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    O ministério da Direção Espiritual (Parte II)

    May 27th, 2008

    Por Pe. Adair José Guimarães

    1. A pessoa e o ministério do(a) diretor(a) espiritual

    Trataremos nesta segunda parte da pessoa do diretor espiritual. De antemão vale lembrar que a direção espiritual não se restringe aos recintos dos seminários e conventos, como muitas pessoas pensam. A direção espiritual é sim, um patrimônio da Igreja Povo de Deus.
    O que é a pessoa do(a) mestre(a) espiritual? Numa concepção de Igreja toda ministerial, como sustenta a orientação do Concílio Vaticano II, a direção espiritual não pode ser entendida fora da ótica da ministerialidade; é sim, um ministério, um serviço em favor da santidade e da edificação dos fiéis.

    A tarefa da direção espiritual não é um privilégio, mas um dom ou carisma suscitado pelo Espírito Santo para que certas pessoas ajudem a outras a discernirem o caminho da fé e da experiência de Deus. Nem todos o possuem. O certo é que a direção espiritual faz parte do acervo histórico da Igreja e, mais do que nunca, a sua relevância continua em alta. Todos nós temos necessidade da direção espiritual; os que a buscam de forma sistemática podem atestar a sua eficácia.

    O diretor espiritual é uma pessoa com qualificativos especiais e práticos. Antes de tudo deve ser uma pessoa de distinta vida espiritual e que tenha internalizado dentro de si os aspectos da disciplina da oração. Ademais, deve distinguir-se por uma notável ilibação de vida e testemunho.

    A capacidade de escuta é indispensável e se requer o mínimo possível de segurança teológica dos aspectos fundamentais da fé (“depositum fidei”). Ademais deve se destacar por uma compreensão da vivência comunitária do mistério do Ressuscitado e sua expressão na celebração litúrgica dos sacramentos.

    Por ser uma pessoa de fé e de notável experiência de Deus, deverá, a contento, ajudar o dirigido a encontrar o caminho da comunhão com Deus e com os irmãos. Trata-se de uma tarefa parcimoniosa que requer paciência e método.

    Escutar uma pessoa não é nada simples; a história de cada um é recheada de experiências arraigadamente subjetivas que distinguem uma pessoa das demais. O diretor espiritual precisa ser uma pessoa de discernimento objetivo; impor o seu subjetivismo ao dirigido pode ser um desastre. O discípulo não pode ser obrigado a copiar o mestre com seus modelos de vida espiritual preconcebidos; mas, sim, descobrir com o auxílio da direção, seu caminho próprio.

    O diretor espiritual, o quanto possível, deve ser um crítico de si mesmo. Para tanto, o mesmo deve possuir o mínimo possível de conhecimento psicológico para melhor entender a si próprio e a seus dirigidos e suas histórias, seus assombros e traumas que podem desvirtuar a concepção da imagem de Deus. Creio ser importante lembrar que não podemos nos esquecer que, em certas circunstâncias, o diretor espiritual precisa auxiliar o dirigido a discernir a própria opção vocacional.

    O ministério da direção espiritual não se restringe apenas aos presbíteros ou religiosos; leigos de expressiva vivência religiosa têm se despontado no serviço do aconselhamento. Percebo que este ministério está emergindo com destacada ênfase na Igreja de nossos tempos. Isso se explica pela abertura da igreja do pós concílio e pelo modelo eclesiológico que a Constituição Conciliar “Lumem Gentium” inaugurou: inegavelmente uma obra esplendida do Espírito Santo. Na Igreja Povo de Deus o relevo se dá no aspecto batismal; tudo mais decorre daí. Tal sinalização teológica, sem desprezo do caráter próprio da hierarquia, deslocou muitas práticas para o mundo do laicato, antes, por questão de mentalidade, conexas ao ministério ordenado, inclusive a direção espiritual.

    No próximo número continuaremos com os aspectos éticos da direção espiritual. Espero que estas nossas humildes colocações sirvam para resgatar o valor da direção espiritual, bem como suscitar na alma de muitos de vocês que lêem esta coluna o gosto por tão escasso ministério.


