar a auto-afirmação no erro e no mal.

O Papa João Paulo II indicava como sinal característico do nosso tempo precisamente essa cegueira, isto é, a recusa da misericórdia divina. Todos temos presente a imagem de tantos homens que se fecham aos sentimentos de misericórdia do Senhor, que consideram a remissão dos seus pecados “não essencial ou sem importância para a sua vida”, e que adquirem uma “impermeabilidade de consciência, um estado de ânimo que se poderia dizer consolidado em função de uma livre escolha: é o que a Sagrada Escritura costuma chamar dureza de coração. Nos nossos tempos, esta atitude da mente e do coração corresponde talvez à perda do sentido do pecado”.

Nós, que desejamos seguir a Cristo de perto, temos o dever de desagravar a Deus por essa rejeição violenta que sofre por parte de tantos homens, suplicando-lhe abundância de graça e de misericórdia. Peçamos-lhe que nunca deixe esgotar-se a sua clemência, que é para muitos como o último cabo a que se pode agarrar o náufrago que já havia recusado outros meios de salvação.

O Salmo termina com uma chamada para que nos mantenhamos fiéis ao nosso caminho e à confiança no Senhor: Prestai-lhe vassalagem, para que não se indigne e pereçais fora do caminho, quando em breve se acender a sua cólera. Bem-aventurados todos os que nEle confiam19. Nós pusemos no Senhor toda a nossa confiança.

Pedimos aos Santos Anjos da Guarda, fiéis servidores de Deus, que nos ajudem a perseverar cada dia com maior fidelidade e amor na nossa vocação de cristãos, servindo com todas as forças o reinado de Cristo no lugar em que Ele nos chamou.

http://www.hablarcondios.org/meditacaodiaria.asp


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