    Desprendimento…

    May 26th, 2008

    Naquele tempo tendo Jesus saído para se pôr a caminho, veio alguém correndo e, dobrando os joelhos diante dele, suplicou-lhe: “Bom Mestre, que farei para alcançara vida eterna?” Jesus disse-lhe: “Por que me chamas bom? Só Deus é bom. Conheces os mandamentos: não mates; não cometas adultério; não furtes; não digas falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe.” Ele respondeu-lhe: “Mestre, tudo isto tenho observado desde a minha mocidade.” Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: “Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me.

    Deus chama a todos: sãos e enfermos; pessoas com grandes qualidades ou de capacidade modesta; os que possuem riquezas e os que passam por dificuldades; os jovens, os anciãos e os de idade madura. Cada homem, cada mulher, deve descobrir o caminho peculiar a que Deus o chama. Mas, seja qual for esse caminho, chama todos à santidade, à generosidade, ao desprendimento, à entrega; diz a todos no seu interior: Vem e segue-me.

    Aquele jovem vê de repente a sua vocação: a chamada para uma entrega plena. O seu encontro com Jesus descobre-lhe o sentido e a tarefa fundamental da sua vida. Mas descobre-lhe ao mesmo tempo até onde chegava a sua verdadeira disponibilidade. Até aquele momento, julgava cumprir a vontade de Deus porque cumpria os mandamentos da Lei. Quando Cristo lhe desvenda o panorama de uma entrega completa, percebe quanto apego tem às suas coisas e como é pequeno o seu amor à vontade de Deus. Hoje, essa cena continua a repetir-se.

    A chamada do Senhor que nos convida a segui-lo de perto exige uma atitude de resposta contínua, porque Ele, nas suas diferentes chamadas, pede uma correspondência dócil e generosa ao longo da vida. Por isso, devemos situar-nos com freqüência diante de Deus – cara a cara, sem anonimato – e perguntar-lhe como o jovem do Evangelho: Que me falta? Que exigências tem hoje a minha vocação de cristão nas minhas circunstâncias? Que caminho o Senhor quer que eu siga?

    Devemos considerar com atenção o ensinamento de Jesus e aplicá-lo à nossa vida: não se pode conciliar o amor a Deus – esse segui-lo de perto – com o apego aos bens materiais: num mesmo coração, não pode haver lugar para esses dois amores juntos. O homem pode orientar a sua vida propondo-se Deus como fim, e alcançá-lo também, com a ajuda da graça, através das coisas materiais, usando-as apenas como meios que são e na justa medida em que o forem; ou infelizmente pode pôr nas riquezas a esperança da sua plenitude e felicidade: desejo desmedido de bens, de luxo, de comodismo, ambição, cobiça…

    A passagem do Evangelho nos ensina que se colocamos nossa segurança nesse mundo não alcançaremos o sentido pleno da vida e nem a verdadeira alegria; pelo contrário, renunciando a nós mesmos e aos bens materiais pelo Reino dos céus, aparentemente se perde muito, mas na realidade ganhamos tudo! As renúncias que Cristo exige de nós requerem uma fé ardente em Sua pessoa e uma confiança absoluta em Seu amor. Também são uma chamada à esperança, pois nos faz ver os bens materiais como relativos e passageiros, para buscar os bens celestes, por último, são sobretudo um convite a colocar o amor a Deus acima de todas as coisas. Cristo nos convida a um amor que vai mais além dos mandamentos. A perfeição consiste em uma entrega mais completa a Cristo. Quando será minha resposta?

    Propósito

    Viver com desprendimento de coração. Hoje compartilharei com os demais alguns dos bens que recebi de Deus.

    Fontes: http://www.hablarcondios.org/meditacaodiaria.asp e Meditação diária do Regnum Christi.


    Infância Espiritual

    May 24th, 2008

    Leitura do Santo Evangelho segundo São Marcos 10, 13-16

    Naquele tempo, traziam crianças para que Jesus as tocasse. Mas os discípulos as repreendiam. Vendo isso, Jesus se aborreceu e disse: “Deixai vir a mim as crianças. Não as proibais, porque o Reino de Deus é dos que são como elas. Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele”. Ele abraçava as crianças e as abençoava, impondo-lhes as mãos.

    Jesus ilustra assim de modo expressivo a doutrina essencial da filiação divina: Deus é nosso Pai e nós somos seus filhos; o nosso comportamento resume-se em sabermos tornar realidade o relacionamento de um bom filho com um bom pai. É fomentarmos o sentido de dependência para com o Pai do Céu e o abandono confiante na sua providência amorosa, à semelhança de um menino que confia no seu pai; é a humildade de reconhecermos que, por nós, não podemos nada; é a simplicidade e a sinceridade que nos hão de levar a mostrar-nos tal como somos

    Tornarmo-nos interiormente crianças, sendo pessoas maduras, pode ser uma tarefa difícil: exige energia e firmeza de vontade, bem como um grande abandono em Deus. “A infância espiritual não é idiotice espiritual nem moleza piegas; é caminho sensato e rijo que, por sua difícil facilidade, a alma tem que empreender e prosseguir levada pela mão de Deus”

    Decidido a viver a infância espiritual, o cristão pratica com maior facilidade a caridade, porque “a criança não guarda rancor, nem conhece a fraude, nem se atreve a enganar. Tal como a criança pequena, o cristão não se irrita ao ser insultado [...], não se vinga quando maltratado. E mais ainda: o Senhor exige-lhe que reze pelos seus inimigos, que deixe a túnica e o manto a quem lhos arrebate, que apresente a outra face a quem o esbofeteie (cfr. Mt 5, 40)”. A criança esquece com facilidade as ofensas e não as contabiliza. A criança não tem penas.

    A FILIAÇÃO DIVINA, vivida com espírito de infância espiritual, gera devoções simples, pequenas oferendas a Deus nosso Pai, porque uma alma de criança cheia de amor não pode permanecer inativa6. Quem é que pode dar o seu verdadeiro sentido às pequenas devoções, senão o cristão que necessitou de toda a fortaleza para se tornar criança?

    Cada um de nós deve ter “piedade de meninos e doutrina de teólogos”, costumava dizer Mons. Escrivá. A formação doutrinal sólida – “doutrina de teólogos” – ajuda-nos a dar sentido ao olhar que dirigimos a uma imagem de Nossa Senhora e a converter esse olhar num ato de amor; ou anima-nos a não permanecer indiferentes perante um crucifixo ou uma cena da Via Sacra. Trata-se de uma piedade viril e profunda, que se alimenta das verdades de fé transformadas em vida. Deus olha-nos então verdadeiramente comprazido, como um pai olha para o seu filho pequeno, a quem ama e aprecia mais do que aprecia todos os negócios do mundo.

    A SIMPLICIDADE é uma das principais manifestações da infância espiritual. É o resultado de termos ficado desarmados diante de Deus, como a criança diante de seu pai, de quem depende e em quem confia. Diante de Deus, não tem sentido disfarçarmos os defeitos ou camuflarmos os erros que tenhamos cometido; e devemos também ser simples ao abrirmos a nossa alma na direção espiritual pessoal, manifestando o que temos de bom, de menos bom ou de duvidoso na nossa vida.

    Nós temos necessidade de manifestar a Deus o nosso amor. E poderemos fazê-lo em muitos momentos através da Santa Missa, das orações que a Igreja nos propõe na liturgia…, ou de uma visita ao Santíssimo de poucos minutos no meio da correria diária, ou colocando uma flor junto de uma imagem de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe. Peçamos-lhe hoje que nos dê um coração simples e cheio de amor para sabermos como tratar o seu Filho, aprendendo das crianças, que se dirigem com tanta confiança aos seus pais e às pessoas de quem gostam.

    Propósito

    Viverei hoje com uma atitude de confiança plena em Jesus Cristo.

    “A criança do Evangelho espera tudo de Deus, literalmente tudo. A dimensão infantil da nossa fé, equivale a que não nos apoiemos nos cálculos normais, humanos, mas sim que esperemos algo que uma criança qualificaria de surpresa, de esperar um milagre. Na medida em que sejas uma criança, gozarás também de um espírito jovem.” Pe. Tadeusz Dajazer. Meditações sobre a fé, pág. 77

    Fontes: http://www.hablarcondios.org/meditacaodiaria.asp e Meditação do Dia do Regnum Christi


    Louva, Sião !

    May 22nd, 2008

    LAUDA, SION, SALVATOREM… “Louva, Sião, o Salvador; louva o guia e o pastor com hinos e cânticos” Hoje celebramos esta grande Solenidade em honra do mistério eucarístico. Nela se unem a liturgia e a piedade popular, que não economizaram talento e beleza para cantar o Amor dos amores. São Tomás compôs para este dia os belíssimos textos da Missa e do Ofício divino.

    Hoje devemos dar muitas graças ao Senhor por ter permanecido entre nós, desagravá-lo e mostrar-lhe a nossa alegria por tê-lo tão perto: Adoro te, devote, latens Deitas… adoro-Vos com devoção, Deus escondido…, dir-lhe-emos hoje muitas vezes na intimidade do nosso coração. E na nossa Visita ao Santíssimo poderemos continuar a dizer-lhe devagar, com amor: Plagas, sicut Thomas, non intueor…, não vejo as chagas como Tomé, mas confesso que sois o meu Deus. Fazei que eu creia mais e mais em Vós, que em Vós espere, que Vos ame.

    A fé na presença real de Cristo na Sagrada Eucaristia levou à devoção a Jesus Sacramentado também fora da Missa. Nos primeiros séculos da Igreja, começaram a conservar-se as Sagradas Espécies para se poder ministrar a comunhão aos doentes e aos que, por terem confessado a sua fé, se encontravam nas prisões à espera de serem martirizados. Com o passar do tempo, a fé e o amor dos fiéis enriqueceram a devoção pelo Corpo do Senhor e levaram a tratá-lo com a máxima reverência e a dar-lhe culto público. Desta veneração temos muitos testemunhos nos mais antigos documentos da Igreja, e foi ela que deu origem à festa que hoje celebramos.

    O amor à Eucaristia pode manifestar-se de muitas maneiras: é a bênção com o Santíssimo, é a oração diante de Jesus Sacramentado, são as genuflexões feitas como verdadeiros atos de fé e de adoração… E dentre essas devoções e formas de culto “merece especial menção a solenidade do Corpus Christi, como ato público tributado a Cristo presente na Eucaristia [...]. A Igreja e o mundo têm uma grande necessidade do culto eucarístico. Jesus espera-nos neste sacramento do amor. Não regateemos o nosso tempo para ir encontrá-lo na adoração, na contemplação cheia de fé e desejosa de reparar as graves faltas e delitos do mundo. Não cesse nunca a nossa adoração”

    O dia de hoje deve estar especialmente cheio de atos de fé e de amor a Jesus Sacramentado. Se participarmos da procissão, acompanhando Jesus, deveremos fazê-lo como aquele povo simples que, cheio de alegria, ia atrás do Mestre nos dias da sua vida na terra, manifestando-lhe espontaneamente as suas necessidades e dores, como também a felicidade de estarem com Ele. Se o virmos passar pela rua, exposto no ostensório, dar-lhe-emos a saber do íntimo do coração tudo o que representa para nós… “Adoremo-lo com reverência e com devoção; renovemos na sua presença o oferecimento sincero do nosso amor; digamos-lhe sem medo que o amamos; agradeçamos-lhe esta prova diária de misericórdia, tão cheia de ternura, e fomentemos o desejo de nos aproximarmos da Comunhão com confiança. Eu me surpreendo diante desse mistério de amor: o Senhor procura como trono o meu pobre coração, para não me abandonar se eu não me afasto dEle”. Nesse trono, que é o nosso coração, Jesus está mais alegre do que no mais esplêndido ostensório.

    Fonte: http://www.hablarcondios.org/meditacaodiaria.asp


    “O pão que eu vou dar, é minha carne pela vida do mundo”

    May 22nd, 2008

    Dt 8,2-3.14-16:

    « 2. Lembra-te de todo o caminho por onde o Senhor te conduziu durante esses quarenta anos no deserto, para humilhar-te e provar-te, e para conhecer os sentimentos de teu coração, e saber se observarias ou não os seus mandamentos. 3. Humilhou-te com a fome; deu-te por sustento o maná, que não conhecias nem tinham conhecido os teus pais, para ensinar-te que o homem não vive só de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor. 14. o teu coração se eleve, e te esqueças do Senhor, teu Deus, que te tirou do Egito, da casa da servidão. 15. Foi ele o teu guia neste vasto e terrível deserto, cheio de serpentes ardentes e escorpiões, terra árida e sem água, onde fez jorrar para ti água do rochedo duríssimo; 16. foi ele quem te alimentou no deserto com um maná desconhecido de teus pais, para humilhar-te e provar-te, a fim de te fazer o bem depois disso.»

    Sl 147,12-15.19-20:

    “Glorifica o Senhor, Jerusalém”

    1Cor 10,16-17:

    « 16. O cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão, que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo? 17. Uma vez que há um único pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos nós comungamos do mesmo pão. »

    Jo 6,51-59:

    « 51. Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo. 52. A essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne? 53. Então Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos.

    54. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. 55. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. 56. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. 57. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim. 58. Este é o pão que desceu do céu. Não como o maná que vossos pais comeram e morreram. Quem come deste pão viverá eternamente. 59. Tal foi o ensinamento de Jesus na sinagoga de Cafarnaum ».

    Na sinagoga de Cafarnaum o Senhor Jesus faz uma afirmação tremenda: « Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo».

    Pelo contexto sabemos que fazia referência clara e direta ao maná com que Deus alimentou seu povo pelo deserto em seu caminho à terra prometida. É o que lemos na primeira leitura. Moisés convida o povo de Israel a recordar como Deus tinha conduzido seu povo pelo deserto da purificação, provendo-lhe sempre a água e o alimento necessário para sua subsistência. Naquele período fez “chover pão do céu” para mostrar ao seu povo que «o homem não vive só de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor.» (Dt 8,3).

    Aquele pão era apenas uma prefiguração de outro pão que Deus daria a todo aquele que queria alcançar a vida eterna. O Senhor Jesus anuncia que Ele é esse novo «pão baixado do céu» (Jo 6,58) e junto com a similitude estabelece também uma diferença substancial entre um e outro pão enviado por Deus. Diferente do maná, um alimento inerte que servia para sustentar a vida física de quem dele comesse, o Senhor afirma que Ele é o pão vivo ou pão vivente, um pão que em si mesmo é vida. Já em outras circunstâncias o Senhor afirma que Ele mesmo é a vida (Jo 14,6). Transformando-se em pão para ser comido pelo homem chega a ser pão que dá vida a todo aquele que o comer: « Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim» (Jo 6,57).

    É claro que o Senhor não diz que quem comer deste pão não morrerá na vida presente. A vida a que se refere o Senhor é a vida eterna, a vida ressuscitada que Ele garante a todo aquele que, no peregrinar desta vida, permanece em comunhão com Ele ao comer sua carne e beber seu sangue: «Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia». Quem resiste a comer sua carne e beber seu sangue, priva-se a si mesmo desta vida que Ele oferece, vida que só Deus pode dar ao ser humano, vida que se prolongará por toda a eternidade na plenitude da felicidade: « se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos».

    A afirmação do Senhor causou estupor entre quem o ouvia: « Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne? » Comer carne humana? Comer a carne de Cristo? Como isto é possível? Não terei que entender de modo figurativo aquelas palavras? Mas como?

    Entretanto, nem os desconcertados discípulos nem outros estupefatos ouvintes escutam uma explicação ou mitigação de tal afirmação. Ao contrário, o Senhor reafirma vigorosamente suas palavras, dando a entender que devem ser compreendidas de maneira literal: «Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos» (Jo 6,53).

    Em sua resposta o Senhor acrescenta já não só a necessidade de comer sua carne mas também de beber seu sangue, tornando mais difícil ainda para os judeus aceitar as palavras do Mestre. Com efeito, para os judeus o sangue continha a vida que só pertence a Deus, e por isso mesmo tinham proibido beber qualquer sangue. O desconcerto diante das primeiras palavras, que até esse momento talvez pudessem ter uma interpretação simbólica, passa à repugnância total que inclusive muitos de seus discípulos e seguidores experimentaram diante da dureza de tais afirmações: «Desde então, muitos dos seus discípulos se retiraram e já não andavam com ele. » (Jo 6,66).

    Assim, não se pode entender que se trate de uma comida puramente espiritual, na qual as expressões «comer a carne» de Cristo e «beber seu sangue», teriam um sentido metafórico. Não. Suas palavras querem dizer o que dizem. O pão que Ele dará é sua carne, a bebida que Ele dará é seu sangue, porque «minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida» (Jo 6,55). Ele não estava disposto a mudar ou matizar nenhuma de suas afirmações. Quem queria continuar sendo seu discípulo devia aceitar suas palavras por mais duras que fossem. É por isso que mesmo aos seus apóstolos pergunta: «Quereis vós também retirar-vos? » ( Jo 6,67).

    É importante ter em conta que a expressão “corpo e sangue” é um semitismo que expressa a totalidade da pessoa. Portanto, ao dizer que dará de comer seu corpo e beber seu sangue, o Senhor Jesus afirma que não é “simplesmente” um pedaço de carne ou um pouco de sangue o que dará, mas sim se dará a Si mesmo, integralmente, em toda a sua Pessoa.

    Só na noite da Última Ceia os discípulos compreenderiam que a literalidade da afirmação do Senhor não consistia em cortar-se em pedaços para lhes dar de comer sua carne ou cortar suas veias para lhes dar de beber seu sangue, mas sim eram um anúncio do grande milagre da Eucaristia. A Eucaristia é uma atualização incruenta do sacrifício cruento do Senhor na Cruz, Altar no qual Ele realmente ofereceu seu corpo e derramou seu sangue «para a vida do mundo», para reconciliar os homens com Deus.

    Essa carne e sangue oferecidos no Altar da Cruz se convertem em verdadeira comida e bebida cada vez que um sacerdote, fazendo memória da Última Ceia e em representação de Cristo, realiza o que Ele mesmo realizou naquela memorável noite: «Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: “Tomai e comei, isto é meu corpo.” Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: “Bebei dele todos, porque isto é meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados”. » (Mt 26,26-28).

    A Eucaristia é precisamente o Corpo e o Sangue de Cristo, Cristo verdadeira e realmente presente, todo Ele, sob o véu e a aparência do pão e do vinho. Uma vez consagrados o pão e o vinho, transformaram-se substancialmente em Corpo e Sangue de Cristo. Esta é a comida e a bebida que transforma a vida do homem e lhe abre o horizonte da participação na vida eterna. Ao comungar o Pão eucarístico, o crente come verdadeiramente o Corpo e bebe o Sangue de Cristo, quer dizer, recebe a Cristo mesmo e entra em comunhão com Ele. Desse modo Cristo, morto e ressuscitado, é para o crente Pão de Vida.

    A Eucaristia, visto que nos une intimamente a Cristo pela recepção de seu Corpo e Sangue, foi sempre considerada, na tradição da Igreja, como sacramento por excelência da unidade entre os crentes: «Uma vez que há um único pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos nós comungamos do mesmo pão.» (2ª. leitura). Quem come deste Pão, faz-se um com Cristo e, nEle, com todos aqueles que participam deste mesmo Pão.

    Reflexão:

    Ensaiemos um questionamento que poderiam lançar os que não acreditam na presença de Cristo na Eucaristia aos católicos de hoje: «Se vocês afirmam e sustentam que esse pão consagrado que adoram é Cristo, Deus que há dois mil anos se encarnou em uma Virgem, nasceu de parto virginal, anunciou a salvação a todos os homens e por amor se deixou cravar como um malfeitor em uma Cruz; se sustentam e afirmam que Ele ressuscitou ao terceiro dia e subiu aos céus para sentar-se à direita do Pai, e que o que agora adoram é esse mesmo Deus-feito-homem que morreu e ressuscitou, em seu Corpo e em seu Sangue, então porquê sua vida reflete tão insuficientemente isso que dizem acreditar? Quantos de vocês vivem como nós? Apesar de irem à Missa aos Domingos e comungarem quando e quanto podem, mesmo sem se confessar, na vida cotidiana vocês esquecem o seu Deus e se prostram diante dos nossos ídolos do dinheiro e das riquezas, dos prazeres e das vaidades, do poder e do domínio, impacientam-se com tanta facilidade e maltratam os seus semelhantes, deixam-se levar por ódios e se negam a perdoar a quem os ofende, opõem-se aos ensinamentos da Igreja que não lhes agradam, inclusive tornam a vida de seus filhos impossíveis quando —questionando sua mediocridade com a generosidade deles— querem seguir o Senhor com “demasiado fanatismo”… Vivem assim e afirmam que Deus está na Hóstia? Por que acreditar no que afirmam, se com sua conduta negam o que com seus lábios ensinam? Bem se poderia dizer a vocês a reprovação que Deus faz a Israel, por meio de seu profeta Isaías: “Este povo somente me honra com os lábios; seu coração, porém, está longe de mim. Vão é o culto que me prestam” (Mt 15,8-9)».

    Este duro questionamento é também um convite a perguntar a mim mesmo: Desejo que o encontro com o Senhor, verdadeiramente presente na Eucaristia, toque e transforme minha existência? Nutrido do Senhor, de seu amor e de sua graça, procuro que minha vida inteira, pensamentos, sentimentos e atitudes, seja um fiel reflexo da Presença de Cristo em mim? Encontro em cada Comunhão ou visita ao Senhor no Santíssimo Sacramento um impulso para refletir o Senhor Jesus em minha vida, com uma conduta virtuosa, para viver mais a caridade, para rechaçar com mais firmeza e radicalidade o mal e a tentação, para anunciar o Senhor e seu Evangelho?

    Se verdadeiramente acredito que o Senhor está presente na Eucaristia e que se dá para mim em seu próprio Corpo e Sangue para ser meu alimento, posso depois de comungar continuar sendo o mesmo, a mesma? Não tenho que mudar, e fortalecido por sua presença em mim, procurar me assemelhar mais a Ele em toda a minha conduta? O autêntico encontro com o Senhor necessariamente produz uma mudança, uma transformação interior, um crescimento no amor, leva a nos assemelharmos cada vez mais a Ele em todos os nossos pensamentos, sentimentos e atitudes. Se isso não acontecer, minha Comunhão mais que um verdadeiro Encontro com Cristo, é uma mentira, uma brincadeira, um desprezo Àquele que novamente se entrega para mim totalmente no sacramento da Comunhão.

    Experimento essa forte necessidade e impulso da graça que me convida a refletir o Senhor Jesus com toda a minha conduta cada vez que O recebo na Comunhão, cada vez que me encontro com Ele e O adoro no Santíssimo Sacramento? Se reconheço o Senhor realmente presente na Eucaristia, devo refletir em minha conduta diária o Senhor a quem adoro, a quem recebo, a quem levo dentro de mim. Só assim muitos mais acreditarão neste Milagre de Amor que o Senhor nos deu de presente.

    Conscientes de que é mesmo o Senhor Jesus que está ali, no Tabernáculo, por nós, não deixemos de sair ao encontro, renovadamente maravilhados, do doce Jesus que nos espera no Santíssimo. As visitas ao Santíssimo são uma singular ocasião para estar junto do Senhor Jesus, realmente presente no Sacrário, deixando-nos ver e abrindo os olhos do coração a Ele, escutando-O no sussurro silencioso de seu falar e fazendo-lhe saber o que estamos vivendo, o que necessitamos, e o que agradecemos.

    Fonte: http://www.ducinaltum.info/diesdomini/

    Tradução: Movimento de Vida Cristã